Revestrés

25/11/2021
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Sergia A.

Do caminho

O paraíso é para poucos?

 

Depois de um ano e sete meses de confinamento, devidamente vacinada, reencontrei uma amiga para um café. Eram tantos os assuntos para nossas emoções incontidas que duas horas não foi mais que um instante.  Pandora papers, nuvem de poeira, marco temporal, mortes, queda das redes sociais, prêmio Nobel e toda a pauta do momento pululando entre nossos projetos a serem retomados, para nos questionar: que lugar foi esse onde ancoramos o barco do nosso envelhecer?

É fato que a coisa já desandava antes da pandemia se instalar. No entanto, o vírus nos revelou o horror. Não o desabamento do mundo como imaginávamos a princípio. Mas o horror que se escondia e que saltou aos olhos apesar das máscaras. E por que estamos tão chocadas se, desde quando lutávamos pelas Diretas, já éramos conscientes dos mecanismos que norteiam esta república?

Dizem os sábios que a interatividade gera novas qualidades no comportamento coletivo, assim como no campo da individualidade o reinventar-se e seguir em frente é uma necessidade.

Talvez seja esse o ponto: acreditamos na evolução. Acreditamos que os valores que nos levaram a Eco 92, a estabelecer cotas nas universidades, a eleger uma presidenta, a legalizar uniões homoafetivas estavam internalizados nas gerações que criamos e educamos. Engano. Talvez as nossas crias até tenham compreendido tudo e se tornado pessoas melhores que nós, porém havia uma massa ressentida que no seu covil também criava herdeiros a sua imagem e semelhança. Bastou uma crise econômica para que a vergonha de ser politicamente incorreto se dissipasse e os egos inflados fizessem ninhos na liberdade de expressão (conquistada a duras penas) para expor a sordidez. Ao ponto de se considerar sinal de capacidade para gerir a economia de um país o cidadão que fez fortuna fugindo dos impostos, da regulação financeira e das obrigações de transparência ditadas pelo avanço civilizatório. Ou, médicos se julgarem no direito de fazer experimentos em humanos sem o rigor da ética e da metodologia científica.

A massa ressentida precisava apenas de uma autorização simbólica: ganhar as eleições para o poder central. E depois da conquista não poderia perder para um ser minúsculo que nem vida, propriamente, tem. Um ser que, apesar de invisível, exigia o olhar para o todo. Negar foi solução. E tudo que acompanhamos foi consequência.

A essa altura, devo dizer que minha amiga conjuga o verbo esperançar muito facilmente. Para quebrar a tristeza, ela puxou do celular notícias sobre o Nobel 2021: na física (mais ligada à sua área de atuação) e na literatura (a minha). Syukuro Manabe, Klaus Hasselmann e Giorgio Parisi, pelas contribuições inovadoras para compreensão de sistemas complexos, o que envolve pesquisas sobre meio ambiente e mudanças climáticas. Na Literatura, Abdulrazak Gurnah e suas histórias de migração, nas quais a impermanência e a agitação constante são dadas como certas. Estamos em movimento.

Saí de lá um pouco mais leve. Dizem esses sábios que a interatividade gera novas qualidades no comportamento coletivo, assim como no campo da individualidade o reinventar-se e seguir em frente é uma necessidade. A academia manda um recado. Ou, em melhor rearranjo de palavras: não estamos sós. Acende-se uma chama.

***

Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos (Quimera, 2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana (EDUFPI/Avant Garde, 2018); Conexões Atlânticas (Infinita – Lisboa, 2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras (ABR Editora, 2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos (Patuá, 2018).

Elas em mim

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
(Cora Coralina)

 

 

Cora Coralina, Florbela Espanca ou Frida Khalo?

A pergunta veio em meio a uma live. O tema: as múltiplas escritas femininas, a partir da minha produção literária. A provocação me pegou de surpresa e eu perguntei de volta: posso ser uma mistura das três? Em seguida falei muito superficialmente sobre cada uma, repetindo que sou um pouco de cada. Mas são mulheres bem diferentes! – o entrevistador repete.

Fiquei com os nomes dessas mulheres martelando na minha cabeça. Sem querer ele me dava um mote para este texto.

Sim, concordo. São diferentes. Somos diversas. Estilos diferentes. Espaços diferentes. Vivências diferentes. Todavia há um traço comum entre as três: por vinte e três anos, elas dividiram o mesmo tempo aqui na Terra. Se uma tinha conhecimento da outra, eu não sei. Apenas sei que o tempo era de sofrimento entre tentativas de uma existência plena.

Pensando primeiro em Cora Coralina, a de data de nascimento mais antiga (1889-1985) contudo a mais longeva. Das três, a única cuja vida alcançou meus dias embora na década de 1980 eu ainda não tivesse me dado conta de que escrever era o meu destino. A própria Cora Coralina se fez abrigo para todas as mulheres em seu célebre poema Todas as Vidas, oferecendo um amparo neste pensar. Temos em comum, além da nacionalidade e da origem provinciana, a tardia possibilidade de publicação. Não de escrita ou de textos soltos em jornais. Falo de livros. Ela limitada pelas convenções do seu tempo e pela constante necessidade de transgressão, o que a une a Florbela e Frida. Eu pelos conflitos internos e com um mundo que deu à mulher a oportunidade de independência econômica, talvez por necessidade do sistema, mas manteve firme a cobrança dos papéis sociais estabelecidos por uma sociedade patriarcal.

Em seguida vem a portuguesa Florbela Espanca (1894-1930), por muitos definida como “mais coração”, pela criação de um eu-lírico arrebatado por sentimentos profundos e uma poesia marcada por intenso conteúdo emocional. Viver além-mar não evitou que ela pagasse muito caro pela ousadia de buscar a liberdade. O poema Eu, publicado no Livro de Mágoas (1919) já anunciava: Sou a crucificada… a dolorida… (…) Sombra de névoa ténue e esvaecida/E que o destino amargo, triste e forte, /Impele brutalmente para a morte!”.  Muito cedo se foi. Vencida, talvez, pela hostilidade do mundo. Por volta do mesmo tempo em que seus livros póstumos são publicados, Cora vendia livros dos outros, fazia doces e ganhava na viuvez a liberdade; e Frida, com sérias sequelas de um acidente, casava-se com o pintor Diego Rivera e se frustrava na tentativa de ser mãe.

Chegamos, então, à cultuada mexicana (1907-1954) que tinha na pintura surrealista sua forte expressão. Contrariando a crítica insistia que suas telas não retratavam sonhos, mas a sua própria realidade. Presa a uma cama, repetia: Para que preciso de pés quando tenho asas para voar? O corpo aprisionado pela dor não a impediu de usá-lo a favor do que povoava a sua alma, enfatizando a autonomia sobre essa estrutura que apesar de frágil lhe pertencia. Ainda em vida viu o reconhecimento de sua obra, mas não o mesmo entusiasmo devotado à obra de Diego. Depois de sua morte, ele diria emocionado que ela era poesia e a própria genialidade. Viveu um pouco mais que Florbela, mas também teve sua vida encurtada. A transgressão pode ser vista como ponto unificador de suas vidas, no entanto é a arte produzida que revela em ambas o tom visceral.

Não percebo em mim a transgressora de costumes, apesar de sentir repugnância pela palavra “recatada” como qualificação para mulheres. Sou filha da minha época. Somos todas, mesmo as que não se assumem como feministas por equívocos na compreensão do termo, herdeiras das lutas, artes e coragem das que vieram antes de nós. Reafirmo agora com mais convicção o que respondi intuitivamente e ouso ampliar o entendimento: sim, carregamos um pouco de cada uma dessas mulheres em nós e é nosso dever levá-las às próximas gerações.

 

Operação Iguana

 

Nada me acontece por acaso. Tudo com o tempo se conecta e arranja um jeito de se justificar. Ou seria possível também dizer o contrário, que tudo é o acaso e esse acaso apenas me espanta? Bom, mas isso é só um jeito de introduzir a história de uma Iguana no asfalto.

Nos meus textões no Facebook (olha o referencial: para a pressa das redes sociais são textões; para o que costumo ler é quase nada) comentei um dia desses sobre a minha tristeza em não ter representação feminina no parlamento à altura das mulheres da minha terra. O que temos por aqui são corpos femininos, sem autonomia ou firmeza, usados para driblar a lei que garante um mínimo de representatividade. Em pleno 2021, estão lá dando vida a uma tragédia ambiental, sanitária e econômica.

Um dia depois aconteceu o fato que passo a narrar.

Desde março de 2020, eu não dirijo. Meu carro fica lá na garagem até que alguém se candidate a fazê-lo funcionar. Nas poucas vezes que precisei sair de casa o fiz de carona.

Um pouco antes de conseguir me vacinar (primeira dose), minha filha precisou do carro. Emprestei e o recebi de volta brilhante, sem aranhas, sem teias e sem cocô de passarinhos. Depois da vacina, ocasião em que o danado foi usado, ela precisou novamente. Ao chegar ao local de trabalho estacionou em frente à vigilância. Alguns segundos depois foi avisada de que havia um barulho estranho no compartimento do motor. Como se algo lá dentro se movesse insistentemente. Astuto, o vigilante abriu de leve o capô e avistou a ponta de um rabo comprido e esverdeado. Formou-se a confusão.

O telefone toca.

– Mãe, cê está bem? teve alguma reação à vacina?

– Tive febre e uma ligeira indisposição. Mas não virei jacaré.

gargalhamos. Senti certo alívio na voz dela.

– Que bom! A senhora não usa o carro, os bichos estão tomando conta!

Desligou e eu fiquei sem entender até receber fotos e um vídeo comprovando o dito.

Diante da minha resposta, ela resolveu chamar a polícia ambiental. Chegaram os homens corajosos e que sabem lidar com a situação. Na primeira olhada, o comandante gritou para seus ajudantes:

– Operação Iguana!

Pronto. Com muito cuidado a bichinha assustada foi colocada em uma caixa apropriada e levada daquele lugar inóspito para exercer a sua missão onde lhe é mais apropriado.

Mas o que isso tem a ver com a introdução?

Tem que uma Iguana, que nada entende de carros, sem nenhum compromisso com o funcionamento de motores, por lá se acomodou por puro oportunismo.  Da mesma forma que as mulheres sem compromisso com a população do meu Estado se apropriam dos lugares no parlamento pela inércia das demais (das que tem inteligência, conhecimento, competência e talento para a política e das muitas que não sabem diferenciar essas das primeiras na hora de votar).

Eis o recado das iguanas.

 

(Foto de Alexis Antonio, cedida gratuitamente por Unsplash License, a quem agradeço)

Carta do Reino da Terra do Poço sem Fundo

 

Caros amigos,

Trago notícias de um reino distante. Perdido entre a idade média e a pré-história, alternando-se entre valores que remontam à pedra lascada e às adversidades do século XXI. É difícil situar no que conhecemos como História, uma vez que parte do seu povo é adepta de uma estranha seita que nega o tempo e os avanços da humanidade embora use muita tecnologia. Outra parte está sintonizada com os conhecimentos da ciência e da civilização. A última parece ser maioria, mas estranhamente se submete ao governo da primeira.

Devo dizer que por lá o tempo também é apressado. Perdi-me em seus labirintos e quando dei por mim estava no quinto mês do terceiro ano em que ele se instalou e do segundo em que a peste por lá se abateu. Confesso: os labirintos do Reino de onde venho são intermináveis, pegajosos, sugadores de pensamento e coragem. No entanto, hoje consegui me desvencilhar. Estou aqui para enxugar lágrimas e falar de um fio daquele sentimento que parece ser mais teimoso do que triste.

Primeiro a dor, sou do tipo que deixa o melhor pedaço para a última garfada por mais sem lógica que isso possa parecer. Lá no Reino, apesar das profundezas, a luz do sol ainda bate na janela e o Wi-Fi funciona.  O difícil mesmo é abrir o olho quando a fresta de luz atravessa a persiana e os grupos de WhatsApp pipocam notícias do amigo entubado, da tia ou mãe que não resistiu compondo as vergonhosas 400 mil vítimas da peste. Haja repertório para emojis de tristeza e notas de solidariedade. Sem falar do constrangimento de agradecer diariamente por ter a si e os seus a salvo. Mais difícil ainda para quem, como eu, não usa referências religiosas comuns naquelas terras. Além de não ter prática, tenho dificuldade em entender um pai que escolhe qual filho merece proteção. A palavra desígnios há muito se perdeu do meu vocabulário, porém por lá se ouve muito que existe um deus no controle. Aceito de melhor grado a exaltação de um trecho do seu livro sagrado que diz “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”

A TV também funciona direitinho. As telas estampam, além das covas e cruzes, a morte das florestas e de ampla diversidade que dela sobrevive. Muitos números e análises vazias. Ou que não repercutem como deveriam. Aqui já não se sabe se o problema está no modelo que de tanto se repetir esgotou, na estranha surdez imposta pela seita ou no abatimento dos que não fazem parte dela. O certo é que o cinismo e a mentira dão o tom e colocam a todos em risco.

O espantoso é que a população do Reino está consciente de que o tal vírus que causa a peste é super frágil. Do tipo que morre com água e sabão. Sabe que é o corpo humano que o fortalece e dissemina e uma vez fortalecido não há remédio que o derrube, a não ser a reação do próprio corpo. Aí entra a estranheza do comportamento dito novo normal no Reino. Para não ser vista como covarde pelo Rei, uma faixa da população que minha avó chamaria de meia-carga (que se julga rica por ter uma casa, um carro) se oferece em sacrifício por amor à pátria. Faz festa, passeia e dispensa equipamentos de proteção invocando o artigo quinto da Constituição. Há também outra classe que se submete ao sacrifício: a dos pequenos empreendedores. Uma nova espécie de escravatura, em que o escravo é levado a crer que é livre. Sem questionar direitos, são os heróis da nação.

Para não mais me alongar, vamos ao fio de sentimento teimoso que escorreu pelas janelas por esses dias. Não sei se já podemos chamar esperança. Chegaram, por fim, as vacinas para grupos de idosos. Uma antiga estrutura chamada SUS, que milagrosamente ainda se mantém de pé, tem dado conta da enorme tarefa. Além disso, o Senado do Reino está investigando os desmandos do Rei. Esse e sua tropa de choque estão em desespero.

Espero que no próximo desvencilhar dos labirintos, as notícias sejam mais animadoras. Penso que o sentimento me pegou de jeito.

Até.

(imagem: Pixabay License, gratuitamente cedida)

A solidão do martelo

 

Fevereiro chegou gritando que já era tempo de voltar a ocupar este espaço. Passada a ilusão de uma vida nova para o ano novo, é tempo de olhar para o mês que já se foi tentando decifrar o que ele anuncia e, a partir daí, traçar um caminho possível.

A revisão de projetos alimentou minhas primeiras semanas. Sou dispersa. Preciso me ancorar no papel e separar o essencial, ou aquilo que tem possibilidade de se tornar real, deixando um pouquinho de lado o que se balança nas nuvens mais altas. Nestes dias difíceis, refiz a lista de prioridades respondendo a uma pergunta como me foi ensinado por uma estudiosa da tanatologia: se você soubesse que vai morrer amanhã, qual desses projetos não poderia deixar de ser feito? Agora é cumprir.

Um desses projetos é a manutenção do perfil @palavrasde.lirantes no Instagram, que já está no seu quarto ano. Ele cumpre duas funções: a primeira, nasce do prazer de abrir despretensiosamente um livro e ver em um poema o tom do dia; a segunda, levar ao outro uma fonte imediata de poesia, com indicação confiável de autoria, publicação etc.  Pois bem, dias desses fui despertada por Noturno Oprimido de Carlos Drummond de Andrade. Horas depois vejo a imagem do Pe. Júlio Lancellotti, com um grande martelo em punho, tentando sozinho desfazer a insensibilidade concreta dos poderosos da grande metrópole.

Apesar da diferença de tempo (o poema é de 1942), entendi as duas imagens como o mais fiel retrato do Brasil 2021. A água da inundação que molha a nossa noite é espessa, tem odor putrefato e se avoluma sobre nossos corpos. Assim como as estruturas pontiagudas, assentadas sob um viaduto para impedir o descanso dos sem teto, nos trazem o sentimento de algo assombroso, selvagem, típico dos filmes futuristas de horror.

Alheios e ilhados em um planalto, os donos do poder cantam e dançam, em um ritual macabro, sobre os famintos e os cadáveres para aplauso dos autômatos. Repetem inadvertidamente, por negarem a História, a barbárie que antecedeu o ataque a Versalhes e parecia ter sido soterrada pelo Iluminismo no século XVIII.  Estão surdos e cegos, inebriados de poder pelo poder.

Enquanto ecoam no meu peito as marteladas solitárias de um homem que se nega a deixar de ser humano, dou um novo arranjo para as plantas na minha varanda. Descubro que meu cacto miudinho resolveu florescer como quem diz: olha pra mim, sou flor! Penso que deve ser isso o que 2021 anuncia aos que ainda têm ouvidos: o desafio de não perder de vista o que somos.

***

Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos, Editora Quimera (Teresina, 2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana, Editora EDUFPI/Avant Garde (Teresina, 2018); Conexões Atlânticas, Infinita (Lisboa, 2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras ABR Editora (Guarujá, 2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos, Patuá (São Paulo, 2018).

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