Sergia A.
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A normalização da morte como medida

 

 

 

Por ocasião do fechamento da editora Cosac-Naify, eu aproveitei a liquidação e adquiri títulos cujos preços de suas magníficas edições me impediam até então.  Entre eles, alguns infantis como a tradução de O pato, a morte e a tulipa de Wolf  Erlbruch. Ao ler fiquei tão assustada que escondi na parte alta da estante, bem distante dos livros que minhas netas costumavam acessar à vontade.

O livro é belo, em desenhos e textos. A ilustração é do próprio autor e os diálogos entre o pato e a morte são construídos em linguagem simples, direta e muito rica. No entanto, considerei desafiador demais para minha capacidade de responder às perguntas que brotariam. Não conseguia ver a morte com a naturalidade que o livro apresenta. Tampouco teria coragem de conversar com as crianças sobre o tema sem uma provocação que me obrigasse. Melhor deixar esse assunto para os pais. Essa é uma das coisas boas de ser avó.

Então, qual a razão da escolha desse livro? O assunto me atrai e me assombra. É frequente no que escrevo e por isso também frequente nas minhas pesquisas. Um dia desses, lendo uma psiquiatra especialista no ramo, encontrei uma explicação para o meu pavor e negação de sua naturalidade. Dizia ela que para o inconsciente é impossível imaginar um fim real. O inconsciente tende a nos impulsionar para a vida. O fim é visto como algo externo e é por isso considerado uma intervenção maligna, um acontecimento medonho. Fiquei satisfeita e aliviada por alguns
instantes. A minha negação da morte, ou visão da morte como algo trágico, nasce do meu desejo de viver.

 

Em 2020, o livro desceu para as prateleiras mais baixas. Estamos há dois anos convivendo diariamente com o tema. Não que antes não morressem pessoas todos os dias. É que a pandemia jogou a morte na roda sem subterfúgios.  Não deu para retirar as crianças da sala.

Para mim, a compreensão filosófica da morte como um fato puro tal qual o nascimento – o ciclo da vida na natureza – que está como pano de fundo do O pato é racionalmente palatável. É um norte, é uma justificativa para o aprimoramento do nosso estar no mundo. É o que dá sentido e brilho à vida. No entanto, emocionalmente não é tão simples assim quando temos aqueles olhinhos brilhantes e cheios de vida diante de nós perguntando: você vai morrer? Nunca mais vou falar com você? Eu vou morrer?

Mas o ponto em que eu queria chegar, quando imaginei este texto, está ainda aqui latejando na minha cabeça, tentando encontrar uma forma no papel enquanto as ideias pipocam no meu cérebro. Uma coisa é entender a morte como parte de um ciclo natural da existência de todas as coisas e não se apavorar diante dela. Outra é ter a normalização da morte como medida para ações de descuido com a vida humana.

Chegamos à marca oficial de 640 mil mortes por uma doença evitável. Evitável porque conhecemos o mecanismo de transmissão e o que precisa ser feito para interromper. O que fazer em parte depende de políticas públicas e em grande parte depende da atitude individual. Temos um governo que declaradamente alimenta o encanto pela morte: na defesa da tortura e da eliminação dos que pensam diferente, no armamento da população civil, na defesa da truculência policial, na liberação de agrotóxicos, na agressão ao meio-ambiente e povos originários, na exposição das pessoas a uma epidemia com a justificativa de que só morrem os que têm que morrer. Esse último é um discurso perversamente interiorizado pela maioria da população, mesmo os que discordam das demais políticas nefastas. Ficamos no mato sem cachorro.

Neste pico da terceira onda, todas as noites vamos pra cama com a notícia da morte de mais de mil pessoas por uma doença evitável. Evitável, é preciso repetir. Paradoxalmente, o que mais se ouve é o discurso de que é preciso viver, de que é tempo demais pra ficar parado com medo da morte. Como se esse pensar individualista absorvesse tortuosamente o entendimento filosófico sobre a realidade finita do homem e fechasse os olhos para as portas abertas a algo maior: a morte do outro, o fortalecimento de um agente mortífero, a extinção. Portanto, um pensamento suicida em que a arma pode ser um vírus ou outras causas que ameaçam a vida humana e cujo antídoto depende do pensar coletivamente e do repensar o viver, que será exigido mais cedo ou mais tarde.

Ficou pesado, né? Hora do ponto final. Uso a descrição de fim do mundo de Ailton Krenak – uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder – para perguntar: não valeria a pena adiar o fim?

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Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos, Editora Quimera (Teresina, 2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana, Editora EDUFPI/Avant Garde (Teresina, 2018); Conexões Atlânticas, Infinita (Lisboa, 2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras ABR Editora (Guarujá, 2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos, Patuá (São Paulo, 2018).

Espiritualidade e feminismo são incompatíveis?

 

Olho o calendário e conto os últimos dias de 2021. Não farei um balanço. Difícil aceitar o ano que poderia ter sido de esperança como uma realidade desanimadora. A vacina veio, é fato. Acompanhada de um obscurantismo que não se alinha ao nível de conhecimento alcançado pela humanidade. Por aqui temos um plus: a destruição se instalou em todas as áreas. Mas sobrevivemos e estamos respirando o advento. Isso faz acender aquela pequena chama que se esconde no fundo da alma.

Não sou religiosa. Entendo o sagrado (crença na existência de deus, de deuses ou deusas) como uma necessidade humana, apenas. Gosto de observar o reflexo disso nas ações dos que se dizem ligados ao divino. Talvez, um modo muito particular de viver a fé.

A ideia de um instante de harmonia pisca no nosso cérebro muito mais do que as luzes decorativas instaladas em lares, parques e avenidas. Daí aceitarmos confraternizar até com quem infernizou a nossa vida durante todo o ano no trabalho ou em família. Bom momento para refletir, não?

Nesse observar descobri uma doutora em teologia, feminista e pastora da Igreja Batista, que realiza um bonito trabalho com minorias. Seguindo o ensinamento de Cristo, ela leva conforto espiritual àqueles que sofrem preconceito, discriminação e são excluídos das igrejas e da sociedade. Sigo seu perfil em redes sociais. Por esses dias, ela celebrou o amor e a união entre duas mulheres cristãs. Ação que me encheu de fé.

O choque viria dois dias depois. Nos portais, a notícia de que a pastora e sua família prestaram queixa à polícia por sofrerem perseguições e ameaças de morte.  Vítimas do ódio que nasce do fundamentalismo religioso.

Nos mesmos portais, o adeus à teórica do feminismo bell hooks expande a tristeza. Minha mente se dispôs a fazer uma conexão. Em um ensaio publicado em 2015, bell faz uma análise da espiritualidade feminista. Uma breve passagem histórica sobre os conflitos entre feminismo e religião. Foi preciso desafiar a base do sistema de crenças judaico-cristãs de ideologia patriarcal e opressora. Em seguida, veio a conquista da espiritualidade libertadora através da transformação das crenças religiosas incluindo a busca por tradições orientais. Logo depois, entram em cena as teologias da libertação que acreditam ser o fim do patriarcado (e outros tipos de opressão) algo ordenado por deus. E por fim, o ameaçador retorno do fundamentalismo religioso associado a ideologias políticas de direita.

A pastora afirma que desde 2016 se intensificaram as críticas ao seu trabalho de acolhimento à diversidade. Um dado que coincide com o aumento do fundamentalismo religioso no Brasil, alimentado em igrejas neopentecostais (católicas e evangélicas).  Assim como coincide com a escalada de ameaças aos direitos civis conquistados por mulheres e minorias e com a demonização do movimento feminista. Como diria bell, uma ameaça à espiritualidade progressista.

Por que falar disso às vésperas do Natal?

Porque somos o produto de uma cultura religiosa cristã. Mesmo quem não tem prática, sente-se comovido neste período.  A ideia de um instante de harmonia pisca no nosso cérebro muito mais do que as luzes decorativas instaladas em lares, parques e avenidas. Daí aceitarmos confraternizar até com quem infernizou a nossa vida durante todo o ano no trabalho ou em família. Bom momento para refletir, não?

Voltando à pergunta que move este texto. O conflito é parte de todo processo evolutivo. É verdade que a maioria das religiões tem por base uma mentalidade dualista que tolera o sexismo e a dominação masculina (inclusive sobre o corpo das mulheres). Vale lembrar que estamos sempre em movimento. É possível contextualizar os textos sagrados, fazer leitura crítica e aberta a questionamentos. Ou, buscar práticas espirituais que abraçam o feminismo e fazem perceber que não pode haver incompatibilidade entre aquilo que promete um bem-estar espiritual e um movimento que luta por justiça, igualdade e valorização do ser humano, seja qual for o formato do seu corpo.

Que o espírito do Natal, se existir, ilumine as mentes e abra caminho para a tão propagada renovação. Crucial para preservação da humanidade, pois um vírus nos avisa que o modelo de mundo como conhecíamos está com os dias contados.

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Imagem: TINTORETTO – Magdalena penitente (Musei Capitolini, Roma, 1598-1602).

Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos, Editora Quimera (Teresina, 2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana, Editora EDUFPI/Avant Garde (Teresina, 2018); Conexões Atlânticas, Infinita (Lisboa, 2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras ABR Editora (Guarujá, 2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos, Patuá (São Paulo, 2018)

O paraíso é para poucos?

 

Depois de um ano e sete meses de confinamento, devidamente vacinada, reencontrei uma amiga para um café. Eram tantos os assuntos para nossas emoções incontidas que duas horas não foi mais que um instante.  Pandora papers, nuvem de poeira, marco temporal, mortes, queda das redes sociais, prêmio Nobel e toda a pauta do momento pululando entre nossos projetos a serem retomados, para nos questionar: que lugar foi esse onde ancoramos o barco do nosso envelhecer?

É fato que a coisa já desandava antes da pandemia se instalar. No entanto, o vírus nos revelou o horror. Não o desabamento do mundo como imaginávamos a princípio. Mas o horror que se escondia e que saltou aos olhos apesar das máscaras. E por que estamos tão chocadas se, desde quando lutávamos pelas Diretas, já éramos conscientes dos mecanismos que norteiam esta república?

Dizem os sábios que a interatividade gera novas qualidades no comportamento coletivo, assim como no campo da individualidade o reinventar-se e seguir em frente é uma necessidade.

Talvez seja esse o ponto: acreditamos na evolução. Acreditamos que os valores que nos levaram a Eco 92, a estabelecer cotas nas universidades, a eleger uma presidenta, a legalizar uniões homoafetivas estavam internalizados nas gerações que criamos e educamos. Engano. Talvez as nossas crias até tenham compreendido tudo e se tornado pessoas melhores que nós, porém havia uma massa ressentida que no seu covil também criava herdeiros a sua imagem e semelhança. Bastou uma crise econômica para que a vergonha de ser politicamente incorreto se dissipasse e os egos inflados fizessem ninhos na liberdade de expressão (conquistada a duras penas) para expor a sordidez. Ao ponto de se considerar sinal de capacidade para gerir a economia de um país o cidadão que fez fortuna fugindo dos impostos, da regulação financeira e das obrigações de transparência ditadas pelo avanço civilizatório. Ou, médicos se julgarem no direito de fazer experimentos em humanos sem o rigor da ética e da metodologia científica.

A massa ressentida precisava apenas de uma autorização simbólica: ganhar as eleições para o poder central. E depois da conquista não poderia perder para um ser minúsculo que nem vida, propriamente, tem. Um ser que, apesar de invisível, exigia o olhar para o todo. Negar foi solução. E tudo que acompanhamos foi consequência.

A essa altura, devo dizer que minha amiga conjuga o verbo esperançar muito facilmente. Para quebrar a tristeza, ela puxou do celular notícias sobre o Nobel 2021: na física (mais ligada à sua área de atuação) e na literatura (a minha). Syukuro Manabe, Klaus Hasselmann e Giorgio Parisi, pelas contribuições inovadoras para compreensão de sistemas complexos, o que envolve pesquisas sobre meio ambiente e mudanças climáticas. Na Literatura, Abdulrazak Gurnah e suas histórias de migração, nas quais a impermanência e a agitação constante são dadas como certas. Estamos em movimento.

Saí de lá um pouco mais leve. Dizem esses sábios que a interatividade gera novas qualidades no comportamento coletivo, assim como no campo da individualidade o reinventar-se e seguir em frente é uma necessidade. A academia manda um recado. Ou, em melhor rearranjo de palavras: não estamos sós. Acende-se uma chama.

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Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos (Quimera, 2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana (EDUFPI/Avant Garde, 2018); Conexões Atlânticas (Infinita – Lisboa, 2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras (ABR Editora, 2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos (Patuá, 2018).

Elas em mim

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
(Cora Coralina)

 

 

Cora Coralina, Florbela Espanca ou Frida Khalo?

A pergunta veio em meio a uma live. O tema: as múltiplas escritas femininas, a partir da minha produção literária. A provocação me pegou de surpresa e eu perguntei de volta: posso ser uma mistura das três? Em seguida falei muito superficialmente sobre cada uma, repetindo que sou um pouco de cada. Mas são mulheres bem diferentes! – o entrevistador repete.

Fiquei com os nomes dessas mulheres martelando na minha cabeça. Sem querer ele me dava um mote para este texto.

Sim, concordo. São diferentes. Somos diversas. Estilos diferentes. Espaços diferentes. Vivências diferentes. Todavia há um traço comum entre as três: por vinte e três anos, elas dividiram o mesmo tempo aqui na Terra. Se uma tinha conhecimento da outra, eu não sei. Apenas sei que o tempo era de sofrimento entre tentativas de uma existência plena.

Pensando primeiro em Cora Coralina, a de data de nascimento mais antiga (1889-1985) contudo a mais longeva. Das três, a única cuja vida alcançou meus dias embora na década de 1980 eu ainda não tivesse me dado conta de que escrever era o meu destino. A própria Cora Coralina se fez abrigo para todas as mulheres em seu célebre poema Todas as Vidas, oferecendo um amparo neste pensar. Temos em comum, além da nacionalidade e da origem provinciana, a tardia possibilidade de publicação. Não de escrita ou de textos soltos em jornais. Falo de livros. Ela limitada pelas convenções do seu tempo e pela constante necessidade de transgressão, o que a une a Florbela e Frida. Eu pelos conflitos internos e com um mundo que deu à mulher a oportunidade de independência econômica, talvez por necessidade do sistema, mas manteve firme a cobrança dos papéis sociais estabelecidos por uma sociedade patriarcal.

Em seguida vem a portuguesa Florbela Espanca (1894-1930), por muitos definida como “mais coração”, pela criação de um eu-lírico arrebatado por sentimentos profundos e uma poesia marcada por intenso conteúdo emocional. Viver além-mar não evitou que ela pagasse muito caro pela ousadia de buscar a liberdade. O poema Eu, publicado no Livro de Mágoas (1919) já anunciava: Sou a crucificada… a dolorida… (…) Sombra de névoa ténue e esvaecida/E que o destino amargo, triste e forte, /Impele brutalmente para a morte!”.  Muito cedo se foi. Vencida, talvez, pela hostilidade do mundo. Por volta do mesmo tempo em que seus livros póstumos são publicados, Cora vendia livros dos outros, fazia doces e ganhava na viuvez a liberdade; e Frida, com sérias sequelas de um acidente, casava-se com o pintor Diego Rivera e se frustrava na tentativa de ser mãe.

Chegamos, então, à cultuada mexicana (1907-1954) que tinha na pintura surrealista sua forte expressão. Contrariando a crítica insistia que suas telas não retratavam sonhos, mas a sua própria realidade. Presa a uma cama, repetia: Para que preciso de pés quando tenho asas para voar? O corpo aprisionado pela dor não a impediu de usá-lo a favor do que povoava a sua alma, enfatizando a autonomia sobre essa estrutura que apesar de frágil lhe pertencia. Ainda em vida viu o reconhecimento de sua obra, mas não o mesmo entusiasmo devotado à obra de Diego. Depois de sua morte, ele diria emocionado que ela era poesia e a própria genialidade. Viveu um pouco mais que Florbela, mas também teve sua vida encurtada. A transgressão pode ser vista como ponto unificador de suas vidas, no entanto é a arte produzida que revela em ambas o tom visceral.

Não percebo em mim a transgressora de costumes, apesar de sentir repugnância pela palavra “recatada” como qualificação para mulheres. Sou filha da minha época. Somos todas, mesmo as que não se assumem como feministas por equívocos na compreensão do termo, herdeiras das lutas, artes e coragem das que vieram antes de nós. Reafirmo agora com mais convicção o que respondi intuitivamente e ouso ampliar o entendimento: sim, carregamos um pouco de cada uma dessas mulheres em nós e é nosso dever levá-las às próximas gerações.

 

Operação Iguana

 

Nada me acontece por acaso. Tudo com o tempo se conecta e arranja um jeito de se justificar. Ou seria possível também dizer o contrário, que tudo é o acaso e esse acaso apenas me espanta? Bom, mas isso é só um jeito de introduzir a história de uma Iguana no asfalto.

Nos meus textões no Facebook (olha o referencial: para a pressa das redes sociais são textões; para o que costumo ler é quase nada) comentei um dia desses sobre a minha tristeza em não ter representação feminina no parlamento à altura das mulheres da minha terra. O que temos por aqui são corpos femininos, sem autonomia ou firmeza, usados para driblar a lei que garante um mínimo de representatividade. Em pleno 2021, estão lá dando vida a uma tragédia ambiental, sanitária e econômica.

Um dia depois aconteceu o fato que passo a narrar.

Desde março de 2020, eu não dirijo. Meu carro fica lá na garagem até que alguém se candidate a fazê-lo funcionar. Nas poucas vezes que precisei sair de casa o fiz de carona.

Um pouco antes de conseguir me vacinar (primeira dose), minha filha precisou do carro. Emprestei e o recebi de volta brilhante, sem aranhas, sem teias e sem cocô de passarinhos. Depois da vacina, ocasião em que o danado foi usado, ela precisou novamente. Ao chegar ao local de trabalho estacionou em frente à vigilância. Alguns segundos depois foi avisada de que havia um barulho estranho no compartimento do motor. Como se algo lá dentro se movesse insistentemente. Astuto, o vigilante abriu de leve o capô e avistou a ponta de um rabo comprido e esverdeado. Formou-se a confusão.

O telefone toca.

– Mãe, cê está bem? teve alguma reação à vacina?

– Tive febre e uma ligeira indisposição. Mas não virei jacaré.

gargalhamos. Senti certo alívio na voz dela.

– Que bom! A senhora não usa o carro, os bichos estão tomando conta!

Desligou e eu fiquei sem entender até receber fotos e um vídeo comprovando o dito.

Diante da minha resposta, ela resolveu chamar a polícia ambiental. Chegaram os homens corajosos e que sabem lidar com a situação. Na primeira olhada, o comandante gritou para seus ajudantes:

– Operação Iguana!

Pronto. Com muito cuidado a bichinha assustada foi colocada em uma caixa apropriada e levada daquele lugar inóspito para exercer a sua missão onde lhe é mais apropriado.

Mas o que isso tem a ver com a introdução?

Tem que uma Iguana, que nada entende de carros, sem nenhum compromisso com o funcionamento de motores, por lá se acomodou por puro oportunismo.  Da mesma forma que as mulheres sem compromisso com a população do meu Estado se apropriam dos lugares no parlamento pela inércia das demais (das que tem inteligência, conhecimento, competência e talento para a política e das muitas que não sabem diferenciar essas das primeiras na hora de votar).

Eis o recado das iguanas.

 

(Foto de Alexis Antonio, cedida gratuitamente por Unsplash License, a quem agradeço)