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24/07/2021
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Wellington Soares

Demetrios Galvão: “A poesia é uma arte subversiva”

Por Wellington Soares, professor e escritor

 

Aos que me perguntam, digo que é difícil – quase impossível mesmo – não gostar do Demetrios Galvão. O cara é um baita poeta, professor extraordinário de história, encantador de gentes, curte rock and roll, pai do Assis e companheiro da Emanuelle, de esquerda e, não bastasse, teve em  Bandeira, Quintana e Neruda a inspiração inicial pela arte do versejar.

Quando o conheci? Faz um tantinho de anos, mas foi em 2012 sobretudo, quando fomos à Balada Literária de São Paulo, a convite  do intrépido Marcelino Freire, que entrelaçamos de vez nossa amizade e inquietações culturais. De tal forma que basta eu acenar, a exemplo desta entrevista, pra ele topar na hora; sendo a recíproca, claro, correspondida também.

Metido com a poesia até a alma, Demetrios tem quase 20 anos de estrada, uma obra constituída por cinco livros – entre os quais BifurcaçõesO avesso da lâmpada e Reabitar – e o projeto poético Capsular, sem falar ainda de textos publicados em antologias e revistas literárias. E pensar que tudo começou, na adolescência, ao frequentar bibliotecas públicas de Teresina.

Confessa que só foi se achar literariamente, algum tempo depois, ao ler poetas que, desafinando o cânone ocidental, entortam os leitores de maneira irreversível. Rimbaud, Chacal, Leminski, Torquato, Kerouac, Ginsberg e Burroughs são alguns desses autores que abrem olhares diferenciados sobre o cotidiano nas suas infinitas possibilidades de linguagem. Afinal, um poeta não se faz com versos, lição que Demetrios assimilou do nosso Anjo torto, mas correndo risco e sem medo do perigo.

Sua poética de temática variada e aberta, um assunto levando a outros e sem fim previsível, assenta-se num tripé pra lá de instigante: vida, subversão e atitude – uma coisa puxa outra a fim de criar espaços de respiro e grito coletivo, notadamente contra o provincianismo de Teresina, onde nasceu e vive.

Diferentemente do “homem que sente febre e tem medo de falar o que lhe dói”, tão bem retratado no texto Útero paterno, do livro Reabitar, Demetrios Galvão solta o verbo livremente nesta entrevista. E quem ganha, óbvio, somos nós que o admiramos como poeta e coeditor da Acrobata – revista de literatura, artes visuais e outros desequilíbrios.

 

A escritora espanhola Rosa Monteiro afirmou, certa vez, que escreve para suportar a vida. No seu caso, por que escreve? 

Escrevo porque isso me ajuda a pensar nas tramas da vida, nos pequenos infinitos que existem como delicadezas frágeis e vitais para a nossa sobrevivência. Escrevo porque o processo de criação me dá prazer e satisfaz algumas de minhas necessidades subjetivas, imaginárias. Mas escrevo, sobretudo, porque a poesia é uma arte de subversão e é por meio dela, que crio micro-resistência – um campo de possibilidades.

Há quem diga que não é a pessoa que escolhe a poesia, mas o contrário. Você lembra do momento quando foi, em definitivo, fisgado por ela? 

Ela me encontrou em algum momento de minhas andanças pelo centro da cidade e me puxou, pelo braço, até uma biblioteca pública e depois para outras tantas. Na adolescência as intensidades sonoras do rock marcavam o meu horizonte e, de certa fora, me abriu algumas portas e janelas para perceber que existia um outro tipo de existência fora da caretice conservadora habitual. Aos poucos fui aproximando as sinuosidades metafóricas da poesia com o inconformismo do rock and roll e aí, fiz uma descoberta importante. Nesse percurso, peguei algumas senhas importantes com a banda The Doors e o seu vocalista, Jim Morisson, que me levaram a poetas incendiários e rebeldes, como Rimbaud, Baudelaire, Ginsberg e todos os beats. Essa é a forma que encontro para falar dos meus inícios com a poesia e das descobertas que me levaram para um caminho sem volta. Penso que a poesia me educou, me alfabetizou nos temas do mundo sensível, me proporcionando uma virada qualitativa de vida.

A princípio, quando escrevo, nunca penso no leitor – a escrita é minha, a leitura é dele e nos encontramos no plano fantástico da imaginação, do prazer, do devaneio.

Que motivos o levaram a escolher justamente duas profissões tão menosprezadas no Brasil: professor e poeta? 

Creio que pelo fato de serem duas atividades com a palavra e por serem performativamente político-sensíveis, engajadas na profusão de sentidos, do diálogo. As minhas atividades como professor de história e de poeta, partem de uma reflexão que busca aproximar de forma consciente a poesia, a história, a pedagogia, a cultura, em um mesmo universo gravitacional de energias que se atraem. Esse encontro de potências passa pela implicação de ensinar/aprender, uma relação de troca, de intercâmbio que ampliam a imaginação e desdobram uma pluralidade de caminhos para a compreensão de si, do outro e do mundo. Mas, é claro que, essa potência (poesia/pedagogia) ganha status de marginalidade em um país onde as “pessoas de bem” valorizam armas e não, os livros. Pelo menos é o que vivemos agora com o projeto político que emergiu após as últimas eleições.

Acredito que a poesia/arte (substância criativa) e a pedagogia (ciência do esclarecimento) podem funcionar como uma espécie de antídoto para esse mal histórico que está em nossas raízes. É obvio que isso, por si só, não seria a resolução dos problemas do país.  Mas a valorização dos profissionais da educação e dos poetas/artistas, seria um passo qualitativo para a construção de uma sociedade mais acolhedora, humana, justa e disposta a criar um projeto diferenciado de nação.

Além de livros, você também é um dos editores da revista Acrobata. Do que trata essa revista celebrada dentro e fora do Piauí? 

A Acrobata é um território de pensamento, uma articulação afetiva-estética que transcende fronteiras geográficas, institucionais. A revista nasceu em Teresina no ano de 2013, pelas mãos de 4 pessoas amigas (eu, Aristides Oliveira, Thiago E e Meire Fernandes) com o intuito de difundir literatura, artes visuais e outros desequilíbrios. O tempo foi passando e a Acrobata foi ganhando corpo, a cada número mais pessoas envolvidas, mais longe se ia, mais leitores e leitoras tinham acesso as nossas edições. 8 anos depois, temos na bagagem 9 edições impressas com colaborações de escritores/artistas de diferentes partes do Brasil e do mundo, lançamentos por diferentes várias cidades do Brasil, participação em um tanto de eventos e continuamos vivos, com bastante saúde editorial.

Agora, em formato eletrônico, desde o final de 2019, atuamos em uma plataforma que tem publicações quase que diariamente – poemas, contos, entrevistas, traduções, ensaios, processos de criação, artes visuais, resenhas. Dos integrantes iniciais que criaram a revista, restaram eu e o Aristides, mas outras pessoas chegaram junto para fortalecer e ajudar a esticar essa história bonita que estamos inventando.

Em qual tradição literária se enquadra sua obra: apolínea ou dionisíaca? Explique essa escolha. 

No meu universo criativo Apolo e Dionísio sentam juntos para tomar umas e bater papo, sem problema. O impulso primeiro com a palavra é dionisíaco e o trabalho posterior, os detalhes e acabamentos do texto é apolíneo. Portanto, os dois estão juntos e seguem em uma relação não binária (kkk). Mas, admito que a tradição dionisíaca se sobressai na expressão final da poesia que faço, inclusive pelas minhas escolhas como leitor, ligadas aos poetas líricos do desregramento que seguem pelos caminhos do simbolismo, surrealismo, beat.

Ao longo de sua travessia poética, de quase 20 anos, que tem aprendido na relação entre vida, linguagem e realidade? 

Que não há vida sem linguagem e nem linguagem sem vida, que a poesia é um artefato mágico que nos ajuda a transcender a realidade convencional, criando outros mundos possíveis. Aprendi muito com os ensaios de Octávio Paz, as entrevistas de Roberto Piva, Hilda Hilst e com o famoso poema do Mário Faustino “vida toda linguagem”.

Encaro a poesia e a arte como artefatos vivos e repletos de sentidos, criados com o intuito de expandir o que chamamos de realidade, essa dimensão corriqueira que está povoada de convenções e de banalidades. Por isso, penso que a poesia que faço não pode repetir o que já existe e tem, no mínimo, que acrescentar algo a paisagem existente.

Que ideia faz do leitor que consome sua poesia e do papel que ele exerce na construção da mesma? 

A princípio, quando escrevo, nunca penso no leitor – a escrita é minha, a leitura é dele e nos encontramos no plano fantástico da imaginação, do prazer, do devaneio. Gosto de pensar que a poesia sempre irá saltar do texto e se embrenhar na floresta dos sentidos, como um ser indomável e selvagem. Com isso, minha poesia é desenhada para ter o máximo possível de interpretações, por isso exploro bastante o recurso das metáforas pra turbinar os aspectos subjetivos do texto e me distanciar da realidade dada, obvia. O meu papel como escritor é provocar a viagem do leitor e aí, ele vai pra onde quiser e como quiser.

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Dani Marques: “Fui fisgada pela prosa”

Por Wellington Soares, professor e escritor

 

 

No ano em que o Brasil reconquistava a democracia, pondo fim a 21 anos de ditadura militar, nascia Dani Marques, na Maternidade Evangelina Rosa. Estou falando de 1985, data festejada pelos brasileiros, e da capital Teresina, cidade onde nasceu. Mal sabiam os pais que a filhota iria, desde cedo, despertar o gosto pela leitura e guiar-se pelo signo da liberdade.

Aos 12 anos, já colecionava cadernos com as suas anotações, bem como devorava livros de Sidney Sheldon, Jorge Amado, Fernando Sabino, Luis Fernando Verissimo e, acredite, os nada fáceis textos de Clarice Lispector. Esses autores e suas instigantes histórias arrebataram de tal forma essa jovem do Mocambinho que, cercada por livros, ela deixou a solidão de lado – como filha única – e embarcou em viagens prazerosas através das palavras.

Surpreendente é que Dani, mesmo gostando de ler e escrever, formou-se em Química (Uespi) e Nutrição (Ufpi), cursos aparentemente distantes do universo literário. Mas não devemos esquecer que sem ligações com a realidade e alimentos fortalecendo a alma, fica difícil, pra não dizer impossível, construir uma obra de valor estético.

Entre verso e prosa, escolheu o último, ao contrário da maioria de nossas escritoras, optando assim pelo narrativo, sobretudo, a crônica, gênero que encanta os leitores pela leveza e por um olhar poético do cotidiano. Ao fazer isso, remonta à origem da literatura brasileira, em particular à Carta de Achamento, de Pero Vaz de Caminha, tida como certidão de batismo do país.

Seu nome está intrinsecamente ligado a vários aspectos da atual cultura no Piauí, em particular ao cenário da capital: lançamento de fanzines coletivos e individuais, saraus poéticos, “Leia Mulheres”, coluna no site Malamanhadas, literatura feminista e, não podemos esquecer, o “Desembucha, mulher!”, clube de leitura dedicado a textos escritos por manas. Sem falar ainda de Textos feitos em momentos (in)oportunos, sua estreia solo em livro, pequena coletânea inspirada nos sentimentos de maternidade.

Dito isso, façam silêncio e desliguem-se de tudo porque agora, senhoras e senhores, vocês serão fisgados pela bela entrevista da Dani Marques, uma autora de prosa envolvente e carisma irresistível.

 

Vinícius dizia que a construção literária é fruto da vida de cada um (a). Que acha dessa afirmação?

Sim, eu concordo. Eu, enquanto pessoa que escreve, posso dizer que fui forjada nos livros que li e nas minhas vivências. Uma grande parcela dos meus textos reflete minha indignação enquanto mãe-solo.

Você acredita na responsabilidade da literatura com a sua época? 

Totalmente. Cada autor tem sua visão de mundo, porém, enquanto leitora, não consigo consumir nada contemporâneo que seja escrito em cima de narrativas racistas, homofóbicas, machistas, que tenha menosprezo pelas minorias, que tenha desrespeito pelos Direitos Humanos, porque na época em que vivemos essas narrativas não são mais toleráveis. Eu acredito no poder modificador da Literatura, seja para o bem ou para o mal. Tanto que hoje em dia se observa que, paralelo a nossa realidade, alguns autores foram essenciais na construção dessa narrativa delirante que estamos vivenciando, infelizmente.

E a opção pela prosa, quando e como se deu? 

Por ser uma leitora de prosa, acabei me identificando com ela, mais especificamente com a crônica. Acho um gênero maravilhoso, atemporal. Fui fisgada pela prosa.

Seu nome está ligado hoje a dois projetos: “Leia Mulheres” e “Desembucha, mulher!”. São coisas distintas ou complementares? 

Leia Mulheres é uma das melhores coisas que me aconteceu (o Leia Mulheres é um clube de leitura que se propõe a ler obras escritas por mulheres). Eu sou muito grata à escritora piauiense Lorena Nery Borges que teve essa iniciativa de trazer o Leia pra cá em 2017. Sempre fui muito ativa no clube como frequentadora e, em 2018, recebi o convite para ser uma das mediadoras. O Leia está ligado ao nascimento do fanzine “Desembucha, mulher!”, porque uma das maiores façanhas do clube é mostrar que aqui, no Piauí, existem grandes escritoras. Então, a partir do momento que conseguimos conhecê-las, fica a mensagem que também é possível pra gente. O “Desembucha, mulher!” foi um projeto muito bonito, que nasceu dessa perspectiva, eram mulheres lançando seus textos sem medo, sem precisar de validação. Tudo era feito por uma mulher, desde a curadoria, passando pela diagramação, impressão e venda. Então, isso deixava as mulheres muito mais à vontade para desembucharem as palavras que estavam presas em suas gargantas.

Dos fanzines ao primeiro livro, Textos feitos em momentos (in)oportunos, foram alguns anos. Por que a demora e que significado tem essa estreia na sua carreira? 

O fanzine me abriu portas, foi ele que me encorajou a abrir uma editora independente, a Caneleiro Editora. Eu já tinha lançado três títulos e me dei conta que poderia lançar o meu pela editora, aqui vale aquela máxima “santo de casa não opera milagre”. Foi aí que saiu Textos feitos em momentos (in)oportunos, que nada mais é que um exorcismo em forma de textos, que foram saindo nos momentos oportunos, ou inoportunos, que a maternidade me proporcionou.

Quais escritoras marcam a sua voz literária? 

No Piauí, eu gosto muito da Sérgia A, Ananda Sampaio, Lorena Nery Borges, Cynthia Osório e Lara Matos. Além dessas maravilhosas, também sou fã da Jane Austen, Virginia Woolf, Conceição Evaristo, Lygia Fagundes Telles, Angélica Freitas, Marina Colasanti, Chimamanda Ngozi Adichie e Buchi Emecheta.

Em que aspectos a escrita feminina se diferencia da masculina? 

Em tudo. Sabemos que o cânone é eurocêntrico, masculino e branco. A mulher que aparece nessa literatura nos é falada por um homem. A partir do momento que se começa a dar visibilidade à escrita feita por mulheres, assim gosto de chamar, abre-se um leque, uma diversidade infinita de mulheres. Na verdade, essa diversidade sempre existiu, era invisibilizada. Apesar de existirem várias vozes femininas, infelizmente existem alguns pontos convergentes, como o machismo, por exemplo. Essa visibilidade tem o poder de mostrar à sociedade essa mazela que é o machismo em suas várias nuances.

E o rock ainda pulsa…

Era o começo da década de 1990 quando eu parti para meu último ano do ensino médio, carregando nada mais que a incerteza, a caminho do colégio Objetivo. Daquele ano terrível (quase fui reprovado), resta-me a lembrança de uma capa de disco que um colega de classe ostentava para cima e para baixo. Era o “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs.

No dia 29 de dezembro de 2018, em São Gonçalo do Piauí, aconteceu uma edição do que um amigo, o Chris Ramone (esse nome já diz muito!), chamou de Rockentura. Um evento criado por ele e por Francisco Myller, que contou com a colaboração de um número (para a surpresa de muitos) significativo de apoiadores. A primeira edição foi um sucesso, a segunda apresentação também. Debaixo de uma chuva torrencial, as atrações da noite (Cajón Band e Felipe Cerqueira com sua Banda Retroativa) fizeram-me lembrar daquele distante ano, tão sofrido. Ninguém que fazia parte da minha vida em 1990 estava ali, com exceção de minha irmã (Karina) e Seu Zé Pereira, proprietário do clube (Cajueiro Espaço Livre) que, na época, trabalhava com meu saudoso pai.

Daquele ano terrível (1990), resta-me a lembrança de uma capa de disco que um colega de classe ostentava. Era o “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs.

O repertório da noite foi o mais variado do rock in roll. As pedras rolaram pra valer. Olhei várias vezes em minha volta enquanto a chuva caía, mas o ano de 1990 não me saía da cabeça. Foi um tempo duro, de muitas incertezas. O muro de Berlim caía, havia guerra na praça da Paz Celestial, a banda alemã, Scorpions, lançava sua inesquecível Wind of Change, perdemos para a Argentina na Copa do Mundo, Teresina se abria para os grandes shows, Cazuza partia para sempre.

A Cajón Band assanhou a festa. Felipe Cerqueira e a Banda Retroativa espalharam álcool na fogueira. Mas a chuva não parava. Manoel de Jah, o locutor da noite, enalteceu minhas conquistas literárias, agradeci, mas aquele ano não me saía da cabeça. Aquele terrível ano de 1990. Fui até o palco pensando em falar sobre o evento, mas falei sobre o amor e a amizade como se eu estivesse falando para ele, o ano distante.

Saí antes de acabar a festa, assim que a chuva passou. Em casa, abri a porta da cozinha, sentei-me no batente e passei minha mão direita sobre meu pulso esquerdo. E aquele ano ainda estava lá: no pulso.

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Adriano Lobão Aragão: “Meu primeiro impulso era desenhar histórias em quadrinhos”

Por Wellington Soares, professor e escritor

 

 

Antes do poeta, conheci o professor que encantava os alunos com suas aulas de literatura. Não aulas comuns, decorebas, mas envolventes e cheias de humor. Daqueles que assimilaram direitinho, tão poucos hoje em dia, a sábia lição de Guimarães Rosa: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. Maravilha é saber que Adriano Lobão Aragão, lotado agora no IFPI de Cocal, interior do Piauí, ainda continua no batente da sala de aula com a mesma paixão. Ele recitando versos de Gregório de Matos e Castro Alves, sendo acompanhado pelos alunos, é algo de marcar em definitivo nossas retinas tão fatigadas.

Foi ao ler um livro de H. Dobal, puro estranhamento, que sentiu o chamado pra se enamorar da poesia. Relação essa que mudou sua vida e que, a depender dele, vai perdurar eternamente. O livro em questão era O tempo consequente, lançado em 1966, do poeta teresinense consagrado dentro e fora do Piauí. Antes havia sido tocado, como quase todo brasileiro, pelos versos simples de Manuel Bandeira, para quem escrever é volúpia ardente, tristeza esparsa e remorso vão.

Somente depois fui conhecer sua obra, composta de poesia e ficção, com temas variados e linguagem bem cuidada, que desperta o interesse na gente a partir dos títulos. Entrega a própria lança na rude batalha em que morra, Os intrépidos andarilhos e outras margens e Destinerário, pra ficarmos em três apenas, são exemplos ilustrativos disso. Difícil é sair impune, acredite, desse impactante contato com seus textos.

Não bastasse, ainda se entrega à publicação da Desenredos, uma revista digital de cultura e literatura surgida em 2009, com foco em trabalhos artísticos e acadêmicos. Outro de seus entusiasmos é pelo desenho, arte que pratica com esmero e frequência, ilustrando capas e textos dos próprios livros. Quanto ao futebol, paixão também das grandes, é torcedor aguerrido do Flamengo e zagueiro do Ferrugem Futebol Clube, time formado por amigos das antigas.

Com a palavra agora, Adriano Lobão Aragão: professor excepcional, escritor múltiplo (poeta, contista e romancista), desenhista talentoso, torcedor rubro-negro, zagueiro dos bons e, acima de tudo, um ser humano fora de série.

 

Há quem diga que pra escrever o autor precisa estar com um certo estado de espírito. Você concorda?

Para ser bem franco, nunca penso sobre isso. Apenas escrevo e reescrevo continuamente. De qualquer forma, escrevo muito mais do que publico, e raramente publico a primeira versão de um texto. Quase todos são resultado de diversas reescritas feitas em momentos distintos. Então, pelo menos para mim, se há um estado de espírito, eu o chamo de trabalho, leitura e releitura.

Quais escritores e obras são importantes na sua construção literária?

Na adolescência, as histórias em quadrinhos de Frank Miller e os romances de Machado de Assis foram as primeiras a me instigar a tentar produzir alguma coisa. Manuel Bandeira foi fundamental para direcionar meu interesse para a poesia. Pouco depois de publicar meu primeiro livro, Uns Poemas, em 1999, lia constantemente João Cabral de Melo Neto, H. Dobal, T.S. Eliot, Rainer Maria Rilke e a tradução da Ilíada feita pelo Carlos Alberto Nunes. Creio que eles passaram a ser minhas influências mais recorrentes desde então. No âmbito da prosa, cito Italo Calvino (Se um viajante numa noite de inverno), Jorge Luis Borges (Ficções) e Gabriel García Márquez (Cem anos de solidão) como indispensáveis para minha formação.

Embora escreva prosa, seu nome está mais ligado à poesia. Por que essa preferência pelo gênero lírico?

Não faço ideia. Cronologicamente, meu primeiro impulso foi o de me dedicar a desenhar histórias em quadrinhos. Depois, escrever romances. A preferência pela poesia só surgiu depois, mas acabou se tornando minha atividade artística predominante. No entanto, não penso muito sobre isso. Apenas vou fazendo o que instiga meu interesse expressivo em cada momento, independente do gênero.

Fala-se sempre que os estudantes brasileiros, em todos os níveis, estão lendo pouco ou quase nada. Como professor de literatura, você tem essa mesma impressão?

Penso que não apenas os estudantes. Isso é muito relativo e complexo. Sempre convivi com alunos desinteressados por leitura e com alunos ávidos por leitura. Almejo estimular os primeiros passos dos mais desinteressados e ampliar os horizontes dos mais ávidos. Numa sociedade tão desigual, tão injusta e iletrada, tento dedicar a eles o que de melhor eu possa oferecer nesse sentido.

Entre seus livros, qual o da sua preferência e qual teve melhor acolhida do público?

Destinerário, que reúne poemas sobre cidades, foi o que mais gostei de fazer. Para escrever os poemas que compõem o livro, estive em mais de 70 cidades espalhadas pelo Piauí, Ceará e alguns outros estados. E isso foi uma experiência muito instigante. E, felizmente, foi bem acolhido. Além do Destinerário, creio que o romance Os intrépidos andarilhos e outras margens e o livro de poemas As cinzas as palavras foram meus livros que melhor circularam.

Além de livros impressos, você e alguns amigos publicam uma revista virtual. Do que trata a Desenredos?

Comecei a publicar a revista eletrônica Desenredos, juntamente com Wanderson Lima, a partir de 2009, publicando poemas, contos, traduções, resenhas, ensaios, artigos acadêmicos. E esse trabalho continua até hoje, tendo como editores eu e Assunção Leal. A missão continua a mesma, estimular a criação artística e promover o debate de temas vinculados, direta ou indiretamente, à literatura. Sendo assim, a Desenredos não se propõe a ser uma revista literária stricto sensu, mas um espaço que, tomando a literatura como epicentro das Humanidades, esteja atento aos movimentos da Cultura.

O ministro da Economia do atual governo, Paulo Guedes, defende a taxação de livros sob o argumento de ser consumido somente pelos ricos. Que acha dessa proposta e de sua fundamentação?

Mais um atentado contra a educação, a cultura e a ciência. A fundamentação é, obviamente, tornar o livro ainda mais inacessível. De um desgoverno que menospreza a educação, a cultura, a ciência, o amparo social, o meio ambiente, os direitos trabalhistas, a liberdade sexual, e que busca continuamente promover o preconceito, a violência e a segregação social, não é possível esperar nada de proveitoso.

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Operação Iguana

 

Nada me acontece por acaso. Tudo com o tempo se conecta e arranja um jeito de se justificar. Ou seria possível também dizer o contrário, que tudo é o acaso e esse acaso apenas me espanta? Bom, mas isso é só um jeito de introduzir a história de uma Iguana no asfalto.

Nos meus textões no Facebook (olha o referencial: para a pressa das redes sociais são textões; para o que costumo ler é quase nada) comentei um dia desses sobre a minha tristeza em não ter representação feminina no parlamento à altura das mulheres da minha terra. O que temos por aqui são corpos femininos, sem autonomia ou firmeza, usados para driblar a lei que garante um mínimo de representatividade. Em pleno 2021, estão lá dando vida a uma tragédia ambiental, sanitária e econômica.

Um dia depois aconteceu o fato que passo a narrar.

Desde março de 2020, eu não dirijo. Meu carro fica lá na garagem até que alguém se candidate a fazê-lo funcionar. Nas poucas vezes que precisei sair de casa o fiz de carona.

Um pouco antes de conseguir me vacinar (primeira dose), minha filha precisou do carro. Emprestei e o recebi de volta brilhante, sem aranhas, sem teias e sem cocô de passarinhos. Depois da vacina, ocasião em que o danado foi usado, ela precisou novamente. Ao chegar ao local de trabalho estacionou em frente à vigilância. Alguns segundos depois foi avisada de que havia um barulho estranho no compartimento do motor. Como se algo lá dentro se movesse insistentemente. Astuto, o vigilante abriu de leve o capô e avistou a ponta de um rabo comprido e esverdeado. Formou-se a confusão.

O telefone toca.

– Mãe, cê está bem? teve alguma reação à vacina?

– Tive febre e uma ligeira indisposição. Mas não virei jacaré.

gargalhamos. Senti certo alívio na voz dela.

– Que bom! A senhora não usa o carro, os bichos estão tomando conta!

Desligou e eu fiquei sem entender até receber fotos e um vídeo comprovando o dito.

Diante da minha resposta, ela resolveu chamar a polícia ambiental. Chegaram os homens corajosos e que sabem lidar com a situação. Na primeira olhada, o comandante gritou para seus ajudantes:

– Operação Iguana!

Pronto. Com muito cuidado a bichinha assustada foi colocada em uma caixa apropriada e levada daquele lugar inóspito para exercer a sua missão onde lhe é mais apropriado.

Mas o que isso tem a ver com a introdução?

Tem que uma Iguana, que nada entende de carros, sem nenhum compromisso com o funcionamento de motores, por lá se acomodou por puro oportunismo.  Da mesma forma que as mulheres sem compromisso com a população do meu Estado se apropriam dos lugares no parlamento pela inércia das demais (das que tem inteligência, conhecimento, competência e talento para a política e das muitas que não sabem diferenciar essas das primeiras na hora de votar).

Eis o recado das iguanas.

 

(Foto de Alexis Antonio, cedida gratuitamente por Unsplash License, a quem agradeço)

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