Revestrés

15/10/2021
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Wellington Soares

Maria das Graças Targino: “Meu pai foi meu grande mestre”

 

 

Por Wellington Soares, professor e escritor

Seu nome completo é Maria das Graças Targino, com o qual assina os livros já lançados e os que estão por vir, pois adora viajar com e através das palavras. No trato pessoal, costuma ser chamada apenas de Graça Targino. É paraibana de João Pessoa, tendo chegado a Teresina no distante ano de 1971. Dos pais herdou a paixão pelo jornalismo e magistério.

Fora isso, ama cinema e teatro, áreas nas quais já arriscou uns passos. A música a transporta para o além, enquanto o voluntariado a acalma e lhe faz bem. Mas, por anos, fez tapeçaria e, acredite, ensaiou pintura de porcelana. Ama cozinhar, viajar, tem a casa como refúgio preferido e gosta de idiomas. Como ela se vê emocional e psicologicamente? “Sinto-me camaleão, luto como leão e sobrevivo como um pássaro azul”.

A estreia literária ocorreu em 2008, com o lançamento de Palavra de honra: palavra de graça. Depois veio Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos, em 2014. O livro mais recente, publicado em 2019, recebeu o sugestivo título de Amar, viver, escrever – síntese das veredas que marcam indelevelmente sua atribulada existência. Todos de crônica, focados em temas do cotidiano, linguagem simples, tom de esperança e marcados pela leveza do gênero.

Mas o que Graça sempre quis e conseguiu, evocando aqui o famoso texto de Simone de Beauvoir, “foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida. Unicamente o sabor da minha vida. Acredito que eu consegui fazê-lo. Vivi num mundo de homens, guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei e nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos”.

Bom ouvir agora, sem mais delongas, esta Cidadã Teresinense, título merecidamente recebido da nossa Câmara Municipal, o que ela tem a nos dizer sobre literatura, crônica, textos acadêmicos, opção pelo magistério, crítica literária e, não podia faltar, sob que ponto de vista as relações humanas aparecem em sua obra. Dificilmente você não irá se apaixonar, feito eu, pela Maria das Graças Targino. Vamo que vamo!

 

Frida Kahlo dizia que a pintura dela trazia consigo a mensagem da dor. Quanto à sua literatura, traz o quê?

Talvez, esta seja uma pergunta a ser respondida pelos meus leitores mais assíduos. De qualquer forma, ouso afirmar que meus textos trazem uma mensagem de VIDA: vida e morte, alegria e tristeza, esperança e desesperança, amor e desamor, encanto e desencanto, paz e guerra, céu azul e céu cinzento… VIDA!

Qual escritor(a) a impactou tanto a ponto de querer trilhar também esse tortuoso caminho?

Respondo de imediato e sem vacilo: meu pai foi meu grande mestre. Partiu quando eu era ainda criança, aos 12 anos. Dentre todos os acontecimentos que marcaram minha infância e adolescência, esta foi a dor maior. Passei a vida inteira buscando “pai”, querendo colo, um desassossego só. Dele, do meu pai, herdei o temperamento irrequieto, a vontade de ler e escrever…
Ele, jornalista sem diploma. Ele, sem qualquer instrução formal. Ele, sem jardim de infância. Ele, sem bancos escolares. Ele, sem farda engalanada ou lanches achocolatados. Sob outro ângulo, ele, com inteligência, persistência, obstinação e imenso amor às letras. Letras que se tornam frases, textos, contos, livros, matérias jornalísticas, etc. Meu pai, autodidata, numa época em que vocação era magia e encantamento, tornou-se, em curto espaço de tempo, escritor, ghost-writer (termo inexistente, à época) de grandes políticos paraibanos e, sobretudo, jornalista, numa vida curta, mas vivida com intensidade, fervor e furor. Por suas mãos, desde muito cedo, descobri, pouco a pouco, escritores e poetas, considerados, à época, grandes nomes nacionais e internacionais, a exemplo de José de Alencar, Franz Kafka, Marcel Proust, Honoré de Balzac, José Lins do Rêgo, Machado de Assis, Fedor Dostoievski, Érico Veríssimo, Augusto dos Anjos e muitos outros. Por isso, evito, categoricamente, mencionar livros-chave ou autores-chave. Temo cometer injustiças, desde que, de uma forma ou de outra, todos me propiciaram momentos inesquecíveis de sonho e, principalmente, de descoberta de mundo. Mas, não titubeio: meu pai foi, sim, apesar de sua partida precoce, o escritor que me mostrou a estrada a percorrer e me deixou como herança a vontade insana de trilhar esse adorável caminho, não importa, se, vez por outra, tortuoso e íngreme.

Por que a escolha da crônica dentre as várias opções do gênero narrativo?

Não diria que foi uma escolha. Como desde jovem, vivo a compulsão de ver e enxergar as pessoas, numa busca quase obsessiva de autenticidade e verdade, a crônica instalou-se em meus escritos. Afinal, é ela o gênero que permite, com relativa facilidade, denunciar as mazelas sociais, o cotidiano de quem nem tem voz nem vez. Independentemente dos conceitos formais que rondam a crônica, sem dúvida, é este o cerne da crônica: olhares acertados ou enviesados acerca da linha tortuosa das cidades e do viver, ou seja, o registro bem ou mal humorado do dia a dia das coletividades. Aliás, o delicioso livro de Carlos Drummond de Andrade, “De notícias e não notícias faz-se a crônica”, ano 1974, reforça, desde o título, a concepção de crônica: as notícias, simbolizando o real; as não notícias, o imaginário do cronista.

Foi a escritora que a levou ao magistério superior ou o contrário?

Impossível delinear: vocações que se cruzam e entrecruzam. Aos que me perguntam algo similar, retrocedo na linha mágica e, ao mesmo tempo, cruel do tempo. E lembro, então, do que tão sabiamente o escritor colombiano Gabriel García Márquez diz, no preâmbulo do livro “Viver para contar”: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.” Pois bem, me enxergo, rascunhando ou esboçando anotações em busca de imprimir feição definitiva a meus textos de menina e, logo depois, de adolescente, guardados, como não poderia deixar de ser, a sete chaves, ou melhor, a uma única, pequenina e frágil chave de um diário cor-de-rosa. Por outro lado, sempre brinquei de professora. Cedo, descobri ser este o caminho para desvendar com mais propriedade o viver. Como os pensamentos são sombras que vêm e que passam, às vezes, me pego a imaginar que nasci professora: revejo a sala grande de uma casa grande, onde aos meus irmãos cabia a função de atuar como endiabrados alunos. Quando resistiam, restavam minhas bonecas, de verdade ou de fantasia. Passados os anos, bonecas transmutadas em filhos, continuei a escrever.

Há preferência por algum de seus três livros e qual deles teve melhor acolhida pelos leitores?

Antes de meus três livros de crônicas aos quais se refere – “Palavra de honra: palavra de graça”, 2008; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”, 2014; “Amar, viver, escrever”, 2019 – e concomitantemente a eles, como acadêmica, que ingressou muito jovem como aluna, aos 17 anos na Universidade Federal de Pernambuco e aos 22, como profissional bibliotecária e adiante como docente junto à Universidade Federal do Piauí (UFPI), tenho escrito bastante nos campos da Biblioteconomia, Ciência da Informação e Comunicação Social (Jornalismo). Textos de diferentes naturezas: livros, capítulos de livros, artigos técnico-científicos, comunicações em eventos científicos, tanto em suporte impresso quanto eletrônico. Segundo resgate do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por meio do Currículo Lattes, até esta data, são nove livros; 66 capítulos de livros; 16 livros organizados; 181 artigos técnico-científicos; 33 artigos em revistas (magazines); 67 trabalhos publicados em anais de eventos; e 871 artigos em jornais.
O que ocorre é que os textos técnicos e científicos, lançados por instituições de ensino superior e editoras comerciais exigem do autor menor esforço de divulgação porque elas mantêm uma infraestrutura adequada e um público-alvo definido. Por exemplo, possuo capítulo em livro da renomada Editora Atlas; da Universidade de Brasília e de muitas outras IES. Lancei em coautoria com a Professora Sueli Mara S. P. Ferreira (USP), trilogia sobre editoração de revistas a cargo do SENAC-SP e minha tese de pós-doutoramento conquistou o Prêmio The Information for All Programme da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), fato ignorado pela mídia local. No auge do surgimento da internet, lancei capítulo sobre as decorrências sociais que adviriam da Rede, em capítulo do livro “Cultural ecology” do International Institute of Communications (Londres), ainda em 1997, com a ressalva de que, curiosamente, os impactos previstos se confirmaram.
Aliás, poderia discorrer muito mais sobre esta faceta de minha produção. Porém, retornando à questão específica alusiva aos livros de crônicas, empiricamente, têm nível de aceitação similar, com o adendo de que o primeiro deles está completamente esgotado. São livros editados sob meu encargo e sem qualquer ajuda de custo nem da instituição a que dediquei toda minha vida (UFPI) nem tampouco de órgãos governamentais. Jornada silenciosa e solitária… Consequentemente, divulgação lenta e capenga….

Que acha dos críticos que afirmam ser a crônica um texto literário menor, inferior?

Para falar a verdade, não tenho a pretensão, aqui e agora, de discorrer sobre crônica como gênero literário ou jornalístico, até porque os gêneros nada mais são do que um conjunto de traços característicos, mas instáveis, que marcam a obra dos autores. Aliás, o fato de eu ou alguém escrever um romance ou um conto não lhe assegura a garantia de bom literato. Há péssimos contistas, romancistas, poetas e assim por diante, como há péssimos cronistas. O gênero não é determinante da qualidade dos textos.
Indo além, dificilmente, um mesmo autor se prende a vida inteira a um só tipo de texto. Por exemplo, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, trio que parece resgatar a crônica do limbo em que estava no contexto da literatura brasileira, à época, apesar de considerados os maiores cronistas do Brasil, também transitam em outros segmentos literários. Sabino, romancista, contista e novelista. Paulo Mendes, poeta e crítico literário. Otto, contista, novelista e romancista. Para ideia mais precisa, a Wikipedia, que ocupa, mais e mais, o espaço antes destinado à Britannica Online, em seu verbete – cronistas do Brasil –, arrola cerca de 100 nomes, dentre os quais, estão: Carlos Drummond de Andrade, Carlos Heitor Cony, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, José de Alencar, José Lins do Rego, Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Mário Prata, Martha Medeiros, Nelson Rodrigues, Olavo Bilac, Rachel de Queirós, Rubem Alves, Rubem Braga, e assim quase indefinidamente. As exceções dos “cronistas de carteirinha” ficam por conta de alguns poucos. É o caso de Dom Hélder Câmara, polêmico arcebispo de Recife e Olinda, que dedicou parte de seu tempo a escrever belas e expressivas crônicas sobre as duas cidades. É o caso, também, de Paulo Fernando Craveiro, do tradicional Diário de Pernambuco (Recife), cujas crônicas auxiliam a reconstituir nosso tempo.
Logo, a fala dos críticos que afirmam ser a crônica um texto literário menor ou inferior não produz eco na esfera de meu viver ou ser…

Sob que enfoque aparecem as relações humanas em sua obra?

Tento – não sei se consigo – dar espaço, como falei anteriormente, a temas que afetam a existência dos que estão afundados (não alojados) em estratos sociais mais depreciados. Não falo somente de (des)nível social, cultural e/ou econômico. Imigrantes, homossexuais, velhos, doentes mentais, prostitutas e michês, drogaditos, quilombolas, indígenas, todos estes são temas recorrentes em meus escritos… Mas não há só dor. O canto das baleias nos encanta. Livros, leitura e bibliotecas dão esperança aos que integram o Projeto da Remição pela Leitura do Sistema Penitenciário Federal. O amor e a amizade incondicional valem muito! Em suma, há muito a ser visto e revisto nas relações humanas, o que nos fazem repensar a vida e a morte.

Mesmo com toda a lama, vamos levando

Por André Gonçalves

São tempos difíceis para se falar de alegrias, conquistas, vitórias. Tempos difíceis para sonhadores, poetas e bailarinos. São tempos em que dizer “vamos sobrevivendo” deixou de ser uma expressão hiperbólica em conversa de fim de tarde e passou a ser o mais puro retrato da realidade da enorme maioria de brasileiras e brasileiros.

Essa edição #49 de Revestrés chega tentando, mais uma vez, trazer um respiro. Tentando fazer com que consigamos lembrar de quem somos, de quem fomos, e também lembrar de quem queremos ser amanhã. Porque em meio a tanta coisa, volta e meia nos esquecemos de que em meio a tantas e tantas perdas, perdas de pessoas queridas, de alegrias, de adiamento de sonhos e desejos e de luta pela sobrevivência “concreta”, estamos ainda respirando e que isso é o que nos mantém de pé.

Trouxemos então para nossas páginas um pouco do muito que tem sido feito, pensado, criado e vivido em meio ao medo.Trouxemos, por exemplo, a coragem e a inteligência cortante de Letícia Carolina: “travesti, negra, gorda e do candomblé”, a primeira professora trans da Universidade Federal do Piauí enche nossas páginas em uma entrevista encantadora pela força e pela capacidade de se entender no mundo, mesmo quando se dá a oportunidade de ser “uma mulher de 30 anos bebendo com amigues”, coisa que, muitas vezes, muita gente não tem como ser.

Como coragem é mais do que nunca palavra de ordem, conversamos com outra mulher que empurra o medo para o canto e se joga na luta: uma mulher Preta. Preta Ferreira fala de sua prisão absurda sem provas, mostra sua luta por justiça e pergunta, justificando seu engajamento político: “como posso ser livre se vejo meu povo morrendo toda hora, se meu povo está sendo assassinado por comida, enquanto tem gente morrendo sem ar?”. Preta é um pouco, ou muito, cada pessoa sobrevivendo nesse país.

Quer mais mulher, coragem e luta? Temos! Célia Gpmes, feminista, negra e ex-trabalhadora sexual também conta sua história e mostra a importância do engajamento e da capacidade de seguir em frente para transformar a nossa vida e a vida de quem está perto de nós.

Para lembrar quem fomos e resgatar quem queremos ser, nosso ensaio fotográfico traz uma viagem no tempo: fotografados por Assaí Campelo, vários personagens da cultura piauiense, da música, da dança, do teatro, das artes visuais, retornam em imagens que chegam a comover pela espontaneidade e pela promessa de vida e esperança que revelam.

Em Campo Maior, no interior do Piauí, uma antiga prisão é transformada em escola de música. E mostramos aqui um pouco dessa história, sonhando que isso acontecesse todos os dias nesse país. Também do Piauí, o nosso cuscuz, amarelinho e com alma nordestina, coloca cor (quem dera também tivesse como ter o sabor)  em nossas páginas. Mostramos que mais um passo para descobrir quem fomos pode ter sido dado com a descoberta de um novo sítio arqueológico no sertão piauiense, na Pedra do Letreiro.

E entre várias outras coisas, nossa reportagem não poderia deixar de tocar em um assunto que dominou  – e ainda está nas discussões de artistas e produtores culturais piauienses – a pauta artística e cultural do Piauí: “cadê o contrato que estava aqui”, perguntamos, ao tratar sobre o então anúncio da Prefeitura de Teresina de mudança na forma de apoio e contratações a grupos de dança, Orquestra Sinfônica de Teresina e vários outros produtores culturais e associação. Uma discussão que apenas começou, e segue precisando de atualização e debate.

Seguimos então acreditando e batalhando. Essa é a Revestrés #49 que, esperamos, lhe ajude a seguir em frente. Mais uma vez, esse é o nosso recado. Não pare de acreditar.

***

Editorial da Revestrés#49.

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Edmar Oliveira: “Eu só desejo conversar com meus fantasmas”

Por Wellington Soares, professor e escritor

 

Podem não acreditar, mas já conhecia o Edmar Oliveira antes de conhecê-lo pessoalmente. Conhecia e, por conseguinte, o admirava bastante, uma vez que, dificilmente, acredite, alguém o conhece sem render-se aos seus encantos tanto como ser humano e intelectual, quanto como psiquiatra, militante da luta antimanicomial e comunista utópico.

Antes o conhecia pelo que falavam dele dentro e fora de Teresina. Que coeditou, em mimeógrafo, o jornal alternativo Gramma; que produziu filme com Torquato Neto, nos anos 1970; que comandava o Piauinauta, um blogue de contato entre os perdidos do espaço que tentam compreender a vida; e que não só foi diretor do Instituto Nise da Silveira (RJ) como também inspirou Stênio Garcia a encarnar, na novela “Caminho das Índias”, da Rede Globo, o personagem Dr. Castanho.

Os primeiros contatos com Edmar vieram através da leitura de Ouvindo vozes Von Meduna, títulos focados em saúde mental, área em que atua; e, depois, Sitiado e Não existe pretérito perfeito, romances que dialogam – de forma crítica – com o passado histórico brasileiro: Coluna Prestes e Ditadura Militar. Afinal, os escritores costumam se desnudar por meio de seus escritos.

Sua entrevista à Revestrés (#25) serviu para estreitar nossas relações. O encontro, na casa do seu irmão Moisés, bairro Aeroporto,  transcorreu num clima de franqueza e cordialidade. E o mais importante, sem tabu sobre qualquer assunto, desde a incumbência em dar eletrochoque no antigo Hospital Psiquiátrico Engenho de Dentro, que ele driblou de maneira genial, até classificar-se como doido que não deseja cura. O lançamento dessa edição no Rio de Janeiro, em 2016, contou com o apoio integral do Edmar, inclusive mobilizando pessoas, e selou de vez a amizade com a trupe da revista.

Mas, enquanto esse piauiense arretado de bom, filho do município de Palmeirais, deseja conversar com os seus fantasmas, talvez ansioso por se conhecer melhor, os leitores desta entrevista só queremos embarcar nas suas viagens literárias e existenciais. Quem sabe nossos fantasmas não sejam os mesmos?

 

Mia Couto afirmou que o poeta, no sentido amplo, é aquele que conversa com as sombras. Que acha disso? 

Acho que o Mia Couto assume o papel político de tirar das sombras o passado de Moçambique, quase todo sustentado por uma frágil cultura oral, que o colonizador português sempre tentou apagar. Nesse sentido, conversar com as sombras, é uma missão da literatura de Mia para não deixar morrer a cultura que constituiu Moçambique. Mas no sentido amplo ele também tem razão. Quem escreve dialoga com seus fantasmas numa necessidade de manter viva a memória que constituiu o escritor. O velho Graça é soberbo na reconstituição de sua infância na obra que assim nomeou. O que faz a literatura não é a recuperação memorialista cronológica, mas esse diálogo com os fantasmas que nos constituíram, que apesar de deformar a realidade, aproxima o real fantasmagórico da ficção criada. E como nada se cria – a química da literatura ficcional contém pedaços do escritor na ficção.

O que faz a literatura não é a recuperação memorialista cronológica, mas o diálogo com os fantasmas que nos constituíram.

Que motivos o levaram a deixar o Piauí e migrar pro Rio de Janeiro? Já pensou em voltar? 

Já faz bastante tempo. Saí muito jovem. Teresina tinha a metade da população que tem hoje e o provincianismo era muito forte. Talvez hoje não tivesse saído. Como me envolvi com a cultura desde muito cedo, a visibilidade com que conquistei (sem querer) dificultava exercer minha profissão. Buscava naquele momento um anonimato que só uma cidade grande poderia me dar. Hoje, olhando pra trás, tenho muito mais tempo de vida no Rio do que vivi em Teresina. Teresina me passou de relance, um pouco de adolescente e pouquinho do adulto. Toda a minha infância foi em Codó, no Maranhão, apesar de ter nascido em Palmeirais. Não tenho mais dúvidas de que me casei com o Rio, apesar das dificuldades que a cidade atravessa. Teresina é uma namorada antiga inesquecível. De vez em quando a vejo, mas não tenho mais idade para uma paixão juvenil. Vou ficando no Rio.

Há afinidades entre psiquiatria e literatura, duas áreas nas quais você atua? 

Diria que as duas trabalham com o inconsciente. A prática em Saúde Mental, diferente da prática médica, trabalha uma clínica da narrativa e não uma clínica da evidência. Explicando: num infarto o médico tem de atuar rapidamente com os sintomas evidentes da crise. Na Saúde Mental, mesmo o paciente em crise, é preciso paciência do médico para entender a narrativa da história que o paciente conta. Portanto no método, minha profissão está muito próxima da literatura. Passo de uma à outra sem dificuldades.

Retomar a ditadura militar em Não existe pretérito perfeito, seu livro mais recente, foi mero resgate histórico de uma época ou um alerta aos que defendem um regime de exceção sem saber o que isso representa de fato? 

Fui tomado pela história que narro em “Não existe pretérito perfeito” logo após a eleição de Bolsonaro. O enredo foi aparecendo com um diálogo com os fantasmas do passado. E todos os elementos estão ali: o torturador como uma pessoa entre nós no papel de homem de bem; a prática da tortura sem a culpa do nosso homem de bem nas dores infringidas em quem ousa discordar do “bem”. O namoro da psicanálise com a tortura, que na vida real foi representada por Amílcar Lobo, de triste memória; o parentesco entre torturados e torturadores; e o Brasil, um casarão, onde moram todos os personagens. Duas revelações: namorei um casarão em Botafogo, de fato, para fazer dele meu personagem principal e nele coloquei meus personagens-fantasmas. Um desses personagens, o filho do militar torturador (nenhum personagem tem nome) tomou vida durante a escrita e ficou bem maior do que tinha imaginado. De fato, é nele que me encontro com os fantasmas que nos assombraram no passado. E o livro é um aviso medroso do que podia nos acontecer. E, para desgraça de todos nós, minha previsão vem se concretizando. Ainda tenho esperança de que o livro perca a razão. E fico muito triste por estar acertando.

Dois personagens são emblemáticos em Sitiado: o matuto Teodoro, alma pura do povo, e o fascinante Manuel Bernardino da Mata, síntese de espírita/vegetariano/socialista. Com qual deles você e os leitores se identificam mais? 

Manuel Bernardino, o Lenine da Mata, de fato existiu. Tentei fazer uma pesquisa em Dom Pedro, mas quando liguei para a biblioteca pública da cidade fui informado que nada existia sobre o personagem, mas que muitos velhos na cidade sabiam de sua história. Não fiz uma viagem até lá para pesquisar melhor e me ative ao Diário da Coluna Prestes, de Lourenço Moreira Lima, escrito no calor da luta. De lá tiro o personagem da realidade para jogar na ficção. Depois de ter escrito meu livro, soube de um média-metragem da Maranhense Rose Panet – um documentário sobre a memória de Manuel Bernardino. Entrei em contato com ela e mandei meu livro. Tínhamos programado fazer uma exibição do filme junto com um relançamento do livro no Maranhão, mas aí veio a pandemia e não foi possível. Aqui vai o link para o filme da Rose: https://www.youtube.com/watch?v=UVGNmU3afYU

. Foi uma grata surpresa e, embora eu não a conheça pessoalmente, posso dizer que somos amigos e trocamos muitas informações sobre literatura e cinema. Outra curiosidade, no filme é Zeca Baleiro que faz a voz nos discursos de Bernardino. Quando estive no Piauí no último Salipi, fiquei no mesmo hotel que o Zeca e Salgado Maranhão nos apresentou. Dei um livro para o Zeca Baleiro que gostou de saber que o Bernardinho estava no livro. Mas voltando à pergunta feita, Teodoro – o ingênuo da ficção e Bernardino são dois personagens marcantes, que facilmente cativam os leitores (muitos falaram deles). Mas o meu preferido é o mascate Abdon, que representa os árabes que ajudaram a formar o Maranhão e Piauí com suas viagens pelo sertão tocando matraca e trazendo objetos cobiçados pelas mulheres que viviam naquelas brenhas. O nome do personagem foi tirado de uma música do Gonzaga, que certamente homenageava os árabes do sertão.

Antes de cometer suicídio, Torquato Neto deixou um bilhete ao filho Tiago. Que bilhete você, que o conheceu pessoalmente, escreveria a ele depois de 49 anos após sua triste partida? 

“Rapaz, você não foi muito apressado em 72? Gostei não”.

A literatura piauiense tem muitos poetas e poucos romancistas. Há da sua parte, com cinco livros publicados, intenção de ocupar esse vazio em nossa ficção? 

Uma confissão: a poesia é a mais maravilhosa das artes e engana muitos que se dizem poetas. E hoje é para quem sabe usar o “paideuma” poundiano (Erza Pound – 1885/1972) com sabedoria. No mundo da pressa ninguém quer gastar tempo como escreviam os clássicos. Outra característica do poeta é arrancar das palavras o indizível. Tanto na onomatopeia do mestre Da Costa e Silva (“Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda”), seja na cirurgia de Salgado Maranhão limando a palavra para lhe dar novo sentido (“não cantarás aos muros de arrimo tua fantasia de pássaro”). Confesso que não tenho esse talento e fazer versos onde apenas se quebre o pé das palavras e se supõe que a rima já faz a poesia é falsificar o poeta. Acho mais fácil o romance, mas é preciso não ter preguiça no enredar a trama. Mas não me vejo ocupando qualquer lugar na literatura piauiense. Já temos muito bons escritores. Eu só desejo conversar com meus fantasmas.

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Fernanda Paz: “A literatura me levou a universos inimagináveis”

 Por Wellington Soares, professor e escritor

 

 

 

Minha identificação com a Fernanda Paz foi quase imediata quando a conheci. Como diria Bandeira, um alumbramento em termos de beleza e sensibilidade cultural. Gostamos das mesmas coisas praticamente: conto, teatro, desenho, Clarice Lispector, magistério, crianças, poesia, educação, Nelson Rodrigues, cinema, arte e do Pedro Ben, claro, músico com quem é casada.

O lançamento de Olhos de vidro, pela Quimera, foi outra coisa que nos ligou bastante. Como assim? Um dia, em 2018, ela apareceu, em nossa editora, a fim de publicar esse novo livro de contos. E avisou logo que não queria um projeto comum, mas um com formato artesanal. Além de barato, que fosse impactante ao leitor de tão bonito. E não satisfeita, produziu manualmente um saco de pano para envolvê-lo. A pequena tiragem não deu pra quem quis.

Logo depois, Fernanda já estava, pela qualidade literária, publicando contos na Luso-Brasileira, Acrobata, Revestrés e Diversos Afins, revistas culturais dentro e fora do Piauí. Sem falar de participação em antologias poéticas e coletâneas de contos. Por gostar de desenhar, seus textos costumam vir acompanhados de ilustrações, combinando as linguagens verbal e visual. Ainda neste ano, pretende lançar Duna, projeto no qual mistura performance, poesia e sons experimentais – já em processo de gravação.

Impressiona também sua relação com os baixinhos, alunos do ensino infantil, no tocante a despertar o gosto pela leitura desde cedo. As estratégias vão desde a contação de histórias em sala de aula até o projeto Sacola da Leitura, com empréstimo de livros às crianças para serem lidos, pelos pais, nos finais de semana. Crianças essas, bom destacar, da rede municipal de ensino e de famílias humildes da grande Teresina, cujos lares não dispõem desse objeto inacessível.

Embora pequena em quantidade, de apenas dois livros, a obra de Fernanda Paz perpassa temas bem atuais e instigantes: feminismo, diálogos entre o real e o fantástico, erotismo, relações abusivas e mundo de aparências: “… de tanto vestirmos nossas percepções e opiniões vamos alimentando uma sociedade mascarada, onde ninguém consegue ser o que é. Em um espelho, ficamos irreconhecíveis a nós mesmos”.

Para quem não a conhecia ainda, eis aqui a jovem escritora teresinense por inteiro. Desnuda, livre, verdadeira e atraída por universos inimagináveis que somente a literatura é capaz de levar.

 

Sem a literatura, falou Bukowski, a vida é um inferno. Pensa assim também?

Impossível afirmar que a vida seria igual sem acesso ao ilimitado que é a literatura e a arte em geral. A escrita nos permite convertemos esse inferno em afetos, ou até criarmos infernos maiores para sublimar os nossos. O encontro com a literatura desde sempre me levou a universos inimagináveis, não falo só escrevendo, o consumo de arte me modifica também.

Que livros despertaram em você o desejo de ser escritora?

Inicialmente, os clássicos juvenis da coleção Vaga-Lume que me faziam viajar em aventuras, também me impulsionaram a criá-las e guardá-las em velhos cadernos. Mais tarde a vida jovem noturna, a música, o álcool, Lispector em A Hora da estrela e “Laços de família”. O teatro me trazendo Nelson Rodrigues em Vestido de Noiva, Anjo Negro, Beijo no Asfalto, A mulher sem pecados (nessa última cheguei a atuar pelos palcos da cidade). Bukowski e Salinger cuspindo sem dó suas palavras na minha cara e Fernando Sabino simplesmente vivendo seu encontro marcado me levaram a iniciar um blog. Mas naqueles tempos, onde tudo se mostrava inacessível a jovens periféricos piauienses, ler Baião de dois, da Rosa Kapila, e conhecer sua origem e história – do bairro Vermelha, em Teresina, às universidades do Rio de Janeiro – foi o que impulsionou minha primeira publicação. Hoje entendo a representatividade e relevância dessa leitura pra mim. Posteriormente, fui presenteada com a biografia de Anne Sexton pela própria Rosa, que também prefaciou meu primeiro livro.

A leitura nunca foi democrática e acessível no país em que vivemos, e esse quadro só se agrava.

O conto ainda desfruta, na sua opinião, do mesmo prestígio de outrora?

A rapidez tecnológica vem afastando as novas gerações desse lugar infindo que é o livro. Nenhum estilo de escrita fica de fora. Mas há que se notar que a atualidade também abre novos espaços, desde a alta de obras literárias em formatos de películas cinematográficas nos streamings à bibliografias citadas por criadores de conteúdos em redes sociais, esses e outros movimentos elevam a procura dos exemplares em livrarias e sites, destaque para ficção científica. O conto tem, sim, suas vantagens nesse contexto e dialoga com a fluidez dos acontecimentos. Mas convenhamos, não há como olhar o passado com a perspectiva romantizada, a leitura nunca foi democrática e acessível no país em que vivemos, e esse quadro só se agrava.

De que forma literatura, música e artes plásticas marcam sua vida e obra?

Fernando Pessoa já soprava em nossos ouvidos: “A arte é a mestra da vida”! Em mim, tudo parece ser uma única coisa, que vai se emaranhando em afetos e trazendo percepções que serão pedacinhos de eternidade que eu mesma construí. Devo muitos textos a sons que me atravessaram em um dado momento, de leituras e escritos vou parindo ilustrações, amo também a sétima arte, viajo a mil mundos e me sinto criativa. A minha vida é involuntariamente marcada pela arte, em algum momento do dia ela estará presente sem esforço, e os meus olhos e sentidos estarão abertos. Não saímos os mesmos depois de sentir um som, ler um clássico ou imergir no mundo imagético das artes visuais, e essa outra de mim que nasce a cada contato, também doa em aprendizado à minha própria obra.

Que estratégias você usa a fim de despertar o gosto pela leitura em seus alunos?

Primeiro de tudo, muito contato com materiais diversos, que eles mesmos possam escolher, ou pela capa, ou pelo título, ou apenas pelas cores, o que os interessa. É um público infantil, então me desdobro em contações de histórias, uso corpo, entonação, movimento, nisso o teatro me ajudou demais. Por vezes, me fantasio ou confecciono materiais em e.v.a e feltro. Também fazemos um trabalho intitulado “sacola da leitura”, no qual emprestamos livros infantis para que as famílias leiam com suas crianças durante o final de semana. Na segunda, debatemos a leitura que fizeram em grupo. Os olhinhos sempre brilham e, quase sempre, eu me emociono muito em pensar o quanto a desigualdade social rouba um universo de possibilidades das nossas crianças.

O que o leitor vai encontrar ao ler, por exemplo, O buraco e outras histórias e Olhos de vidro?

Encontrará diálogos entre o real e o fantástico, personagens em aparente confusão mental que levam a atitudes desesperadas, aspectos indizíveis no relacionamento humano. Talvez um toque poético. Em O buraco e outras histórias sinto algumas palavras desgastadas pelo tempo, um trato até insensível com alguns temas que precisariam de um cuidado maior na abordagem, mas não vejo prejuízo ao trabalho como um todo. Escuto de leitores que, por vezes, meus contos possuem aspectos distópicos que flertam com ficção científica. Gosto de pensar que os leitores desses dois livros, ou dos que estão porvir, possam acessar novos lugares e perspectivas na mente. Não trabalho com o óbvio, imagino e escrevo novas realidades ou uso metáforas para descrevê-las, mas o faço de uma maneira acessível a qualquer tipo de leitor.

Como o feminismo e o erótico aparecem na sua obra?

O feminismo veio a mim em vivência, antes de leituras. De conselho e exemplo sofrido de mãe, de sentir na pele o quão difícil é ter o trabalho notado em uma sociedade extremamente patriarcal, vivendo numa cidade provinciana como a nossa. Hoje aumentar minhas referências nessa pauta me deixa pensativa sobre o quanto normalizamos o que não é normal, e o quanto suportamos caladas até aqui. Impossível tais vivências não influenciarem diretamente na minha escrita e produção como um todo. Em alguns contos, como “Envelope”, narro em metáforas doloridas a opressão vivenciada por tantas mulheres em um relacionamento abusivo. Uma mulher larga tudo, casa, marido, filhos, emprego para experimentar sua sexualidade em uma aventura juvenil no conto “Outra vida”. Em uma viagem otimista, escrevo em “Energia transitória” sobre uma personagem que transforma homens reais em bonecos eletrônicos de prazer, tornando isso um negócio que vai se expandindo e reinventando a sociedade. Isso fala muito sobre os reflexos da objetificação dos nossos corpos que são tidos como uma vitrine para homens, se usarmos em algo diferente que não seja o prazer masculino, o nosso corpo é “cancelado” pela sociedade, como vemos em protestos contendo nudez. Sou uma apaixonada por corpos, pela nudez. Eu a desenho, admiro, escrevo, consumo e nem sempre ela fala sobre erotismo, não deveria ser conteúdo sensível, a existência é nua, de tanto vestirmos nossas percepções e opiniões vamos alimentando um sociedade mascarada, onde ninguém consegue ser o que é. Em um espelho, ficamos irreconhecíveis a nós mesmos.

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Elas em mim

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
(Cora Coralina)

 

 

Cora Coralina, Florbela Espanca ou Frida Khalo?

A pergunta veio em meio a uma live. O tema: as múltiplas escritas femininas, a partir da minha produção literária. A provocação me pegou de surpresa e eu perguntei de volta: posso ser uma mistura das três? Em seguida falei muito superficialmente sobre cada uma, repetindo que sou um pouco de cada. Mas são mulheres bem diferentes! – o entrevistador repete.

Fiquei com os nomes dessas mulheres martelando na minha cabeça. Sem querer ele me dava um mote para este texto.

Sim, concordo. São diferentes. Somos diversas. Estilos diferentes. Espaços diferentes. Vivências diferentes. Todavia há um traço comum entre as três: por vinte e três anos, elas dividiram o mesmo tempo aqui na Terra. Se uma tinha conhecimento da outra, eu não sei. Apenas sei que o tempo era de sofrimento entre tentativas de uma existência plena.

Pensando primeiro em Cora Coralina, a de data de nascimento mais antiga (1889-1985) contudo a mais longeva. Das três, a única cuja vida alcançou meus dias embora na década de 1980 eu ainda não tivesse me dado conta de que escrever era o meu destino. A própria Cora Coralina se fez abrigo para todas as mulheres em seu célebre poema Todas as Vidas, oferecendo um amparo neste pensar. Temos em comum, além da nacionalidade e da origem provinciana, a tardia possibilidade de publicação. Não de escrita ou de textos soltos em jornais. Falo de livros. Ela limitada pelas convenções do seu tempo e pela constante necessidade de transgressão, o que a une a Florbela e Frida. Eu pelos conflitos internos e com um mundo que deu à mulher a oportunidade de independência econômica, talvez por necessidade do sistema, mas manteve firme a cobrança dos papéis sociais estabelecidos por uma sociedade patriarcal.

Em seguida vem a portuguesa Florbela Espanca (1894-1930), por muitos definida como “mais coração”, pela criação de um eu-lírico arrebatado por sentimentos profundos e uma poesia marcada por intenso conteúdo emocional. Viver além-mar não evitou que ela pagasse muito caro pela ousadia de buscar a liberdade. O poema Eu, publicado no Livro de Mágoas (1919) já anunciava: Sou a crucificada… a dolorida… (…) Sombra de névoa ténue e esvaecida/E que o destino amargo, triste e forte, /Impele brutalmente para a morte!”.  Muito cedo se foi. Vencida, talvez, pela hostilidade do mundo. Por volta do mesmo tempo em que seus livros póstumos são publicados, Cora vendia livros dos outros, fazia doces e ganhava na viuvez a liberdade; e Frida, com sérias sequelas de um acidente, casava-se com o pintor Diego Rivera e se frustrava na tentativa de ser mãe.

Chegamos, então, à cultuada mexicana (1907-1954) que tinha na pintura surrealista sua forte expressão. Contrariando a crítica insistia que suas telas não retratavam sonhos, mas a sua própria realidade. Presa a uma cama, repetia: Para que preciso de pés quando tenho asas para voar? O corpo aprisionado pela dor não a impediu de usá-lo a favor do que povoava a sua alma, enfatizando a autonomia sobre essa estrutura que apesar de frágil lhe pertencia. Ainda em vida viu o reconhecimento de sua obra, mas não o mesmo entusiasmo devotado à obra de Diego. Depois de sua morte, ele diria emocionado que ela era poesia e a própria genialidade. Viveu um pouco mais que Florbela, mas também teve sua vida encurtada. A transgressão pode ser vista como ponto unificador de suas vidas, no entanto é a arte produzida que revela em ambas o tom visceral.

Não percebo em mim a transgressora de costumes, apesar de sentir repugnância pela palavra “recatada” como qualificação para mulheres. Sou filha da minha época. Somos todas, mesmo as que não se assumem como feministas por equívocos na compreensão do termo, herdeiras das lutas, artes e coragem das que vieram antes de nós. Reafirmo agora com mais convicção o que respondi intuitivamente e ouso ampliar o entendimento: sim, carregamos um pouco de cada uma dessas mulheres em nós e é nosso dever levá-las às próximas gerações.

 

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