André Gonçalves
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O coração de Rita Hayowrth anda um tanto acelerado: uma extrassístole levemente alucinada deixa a moça sorrindo pelos cantos. Isso ocorre com alguma frequência e nessas horas ela finge que não é com ela, mas desta vez Rita Hayworth tranca a porta, fecha os olhos, respira fundo e logo já está desembarcando em Paris, levando nas mãos apenas o pequeno coração palpitante. Hoje Rita Hayworth está particularmente confiante. Ela ergue os braços e aponta o coração para o sol, pálido, mas suficiente. O coração de Rita Hayworth começa a piscar, indicando para a moça o caminho a ser seguido. Cada passo de Rita Hayworth faz o coração piscar mais rápido, e um pouco mais, e mais um passo e o coração pisca ainda mais rápido. Rita Hayworth atravessa toda a Paris e causa algum estranhamento. Até que a dois passos de Pigalle o coração de Rita Hayworth se acende por inteiro e brilha tão intensamente que ilumina dois quarteirões inteiros da Frochot. Rita Hayworth olha para os lados e o coração parece lhe querer voltar pela boca. A moça vê a casa número 1 e pensa: “O número um de todos os amores desse mundo está aqui”. Mais uma vez Rita Hayworth fecha os olhos e suspira, e assim Rita Hayworth já está dentro da pequena casa. O coração de Rita Hayworth, é bom que se saiba, não diferencia x de y, como qualquer coração que se preze deveria fazer. Há uma voz que canta. A voz abraça Rita Hayworth, que tem agora o coração batendo novamente dentro peito e no ritmo que ela sempre achou o melhor de todos. A voz se insinua lentamente, e Rita Hayworth está feliz como nunca quando a voz morde delicadamente seu lábio inferior, e mais feliz ainda quando a voz entra suavemente por todos os poros já então completamente livres de qualquer cobertura, e infinitamente feliz quando sente o cheiro da voz e percebe que a voz tem cheiro de grama úmida em manhã de inverno. Rita Hayworth entende nesse momento todo o sentido da frase que tatuou há nove anos na coxa esquerda: “Let the seasons begin, it rolls right on, let the seasons begin, take the big king down”. E dorme, profundamente.

São tantas emoções

O coração é uma parte do corpo que requer bastante cuidado, sob o risco de ele parar e, de repente, recebermos a visita incômoda da “indesejada das gentes”, como diria Manuel Bandeira. E o pior, sem termos realizado um montão de sonhos e concluído algumas travessias essenciais. Daí a recomendação médica para evitarmos fortes emoções, como se tivéssemos controle total das circunstâncias que envolvem o grande espetáculo da vida. Ainda mais no tocante a atividades culturais que mexem, independente de nossa vontade, com sentimentos profundos da alma.  Foi o que aconteceu comigo nos últimos dias, em Teresina, quando me vi tomado de grandes sensações, daquelas que tornam a existência algo prazeroso – a ponto de achar que renascemos melhor ao ser tocado pela linguagem envolvente da poesia.

Foto: Irakerly Filho.

Foto: Irakerly Filho.

Assistir Bibi Ferreira em show no 4 de Setembro, durante as comemorações dos 122 anos do nosso teatro, foi simplesmente inesquecível, de fazer o coração da gente pular de tanta alegria, pouco importando o perigo de um ataque fulminante. Aos 94 anos, ela está mais brilhante do que nunca, cantando com paixão e leveza, talvez retribuindo o carinho que tem recebido do público brasileiro ao longo desses 75 anos de carreira, quer como intérprete ou atriz. Por quase duas horas, Bibi soltou a belíssima voz pelos clássicos de Frank Sinatra, resgatando as várias fases do repertório musical do talentoso artista norte-americano, incluindo as parcerias com Tom Jobim, mestre que o levou a gostar dos acordes refinados da Bossa Nova. E o mais interessante, a trajetória de Sinatra tecida com picardia e humor por Nílson Raman e ela. Para completar, ainda encarna no final do espetáculo, levando a plateia ao delírio, a magistral Edith Piaf em “Ne me quitte pas”.

Sônia Braga em Aquarius

Sônia Braga em Aquarius

Outro momento de pura emoção foi ver Sônia Braga, mais sublime que nunca, atuando em Aquarius, filme de Kleber Mendonça Filho no qual interpreta magistralmente a jornalista aposentada e escritora Clara, uma vítima rebelde da especulação imobiliária de Recife. Viúva e morando sozinha, embora tenha três filhos, ela decide enfrentar os que insistem em “algarismar os amanhãs”, pouco ligando para as relações de afetividade que inquilinos mantêm uns com os outros, com o prédio ondem moram e a cidade em que vivem.  Com trilha sonora e fotografia impecáveis, além de roteiro convincente, Sônia Braga encarna com desenvoltura a personagem criada especialmente para ela, emergindo do limbo com poeticidade e ocupando seu lugar de direito como uma das eternas divas do cinema nacional. Filme para assistir e guardar num cantinho especial da memória, independente das polêmicas surgidas desde sua exibição no Festival de Cannes.

Marcelino Freire

Marcelino Freire

E nesta segunda à noite, quase dando um treco, mediei o bate-papo “Os dois cantos da literatura” com Marcelino Freire, escritor pernambucano radicado em São Paulo. O convite partiu do Sesc/PI e, bastante feliz, topei na hora. Além de admirador de sua obra, somos amigos desde 2012, quando o trouxe a Teresina para palestrar no Salipi, nascendo daí uma amizade que perdura até hoje. Nesse mesmo ano, ele me levou para lançar meu livro de crônicas, O dia em que quase namorei a Xuxa, na Balada Literária de São Paulo, evento cultural dos mais importantes do país que ocorre anualmente em Sampa – produzido pelo ilustre filho de Sertânia e realizado pela Livraria da Vila.  Ganhador do Prêmio Jabuti de 2006 com o livro Contos negreiros, Marcelino é um mestre das narrativas breves e um encantador de plateias com suas conversas envolventes e bem humoradas.  Daqui sigo com ele para Oeiras (15) e Parnaíba (19) a fim de continuarmos esse importante trabalho de incentivo à leitura e à escrita.

Até o fim

Preciso, a todo momento, provar a mim mesmo que não há nada a temer. Que sou forte e tenho a alma animal. Vivi tantos anos (décadas) sendo desvalorizado, minimizado, que careço de me convencer, a cada desafio, que sou capaz de encarar e mesmo que tenha dúvidas, enfio os peitos. Quebro a cara constantemente, é preciso dizer. Mas, na minha idade e com minha experiência de vida, tenho afinado minha sensibilidade e aprendido a amenizar esses prejuízos. Então jamais me machuco excessivamente. Bem, não até agora; como futuro é um conjunto de instantes vividos, até lá então pode acontecer. Estou procurando me manter preparado para o pior também, embora lute desesperadamente pelo melhor. Ainda sou desses idiotas que acredita que é possível ser feliz, e mesmo que for infeliz, ainda assim vale a pena.

Às vezes a substância líquida e insossa da vida me assusta. Não sei mais se sou um homem tecendo minha vida, ou é o artesanato da vida me entrelaçando em seus fios tênues. Conheci, a tempos atrás, um grupo enorme de jovens no bairro encostado ao que moro. Conhecer pessoas hoje é meu grande barato. Aos poucos, fui conquistando confiança e amizade. A princípio, eu era uma grande curiosidade para eles. A criminalização dos jovens na periferia dos grandes centros é um processo lento, mas progressivo. A luta para conseguir um emprego é de foice no escuro, por mais chavão soe. Não há trabalho para quem ingressa no mercado de trabalho agora. Claro, sempre há o “quebra-galho”, o “bico”, e é disso que eles vivem.

O “beck” sempre aparecia, era inevitável. É quando, ali unidos na roda de amigos e iguais, amortecem suas tristezas, preocupações, frustrações e se divertem entre si. Quase todos se conhecem desde crianças. As meninas, quase todas, já são mães, e algumas de mais de um ou dois filhos. Brincam, namoram entre crianças e adultos, perdida que foi a adolescência. Andam, notívagos, pelos bairros circunvizinhos, em busca de outros grupos de jovens. Quando se encontram, é festa. Beijos, abraços e fortes apertos de mão. Ninguém tem nenhum tostão no bolso, mas o “beck” aparece como que por encanto. Sei como, por isso falo em criminalização do jovem da periferia. Vaguei com eles algumas noites insones.

O mundo ameaçava me engolir pelos seus excessos. TV, rádio, jornais e revistas viviam me procurando para entrevistas. Aquilo me desfocava, causando angústia. Uma palavra mal colocada poderia causar estragos. Enquanto isso as prisões tremiam, rebeladas e meu coração ficava pequeno. Às vezes surgia sensação de estar lá dentro, esperando a PM entrar dando tiros ou batendo. E eles viriam em busca de retaliação. Supostamente, o PCC havia liberado matança a policiais e carcereiros. A polícia, por sua vez, estava matando mais que a peste negra aqui fora. A guerra me deixava sem saber o que pensar. Será que todo mundo havia enlouquecido? As ruas desertas me comunicavam pânico. Aquilo parecia quando ia morrer alguém assassinado na prisão. O clima da morte encharcava todos de gravidade. Quase ninguém falava e todos tensos.

Então uma das garotas se aproximou mais de mim. Sua intenção era me pedir que ajudasse sua amiga. Eu a conhecia e não havia percebido. A garota estava no olho do furacão, como eu estive inúmeras vezes. Contou-me com a voz sumida e quase sussurrante. Tinha dois filhos e moravam com

os pais. O pai das crianças estava faltando com a pensão há 3 anos. A mãe queria colocá-la para fora de casa com as crianças. Motivos? Nem sei se há motivos para que pais coloquem suas filhas para fora de casa, sabendo-os com filhos pequenos, grávida, e sem recursos sequer para sobreviver.

Sim, ela gostava da gandaia. Amava sua liberdade. Queria ficar a noite andando com seu grupo de amigos. E, pior, estava grávida. O namorado, ela não sabia se ia querer o filho. Havia até dúvidas quando à paternidade. Havia contado os dias e nem ela tinha absoluta certeza. Sim, era mais uma que me procurava querendo abortar. E agora? O que eu poderia fazer com uma situação tão grave como aquela? Fui tomado por uma compaixão tão grande pelos problemas aquela garota e seus filhos, que ficou insuportável.

Sou pobre, como todo escritor neste país. Vivo do que escrevo. Vendo meus livros, faço palestras quando me convidam, faço Oficinas de Leitura e Escrita, crio projetos educativos, ataco de free lancer com textos para sites, revistas e jornais. Eu me viro. Não dava para driblar a garota, não consigo ser insensível. Só havia uma saída. Eu pagaria o deposito do aluguel da casa que ela e as crianças careciam. Compraria fogão, camas, colchão e mantimentos para um mês. Mais fácil (e mais barato) seria pagar o aborto, mas reverencio a vida, como Albert Schweitzer. Seria um sacrifício. Precisava comprar roupa de verão para meus filhos, fiquei preocupado que o dinheiro não desse. Mas não consegui ficar indiferente e muito menos omisso diante a gravidade dos fatos. Compreendo a morte, mas o nascimento e a vida estão além da minha capacidade de compreender, então lido com fatos e efeitos.

Esse tempo passou, como tudo na vida. A pressão sobre mim foi se escoando e voltei a viver na bendita obscuridade novamente. As pessoas não queriam acreditar, mas o que aconteceu na semana de terror em São Paulo era previsível, e muitos alertaram, inclusive eu. A bomba que foi jogada ao ar, não sairia do casulo para virar borboleta e sair voando para longe, com certeza. Continuava lagarta e cairia, como caiu, e explodiu com toda sua intensidade.

Logo depois a garota veio aqui em casa me procurar. Estava feliz. Havia procurado o pai da criança que iria gerar e este acolhera com alegria a notícia. Queria que ela vá morar com ele, junto com seus filhos. Senti alívio. Tirei peso enorme de sobre meus ombros. Sabia que o que iria fazer não se sustentava no tempo. Não tinha condições de arcar com outra família.

Fiquei feliz comigo mesmo sem ter feito nada. Sabia que, mesmo com imensa dificuldade, faria e iria até o fim.

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Luiz Mendes

06/09/2016.

Amor

Tudo parece composto de paz. A vida dorme neste instante, sossegada e pura na madrugada. A noite vai alta e as estrelinhas brilham lá em cima. Eu queria falar de amor. Acordei agora com o coração inteiramente desperto para amar.

Acho que o amor é a mais profunda celebração do relacionamento humano. Expressa uma consciência de que não existimos plenamente sem o outro. Somos parte de um processo que só se completa na união à outra pessoa. No diálogo, que é a manifestação mais lúcida do amor, na acolhida, na busca do entendimento do outro, nos tornamos inteiros, de corpo vivo a dançar na vibração da voz. O indivíduo então, é considerado isoladamente, tem seu espaço de liberdade e de mistério, ao tempo que nos é transparente.

O amor também é ter fé de que as outras pessoas são capazes da impossível lealdade, da irrealizável fidelidade. Acreditarmos na magia, na força transcendente de nossos sentimentos. Que em recebendo nosso amor, nossa confiança, a pessoa ultrapasse toda possibilidade, vença as fronteiras do comum e se constitua nossa esperança de verdade e felicidade. E temos fé porque em nós percebemos a realização desse milagre inteiramente humano de ser, quando apaixonados.

Então amar é tentar o impossível para fazer todo o possível. O impossível esta no tempo a se transformar em possível, e porque não agora? Essa tremenda emoção não pode ser esse pobre tumulto provisório que abala nossos sentidos e endurece ou molha nosso sexo. Antes é uma floração de nós que vive em permanente primavera. Em que toda força de nosso corpo, a energia de nosso sexo e a lógica, a coerência do nosso pensamento estão unidas ao que forma nosso sentimento.

Amar aquele que nos odeia e persegue é aceitar que ele, como nós, seja capaz de libertar-se do ódio, esse inimigo cruel, e ultrapassar-se. Claro, esse é um projeto, não somos capazes ainda, mas não devemos duvidar que verdadeiro. As verdades são simples, como simples foram aqueles que nos as ensinaram.

O amor confirma-se quando se prefere o outro a nós mesmos. Quando preferimos que o outro tenha todo o lucro que a relação conosco possa trazer. Principalmente quando não temos a pretensão de responder a todas as necessidades e esperanças do ser que amamos. Nos julgamos onipotentes quando apaixonados e podemos perder a noção da realidade. É sempre um risco. Amar, em si, é um risco, assim como viver. Um confiar cego, um entregar absoluto e desarmado. Ficamos vulneráveis e fáceis, por isso as desilusões do amor doem tanto.

Amamos quando queremos que o ser a quem devotamos nosso mais profundo sentimento seja primeiro fiel a si mesmo. Mesmo que isso signifique angústia e dor, porque nos desprende de nós na fecundidade que mais nos enriquece. Aquele ser que beijamos tão ternamente, é um ser livre para viver todos seus possíveis, mesmo aqueles que não estão em nós viver.

Tudo, em se amando, é cheio de problemas e engendra crises. Não somos capazes de ter amor se não formos capazes de conquistá-lo na batalha da convivência do dia a dia. Como um ramo de uma árvore, o que sentimos, o que nos move ao outro, não pode ser arrancado pela tempestade da convivência. No que sentimos deve estar a claridade que nos submete o coração e que deve direcionar nossa vida. É sempre preciso exceder nesse tempo, tão longamente quanto sejamos capazes.

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Luiz  Mendes

01/09/2016

Lute como uma mulher

(Por Samária Andrade)

Zoraide lamentou não ter flores. Eu me ofereci pra dividir com ela as que comprei na noite anterior. Era uma forma de retribuir a carona até a Esplanada dos Ministérios no dia do depoimento da presidenta Dilma, aquele que durou 14 horas.

Zoraide não aparenta a idade que tem: 74 anos. Dirige loucamente, estaciona mal, tem pressa de chegar perto do congresso, embora peça sorrindo: “meninas, andem mais devagar, eu tô velha”. Mas quem era aquela mulher com quem conseguimos carona e oferecemos companhia de protesto?

Zoraide foi presa pela ditadura militar em 1970, em Minas Gerais, mesmo período de Dilma. Seu marido, considerado “guerrilheiro” pelo regime, havia fugido. Com filha pequena e imaginando-se fora de perigo, Zoraide ficou. Militares bateram em sua porta e a levaram. Zoraide passou dois anos presa, foi torturada, desencontrou-se do marido e reencontrou um amor do passado que, estudando para ser padre, achou de mais valia deixar o seminário e visitar Zoraide na prisão. Estão juntos até hoje.

Zoraide não gosta de lembrar essas histórias, diz que chora ao ouvir algumas músicas e acha que leva marcas que não vão cicatrizar.

Mas Zoraide quis ir pra rua. Em frente ao Congresso, rever amigos, muitos a cumprimentam. Não é uma estranha na paisagem. Quando, no discurso, Dilma embarga a voz, eu e minha amiga choramos. Zoraide resiste.

Não conseguimos entregar as flores. Há policiamento e não nos deixam aproximar do Senado, o que vai obrigar Zoraide a um longo percurso de volta até o carro.

Na carona de volta, ao descer do carro, deixo parte das flores no banco de trás. Não digo a Zoraide, mas as flores são para ela. Espero que as tenha encontrado e compreendido.

Obrigada, Zoraide. Quando reencontrá-la quero lhe abraçar e falar: nós vamos resistir!