Wellington Soares
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Isis Baião: “Amo o teatro desde quase sempre”

por Wellington Soares, escritor e professor

foto: Maurício Pokemon

Estou por ver uma pessoa tão apaixonada pelo teatro quanto a Isis Baião. Ela respira, fala, escreve, comenta, ministra oficinas, assiste e, não bastasse, personifica o próprio teatro. Literalmente, sem exagero. Não à toa afirmar, nesta bela entrevista, que “amo o teatro desde quase sempre”. Ainda na adolescência, mandava buscar peças no Rio, que lia com voracidade e prazer. Depois sonhou em ser atriz, caindo fora ao não encontrar sua praia. A dramaturgia representou, finalmente, o tão almejado grito de Eureka! E não é que esse encontro amoroso entre os dois, para nossa felicidade, perdura firme e inabalável até hoje.

Além da fissura pelo teatro, Isis nos fascina por ser uma pessoa amável, educada, doce e de sorriso franco. Daquelas que inspiram confiança, acolhimento. Que nos trata de imediato, no primeiro encontro, como velhos amigos.  A conversa brotando espontânea, descontraída, sem tabus de qualquer natureza. Sem falar de uma mulher inteligente, de senso crítico, antenada com seu tempo. Daí produzir um teatro, a exemplo de Nelson Rodrigues, distinto do bombom com licor. Na realidade, como arma para falar das coisas que realmente interessam: sentimentos, ética, política, humanismo, conflitos, tragédias e problemas sociais.

Foi no Rio de Janeiro onde tudo começou. Ainda cursando Jornalismo na PUC, percebeu que estava intrinsicamente ligada à cultura, em suas mais diversas manifestações, sobretudo, à arte cênica. Dois fatos a aproximaram, entre outros, do teatro em definitivo: a participação numa oficina, ministrada por Sérgio Britto, para atores estreantes; e a entrevista que fez, ousadia sem igual, com “O anjo pornográfico”, epíteto pelo qual ficou conhecido nacionalmente o polêmico dramaturgo pernambucano. Sua obra inclui textos cinematográficos, biografia, contos e peças teatrais, essas últimas reunidas hoje em livros – Teatro (In) completo / Volumes I e II.

Vim conhecer Isis Baião pessoalmente quando retornou, depois de muitos anos, a Teresina da sua adolescência e berço natal da sua mãe. Encantado, tratei logo de convidá-la para uma entrevista à Revestrés, uma das melhores já feitas pela nossa revista. Nada mais natural que o lançamento tenha ocorrido, com direito a coquetel e tudo, no Espaço Cultural Trilhos, juntando bastante gente da classe artística da cidade. Indagado por mim, sobre se valeu a pena toda a vida dedicada ao teatro, ela não titubeou: “Nunca me arrependi. Pelo contrário, apesar de toda a luta – porque é uma luta, sim – eu não tive nenhum dia em que achasse que poderia ser outra coisa que não teatróloga.”

Para retribuir tamanho amor e entrega, resta-nos apenas ler com atenção, extraindo as devidas lições, cada sábia resposta dada por Isis Baião, essa mineira de nascença e piauiense de coração.

Que você acha do que disse, certa vez, o polêmico Nelson Rodrigues: “Teatro não tem que ser bombom com licor”?
Concordo com ele. O teatro, como simples divertimento, parece perda de tempo e dinheiro. Sim, porque o teatro é uma arma (que não mata) preciosa para falarmos de sentimentos, de ética, de política, de humanismo, ao representarmos os nossos conflitos, as nossas tragédias e mazelas sociais. E digo mais, acho que o humor, para quem sabe usá-lo, é um grande aliado do dramaturgo. O humorista Leon Eliachar disse certa vez que “fazer rir, é rir do Rei”…

Fazer teatro no Brasil nunca foi tarefa das mais fáceis. Não bastasse, vieram o (des)governo do Bolsonaro e a Covid 19. Como tem sobrevivido a classe nestes tempos de perseguição artística e negacionismo?
Tem sido difícil sobreviver, companheiro. Uns mais, outros menos, dependendo da condição anterior a essas duas tragédias que se abateram sobre nós, a Covid 19 e o Bolsonaro (a ordem não altera a malignidade dos fatores). Têm pessoas passando necessidades mesmo. E me impressiona como esse (des)governo conseguiu reunir, em primeiro e segundo escalão, gente tão incompetente, ignorante e sem pudor para servi-lo (desservindo ao povo), inclusive artistas! É como se um espírito perverso tivesse baixado sobre este país. Mas eu acredito em Deus e sei que a “farra do boi” está no fim…

Sei que não distribuo “bombons com licor”, embora faça rir, às vezes, até muito. Dizem que o meu humor está mais para o satírico e o cruel. É verdade.

Quando nasceu em você a ideia de ser dramaturga, área ocupada geralmente por homens?
Amo o teatro desde quase sempre. Quando adolescente e ainda morando em Teresina, mandava buscar livros de peças no Rio. Lia tudo, encantada. Mas não pensava que me tornaria dramaturga. Achava que queria ser atriz e tinha fascínio pelas grandes atrizes. Conheci algumas no Rio, onde fui morar em 66. Já trabalhava na imprensa cariosa quando me formei em Jornalismo, em 70, na PUC/RJ. Em seguida, passei quatro meses em Londres e lá também trabalhei, por acaso!, no Serviço de Rádio para Portugal e América Latina, do COI (Central Office of Information). Na volta, o Sérgio Britto me chamou para fazer uma reportagem em um Laboratório de Teatro, que ele acabara de montar, com outros artistas, a “nata” do teatro carioca. Fui e não saí mais. Continuei a trabalhar em jornalismo, mas estava cada vez mais ligada ao mundo teatral. Por outro lado, comecei a sentir que não era aquele o meu barato. No final do Laboratório, o grupo se dividiu em dois. Um deles era a turma bem jovem, que formaria o Asdrúbal Trouxe o Trombone, sob a direção do Hamilton Vaz Pereira. Eu estava no outro grupo, dirigido por José Carlos Gondim, que fez uma adaptação da Antígona, de Sófocles, na qual interpretei Ismênia, a irmã da protagonista. Na estreia, amigos e amigas me afiançaram que eu estava ótima!!! Será? Bom, gostei muito da experiência, mas vi que ser atriz não era exatamente o que eu queria. O tempo passou, eu continuava a fazer matérias para jornais e revistas. Um dia, não me lembro se a propósito de uma reportagem, uma atriz, minha amiga, me disse: “Você devia escrever para teatro. Têm poucas mulheres escrevendo. Já pensou nisso?” Não, eu nunca tinha pensado, mas passei a pensar. Resolvi começar pelas adaptações: a primeira, de Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel Garcia Marques; em seguida Cândido ou o Otimismo, um conto satírico-filosófico, de Voltaire. Depois, começaram os originais, com Maria Manchete Navalhada e Ketchup, tragicomédia, ainda inédita; Instituto Naque de Quedas e Rolamentos, minha estreia no palco. E a vida seguiu, acompanhada de muitos títulos, nenhum deles convencional…   

De todas suas peças, qual delas é a filha preferida por ter sido um parto difícil e prazeroso no final da gestação?
Não existe filho(a) preferido(a) para um coração de mãe… Mas é certo que existe um chamego especial com aquele(a) cujo parto foi mais sofrido. É o caso da minha Casa de Penhores. Ela veio ao mundo de maneira totalmente diferente das demais. Eu estava grávida e não sabia. Passei alguns dias numa grande aflição, sentindo as ideias se misturando dentro de mim, sem nenhuma definição. De repente, peguei um bloco de papel e comecei a rascunhar um roteiro. Eram umas 10h da manhã. À medida que escrevia, as cenas apareciam mais nítidas. Fui sendo tomada por uma grande emoção. No final da tarde, o roteiro estava pronto, relaxei e desabei num grande pranto. Acabara de parir um bebê, ainda descarnado, a que dei o nome de Casa de Penhores. Anos depois, ela se tornou a menina dos olhos da família Baião, quando obteve um dos prêmios do concurso 1997 Onassis International Cultural Competitions – Theatrical Plays, em Athenas-Grécia.

Quais nomes despontam hoje na dramaturgia brasileira, incluindo a piauiense, no sentido de renovação e atração de público?
Estou há sete anos no Piauí e por fora do teatro no Rio, que sei debilitado, como o da maioria dos estados, pelos efeitos da pandemia e desse (des)governo do inominável. Prefiro falar da dramaturgia piauiense, que teve e tem dramaturgos nacionalmente conhecidos, como Francisco Pereira da Silva e Benjamin Santos.  Cito ainda os colegas consagrados, Aci Campelo e José Afonso de Lima (este, também poeta) e outros, cujos trabalhos me entusiasmaram em estreias diversas. Mas confesso que tenho especial carinho por uma pequena turma que fez a minha Oficina Avançada para Novos Autores, em 2017, realização da Secult. No final, organizamos um mini- festival com a produção da Oficina, em que, cada Novo(a) Autor(a), ocupava uma 5ª feira, no Teatro Torquato Neto. Uma das novas dramaturgas desta turma, a jornalista Samira Ramalho, já atingiu Sampa: ano passado encenou, no Teatro Gazeta de São Paulo, a peça A Ciumenta, em parceria com a atriz do SBT, Renata Brás.

O que motivou você e Terezinha Marçal a escreverem “Mara Rúbia, a Loura Infernal”, biografia da atriz paranaense Osmarina Lameira Colares Cintra? 

foto: Maurício Pokemon

Pois é, na vida, tudo é história, as coisas acontecem e se encaixam, ou não. Em 84, três atrizes me pediram para escrever um texto sobre as questões da mulher. Aceitei e nos encontrávamos uma vez por semana para uma troca de depoimentos de vida. Virávamos a noite, contando nossas histórias umas para as outras, rindo, chorando. E só a partir de um determinado momento, comecei a escrever os esquetes que iriam compor o espetáculo As Bruxas Estão Soltas. Therezinha Marçal, filha de Mara Rúbia (na época, ainda viva) era uma das atrizes e, nos seus depoimentos, falava muito da sua mãe. Nós todas ficávamos encantadas com as histórias de vida daquela mulher linda, de forte personalidade, carismática e à frente do seu tempo. Montamos As Bruxas numa galeria de arte, bem no coração de Ipanema, e foi um sucesso, mas, quando terminou o contrato com a Petite Galerie, não tivemos dinheiro para alugar um teatro. Com uma grande tristeza, fomos cada uma para um lado (no Rio, é o que acontece quando se desfaz um elenco). Anos depois, reencontro a Therezinha e a fulmino com esta proposta: vamos escrever a biografia da Mara Rúbia? Ela ainda estava muito abalada pela morte da mãe, mas topou. A princípio queria que eu escrevesse todo o livro, mas convencia-a de que, no decorrer da narrativa, era interessante que houvesse pequenos textos dela, contando coisas de Mara, com o olhar e o sentir de filha. Foi incrível. Acho os textos da Thê um dos charmes de Mara Rúbia, a Loura Infernal.

Ao assistir ou ler suas peças, que mensagens/lições ficam no imaginário coletivo?
Realmente, não sei. Cada cabeça, uma sentença, não é? Mas faço o possível para que me entendam. Sei que não distribuo “bombons com licor”, embora faça rir, às vezes, até muito. Dizem que o meu humor está mais para o satírico e o cruel. É verdade. Vejo mais a vida como uma tragicomédia, bem mais do que uma simples comédia. E raramente a vejo de maneira realista. Minha linguagem é essencialmente expressionista. É o que eu acho, mas posso estar errada. É difícil ser crítica de si mesmo…

O novo imortal da APL

O governador Wellington Dias acaba de ser eleito membro da Academia Piauiense de Letras. Foi no último sábado (12), em segundo escrutínio, obtendo 22 dos 34 votos. Sua eleição repercutiu nas redes sociais. Enquanto poucos vibraram com a sua escolha, a maioria preferiu, por motivos políticos e ideológicos, espinafrar sem dó nem piedade. Em comum entre ambos, o desconhecimento da obra escrita por ele. Com as raras e honrosas exceções de sempre, bom destacar.

Por enquanto, são três livros lançados: Macambira (1995/Zodíaco), reeditado em 2020; Tiradas do Tio Sinhô (2007/Oficina da Palavra) e A Melancia do Presidente (2018/Quimera). Escreveu ainda, embora sem publicação, as peças Reizados da Minha Terra e Estamos Todos Inocentes. Sem falar da participação nas coletâneas O Conto na Literatura Piauiense (1981) e Novos Contos Piauienses (1984). Com o texto Maria, Valei-me (1984), recebeu menção honrosa no Concurso João Pinheiro de Contos, da secretaria estadual de Cultura.

A eleição de Wellington Dias para a Academia Piauiense de Letras foi criticada nas redes sociais. Mas o que muitos desconhecem é que o governador do Piauí escreve desde os anos 1980, quando era bancário, foi destaque em concurso e elogiado pela crítica.

Sobre Macambira, disparado seu melhor livro, bom ler o que disse Xico Sá, um dos mais respeitados jornalistas do país: “O escritor Wellington Dias domina a arte do conto e faz dos viventes das terras secas e dos arruados de Oeiras – a primeira capital do Piauí – criaturas de histórias universais. Para quem não é familiarizado com o interior do Nordeste brasileiro, são tipos que até parecem nascidos da imaginação de um autor da escola do realismo-fantástico”.

Ouçamos agora o que falou Cineas Santos, professor e escritor, a respeito das Tiradas do Tio Sinhô: “No início de 2002, fui procurado pelo então deputado federal Wellington Dias. Veio mostrar-me os originais de um livrinho de crônicas ou causos, como ele prefere. Eram historietas engraçadas, tendo como personagem principal um certo Adrelino José Dias, mais conhecido como tio Sinhô. O livro me pareceu interessante”. 

Quanto ao terceiro livro, A Melancia do Presidente, a contista e poeta  Cláudia Manzolillo não poupou elogios, ela que é mestra em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ): “O resgate da tradição oral, da conversa que se alonga e, gostosamente, conquista o ouvinte/leitor é o que nos trazem os textos de A Melancia do Presidente. O autor consegue, por meio de narrativas plenas de humor e ironia, cativar quem se enreda em seus contos. Gente simples e personagens conhecidos se misturam e, lado a lado, os “causos” relatam experiências características do ambiente regional, com sua linguagem própria e peculiar”. 

Dito isso, que tal dar uma passada nas livrarias de Teresina e adquirir, se não todos, pelo menos um dos livros de Wellington Dias? Assim deixamos os elogios estéreis e as críticas infundadas de lado, que nada constroem. E nunca esquecer que, numa disputa como essa, na Casa de Lucídio Freitas, a obra dos autores deve pautar, a despeito de qualquer coisa, a devida escolha. Ou não?

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Wellington Soares é escritor, professor e editor.

A normalização da morte como medida

 

 

 

Por ocasião do fechamento da editora Cosac-Naify, eu aproveitei a liquidação e adquiri títulos cujos preços de suas magníficas edições me impediam até então.  Entre eles, alguns infantis como a tradução de O pato, a morte e a tulipa de Wolf  Erlbruch. Ao ler fiquei tão assustada que escondi na parte alta da estante, bem distante dos livros que minhas netas costumavam acessar à vontade.

O livro é belo, em desenhos e textos. A ilustração é do próprio autor e os diálogos entre o pato e a morte são construídos em linguagem simples, direta e muito rica. No entanto, considerei desafiador demais para minha capacidade de responder às perguntas que brotariam. Não conseguia ver a morte com a naturalidade que o livro apresenta. Tampouco teria coragem de conversar com as crianças sobre o tema sem uma provocação que me obrigasse. Melhor deixar esse assunto para os pais. Essa é uma das coisas boas de ser avó.

Então, qual a razão da escolha desse livro? O assunto me atrai e me assombra. É frequente no que escrevo e por isso também frequente nas minhas pesquisas. Um dia desses, lendo uma psiquiatra especialista no ramo, encontrei uma explicação para o meu pavor e negação de sua naturalidade. Dizia ela que para o inconsciente é impossível imaginar um fim real. O inconsciente tende a nos impulsionar para a vida. O fim é visto como algo externo e é por isso considerado uma intervenção maligna, um acontecimento medonho. Fiquei satisfeita e aliviada por alguns
instantes. A minha negação da morte, ou visão da morte como algo trágico, nasce do meu desejo de viver.

 

Em 2020, o livro desceu para as prateleiras mais baixas. Estamos há dois anos convivendo diariamente com o tema. Não que antes não morressem pessoas todos os dias. É que a pandemia jogou a morte na roda sem subterfúgios.  Não deu para retirar as crianças da sala.

Para mim, a compreensão filosófica da morte como um fato puro tal qual o nascimento – o ciclo da vida na natureza – que está como pano de fundo do O pato é racionalmente palatável. É um norte, é uma justificativa para o aprimoramento do nosso estar no mundo. É o que dá sentido e brilho à vida. No entanto, emocionalmente não é tão simples assim quando temos aqueles olhinhos brilhantes e cheios de vida diante de nós perguntando: você vai morrer? Nunca mais vou falar com você? Eu vou morrer?

Mas o ponto em que eu queria chegar, quando imaginei este texto, está ainda aqui latejando na minha cabeça, tentando encontrar uma forma no papel enquanto as ideias pipocam no meu cérebro. Uma coisa é entender a morte como parte de um ciclo natural da existência de todas as coisas e não se apavorar diante dela. Outra é ter a normalização da morte como medida para ações de descuido com a vida humana.

Chegamos à marca oficial de 640 mil mortes por uma doença evitável. Evitável porque conhecemos o mecanismo de transmissão e o que precisa ser feito para interromper. O que fazer em parte depende de políticas públicas e em grande parte depende da atitude individual. Temos um governo que declaradamente alimenta o encanto pela morte: na defesa da tortura e da eliminação dos que pensam diferente, no armamento da população civil, na defesa da truculência policial, na liberação de agrotóxicos, na agressão ao meio-ambiente e povos originários, na exposição das pessoas a uma epidemia com a justificativa de que só morrem os que têm que morrer. Esse último é um discurso perversamente interiorizado pela maioria da população, mesmo os que discordam das demais políticas nefastas. Ficamos no mato sem cachorro.

Neste pico da terceira onda, todas as noites vamos pra cama com a notícia da morte de mais de mil pessoas por uma doença evitável. Evitável, é preciso repetir. Paradoxalmente, o que mais se ouve é o discurso de que é preciso viver, de que é tempo demais pra ficar parado com medo da morte. Como se esse pensar individualista absorvesse tortuosamente o entendimento filosófico sobre a realidade finita do homem e fechasse os olhos para as portas abertas a algo maior: a morte do outro, o fortalecimento de um agente mortífero, a extinção. Portanto, um pensamento suicida em que a arma pode ser um vírus ou outras causas que ameaçam a vida humana e cujo antídoto depende do pensar coletivamente e do repensar o viver, que será exigido mais cedo ou mais tarde.

Ficou pesado, né? Hora do ponto final. Uso a descrição de fim do mundo de Ailton Krenak – uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder – para perguntar: não valeria a pena adiar o fim?

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Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos, Editora Quimera (Teresina, 2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana, Editora EDUFPI/Avant Garde (Teresina, 2018); Conexões Atlânticas, Infinita (Lisboa, 2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras ABR Editora (Guarujá, 2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos, Patuá (São Paulo, 2018).

ENEM: Haja coração!

Além do carnaval, fevereiro é o mês de o Inep divulgar o resultado do Enem 2021. Para ser mais exato, será no próximo dia 11. Haja coração, do estudante, até essa data. Dependendo das notas obtidas, nas cinco áreas do conhecimento, ele terá motivo ou não para bebemorar. Antes, vai enfrentar uma via-crúcis das grandes. De sofrimento e noites mal dormidas. Tão penosa, ou mais, quanto a angústia experimentada nas provas. Fala-se da inscrição no Sisu, de 15 a 18 deste mês. O Sisu é o Sistema de Seleção Unificada que leva ao ensino superior. Sobretudo, às universidades públicas, espalhadas pelo país, em razão do caráter nacional do vestibular. Ter calma, confiar no próprio taco e tomar suco de maracujá são coisas mais que aconselháveis neste momento.

Enquanto a pontuação não chega, o aluno dá uma espiada no termo de adesão da universidade onde pretende estudar. Todas as informações ele vai encontrar lá: cursos e vagas ofertados, turnos disponíveis, nota de corte e, importante observar, os programas de assistência estudantil. Sem esquecer também, sob pena de “dançar”, os documentos exigidos no ato de efetivação da matrícula. Afinal, são apenas seis dias, a contar de 23 a 28 de fevereiro, para o enemzeiro dar conta desse processo. E, como sabemos, não é novidade nenhuma, que o brasileiro deixa tudo pra última hora. Como a concorrência é pesada – 2,1 milhões de candidatos disputando pouco mais de 200 mil vagas –, qualquer descuido é fatal.

Quem fez o Exame Nacional do Ensino Médio, em novembro passado, acabou sendo beneficiado sem querer. A razão? O número de participantes foi o menor registrado desde 2005. Essa queda resulta, a rigor, de dois fatores. Primeiro, o estrago causado pela pandemia, que afetou tanto o emocional como disseminou o medo na “galera”. Segundo, a desastrosa condução do Enem pelo Ministério da Educação (MEC), cuja gestão autoritária levou servidores a pedirem exoneração do Inep, instituto responsável pela execução do certame. Basta comparar os números: 8,7 milhões de candidatos em 2014, no governo Dilma Rousseff, e 3,1 milhões em 2021, no governo Jair Bolsonaro. Desnecessário dizer que esse contingente enorme de excluídos tem origem em famílias pobres, são pretos e vêm de escola pública.

Caso seu nome não apareça na chamada regular, a ser divulgada no dia 22/02, o candidato ainda gozará da prerrogativa de se inscrever na lista de espera – de 22 a 28 do presente mês. E o que é melhor, o Inep ainda disponibiliza, conforme sobrem vagas, outras listas de espera. Ao longo do ano, ocorrem várias chamadas no primeiro e no segundo semestres. O estudante só não pode é abrir mão, depois de ter ralado tanto, do sonho de um futuro promissor. Sem falar também das oportunidades abertas com o Prouni (Programa Universidade para Todos) e o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), que dão acesso a faculdades privadas. Até a confirmação da matrícula, recomenda-se cantarolar, no espírito festivo do carnaval, a velha marchinha do Pinduca: “Alô papai, alô mamãe/ Põe a vitrola pra tocar/ Podem soltar foguetes/ Que eu passei no vestibular”.

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Wellington Soares é professor e coordenador do Pré-Enem Seduc Piauí.

ROGÉRIO NEWTON: Fazemos literatura à procura de sentido para a vida

ENTREVISTA Por Wellington Soares, professor e escritor

Rogério Newton, ao centro, entre J L Rocha do Nascimento e Wellington Soares

Quando me indagam quem eu gostaria de ser ao crescer, minha resposta é imediata: Rogério Newton. Sem titubear, na bucha. Quer saber a razão? Simples, pois ele reúne tudo o que gostaria de encarnar: filho de Oeiras, cronista dos melhores, poeta, defensor público, romancista, praticante de iôga, contista, vegetariano, mestre em Direitos Humanos, um cara legal, ligado ao Teatro do Oprimido, ambientalista, nascido na Rua das Portas Verdes, democrata convicto, amante da cultura e, acima de tudo, a leveza em pessoa.

Mas é como escritor multifacetado, jogando um bolaço em todos os gêneros, que minha admiração por ele só aumenta. Na crônica literária, sobretudo, na qual desponta como biscoito fino para deleite dos leitores. O cotidiano, as memórias, os amores, a natureza fluindo sob o olhar sensível de um autêntico poeta da vida e da linguagem. Daqueles que tocam fundo a alma da gente, como podemos aferir nos livros Ruínas da memóriaConversa escrita n’água e Grão, entre outros.

Rogério fez parte de uma geração cultural, batizada de Pós-69, que deu uma boa chacoalhada no cenário artístico de Teresina. Não só lançando revista, organizando exposições e saraus, mas dando umas cutucadas na ditadura militar, na falta de liberdade e na censura vigentes no Brasil da época. E o mais importante, passado batido pela nossa crítica, o surgimento de três grandes nomes da contemporânea literatura piauiense: ele, na crônica; Paulo Machado, na poesia; e, fechando o trio, Aírton Sampaio, no conto.

Embora tenha saído de Oeiras na adolescência, constatamos que nossa primeira capital, desde a arquitetura colonial/imperial aos banhos no riacho Mocha, passando pelos becos/ruas/casarões até as procissões religiosas, nunca saiu dele e da sua obra. Como uma paráfrase, fincada no coração, dos antológicos versos de Carlos Drummond: “Oeiras é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!”.

No fundo, será uma alegria degustar esta conversa, muito instigante, a fim de compartilhar o sentido da vida, mesmo um tantinho apenas, que os textos de Rogério Newton têm descortinado ao longo dos anos – inclusive escrevendo em Revestrés desde a nossa primeira edição. Terá ele conseguido?

Que acha do que disse Aldous Huxley, escritor inglês, sobre “a memória de todo homem é sua literatura particular”?

É uma frase bonita. Os escritores gostam de fazer frases assim. Mas parece que ele tem razão: é difícil imaginar uma literatura ou a vida mesmo sem memória, que parece um reservatório misterioso de coisas guardadas, boas e ruins, sábias e tolas. O escritor recorre à memória para escrever, mesmo que ele crie uma obra ficcional. Mas aí ele fatalmente tem que fazer uma seleção do que está armazenado na memória para criar o que quer que seja. Por isso, a literatura é uma construção, ou como diria meu amigo Paulo Machado: literatura é reconstrução. E aí reside o mistério. Penso que toda pessoa humana faz sua própria “literatura particular”, à procura de sentido. Todos nós estamos procurando sentido para a vida. Mesmo numa conversa de botequim alguém estará procurando (re)construir alguma coisa. Agora, há perigos como o esquecimento e o desprezo para com a memória. Por exemplo, há pessoas que defendem a volta da ditadura no Brasil. Pessoas sensatas não fazem isso. Millôr Fernandes é autor de uma máxima que diz mais ou menos o seguinte: o futuro é o passado usado. Há algo mais desanimador do que isso? A memória é dádiva preciosa. O mais importante é usá-la adequadamente para que resulte em coisas potentes e benéficas para a humanidade.

Todos nós estamos procurando sentido para a vida. Mesmo numa conversa de botequim alguém estará procurando (re)construir alguma coisa.

De que maneira ser filho de Oeiras, nossa primeira capital, impacta sua vida e obra?

O. G. Rego de Carvalho disse uma vez que não seria escritor se não tivesse nascido em Oeiras. Não chego a tanto, mas acho que a cidade contribuiu muito para eu ser escritor. Em primeiro lugar, Oeiras tem uma atmosfera sugestiva. Refiro-me à sua arquitetura, colonial e imperial, de ruas, becos, casarões, largos em um relevo que não é plano. A cidade histórica vista, por exemplo, do Rosário e do Morro da Sociedade, oferece imagens de telhados e quintais. Cada ângulo de visão tem um recorte diferente. A primeira impressão talvez leve a um impulso lírico – e os autores da cidade enveredam muito por esse gênero. Mas tudo também reivindica incursões épicas, que considero escassas. Por que os autores preferem o lírico e não o épico? Por outro lado, além da arquitetura histórica, Oeiras possui múltiplas memórias, a partir das quais pode-se (re)construir muita coisa não só no campo da arte, da poesia e da literatura, mas também da história, da geografia, da sociologia, das etnias, da vida social etc. Matéria-prima é que não falta.

A influência de Oeiras na minha vida deve-se muito ao fato de eu ter vivido a infância toda lá e uma parte da adolescência. A casa onde eu e nove dos meus irmãos nascemos ficava de porta e janelas abertas durante o dia. Não havia um limite rígido entre a casa e a rua. Facilmente, eu saía para jogar bola, tomar banho no riacho ou simplesmente perambular por lugares, como a feira, que achava fascinante. Os primeiros violeiros eu vi na feira. A miséria e a fartura e muitas outras coisas misturadas, como as tropas de jumentos que carregavam gêneros alimentícios, provenientes das pequenas propriedades familiares. Os botecos sórdidos com seus bêbados e prostitutas, os tipos humanos etc. Numa época em que não havia chegado o supermercado e o fast-food, a feira era um espelho da sociedade.

Acho que até início da década de 1970, havia uma convivência mais ou menos harmônica entre a cidade histórica e a outra Oeiras que passou a ser construída. Claro, ninguém espera que uma cidade seja a mesma o tempo todo. Mas Oeiras está pagando preço muito alto pela sua expansão urbana, que se dá sem critérios claros e sem considerar adequadamente as áreas verdes e as belezas naturais, que lhe conferiam muita graça, especialmente o leito e as margens do Riacho Mocha, transformado em esgoto na área urbana, e os morros que circundam a cidade.

Outras coisas fascinavam meus olhos: os eventos religiosos; procissões como teatros a céu aberto; banhos e passeios no Riacho Mocha e nos morros; os ensaios da banda de música no antigo sobrado do Círculo Operário; o cinema etc. Eu ouvia os adultos falarem em histórias. Havia as bibliotecas, como a que pertenceu ao que fora o Ginásio Municipal Oeirense. Foi lá que encontrei Jorge Amado e Lima Barreto. Na biblioteca pública municipal, havia mais de uma coleção de Machado de Assis. Um dia apareceu na minha casa um exemplar de Somos Todos Inocentes, de O. G. Rego de Carvalho. Esses autores eu os li antes de sair para estudar em Teresina. Eu já tinha em Oeiras referências de escritores e músicos residentes na cidade. Próximo a mim, na Rua do Fogo, morava o escritor Expedito Rêgo. Na Rua da Feira, Possidônio Queiroz. Na Rua do Izidro, Costa Machado. Na minha família mesmo, havia um escritor, meu tio Gaudêncio Carvalho, irmão do meu pai, que guardava como uma preciosidade o livro Poemas da Íntima Habitação, primeiro lugar no primeiro concurso literário de Brasília (1961), cujo prêmio foi entregue pelo poeta Manuel Bandeira, convidado especial para a solenidade de premiação.

Gosto de pensar em Oeiras como um microcosmo: tem tudo que o Universo possui, em doses mínimas e, às vezes, em doses cavalares. Percebi isso depois que saí da cidade. O distanciamento físico, o aprendizado em outras terras, o alargamento de horizontes pelo estudo e por outras vivências me proporcionaram outras visões, outras leituras, outras formas de sentir. Oeiras faz parte da minha “literatura particular” e da literatura que produzo. Saí de Oeiras, mas Oeiras nunca saiu de mim.

Acho que não seria cronista se, além dos jornais, revistas e filmes, não tivesse lido boas obras de ficção, de poesia, de teatro, letras de música, histórias em quadrinho e, naturalmente, crônicas.

Há quem veja em suas crônicas traços de poesia, um tipo de “cronemas”. Esse aspecto o aproxima ou o distancia dos leitores?

O escritor Aírton Sampaio, na orelha do livro Grão, foi quem falou que minhas crônicas eram “cronemas”, ou crônicas-poemas. Fico todo orgulhoso com esse elogio, porque, de uma maneira ou de outra, a poesia é quase uma presença “obrigatória” na crônica literária. Foram necessárias décadas para evoluir a um texto leve, aparentemente simples, com seu “quantum satis” de poesia, como diria Antonio Cândido. Não que a crônica tenha se rendido à poesia. Uma e outra permanecem sendo discursos específicos. Muitas vezes, o cronista recorre à poesia, e isso deve ocorrer sempre com naturalidade, porque a crônica moderna e a poesia dão muito certo uma com a outra. Mas isso é compreensível também porque o cronista usa também recursos de outras formas literárias, como o conto. Não há nada demais nisso, muito pelo contrário. Por exemplo, Manuel Bandeira foi muito ousado na época ao escrever “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Seu poema tem sabor da notícia de jornal, mas também do conto e da crônica. O nosso Geraldo Borges leu o Grão e disse que O Pequeno Engraxate parece um conto. Eu acho que tudo isso aproxima os leitores da crônica.

Na sua opinião, a crônica se identifica mais com o jornalismo ou a literatura?

Pesquisadores destacam que a crônica nasceu do antigo folhetim do século XIX, que era um espaço, geralmente, situado na parte inferior dos jornais, destinado à crítica literária e a assuntos políticos, sociais etc. Portanto, é impossível negar a filiação da crônica ao jornalismo impresso. Diz-se também que “grandes escritores brasileiros do século XIX passaram por jornais”, escrevendo o romance-folhetim e o romance em folhetim, este com preocupações temáticas e estruturais maiores que o primeiro. Mas sua pergunta é sobre crônica. Por isso acho necessário falar sobre a coluna Ao Correr da Pena, de José de Alencar, escrita nos jornais Correio Mercantil e Diário do Rio, em 1954-55. São textos longos, se comparados à crônica contemporânea, que “encurtou de tamanho”, mas têm certo tom de conversa, como as crônicas de hoje em dia.  Os textos da coluna de Alencar tinham também certo tom de literatura. Tomando esse exemplo histórico, a crônica se identifica com o jornal, mas com o passar dos anos, ela foi como que se emancipando e se transformando num texto literário ou numa mistura de literatura com jornalismo. O certo é que o jornal impresso passou a conviver, claro, com crônica jornalística, mas também com a crônica literária. Mas acho que isso só veio a ocorrer na primeira metade do século XX, embora seja bom mencionar Machado de Assis, que, em 1877, portanto, século XIX, escreveu O Nascimento da Crônica. No Piauí, acho que merecem atenção as crônicas escritas por Vítor Gonçalves Neto, no jornal “O Curare”. É difícil dizer onde ali começa o jornalismo e termina a literatura. No final das contas, há espaço tanto para a crônica jornalística como para a crônica literária e até para um misto das duas, porque as fronteiras não são bem delimitadas, nem acho que devem ser. Falando por mim, prefiro escrever – e ler – crônicas literárias, mas escrevo também crônicas jornalísticas. No final das contas, o que interessa mesmo é a qualidade do texto.

Em 2015, você estreia no romance, com No coração da noite estrelada, surpreendendo a todos. Como leitores e críticos receberam o livro?

Surpresa tive eu com a recepção ao livro. Pelo menos, quatro pessoas, que eu saiba, escreveram positivamente: Aírton Sampaio o chamou de “romance geracional”; Eulália Teixeira achou o livro “uma bela história”; Geraldo Borges, “um romance de ideias”; Dagoberto Carvalho Jr também elogiou o livro, puxando mais pro lado oeirense. O Geraldinho me falou que leu duas vezes: após a última página, voltou imediatamente para a primeira, relendo o livro todo. Acho que isso é o principal elogio para o escritor: saber que um leitor leu seu livro por duas vezes, de uma assentada. Logo após o lançamento, encontrei o Cineas Santos em um posto de gasolina, na estrada. Ele vinha acho que de São Raimundo Nonato e eu, de Oeiras. Ele falou com entusiasmo sobre o romance. Desde o início, Cineas tem sido generoso para comigo. Um professor do Ensino Médio de uma escola de Oeiras adotou o livro. Com os alunos, ele fez o percurso por ruas, praças, becos e arredores da cidade, onde a ação se desenrola, e tentou reconstruir a história, de forma teatralizada. Deu pra sentir o interesse e motivação dos alunos. Em nosso meio, não é comum os leitores se manifestarem. Os poucos que falaram comigo gostaram do romance. Um poeta de Oeiras, Edilberto Vilanova, fez a mim, pessoalmente, comentários bastante pertinentes sobre o livro. Acho que ele foi um leitor bem atento.

 Augusto de Campos comparou um bom poema não lido ao canto do uirapuru na floresta, que talvez poucos ou nenhum ser humano ouça, mas está cumprindo sua parte para o encantamento do mundo.

Não bastasse, foi mais além ao publicar, em 2019, a Outra face, segunda obra poética. Que sensações esses gêneros distintos marcam sua escrita e alma?

Na verdade, é muito difícil determinar fronteiras rígidas entre as várias formas literárias. Claro que cada uma delas tem suas características próprias que a identificam como tal, mas isso não impede a intercomunicação. Comecei como quase todo mundo começa, isto é, tentando escrever poemas, depois contos e artigos. Não pensava em ser cronista. Eu queria mesmo era escrever ficção. E aconteceu que, após chegar em Teresina, em 1977, passei a ler muito os jornais da chamada “imprensa nanica”, sobretudo, O Pasquim. Poxa, esse jornal usava uma linguagem que muito me agradava: havia a crítica, a ironia, o humor mordaz. Era uma linguagem ao mesmo tempo “participante”, antenada com o Brasil e o mundo, e uma linguagem “sem paletó e gravata”, altamente comunicativa. Lá pela metade da década de 1990, eu lia os colunistas da Folha de São Paulo e senti que poderia escrever daquele jeito. E  então comecei a publicar artigos no jornal O Dia, de Teresina. Mas lá pelo terceiro artigo, me cansei daquilo e, naturalmente, passei a escrever de um jeito mais solto e pessoal, sem estar vinculado a uma lógica argumentativa. Foi aí que fui migrando para a crônica, porque o tom passou a ser de conversa, às vezes, de “conversa fiada”. Eu achava que não estava fazendo nada demais, mas, um dia, me deparei com um texto de Aírton Sampaio elogiando minhas crônicas. Aí parei para pensar, porque eu admirava Aírton pelo seu livro Contos da Terra do Sol, e já naquela época era um crítico perspicaz. E mais: não era ainda meu amigo. A gente só se cumprimentava – “Ôi, tudo bem?! – de modo que achei seu elogio sincero. Ele não escreveria só para me agradar, não era do seu feitio. A partir de então, passei a dialogar com ele e a refletir sobre o que estava escrevendo e dando o que falar, porque eu encontrava conhecidos na rua e eles me falavam bem das crônicas. Uma vez, um leitor de Picos escreveu para a redação do jornal – era uma carta para mim -, dizendo que adorava minhas crônicas. E então passei a ler mais os cronistas brasileiros e tudo que eu via sobre crônica, pois ali eu me sentia bem, em casa, como leitor e escritor. Mas digo para vocês: acho que não seria cronista se, além dos jornais, revistas e filmes, não tivesse lido boas obras de ficção, de poesia, de teatro, letras de música, histórias em quadrinho e, naturalmente, crônicas. Acho que tudo isso marca minha escritura e minha vida, sendo que a poesia, para a vida e para a crônica, tem uma vitalidade sutil e muito especial. Por isso, cheguei a publicar dois livros de poemas: Último Round e A Outra Face. Mas, sem dúvida, fazer poemas é muito mais difícil que escrever crônicas, contos ou romances.

Tem valido a pena dedicar, desde a estreia em 1994, tantos anos de vida a uma atividade pouco valorizada no Piauí /Brasil?

1994 foi o ano da minha estreia em livro, mas minha primeira crônica foi publicada em 1981, no Jornal da Manhã. Eu também já havia publicado no tabloide Floretim, editado pelos poetas Paulo Machado e Nelson Nunes, na década de 1980, além dos jornais mimeografados Mafrense e O Beco, de Oeiras, e nos principais jornais de Teresina. Assim, comecei mesmo foi em jornal. Portanto, sou de uma geração que aprendeu a escrever, escrevendo pra jornal. Escrever é uma das atividades mais vitais para mim. Mesmo que não deem valor. Mas sinto que não é isso que acontece. Em geral, os leitores apreciam o que escrevo. Por falar em dar valor ou não, o poeta, crítico e tradutor Augusto de Campos respondeu a uma pergunta semelhante: ele comparou um bom poema não lido ao canto do uirapuru na floresta, que talvez poucos ou nenhum ser humano ouça, mas está cumprindo sua parte para o encantamento do mundo.

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