Revestrés

17/06/2021
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Sergia A.

Do caminho

Operação Iguana

 

Nada me acontece por acaso. Tudo com o tempo se conecta e arranja um jeito de se justificar. Ou seria possível também dizer o contrário, que tudo é o acaso e esse acaso apenas me espanta? Bom, mas isso é só um jeito de introduzir a história de uma Iguana no asfalto.

Nos meus textões no Facebook (olha o referencial: para a pressa das redes sociais são textões; para o que costumo ler é quase nada) comentei um dia desses sobre a minha tristeza em não ter representação feminina no parlamento à altura das mulheres da minha terra. O que temos por aqui são corpos femininos, sem autonomia ou firmeza, usados para driblar a lei que garante um mínimo de representatividade. Em pleno 2021, estão lá dando vida a uma tragédia ambiental, sanitária e econômica.

Um dia depois aconteceu o fato que passo a narrar.

Desde março de 2020, eu não dirijo. Meu carro fica lá na garagem até que alguém se candidate a fazê-lo funcionar. Nas poucas vezes que precisei sair de casa o fiz de carona.

Um pouco antes de conseguir me vacinar (primeira dose), minha filha precisou do carro. Emprestei e o recebi de volta brilhante, sem aranhas, sem teias e sem cocô de passarinhos. Depois da vacina, ocasião em que o danado foi usado, ela precisou novamente. Ao chegar ao local de trabalho estacionou em frente à vigilância. Alguns segundos depois foi avisada de que havia um barulho estranho no compartimento do motor. Como se algo lá dentro se movesse insistentemente. Astuto, o vigilante abriu de leve o capô e avistou a ponta de um rabo comprido e esverdeado. Formou-se a confusão.

O telefone toca.

– Mãe, cê está bem? teve alguma reação à vacina?

– Tive febre e uma ligeira indisposição. Mas não virei jacaré.

gargalhamos. Senti certo alívio na voz dela.

– Que bom! A senhora não usa o carro, os bichos estão tomando conta!

Desligou e eu fiquei sem entender até receber fotos e um vídeo comprovando o dito.

Diante da minha resposta, ela resolveu chamar a polícia ambiental. Chegaram os homens corajosos e que sabem lidar com a situação. Na primeira olhada, o comandante gritou para seus ajudantes:

– Operação Iguana!

Pronto. Com muito cuidado a bichinha assustada foi colocada em uma caixa apropriada e levada daquele lugar inóspito para exercer a sua missão onde lhe é mais apropriado.

Mas o que isso tem a ver com a introdução?

Tem que uma Iguana, que nada entende de carros, sem nenhum compromisso com o funcionamento de motores, por lá se acomodou por puro oportunismo.  Da mesma forma que as mulheres sem compromisso com a população do meu Estado se apropriam dos lugares no parlamento pela inércia das demais (das que tem inteligência, conhecimento, competência e talento para a política e das muitas que não sabem diferenciar essas das primeiras na hora de votar).

Eis o recado das iguanas.

 

(Foto de Alexis Antonio, cedida gratuitamente por Unsplash License, a quem agradeço)

Carta do Reino da Terra do Poço sem Fundo

 

Caros amigos,

Trago notícias de um reino distante. Perdido entre a idade média e a pré-história, alternando-se entre valores que remontam à pedra lascada e às adversidades do século XXI. É difícil situar no que conhecemos como História, uma vez que parte do seu povo é adepta de uma estranha seita que nega o tempo e os avanços da humanidade embora use muita tecnologia. Outra parte está sintonizada com os conhecimentos da ciência e da civilização. A última parece ser maioria, mas estranhamente se submete ao governo da primeira.

Devo dizer que por lá o tempo também é apressado. Perdi-me em seus labirintos e quando dei por mim estava no quinto mês do terceiro ano em que ele se instalou e do segundo em que a peste por lá se abateu. Confesso: os labirintos do Reino de onde venho são intermináveis, pegajosos, sugadores de pensamento e coragem. No entanto, hoje consegui me desvencilhar. Estou aqui para enxugar lágrimas e falar de um fio daquele sentimento que parece ser mais teimoso do que triste.

Primeiro a dor, sou do tipo que deixa o melhor pedaço para a última garfada por mais sem lógica que isso possa parecer. Lá no Reino, apesar das profundezas, a luz do sol ainda bate na janela e o Wi-Fi funciona.  O difícil mesmo é abrir o olho quando a fresta de luz atravessa a persiana e os grupos de WhatsApp pipocam notícias do amigo entubado, da tia ou mãe que não resistiu compondo as vergonhosas 400 mil vítimas da peste. Haja repertório para emojis de tristeza e notas de solidariedade. Sem falar do constrangimento de agradecer diariamente por ter a si e os seus a salvo. Mais difícil ainda para quem, como eu, não usa referências religiosas comuns naquelas terras. Além de não ter prática, tenho dificuldade em entender um pai que escolhe qual filho merece proteção. A palavra desígnios há muito se perdeu do meu vocabulário, porém por lá se ouve muito que existe um deus no controle. Aceito de melhor grado a exaltação de um trecho do seu livro sagrado que diz “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”

A TV também funciona direitinho. As telas estampam, além das covas e cruzes, a morte das florestas e de ampla diversidade que dela sobrevive. Muitos números e análises vazias. Ou que não repercutem como deveriam. Aqui já não se sabe se o problema está no modelo que de tanto se repetir esgotou, na estranha surdez imposta pela seita ou no abatimento dos que não fazem parte dela. O certo é que o cinismo e a mentira dão o tom e colocam a todos em risco.

O espantoso é que a população do Reino está consciente de que o tal vírus que causa a peste é super frágil. Do tipo que morre com água e sabão. Sabe que é o corpo humano que o fortalece e dissemina e uma vez fortalecido não há remédio que o derrube, a não ser a reação do próprio corpo. Aí entra a estranheza do comportamento dito novo normal no Reino. Para não ser vista como covarde pelo Rei, uma faixa da população que minha avó chamaria de meia-carga (que se julga rica por ter uma casa, um carro) se oferece em sacrifício por amor à pátria. Faz festa, passeia e dispensa equipamentos de proteção invocando o artigo quinto da Constituição. Há também outra classe que se submete ao sacrifício: a dos pequenos empreendedores. Uma nova espécie de escravatura, em que o escravo é levado a crer que é livre. Sem questionar direitos, são os heróis da nação.

Para não mais me alongar, vamos ao fio de sentimento teimoso que escorreu pelas janelas por esses dias. Não sei se já podemos chamar esperança. Chegaram, por fim, as vacinas para grupos de idosos. Uma antiga estrutura chamada SUS, que milagrosamente ainda se mantém de pé, tem dado conta da enorme tarefa. Além disso, o Senado do Reino está investigando os desmandos do Rei. Esse e sua tropa de choque estão em desespero.

Espero que no próximo desvencilhar dos labirintos, as notícias sejam mais animadoras. Penso que o sentimento me pegou de jeito.

Até.

(imagem: Pixabay License, gratuitamente cedida)

A solidão do martelo

 

Fevereiro chegou gritando que já era tempo de voltar a ocupar este espaço. Passada a ilusão de uma vida nova para o ano novo, é tempo de olhar para o mês que já se foi tentando decifrar o que ele anuncia e, a partir daí, traçar um caminho possível.

A revisão de projetos alimentou minhas primeiras semanas. Sou dispersa. Preciso me ancorar no papel e separar o essencial, ou aquilo que tem possibilidade de se tornar real, deixando um pouquinho de lado o que se balança nas nuvens mais altas. Nestes dias difíceis, refiz a lista de prioridades respondendo a uma pergunta como me foi ensinado por uma estudiosa da tanatologia: se você soubesse que vai morrer amanhã, qual desses projetos não poderia deixar de ser feito? Agora é cumprir.

Um desses projetos é a manutenção do perfil @palavrasde.lirantes no Instagram, que já está no seu quarto ano. Ele cumpre duas funções: a primeira, nasce do prazer de abrir despretensiosamente um livro e ver em um poema o tom do dia; a segunda, levar ao outro uma fonte imediata de poesia, com indicação confiável de autoria, publicação etc.  Pois bem, dias desses fui despertada por Noturno Oprimido de Carlos Drummond de Andrade. Horas depois vejo a imagem do Pe. Júlio Lancellotti, com um grande martelo em punho, tentando sozinho desfazer a insensibilidade concreta dos poderosos da grande metrópole.

Apesar da diferença de tempo (o poema é de 1942), entendi as duas imagens como o mais fiel retrato do Brasil 2021. A água da inundação que molha a nossa noite é espessa, tem odor putrefato e se avoluma sobre nossos corpos. Assim como as estruturas pontiagudas, assentadas sob um viaduto para impedir o descanso dos sem teto, nos trazem o sentimento de algo assombroso, selvagem, típico dos filmes futuristas de horror.

Alheios e ilhados em um planalto, os donos do poder cantam e dançam, em um ritual macabro, sobre os famintos e os cadáveres para aplauso dos autômatos. Repetem inadvertidamente, por negarem a História, a barbárie que antecedeu o ataque a Versalhes e parecia ter sido soterrada pelo Iluminismo no século XVIII.  Estão surdos e cegos, inebriados de poder pelo poder.

Enquanto ecoam no meu peito as marteladas solitárias de um homem que se nega a deixar de ser humano, dou um novo arranjo para as plantas na minha varanda. Descubro que meu cacto miudinho resolveu florescer como quem diz: olha pra mim, sou flor! Penso que deve ser isso o que 2021 anuncia aos que ainda têm ouvidos: o desafio de não perder de vista o que somos.

***

Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos, Editora Quimera (Teresina, 2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana, Editora EDUFPI/Avant Garde (Teresina, 2018); Conexões Atlânticas, Infinita (Lisboa, 2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras ABR Editora (Guarujá, 2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos, Patuá (São Paulo, 2018).

Amor

 

Não se trata de anos-luz. São apenas mil e setecentos quilômetros que nos separam ao longo de doze meses. No entanto, aguardamos ansiosas o recesso de Natal. Mais que a celebração religiosa ansiamos pelo reencontro. Pela alegria de abraçar, de ver o crescimento, de sentir na pele o afeto, de dividirmos uma garrafa de vinho em torno de uma mesa farta de sabores adormecidos. Estaríamos juntas, como sempre estivemos. Como sempre? A vida não se repete, sopra o vento. Somos poeira de estrelas, disse o cientista.

Fugindo das aglomerações, ela me chega bem antes da data prevista. Exames negativos, arrisca-se em um voo com todas as precauções. Prendemos os braços às costas com laços de fitas para evitar a involuntariedade dos abraços. Os beijos ficam suspensos no ar entre máscaras. Quartos separados. Dois metros de distância são suficientes para perceber o brilho insistente do olhar. Rimos, brigamos e gritamos uma para a outra. Ouvir sem a interferência tecnológica dos dias normais é desafiador. Política, ração do cachorro, ruídos da distância e a conjunção de Júpiter e Saturno mergulhadas na projeção de imagens da NASA. A música se avoluma e atravessa as paredes do quarto de menina, em uma saudável contaminação. Taças dispostas, segundo uma nova etiqueta, nos avisam que perdeu o sentido o ressoar dos cristais. Saúde!

Como veio, partiu embalada na velocidade impiedosa dos ponteiros. Dias depois, continuamos bem. Gravou-se no meu dicionário particular uma definição. Como nos pratinhos de porcelana da coleção (inspirada nas tirinhas da cartunista neozelandesa Kim Casali) que, junto com os LP, virou brinquedo: amar é… desejar que o outro permaneça vivo. O peito ainda goteja sobre o germinar de uma semente sedenta. Existe amor em 2020.

2021?

O tempo dirá.

 

Crédito da imagem: NASA  (disponível no vídeo What’s Up for December 2020, Instagram oficial)

A adiada enchente

 

Não nasci em Teresina. Cheguei aqui ainda menina e cheia de sonhos. Um tanto aborrecida com a estrada que se encurtara, não me permitindo ir um pouco mais além. Era só o começo de uma relação de amor e ódio que me vê entardecer. Entristecida com esse quinze de novembro, li o poema de Mia Couto. Ele me traz de volta a este espaço que andou esquecido por um tempo. É dele o título.

A cidade me ofereceu muito do que o amor pode oferecer. Estruturei uma vida, edifiquei uma família, criei laços. A cidade me ofereceu a água fresca dos rios e remos. A alegria das chuvas e trovões (o que restou da chapada), seguida da aflição das ruas alagadas. O riso do sol de todos os dias e o incômodo do calor insuportável, da fumaça no horizonte e das mucosas ressecadas. A cidade me ofereceu uma vista de toda a sua extensão e o sufoco de viver no alto, trancada por segurança e sem opção de vida ao ar livre. Logo eu que não vivo sem o ar (meu elemento é o fogo). Muitas vezes precisei voar.

Hoje fujo de mim, para pensar na tristeza que habita onde a vista alcança. A eterna pobreza das periferias. A falta de perspectivas. O completo abandono de metade da sua gente. O futuro negado às novas gerações que ainda tem no desterro a melhor opção. O provincianismo que nos divide e nos enterra entre o cheiro de estrume dos currais da colonização.

Nada é mais triste do que uma espera que se cansa de ser espera. – Sérgia A.

Vi Teresina crescer esmagando seus rios em margens de esgoto, quando a engenharia sanitária já organizava o mundo lá fora. Vi a temperatura adoecer sua gente, anos após anos, sem nenhum projeto de arborização intenso e verdadeiro, quando estudos ambientais já apontavam soluções. Vi suas ruas serem pavimentadas sobre córregos, sem projetos de drenagem ou respeito ao caminho natural das águas. Vi suas avenidas correrem cada vez mais lentas, entupidas de carros e motocicletas, sem que ninguém pensasse em soluções de transporte urbano que funcionam em todos os continentes há décadas. Um ou outro avanço pontual que se perdeu nos anos de repetição.

2020, diziam todos, será um ano de introspecção. Fecham-se as portas. Um vírus nos diz que nossa forma de contato precisa ser revista, que respeito ao lugar do outro é fundamental. O vírus grita muito alto que o indivíduo não estará bem se o coletivo não estiver. E daí? Respondem os egos inflados.

As metrópoles e suas periferias pulsantes deram uma resposta à nefasta agenda em curso. Tanto na questão do amparo social na pandemia quanto nas eleições. É bonito de ver não apenas os nomes que cresceram rumo ao executivo, como também a renovação dos legislativos municipais com representantes das mulheres, dos negros e das minorias. Não podemos esquecer que são esses movimentos que têm nos salvado de pautas reacionárias na área de educação e cultura, ao denunciar projetos como o “Escola sem partido”, outros que traziam insegurança jurídica  ao direito ao aborto legal ou, ainda, os que impunham censura a shows, exposições e manifestações artísticas em geral.

Teresina deu as costas ao sopro dessa brisa leve, decidindo fortalecer o seu provincianismo. Boas candidaturas propuseram um debate sério sobre a cidade, sem nenhuma repercussão. Um sinal de que há algo muito errado na abordagem e nos ouvidos. As urnas revelaram que mulheres pensantes não são bem-vindas. De um lado, o medo de mudança que nos devora há quase quatro décadas. De outro, o pensamento tosco dos que acreditam na falsa generosidade dos bobos. Como se isso fosse pouco, as urnas deram voz a uma terceira via: o conservadorismo associado à teologia da prosperidade, ao negacionismo crítico das medidas radicais necessárias para conter uma crise sanitária sem precedentes. O que há de comum entre os três, além do fato de estarem no campo político da direita?  São defensores anacrônicos da tragédia que o obscurantismo nos trouxe em todas as áreas.

Nada é mais triste do que uma espera que se cansa de ser espera. O meu primeiro voto (há muito tempo) já nascia da necessidade de remar contra a correnteza. De acreditar que uma cidade nordestina, erguida entre rios, precisava apenas de uma mãozinha mais inteligente e comprometida para vir a ser um lugar bom de viver. No entanto, mesmo no período da grande esperança, Teresina fincou pé prendendo-se às estacas dos seus currais.

Vou embora para Passárgada? Não. Não quero ser amiga de nenhum rei.

Feito o riacho que preenchia a minha infância, antes que eu conhecesse os rios, minha teimosa esperança ainda aguarda as cheias que levam vida além das margens. Como sugere Ailton Krenak, conto histórias na tentativa de adiar o fim do mundo. Quero uma cidade em que minhas netas possam viver e fazer escolhas sem as angústias que suas ancestrais atravessaram. É pedir demais?

 

(A imagem do Rio Poti, em Teresina-PI, foi gentilmente cedida pela fotógrafa Maria Dimas Ribeiro Lages)

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