Wellington Soares

Coisas e outras

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O dia em que Caetano ligou e não pude atender

Foi isso mesmo que aconteceu, pode crer. Juro por tudo que é sagrado no mundo. Caetano ligou, mas, infelizmente, não pude atender sua ligação. De qual Caetano estou falando, você deve está se perguntando. Não é mesmo? Quem sabe duvidando que seja do cantor e compositor baiano, um dos idealizadores da Tropicália. Afinal, quem, em sã consciência, no Brasil, cometeria tamanho desatino? Pior que fui eu, ninguém menos do que eu, Wellington Soares, professor de literatura do ensino médio em Teresina e admirador da obra e da figuraça do Caetano Emanuel Viana Teles Veloso.

Tendo um tiquinho de paciência, conto essa história para você. Tudo começou em junho do ano passado, quando me submeti a uma cirurgia robótica, em São Paulo, a fim de extrair um câncer de próstata. Antes de apagar, ao tomar a anestesia, no Hospital 9 de Julho, prometi que, escapando, iria a Salvador prestar uma reverência a Iemanjá,  no dia 2 de fevereiro do ano seguinte. Dito e feito, dado o sucesso da cirurgia e, sobretudo, à graça de ter alcançado a cura do câncer.

Como íamos de carro de Teresina a Salvador (uns 1.160 km), perguntei a Lucíola – minha companheira – o que ela achava da gente dar um pulo em Santo Amaro, terra natal de Caetano, para levar-lhe cajuína e, com um pouco de sorte, conhecê-lo pessoalmente. Forma singela de expressarmos nosso carinho por ele, ainda mais depois de ter feito a música Cajuína, uma instigante tirada filosófica em homenagem a Dr. Heli, pai de Torquato Neto: “Existirmos a que será que se destina?”.

Quando chegamos lá, depois de pernoitarmos em Feira de Santana, não foi difícil encontrar a casa. Todos na cidade a conheciam – o sobrado de número 179, no centro de Santo Amaro –, bem como sentiam orgulho de ter um conterrâneo tão ilustre nacionalmente. Sem falar que é filho de dona Canô, matriarca da família Veloso e senhora muito querida no município, mesmo já tendo, aos 105 anos, se encantado em 2012. Infelizmente, Caetano e os outros irmãos, para nossa tristeza, não se encontravam na hora.

Coube ao Niro, morador da casa, nos dar as boas-vindas e receber o fardo com as 12 garrafas de cajuína, prometendo entregá-las em mãos. Ele nos pediu, gentilmente, que voltássemos na sexta (2), pois todos estariam presentes, incluindo o Caetano, na festa de Nossa Senhora da Purificação de Santo Amaro. Tomado de forte emoção, escrevi, em letra de garrancho, um bilhete ao eterno ídolo: “Caetano, estivemos aqui para deixar, em nome dos piauienses, umas cajuínas pra você e seus familiares tomarem. Obrigado por tudo – por ter sido amigo do Torquato Neto, pela obra artística genial e pela incansável luta em defesa da democracia. Abraçaço”. Caetano recebeu também, em sua homenagem, o belo texto Veloso, o sabor é nosso, do poeta Nathan Sousa.

Antes de seguirmos, demos umas voltas na cidade, onde respiramos simplicidade, muita fé e acolhimento benfazejo da parte de seus habitantes. O desejo de retornar era grande, mas sabíamos que, dificilmente, face ao intenso roteiro em Salvador, regressaríamos a Santo Amaro. Sendo isso, de fato, o que aconteceu. O que não impediu de termos à noite, em pleno dia 2, quando retornávamos ao hotel, uma agradabilíssima notícia do Niro: “Caetano não só recebeu as encomendas – as cajuínas, o bilhete e o poema – como ficou emocionado”.

A fim de dar veracidade à mensagem, via WhatsApp, ele enviou duas fotos nas quais fez questão de registrar o acontecimento. Na primeira, Caetano segura uma cajuína e, feliz com a surpresa, mostra às pessoas na sala; na segunda, lê, com atenção, os textos recebidos. Com o coração disparado, dei pulos e cambalhotas de alegria. A felicidade só não foi completa, entretanto, por não ter atendido às ligações do Niro: “Liguei pra você a pedido do Caetano, ele queria agradecer pela sua amabilidade, pelos presentes”. Puto com o vacilo, expliquei que não atendi por estar na festa Enxaguada de Yemanjá, comandada por Carlinhos Brown, uma batucada eletrizante impossível de ouvir qualquer chamada.

Talvez como consolo, Niro disse que tinha mais uma coisinha: “Bethânia gostou tanto da cajuína que levou três garrafas pra ela”. Algumas respostas vieram, naquele momento, à provocação do sentido de existirmos – o prazer em tomar suco tão delicioso, o contato direto com as belezas da cultura nordestina, o embriagar-se com a poética musical dos irmãos Veloso (Caetano e Bethânia), a celebração carnavalesca da vida em Salvador, a coragem em macetar o fascismo e o apocalipse evangélico e, principalmente, em conhecer gente legal a exemplo do Niro.

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Wellington Soares é professor e escritor.

 

 

 

 

Professores que fizeram uma revolução contando histórias

Por Ignácio de Loyola Brandão

Iaiá era o apelido familiar de Cristina Machado, minha madrinha de batismo e minha primeira professora. Nos anos 40, ela tinha uma pequena escola Primária, hoje Fundamental, em Araraquara, onde nasci. E quando meu pai comunicou que ia me matricular no Grupo Escolar, de ensino público, ela reivindicou: “Faço eu a educação de meu afilhado”. E o fez por alguns meses até que, por razões que ficaram sem entendimento, ela teve de vender sua “escolinha”, como dizia cheia de carinho. Emocionalmente nunca se recuperou, foi uma longa amargura. Passou a dizer aos mais próximos: “Você não sabe o que é ser professora e não dar aulas, um vazio”. Mistério longínquo que pretendo colocar em um conto ou romance. Iaiá morreu há décadas.

Em l965, quando levei a ela meu primeiro livro publicado, Depois do Sol, ela me disse: “Agora vejo que valeu. Você aprendeu logo as letras. Teve dificuldade no F e não entendia para que servia o W. E me lembro no dia em que chegou em casa e me disse que tinha lido A Bela Adormecida, primeiro livro que leu de cabo a rabo, e não entendia como uma princesa morta revivia com um beijo. Eu te expliquei que isso era a magia. A literatura é mágica.”

Hoje, depois de ter escrito 50 livros, sei o que ela quis dizer. Se sou um escritor e cheguei à Academia Brasileira de Letras e também à Paulista, foi por causa de meus professores. Porque, se eles são fundamentais na formação de um cidadão, são mais ainda na de um escritor.

Hoje, se sou um escritor, foi por causa de meus professores. Se eles são fundamentais na formação de um cidadão, são mais ainda na de um escritor.

 

A dúvida de uma professora

Jamais esqueço Lourdes Prado, que me ensinou, depois da Iaiá, que escrever “é olhar para a vida, conversar com as pessoas, perguntar, mas, principalmente, ouvir, sentir e passar para o papel.” E Ruth Segnini, a terceira mestra que nos dizia: “Escrever pouco, dizendo muito, é fundamental, aprendam a economizar palavras.”

As duas fizeram algo essencial, nos davam listas de palavras para trazer o significado, tínhamos de perguntar aos pais, tios, avós e, também, descobrimos o dicionário. “Quanto mais palavras souberam, melhor vão escrever,” elas repetiam como um mantra.

Quando tomei posse na Academia Brasileira de Letras, Ruth me enviou este bilhete: “Ignácio, a vida inteira carreguei uma dúvida. Teria eu escolhido certo a carreira de ensinar? Neste momento, descobri que sim. Estou aliviada.”

Ruth estava ainda viva, passara dos noventa anos, quando tomei posse na Academia Brasileira. E, por intermédio do irmão dela, me enviou este bilhete: “Ignácio, a vida inteira carreguei uma dúvida que, às vezes, me angustiava. Teria eu escolhido certo a carreira de ensinar? Neste momento, em que você toma posse nessa academia, descobri que sim. Estou aliviada.” Antes de meu discurso, li esta mensagem, aplaudida pelos meus companheiros imortais.

A palavra foi feita para dizer

No ginásio, Jurandyr Gonçalves Ferreira nos entregou uma dica fundamental: “Sigam Graciliano Ramos, que dizia: a palavra não foi feita para enfeitar. E sim para dizer.” Assim descobri uma obra- prima, Vidas Secas, que considero dos melhores romances de nossa literatura. Joaquim Pinto Machado, ou Machadinho, que lecionava química e português no curso científico, pedia: “Tragam as palavras mais estranhas, loucas, que encontrarem em um livro, ou dicionário ou jornal e revista.” Depois, ordenava: “Agora, escrevam uma história usando essas palavras.” Aprendemos a frequentar a biblioteca municipal  e a pesquisar.

Tive uma professora chamada dona Mariquita, que lecionava ciências naturais, ou biologia. Ao explicar as células ou qualquer outro ponto, ela nos contava histórias e entendíamos tudo, seduzidos. Era fascinante. Mariquita foi a mãe de Ruth Cardoso, casada com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, portanto, a primeira-dama,  também professora, que, com o Solidariedade, batalhou pela alfabetização de milhões de crianças.

A escola onde se lia muitos livros

Em toda minha carreira, a história que mais me impressionou, envolvendo professores e alunos, aconteceu no Piauí.  Há vinte anos, ao chegar em Teresina para participar do SALIPI, Salão do Livro  do Piauí, evento tradicional, fui recebido pelo cronista Wellington Soares, um dos idealizadores do evento, que, a caminho do hotel, me disse que na cidade havia  uma escola em que os alunos liam de cinco a oito livros por mês.

– O quê? No Brasil? Nem na USP ou na UnB, de Brasília, ou na Sorbonne, na França, ninguém faz isso, está inventando?

– Vou te mostrar, porque foi uma revolução provocada por professores.

Percebi que ele mudou de direção e, em vez de irmos para o centro da cidade, onde estava meu hotel, seguiu rumo à periferia. Rodamos até chegar a um bairro longínquo. Estacionamos diante de uma construção que tinha muros brancos, limpíssimos, sem um único grafite, rabisco, frase, desenho. Nas janelas, nenhum vidro quebrado, nenhuma grade.

– É aqui!

Acostumado a escolas de periferia em São Paulo, Rio de janeiro e outras, com muros altos, pesados, grafitados, janelas com barras de ferro, portões fechados com correntes, perguntei:

– É uma escola? E que bairro é este?

– A escola é a Municipal Casa Meio Norte, bairro Vale Quem Tem. Dos mais carentes da cidade, habitado por marginais de todos os tipos, violento. Uma das regiões mais complexas de Teresina.

– E quem estuda aqui?

– Ensino fundamental, do primeiro ao quinto ano, e os alunos são filhos desta gente carente, muitos marginais.

– Aqui é onde leem de cinco a oito livros por mês?

– É!

Entrei, incrédulo. Fui recebido por mulheres nordestinas magras, com enorme olhos abertos em um sorriso de satisfação, abismadas com a  súbita presença de um escritor de renome. Eram as professoras que tinham feito a “revolução”.  Fomos direto à biblioteca, bem abastecida e fui olhando fichas de retirada, incontáveis. Pois havia mesmo alunos que chegavam a oito livros por mês. Cinco, a maioria. Autores como Ziraldo, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga, Pedro Bandeira, Marina Colasanti, Ruth Rocha, Silvia Orthof, Monteiro Lobato, Eva Furnari, e  também Robinson Crusoe, Tarzan,  Harry Potter, Guerra nas estrelas, etc.  Fui de classe em classe, recebido com estupefação. Logo se descontraíram, uma jovem me mostrou  um poema no caderno.

“Se um dia eu

na droga cair,

faça tudo

para que dela eu possa sair”.

“O pai é dos maiores traficantes do estado”,  informou a diretora. Fui de classe em classe, me mostravam contos, crônicas, todo tipo de textos,  perguntavam como era ser escritor, fomos ficando íntimos, felizes, me apalpavam. Passei quase a tarde toda ali, não queriam me deixar sair, comi um bolo de mandioca generoso, mandado buscar, às pressas, com café, em uma cozinha limpíssima – que os alunos mesmo limpavam, porque, disse a diretora, a escola é deles, eles cuidam.

Então, as professoras e Wellington me contaram a história. Fiquei siderado. Aquela tinha sido a pior escola da cidade, do Brasil, do mundo.  Bagunça total, rebeldia absoluta. Era impossível dar aula, não havia disciplina, normas, ninguém obedecia ninguém, fumavam maconha, brigavam, assediavam as meninas, faziam o diabo, diante de professores impotentes. Então, após mil tentativas a decisão foi a de fechar a escola, jogar a toalha.

Foi quando um grupo de professorinhas determinadas, algumas da própria escola, outras vindas de outros bairros, pediram um tempo para assumirem. “Temos uma ideia, queremos tentar”. Não disseram qual era a ideia, tratava-se de uma experiência emocional.  Assumiram. E cada dia, de pé na frente da turba, o que faziam?  Contavam histórias clássicas, folclóricas, anedóticas bem humoradas, de todo os gêneros. Nada mudou, a bagunça, a rebeldia continuava. Então, uma das professorinhas percebeu que duas meninas, caladas, prestavam atenção. E ambas contaram a outras, e duas viraram, cinco, cinco se tornaram dez, homens e mulheres foram mudando gradualmente. O interesse se propagou, as classes foram silenciando, se comportando silenciosas, a ouvir, fazer perguntas, contando casos do próprio bairro, como fossem cronistas locais.

Um salto para as alturas

O silêncio e a atenção dominaram por fim, e as professoras passaram a dar aulas de matemática, português, história, geografia, etc, por meio de histórias clássicas ou por elas adaptadas, inventadas. Desenvolveram os próprios métodos que funcionaram. Não foi fácil, nem de uma hora para a outra, mas foram persistentes, resilientes, determinadas, quase se esgotavam e se refaziam. Venceram. As professoras tiveram a adesão de outros professores, idealistas, que pediam para serem transferidos para lá, adorando atuar em uma “revolução” didática, que se firmou e cresceu agigantou-se. No final de um tempo, a Casa Meio Norte recebeu um prêmio como uma das melhores escolas da capital, depois do estado, enfim, do Brasil. Cresceu, conseguiu patrocínio de empresária, tornou-se modelo. Qual é o método hoje? De acordo com Rutneia Vieira, coordenadora pedagógica da unidade de ensino, “os alunos recebem orientações singularizadas e são estimulados a conversar sobre suas emoções, com um currículo alicerçado na leitura e no raciocínio lógico”.

Ao voltar a São Paulo, publiquei uma crônica sobre a escola, que repercutiu tanto que a incluí em meu livro O Mel de Ocara. Aquele grupo audaz, de professores de vinte anos atrás, contempla hoje excelentes resultados educacionais.

A Casa Meio Norte acaba de obter o melhor Índice de Desenvolvimento da Educação (IDEB) do município. Dos anos inicias, com nota 7,9, saltaram para uma proficiência de 198,35 em 2011 e dali para 274,04 em 2021, na disciplina de Língua Portuguesa. Em Matemática, o último resultado é de 261,57.

Não fossem aquelas professorinhas a contar histórias, o que seria hoje?

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NÃO LEIA, PAI!

Por Wellington Soares, professor e escritor

Foi com estranheza que ouvi da Carolina, minha filha, essa recomendação acima. Ela se referia ao livro Rita Lee: outra biografia, lançado este ano pela Editora Globo. Diante do meu espanto, disse que o relato era triste, tristíssimo, daqueles que partem o coração de quem lê. Que tomada por forte emoção, parou a leitura nos primeiros capítulos. Desobediente como sempre, dei uma pausa em Salvar o fogo, o novo romance de Itamar Vieira Júnior, e caí de olhos na segunda autobiografia da nossa rainha do rock nacional, falecida recentemente aos 75 anos.

Ao dar cabo das quase 200 páginas, de um fôlego só, liguei pra Carol dizendo que havia amado o livro. Que, apesar do tema abordado – o tratamento a que se submeteu contra um câncer de pulmão –, Rita Lee nunca foi tão Rita Lee quanto nesse texto doloroso. Toda sua rebeldia e irreverência, bem como sua coragem em contrariar expectativas, estão presentes na linguagem crua e irônica que adotou. A começar por defender a eutanásia, não doirar os efeitos da rádio e quimioterapia e, em tom de humor, batizar o quisto cancerígeno de Jair, uma referência jocosa ao ex-presidente da República, a quem culpava pela morte de milhares de brasileiros durante a pandemia.

O câncer é uma doença das mais traiçoeiras que existe. Trabalhando em surdina, ele aparece quando menos se espera. Foi o que aconteceu com Rita Lee. Ao tomar a segunda dose da vacina contra a Covid, numa UBS de Taboão da Serra/SP, passou a noite tossindo e escarrando uma gosma estranha. Acreditando ser uma bronquite, o exame indicou câncer no pulmão. Como em todo paciente, o diagnóstico foi devastador, virando sua vida de cabeça para baixo. O consolo e alguns momentos de leveza, ela experimentou, dentre outras coisas, em contato com a natureza do sítio onde morava, com o amor do maridão e dos filhos e, sobretudo, com o carinho dos animais que criava.

Uma das passagens chocantes do livro, descrita com franqueza e honestidade, remete ao segundo ciclo da sua quimioterapia: “Fui ao banheiro fazer o número dois e qual não foi meu espanto quando fui me lavar e senti algo pendurado no meu cu que não era cocô”.  Pouco ligando à sensibilidade do leitor, Rita prossegue sem papas na língua, marca registrada da sua escrita: “Com nojo, usando papel higiênico puxei e a coisa foi saindo. Digo ‘coisa’ porque era uma espécie de tripa cor de carne crua com mais ou menos dez centímetros de comprimento”.

Finalizada a leitura, percebi o verdadeiro motivo do apelo feito pela minha filha. Além da tristeza do relato, Carolina queria me poupar dos detalhes de um tratamento oncológico em fase de metástase. Ainda mais porque seu “dad” acabou de extrair, por meio de cirurgia robótica, um câncer de próstata cujo resultado final continua em aberto. Logo, nada de grandes abalos neste momento de fragilidade emocional e física. Mas confesso que a ideia da eutanásia, defendida por Rita Lee, faz bastante sentido em determinadas circunstâncias de sofrimento. De preferência, com a gente deitado numa rede – num eterno dormir – e ouvindo Ovelha negra, Só de você, Flagra, Caso sério, Ando meio desligado, Mania de você, Lança perfume e tantas outras lindas canções da “Doce veneno” do nosso rock.

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Felipi à vista

Não é que vem aí, depois do sucesso de 2022, a 2ª edição da Feira da Literatura Piauiense. Ocorrerá entre os dias 31 deste mês e 2 de junho, das 10h às 22h, no Riverside Shopping. Os homenageados são dois expressivos nomes das nossas letras: Mário Faustino, poeta/tradutor/crítico/jornalista celebrado nacionalmente, e Clara Melo, jovem escritora que desponta como romancista e roteirista. O lema permanece o mesmo – Uma literatura que dá gosto de ler.

Os objetivos da Felipi, que   motivaram o surgimento do evento, são: “valorizar, divulgar e comercializar a produção literária piauiense, com seus respectivos autores, a fim de torná-la mais conhecida e consumida dentro e fora do estado. Além de fortalecer as editoras e livrarias locais”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas mesas-redondas desta edição, destacam-se assuntos que levantam questões instigantes da realidade local. Primeiro, o que falta para a literatura piauiense ser adotada nas escolas e universidades do Estado? Segundo, como anda nossa menosprezada literatura de cordel? Terceiro, alguém se lembra, por acaso, de nossos escritores negros e suas obras? E, por fim, quem dos nossos autores têm se dedicado à temática erótica? Tais respostas ficarão a cargo de convidados de notório saber, bem como da plateia.

Como em toda feira literária que se preza, boa parte da programação focará as crianças, futuros leitores e, quiçá, escritores também. Para tanto, haverá um espaço dedicado somente a elas, batizado de Felipinha, onde a tônica será o lançamento de obras infantis e a contação de histórias: “A bolinha mágica”, “Cabeça de cuia”, “As aventuras de Mily” e “O computador da mente”.

As atrações musicais terão, a exemplo do ano passado, momentos privilegiados ao longo dos três dias. Nos turnos manhã e tarde, nada menos que Flávio Augusto, Amanda Santi, Preto Kedé, Mário MC e Samba no Coreto. À noite, os showzaços de Patrícia Mellodi, As Fulô do Sertão e Validuaté.

Coroando a Felipi, teremos os saraus de Fernanda Paz (Rio ao lado), Elio Ferreira (Roda de poesia & tambores) e João Henrique Vieira (Palavra em torto canto), com seus respectivos poetas convidados. Sem falar ainda de recitais com o Coletivo Piauí Poético e Coletivo Sociedade Piauiense de Poesia.

Afinal, necessitamos de literatura ao lado, parafraseando Mário Faustino, envolvendo a gente, nos abraçando, de forma profunda e livre, como um ser amado e transformador.

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Celso Borges: “A poesia é maior que a morte”

 Por Wellington Soares, professor e escritor

A poesia é maior que a morte

O impacto foi tanto que guardo a cena até hoje na memória. Ano e local, lembro não, mas o poeta, vindo de São Luís, fixei seu nome na hora: Celso Borges, numa performance literária, reunindo versos e acordes de guitarra, soltando o verbo em Teresina: “Oi, oi, cadê a língua que se foi?/ Oi, oi, cadê a língua que se foi, hein?// Leiam minha língua/ Ouçam minha língua/ Lambam minha língua/ Rocem minha língua/ Beijem minha língua/ Chupem minha língua/ Mordam minha língua/ Comam minha língua/ Falem minha língua”.  

Maravilhado, fiquei quietinho, na cadeira, assuntando com atenção. Por nada deste mundo queria perder, do Celso, cada palavra falada e musicada dita – clarões se abrindo dentro da gente – de forma contundente e provocativa: “A posição da poesia é oposição”. Ali percebi, com ele, a força mágica da poesia, algo capaz de revolver nossas vísceras e sentimentos. Daí o medo dos tiranos, ontem hoje e sempre, dessa arte da palavra que, historicamente, desperta consciências e revoltas humanas.

Não tardou muito para Celso Borges, a meu convite, retornar à nossa capital, em 2017, a fim de participar do Salão do Livro do Dirceu (Saliceu), no campus Clóvis Moura da Uespi, onde reapresentou o mesmo espetáculo, desta vez sob o olhar curiosíssimo de uma galera jovem, formada por estudantes secundaristas e universitários. No final, o auditório quase veio abaixo, acredite, de tanto aplausos e assobios e gritos e urros e vivas. Será se gostaram?

E pensar que essa travessia poético-existencial começou em 1981, quando Celso publicou Cantanto, seu livro de estreia. Depois vieram uns outros dez títulos, entre os quais Persona Non Grata (1990), Belle Époque (2010), Fúria (2015) e Pequenos Poemas Viúvos (2020). Sem falar ainda, claro, das parcerias musicais com Zeca Baleiro e Chico César, oficinas poéticas, programas de rádio, curadoria de feiras literárias e, ufa, organização de livros coletivos (São Luís em Palavras).

A fim de espantar a morte pra longe, nestes tempos de Covid-19, que tal se ligar nas sábias palavras de Celso Borges, poeta maranhense que encanta o Brasil?

Seu novo livro, “Pequenos poemas viúvos”, tem dado o que falar, sobretudo, pelo título recebido. Pequenos poemas tudo bem, uma vez que os textos são curtos, mas a que viuvez se reporta na obra?

O prefácio assinado pelo poeta Samarone Marinho foi muito feliz na percepção dos poemas viúvos quando diz que eles invertem o sentido da perda, transformando ausência em presença, criações que vão além do inevitável universo da finitude.  Escolhi, principalmente, personagens da arte vivendo situações de limite, às vezes próximo da morte, e tentei de alguma forma encontrá-los naqueles momentos, inventá-los, poetizar fatos e experiências extremas. A palavra viuvez tem um peso muito grande, eu quis de alguma forma trazê-la para minha voz poética, tentando sentir o outro, imaginar o outro, inventar o outro. Há um sentido de perda, sim, nesses poemas, mas há sobretudo intenção de embrulhar carinhosamente, às vezes ironicamente, essa perda com poesia.

A gente morre e a poesia fica. Depois de tudo, sobreviveremos naquilo que inventamos e vivenciamos com a arte.

O que leva você afirmar, no último texto do livro, que a poesia é maior que a morte?

A gente morre e a poesia fica. Depois de tudo, sobreviveremos naquilo que inventamos e vivenciamos com a arte, com a poesia. Quero com esse verso ratificar a minha crença e percepção do real significado da poesia pra mim. Ana Cristina, Maiakovski, Pizarnik, Sousandrade, Yuka, Cortazar estão mais vivos do que nunca, maiores que a matéria que já não existe. A poesia é maior que a morte é também o título de um livro inédito que escrevi sobre a segunda morte de meu irmão Antonio José, que morreu aos 18 anos, quando eu tinha 13, em 1972. Mais de 40 anos depois, ele voltou a morrer quando a maioria de suas fotografias foi destruída pelos cupins. Criei poemas sobre a destruição, transformei em poesia. Foi uma vivência muito dolorosa, mas sobrevivemos.

Esse tempo de pandemia e isolamento social aumentou ou diminuiu sua criatividade poética e literária? Ou é indiferente?

A pandemia não me imobilizou, trabalhei muito, escrevi muitos poemas, finalizei dois livros em prosa (um ensaio biográfico e uma ficção), continuei fazendo meus livrinhos da série Poéticas afetivas, além de parcerias musicais com Nosly, Ivandro Coelho, Alê Muniz, Marcos Magah, Fernando Abreu, Sérgio Habibe e algumas canções solo. Terminei também um filme documentário, em parceria com o cineasta Beto Matuck, sobre o poeta maranhense Bandeira Tribuzi. Tudo isso, no entanto, não impediu que eu vivesse alguns momentos difíceis, crises de ansiedade e um doloroso sentimento de impotência diante da situação política. Sinto falta das ruas e dos amigos, mas a chama da criação continua acesa.

A estrutura não gosta da gente, às vezes finge que gosta ou nos tolera. Na verdade, prefere “poetinhas civilizados”.

Você ainda acredita que a posição da poesia, como expressou em performance pelo Brasil, é realmente a oposição?

Sim, cada vez mais. O sentido da oposição poética é muito mais amplo. Para mim, a posição da poesia é de enfrentamento político, de luta como cidadão e criador, não apenas partidária.  A estrutura não gosta da gente, às vezes finge que gosta ou nos tolera. Na verdade, prefere “poetinhas civilizados”, domados, acadêmicos, e eu procuro na contramão disso.

Letra de música deve ser, como as que você faz pro Zeca Baleiro, tomada como poesia ou são coisas distintas?

Não me preocupo muito com isso na hora de elaborar um poema ou uma letra de canção, mas acho que são estruturas distintas, embora possam dialogar esteticamente, se alimentar, criar atritos interessantes. Eu gosto desse desafio das possibilidades de troca entre um e outra.  Às vezes um poema de livro vira canção, outras vezes uma letra tem vida além da melodia que lhe foi sugerida. Há, também, letras de canções que precisam da melodia para se tornar grandes e  canções que enfraquecem o poema. Enfim, é um universo muito rico e cheio de nuances.  Sinto uma alegria enorme de compor com meus parceiros e privilegiado em poder dividir isso com algumas pessoas. A única palavra que não entra nessa troca é “sucesso”, um veneno que destrói a alma de muitos criadores. É claro que determinadas canções podem virar sucesso, mas nunca devemos colocar isso em primeiro plano.

Além de você, que outros poetas maranhenses, entre nomes já consagrados e contemporâneos, precisam ser lidos e amados?

Vou fugir dos consagrados (rsrs).Temos uma safra boa de poetas contemporâneos e não é tão simples nominá-los, porque toda escolha é excludente, a gente sempre deixa de lado artistas importantes. Mas vamos lá: Fernando Abreu, Luís Inácio, Josoaldo Lima Rego, Reuben Rocha, Lúcia Santos, Dyl Pires, Adriana Gama de Araújo, Jorgeana Braga, Antonio Ailton, Kissyan Castro, Carvalho Júnior etc.

O que é, para que serve e o que lhe deu a poesia até hoje?

A poesia me deu a possibilidade de reinventar a vida e dividir isso com os outros. É por meio dela e por causa dela e da arte que procuro dar um sentido à minha existência e aos diversos mundos que vivencio com as pessoas. Tudo passa pelas possibilidades da palavra e das imagens. Vivo disso e pra isso. Viva!

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