Wellington Soares
Blog Title

THIAGO E: “Gosto quando paira uma graça flutuante nas coisas que invento”

ENTREVISTA / Por Wellington Soares, professor e escritor 

 

Foi ainda quando fazia parte da Validuaté, banda de pop rock, que descobri o talento literário e musical do Thiago E. De tanto ouvir na FM Cultura, dei pra cantarolar, mesmo desafinado, “A lenda do peixe francês”, música das mais conhecidas da banda piauiense, com letra sua e melodia de José Quaresma: “Era uma vez um peixe francês/ Soturno e muito triste/ Se perguntava: será que existem maiores mágoas/ Que as minhas nestas águas?”. Depois o vi pessoalmente, em show no Centro Artesanal, dedilhando, com maestria, um cavaquinho, fato que só aumentou minha admiração por ele. A faceta poética já era perceptível nessa e noutras de suas composições.

Mas foi no livro de estreia, Cabeça de sol em cima do trem, que isso clareou de vez e em definitivo. A começar pelo autorretrato que Thiago faz de si próprio: “músico em reabilitação labiríntica, professor com problemas de visão e gago integrante da banda Validuaté”. Em capa dura e projeto gráfico primoroso, lançado pela Editora Corsário, o livro nos possibilita levitar, através de distintas formas de linguagem – versos, prosas e desenhos – em suas viagens criativas por universos estéticos, oníricos, experimentações linguísticas e doses de afetividade. Tudo movido pelo senso de humor como forma de existir, bem como sem esquecer os referenciais literários nos quais costuma beber: Torquato Neto, os irmãos Campos, Jorge Mautner e Arnaldo Antunes.

Depois de um time na escrita, que durou oito anos, ele retornou, pra felicidade dos leitores, com outro livro supimpa de bonito – Os gatos quando os dias passam, declaração de amor escancarada aos felinos que marcam e inspiram sua vida. Em poemas que vão do haikai, instantâneos marcados pelo lirismo e concisão, até a fragmentação concretista, com palavras se esparramando no chão, feito bichanos, em poses enigmáticas e múltiplos significados. Para ilustrar alguns textos, Thiago E mostra também o olhar peculiar e sensível de fotógrafo, clicando gatos que vivem dentro e fora da sua casa, em Teresina, capital do Piauí, cujos habitantes são, de acordo com pesquisa do IBGE, seus maiores amantes no Brasil.

Ao conhecer sua obra, constatamos que Thiago, em tudo que mete a mão, deixa certa graça flutuante nas coisas que inventa: letras de música, livros, instrumentos que toca, revistas que edita, CDs poéticos e projetos cultuais em que se envolve. Ele mesmo, em pessoa, encarna leveza e descontração. Não é pra menos, convenhamos, pois tem como pais Neide e Zorro, duas figuraças em quem se espelha, e, companheira de todas as horas e travessias, a bela Maíra.

Endossando o que disse sobre ele Jorge Mautner, prestemos muita atenção a tudo aquilo que este poeta, na acepção plena do termo, faz e produz em termos artísticos.

De acordo com Manoel de Barros a poesia não existe para comunicar, mas para comungar. Por meio de quais ideias e sentimentos sua arte tem atingido tal propósito? 

É infinito o debate sobre arte e comunicação. Baudelaire já disse que “o mundo não marcha senão pelo mal entendido”. Augusto de Campos escreveu: “só o incomunicável comunica”. Mas com quais sentidos empregamos os termos? No dicionário do Bluteau, “comunicar” alguma coisa é dar a alguém parte dessa coisa. É “fazer comum”, “fazer participante”, unir. E o Houaiss traz “comungar” como “ter em comum, partilhar, ter relações com, comunicar”. Então, são sentidos entrançados. Mesmo quando não quer isso, a poesia pode comunicar e comungar… Meu prazer é tentar atingir “tal propósito”. Se escrevo ou componho, jogo com a tradição, intico a versificação, atiço as letras pra gerarem música, quero aprender a deixar a visão livre, sou movido pelo senso de humor como forma de existir. Gosto quando paira uma graça flutuante nas coisas que invento. É inconsciente, às vezes nem percebo. Já escrevi trabalhos sérios e depois pessoas me disseram que acharam engraçado. Tomara que meu humor seja uma espécie de ímã para a comunhão.

Que aspectos da infância e da adolescência, de garoto pobre, marcam seu itinerário musical e poético? 

Desde que me desentendo por gente, minha mãe repete expressões do interior do Piauí: “Que labacé é esse?”, “Vão com relaboque pra lá”, “Isturdiinha ele caiu nos zói chorando”. Nosso piauiês é massa, faz prestar atenção nas palavras. Minha mãe batalhou por bolsas pra mim: estudei em escolas que me despertaram a delícia de ler. Com pouca grana, Dona Neide me ensinou a criar com o suficiente. Seria o começo da minha preparação à arte do haikai? Não dava pra perfumar a flor. Do dinheiro contado às sílabas contadas? Uma das primeiras músicas que lembro ter me impressionado foi “O pulso”, dos Titãs. Ainda criança, assisti no Faustão uma marionete de esqueleto dançando ao som de nomes de doenças! Eu também já adorava pagode, rap, samba e chorinho. Ficava brigando com a antena da televisão pra melhorar a imagem da TV Cultura, da TV Educativa. O sinal era péssimo! Às vezes eu só ouvia os programas Roda Viva, Provocações, Arte com Sérgio Britto, Comentário Geral, Ensaio etc. Minha família me achando doido. Eu tentando escutar as entrevistas na TV fora do ar. Nessa época, ganhei pandeiro e cavaquinho. Compus meu primeiro pagode aos 16 anos pro ônibus que eu pegava, “Buenos Aires via Aeroporto”. Nas apostilas do ensino médio, descobri Augusto dos Anjos, poesia visual e, enfim, que o cantor daquele rock era Arnaldo Antunes. Anotei o site dele e, pela primeira vez, fui à lan house, com um caderno. Copiei textos, desenhei os poemas visuais. O cara da lan house perguntou por que eu não imprimia. Só ali, soube que existia impressora! Mas era caro. No fim da adolescência, durante o Salão do Livro do Piauí, vi o livro do Arnaldo As coisas à venda. No bolso, eu só tinha a passagem do ônibus pra voltar. Li uns 3 poemas. A vendedora chegou e perguntou: “Não vai comprar?”. Agradeci, dei uma volta e retornei. Lia mais 3 ou 4 poemas. Ela de novo: “Não vai comprar?”. Eu agradecia, saía. Demorei uns 3 dias pra ler As coisas inteiro.

Na língua, me fascina a música. Na canção, me fascinam as formas da língua. Sou feito dessa mistura de música e literatura.

Em que momento da vida nasceu o desejo de ser artista e quando, de fato, você reconheceu ter chegado a esse ponto? 

Talvez na adolescência, assistindo artistas incríveis na televisão, comprando cancioneiros nas bancas, buscando pegar de ouvido os chorinhos do Waldir Azevedo, do Pixinguinha. Provavelmente, me reconheci poeta em 2004, quando Demetrios Galvão me chamou pra ir à Roda de Poesia e Tambores, produzida pelo querido Elio Ferreira no Clube dos Diários, e ganhei o prêmio de melhor poesia falada. Acho que me vi como músico pela primeira vez em 2005. A Validuaté fez uma grande apresentação na Central de Artesanato, durante o Salão de Humor. Lotado. Muitos conheceram a gente ali, e o nome da banda começou a circular em Teresina.

Destaque a relação existente entre música (Validuaté) e poesia (livros) na sua obra? 

Na língua, me fascina a música. Na canção, me fascinam as formas da língua. Sou feito dessa mistura de música e literatura. Começamos a Validuaté em 2004. Eu tinha 18 anos. Fiquei na banda até 2016. A letra “Pelos pátios partidos em festa” existe porque li Roberto Piva. “Mundo multidão mil” é um verso do português E. M. de Melo e Castro. “Céu%” e “O mar e o pano” elaborei quando eu estava deprimido. No consultório, esperando pra falar com o médico, tinha uma revista. Encontrei um poema do García Lorca: “o mar sorri ao longe / dentes de espuma / lábios de céu”. Inspirou. É o que a psicanalista Roudinesco fala: “por amor ao que a angústia nos proporciona”. Após leituras de Ferreira Gullar, “O Hermeto e o Gullar”. “Plaina Maravalha” surgiu do papo com o parceiro Quaresma, e da frase do Tchekhov que vi na TV: “Um cão faminto só tem fé na carne”. “Superbonder”, “A Lenda do Peixe Francês”, “O escuro”, são inúmeras referências literárias. Procuro incorporar o que as artes ensinam: os poemas ampliam a percepção, e a vida ganha mais potência, alguma alegria. Juntar poesia e música vem de ouvir Marina Lima, Jorge Mautner, Dona Ivone Lara, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Celso Borges, Adriana Calcanhotto, Racionais, Arnaldo Antunes, Rita Benneditto, Rita Lee, Grupo Rumo, Luiz Tatit, Itamar Assumpção, Cid Campos… Com Joniel Veras, lancei agora o single “Ave Mautner”. Jorge Mautner participa interpretando trechos dos seus livros Fragmentos de Sabonete e Fundamentos do Kaos.

Em 2013, ocorreu sua estreia literária, com Cabeça de sol em cima do trem. A receptividade que o livro teve, dentro e fora do Piauí, correspondeu às expectativas? 

Jamais imaginei que, no geral, seria tão bem recebido. Lancei livro e disco (produzido por Jan Pablo). São trabalhos distintos. Cabeça de sol em cima do trem reúne textos extremamente diferentes. Recebeu comentários negativos e positivos. Hoje vários aspectos do livro me incomodam. É natural, não sou mais aquele autor. Enfim, há coisas que só aprendemos publicando. Uma satisfação: o livro foi bem lido. Agradeço imenso ao Manoel Ricardo de Lima, que escreveu crítica no O Globo: “Thiago, a certa altura, no poema “Manhã”, diz que estamos o tempo inteiro diante de um ‘cinema sem emprego industrial’. Isto é político: manter o poema vivo, movente, correr todos os riscos. Um pouco de aventura.” Jotabê Medeiros publicou no Estadão uma matéria sobre o disco. Até Arnaldo Antunes comentou o álbum: “Fazia tempo que eu não curtia assim um trabalho de poesia. Palavra-lâmina afiada em voz. Sua leitura, clara e expressiva, junto aos variados experimentos sonoros do Jan Pablo, resulta em quase-canções, que vitalizam os já surpreendentes poemas.”

Ao apresentar Os gatos quando os dias passam, Tarso de Melo diz que os felinos são eternas fontes de espanto-aprendizado para os poetas. Como esse binômio se materializa no seu segundo livro? 

Quando morava no bairro Pirajá, adotei três gatas. Segundo o IBGE, o Piauí é o estado brasileiro que mais possui casas com gatos. Anos ao lado delas me transformaram. Pau-sa-da-men-te. Para crescer, o ser humano engatinha, anda só após imitar um gato. Recordo a sabedoria Guajajara da amiga Aliã Wamiri: “o tempo é passado de animais”. Pela felinidade, chego ao haikai, podemos adquirir uma consciência inconsciente, agir pela não ação, comunicar por um vocabulário sensorial. Repare. Neste século em que tanta gente mal dorme, e sonha pior ainda, é bom observar os gatos: dormem setenta por cento do tempo, e não separam realidade e sonho. Ouça. O sonho, antes de ser visto, é apalpado. É o cafuné que planta na cabeça o sonho. Por isso, ao pôr os dedos na moleira do gato, seus olhos se fecham em pequenos espasmos: sete vidas assistindo às pálpebras por dentro.

Este ano as luzes estarão voltadas para o centenário da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo e que deu uma boa chacoalhada na cultura nacional a partir de 1922. Quais características temáticas e formais sua obra herda desse movimento? 

No ensino médio, nunca esqueci o impacto que tive ao ler: “Há poesia / Na dor / Na flor / No beija-flor / No elevador”. Esse poema do Oswald de Andrade, “Ballada do Esplanada”, mudou minha sensibilidade. Botar elevador na poesia? Em seguida, conheci o “Amor / Humor”. Poema com uma palavra? Tocou meu coração-menino. Os desdobramentos da Semana de Arte Moderna são inúmeros e bastante complexos. Sendo brevíssimo, talvez eu tenha herdado o prazer do jogo com a linguagem, uma ironia lúdica, a vitalidade do imaginário, o apreço pelo paradoxo, a contestação das formas fixas mesmo adorando versificação – por isso admiro Manuel Bandeira, ele sabia de tudo e fazia tudo diferente.

Estoy loco, si

 

por Nathan Sousa
poeta, ficcionista, ensaísta e dramaturgo

Não é tarefa das mais difíceis encontrar quem conheça a obra do piauiense Orlando Geraldo Rêgo de Carvalho, que não cite, quase que de imediato, a palavra “loucura”. Dotado de grande sensibilidade e de grande poder de concisão, O. G. Rêgo de Carvalho nasceu na antiga capital do Piauí, Oeiras, aos 25 de janeiro de 1930, e faleceu em Teresina, no dia 9 de novembro de 2013. Bacharel em Direito, professor e funcionário aposentado do Banco do Brasil, O. G. integrou o chamado Grupo Meridiano. Publicou Ulisses Entre o Amor e a Morte (1953), Amarga Solidão (1956), Rio Subterrâneo (1967), Somos Todos Inocentes (1971) e Como e Por Que Me Fiz Escritor (1989). Foi membro da Academia Piauiense de Letras.

O autor de Ulisses Entre o Amor e a Morte tem sua obra marcada pelo conflito, pelo medo, pelas neuroses e, como se não bastasse, também retratou a solidão e a loucura. Leitor entusiasmado dos clássicos (decidiu ser escritor após ter lido O Guarani, de José de Alencar), O. G. elevou, como poucos, a arte literária ao status de agente revelador dos subterrâneos da vida real. Ambiente onde a historiografia tradicional não consegue atingir com muita segurança. São muitas as cenas de isolamento e conspiração da “loucura” de seus personagens. Há introspecção de fio a pavio. É nítida uma comunicação entre seus livros, embora sejam histórias independentes.

O que temos na obra deste genial escritor é uma forte ligação entre loucura, sentimentos e um passado que pesa dolorosamente sobre sua gente. Ou melhor, sobre nós.

Em todos os livros, O. G. expõe sua relação com o modus operandi de seu tempo. Há sempre uma descrição dos espaços arquitetônicos de Oeiras e Teresina, cidades onde morou. Ulisses guia e é guiado por suas percepções (impactado com as mudanças, após a morte do pai) da velha Oeiras para a terra de Saraiva. Aí já temos Joana, que ficou louca após a morte de seu filho, abandonada em um quarto esquecido, como era de costume. Há um êxodo muito claro nesta e nas demais narrativas. Mas não se trata apenas de um deslocamento físico de pessoas em busca de uma vida melhor. Há um êxodo imaginário, sentimental, esperançoso, ainda que permeado de medo e dúvida. Porém, a solidão e a desilusão deixadas na velha capital, acarretam em graves problemas tanto sociais quanto financeiros, e transformam a cidade em um ambiente propício para a loucura.

Em Somos Todos Inocentes, entra em cena o ressentimento, fruto de disputa pelo poder e de amor não correspondido. É tênue e anavalhada a linha que separa o passado do presente. Restou à antiga capital a preservação dos valores de fé e de tradição para que não houvesse um esfacelamento de sua identidade. Já em Rio Subterrâneo o sentimento fala mais alto, além de uma variedade de histórias que forma o tecido narrativo do livro. Trata-se da Teresina da segunda metade do século XX, mas é a Oeiras de onde partiram personagens e autor que dá o tom das memórias como se cada um desses agentes quisesse, a cada fracasso, reviver um tempo de glórias, ainda que mirradas. Mais uma vez, a dúvida, a desesperança e o silêncio interferem diretamente na personalidade de cada um.

O. G. era desses autores que mergulham suas vidas em suas obras de olhos fechados. É bom lembrar que ele adoeceu enquanto escrevia tal livro. O que temos na obra deste genial escritor é uma forte ligação entre loucura, sentimentos e um passado que pesa dolorosamente sobre sua gente. Ou melhor, sobre nós.

***

Nathan Sousa é professor, ficcionista, ensaista, poeta, letrista e dramaturgo. É tecnólogo em Marketing e publicou vários livros, entre eles Um esboço de nudez (2014) e Semântica das aves (2017). Foi finalista do Prêmio Jabuti (2015) e venceu por cinco vezes os prêmios da União Brasileira de Escritores.

***

Compre edições avulsas de Revestrés impressa e receba em qualquer lugar do Brasil: Compra online:  https://loja.revistarevestres.com.br/produtos/revistas/50

 

 

VALÉRIA SILVA: “Escrevia para mitigar a ausência da minha mãe”

ENTREVISTA / Por Wellington Soares, professor e escritor 

 

Estava em casa, deitado na rede, numa malemolência gostosa, quando recebo uma mensagem da Valéria Silva, via WhatsApp, dizendo que acabara de escrever um livro sobre a família dela. Na verdade, fez questão de destacar, um tributo à sua mãe. E gostaria de ouvir, por ser uma escritora de primeira viagem, a opinião de alguém experiente nessa área. No caso, este aprendiz das labutas literárias, seu amigo desde as lutas estudantis na Universidade Federal do Piauí (UFPI), nos anos de 1980.

Queria saber, com franqueza, se valia a pena ou não publicar o livro. Um calhamaço de quase 500 páginas, O Baú de Faustina, já todo digitado e capa desenhada pelo filho. Diante de tal apelo, só restou-me iniciar a leitura imediatamente. Logo nas primeiras 30 linhas senti, maravilhado, o fôlego da história dessa brava nordestina que, a exemplo de tantas outras, simboliza a luta pela terra e o amor pelos filhos.

Sob a perspectiva de Faustina, a narrativa resgata sua trajetória de vida, pelejas no campo, valores e crendices, necessidades suportadas em silêncio, dureza em criar os filhos, conflitos familiares, amor pelo marido e luta tenaz por um pedaço de terra. Tudo contado, o que dá maior veracidade ao relato, com seu próprio vocabulário interiorano, por meio de suas referências linguísticas. Ao final, temos um perfil comovedor de uma mulher que alia humildade e determinação.

Foi ao ler O Baú de Faustina, virando algumas noites, que conheci melhor a Valéria Silva, autora do romance. Percebi ali de quem ela herdara, quando defendíamos a democracia e o fim da ditadura militar, tanta coragem nos embates com a repressão e na defesa intransigente das universidades públicas. Apesar das misérias humanas causadas, sobretudo, pelos latifundiários, gananciosos e desumanos, o livro traz uma mensagem de esperança.

Não tenho dúvida de que a Valéria, com essa obra de estreia, conseguiu aplacar, se não de todo, pelo menos um pouco da ausência da querida e saudosa mãe. Como também inscrever seu nome entre as promissoras revelações da literatura piauiense contemporânea. No mais, torcer para que ela continue nos presenteando com outras belas histórias.

No romance Torto arado, de Itamar Vieira Júnior, encontramos a seguinte frase: “O sangue do passado corre feito um rio. Corre nos sonhos, primeiro. Depois chega galopando, como se andasse a cavalo”. Que acha dessa afirmação? 

Percebo-a cheia de verdades. De fato, sempre estamos trilhando nas sendas das nossas pertenças ancestrais, culturais etc. Especialmente, nos enredamos com os afetos, aqueles que nos fazem como pessoa. Por vezes, não percebemos, mas seguramente aquilo que construímos pela vida afora, repousa no “sangue do passado”. Claro, matizado pela experiência única de cada pessoa, contudo inextrincavelmente articulado à sua memória.

Quando comecei a escrever O Baú o que mais me chamou a atenção foi a quantidade de memórias que eu havia guardado. Na verdade, memórias de mim. Normalmente, demandava-as aqui e ali, entretanto sem perceber a dimensão do que eu havia retido. Primeiro, chegavam despretensiosamente, uma a uma. Depois, realmente em corredeira, como um imperativo, um sujeito desejante de luz. E aí, já precisava anotar esta, aquela e mais outra para, oportunamente, escrevê-las de modo adequado.  E surpreendi-me também com a força que tem a oralidade nas dinâmicas da convivência humana.

Quando você percebeu estar grávida de O baú de Faustina? 

Demorei a perceber. Eu escrevia para mim. Escrevia para mitigar a ausência da minha mãe. Para revisitar nosso convívio e sua própria trajetória de muita labuta e resiliência. Para conciliar meus afetos, meu “sangue do passado”. Talvez escrevesse também para conferir a Faustina o reconhecimento profundo pelo que foi, o qual ela não teve, assim como tantas mulheres de sua geração, tempo e lugar. Por isso, só depois de escrever por mais de dois anos, acionada sempre por minhas demandas interiores, foi que olhei para tudo aquilo de modo diferente. E pensei: “E se eu fizesse um livro com as histórias de mamãe?”. Ali, houve a fecundação e fui cuidar de uma longa gravidez atemporal, (des)alimentada também pela realidade cotidiana de uma professora universitária, mãe, esposa, militante, sitiante e pessoa interessada na vida em sua complexidade.

A estreia literária teve uma boa acolhida por parte dos leitores/críticos ou ficou aquém do esperado? 

Veja, O Baú tem sido motivo de grandes surpresas para mim. Desde a pré-venda, onde foram vendidos 158 exemplares, até os últimos retornos que recebo de quem vem lendo a obra. Sinceramente? Não esperava tanto. Eu não tinha (e continuo não tendo) condições técnicas de apreciar o trabalho. Minha tradição é acadêmico-científica, a minha vivência com a literatura tem sido meramente enquanto leitora. E me vi escrevendo memórias, então me fugia a capacidade de dizer sobre o livro. Não obstante, o/as leitores/as me fazem apreciações muito entusiasmadas, geralmente se reportando a ricos encontros identitários, partilha de lugares estéticos e culturais de muito conforto. Assim, para mim o livro está se mostrando para além do esperado, tanto na relação com o público quanto à alegria que vem me proporcionando.

Escrevia para mitigar a ausência da minha mãe. Para revisitar nosso convívio e sua própria trajetória de muita labuta e resiliência.

Quem foi realmente, cá entre nós, essa mulher que encanta do começo ao final da história? 

Sabe, penso que, no fundo, Faustina é uma mulher muito comum. Sim, é uma mulher de força indescritível – à sua maneira -, resignada, de certezas inabaláveis, hoje obsoletas, mas decisivamente necessárias à vida que viveu. É uma mulher que viveu uma epopeia! Mas acredito que este ser povoa quase todas as famílias rurais de Teresina, do Piauí, de um modo ou de outro. São mulheres que carregaram todo o fardo de desafios, dificuldades, exigências que um contexto patriarcal as legou e ainda as lega. E que, diante da inexorabilidade sócio-político-cultural, o fizeram da melhor maneira, com a sabedoria que a própria dureza da vida engendrava. Vejo Faustina com delicadeza e amor particulares por se tratar de minha mãe. Mas, sei que no mundo rural piauiense teríamos muitas outras histórias de mulheres fantásticas para contar.

De que maneira a luta pela terra e a garra em ser mãe se entrelaçam e conduzem a narrativa? 

Mãe e terra me chegam sempre muito vinculadas. Para mim, sinônimos de segurança, generosidade, complexidade, geração de vida, dinâmica vital cíclica, muito embora o modo de vida geral que nós, os humanos, escolhemos construir no Planeta seja desagregador de uma e de outra, bem como da relação entre ambas.

No livro, a terra surge evidenciada em sua extrema necessidade enquanto recurso e lugar de ancoragem da vida camponesa. A sua constante negação ou mesmo a dificuldade de acesso à terra ali relatadas, atentam contra a viabilidade da vida das pessoas que, à época, não conheciam, por assim dizer, outro modo de existência. E não falo só do trabalho e do aprovisionamento, mas da vida em sua plenitude. De seres existindo naquele mundo. Nesse contexto camponês, a mãe também é indispensável para dar viabilidade a este modo de vida. O seu trabalho – normalmente sem visibilidade – os vínculos e sentidos comunitários que tece, o seu papel no universo da reprodução da família… sem a mãe, sem a mulher camponesa nada disso existiria. Então, a mulher e a terra são condições indispensáveis para a existência do modo de vida camponês.

Em que autores e obras você encontrou inspiração para construir saga familiar nordestina tão envolvente e impactante? 

Certamente, me inspirei em tudo que já li da literatura e da cultura rural nordestina. Mas devo dizer que a minha pertença rural e o meu trabalho, enquanto pesquisadora de temas rurais, animaram muito a escrita do livro. As várias etnografias me fizeram revisitar aquele “sangue do passado”, levando-me novamente, e mais a fundo, à alma do nosso jeito piauiense de estar no mundo. Pude recolocar cada questão sob lupa, analisá-la, atualizá-la, senti-la mais uma vez… A minha vivência com a Agroecologia também contribuiu para a construção de certo olhar para as questões rurais. Talvez a inspiração venha disso tudo, ao mesmo tempo.

Pretende parar por aqui ou vem mais livros pela frente? 

Inicialmente, não havia nenhum propósito neste sentido. Mas, O Baú e seus gentis leitores e leitoras têm me feito, mais recentemente, refletir sobre esta possibilidade. Escrever uma história foi algo que me deu muito prazer, portanto, algo que poderia ser retomado. Deixemos o tempo aquilatar as alegrias e frutos deste primeiro trabalho. Quem sabe?

 

André Gonçalves: “Escrevo para que alguns saibam que estive aqui um dia”

ENTREVISTA / Por Wellington Soares, professor e escritor

Já são tantos anos de amizade que me foge à memória quando, precisamente, conheci o André Gonçalves. Sei apenas que a empatia foi imediata, dado ser um cara tão legal, pois nunca mais desgrudei do seu convívio. Sua inteligência, amor pela literatura e sensibilidade social têm contribuído bastante para nossas parcerias culturais.

Ele possui uma obra, por enquanto, relativamente pequena. Em quantidade, deixemos claro, mas significativa do ponto de vista literário. São quatro livros: Coisas de amor largadas na noite (2008), Pequeno guia das mínimas certezas (2013), Rita Hayworth foi a Paris (2020) e A Faca (2020), todos lançados pela editora Quimera.

Sobre o primeiro, escrevi na apresentação: “Um olhar privilegiadíssimo sobre o amor, tema abordado com sutileza e humor em suas várias nuances e (in)devidas implicações”. A respeito do segundo, Vange Leonel disse: “André escreve com os olhos e desenha a modo de escrever, como sua Jackie S. reconhece a dor pelo olfato”. Quanto ao último, ouçamos as palavras de Thiago E: “É nesse clima de sucessivas cenas em edição que o livro se monta, aproximando-se também do processo cinematográfico, porém com textos mais ou menos curtos. Seriam tomadas fílmicas de encontros, amores, angústias, mulheres, filhos, pais, morte? Além de ironia, humor e violência, um bom manejo lúdico da língua constrói os personagens”.

Quando matutei lançar uma revista cultural em 2012, logo ao deixar a linha de frente do Salão do Livro do Piauí (Salipi), a pessoa que convidei, a fim de ser parceiro na empreitada, foi o André Gonçalves. Entre outras, pelas seguintes razões: tinha experiência no ramo, percebia o vácuo do jornalismo cultural dentro e fora do Piauí e, sobretudo, por acreditar nessas viagens utópicas, como diria Belchior, feitas sem dinheiro no banco nem parentes importantes.

Não tenho dúvida de que, após ler esta entrevista e, depois, seus livros, os leitores já sabem, de antemão, que você, caro André, é uma personalidade literária notável e, além da expressão artística pela palavra, também se destaca na publicidade e na fotografia. Isso tudo sem esquecer de participar apaixonadamente da torcida do seu time, o Cruzeiro. Simbora!

“Em arte, a realidade verdadeiramente possível é a que nós inventamos”, disse Ana Hatherly. Que acha dessa afirmação da escritora portuguesa?

Ana Hatherly era uma pessoa inquieta, múltipla, com um pé permanentemente enfiado na reinvenção do mundo. A partir da palavra fazia também imagens, pinturas e movimento. Era artista, verdadeiramente. Vou a outro artista, o alemão Joseph Beuys, que dizia: “todo mundo é um artista”. Gosto de acreditar nos dois. Acho, como Beuys, que todo mundo é artista, com a diferença de que alguns fazem o que convencionamos chamar de arte. Ou de literatura. Ou de música, ou de cinema. O que seja. Mas só vivemos verdadeiramente no que inventamos. Alguns inventam isso de “arte”. Outros inventam política, outros inventam o horror, outros inventam naves espaciais, outros inventam empresas, outros inventam iogurtes. Tudo que fazemos é invenção. Nada do que vemos, é. O “nosso” mundo é uma reinvenção do mundo que está posto, e que nos permite estar nele por uns poucos anos, e depois segue sem nós, sem mal perceber que existimos. Então reinventamos tudo para tentar seguir existindo de alguma forma. O Gullar dizia que “a arte existe porque a vida não basta”, ele falou isso várias vezes e repetiu para nós, na sala do apartamento dele. E é simples. É de uma simplicidade quase paralisante. A única realidade possível é, sim, a que inventamos, e inventamos a arte para ser possível viver em um mundo que, verdadeiramente, não nos quer por muito tempo. Talvez seja por isso que eu escrevo. Para que alguns saibam que estive aqui um dia.

A única realidade possível é a que inventamos. E inventamos a arte para viver em um mundo que, verdadeiramente, não nos quer por muito tempo.

Entre os escritores atuais, você desponta como um dos que mais vende livros. Qual o segredo desse sucesso e que ferramentas utiliza para chegar até os leitores?

Até gostaria que isso que você chama de “sucesso” se traduzisse em números realmente impressionantes e, porque não, em recursos financeiros que me permitissem escrever mais. Na verdade, as tiragens no Brasil são muito pequenas, muito. Então vender 1500 exemplares é “sucesso”, num país de 250 milhões de pessoas. O Coisas de amor largadas na noite teve duas edições, perto de bater 2 mil exemplares – mas isso ao longo de mais de 10 anos, veja bem. Não dá para viver disso. Quase que 100% das minhas vendas são pelas redes sociais. As livrarias maltratam muito os pequenos, muito. Não sei se é assim com as grandes editoras – talvez as grandes editoras maltratem os livreiros e, sem querer, eles descontam na gente! É uma possibilidade, quem sabe?

De qualquer modo, prefiro medir algo que possamos chamar de “sucesso” no que realmente me importa: quando alguém diz que um livro meu passou a fazer parte de sua vida. Uma vez uma pessoa, que eu não conhecia, me procurou e mandou uma foto da parede de casa, a sala da própria casa, adesivada com um texto meu para recepcionar visitantes. Claro que fui a Fortaleza conhecê-la e nos tornamos amigos. Outra pessoa viajou a Paris e levou Rita Hayworth foi a Paris na mala, e publicou fotos do livro “passeando” pelas ruas parisienses. Em tempos tão duros, tão difíceis, alguém levar um livro na mala numa viagem e “perder tempo” fotografando-o pelas ruas, ou alguém abrir espaço em meio às dores e medos da vida e mandar uma mensagem pelo Instagram dizendo “hoje li você, e o dia me sorriu” é, para mim, o que significa “fazer sucesso”. É o que quero com a literatura. O resto realmente não me importa muito.

Que fato ou pessoa acendeu em você o gosto pela leitura e paixão pela escrita?

Não sei precisar, mas especulo. Reza uma lenda familiar que, um dia, eu tinha ali uns 4 anos, e um tio meu lia o jornal, talvez O Estado de Minas, e eu, brincando no chão, li a manchete da capa: “Mazurkiewicz não joga contra a raposa”, algo assim. Mazurkiewicz era o goleiro uruguaio que levou aquele drible do Pelé na Copa de 70, jogava no Atlético e iria desfalcar o time em um clássico contra o Cruzeiro. Minha avó dizia que foi um auê, perguntaram se eu tinha lido mesmo, se eu sabia ler, e eu teria dito: “até de cabeça pra baixo” e peguei o jornal, virei e li alguma outra frase qualquer. Virei celebridade na família, pessoas passavam horas me dando coisas para ler aonde eu ia. E eu gostava, né? Um pequeno exibicionista. Daí foram me enchendo de revistas em quadrinhos, livros, e eu, louco por futebol, com 9, 10 anos, lia as colunas de Roberto Drummond no jornal. Aí Roberto lançou “Sangue de Coca-Cola”, e foram feitas umas camisas com um trecho do livro, pedi tanto que ganhei o livro e duas camisas. Tinha então uns 12 anos. Um dia, eu vestindo uma das camisas, quem chega perto de mim na Savassi? Roberto Drummond. Ele perguntou se eu sabia o que estava escrito, e eu disse o texto de cor: “Agora eu sei, Tati, que nunca vou poder assistir com você um comício do PCI em Roma: eu estou morrendo, Tati”, etc. “Você já leu o livro?”, e eu, “claro, li Sangue de Coca-Cola, A morte de Dj em Paris e suas colunas leio todo dia”. Ele foi tão carinhoso, deve ter achado engraçado um moleque daqueles ser seu leitor, cruzei com ele umas outras duas ou três vezes, e ele sempre simpático, me chamava pelo nome, perguntava coisas… Acho que ali entendi que escritores eram pessoas legais, que ler proporcionava encontros e alegrias, e daí me tornei um escritor imaginário. E lia e escrevia montes de pequenas coisas, e isso me levou, por intermédio de minha “vodrasta” Ieda, a um estágio em uma grande agência de publicidade aos 15 anos, na redação. O resto foi acontecendo e sabe-se lá se foi isso mesmo ou se inventei algo.

Além do trabalho com a linguagem, que outros aspectos ligam publicidade à literatura?

Acho que já estiveram mais ligados. A publicidade brasileira era um lugar de escritores, de poetas, de artistas. Grandes nomes da literatura estiveram em redações de agências de publicidade. A minha geração teve a publicidade como uma das possibilidades de se viver escrevendo coisas belas, curiosas, criativas, e bem remuneradas. É só olhar os comerciais de TV de várias décadas passadas, os anúncios, e você vê ali – claro que não todos –, frequentemente, peças com textos literários – ou quase. Hoje não é mais assim. Agora quem manda são as métricas, as pesquisas, os algoritmos, raramente, inclusive, se vê grandes textos na publicidade – grandes em tamanho ou grandes em algum valor literário. Mas em algum momento ainda podem voltar a se tocar. Se um dia o texto publicitário voltar a ganhar importância, vamos ver ali como cativar o leitor ou espectador em duas frases, vamos ver pequenas histórias contadas de formas inusitadas, vamos voltar a ver conexões emocionais que só podem existir a partir da literatura. Pode ser uma visão otimista de quem ainda se ilude que o lucro pode abrir espaço para a poesia e os sonhos, mas vamos torcer.

Rita Hayworth foi a Paris recebeu, dentro e fora do Piauí, críticas bastante elogiosas. Como você encarou os elogios e qual o diferencial desse livro em relação ao conjunto de sua obra?

Creio ter uma relação saudável com a crítica, e isso talvez se deva à experiência em publicidade, onde um texto, antes de ser publicado, é chutado, esticado, mordido, atacado e, muito eventualmente, defendido, por um monte de gente – dos colegas aos departamentos de marketing. Isso é ruim, mas é ótimo para exercitar o afastamento do ego. Então me chama muito mais atenção a crítica – no sentido de apontar erros, falhas ou inconsistências – do que o elogio fácil. Claro, é preciso que a pessoa que critica me faça sentir que ali tem algo a ser respeitado como aprendizado. Elogios são ótimos, mas é como comer bolo de chocolate recheado de chocolate com cobertura de chocolate: é delicioso, mas te deixa diabético ou com dor de barriga. É preciso alguma parcimônia ao engolir elogios fáceis. A crítica, elogiosa ou nem tanto, mas feita com respeito e coerência, deve sempre ser considerada dentro de parâmetros que cada um de nós decide quais devem ser.
O Rita foi lançado exatos 5 dias antes de decretada a pandemia, então não sei bem o que ele é ou ainda pode ser. Circulou pouco, o processo dele é diferente, por exemplo, do Coisas. Ainda estou tentando entendê-lo e o seu percurso. Por exemplo, ser citado elogiosamente por Manoel Ricardo de Lima, um gênio da crítica, em um espaço nobre da literatura como a revista Cult, é algo para se alegrar – mas muito mais para se pensar, mesmo. Ainda estou tentando entender o Rita e o que dizem dele – confesso, não estou muito preocupado com isso. Mas atento.

Como um dos editores de Revestrés, que papel exerce a revista no jornalismo cultural do estado/país?

Essa é uma leitura que, acredito, não me cabe. O que nos cabe, na Revestrés, pelo menos assim eu penso, é fazê-la. Fazê-la do jeito que pensamos ser o melhor, e o melhor dentro do que nos é possível. Nosso papel, se é que existe a possibilidade de nos dar algum, talvez possa ser o de resistir à tentação de desistir. É muito fácil desistir diante de tantas dificuldades na cultura, na literatura, no Brasil, no bolso, na conta bancária vermelho-sangue. Se dessa teimosia, como já disse Marcelino Freire, sair alguma percepção de que cumprimos algum outro papel, ficarei feliz. Mas não me arrisco a dizer qual seria, nem se temos alguma relevância a ser medida de alguma forma. Bem, já estamos na edição de número 51, e lá se vão fechados dez anos. Se alguém disser um dia “que gente teimosa essa, que fez essa revista durante tanto tempo” já será uma herança importante aos que estão aí e aos que virão depois de nós.

Em termos literários, que surpresas você guarda para este e os próximos anos?

Realmente não guardo nenhuma surpresa, não escrevo nada assim, planejado, previamente pensado. Gosto que as surpresas se apresentem para mim e, aí sim, imagino que esse algo que me surpreendeu possa parir um livro em mim. Mas, vou confessar, tenho um livro parado há um ano. Já escrevi o que julgo ser a metade, digo ser um pseudo-romance porque não sei se se enquadra em romance, nem onde pode ser enquadrado – nem quero muito que se enquadre em alguma caixinha – mas muita gente gosta de saber “o que é esse livro”? Eu não sei ainda. Tem até títulos – digo no plural porque já fiz 3 títulos, mas não sei qual vai ficar. Pensei nele quando li um livro italiano sobre Ho Chi Minh, e comecei a escrever em meio à pandemia. Mas ainda não está pronto. Espero que fique. Mas pode ser que eu me surpreenda com alguma outra coisa, antes, e escreva outro. Quem há de saber?

Negacionismo e pandemia: a produção da ignorância como política de governo

Por José Elielton de Sousa

 

Com a pandemia da COVID-19, um dos fenômenos políticos que vem chamando atenção é o recrudescimento de movimentos negacionistas mundo afora, inclusive no interior da própria comunidade científica. O negacionismo se caracteriza pelo ato de negação de uma ideia, juízo ou fato apresentado como verdadeiro por uma comunidade científica, acadêmica ou filosófica, resultante de análises metódicas dos membros dessas respectivas comunidades. Nesse sentido, o negacionismo é um conceito aplicável a indivíduos ou grupos de pessoas que “optam” voluntariamente por não acreditarem em uma informação, fato ou ideia vista como consensual nos meios acadêmicos e científicos.

O ponto de partida negacionista são teorias conspiratórias sobre determinado assunto, cujo objetivo seria divulgar a “verdade oculta”, escondida por uma grande conspiração internacional para que as pessoas não tenham acesso a tal realidade. Além disso, as teorias negacionistas se apoiam em informações manipuladas, descontextualizadas, suprimidas ou falseadas por supostos “especialistas” que, na realidade, tem visões e informações sobre o assunto em questão que são totalmente divergentes do conhecimento estabelecido. O termo “negacionismo” tem origem francesa e foi empregado para classificar o primeiro grande movimento negacionista contemporâneo: os negacionistas do Holocausto.

No âmbito da ciência, embora possa remeter retrospectivamente ao início da idade moderna, quando cientistas como Copérnico e Galileu foram obrigados a falsearem suas próprias conclusões científicas por causa da contradição doutrinal da Igreja, o negacionismo é um fenômeno que remete a meados da segunda metade do século XX, com a indústria do tabaco financiando pesquisadores para questionar o fato de que o fumo causa câncer, manipulando e alterando propositalmente dados e evidências científica com vistas a atender fins econômicos.

Se antes o negacionismo estava restrito a grupos articulados em torno de interesses econômicos-ideológicos ou religiosos específicos, com a proliferação de movimentos de extrema direita mundo afora, associada ao uso das redes sociais para disseminação de teorias conspiratórias, informações falsas ou distorcidas e discursos de ódio, esse fenômeno se integrou a essa agenda política mais ampla, ultraconservadora, reacionária, xenofóbica e teocrática que reúne esses diversos movimentos de extrema direita em torno de pautas e valores retrógrados (racismo, xenofobia, chauvinismo), antidemocráticos (autoritarismo, separatismo, populismo), tradicionalistas (Deus, pátria e “família”) e anticientíficos (contra vacinas, contra medidas profiláticas e negacionistas do vírus SARS-Cov-2).

Com a chegada da COVID-19, esse fenômeno negacionista se intensificou, “contaminando” de forma significativa membros da comunidade científica e de governos de diversas partes do mundo, tornando-se inclusive discurso oficial e política de governo em vários lugares do mundo, como no Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo. Como aponta Carlos Orsi e Natalia Pasternak, em Contra a realidade: a negação da ciência, suas causas e consequências, embora o negacionismo seja motivado por interesses difusos e os grupos negacionistas sejam distintos entre si, podemos perceber que todos eles adotaram a mesma estratégia reativa ao longo da pandemia da COVID-19, estabelecendo uma espécie de fronteira móvel diante realidade dos fatos, que vai se ajustando a cada momento de acordo com a conveniência.

O processo de produção da ignorância não é aleatório, ele é fabricado propositalmente, é uma construção articulada por pessoas que possuem informações e meios sofisticados de produzir conteúdo

Assim, se eles reconhecem existir um discurso sobre a pandemia, questionam sua veracidade ou relatam que se trata apenas de um vírus comum, acusando os governos de montarem uma farsa para justificar a adoção de medidas autoritárias de controle dos direitos e das liberdades individuais. Por outro lado, se eles admitem a realidade da doença, desconsideram sua gravidade, criando teorias conspiratórias sobre a origem do vírus e seu suposto uso como arma biológica. O mesmo procedimento em relação às formas de prevenção da doença: se eles reconhecem a gravidade da doença e a importância de salvar vidas, desconsideram os métodos científicos, como a utilização de máscaras, o isolamento social, o lockdown e a própria vacina. Preferem acreditar na utilização medicamentos não comprovados cientificamente, como ivermectina e hidroxicloroquina, mesmo depois de verificado que os mesmos não apenas são ineficazes no combate à COVID-19, mas que seu uso prolongado traz sérios riscos para a saúde de usuário.

Especificamente no caso do Brasil, o atual presidente da República conseguiu a proeza de juntar em seu governo uma variedade impressionante de negacionistas, desde grupos “clássicos” como aqueles que negam o holocausto, passando por terraplanistas, negacionistas climáticos, fundamentalistas religiosos, revisionistas da escravidão e da ditadura civil-militar brasileiras, até, obviamente, os negacionistas da pandemia da COVID-19, articulados ao negacionismo científico. Dessa forma, pela primeira vez na história de nosso país temos um mandatário que adota o negacionismo como discurso oficial e norte para suas ações governamentais – é a ignorância e a estupidez transformadas em política de governo.

Três momentos da atuação do governo federal, sob a liderança explícita do presidente da República, no enfrentamento à pandemia são particularmente emblemáticos, denotando claramente a institucionalização governamental do negacionismo e a estratégia reativa acima mencionada, ajustável à conveniência do momento. Primeiramente ele se omitiu no combate à pandemia, não adotando as medidas necessárias para conter a disseminação e circulação do vírus, culpando o STF por, supostamente, ter retirado a competência da União para tal finalidade. Posteriormente, e apesar da omissão, o governo federal passou a questionar e criticar publicamente as informações e recomendações produzidas pela comunidade científica nacional e internacional, promovendo uma campanha orquestrada de desinformação, defendendo a tese da imunidade de rebanho e estimulando o “tratamento precoce” mesmo sem eficácia comprovada. Por fim e não menos importante, vem a questão da vacina: o governo federal não apenas esnobou diversas ofertas de compra de vacinas e se omitiu de participar de um consórcio internacional para aquisição e distribuição de vacinas para países em desenvolvimento, como passou a fazer campanha contra as vacinas disponíveis no Brasil, inclusive acionando dispositivos legais para não recomendar a vacinação de adultos e crianças.

Essa exposição reiterada à desinformação tem provocado uma espécie de dissociação cognitiva entre a realidade da pandemia e as crenças subjetivas dos negacionistas, levando-os a recorrer a narrativas fantasiosas para explicar os fatos. Assim, se tornaram comuns narrativas que defendem que não houve o colapso funerário de Manaus (AM) em 2020, que caixões funerários estavam sendo enterrados vazios, ou que o número de casos divulgados pelas secretarias estaduais de saúde estava fraudado, pois os hospitais estariam vazios e as entidades de saúde fariam laudos falsos sobre os óbitos por Covid-19. Em relação as vacinas, as narrativas negacionistas mais comuns relacionam a origem das vacinas à sua eficácia, o controle biológico da população por meio de microchips implantados através da vacinação, ou ainda a estória de que as vacinas são responsáveis pelo surgimento de novas variantes.

O processo de produção da ignorância não é aleatório, ele é fabricado propositalmente, é uma construção articulada por pessoas que possuem informações e meios sofisticados de produzir conteúdo e influenciar grupos enormes de pessoas, para ocultar interesses políticos-ideológicos de controle e manutenção de poder. Uma das consequências perversas desse processo de produção da ignorância é a intensificação de uma política de naturalização de morte e a banalização da vida, voltada especialmente para grupos mais vulneráveis, não por acaso os mais atingidos proporcionalmente pela pandemia.

Esse fenômeno de produção intencional e articulada da desinformação, associado ao negacionismo científico como políticas públicas, quando relacionado à política de naturalização de morte e a banalização da vida promovida pelo governo federal, é um exemplo daquilo que muitos estudiosos chamam de tanatopolítica: economia e governo da morte do Outro. É isso que temos hoje no Brasil: um governo da morte do Outro!