Wellington Soares
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Elio Ferreira: ” Poesia é o que sou, o que sinto, o que penso e vivo no mundo”

ENTREVISTA / Por Wellington Soares, professor e escritor

 

 

Muitas são as pessoas que escrevem poesia, mas poucas as que encarnam, literalmente, o significado do termo. Uma dessas é, sem dúvida, o Élio Ferreira, florianense da gema que, aos oito anos, já improvisava os primeiros versos. Mas tudo começou, faz questão de frisar, ao ouvir as fábulas orais de matriz africana e indígena, bem como as narrativas de experiências vividas, contadas pelos pais, familiares e amigos.

Depois vieram as leituras, na adolescência, de grandes nomes da literatura nacional. Entre eles, Machado de Assis, José de Alencar, Gonçalves Dias, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Manuel Bandeira. Foi essa combinação de “escrevivências” e gosto pelos livros que o arrastou, de forma irremediável, aos braços sedutores da poesia – a ser o que é, o que sente, o que pensa e, sobretudo, a encontrar sentido em viver.

São muitas as imagens que guardo na memória dessa relação, íntima e amorosa, do Elio com a poesia declamada ou lida, dentro e fora do estado. Primeiro, ele recitando seus textos, como autêntico poeta-performer, em tudo que é canto. Praças, escolas, universidades, rodoviárias e Palácio do Karnark, sede do governo do Piauí. Para tanto, pintava a cara de branco, usava um blusão colorido (ou capa preta) e, o mais importante, empunhava um pequeno megafone, por meio do qual soltava o verbo e petardos de versos.

Ao homenageá-lo em 2019, na Balada Literária/PI, tive a oportunidade de conhecê-lo melhor e de perto. Estivemos juntos em Floriano (sua terra natal), Oeiras, Parnaíba, Teresina e São Paulo, onde também é conhecido e celebrado. Foram dias compartilhando paixões comuns sobre livros, música, cinema, educação, cultura e sonhos de um Brasil realmente democrático e solidário. Nessas travessias, deparei-me com, além de poeta extraordinário, uma figuraça humana sem igual.

Como bom papeador, aqui Elio Ferreira fala de quase tudo, sobretudo, das obras lançadas – Poemartelos, O contra-lei, América negra, entre outras –, das autoras e dos autores que ama, das histórias ouvidas dos pais e tias, da formação acadêmica e, humildemente, dá “conselhos” aos jovens que estão pensando em trilhar esse desafiador caminho de ser escritor. Antes, porém, avisa: “O poeta negro é um estado permanente de amor e indignação, um cavalo de Ogum em compromisso com a História e a vida das pessoas negras”.

 

Conceição Evaristo diz que o importante não é ser o primeiro ou primeira, o importante é abrir caminhos. Sua literatura reflete essa ideia também?

Não tenho como afirmar, categoricamente, em que circunstâncias Conceição Evaristo fez essa afirmação. Mas sei o que isso significa para nós, escritores negros e escritoras negras. De certo, minha poesia abriu caminhos para mim mesmo e, creio que, de algum modo, para a consciência da negritude dos jovens leitores e poetas negros. Poesia é o que sou, o que sinto, o que penso e vivo no mundo. Não sei o que seria da humanidade sem a poesia e os poetas. Isso pode parecer para muitos que estou blefando ou perdi a razão. Poesia é fogo no monturo. Poesia é incêndio silencioso no oleoduto. Poesia é água de beber para matar a sede da gente. Temos o anseio inadiável de contar as experiências de dor e esperança pessoal e coletiva das pessoas negras. Vivenciamos o presente e o passado para restabelecer a tradição de cantar/contar como a performance dos griots/diéli, a herança oral dos nossos ancestrais contadores de história oriundos da África, transmitida de geração em geração pelos nossos pais e avós. O significado de abrir caminhos também diz respeito à recusa do preconceito, do racismo estrutural, da invisibilidade social, da crueldade, do genocídio brutal e costumaz contra as crianças e os jovens negros e pobres no Brasil. O que é de fato abrir caminhos? Reporto-me aqui à sabedoria dos provérbios africanos, em particular a esses versos bambaras: “O que eu sei/eu aprendi de alguém/o que se diz hoje/desde sempre existiu”. Nada me faz crer, se, em alguma ocasião, fui “o primeiro”, tampouco tenho a dimensão exata do que seja “abrir caminhos”. Improvisei os primeiros versos aos oito anos. Mas só escrevi o primeiro aos dezessete. Antes disso, não pensava em escrever livros. Eu queria ser jogador de futebol. Mas a poesia me acessou. Se “abri caminhos”, foi como protagonista de determinadas intervenções literárias, culturais, educacionais de caráter étnico-racial. O poeta negro é um estado permanente de amor e indignação, um cavalo de Ogum em compromisso com a História e a vida das pessoas negras. Um povo é respeitado quando sua história é contada por seus poetas. Não foi por acaso, que o Movimento Negro Unificado – MNU, os Cadernos Negros e demais grupos literários e sociais afro-brasileiros foram avante até resultar na Lei 10.639/2003, assinada pelo então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tornando obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana na Escola de Ensino Básico do Brasil. Anos posteriores à abertura política de 1978, deu-se o início ao ingresso de autores/as negras no MNU-Movimento Negro Unificado, Negrícia etc., incluo-me entre os ingressos no MNU/Brasília, em 1984. Essa experiência me levou a tomar consciência do papel social como autor negro, embora, antes disso, os versos do Canto sem viola (1982/1983) já contassem minha história, dos meus pais, tias, avós negros e amigos da rua do Ouro, hoje rua Fernando Marques, em Floriano (PI). O fato é que os autores negros tomaram mais consciência e o compromisso de interferir na realidade a favor da população negra, narrando e cantando suas “escrevivências”, termo postulado por Conceição Evaristo para significar as experiências pessoais e coletivas vivenciadas por autoras e autores negros, o que difere em vários aspectos da autobiografia dos autores brancos.

O que você lembra dos primeiros passos na leitura e na escrita?

Falar de escrita sem antes me reportar à tradição oral, como as histórias contadas sob a luz do luar da minha antiga rua do Ouro, hoje rua Fernando Marques, na periferia de Floriano, seria um grande equívoco da minha parte. Fui iniciado pelos contadores/as de contos e fábulas orais de matriz africana e indígena, as narrativas de experiências vividas, contadas por pessoas mais velhas, como meus pais, tias e amigos. Além das cantigas de roda, de ninar, de bumba meu boi, macumba, reisado, Casimiro Coco, repentes, versos de cordel, canções do rádio, filmes sobre a mitologia grega e romana, dramas circenses, entre outros, foram esses os primeiros contatos com a cultura literária. Quando menino, enquanto puxava o fole para esquentar o ferro, na oficina de ferreiro do meu pai, ele me contou que “os americanos” tinham ido à Lua e, desde então, haviam estabelecido relações comerciais de compra e venda com os habitantes da Lua. Isso antes de o primeiro homem pisar na Lua. Mas foi, de fato, na REVISTA NORDESTE que tive os primeiros contatos com a poesia de autores letrados. Sou órfão de mãe desde os 6 anos. Meu pai era um amante dos livros, embora tenha cursado apenas o terceiro ano primário. Lembro da pequena quantidade de livros na estante da minha casa, como a Bíblia Sagrada, ilustrada; a Coleção da Gramática Ilustrada da Língua Portuguesa, de Alpheu Tersariol; o romance O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Dos 17 aos 20 anos, ainda em Floriano, li Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Gonçalves Dias, Cecília Meireles, João de Deus, cordéis, gibis e livros de faroeste. No mesmo período, comecei a recitar os meus poemas nos eventos da escola e publicá-los no Jornal Tribuna do Sul, em Floriano. De 1976 a 1979, cursei Letras no CEUB/Brasília. Nesse período, estreei no teatro como ator no papel de Severino, personagem principal de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Tornei-me um leitor voraz de poesia, romance, conto e teatro. Li de Homero a Pound, passando por Sousândrade, concretistas, tropicalistas e Beat Generation, sem falar de Solano Trindade e Luiz Gama, bem como dos meus autores contemporâneos, os chamados “poetas marginais” dos anos 1980 (denominação que repudio). Em 1983, publiquei os livros Canto sem viola e Poemas de Nordeste. Junto com os poetas jovens Alex Fraga, Altair, Gutemberg, Guimarães Rocha, entre outros, criamos o Movimento dos Escritores Independentes de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, quando oxigenamos a literatura daquela cidade. Organizamos a Antologia dos poetas independentes do MS. Realizamos a Primeira Noite de Poesia, no Paço Municipal de Campo Grande/MS, com show musical e a presença de um grande público. Fizemos uma grande Caminhada de Poesias em homenagem ao poeta Manoel de Barros, de quem me tornei amigo e tomei lições de poesia. Tornei-me ativista dos movimentos de preservação do Pantanal contra a matança indiscriminada de jacarés e a poluição dos rios. Escrevi poemas de denúncia contra a morte do líder indígena Marçal de Souza (Tupã Y), motivado pela grilagem de terra feita pelos ruralistas do agronegócio.

O fato é que os autores negros tomaram mais consciência e o compromisso de interferir na realidade a favor da população negra, narrando e cantando suas “escrevivências”

O rio Parnaíba é tema recorrente em quase todos os poetas piauienses. De que maneira ele aparece em sua obra?

“O que fizeram das águas do rio Piauí,/O que fizeram de mim,/Nesta noite de alecrim” (Canto sem viola, 1982). Floriano é situada num estuário. Ali as águas de 26 riachos desembocam direto ou indiretamente no rio Parnaíba. O meu imaginário infantil emergiu das águas dos riachos da minha cidade, os quais fazem parte das experiências e descobertas da infância, como o riacho do Cacimbão, que passava detrás do fundo do quintal da minha casa, os riachos Irapuá, Meladão, Veredinha, entre outros, onde aprendi a nadar. Já os riachos da Onça e do Gato entram no poema pelas imagens do leito poluído e o mau cheiro dos esgotos, lançados pelos sobrados e hospitais do centro da cidade: “riacho da onça grunia/as vísceras do sobrado” (Poemartelos, 1986). Nossa casa ficava no alto da cidade, no morro, à distância de 1,5km do rio Parnaíba. O meu pai proibiu, terminantemente, a mim e ao meu irmão, Vitorino, que tomássemos banho no rio, por razão dos constantes afogamentos de crianças e adolescentes. Minha experiência corporal e afetiva com o Parnaíba dá-se, em particular, entre 17 e 18 anos, quando, aos domingos, ou à noite, pescava para completar as refeições de algum dia da semana. Anos mais tarde, quando retornei de Brasília, o rio Parnaíba ocupou, de vez, o meu imaginário poético. Mas os tempos eram outros, de espaço de diversão e deleite, pertencimento identitário, motivo de preocupação pelo assoreamento do seu leito. No entanto, o Canto sem viola, meu livro de estreia, narra episódio de aparecimento do Cabeça-de-cuia no rio Parnaíba. No Poemartelos, o rio é testemunha e cúmplice da travessia de casais enamorados que fogem para se casarem na outra margem do rio, na cidade do Barão de Grajaú (MA), sob a anuência do Padre José. O rio é também lugar de infortúnio, onde, especialmente, mulheres pobres e negras penitenciam na miséria das casas de prostituição. Em O contra-lei, o rio é cantado em dimensões lírica e metafísica: “à margem da imagem/é o rio correndo dentro de mim/atravesso a cidade,/onde não sou mais/nem o começo,/nem o fim”.

Os autores negros têm merecido, a exemplo de Carolina Maria de Jesus e Lima Barreto, o reconhecimento necessário no Brasil?

Antes, quero me reportar aos CADERNOS NEGROS, o mais importante e longevo periódico da literatura afro-brasileira contemporânea, fundado em 1978. Desde então, tem sido publicado todos os anos, ininterruptamente. Quanto a Carolina Maria de Jesus e Lima Barreto, esses autores não têm ainda o merecido reconhecimento. Quarto de despejo (1960) foi o maior sucesso da época, com a venda de 80 mil exemplares durante um pequeno espaço de tempo, além de sua tradução em 13 línguas diferentes. Apesar do sucesso, no final de sua vida, Carolina tornou a ficar muito pobre e a catar papel para sobreviver. O que, certamente, não ocorreria, caso fosse branca, pois, sem dúvida, lhe teriam ofertado uma coluna literária em jornais impressos famosos da época. Algo semelhante ocorrera a Lima Barreto, que morreu muito pobre, vitimado pelo racismo e pela falta de oportunidade, inegavelmente, a causa principal de sua depressão e do mergulho no alcoolismo. Lima é lembrado pela crítica oficial apenas como autor Pré-Modernista, negligenciando-se o talento do romancista, contista e cronista perspicaz da vida urbana da sociedade carioca dos primeiros anos do século XX. Cruz e Souza também não foi poupado do racismo à brasileira, ao ser impedido de assumir o posto de Juiz, por ser negro, na sua cidade natal. As grandes editoras nacionais, excetuando-se algum caso especial, ainda têm reservas no que tange à publicação da obra de autores/as negras. Contudo, nos últimos dez anos, observa-se o reconhecimento de obras da literatura negra no Brasil, motivado, especialmente, pela crítica literária afrodescendente procedente dos estudos investigativos dos núcleos de pesquisa afro e programas de pós-graduação de várias universidades brasileiras. Autores negros de sucesso em sua época, posteriormente silenciados, como os citados acima, e novos nomes, como Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Itamar Vieira, Jefferson Tenório, entre outros, têm se projetado nacional e internacionalmente para um número considerável de leitores. Contudo, o reconhecimento dos autores e autoras negras brasileiras continua sendo um ideal a ser conquistado.

Qual dos seus livros expressa, de forma satisfatória, as inquietações políticas, sociais e estéticas que permeiam sua existência?

A parte I do Canto sem viola já anuncia alguns temas, cantares e estéticas da minha poesia atual. Mas foi o Poemartelos a explosão inicial notabilizada pelas inquietações do projeto político, social e estético da minha experiência poética. Escrevi a grande parte deste livro em apenas uma noite. Foi como um vulcão saindo da minha cabeça ‒ sons de martelos contra o ferro na bigorna, memórias das vozes da oficina de ferreiro do mestre Aluízio Ferreira, o meu pai; os sons das histórias e cantigas das minhas tias e da oficina de flandreira de tia Aleluia. Aquela velocidade e os ritmos da fala tomaram conta da minha escrita oral como uma teia de aranha, uma espiral de poetar e contação de histórias vividas e inventadas, que atravessaram os caminhos da infância e entraram porta adentro naquela noite/madrugada adentro num quarto de Hotel, em Manaus. Lugar esse que me pareceu ser mais uma nave do que um quarto de dormir. O contra-lei (1994) foi outro momento de conquista para o poeta performar, do poema de versos curtos e longos tão musicais por sons onomatopaicos que, segundo Rubeni Miranda, eram mais musicais do que a própria música e, por isso, difíceis de serem musicados. Enfim, versos de reivindicações políticas e sociais, muitos dos quais se tornaram letras de rap na década de 1990, quando fui MC, junto com Gomes Brasil, da banda Os contra-lei. Esse livro foi intenso e vital para ganhar as ruas, praças, rodoviárias, estação de metrô, escolas e universidades, portando megafone, uma capa preta, o parangolé da bandeira do Brasil. Nasceu à proporção que ia lendo a Mitologia dos Orixás, a teoria do Big Bang, O livro de gênesis, O livro do apocalipse, As mil e uma noites, relendo Sousândrade, Os Lusíadas etc. O livro América negra (2004) foi o grande salto para a negritude. Os poemas cantam, particularmente, a história da resistência negra, da diáspora africana, da ancestralidade, da mitologia dos orixás, embora as obras anteriores tratem das experiências e estéticas da poesia negra. Por último, o livro América negra & outros poemas afro-brasileiros (2014) é o livro que traduz o ponto mais alto dos temas, princípios filosóficos e estética da negritude na minha poesia.

Que sensações você experimentou ao ser homenageado na Balada Literária 2019, evento cultural da maior importância no país?

Só sei dizer que foi bom demais. Foi mais do que emocionante. Algo deslumbrante, uma epifania de experiências e sentimentos, que somente a Balada poderia me proporcionar. Reencontrei amigos. Conheci nomes e grupos de poetas da nova geração de autores brasileiros. A Balada me recolocou no itinerário das performances poéticas das cidades Oeiras, Floriano, Paranaíba, Teresina e São Paulo. Foi uma verdadeira maratona de performances e cenas literárias e poéticas. Vivenciei momentos que marcaram minha vida de escritor e homem comum.

Aos jovens que desejam ser poetas, os negros em especial, que sugestões você daria?

Em primeiro lugar, que contem sua própria história. Escrevam a partir das experiências vivenciadas por eles/elas e das experiências coletivas, protagonizadas pelo sujeito negro como seus pais, tias, irmãos, pessoas do grupo étnico-racial e dos ancestrais. Peço que leiam os Cadernos Negros (publicação mais longeva da literatura brasileira contemporânea) e autores como, entre outros, Ana Maria Gonçalves, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Cruz e Sousa, Cuti, Geni Guimarães, Itamar Vieira Júnior, Jefferson Tenório, Maria Firmina dos Reis, Machado de Assis, Salgado Maranhão, Tânia Lima. Reescrevam tantas vezes quanto for necessário para pegar o ritmo da fala e/ou o cantar/olar na batida dos tambores. A literatura escrita por autores negros requer música e oralidade, do jeito da fala, das vozes, motivos temáticos e cantares da nossa ancestralidade. A história pessoal e da comunidade negra é o trunfo mais prolífero e promissor de boa literatura, porque é nosso lugar de pertencimento e experiências vividas e compartilhadas. Tony Morrison, romancista negra dos EUA, Prêmio Nobel de Literatura, afirmou, certa feita, que a literatura negra está, intrinsecamente, ligada à música e às narrativas contadas oralmente pelas pessoas mais velhas da nossa família. Intuitivamente, essa estratégia é comum, de cantar e contar, à poesia do livro Canto sem viola (1983), meu livro de estreia. Isso me tornou mais consciente da minha história e do meu estar/agir no mundo enquanto poeta. Façamos também da herança griot, dos contos e das canções de matriz africana, o lúmpen da nossa poesia. Recomendo ainda o estudo da História do negro no Brasil, a Diáspora negra nas Américas e a História da África. Enfim, não há pessoa mais indicada para contar a sua história e a dos ancestrais negros, senão o próprio negro. Cada poeta tem sua própria experiência de vida e poesia.

Outra sugestão importante: faça a poesia saltar do papel. Escreva uma poesia para ser falada, com palavras sonorizadas. Faça o que for possível para a poesia ser ouvida, cantada, sentida, aplaudida ou mesmo vaiada. Em outras palavras, não há limites para o poeta, nem do ponto de vista temático, nem estético. As duas coisas andam juntas, de mãos dadas, lado a lado – unha e carne. Essas foram algumas das dicas do e para o poeta-performance que me tornei, falando poemas com megafone nas ruas, praças, rodoviárias, escolas, em tudo que era canto. Sem faltar ainda cara pintada, blusão ou casaco colorido (depois capa preta), parangolé da bandeira do Brasil (quando ainda era proibido vestir a bandeira do Brasil). Hoje, infelizmente, virou uma selvageria cheia de ódio saindo pelas ventas. Se possível, recite poesia acompanhada (ou não) por instrumentos musicais. Digo isso também porque se o poeta não souber tocar um instrumento ou não tiver um músico que o acompanhe, ele poderá emitir fonemas onomatopaicos, repetir versos e palavras no início, no meio e/ou no final de cada verso, conforme o imperativo exigido pelo poema para ser falado, gritado, guturalizado ou cantado.

THIAGO E: “Gosto quando paira uma graça flutuante nas coisas que invento”

ENTREVISTA / Por Wellington Soares, professor e escritor 

 

Foi ainda quando fazia parte da Validuaté, banda de pop rock, que descobri o talento literário e musical do Thiago E. De tanto ouvir na FM Cultura, dei pra cantarolar, mesmo desafinado, “A lenda do peixe francês”, música das mais conhecidas da banda piauiense, com letra sua e melodia de José Quaresma: “Era uma vez um peixe francês/ Soturno e muito triste/ Se perguntava: será que existem maiores mágoas/ Que as minhas nestas águas?”. Depois o vi pessoalmente, em show no Centro Artesanal, dedilhando, com maestria, um cavaquinho, fato que só aumentou minha admiração por ele. A faceta poética já era perceptível nessa e noutras de suas composições.

Mas foi no livro de estreia, Cabeça de sol em cima do trem, que isso clareou de vez e em definitivo. A começar pelo autorretrato que Thiago faz de si próprio: “músico em reabilitação labiríntica, professor com problemas de visão e gago integrante da banda Validuaté”. Em capa dura e projeto gráfico primoroso, lançado pela Editora Corsário, o livro nos possibilita levitar, através de distintas formas de linguagem – versos, prosas e desenhos – em suas viagens criativas por universos estéticos, oníricos, experimentações linguísticas e doses de afetividade. Tudo movido pelo senso de humor como forma de existir, bem como sem esquecer os referenciais literários nos quais costuma beber: Torquato Neto, os irmãos Campos, Jorge Mautner e Arnaldo Antunes.

Depois de um time na escrita, que durou oito anos, ele retornou, pra felicidade dos leitores, com outro livro supimpa de bonito – Os gatos quando os dias passam, declaração de amor escancarada aos felinos que marcam e inspiram sua vida. Em poemas que vão do haikai, instantâneos marcados pelo lirismo e concisão, até a fragmentação concretista, com palavras se esparramando no chão, feito bichanos, em poses enigmáticas e múltiplos significados. Para ilustrar alguns textos, Thiago E mostra também o olhar peculiar e sensível de fotógrafo, clicando gatos que vivem dentro e fora da sua casa, em Teresina, capital do Piauí, cujos habitantes são, de acordo com pesquisa do IBGE, seus maiores amantes no Brasil.

Ao conhecer sua obra, constatamos que Thiago, em tudo que mete a mão, deixa certa graça flutuante nas coisas que inventa: letras de música, livros, instrumentos que toca, revistas que edita, CDs poéticos e projetos cultuais em que se envolve. Ele mesmo, em pessoa, encarna leveza e descontração. Não é pra menos, convenhamos, pois tem como pais Neide e Zorro, duas figuraças em quem se espelha, e, companheira de todas as horas e travessias, a bela Maíra.

Endossando o que disse sobre ele Jorge Mautner, prestemos muita atenção a tudo aquilo que este poeta, na acepção plena do termo, faz e produz em termos artísticos.

De acordo com Manoel de Barros a poesia não existe para comunicar, mas para comungar. Por meio de quais ideias e sentimentos sua arte tem atingido tal propósito? 

É infinito o debate sobre arte e comunicação. Baudelaire já disse que “o mundo não marcha senão pelo mal entendido”. Augusto de Campos escreveu: “só o incomunicável comunica”. Mas com quais sentidos empregamos os termos? No dicionário do Bluteau, “comunicar” alguma coisa é dar a alguém parte dessa coisa. É “fazer comum”, “fazer participante”, unir. E o Houaiss traz “comungar” como “ter em comum, partilhar, ter relações com, comunicar”. Então, são sentidos entrançados. Mesmo quando não quer isso, a poesia pode comunicar e comungar… Meu prazer é tentar atingir “tal propósito”. Se escrevo ou componho, jogo com a tradição, intico a versificação, atiço as letras pra gerarem música, quero aprender a deixar a visão livre, sou movido pelo senso de humor como forma de existir. Gosto quando paira uma graça flutuante nas coisas que invento. É inconsciente, às vezes nem percebo. Já escrevi trabalhos sérios e depois pessoas me disseram que acharam engraçado. Tomara que meu humor seja uma espécie de ímã para a comunhão.

Que aspectos da infância e da adolescência, de garoto pobre, marcam seu itinerário musical e poético? 

Desde que me desentendo por gente, minha mãe repete expressões do interior do Piauí: “Que labacé é esse?”, “Vão com relaboque pra lá”, “Isturdiinha ele caiu nos zói chorando”. Nosso piauiês é massa, faz prestar atenção nas palavras. Minha mãe batalhou por bolsas pra mim: estudei em escolas que me despertaram a delícia de ler. Com pouca grana, Dona Neide me ensinou a criar com o suficiente. Seria o começo da minha preparação à arte do haikai? Não dava pra perfumar a flor. Do dinheiro contado às sílabas contadas? Uma das primeiras músicas que lembro ter me impressionado foi “O pulso”, dos Titãs. Ainda criança, assisti no Faustão uma marionete de esqueleto dançando ao som de nomes de doenças! Eu também já adorava pagode, rap, samba e chorinho. Ficava brigando com a antena da televisão pra melhorar a imagem da TV Cultura, da TV Educativa. O sinal era péssimo! Às vezes eu só ouvia os programas Roda Viva, Provocações, Arte com Sérgio Britto, Comentário Geral, Ensaio etc. Minha família me achando doido. Eu tentando escutar as entrevistas na TV fora do ar. Nessa época, ganhei pandeiro e cavaquinho. Compus meu primeiro pagode aos 16 anos pro ônibus que eu pegava, “Buenos Aires via Aeroporto”. Nas apostilas do ensino médio, descobri Augusto dos Anjos, poesia visual e, enfim, que o cantor daquele rock era Arnaldo Antunes. Anotei o site dele e, pela primeira vez, fui à lan house, com um caderno. Copiei textos, desenhei os poemas visuais. O cara da lan house perguntou por que eu não imprimia. Só ali, soube que existia impressora! Mas era caro. No fim da adolescência, durante o Salão do Livro do Piauí, vi o livro do Arnaldo As coisas à venda. No bolso, eu só tinha a passagem do ônibus pra voltar. Li uns 3 poemas. A vendedora chegou e perguntou: “Não vai comprar?”. Agradeci, dei uma volta e retornei. Lia mais 3 ou 4 poemas. Ela de novo: “Não vai comprar?”. Eu agradecia, saía. Demorei uns 3 dias pra ler As coisas inteiro.

Na língua, me fascina a música. Na canção, me fascinam as formas da língua. Sou feito dessa mistura de música e literatura.

Em que momento da vida nasceu o desejo de ser artista e quando, de fato, você reconheceu ter chegado a esse ponto? 

Talvez na adolescência, assistindo artistas incríveis na televisão, comprando cancioneiros nas bancas, buscando pegar de ouvido os chorinhos do Waldir Azevedo, do Pixinguinha. Provavelmente, me reconheci poeta em 2004, quando Demetrios Galvão me chamou pra ir à Roda de Poesia e Tambores, produzida pelo querido Elio Ferreira no Clube dos Diários, e ganhei o prêmio de melhor poesia falada. Acho que me vi como músico pela primeira vez em 2005. A Validuaté fez uma grande apresentação na Central de Artesanato, durante o Salão de Humor. Lotado. Muitos conheceram a gente ali, e o nome da banda começou a circular em Teresina.

Destaque a relação existente entre música (Validuaté) e poesia (livros) na sua obra? 

Na língua, me fascina a música. Na canção, me fascinam as formas da língua. Sou feito dessa mistura de música e literatura. Começamos a Validuaté em 2004. Eu tinha 18 anos. Fiquei na banda até 2016. A letra “Pelos pátios partidos em festa” existe porque li Roberto Piva. “Mundo multidão mil” é um verso do português E. M. de Melo e Castro. “Céu%” e “O mar e o pano” elaborei quando eu estava deprimido. No consultório, esperando pra falar com o médico, tinha uma revista. Encontrei um poema do García Lorca: “o mar sorri ao longe / dentes de espuma / lábios de céu”. Inspirou. É o que a psicanalista Roudinesco fala: “por amor ao que a angústia nos proporciona”. Após leituras de Ferreira Gullar, “O Hermeto e o Gullar”. “Plaina Maravalha” surgiu do papo com o parceiro Quaresma, e da frase do Tchekhov que vi na TV: “Um cão faminto só tem fé na carne”. “Superbonder”, “A Lenda do Peixe Francês”, “O escuro”, são inúmeras referências literárias. Procuro incorporar o que as artes ensinam: os poemas ampliam a percepção, e a vida ganha mais potência, alguma alegria. Juntar poesia e música vem de ouvir Marina Lima, Jorge Mautner, Dona Ivone Lara, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Celso Borges, Adriana Calcanhotto, Racionais, Arnaldo Antunes, Rita Benneditto, Rita Lee, Grupo Rumo, Luiz Tatit, Itamar Assumpção, Cid Campos… Com Joniel Veras, lancei agora o single “Ave Mautner”. Jorge Mautner participa interpretando trechos dos seus livros Fragmentos de Sabonete e Fundamentos do Kaos.

Em 2013, ocorreu sua estreia literária, com Cabeça de sol em cima do trem. A receptividade que o livro teve, dentro e fora do Piauí, correspondeu às expectativas? 

Jamais imaginei que, no geral, seria tão bem recebido. Lancei livro e disco (produzido por Jan Pablo). São trabalhos distintos. Cabeça de sol em cima do trem reúne textos extremamente diferentes. Recebeu comentários negativos e positivos. Hoje vários aspectos do livro me incomodam. É natural, não sou mais aquele autor. Enfim, há coisas que só aprendemos publicando. Uma satisfação: o livro foi bem lido. Agradeço imenso ao Manoel Ricardo de Lima, que escreveu crítica no O Globo: “Thiago, a certa altura, no poema “Manhã”, diz que estamos o tempo inteiro diante de um ‘cinema sem emprego industrial’. Isto é político: manter o poema vivo, movente, correr todos os riscos. Um pouco de aventura.” Jotabê Medeiros publicou no Estadão uma matéria sobre o disco. Até Arnaldo Antunes comentou o álbum: “Fazia tempo que eu não curtia assim um trabalho de poesia. Palavra-lâmina afiada em voz. Sua leitura, clara e expressiva, junto aos variados experimentos sonoros do Jan Pablo, resulta em quase-canções, que vitalizam os já surpreendentes poemas.”

Ao apresentar Os gatos quando os dias passam, Tarso de Melo diz que os felinos são eternas fontes de espanto-aprendizado para os poetas. Como esse binômio se materializa no seu segundo livro? 

Quando morava no bairro Pirajá, adotei três gatas. Segundo o IBGE, o Piauí é o estado brasileiro que mais possui casas com gatos. Anos ao lado delas me transformaram. Pau-sa-da-men-te. Para crescer, o ser humano engatinha, anda só após imitar um gato. Recordo a sabedoria Guajajara da amiga Aliã Wamiri: “o tempo é passado de animais”. Pela felinidade, chego ao haikai, podemos adquirir uma consciência inconsciente, agir pela não ação, comunicar por um vocabulário sensorial. Repare. Neste século em que tanta gente mal dorme, e sonha pior ainda, é bom observar os gatos: dormem setenta por cento do tempo, e não separam realidade e sonho. Ouça. O sonho, antes de ser visto, é apalpado. É o cafuné que planta na cabeça o sonho. Por isso, ao pôr os dedos na moleira do gato, seus olhos se fecham em pequenos espasmos: sete vidas assistindo às pálpebras por dentro.

Este ano as luzes estarão voltadas para o centenário da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo e que deu uma boa chacoalhada na cultura nacional a partir de 1922. Quais características temáticas e formais sua obra herda desse movimento? 

No ensino médio, nunca esqueci o impacto que tive ao ler: “Há poesia / Na dor / Na flor / No beija-flor / No elevador”. Esse poema do Oswald de Andrade, “Ballada do Esplanada”, mudou minha sensibilidade. Botar elevador na poesia? Em seguida, conheci o “Amor / Humor”. Poema com uma palavra? Tocou meu coração-menino. Os desdobramentos da Semana de Arte Moderna são inúmeros e bastante complexos. Sendo brevíssimo, talvez eu tenha herdado o prazer do jogo com a linguagem, uma ironia lúdica, a vitalidade do imaginário, o apreço pelo paradoxo, a contestação das formas fixas mesmo adorando versificação – por isso admiro Manuel Bandeira, ele sabia de tudo e fazia tudo diferente.

VALÉRIA SILVA: “Escrevia para mitigar a ausência da minha mãe”

ENTREVISTA / Por Wellington Soares, professor e escritor 

 

Estava em casa, deitado na rede, numa malemolência gostosa, quando recebo uma mensagem da Valéria Silva, via WhatsApp, dizendo que acabara de escrever um livro sobre a família dela. Na verdade, fez questão de destacar, um tributo à sua mãe. E gostaria de ouvir, por ser uma escritora de primeira viagem, a opinião de alguém experiente nessa área. No caso, este aprendiz das labutas literárias, seu amigo desde as lutas estudantis na Universidade Federal do Piauí (UFPI), nos anos de 1980.

Queria saber, com franqueza, se valia a pena ou não publicar o livro. Um calhamaço de quase 500 páginas, O Baú de Faustina, já todo digitado e capa desenhada pelo filho. Diante de tal apelo, só restou-me iniciar a leitura imediatamente. Logo nas primeiras 30 linhas senti, maravilhado, o fôlego da história dessa brava nordestina que, a exemplo de tantas outras, simboliza a luta pela terra e o amor pelos filhos.

Sob a perspectiva de Faustina, a narrativa resgata sua trajetória de vida, pelejas no campo, valores e crendices, necessidades suportadas em silêncio, dureza em criar os filhos, conflitos familiares, amor pelo marido e luta tenaz por um pedaço de terra. Tudo contado, o que dá maior veracidade ao relato, com seu próprio vocabulário interiorano, por meio de suas referências linguísticas. Ao final, temos um perfil comovedor de uma mulher que alia humildade e determinação.

Foi ao ler O Baú de Faustina, virando algumas noites, que conheci melhor a Valéria Silva, autora do romance. Percebi ali de quem ela herdara, quando defendíamos a democracia e o fim da ditadura militar, tanta coragem nos embates com a repressão e na defesa intransigente das universidades públicas. Apesar das misérias humanas causadas, sobretudo, pelos latifundiários, gananciosos e desumanos, o livro traz uma mensagem de esperança.

Não tenho dúvida de que a Valéria, com essa obra de estreia, conseguiu aplacar, se não de todo, pelo menos um pouco da ausência da querida e saudosa mãe. Como também inscrever seu nome entre as promissoras revelações da literatura piauiense contemporânea. No mais, torcer para que ela continue nos presenteando com outras belas histórias.

No romance Torto arado, de Itamar Vieira Júnior, encontramos a seguinte frase: “O sangue do passado corre feito um rio. Corre nos sonhos, primeiro. Depois chega galopando, como se andasse a cavalo”. Que acha dessa afirmação? 

Percebo-a cheia de verdades. De fato, sempre estamos trilhando nas sendas das nossas pertenças ancestrais, culturais etc. Especialmente, nos enredamos com os afetos, aqueles que nos fazem como pessoa. Por vezes, não percebemos, mas seguramente aquilo que construímos pela vida afora, repousa no “sangue do passado”. Claro, matizado pela experiência única de cada pessoa, contudo inextrincavelmente articulado à sua memória.

Quando comecei a escrever O Baú o que mais me chamou a atenção foi a quantidade de memórias que eu havia guardado. Na verdade, memórias de mim. Normalmente, demandava-as aqui e ali, entretanto sem perceber a dimensão do que eu havia retido. Primeiro, chegavam despretensiosamente, uma a uma. Depois, realmente em corredeira, como um imperativo, um sujeito desejante de luz. E aí, já precisava anotar esta, aquela e mais outra para, oportunamente, escrevê-las de modo adequado.  E surpreendi-me também com a força que tem a oralidade nas dinâmicas da convivência humana.

Quando você percebeu estar grávida de O baú de Faustina? 

Demorei a perceber. Eu escrevia para mim. Escrevia para mitigar a ausência da minha mãe. Para revisitar nosso convívio e sua própria trajetória de muita labuta e resiliência. Para conciliar meus afetos, meu “sangue do passado”. Talvez escrevesse também para conferir a Faustina o reconhecimento profundo pelo que foi, o qual ela não teve, assim como tantas mulheres de sua geração, tempo e lugar. Por isso, só depois de escrever por mais de dois anos, acionada sempre por minhas demandas interiores, foi que olhei para tudo aquilo de modo diferente. E pensei: “E se eu fizesse um livro com as histórias de mamãe?”. Ali, houve a fecundação e fui cuidar de uma longa gravidez atemporal, (des)alimentada também pela realidade cotidiana de uma professora universitária, mãe, esposa, militante, sitiante e pessoa interessada na vida em sua complexidade.

A estreia literária teve uma boa acolhida por parte dos leitores/críticos ou ficou aquém do esperado? 

Veja, O Baú tem sido motivo de grandes surpresas para mim. Desde a pré-venda, onde foram vendidos 158 exemplares, até os últimos retornos que recebo de quem vem lendo a obra. Sinceramente? Não esperava tanto. Eu não tinha (e continuo não tendo) condições técnicas de apreciar o trabalho. Minha tradição é acadêmico-científica, a minha vivência com a literatura tem sido meramente enquanto leitora. E me vi escrevendo memórias, então me fugia a capacidade de dizer sobre o livro. Não obstante, o/as leitores/as me fazem apreciações muito entusiasmadas, geralmente se reportando a ricos encontros identitários, partilha de lugares estéticos e culturais de muito conforto. Assim, para mim o livro está se mostrando para além do esperado, tanto na relação com o público quanto à alegria que vem me proporcionando.

Escrevia para mitigar a ausência da minha mãe. Para revisitar nosso convívio e sua própria trajetória de muita labuta e resiliência.

Quem foi realmente, cá entre nós, essa mulher que encanta do começo ao final da história? 

Sabe, penso que, no fundo, Faustina é uma mulher muito comum. Sim, é uma mulher de força indescritível – à sua maneira -, resignada, de certezas inabaláveis, hoje obsoletas, mas decisivamente necessárias à vida que viveu. É uma mulher que viveu uma epopeia! Mas acredito que este ser povoa quase todas as famílias rurais de Teresina, do Piauí, de um modo ou de outro. São mulheres que carregaram todo o fardo de desafios, dificuldades, exigências que um contexto patriarcal as legou e ainda as lega. E que, diante da inexorabilidade sócio-político-cultural, o fizeram da melhor maneira, com a sabedoria que a própria dureza da vida engendrava. Vejo Faustina com delicadeza e amor particulares por se tratar de minha mãe. Mas, sei que no mundo rural piauiense teríamos muitas outras histórias de mulheres fantásticas para contar.

De que maneira a luta pela terra e a garra em ser mãe se entrelaçam e conduzem a narrativa? 

Mãe e terra me chegam sempre muito vinculadas. Para mim, sinônimos de segurança, generosidade, complexidade, geração de vida, dinâmica vital cíclica, muito embora o modo de vida geral que nós, os humanos, escolhemos construir no Planeta seja desagregador de uma e de outra, bem como da relação entre ambas.

No livro, a terra surge evidenciada em sua extrema necessidade enquanto recurso e lugar de ancoragem da vida camponesa. A sua constante negação ou mesmo a dificuldade de acesso à terra ali relatadas, atentam contra a viabilidade da vida das pessoas que, à época, não conheciam, por assim dizer, outro modo de existência. E não falo só do trabalho e do aprovisionamento, mas da vida em sua plenitude. De seres existindo naquele mundo. Nesse contexto camponês, a mãe também é indispensável para dar viabilidade a este modo de vida. O seu trabalho – normalmente sem visibilidade – os vínculos e sentidos comunitários que tece, o seu papel no universo da reprodução da família… sem a mãe, sem a mulher camponesa nada disso existiria. Então, a mulher e a terra são condições indispensáveis para a existência do modo de vida camponês.

Em que autores e obras você encontrou inspiração para construir saga familiar nordestina tão envolvente e impactante? 

Certamente, me inspirei em tudo que já li da literatura e da cultura rural nordestina. Mas devo dizer que a minha pertença rural e o meu trabalho, enquanto pesquisadora de temas rurais, animaram muito a escrita do livro. As várias etnografias me fizeram revisitar aquele “sangue do passado”, levando-me novamente, e mais a fundo, à alma do nosso jeito piauiense de estar no mundo. Pude recolocar cada questão sob lupa, analisá-la, atualizá-la, senti-la mais uma vez… A minha vivência com a Agroecologia também contribuiu para a construção de certo olhar para as questões rurais. Talvez a inspiração venha disso tudo, ao mesmo tempo.

Pretende parar por aqui ou vem mais livros pela frente? 

Inicialmente, não havia nenhum propósito neste sentido. Mas, O Baú e seus gentis leitores e leitoras têm me feito, mais recentemente, refletir sobre esta possibilidade. Escrever uma história foi algo que me deu muito prazer, portanto, algo que poderia ser retomado. Deixemos o tempo aquilatar as alegrias e frutos deste primeiro trabalho. Quem sabe?

 

André Gonçalves: “Escrevo para que alguns saibam que estive aqui um dia”

ENTREVISTA / Por Wellington Soares, professor e escritor

Já são tantos anos de amizade que me foge à memória quando, precisamente, conheci o André Gonçalves. Sei apenas que a empatia foi imediata, dado ser um cara tão legal, pois nunca mais desgrudei do seu convívio. Sua inteligência, amor pela literatura e sensibilidade social têm contribuído bastante para nossas parcerias culturais.

Ele possui uma obra, por enquanto, relativamente pequena. Em quantidade, deixemos claro, mas significativa do ponto de vista literário. São quatro livros: Coisas de amor largadas na noite (2008), Pequeno guia das mínimas certezas (2013), Rita Hayworth foi a Paris (2020) e A Faca (2020), todos lançados pela editora Quimera.

Sobre o primeiro, escrevi na apresentação: “Um olhar privilegiadíssimo sobre o amor, tema abordado com sutileza e humor em suas várias nuances e (in)devidas implicações”. A respeito do segundo, Vange Leonel disse: “André escreve com os olhos e desenha a modo de escrever, como sua Jackie S. reconhece a dor pelo olfato”. Quanto ao último, ouçamos as palavras de Thiago E: “É nesse clima de sucessivas cenas em edição que o livro se monta, aproximando-se também do processo cinematográfico, porém com textos mais ou menos curtos. Seriam tomadas fílmicas de encontros, amores, angústias, mulheres, filhos, pais, morte? Além de ironia, humor e violência, um bom manejo lúdico da língua constrói os personagens”.

Quando matutei lançar uma revista cultural em 2012, logo ao deixar a linha de frente do Salão do Livro do Piauí (Salipi), a pessoa que convidei, a fim de ser parceiro na empreitada, foi o André Gonçalves. Entre outras, pelas seguintes razões: tinha experiência no ramo, percebia o vácuo do jornalismo cultural dentro e fora do Piauí e, sobretudo, por acreditar nessas viagens utópicas, como diria Belchior, feitas sem dinheiro no banco nem parentes importantes.

Não tenho dúvida de que, após ler esta entrevista e, depois, seus livros, os leitores já sabem, de antemão, que você, caro André, é uma personalidade literária notável e, além da expressão artística pela palavra, também se destaca na publicidade e na fotografia. Isso tudo sem esquecer de participar apaixonadamente da torcida do seu time, o Cruzeiro. Simbora!

“Em arte, a realidade verdadeiramente possível é a que nós inventamos”, disse Ana Hatherly. Que acha dessa afirmação da escritora portuguesa?

Ana Hatherly era uma pessoa inquieta, múltipla, com um pé permanentemente enfiado na reinvenção do mundo. A partir da palavra fazia também imagens, pinturas e movimento. Era artista, verdadeiramente. Vou a outro artista, o alemão Joseph Beuys, que dizia: “todo mundo é um artista”. Gosto de acreditar nos dois. Acho, como Beuys, que todo mundo é artista, com a diferença de que alguns fazem o que convencionamos chamar de arte. Ou de literatura. Ou de música, ou de cinema. O que seja. Mas só vivemos verdadeiramente no que inventamos. Alguns inventam isso de “arte”. Outros inventam política, outros inventam o horror, outros inventam naves espaciais, outros inventam empresas, outros inventam iogurtes. Tudo que fazemos é invenção. Nada do que vemos, é. O “nosso” mundo é uma reinvenção do mundo que está posto, e que nos permite estar nele por uns poucos anos, e depois segue sem nós, sem mal perceber que existimos. Então reinventamos tudo para tentar seguir existindo de alguma forma. O Gullar dizia que “a arte existe porque a vida não basta”, ele falou isso várias vezes e repetiu para nós, na sala do apartamento dele. E é simples. É de uma simplicidade quase paralisante. A única realidade possível é, sim, a que inventamos, e inventamos a arte para ser possível viver em um mundo que, verdadeiramente, não nos quer por muito tempo. Talvez seja por isso que eu escrevo. Para que alguns saibam que estive aqui um dia.

A única realidade possível é a que inventamos. E inventamos a arte para viver em um mundo que, verdadeiramente, não nos quer por muito tempo.

Entre os escritores atuais, você desponta como um dos que mais vende livros. Qual o segredo desse sucesso e que ferramentas utiliza para chegar até os leitores?

Até gostaria que isso que você chama de “sucesso” se traduzisse em números realmente impressionantes e, porque não, em recursos financeiros que me permitissem escrever mais. Na verdade, as tiragens no Brasil são muito pequenas, muito. Então vender 1500 exemplares é “sucesso”, num país de 250 milhões de pessoas. O Coisas de amor largadas na noite teve duas edições, perto de bater 2 mil exemplares – mas isso ao longo de mais de 10 anos, veja bem. Não dá para viver disso. Quase que 100% das minhas vendas são pelas redes sociais. As livrarias maltratam muito os pequenos, muito. Não sei se é assim com as grandes editoras – talvez as grandes editoras maltratem os livreiros e, sem querer, eles descontam na gente! É uma possibilidade, quem sabe?

De qualquer modo, prefiro medir algo que possamos chamar de “sucesso” no que realmente me importa: quando alguém diz que um livro meu passou a fazer parte de sua vida. Uma vez uma pessoa, que eu não conhecia, me procurou e mandou uma foto da parede de casa, a sala da própria casa, adesivada com um texto meu para recepcionar visitantes. Claro que fui a Fortaleza conhecê-la e nos tornamos amigos. Outra pessoa viajou a Paris e levou Rita Hayworth foi a Paris na mala, e publicou fotos do livro “passeando” pelas ruas parisienses. Em tempos tão duros, tão difíceis, alguém levar um livro na mala numa viagem e “perder tempo” fotografando-o pelas ruas, ou alguém abrir espaço em meio às dores e medos da vida e mandar uma mensagem pelo Instagram dizendo “hoje li você, e o dia me sorriu” é, para mim, o que significa “fazer sucesso”. É o que quero com a literatura. O resto realmente não me importa muito.

Que fato ou pessoa acendeu em você o gosto pela leitura e paixão pela escrita?

Não sei precisar, mas especulo. Reza uma lenda familiar que, um dia, eu tinha ali uns 4 anos, e um tio meu lia o jornal, talvez O Estado de Minas, e eu, brincando no chão, li a manchete da capa: “Mazurkiewicz não joga contra a raposa”, algo assim. Mazurkiewicz era o goleiro uruguaio que levou aquele drible do Pelé na Copa de 70, jogava no Atlético e iria desfalcar o time em um clássico contra o Cruzeiro. Minha avó dizia que foi um auê, perguntaram se eu tinha lido mesmo, se eu sabia ler, e eu teria dito: “até de cabeça pra baixo” e peguei o jornal, virei e li alguma outra frase qualquer. Virei celebridade na família, pessoas passavam horas me dando coisas para ler aonde eu ia. E eu gostava, né? Um pequeno exibicionista. Daí foram me enchendo de revistas em quadrinhos, livros, e eu, louco por futebol, com 9, 10 anos, lia as colunas de Roberto Drummond no jornal. Aí Roberto lançou “Sangue de Coca-Cola”, e foram feitas umas camisas com um trecho do livro, pedi tanto que ganhei o livro e duas camisas. Tinha então uns 12 anos. Um dia, eu vestindo uma das camisas, quem chega perto de mim na Savassi? Roberto Drummond. Ele perguntou se eu sabia o que estava escrito, e eu disse o texto de cor: “Agora eu sei, Tati, que nunca vou poder assistir com você um comício do PCI em Roma: eu estou morrendo, Tati”, etc. “Você já leu o livro?”, e eu, “claro, li Sangue de Coca-Cola, A morte de Dj em Paris e suas colunas leio todo dia”. Ele foi tão carinhoso, deve ter achado engraçado um moleque daqueles ser seu leitor, cruzei com ele umas outras duas ou três vezes, e ele sempre simpático, me chamava pelo nome, perguntava coisas… Acho que ali entendi que escritores eram pessoas legais, que ler proporcionava encontros e alegrias, e daí me tornei um escritor imaginário. E lia e escrevia montes de pequenas coisas, e isso me levou, por intermédio de minha “vodrasta” Ieda, a um estágio em uma grande agência de publicidade aos 15 anos, na redação. O resto foi acontecendo e sabe-se lá se foi isso mesmo ou se inventei algo.

Além do trabalho com a linguagem, que outros aspectos ligam publicidade à literatura?

Acho que já estiveram mais ligados. A publicidade brasileira era um lugar de escritores, de poetas, de artistas. Grandes nomes da literatura estiveram em redações de agências de publicidade. A minha geração teve a publicidade como uma das possibilidades de se viver escrevendo coisas belas, curiosas, criativas, e bem remuneradas. É só olhar os comerciais de TV de várias décadas passadas, os anúncios, e você vê ali – claro que não todos –, frequentemente, peças com textos literários – ou quase. Hoje não é mais assim. Agora quem manda são as métricas, as pesquisas, os algoritmos, raramente, inclusive, se vê grandes textos na publicidade – grandes em tamanho ou grandes em algum valor literário. Mas em algum momento ainda podem voltar a se tocar. Se um dia o texto publicitário voltar a ganhar importância, vamos ver ali como cativar o leitor ou espectador em duas frases, vamos ver pequenas histórias contadas de formas inusitadas, vamos voltar a ver conexões emocionais que só podem existir a partir da literatura. Pode ser uma visão otimista de quem ainda se ilude que o lucro pode abrir espaço para a poesia e os sonhos, mas vamos torcer.

Rita Hayworth foi a Paris recebeu, dentro e fora do Piauí, críticas bastante elogiosas. Como você encarou os elogios e qual o diferencial desse livro em relação ao conjunto de sua obra?

Creio ter uma relação saudável com a crítica, e isso talvez se deva à experiência em publicidade, onde um texto, antes de ser publicado, é chutado, esticado, mordido, atacado e, muito eventualmente, defendido, por um monte de gente – dos colegas aos departamentos de marketing. Isso é ruim, mas é ótimo para exercitar o afastamento do ego. Então me chama muito mais atenção a crítica – no sentido de apontar erros, falhas ou inconsistências – do que o elogio fácil. Claro, é preciso que a pessoa que critica me faça sentir que ali tem algo a ser respeitado como aprendizado. Elogios são ótimos, mas é como comer bolo de chocolate recheado de chocolate com cobertura de chocolate: é delicioso, mas te deixa diabético ou com dor de barriga. É preciso alguma parcimônia ao engolir elogios fáceis. A crítica, elogiosa ou nem tanto, mas feita com respeito e coerência, deve sempre ser considerada dentro de parâmetros que cada um de nós decide quais devem ser.
O Rita foi lançado exatos 5 dias antes de decretada a pandemia, então não sei bem o que ele é ou ainda pode ser. Circulou pouco, o processo dele é diferente, por exemplo, do Coisas. Ainda estou tentando entendê-lo e o seu percurso. Por exemplo, ser citado elogiosamente por Manoel Ricardo de Lima, um gênio da crítica, em um espaço nobre da literatura como a revista Cult, é algo para se alegrar – mas muito mais para se pensar, mesmo. Ainda estou tentando entender o Rita e o que dizem dele – confesso, não estou muito preocupado com isso. Mas atento.

Como um dos editores de Revestrés, que papel exerce a revista no jornalismo cultural do estado/país?

Essa é uma leitura que, acredito, não me cabe. O que nos cabe, na Revestrés, pelo menos assim eu penso, é fazê-la. Fazê-la do jeito que pensamos ser o melhor, e o melhor dentro do que nos é possível. Nosso papel, se é que existe a possibilidade de nos dar algum, talvez possa ser o de resistir à tentação de desistir. É muito fácil desistir diante de tantas dificuldades na cultura, na literatura, no Brasil, no bolso, na conta bancária vermelho-sangue. Se dessa teimosia, como já disse Marcelino Freire, sair alguma percepção de que cumprimos algum outro papel, ficarei feliz. Mas não me arrisco a dizer qual seria, nem se temos alguma relevância a ser medida de alguma forma. Bem, já estamos na edição de número 51, e lá se vão fechados dez anos. Se alguém disser um dia “que gente teimosa essa, que fez essa revista durante tanto tempo” já será uma herança importante aos que estão aí e aos que virão depois de nós.

Em termos literários, que surpresas você guarda para este e os próximos anos?

Realmente não guardo nenhuma surpresa, não escrevo nada assim, planejado, previamente pensado. Gosto que as surpresas se apresentem para mim e, aí sim, imagino que esse algo que me surpreendeu possa parir um livro em mim. Mas, vou confessar, tenho um livro parado há um ano. Já escrevi o que julgo ser a metade, digo ser um pseudo-romance porque não sei se se enquadra em romance, nem onde pode ser enquadrado – nem quero muito que se enquadre em alguma caixinha – mas muita gente gosta de saber “o que é esse livro”? Eu não sei ainda. Tem até títulos – digo no plural porque já fiz 3 títulos, mas não sei qual vai ficar. Pensei nele quando li um livro italiano sobre Ho Chi Minh, e comecei a escrever em meio à pandemia. Mas ainda não está pronto. Espero que fique. Mas pode ser que eu me surpreenda com alguma outra coisa, antes, e escreva outro. Quem há de saber?

Isis Baião: “Amo o teatro desde quase sempre”

por Wellington Soares, escritor e professor

foto: Maurício Pokemon

Estou por ver uma pessoa tão apaixonada pelo teatro quanto a Isis Baião. Ela respira, fala, escreve, comenta, ministra oficinas, assiste e, não bastasse, personifica o próprio teatro. Literalmente, sem exagero. Não à toa afirmar, nesta bela entrevista, que “amo o teatro desde quase sempre”. Ainda na adolescência, mandava buscar peças no Rio, que lia com voracidade e prazer. Depois sonhou em ser atriz, caindo fora ao não encontrar sua praia. A dramaturgia representou, finalmente, o tão almejado grito de Eureka! E não é que esse encontro amoroso entre os dois, para nossa felicidade, perdura firme e inabalável até hoje.

Além da fissura pelo teatro, Isis nos fascina por ser uma pessoa amável, educada, doce e de sorriso franco. Daquelas que inspiram confiança, acolhimento. Que nos trata de imediato, no primeiro encontro, como velhos amigos.  A conversa brotando espontânea, descontraída, sem tabus de qualquer natureza. Sem falar de uma mulher inteligente, de senso crítico, antenada com seu tempo. Daí produzir um teatro, a exemplo de Nelson Rodrigues, distinto do bombom com licor. Na realidade, como arma para falar das coisas que realmente interessam: sentimentos, ética, política, humanismo, conflitos, tragédias e problemas sociais.

Foi no Rio de Janeiro onde tudo começou. Ainda cursando Jornalismo na PUC, percebeu que estava intrinsicamente ligada à cultura, em suas mais diversas manifestações, sobretudo, à arte cênica. Dois fatos a aproximaram, entre outros, do teatro em definitivo: a participação numa oficina, ministrada por Sérgio Britto, para atores estreantes; e a entrevista que fez, ousadia sem igual, com “O anjo pornográfico”, epíteto pelo qual ficou conhecido nacionalmente o polêmico dramaturgo pernambucano. Sua obra inclui textos cinematográficos, biografia, contos e peças teatrais, essas últimas reunidas hoje em livros – Teatro (In) completo / Volumes I e II.

Vim conhecer Isis Baião pessoalmente quando retornou, depois de muitos anos, a Teresina da sua adolescência e berço natal da sua mãe. Encantado, tratei logo de convidá-la para uma entrevista à Revestrés, uma das melhores já feitas pela nossa revista. Nada mais natural que o lançamento tenha ocorrido, com direito a coquetel e tudo, no Espaço Cultural Trilhos, juntando bastante gente da classe artística da cidade. Indagado por mim, sobre se valeu a pena toda a vida dedicada ao teatro, ela não titubeou: “Nunca me arrependi. Pelo contrário, apesar de toda a luta – porque é uma luta, sim – eu não tive nenhum dia em que achasse que poderia ser outra coisa que não teatróloga.”

Para retribuir tamanho amor e entrega, resta-nos apenas ler com atenção, extraindo as devidas lições, cada sábia resposta dada por Isis Baião, essa mineira de nascença e piauiense de coração.

Que você acha do que disse, certa vez, o polêmico Nelson Rodrigues: “Teatro não tem que ser bombom com licor”?
Concordo com ele. O teatro, como simples divertimento, parece perda de tempo e dinheiro. Sim, porque o teatro é uma arma (que não mata) preciosa para falarmos de sentimentos, de ética, de política, de humanismo, ao representarmos os nossos conflitos, as nossas tragédias e mazelas sociais. E digo mais, acho que o humor, para quem sabe usá-lo, é um grande aliado do dramaturgo. O humorista Leon Eliachar disse certa vez que “fazer rir, é rir do Rei”…

Fazer teatro no Brasil nunca foi tarefa das mais fáceis. Não bastasse, vieram o (des)governo do Bolsonaro e a Covid 19. Como tem sobrevivido a classe nestes tempos de perseguição artística e negacionismo?
Tem sido difícil sobreviver, companheiro. Uns mais, outros menos, dependendo da condição anterior a essas duas tragédias que se abateram sobre nós, a Covid 19 e o Bolsonaro (a ordem não altera a malignidade dos fatores). Têm pessoas passando necessidades mesmo. E me impressiona como esse (des)governo conseguiu reunir, em primeiro e segundo escalão, gente tão incompetente, ignorante e sem pudor para servi-lo (desservindo ao povo), inclusive artistas! É como se um espírito perverso tivesse baixado sobre este país. Mas eu acredito em Deus e sei que a “farra do boi” está no fim…

Sei que não distribuo “bombons com licor”, embora faça rir, às vezes, até muito. Dizem que o meu humor está mais para o satírico e o cruel. É verdade.

Quando nasceu em você a ideia de ser dramaturga, área ocupada geralmente por homens?
Amo o teatro desde quase sempre. Quando adolescente e ainda morando em Teresina, mandava buscar livros de peças no Rio. Lia tudo, encantada. Mas não pensava que me tornaria dramaturga. Achava que queria ser atriz e tinha fascínio pelas grandes atrizes. Conheci algumas no Rio, onde fui morar em 66. Já trabalhava na imprensa cariosa quando me formei em Jornalismo, em 70, na PUC/RJ. Em seguida, passei quatro meses em Londres e lá também trabalhei, por acaso!, no Serviço de Rádio para Portugal e América Latina, do COI (Central Office of Information). Na volta, o Sérgio Britto me chamou para fazer uma reportagem em um Laboratório de Teatro, que ele acabara de montar, com outros artistas, a “nata” do teatro carioca. Fui e não saí mais. Continuei a trabalhar em jornalismo, mas estava cada vez mais ligada ao mundo teatral. Por outro lado, comecei a sentir que não era aquele o meu barato. No final do Laboratório, o grupo se dividiu em dois. Um deles era a turma bem jovem, que formaria o Asdrúbal Trouxe o Trombone, sob a direção do Hamilton Vaz Pereira. Eu estava no outro grupo, dirigido por José Carlos Gondim, que fez uma adaptação da Antígona, de Sófocles, na qual interpretei Ismênia, a irmã da protagonista. Na estreia, amigos e amigas me afiançaram que eu estava ótima!!! Será? Bom, gostei muito da experiência, mas vi que ser atriz não era exatamente o que eu queria. O tempo passou, eu continuava a fazer matérias para jornais e revistas. Um dia, não me lembro se a propósito de uma reportagem, uma atriz, minha amiga, me disse: “Você devia escrever para teatro. Têm poucas mulheres escrevendo. Já pensou nisso?” Não, eu nunca tinha pensado, mas passei a pensar. Resolvi começar pelas adaptações: a primeira, de Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel Garcia Marques; em seguida Cândido ou o Otimismo, um conto satírico-filosófico, de Voltaire. Depois, começaram os originais, com Maria Manchete Navalhada e Ketchup, tragicomédia, ainda inédita; Instituto Naque de Quedas e Rolamentos, minha estreia no palco. E a vida seguiu, acompanhada de muitos títulos, nenhum deles convencional…   

De todas suas peças, qual delas é a filha preferida por ter sido um parto difícil e prazeroso no final da gestação?
Não existe filho(a) preferido(a) para um coração de mãe… Mas é certo que existe um chamego especial com aquele(a) cujo parto foi mais sofrido. É o caso da minha Casa de Penhores. Ela veio ao mundo de maneira totalmente diferente das demais. Eu estava grávida e não sabia. Passei alguns dias numa grande aflição, sentindo as ideias se misturando dentro de mim, sem nenhuma definição. De repente, peguei um bloco de papel e comecei a rascunhar um roteiro. Eram umas 10h da manhã. À medida que escrevia, as cenas apareciam mais nítidas. Fui sendo tomada por uma grande emoção. No final da tarde, o roteiro estava pronto, relaxei e desabei num grande pranto. Acabara de parir um bebê, ainda descarnado, a que dei o nome de Casa de Penhores. Anos depois, ela se tornou a menina dos olhos da família Baião, quando obteve um dos prêmios do concurso 1997 Onassis International Cultural Competitions – Theatrical Plays, em Athenas-Grécia.

Quais nomes despontam hoje na dramaturgia brasileira, incluindo a piauiense, no sentido de renovação e atração de público?
Estou há sete anos no Piauí e por fora do teatro no Rio, que sei debilitado, como o da maioria dos estados, pelos efeitos da pandemia e desse (des)governo do inominável. Prefiro falar da dramaturgia piauiense, que teve e tem dramaturgos nacionalmente conhecidos, como Francisco Pereira da Silva e Benjamin Santos.  Cito ainda os colegas consagrados, Aci Campelo e José Afonso de Lima (este, também poeta) e outros, cujos trabalhos me entusiasmaram em estreias diversas. Mas confesso que tenho especial carinho por uma pequena turma que fez a minha Oficina Avançada para Novos Autores, em 2017, realização da Secult. No final, organizamos um mini- festival com a produção da Oficina, em que, cada Novo(a) Autor(a), ocupava uma 5ª feira, no Teatro Torquato Neto. Uma das novas dramaturgas desta turma, a jornalista Samira Ramalho, já atingiu Sampa: ano passado encenou, no Teatro Gazeta de São Paulo, a peça A Ciumenta, em parceria com a atriz do SBT, Renata Brás.

O que motivou você e Terezinha Marçal a escreverem “Mara Rúbia, a Loura Infernal”, biografia da atriz paranaense Osmarina Lameira Colares Cintra? 

foto: Maurício Pokemon

Pois é, na vida, tudo é história, as coisas acontecem e se encaixam, ou não. Em 84, três atrizes me pediram para escrever um texto sobre as questões da mulher. Aceitei e nos encontrávamos uma vez por semana para uma troca de depoimentos de vida. Virávamos a noite, contando nossas histórias umas para as outras, rindo, chorando. E só a partir de um determinado momento, comecei a escrever os esquetes que iriam compor o espetáculo As Bruxas Estão Soltas. Therezinha Marçal, filha de Mara Rúbia (na época, ainda viva) era uma das atrizes e, nos seus depoimentos, falava muito da sua mãe. Nós todas ficávamos encantadas com as histórias de vida daquela mulher linda, de forte personalidade, carismática e à frente do seu tempo. Montamos As Bruxas numa galeria de arte, bem no coração de Ipanema, e foi um sucesso, mas, quando terminou o contrato com a Petite Galerie, não tivemos dinheiro para alugar um teatro. Com uma grande tristeza, fomos cada uma para um lado (no Rio, é o que acontece quando se desfaz um elenco). Anos depois, reencontro a Therezinha e a fulmino com esta proposta: vamos escrever a biografia da Mara Rúbia? Ela ainda estava muito abalada pela morte da mãe, mas topou. A princípio queria que eu escrevesse todo o livro, mas convencia-a de que, no decorrer da narrativa, era interessante que houvesse pequenos textos dela, contando coisas de Mara, com o olhar e o sentir de filha. Foi incrível. Acho os textos da Thê um dos charmes de Mara Rúbia, a Loura Infernal.

Ao assistir ou ler suas peças, que mensagens/lições ficam no imaginário coletivo?
Realmente, não sei. Cada cabeça, uma sentença, não é? Mas faço o possível para que me entendam. Sei que não distribuo “bombons com licor”, embora faça rir, às vezes, até muito. Dizem que o meu humor está mais para o satírico e o cruel. É verdade. Vejo mais a vida como uma tragicomédia, bem mais do que uma simples comédia. E raramente a vejo de maneira realista. Minha linguagem é essencialmente expressionista. É o que eu acho, mas posso estar errada. É difícil ser crítica de si mesmo…