Revestrés

24/07/2021
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Wellington Soares

Coisas e outras

Demetrios Galvão: “A poesia é uma arte subversiva”

Por Wellington Soares, professor e escritor

 

Aos que me perguntam, digo que é difícil – quase impossível mesmo – não gostar do Demetrios Galvão. O cara é um baita poeta, professor extraordinário de história, encantador de gentes, curte rock and roll, pai do Assis e companheiro da Emanuelle, de esquerda e, não bastasse, teve em  Bandeira, Quintana e Neruda a inspiração inicial pela arte do versejar.

Quando o conheci? Faz um tantinho de anos, mas foi em 2012 sobretudo, quando fomos à Balada Literária de São Paulo, a convite  do intrépido Marcelino Freire, que entrelaçamos de vez nossa amizade e inquietações culturais. De tal forma que basta eu acenar, a exemplo desta entrevista, pra ele topar na hora; sendo a recíproca, claro, correspondida também.

Metido com a poesia até a alma, Demetrios tem quase 20 anos de estrada, uma obra constituída por cinco livros – entre os quais BifurcaçõesO avesso da lâmpada e Reabitar – e o projeto poético Capsular, sem falar ainda de textos publicados em antologias e revistas literárias. E pensar que tudo começou, na adolescência, ao frequentar bibliotecas públicas de Teresina.

Confessa que só foi se achar literariamente, algum tempo depois, ao ler poetas que, desafinando o cânone ocidental, entortam os leitores de maneira irreversível. Rimbaud, Chacal, Leminski, Torquato, Kerouac, Ginsberg e Burroughs são alguns desses autores que abrem olhares diferenciados sobre o cotidiano nas suas infinitas possibilidades de linguagem. Afinal, um poeta não se faz com versos, lição que Demetrios assimilou do nosso Anjo torto, mas correndo risco e sem medo do perigo.

Sua poética de temática variada e aberta, um assunto levando a outros e sem fim previsível, assenta-se num tripé pra lá de instigante: vida, subversão e atitude – uma coisa puxa outra a fim de criar espaços de respiro e grito coletivo, notadamente contra o provincianismo de Teresina, onde nasceu e vive.

Diferentemente do “homem que sente febre e tem medo de falar o que lhe dói”, tão bem retratado no texto Útero paterno, do livro Reabitar, Demetrios Galvão solta o verbo livremente nesta entrevista. E quem ganha, óbvio, somos nós que o admiramos como poeta e coeditor da Acrobata – revista de literatura, artes visuais e outros desequilíbrios.

 

A escritora espanhola Rosa Monteiro afirmou, certa vez, que escreve para suportar a vida. No seu caso, por que escreve? 

Escrevo porque isso me ajuda a pensar nas tramas da vida, nos pequenos infinitos que existem como delicadezas frágeis e vitais para a nossa sobrevivência. Escrevo porque o processo de criação me dá prazer e satisfaz algumas de minhas necessidades subjetivas, imaginárias. Mas escrevo, sobretudo, porque a poesia é uma arte de subversão e é por meio dela, que crio micro-resistência – um campo de possibilidades.

Há quem diga que não é a pessoa que escolhe a poesia, mas o contrário. Você lembra do momento quando foi, em definitivo, fisgado por ela? 

Ela me encontrou em algum momento de minhas andanças pelo centro da cidade e me puxou, pelo braço, até uma biblioteca pública e depois para outras tantas. Na adolescência as intensidades sonoras do rock marcavam o meu horizonte e, de certa fora, me abriu algumas portas e janelas para perceber que existia um outro tipo de existência fora da caretice conservadora habitual. Aos poucos fui aproximando as sinuosidades metafóricas da poesia com o inconformismo do rock and roll e aí, fiz uma descoberta importante. Nesse percurso, peguei algumas senhas importantes com a banda The Doors e o seu vocalista, Jim Morisson, que me levaram a poetas incendiários e rebeldes, como Rimbaud, Baudelaire, Ginsberg e todos os beats. Essa é a forma que encontro para falar dos meus inícios com a poesia e das descobertas que me levaram para um caminho sem volta. Penso que a poesia me educou, me alfabetizou nos temas do mundo sensível, me proporcionando uma virada qualitativa de vida.

A princípio, quando escrevo, nunca penso no leitor – a escrita é minha, a leitura é dele e nos encontramos no plano fantástico da imaginação, do prazer, do devaneio.

Que motivos o levaram a escolher justamente duas profissões tão menosprezadas no Brasil: professor e poeta? 

Creio que pelo fato de serem duas atividades com a palavra e por serem performativamente político-sensíveis, engajadas na profusão de sentidos, do diálogo. As minhas atividades como professor de história e de poeta, partem de uma reflexão que busca aproximar de forma consciente a poesia, a história, a pedagogia, a cultura, em um mesmo universo gravitacional de energias que se atraem. Esse encontro de potências passa pela implicação de ensinar/aprender, uma relação de troca, de intercâmbio que ampliam a imaginação e desdobram uma pluralidade de caminhos para a compreensão de si, do outro e do mundo. Mas, é claro que, essa potência (poesia/pedagogia) ganha status de marginalidade em um país onde as “pessoas de bem” valorizam armas e não, os livros. Pelo menos é o que vivemos agora com o projeto político que emergiu após as últimas eleições.

Acredito que a poesia/arte (substância criativa) e a pedagogia (ciência do esclarecimento) podem funcionar como uma espécie de antídoto para esse mal histórico que está em nossas raízes. É obvio que isso, por si só, não seria a resolução dos problemas do país.  Mas a valorização dos profissionais da educação e dos poetas/artistas, seria um passo qualitativo para a construção de uma sociedade mais acolhedora, humana, justa e disposta a criar um projeto diferenciado de nação.

Além de livros, você também é um dos editores da revista Acrobata. Do que trata essa revista celebrada dentro e fora do Piauí? 

A Acrobata é um território de pensamento, uma articulação afetiva-estética que transcende fronteiras geográficas, institucionais. A revista nasceu em Teresina no ano de 2013, pelas mãos de 4 pessoas amigas (eu, Aristides Oliveira, Thiago E e Meire Fernandes) com o intuito de difundir literatura, artes visuais e outros desequilíbrios. O tempo foi passando e a Acrobata foi ganhando corpo, a cada número mais pessoas envolvidas, mais longe se ia, mais leitores e leitoras tinham acesso as nossas edições. 8 anos depois, temos na bagagem 9 edições impressas com colaborações de escritores/artistas de diferentes partes do Brasil e do mundo, lançamentos por diferentes várias cidades do Brasil, participação em um tanto de eventos e continuamos vivos, com bastante saúde editorial.

Agora, em formato eletrônico, desde o final de 2019, atuamos em uma plataforma que tem publicações quase que diariamente – poemas, contos, entrevistas, traduções, ensaios, processos de criação, artes visuais, resenhas. Dos integrantes iniciais que criaram a revista, restaram eu e o Aristides, mas outras pessoas chegaram junto para fortalecer e ajudar a esticar essa história bonita que estamos inventando.

Em qual tradição literária se enquadra sua obra: apolínea ou dionisíaca? Explique essa escolha. 

No meu universo criativo Apolo e Dionísio sentam juntos para tomar umas e bater papo, sem problema. O impulso primeiro com a palavra é dionisíaco e o trabalho posterior, os detalhes e acabamentos do texto é apolíneo. Portanto, os dois estão juntos e seguem em uma relação não binária (kkk). Mas, admito que a tradição dionisíaca se sobressai na expressão final da poesia que faço, inclusive pelas minhas escolhas como leitor, ligadas aos poetas líricos do desregramento que seguem pelos caminhos do simbolismo, surrealismo, beat.

Ao longo de sua travessia poética, de quase 20 anos, que tem aprendido na relação entre vida, linguagem e realidade? 

Que não há vida sem linguagem e nem linguagem sem vida, que a poesia é um artefato mágico que nos ajuda a transcender a realidade convencional, criando outros mundos possíveis. Aprendi muito com os ensaios de Octávio Paz, as entrevistas de Roberto Piva, Hilda Hilst e com o famoso poema do Mário Faustino “vida toda linguagem”.

Encaro a poesia e a arte como artefatos vivos e repletos de sentidos, criados com o intuito de expandir o que chamamos de realidade, essa dimensão corriqueira que está povoada de convenções e de banalidades. Por isso, penso que a poesia que faço não pode repetir o que já existe e tem, no mínimo, que acrescentar algo a paisagem existente.

Que ideia faz do leitor que consome sua poesia e do papel que ele exerce na construção da mesma? 

A princípio, quando escrevo, nunca penso no leitor – a escrita é minha, a leitura é dele e nos encontramos no plano fantástico da imaginação, do prazer, do devaneio. Gosto de pensar que a poesia sempre irá saltar do texto e se embrenhar na floresta dos sentidos, como um ser indomável e selvagem. Com isso, minha poesia é desenhada para ter o máximo possível de interpretações, por isso exploro bastante o recurso das metáforas pra turbinar os aspectos subjetivos do texto e me distanciar da realidade dada, obvia. O meu papel como escritor é provocar a viagem do leitor e aí, ele vai pra onde quiser e como quiser.

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Dani Marques: “Fui fisgada pela prosa”

Por Wellington Soares, professor e escritor

 

 

No ano em que o Brasil reconquistava a democracia, pondo fim a 21 anos de ditadura militar, nascia Dani Marques, na Maternidade Evangelina Rosa. Estou falando de 1985, data festejada pelos brasileiros, e da capital Teresina, cidade onde nasceu. Mal sabiam os pais que a filhota iria, desde cedo, despertar o gosto pela leitura e guiar-se pelo signo da liberdade.

Aos 12 anos, já colecionava cadernos com as suas anotações, bem como devorava livros de Sidney Sheldon, Jorge Amado, Fernando Sabino, Luis Fernando Verissimo e, acredite, os nada fáceis textos de Clarice Lispector. Esses autores e suas instigantes histórias arrebataram de tal forma essa jovem do Mocambinho que, cercada por livros, ela deixou a solidão de lado – como filha única – e embarcou em viagens prazerosas através das palavras.

Surpreendente é que Dani, mesmo gostando de ler e escrever, formou-se em Química (Uespi) e Nutrição (Ufpi), cursos aparentemente distantes do universo literário. Mas não devemos esquecer que sem ligações com a realidade e alimentos fortalecendo a alma, fica difícil, pra não dizer impossível, construir uma obra de valor estético.

Entre verso e prosa, escolheu o último, ao contrário da maioria de nossas escritoras, optando assim pelo narrativo, sobretudo, a crônica, gênero que encanta os leitores pela leveza e por um olhar poético do cotidiano. Ao fazer isso, remonta à origem da literatura brasileira, em particular à Carta de Achamento, de Pero Vaz de Caminha, tida como certidão de batismo do país.

Seu nome está intrinsecamente ligado a vários aspectos da atual cultura no Piauí, em particular ao cenário da capital: lançamento de fanzines coletivos e individuais, saraus poéticos, “Leia Mulheres”, coluna no site Malamanhadas, literatura feminista e, não podemos esquecer, o “Desembucha, mulher!”, clube de leitura dedicado a textos escritos por manas. Sem falar ainda de Textos feitos em momentos (in)oportunos, sua estreia solo em livro, pequena coletânea inspirada nos sentimentos de maternidade.

Dito isso, façam silêncio e desliguem-se de tudo porque agora, senhoras e senhores, vocês serão fisgados pela bela entrevista da Dani Marques, uma autora de prosa envolvente e carisma irresistível.

 

Vinícius dizia que a construção literária é fruto da vida de cada um (a). Que acha dessa afirmação?

Sim, eu concordo. Eu, enquanto pessoa que escreve, posso dizer que fui forjada nos livros que li e nas minhas vivências. Uma grande parcela dos meus textos reflete minha indignação enquanto mãe-solo.

Você acredita na responsabilidade da literatura com a sua época? 

Totalmente. Cada autor tem sua visão de mundo, porém, enquanto leitora, não consigo consumir nada contemporâneo que seja escrito em cima de narrativas racistas, homofóbicas, machistas, que tenha menosprezo pelas minorias, que tenha desrespeito pelos Direitos Humanos, porque na época em que vivemos essas narrativas não são mais toleráveis. Eu acredito no poder modificador da Literatura, seja para o bem ou para o mal. Tanto que hoje em dia se observa que, paralelo a nossa realidade, alguns autores foram essenciais na construção dessa narrativa delirante que estamos vivenciando, infelizmente.

E a opção pela prosa, quando e como se deu? 

Por ser uma leitora de prosa, acabei me identificando com ela, mais especificamente com a crônica. Acho um gênero maravilhoso, atemporal. Fui fisgada pela prosa.

Seu nome está ligado hoje a dois projetos: “Leia Mulheres” e “Desembucha, mulher!”. São coisas distintas ou complementares? 

Leia Mulheres é uma das melhores coisas que me aconteceu (o Leia Mulheres é um clube de leitura que se propõe a ler obras escritas por mulheres). Eu sou muito grata à escritora piauiense Lorena Nery Borges que teve essa iniciativa de trazer o Leia pra cá em 2017. Sempre fui muito ativa no clube como frequentadora e, em 2018, recebi o convite para ser uma das mediadoras. O Leia está ligado ao nascimento do fanzine “Desembucha, mulher!”, porque uma das maiores façanhas do clube é mostrar que aqui, no Piauí, existem grandes escritoras. Então, a partir do momento que conseguimos conhecê-las, fica a mensagem que também é possível pra gente. O “Desembucha, mulher!” foi um projeto muito bonito, que nasceu dessa perspectiva, eram mulheres lançando seus textos sem medo, sem precisar de validação. Tudo era feito por uma mulher, desde a curadoria, passando pela diagramação, impressão e venda. Então, isso deixava as mulheres muito mais à vontade para desembucharem as palavras que estavam presas em suas gargantas.

Dos fanzines ao primeiro livro, Textos feitos em momentos (in)oportunos, foram alguns anos. Por que a demora e que significado tem essa estreia na sua carreira? 

O fanzine me abriu portas, foi ele que me encorajou a abrir uma editora independente, a Caneleiro Editora. Eu já tinha lançado três títulos e me dei conta que poderia lançar o meu pela editora, aqui vale aquela máxima “santo de casa não opera milagre”. Foi aí que saiu Textos feitos em momentos (in)oportunos, que nada mais é que um exorcismo em forma de textos, que foram saindo nos momentos oportunos, ou inoportunos, que a maternidade me proporcionou.

Quais escritoras marcam a sua voz literária? 

No Piauí, eu gosto muito da Sérgia A, Ananda Sampaio, Lorena Nery Borges, Cynthia Osório e Lara Matos. Além dessas maravilhosas, também sou fã da Jane Austen, Virginia Woolf, Conceição Evaristo, Lygia Fagundes Telles, Angélica Freitas, Marina Colasanti, Chimamanda Ngozi Adichie e Buchi Emecheta.

Em que aspectos a escrita feminina se diferencia da masculina? 

Em tudo. Sabemos que o cânone é eurocêntrico, masculino e branco. A mulher que aparece nessa literatura nos é falada por um homem. A partir do momento que se começa a dar visibilidade à escrita feita por mulheres, assim gosto de chamar, abre-se um leque, uma diversidade infinita de mulheres. Na verdade, essa diversidade sempre existiu, era invisibilizada. Apesar de existirem várias vozes femininas, infelizmente existem alguns pontos convergentes, como o machismo, por exemplo. Essa visibilidade tem o poder de mostrar à sociedade essa mazela que é o machismo em suas várias nuances.

Adriano Lobão Aragão: “Meu primeiro impulso era desenhar histórias em quadrinhos”

Por Wellington Soares, professor e escritor

 

 

Antes do poeta, conheci o professor que encantava os alunos com suas aulas de literatura. Não aulas comuns, decorebas, mas envolventes e cheias de humor. Daqueles que assimilaram direitinho, tão poucos hoje em dia, a sábia lição de Guimarães Rosa: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. Maravilha é saber que Adriano Lobão Aragão, lotado agora no IFPI de Cocal, interior do Piauí, ainda continua no batente da sala de aula com a mesma paixão. Ele recitando versos de Gregório de Matos e Castro Alves, sendo acompanhado pelos alunos, é algo de marcar em definitivo nossas retinas tão fatigadas.

Foi ao ler um livro de H. Dobal, puro estranhamento, que sentiu o chamado pra se enamorar da poesia. Relação essa que mudou sua vida e que, a depender dele, vai perdurar eternamente. O livro em questão era O tempo consequente, lançado em 1966, do poeta teresinense consagrado dentro e fora do Piauí. Antes havia sido tocado, como quase todo brasileiro, pelos versos simples de Manuel Bandeira, para quem escrever é volúpia ardente, tristeza esparsa e remorso vão.

Somente depois fui conhecer sua obra, composta de poesia e ficção, com temas variados e linguagem bem cuidada, que desperta o interesse na gente a partir dos títulos. Entrega a própria lança na rude batalha em que morra, Os intrépidos andarilhos e outras margens e Destinerário, pra ficarmos em três apenas, são exemplos ilustrativos disso. Difícil é sair impune, acredite, desse impactante contato com seus textos.

Não bastasse, ainda se entrega à publicação da Desenredos, uma revista digital de cultura e literatura surgida em 2009, com foco em trabalhos artísticos e acadêmicos. Outro de seus entusiasmos é pelo desenho, arte que pratica com esmero e frequência, ilustrando capas e textos dos próprios livros. Quanto ao futebol, paixão também das grandes, é torcedor aguerrido do Flamengo e zagueiro do Ferrugem Futebol Clube, time formado por amigos das antigas.

Com a palavra agora, Adriano Lobão Aragão: professor excepcional, escritor múltiplo (poeta, contista e romancista), desenhista talentoso, torcedor rubro-negro, zagueiro dos bons e, acima de tudo, um ser humano fora de série.

 

Há quem diga que pra escrever o autor precisa estar com um certo estado de espírito. Você concorda?

Para ser bem franco, nunca penso sobre isso. Apenas escrevo e reescrevo continuamente. De qualquer forma, escrevo muito mais do que publico, e raramente publico a primeira versão de um texto. Quase todos são resultado de diversas reescritas feitas em momentos distintos. Então, pelo menos para mim, se há um estado de espírito, eu o chamo de trabalho, leitura e releitura.

Quais escritores e obras são importantes na sua construção literária?

Na adolescência, as histórias em quadrinhos de Frank Miller e os romances de Machado de Assis foram as primeiras a me instigar a tentar produzir alguma coisa. Manuel Bandeira foi fundamental para direcionar meu interesse para a poesia. Pouco depois de publicar meu primeiro livro, Uns Poemas, em 1999, lia constantemente João Cabral de Melo Neto, H. Dobal, T.S. Eliot, Rainer Maria Rilke e a tradução da Ilíada feita pelo Carlos Alberto Nunes. Creio que eles passaram a ser minhas influências mais recorrentes desde então. No âmbito da prosa, cito Italo Calvino (Se um viajante numa noite de inverno), Jorge Luis Borges (Ficções) e Gabriel García Márquez (Cem anos de solidão) como indispensáveis para minha formação.

Embora escreva prosa, seu nome está mais ligado à poesia. Por que essa preferência pelo gênero lírico?

Não faço ideia. Cronologicamente, meu primeiro impulso foi o de me dedicar a desenhar histórias em quadrinhos. Depois, escrever romances. A preferência pela poesia só surgiu depois, mas acabou se tornando minha atividade artística predominante. No entanto, não penso muito sobre isso. Apenas vou fazendo o que instiga meu interesse expressivo em cada momento, independente do gênero.

Fala-se sempre que os estudantes brasileiros, em todos os níveis, estão lendo pouco ou quase nada. Como professor de literatura, você tem essa mesma impressão?

Penso que não apenas os estudantes. Isso é muito relativo e complexo. Sempre convivi com alunos desinteressados por leitura e com alunos ávidos por leitura. Almejo estimular os primeiros passos dos mais desinteressados e ampliar os horizontes dos mais ávidos. Numa sociedade tão desigual, tão injusta e iletrada, tento dedicar a eles o que de melhor eu possa oferecer nesse sentido.

Entre seus livros, qual o da sua preferência e qual teve melhor acolhida do público?

Destinerário, que reúne poemas sobre cidades, foi o que mais gostei de fazer. Para escrever os poemas que compõem o livro, estive em mais de 70 cidades espalhadas pelo Piauí, Ceará e alguns outros estados. E isso foi uma experiência muito instigante. E, felizmente, foi bem acolhido. Além do Destinerário, creio que o romance Os intrépidos andarilhos e outras margens e o livro de poemas As cinzas as palavras foram meus livros que melhor circularam.

Além de livros impressos, você e alguns amigos publicam uma revista virtual. Do que trata a Desenredos?

Comecei a publicar a revista eletrônica Desenredos, juntamente com Wanderson Lima, a partir de 2009, publicando poemas, contos, traduções, resenhas, ensaios, artigos acadêmicos. E esse trabalho continua até hoje, tendo como editores eu e Assunção Leal. A missão continua a mesma, estimular a criação artística e promover o debate de temas vinculados, direta ou indiretamente, à literatura. Sendo assim, a Desenredos não se propõe a ser uma revista literária stricto sensu, mas um espaço que, tomando a literatura como epicentro das Humanidades, esteja atento aos movimentos da Cultura.

O ministro da Economia do atual governo, Paulo Guedes, defende a taxação de livros sob o argumento de ser consumido somente pelos ricos. Que acha dessa proposta e de sua fundamentação?

Mais um atentado contra a educação, a cultura e a ciência. A fundamentação é, obviamente, tornar o livro ainda mais inacessível. De um desgoverno que menospreza a educação, a cultura, a ciência, o amparo social, o meio ambiente, os direitos trabalhistas, a liberdade sexual, e que busca continuamente promover o preconceito, a violência e a segregação social, não é possível esperar nada de proveitoso.

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Clara Mello: “Minha literatura é uma fábula de mim mesma”

 

Por Wellington Soares, professor e escritor

No texto que abre Vênus em câncer, sua estreia na poesia, Clara Mello não tem receio em se desnudar aos leitores: “Nasci com essa incoerência/ um corpo estreito e miúdo/ e uma alma enorme e pesada/ o resultado é leve”. Mas não pense que “Incompatibilidade”, título do poema, termina assim, sem mais nem menos. Ela vai fundo, de forma sucinta, nesse enigma pessoal – “Não vou dizer que não falho,/ às vezes eu caio,/ mas só caio porque voo”.

Voo esse que remonta, em termos literários, ao lançamento de As maluquices do papai, quando Clara tinha apenas oito anos de idade. A rigor, nada mais que os primeiros passos – um exercício literário – de uma garota aberta ao instigante mundo das palavras. Depois vieram A casa de Isabel, que publicou aos 16 anos, e Despedida, narrativas de pegada intimista e psicológica.

A paixão pelos livros, nascida ainda na meninice, a fez descobrir escritores que marcariam sua escrita, a exemplo de Clarice Lispector, Eça de Queiroz, Camões e, não podia faltar, Fernando Pessoa, cuja poética tem estudado ultimamente, a quem considera seu mestre principal. Além de levá-la à carreira literária e concluir Letras na UFRJ, uma das mais respeitadas universidades do país.

Outra faceta importante da Clara, pouco conhecida infelizmente, é a de roteirista de cinema e TV. A famosa série “As guardiães da floresta”, sobre lideranças amazônicas femininas, e “Encantadeiras”, um longa documental, têm sua participação direta. Sem falar ainda, acredite, em duas outras: a de letrista, a exemplos de “Navegante” e “Facada”, em parceria com Patrícia Mellodi; e a de fascinada por astrologia, como boa virginiana que é.

Mas por que ela afirma, na entrevista, que sua literatura é uma fábula de si mesma? Como não sou estraga-prazer, longe de mim essa pecha, deixo que você descubra por conta própria. Adianto somente que Clara é visceral em tudo que faz, uma teresinense radicada no Rio de Janeiro e filha de dois talentosos artistas piauienses: João Cláudio Moreno (humorista) e Patrícia Mellodi (cantora).

 

Há quem diga que nosso tempo não é propício à literatura diante do império da imagem, da velocidade e da internet. Você concorda?

Em parte sim, porque a literatura precisa de contemplação, espaço de interiorização, concentração, e o excesso de telas reduz tudo isso. E tudo tem que ser muito imagético, rápido, tem que ter dancinhas, gifs, memes, artes gráficas elaboradas, ser muito rápido e mastigado, se não, não engaja. E tudo isso é muito difícil. Ter blog, por exemplo, que foi uma marca do meu início de carreira, não é mais tão viável. Ninguém acessa mais. Por outro lado, a criatividade humana é infinita, e eu sou otimista. Eu confio no poder da literatura de resistir às mudanças do mundo. A velocidade traz agilidade, poder de síntese, novas redes sociais voltadas só para a literatura, com seus leitores de nicho, novas formas narrativas e poéticas. Pessoas que não conseguiriam chegar no mercado editorial e estão produzindo e vendendo on-line. Eu vi até poetas de TIK TOK, coisas que nunca pensei que veria. Não dá pra lutar contra certas forças, como a força das redes, então a gente tem que se adaptar na medida do possível e usar a nosso favor.

Ter pais artistas me mostrou que era possível viver de arte e fazer disso uma carreira profissional.

De que maneira ser filha de humorista com cantora ajudou em seguir a carreira literária?

Ter pais artistas, para começar, me mostrou que era possível viver de arte e fazer disso uma carreira profissional. Muitas pessoas têm as mesmas ou até mais aptidões que eu, mas nascem em contextos em que isso seria impossível, uma desonra, um tabu, uma ruptura familiar. Me ajudou a ter bagagem e referências diversas também, observar processos criativos, ter familiaridade com a criação, o mercado, conhecer pessoas. Os ambientes artísticos sempre estiveram próximos. E, de certo modo, já havia algum público preparado por eles disposto a ver o que eu faço. Cada trajetória é única, claro, e cada um passa pelos erros que precisa, mas ajuda muito ter o aconselhamento e a vivência dos pais, tentar se espelhar em certos acertos e evitar alguns equívocos. Além de poder criar em família, o que é um luxo. Minha mãe é uma enorme parceira de composição, por exemplo.

Relendo hoje seu primeiro livro, A Casa de Isabel, escrito aos 16 anos, você gosta do resultado ou faria alguma ressalva?

Estava relendo agora mesmo, depois de muitos anos, quase como um ritual de atleta, de dar impulso para trás para ir em frente, numa maratona. Faria várias ressalvas, vi vários furos na narrativa, coisas que não são tão verossímeis, uma linguagem que mal reconheço como minha, muito formal. Além do tema do suicídio, que se fosse hoje, eu faria com muito mais responsabilidade e cautela. Mas quando lembro a menina boba que escreveu, perdoo tudo e acho que está ótimo. Eu era muito nova, já tinha uma boa bagagem de leitura, mas pouquíssima bagagem de vida. E isso é insubstituível. Mas continuo gostando do resultado, e achando que foi um trabalho bem feito.

Em 2017, você ressurge com outro romance, Despedida, cuja marca da obra é o vazio. História ficcional ou autobiográfica?

Os dois. Para mim é muito difícil separar. Meu mestre maior é Fernando Pessoa, o camarada que contou para a gente que o poeta é um fingidor. Mas eu mesma não sou nenhum pouco fingidora. Só sei fazer literatura tirando de todas as entranhas e vísceras de mim. Eu sou quase um instrumento de experimentação científico da minha arte. Sempre me defini pelo meu ofício, não com adjetivos mas com verbos. Escrevo, crio, comunico, expresso. Isso é o que eu conheço de mim no mais íntimo e profundo. Ao mesmo tempo, dizer que é puramente autobiografia é excluir parte fundamental do meu trabalho e retirar do balaio todos os meus estudos e conhecimentos narrativos, ficcionais, etc. É como se fosse uma fábula de mim mesma. Está tudo ali, mas em simbologia, não literalmente.

Ao lançar Vênus em câncer, um livro de “quase-poemas”, segundo apresentado por você, senti da sua parte uma certa insegurança. Medo das críticas ou receio de não agradar os leitores?

Nenhum nem outro, acho. Definir como quase-poemas tem mais a ver com o meu enorme compromisso com a despretensão. Com a parte de mim que gosta de ser um pouco amadora. Acho que minha pulsão criadora nasce muito desse lugar de leveza e intimidade, que é simplesmente fazer, sem tentar ser nada em especial. Nesse lugar de eterna concepção, uma pré-criação, que nunca vai ficar pronta, porque me interessa muito mais o processo que a suposta chegada. Não inscrever em pedra o que aquele texto é me dá uma sensação de liberdade que me interessa muito. Não sei o quanto disso dá para separar da insegurança ou dos medos, mas como disse Clarice Lispector, nunca se sabe o defeito que está sustentando o edifício todo.

Além do amor, que outros assuntos são essenciais nos seus livros?

Talvez eu esteja escrevendo para tentar responder a essa pergunta, para achar os meus temas essenciais. Na verdade, acho que eu sou bem monotemática. Como disse Adélia Prado lindamente, talvez eu passe a vida inteira reescrevendo meu primeiro livro. Acho que esse tom reticente de sempre se perguntar o que mais a vida pode ser, o mais eu posso sentir, como pequenas coisas nos tiram do automático e nos levam a outras dimensões e olhares. Perceber os detalhes da existência como portais de expansão, é essa coisa sem nome, banal mas ao tempo tempo mágica, que é o assunto dos meus livros.

Pode-se considerar feminista sua obra?
Sim, com certeza. Embora raramente tenha essa temática de forma direta, a minha obra é totalmente sobre a liberdade de escolhas, expressão e vivências de um corpo feminino. Inevitavelmente, toda a minha criação é feminista.
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JL Rocha do Nascimento: “Nossa contística rompeu com o regionalismo tacanho”

Por Wellington Soares, professor e escritor

 

Antes de apresentar o autor, contista consagrado da nossa literatura, faz-se necessário uma trilha sonora, de preferência com Evaldo Braga, um dos ídolos da música brega. Pra começo, que tal Sorria, sorria e Eu não sou lixo? Depois organizar, à maneira do cinema, a história em cenas distintas, mas interligadas. Artes essas que, inspirando a literatura, formam o alicerce da sua produção escrita.

 

Cena 1 

Meu interesse pelos seus textos remonta a 1979, quando ele, junto com Francisco Sales e Manoel de Moura Filho (Leonam), publicam Um dedo de prosa, livro meio artesanal e com capa do genial Fernando Costa.

Cena 2 

Lançamento em 2007, no Clube dos Diários, da antologia Geração de 1970 no Piauí: contos antológicos, reunindo textos de oito autores, entre eles JL e Aírton Sampaio, e belíssima capa de Antônio Amaral.

Cena 3 

Com o salão da Adufpi lotado, ele e Leonam e Aírton Sampaio lançam, em 2012, o mais belo livro erótico das letras piauienses, Dei pra mal dizer, JL abrindo o ousado projeto gráfico de Antônio Amaral com Fesceninos – “Instantes depois, nossas roupas misturadas pelo chão, nossos corpos nus perseguiam um ao outro e nossas carnes, trêmulas, ardiam em brasa.”, a exemplo desse trecho do conto Morangos silvestres.

Cena 4 

Em 2019, inaugura um novo marco na carreira literária, ao lançar Um clarão dentro da noite, seu primeiro livro individual, com boa acolhida dos críticos. Não tardou muito pra publicar este ano, embalado pelo incentivo dos leitores, Os pés descalços de Ava Gardner. E o que é melhor: existem outros no ponto de virem à tona brevemente.

Instigante na obra de JL, independente se coletiva ou individual, são as marcas da modernidade, diferencial que o distingue da maioria dos contistas locais: narrativas urbanas, densidade psicológica, linguagem trabalhada, intertextualidade e, traço importante, valorização do aspecto estético.

Embalado agora pelo som de Paulo Sérgio, outra referência do brega romântico – com as músicas Desiludido e Não creio em mais nada –, gênero  simpático a algumas de suas personagens, deixo com vocês esse oeirense que domina tão bem a palavra, quer como escritor, juiz do trabalho e professor.

  

1. Segundo João Cabral de Melo Neto, a vida não se resolve com palavras. Pode-se dizer o mesmo pra literatura? 

A vida não se resolve apenas com palavras, e sim com atos concretos, mas a palavra é nossa condição de possibilidade de estar no mundo, não temos acesso direto às coisas, tudo que fazemos na vida e no mundo é mediado pela linguagem, portanto, pela palavra. E se não resolve, pelo menos revolve, como diz o poeta. A literatura como recriação verbal da realidade bem cumpre esse papel, porque tanto o seu objeto como o processo de criação são linguísticos, tem a palavra como principal ferramenta.  

2. O que levou você, depois de integrar algumas obras coletivas, a trilhar uma carreira individual? 

Com o falecimento do Airton Sampaio em 2016, o grupo Tarântula de Contistas meio que se desfez, ficando reduzido a uma dupla (eu e o M de Moura filho, que o Bezerra JP muito antes já o tínhamos perdido para a esquizofrenia). O Airton era o elemento agregador do grupo, responsável por nos juntar quando passávamos muito tempo separados um dos outros, o que levou ele dizer, numa certa entrevista, que era uma pena que a literatura tivesse perdido dois escritores. Um para a magistratura, meu caso. Outro para a advocacia, o M. de Moura Filho. O direito bem que tentou, mas nunca conseguiu me separar da literatura. Ao contrário, por entender que o direito tem muito o que aprender com a arte literária, faço aproximações entre direito e literatura nas minhas pesquisas acadêmicas, trazendo o direito para dentro da literatura. Fiz isso na minha dissertação de mestrado e na Tese de Doutorado em Direito Público.  Em 2009, com o lançamento do livro “Geração de 1970 no Piauí: contos antológicos”, o Airton conseguiu reunir novamente o grupo e dessa (re)união surgiu em 2012 o livro “Dei pra mal dizer: contos eróticos”. Em 2016 estávamos preparando um novo livro, tendo a velhice como tema central, quando o projeto foi interrompido pela sua morte prematura. Meio que ficamos órfãos e resolvi partir para o voo solo e tenho incentivado o M de Moura Filho a fazer o mesmo. Em 2019 lancei o meu primeiro livro individual de contos (“Um clarão dentro da noite”), que teve uma boa recepção de crítica e de leitores. “Os pés descalços de Ava Gardner”, o segundo livro, deverei lançar no dia 22.05.21. Há um terceiro livro pronto em fase de revisão e a expectativa é publicá-lo até dezembro de 2021. Neste livro, intitulado provisoriamente “Dentro do olho do cão azul”, eu volto a trabalhar o erotismo como tema central. Há outros projetos. Para 2022, a publicação de mais dois livros, um de microcontos (“O livro de João”) e uma novela em construção, cujo título já está definido: “Diagnóstico precoce da farsa”. Em 2023, o projeto é partir para o meu primeiro romance.

3. Que objetivos buscavam vocês ao criarem o Grupo Tarântula de Contistas e de que forma essa experiência marcou a sua escrita? 

Entre nós havia algo em comum: idades aproximadas, ambiente universitário e a literatura com um sentido ontológico, como um existencial, um modo de ser. Além disso, nos identificávamos muito com o conto, talvez por ter sido este a principal expressão do “boom” literário surgido nos anos setenta e que deu origem a uma nova geração de escritores, contistas, sobretudo. Mas algo nos incomodava. A percepção de que o conto piauiense de até então não refletia esse movimento, ainda estava preso a temáticas regionais, não que esse tema não renda boas narrativas. A questão é outra. É que boa parte das obras não ultrapassavam a simples “contação” de causos, sem qualquer tipo de problematização, tratamento estético ou profundidade, enfim, ninguém se arriscava em penetrar territórios difíceis. O Airton tinha um nome pra isso: regionalismo tacanho. Resolvemos então criar o grupo Tarântula com o objetivo de, com um olhar crítico, propor uma contística centrada na problematização de temas urbanos, universais, mais complexos e provocativos, tudo isso sem descuidar da estética, da qualidade no tratamento dado à palavra escrita. Tais fundamentos são os que ainda movem minha escrita.

4. Ainda se pode considerar, no dizer do Mário de Andrade, qualquer texto um conto? 

Definir o que é o conto sempre foi uma tarefa difícil e olhe que estamos falando de uma das mais antigas formas de expressão literária. Trata-se de uma dificuldade própria dos textos em prosa, que não encontramos, por exemplo, na poesia. Quando lemos um poema, mesmo que tenha sido escrito em prosa, já temos a pré-compreensão de que se trata de um poema e não de um conto ou crônica.

Na prosa, não só a ficcional, recorrentemente se tem definido o conto a partir da distinção em relação aos demais subgêneros (romance, novela, crônica). E nem se diga que a extensão da narrativa é o critério mais acertado, que esse é o pior deles. Tome-se, por exemplo, “Um copo de cólera” e “Menina a caminho”, de Raduan Nassar. O primeiro tem um pouco mais de 80 páginas e é catalogado como um romance. O segundo é um conto, mas tem mais da metade das páginas do primeiro.

A tarefa se torna mais tormentosa quando o desafio é diferenciar o conto da crônica, pois ambos podem ser tanto curtos como longos. Com um agravante, dado que às vezes as estações se misturam e, nesse caso, dão origem a outra dificuldade: o conto pode não ser pura ficção, no sentido de invenção e a crônica pode revelar algo mais do que um simples retrato do cotidiano. Mas isso de se prender a um enquadramento rigoroso é muito complicado mesmo. Em muitos textos de Jorge Luís Borges, por exemplo, que só escreveu contos, fica difícil dizer onde começa o conto e onde termina o ensaio. Ele mistura tudo propositalmente, mas os chamou de contos, foram lidos como contos e foi nessa condição que se tornaram famosos, isso é o que importa.

Muito provavelmente a razão esteja com J. J. Veiga quando disse que a definição definitiva de conto nunca será encontrada e nem isso tem muita importância porque o conto é uma criação de mais de mil faces, portanto, é indefinível, e assim deverá continuar. Ou com Clarice Lispector ao dizer que era inútil querer enquadrá-la. Simplesmente não dava muito bola para essa classificação de gêneros e subgêneros.  Algo parecido já tinha feito Charles Baudelaire que ao publicar Le spleen de Paris (“As melancolias de Paris”), deu ao livro o subtítulo de “pequenos poemas em prosa”. No mesmo sentido, o contista peruano Julio Ramón Ribeyro com o livro “Prosas Apátridas”. Achou que a expressão “apátridas” merecia explicação e justificou pelo fato de que não havia como enquadrar plenamente a obra em nenhum dos gêneros, não pertencia a um território literário próprio. Talvez tenha sido por tudo isso que Mário de Andrade radicalizou ao dizer que “conto é tudo aquilo que o autor chama de conto”. Em certa medida, continua valendo.

5.- Em “fesceninos”, contos que abrem o livro Dei pra Mal Dizer, escrito em parceria com Airton Sampaio e M. de Moura Filho, você mostra sua faceta erótica. A recepção foi a mesma dos livros anteriores? 

Embora recorrente, o erotismo ainda é um tema interditado, quase sempre visto com alguma com reserva, sobretudo por quem não sabe fazer distinção entre erotismo e pornografia. Parafraseando o filósofo alemão Hans-Giorg Gadamer, se o leitor quer compreender um texto, tem que deixar que ele diga algo, numa palavra: tem que dar uma chance ao texto. Foi isso que aconteceu. Quem suspendeu os seus pré-juízos e leu o livro, percebeu que o tratamento dado ao tema foi sério, há nele uma preocupação estética. Infelizmente, alguns leitores fizeram apenas juízos morais e não estéticos.

6. De que maneira Um clarão dentro da noite, seu primeiro livro solo, pode ser tomado como um divisor de águas em sua obra? 

Primeiro, por se tratar do marco inicial de uma virada na carreira. Ontem, as obras coletivas, hoje as obras individuais. Segundo, pelo fato de que o livro reflete o amadurecimento do escritor. É o primeiro de uma série de outros que se seguirão, a começar por “Os pés descalços de Ava Gardner”.

7. Observa-se entre nossos escritores contemporâneos um anseio grande em pertencer a academias literárias, desejo que não víamos tanto no passado. Como você analisa tal fenômeno e se tem essa pretensão?  

Trata-se de um fenômeno curioso, mas impensável há 40 anos. Faço parte de uma geração de escritores denominada pelo Airton Sampaio de “Geração 70”, cuja consciência foi forjada no meio do movimento estudantil universitário e em um ambiente de resistência e de luta contra a ditadura militar. Nesse cenário, havia uma aversão a tudo que, de algum modo, lembrasse ou se identificasse com o sistema, com o “establischment”. Justo ou não, tínhamos a percepção de que as academias de letras, em especial a ABL, assim como qualquer outro sodalício, com a pompa e a circunstância que lhe são próprias, eram alheias à realidade daquele momento da nossa história e isso meio que nos afastou da ideia de pretender pertencer a uma academia. Nossas referências eram Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, que nunca pertenceram à academia, tempo em que jamais poderíamos conceber um Ferreira Gullar envergando o fardão. Quando formamos o Grupo Tarântulas de Contistas na primeira metade dos anos 80, fizemos um pacto: quem ingressasse em alguma academia seria excluído do Grupo.

Claro que olhando pelo retrovisar, penso que, de certa forma, fomos rigorosos demais na crítica, mas há que se considerar o contexto em que a ideia se formou. Hoje não penso mais da mesma forma e reconheço o valor das academias. Quando digo isso, me refiro às instituições sérias e com propósitos definidos e vinculados à literatura, o que não inclui as meramente ornamentais e que, no limite, abrigam membros que nunca escreveram uma linha literária sequer.

Quanto ao anseio dos escritores contemporâneos em entrar para as academias, trata-se de um reflexo da realidade que vivemos hoje. Há uma notória carência de significantes e pertencer a uma academia, não importa qual, pode ser sinal de prestígio, pode render alguns dividendos, enfim serve para aumentar o portfólio do escritor, mesmo porque, não devemos esquecer, vivemos naquele mundo de que nos falava Zygmunt Bauman: fugaz, de tempos líquidos e instantâneos, que privilegia as efetividades quantitativas no lugar das qualitativas. Desse mundo, tudo indica que somos reféns. Quanto mais tentamos nos livrar, mais somos puxados para dentro. Ele, praticamente, nos obriga a sermos felizes, ainda que a felicidade que anunciamos para o mundo inteiro não passe de um autoengano. Quanto a mim, por enquanto continuo imune à picada do aguilhão. Não tenho interesse em ingressar em academia, mesmo porque não tenho méritos para tanto.

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