Revestrés

26/11/2021
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Blog da Redação

Bastidores, curiosidades e coisas legais

Mesmo com toda a lama, vamos levando

Por André Gonçalves

São tempos difíceis para se falar de alegrias, conquistas, vitórias. Tempos difíceis para sonhadores, poetas e bailarinos. São tempos em que dizer “vamos sobrevivendo” deixou de ser uma expressão hiperbólica em conversa de fim de tarde e passou a ser o mais puro retrato da realidade da enorme maioria de brasileiras e brasileiros.

Essa edição #49 de Revestrés chega tentando, mais uma vez, trazer um respiro. Tentando fazer com que consigamos lembrar de quem somos, de quem fomos, e também lembrar de quem queremos ser amanhã. Porque em meio a tanta coisa, volta e meia nos esquecemos de que em meio a tantas e tantas perdas, perdas de pessoas queridas, de alegrias, de adiamento de sonhos e desejos e de luta pela sobrevivência “concreta”, estamos ainda respirando e que isso é o que nos mantém de pé.

Trouxemos então para nossas páginas um pouco do muito que tem sido feito, pensado, criado e vivido em meio ao medo.Trouxemos, por exemplo, a coragem e a inteligência cortante de Letícia Carolina: “travesti, negra, gorda e do candomblé”, a primeira professora trans da Universidade Federal do Piauí enche nossas páginas em uma entrevista encantadora pela força e pela capacidade de se entender no mundo, mesmo quando se dá a oportunidade de ser “uma mulher de 30 anos bebendo com amigues”, coisa que, muitas vezes, muita gente não tem como ser.

Como coragem é mais do que nunca palavra de ordem, conversamos com outra mulher que empurra o medo para o canto e se joga na luta: uma mulher Preta. Preta Ferreira fala de sua prisão absurda sem provas, mostra sua luta por justiça e pergunta, justificando seu engajamento político: “como posso ser livre se vejo meu povo morrendo toda hora, se meu povo está sendo assassinado por comida, enquanto tem gente morrendo sem ar?”. Preta é um pouco, ou muito, cada pessoa sobrevivendo nesse país.

Quer mais mulher, coragem e luta? Temos! Célia Gpmes, feminista, negra e ex-trabalhadora sexual também conta sua história e mostra a importância do engajamento e da capacidade de seguir em frente para transformar a nossa vida e a vida de quem está perto de nós.

Para lembrar quem fomos e resgatar quem queremos ser, nosso ensaio fotográfico traz uma viagem no tempo: fotografados por Assaí Campelo, vários personagens da cultura piauiense, da música, da dança, do teatro, das artes visuais, retornam em imagens que chegam a comover pela espontaneidade e pela promessa de vida e esperança que revelam.

Em Campo Maior, no interior do Piauí, uma antiga prisão é transformada em escola de música. E mostramos aqui um pouco dessa história, sonhando que isso acontecesse todos os dias nesse país. Também do Piauí, o nosso cuscuz, amarelinho e com alma nordestina, coloca cor (quem dera também tivesse como ter o sabor)  em nossas páginas. Mostramos que mais um passo para descobrir quem fomos pode ter sido dado com a descoberta de um novo sítio arqueológico no sertão piauiense, na Pedra do Letreiro.

E entre várias outras coisas, nossa reportagem não poderia deixar de tocar em um assunto que dominou  – e ainda está nas discussões de artistas e produtores culturais piauienses – a pauta artística e cultural do Piauí: “cadê o contrato que estava aqui”, perguntamos, ao tratar sobre o então anúncio da Prefeitura de Teresina de mudança na forma de apoio e contratações a grupos de dança, Orquestra Sinfônica de Teresina e vários outros produtores culturais e associação. Uma discussão que apenas começou, e segue precisando de atualização e debate.

Seguimos então acreditando e batalhando. Essa é a Revestrés #49 que, esperamos, lhe ajude a seguir em frente. Mais uma vez, esse é o nosso recado. Não pare de acreditar.

***

Editorial da Revestrés#49.

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Todo fim significa recomeço

Por André Gonçalves

Parece quase inacreditável. Mas, pelo menos no calendário, esse interminável ano de 2020 chegou ao fim. Um ano que nos encheu de medos, inseguranças, tristezas, dores. E testou violentamente nossa capacidade de resistir, de superar, de tolerar o incerto e de ressignificar o que pode ser chamado de “saudade”.

Capa da Revestrés#47 | Foto: Nair Benedicto

O ano termina com a esperança da vacina – apesar de todos os percalços que a inépcia e o descaso do poder estabelecido deixam pelo caminho. A esperança de que nós, que conseguimos passar por esse ano, consigamos fazer a vida seguir em frente, em respeito e até mesmo em homenagem aos que não estarão conosco. Por essas pessoas, precisamos seguir em frente e acreditar que há um futuro. E que ele pode ser vivido, criado, alterado por nós e pelos nossos sonhos.

Para Revestrés, como para todas as pessoas do mundo, não foi fácil. Mas aqui estamos, e fizemos essa edição, mais uma vez, como quem respira. Aos poucos. Sem desistir. Buscando o máximo de frescor para seguir em frente em meio ao caos. E buscando trazer gente e histórias inspiradoras, na arte, na cultura, no conhecimento, na leveza do viver simples. Na luta pelas liberdades e por uma vida melhor.

Poucas pessoas podem simbolizar tudo isso quanto Nair Benedicto, a nossa entrevistada da edição #47. Mulher de raça, enfrentou a ditadura civil-militar brasileira de cabeça erguida sem fraquejar. E, através de seu talento, contribui como poucas pessoas ao contar boa parte da história recente do país através de imagens. Aos 80 anos, segue fotografando. E questionando, provocando, construindo pontes. Tão inspiradora que trouxemos seu trabalho também para o ensaio fotográfico desta edição. Nair transborda limites.

Na reportagem, fomos em busca de uma figura icônica da música brasileira: Geraldo Vandré que, com sua música-hino, marcou a MPB e gerou controvérsias e mistérios. Resgatamos histórias e segredos da música que, há meio século, faz parte da memória nacional.

Mais duas matérias sobre música, e em tons tão diferentes que podem retratar um pouco da capacidade de reinvenção tão necessária nesses tempos: conversamos com o pessoal que faz o estilo Lo-fi, que vem ganhando adeptos e fãs, em especial pelas redes sociais. E também falamos com os meninos da banda O Fundo de Quintal (não, não é aquela do samba): garotos do interior do Maranhão que também estão usando as redes sociais para mostrar sua alegria, ironia e espontaneidade, mais que necessárias para os dias de hoje.

Falamos também com Laerte e sua veia crítica e talento incontornável, fomos ao Porto conversar com uma artista que cria suas artes a partir de consultas ao tarot e mostramos um pouco da vida e obra do pintor piauiense Lucílio de Albuquerque, que teve muita influência na arte brasileira – mas pouca gente sabe.

E tem muito mais nessa edição que fecha 2020. Uma edição que homenageia uma pessoa conhecida no Piauí como guerreira: Francisca Trindade, mulher, negra e que fez história trabalhando incansavelmente pelas causas sociais mais urgentes e necessárias.

Essa edição #47 traz as “deixas” para o ano que está chegando: não podemos deixar de lutar, de acreditar e de sonhar. Fazendo arte, literatura, música, poesia, fotografia, conhecimento. Só assim vamos conseguir seguir em frente.

A palavra de ordem é essa: seguir. Em frente.

***

Editorial da Revestrés#47. 

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O dia em que (quase) ficamos famosos

Por Samária Andrade

A gente não tinha se dado conta de que estava tão famoso. Mas bastou chegarmos ao auditório e uma simpática equipe de recepção abriu caminho, nos indicando a passagem. Eu e André estávamos ali para acompanhar o bate-papo e, depois, entrevistarmos o palestrante. Ficamos um tanto constrangidos, pois a ideia era entrarmos na fila que se formava. Porém, convocados com insistência, achamos que chamaríamos menos atenção aceitando a gentileza: entramos no auditório e fomos conduzidos a duas cadeiras logo na primeira fila em que estava escrito “reservado”.

É amigos, o sucesso tinha chegado. Não restava dúvida. E olha, não é difícil acostumar com os privilégios. No início um pouco desconfiados comentamos entre nós: “eita, a Revestrés faz sucesso por aqui!”. Só podia ser essa a explicação para tanto rapapé.

 

Um pouco mais relaxados começamos a aproveitar das regalias da fama. Já aceitávamos as águas e cajuínas servidas em bandejas e bonitos copos de vidro. Respondíamos, até com certa naturalidade, se a temperatura do ar-condicionado nos agradava. Pedimos para repetir a cajuína.

Mais pessoas iam chegando e completando as cadeiras do auditório. Tudo ia muito bem até um rapaz se aproximar de uma recepcionista pedindo informação. Ela, alegremente, apontou para o nosso lado. O rapaz balançava a cabeça negando. A moça balançava a cabeça afirmando. E, daquele meio-balé, ele partiu em nossa direção. Passou em nossa frente nos olhando fixamente e seguiu até o final da fila de cadeiras. Deu meia-volta e lá vinha novamente em nossa direção. Eu já não tirava os olhos daquela cena. Finalmente parou à minha frente, apontou para André e me perguntou: “Ele é o Xico Sá?”. Claro, não se pergunta uma coisa dessas diretamente à possível estrela, sempre é preferível checar com alguém por perto.

O fato é que, naquele momento, entendemos tudo. O rapaz investigador não deixou a história por aí. Voltou até a moça da recepção e registrou o engano – aquele dedo-duro. Talvez por constrangimento, nos deixaram ficar por ali mesmo. Assistimos a palestra do jornalista e escritor Xico Sá no Salão do Livro do Piauí de camarote, nas cadeiras reservadas. Mas, que pena, não nos serviram mais nenhuma água.

Samária Andrade é jornalista e professora de Jornalismo. samaria.andrade@hotmail.com

Respirar é um ato de coragem

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte.
Temos que respirar nossas fraquezas.

Clarice Lispector

Por André Gonçalves

Ao fecharmos a reunião que decidiu o que iríamos trazer para esta edição #46 de Revestrés, ficou uma sensação estranha – e algo de receio: como não poderia deixar de ser, a edição giraria em torno da pandemia de Covid-19. Mas como faríamos essa abordagem? Como tratar, em uma revista cultural, um tema tão doloroso, tão assustador, num momento em que um vírus nos confina e nos afasta fisicamente das outras pessoas e pode nos matar? Com todas as atividades culturais mundo afora suspensas, como fazer matérias, mostrar pessoas, abordar as dificuldades e realizar entrevistas e matérias? Pautas decididas, respiramos fundo e fomos.

Capa da Revestrés 46 | Ilustração: Irineu Santiago 

Normalmente uma palavra circula internamente, de maneira mesmo informal, enquanto produzimos a revista. E “respirar” passou a ser a palavra da edição. Mais de uma vez, enquanto as dificuldades iam se sucedendo, alguém disse algo como “dá uma respirada, quando der achamos uma saída”. Não poucas vezes fizemos isso mesmo, inclusive literalmente: paramos e, apenas, respiramos. Sem nos cobrar muito, dando à equipe e à edição o tempo que ela precisou para existir. Respiramos, tomamos fôlego e fomos adiante.
Sobre o tempo: você, claro, percebeu que entre a edição #45 e essa, a #46, houve um hiato maior. Mas sabemos que você compreende bem, porque, nesse 2020 um tanto absurdo, a noção de tempo parece ter se modificado. E está sendo mesmo necessário que o tempo exista numa cadência diferente, porque precisamos – olha novamente a palavra aí – respirar um pouco mais para fazer cada coisa. Porque os últimos meses foram um período de perdas, de perdas irreparáveis. E só respirando muito profundamente e contando com o abraço simbólico – veja que ironia se precisar tanto de abraços quando a exigência é de distanciamento entre nós para sobrevivermos – das pessoas que amamos e admiramos está sendo possível seguir em frente. Todos, dentro e fora da Revestrés, você que nos acompanha e boa parte do mundo, perdemos alguém querido. Ou sentimos muito medo de perder alguém querido. Ou somos próximos de alguém que perdeu alguém querido.

Então, essa edição de Revestrés não é só uma revista. É uma vitória. Uma vitória sobre a dor e a tristeza, uma vitória sobre o medo. É sobre seguir em frente. É uma revista que, apesar de tudo, você vai ver, traz esperanças, cores, alegrias e respiros. E que simboliza para nós – e queremos que para você também – o ato de respirar. Respirar como for possível, para não perdermos o ar e seguirmos nos mantendo vivos e juntos.

Esperamos que você leia essa edição e pense nisso. Siga respirando. Siga.

*A edição #46 de Revestrés é dedicada à nossa querida e saudosa D. Raimunda Soares, mãe do professor – e um dos editores de Revestrés – Wellington Soares.

Editorial da Revestrés#46, publicada em Agosto 2020.

TÁ IMPERDÍVEL! E TÁ COMPLETA NOS LINKS ABAIXO!

https://revistarevestres.com.br/edicaoonline/ (pdf para baixar)

https://issuu.com/revestresdigital/docs/revestres46_web (para ler online)

Novas assinaturas de Revestrés estão temporariamente suspensas. Devido a pandemia de Covid, a Revestrés#46 circula online e pode ser baixada ou lida gratuitamente, clicando nos links acima.

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O jornalista, a fonte e o danado do texto

Por Samária Andrade

A sinopse do filme é suficiente para chamar a atenção de quem é jornalista. “Fred Rogers (Tom Hanks) foi o criador do Mister Rogers’ Neighborhood, um programa infantil de TV muito popular na década de 1960, nos Estados Unidos. Em 1998, Tom Junod (Matthew Rhys), até então um cínico jornalista investigativo, aceitou escrever o perfil de Rogers para a revista Esquire. Durante as entrevistas para a matéria, Junod mudou não só sua visão em relação ao seu entrevistado, como também sua visão de mundo”.

A promessa de A Beautiful Day in the Neighbourhood (2019) é redentora e pode ativar o bichinho crítico e desconfiado que existe na gente. Mas ali há outros elementos interessantes: o jornalista conhecido, a revista Esquire (que ganhou fama na década de 1960 pela qualidade e inovação nos textos, ainda que anos depois adotasse o estilo muito-mais-propaganda-que-conteúdo-editorial) e o homem que fez sucesso na TV ao criar um programa infantil diferente: ao invés de brincadeiras e competições, promovia discussões sobre temas pouco falados aos mais jovens, como divórcio, racismo, ciúmes. O programa Mister Rogers’ Neighborhood permaneceu no ar por 33 anos e teve mais de 900 episódios, de 1968 até 2001. Rogers já tinha 40 anos quando criou o programa infantil e o apresentou até os seus 72 anos. Ele faleceu em 2003, aos 74.

Capa da revista Esquire com matéria de Tom Junod sobre senhor Rogers.

Mas voltemos ao jornalista/jornalismo: escrever sobre Rogers não agradou Junod. Manter-se como jornalista investigativo garantia mais prestígio que entrevistar um senhor na faixa dos 70 anos que era celebridade na TV falando com crianças, usando fantoches e, às vezes, parecendo criança.

Mas nem sempre o jornalista faz a pauta que quer. A editora da revista avisou que fariam vários perfis de pessoas que poderiam ser tidas como “heróis” e que os jornalistas se dividiriam entre os personagens. Para Junod, restou o senhor Rogers. Mas por que? – quis saber. “Ele foi o único que aceitou ser entrevistado por você” – disse ela.

Pois é. Nem sempre a fonte tem o jornalista que quer.

Junod era um profissional premiado, mas igualmente conhecido por expor os “pecados” dos entrevistados. Rogers não se intimidou e fez dos encontros com o jornalista quase uma terapia para este.

Foram inúmeros momentos de observação da fonte: nos bastidores de gravação do programa, no metrô, na casa de Rogers. O cético Junod esperava pelas contradições do apresentador, por alguma falha de caráter, pelas misérias tão humanas. Irritou-se quando se viu respondendo perguntas (“Você teve algum amigo especial quando criança, Tom? Seu amigo especial tinha um nome, Tom?”), enquanto deveria estar fazendo-as.

Diante das dificuldades do jornalista, a editora chegou a pedir que ele escrevesse apenas 30 linhas e entregasse logo o texto. Mas Junod foi se envolvendo com Rogers, querendo entender se era possível alguém ser legal de verdade, em que momento o personagem se desmancharia após os 30 minutos de gravação diária.

O longo perfil de Rogers escrito por Junod teve como título “Can You Say … Hero?”, virou capa da Esquire e foi a base para o roteiro do filme A Beautiful Day.

Para um jornalista, o filme não é imperdível. O texto de Junod para a Esquire, sim.

O relato é montado como um quebra-cabeça, com partes que se encaixam e que, de repente, talvez pudessem mudar de lugar.

Por vezes é escrito como se falasse com uma criança – explicando coisas de modo muito simples. “Arquitetos são pessoas que criam grandes coisas a partir dos pequenos desenhos que desenham em pedaços de papel”. Ou “Um relógio é uma máquina que diz às pessoas que horas são”. Na verdade, são explicações complexas. Tal qual Rogers fazia na TV.

Por fim, o texto é literatura demais para ser jornalismo!

Como quando o jornalista narra o encontro com o senhor Rogers no vestiário do clube onde este nadava todas as manhãs. “Aqui está ele, de pé em um vestiário, com setenta anos de idade e tão branco quanto o coelhinho da Páscoa, coberto de geada onde quer que ele tenha cabelos, roído nas manchas cor de rosa onde sua pele seca ficou descamada, ligeiramente ferido no pescoço, ligeiramente curvado no ombro, ligeiramente afundado no peito, ligeiramente curvado nos quadris, ligeiramente curvado nos dedos dos pés … E, todavia, quando ele fala, é a sua voz, a famosa, a inconfundível, a televisiva, a voz vestida de suéter e tênis, a suave, a tranquilizadora, a curiosa e expositiva, a voz que soa adulta aos ouvidos das crianças e infantil aos ouvidos dos adultos”.

E como você, jornalista, falaria sobre um dia de gravação de um apresentador de TV num zoológico com uma gorila chamada Koko, que havia aprendido a língua de sinais?

Junod escreveu como literatura.

“Koko era muito maior que o senhor Rogers. Ela pesava 280 libras, e o senhor Rogers pesava 143. Koko pesava 280 libras porque ela é uma gorila, e o senhor Rogers pesava 143 libras porque ele pesava 143 libras desde que era o senhor Rogers, porque era uma vez, cerca de trinta e um anos atrás, o senhor Rogers subiu em uma balança, e a balança disse a ele que o senhor Rogers pesa 143 libras”.

Aqui, Junod usava um dia de gravação apenas como “gancho” para expor, na verdade, o que lhe intrigava mais: que Mister Rogers parecia metodicamente sempre igual (até no peso) desde que se converteu em um personagem de TV. Mas, por escrever como literatura ele não nos diz isso desta forma, mas daquela.

Mais do que ver o filme, leia o perfil. Ele é didático para se pensar: como montar o quebra-cabeça do texto, como começar, como concluir, como intercalar partes, como “apresentar” personagens, como contar cenas.

E nos lembra: ser um tanto literatura, sem abandonar a técnica jornalística, pode levar a um jornalismo melhor. Talvez seja isso que estejamos precisando.

Para ler a matéria de Tom Junod para Esquire, acesse:

https://www.esquire.com/entertainment/tv/a27134/can-you-say-hero-esq1198/

 

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