Revestrés

16/06/2021
Menu Menu
Blog Title
André Gonçalves

Farinhada

andrepiaui

do dia que há de ser

hoje não é dia
de dar com a cara
no muro
de morder as paredes
de perder as unhas raspando
o piso de cimento
de queimar as retinas
nos quatro sóis
de ralar a bunda no asfalto
mole
não é dia de romper o braço
na disputa com a palavra bruta
cada dia mais
bruta
mais bruta
e mais

o medo
nos protege
medo
é outro nome para
coragem
há de se ter coragem para ter
medo
ou a covardia
nos desaba em
medo

hoje, não é dia
quando será?
quando, será
quando.

Crescer

era um menino
que contava estrelas
amanhecia o dia
guardava as estrelas
no bolso traseiro esquerdo
nos dianteiros
pirulitos zorro de morango jujubas amendoim torrado pipoca doce
ploc de hortelã figurinha de jogador de futebol garrafa de grapette
medalha de segundo lugar patuá
um sorriso
uma camisa dez azul
bala chita
dois lápis um com a ponta quebrada borracha azul e rosa
uma marta rocha
dois quase afogamentos
um gol de bicicleta
dente de leite
brigadeiros, amassados
um monstro peludo sorridente
um chimpanzé
três índios de forte apache um corneteiro da cavalaria yankee
um foguete
as perguntas
juca chaves
cheiro de flamboyants
e um chico

um dia
as estrelas explodiram
no bolso traseiro esquerdo
e o menino
desolado
ficou adulto
vestiu calças compridas
e arrumou um emprego

Faca

passa um pouco
das cinco e a

faca

que eu trazia
entredentes
está dissolvida
na saliva
que despejo na pia

Para estar vivo

é preciso um pouco
de sorte
um tanto de morte
circulando nas veias
para estar vivo

Não é só futebol

 

É uma imagem antológica das Copas do Mundo: Daniel Passarela levantando o troféu em Buenos Aires após a vitória sobre a Holanda, na final de 1978. Ao realizar o gesto clássico, Passarela se tornou uma lenda do futebol, o capitão que representava a garra argentina nos gramados.

O que pouca gente lembra é que, até pouco tempo antes, não era Daniel Passarela o capitão do time que viria a ser campeão. Quem carregava a braçadeira era Jorge Carrascosa, “El Lobo”, que já havia jogado na Copa de 1974, tinha o reconhecimento dos argentinos e era o “homem de confiança” do técnico César Menotti.

Mas um golpe de estado atravessou a história de El Lobo, da Argentina e da albiceleste. Em 1976, Jorge Rafael Videla e uma junta militar derrubam a presidenta Isabel Perón e dão início a uma das mais sangrentas ditaduras do continente, que iria durar até 1983.

Carrascosa, que no exato dia do golpe estava defendendo a seleção argentina em jogo amistoso contra a Polônia, na Europa, acabou renunciando à seleção. Em 1977, um ano antes da Copa, anunciou que não aceitaria a convocação e que abria mão de jogar o mundial. Mesmo com a insistência de Menotti, Carrascosa não cedeu: chamado até então também de El Gran Capitán, Jorge Carrascosa passou a ter seu nome associado pelo regime de Videla a “antipatriotismo” e “comunismo”.

A faixa de capitão foi então entregue a Passarela. Que seguiu o mundial com Fillol, Kempes e Tarantini, levando a Argentina a um contestado título, por muitos chamado de “o mundial da vergonha”: entre as suspeitas, um placar supostamente arranjado contra o Peru (um 6 a 0 bastante estranho) e visitas de generais a vestiários, não só da seleção da casa.

Além disso, o jogo final aconteceu no estádio Monumental de Nuñez, situado a pouco mais de 1km do principal centro de detenção da ditadura, a Esma – Escola de Mecânica do Exército, local em que o regime torturava e matava seus adversários. Presos que viveram o dia histórico do futebol argentino afirmam que, de seus cubículos, podiam escutar as comemorações dos gols e a festa do título. Dizem que, naquela tarde, não houve tortura.

Passarela posou ao fim do jogo ao lado de Videla, com um aperto de mãos. Anos depois, o capitão do título, que conheceu fama e fortuna, afirmou: “Se eu soubesse realmente o que estava acontecendo no meu país não teria usado a camisa nacional”.

Carrascosa sabia e não usou. Apesar de por muitos anos evitar falar claramente sobre a decisão e dizer que foi motivada por coisas como a corrupção no futebol argentino da época, entrou para a história como o capitão que abriu mão do possível título para manter suas convicções pessoais e políticas. El Lobo não gosta de ser fotografado e, aos 70 anos, vive uma vida modesta na região sul de Buenos Aires.

*a foto não mostra Passarela e, sim, Henri Michel, então capitão da seleção da França, e El Lobo, em 1977, pouco antes de um dos últimos jogos de Carrascosa como El Gran Capitán.

Receba nossas
atualizações

Cadastre seu email e fique sempre atualizado sobre a Revestrés.

Assine
a Revestrés

Faça uma assinatura e ganhe 1 ano de cultura. Clique aqui
Revestrés edição 48