Victória Holanda
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Ohad Naharin ou It’s a long way

Contém spoilers

Eram 18h30 do último feriado quando vi uma postagem nas redes sociais anunciando a estreia de “Gaga – o amor pela dança”, documentário de Tomer Heymann sobre o coreógrafo israelense Ohad Naharin. Eu tinha 50 minutos para chegar ao cinema, já que o filme ficaria em cartaz em Teresina somente uma semana e apenas nas sessões de 19h20. Pulei da cama e dirigi até o cinema. Nas poltronas: 6 pessoas contando comigo.

Ohad Naharin é daqueles artistas que nos faz lembrar porquê que a gente dança. Um personagem: contatos, no mínimo, inusitados com Martha Graham e Maurice Béjart; caso amoroso com Mari Kajwara, que largou seu posto de primeira-bailarina à frente dos trabalhos do coreógrafo americano Alvin Ailey para casar com um desconhecido que tentava a vida em Nova York; aulas de balé ao lado de Rudolf Nureyev nas quais Naharin caiu de paraquedas e polêmicas à frente da Batsheva Dance Company, Ohad Naharin é soco no estômago, acalento no coração, é abraço na alma, é uma luzinha vermelha piscando.

É lembrar que dançar é entrega de si, é receber a entrega do outro, é resistir a essa entrega, é gostar de se entregar. É derreter na pele um calor, uma chama acesa, uma palpitação. É vontade de rasgar o peito todinho, de se esfregar no chão, de flutuar no ar. É suspeitar que um contato horizontal, pode ser mesmo muito vertical. É necessidade de extravasar e, mesmo assim, investigar seu íntimo lá no fundo pequeno sozinho. É chorar e sorrir com a certeza que fez a escolha certa.

 

É Caetano, It’s a long way. It’s a long, long, long, long way.

 

“E se não tivesse o amor

E se não tivesse essa dor

E se não tivesse o sofrer

E se não tivesse o chorar…”

 

(…) Nós não íamos dançar.

B-R-O-BRÓ: filosofia e um monte de coisas

As diversas manifestações do pensamento humano, sejam elas expressas através das mais variadas formas de linguagem escrita ou oral, ou ainda através de artefatos ou objetos simbólicos, trazem consigo as marcas de seu tempo, as características do lugar em que foram gestadas e as particularidades de quem as vivencia.

Longe de ser um problema, é justamente isso que faz com que o pensamento não se descole da realidade, se perdendo num emaranhado abstrato de teorias e fórmulas que nada dizem sobre o que nos cercam. Num mundo em que determinados padrões hegemônicos tendem a ser impor globalmente, qualquer reflexão que se pretenda crítica não pode prescindir dessa condição, sob pena de tornar-se insignificante e sem sentido.

Assim, quando utilizamos o termo B-R-O-BRÓ não estamos nos referindo somente ao apelido popular para um fenômeno climático de uma determinada época do ano numa região geográfica específica, no caso, a cidade nordestina de Teresina, capital do Piauí. Estamos chamando atenção para um signo que pode nos permitir adentrar um conjunto de conteúdos cujo significado caracteriza o modo de ser, pensar e agir de sujeitos historicamente situados, através de processos materiais, políticos e culturais cotidianos, “os produtos dialéticos de um mundo global em movimento” e um monte de outras coisas ainda por se manifestar.

É a isso que este espaço se destina.

Junho Cultural

Este início de junho tem maltrato, no bom sentido, meu pobre coração. Apesar das fortes emoções, ele tem resistido heroicamente. Explico: vivenciar o Salão do Livro do Piauí, em Teresina, e o Festival de Inverno, em Pedro II, não é pra qualquer um, ainda mais depois dos cinquenta anos. Sem falar que cultura desperta prazeres inusitados e mexe com sensações desconhecidas, sobretudo, ao focar o saudável hábito da leitura e a insustentável leveza do ser proporcionada pelas viagens musicais. E essas duas primeiras semanas, convenhamos, têm sido pródigas nesse sentido. Melhor de tudo, priorizando qualidade e acesso livre a todos, num sábio resgate da máxima oswaldiana: “A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”.

Salipi 2017

 

Comecemos pelo Salipi, realizado entre os dias 2 e 11, na Universidade Federal do Piauí, no qual participei como mediador e ouvinte de conversas importantíssimas, a exemplo da feita por Marcelino Freire, escritor pernambucano dos bons, contista premiado no Jabuti, organizador da Balada Literária de São Paulo, que falou sobre “A poesia da prosa/A prosa da poesia”, ele que domina o assunto como ninguém na contemporânea literatura nacional, ministrando oficinas criativas Brasil afora, um declamador de textos de rara sensibilidade. Outro que veio e fez bonito foi Marcelo Rubens Paiva, pisando em solo piauiense pela primeira vez, autor do hoje clássico Feliz ano velho, que nos brindou com relatos dolorosos sobre a mãe Eunice, portadora de Alzheimer, o pai Rubens Paiva, deputado morto pela ditadura, e o filho Sebastião, nascido com os olhos azuis do avô, memórias reunidas em Ainda estou aqui, seu penúltimo livro. Marcaram também as instigantes falas de Nei Lopes sobre o eterno samba, das origens aos dias atuais, ele que é um dos estudiosos das culturas africanas; Edmilson Caminha, jornalista cearense de coração piauiense, que tratou do amor homoafetivo entre Amaro e Aleixo, romance centenário de Adolfo Caminha; Antonio Risério, intelectual baiano que, ao abordar facetas da práxis textual, acendeu polêmica no meio acadêmico; e, por último, Carlos Newton Júnior, amigo e pesquisador da obra de Ariano Suassuna, que nos levou a conhecer um pouco mais a respeito da travessia estética do autor de O auto da compadecida.

festival-de-inverno-de-pedro-ii

 

Quanto ao Festival de Inverno, em Pedro II, foi a natureza que deu o tom, levando os presentes ao evento, notadamente os visitantes de fora, a experimentar sensações indescritíveis no tocante à hospitalidade e à beleza dos casarios da cidade, bem como ao clima de interior vivenciados no Museu da Roça e no Sítio Buritizinho, onde nesse último é possível saborear um beiju quente e matar saudade do alfenim, tomando, é claro, um gostoso caldo de cana, tudo feito na hora e sob a batuta de um autêntico forró tradicional. Não bastasse, ainda tivemos o paradisíaco Morro do Gritador, eterno convite a sermos pássaros, e um clima frio que nos remete à Suíça. Inspirado também noutro tom, em Antônio Carlos Brasileiro, nosso maestro genial Tom Jobim, fomos embalados por ritmos diversos e envolventes, desde o blue até o reggae, passando pelo samba ao rock’n’roll. E haja coração e garganta e pernas, com os sentidos a mil, para aguentar os espetaculares shows de Alceu Valença, Erasmo Carlos, Roberta Campos, Diogo Nogueira e Cidade Negra, sem falar ainda do som maneiro de Donny Nichilo Band, direto de Chicago, e Gustavo Andrade Blues Band, vindo das Minas Gerais. Entre os piauienses, fiquei maravilhado com as apresentações de Myriam Eduardo, Oitavo Resgate e  Teófilo Lima, que fizeram bonito e nos encheram de orgulho. Como arremate, num final pra lá de feliz, a louvável iniciativa em criar a Escola de Jazz de Pedro II.

Oh, meu nobre viajante!

Promessa dada tem que ser promessa cumprida. Voltei a Marmelada um anos após conhecer aquela comunidade cuja história contei pra Revestrés. Você pode ler aqui, mas relembrando rapidinho: um pequeno grupo de pessoas no interior de Gilbués, sul do Piauí, que festeja o divino espírito santo há quase 200 anos da maneira mais genuína e linda que eu já vi de praticar a fé. Eles não tinham energia elétrica até 2015. E quando chegou, lutaram para retirar os postes que impediam a passagem do mastro levantado. Tá tudo cheio de simbologia. É tudo divino, maravilhoso.

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meu rancho, embaixo de um pé de fava <3

Dona Ilene me recebeu com a mesma festa. Uma preta linda do abraço apertado, a guardiã da chave da igreja. A gaitada dela continua do jeitinho que eu me lembrava. O beiju grosso no fogão a lenha. O café passado pra tomar sem pressa. Tudo segue da maneira como eu guardei a Marmelada no meu coração.

Este ano, mente aberta e alma leve, reparei em novos personagens. É claro que afinei as amizades antigas: que felicidade dona Olenor boa de saúde. O vei Chico chega tava outra pessoa, o semblante só de alegria. Ela, na missa de sábado, parecia uma princesa. A saia rodada verde, um sapato de veludo cor de rosa. O padre falando: “Eu não me guio em quem eu sou: eu me guio na fé de dona Olenor”. Eu também, seu padre.

IMG_1169A burra de seu José de Quintino morreu – ele disse que ela foi picada por uma cobra, ou algo do tipo, e caminhou léguas pra chegar em sua casa e morrer em paz. Ele ainda lembra o último olhar. Arrumou um pé de pano, segue andando com rapé no bolso. Foi ele que disse que a “Para tudo” (a cachaça que é sucesso nas esmolas), na verdade, é “conserva tudo”. 94 anos e toma todo dia. Ouça a voz da sabedoria.

Vanjinha, dona Ninica, Isabel, Jaciara, Raimundo Batista (o sineiro que de tanto tocar o sino da igreja ficou corcunda), Maximiano. Este último tava com olho machucado – foi colher alguma coisa no mato, um galho desgovernado o acertou em cheio. Lembrei da história de Lampião, o alertei – um ômão da porra desse não pode perder a visão. Tava vermelho e baixo, ele não foi ao médico. Mas não há dúvida de que se apegou com o divino.

Conheci este ano seu irmão, o Tinhô. É ele que faz o tambor que Maximiano toca há anos – é feito de aroeira e couro de viado (outro animal não funciona, sob o risco de comprometer a sonoridade do instrumento). A maneira como Tinhô narra sua história é emocionante. Cada frase é uma poesia, ele sabe direitinho observar a linha que cruza toda a sua vida. “Deus me algemou a família”. É uma verdade. Aos 16 anos assumiu o comando da casa, cuidou da mãe e todos os irmãos. Depois casou e teve um filho especial, que só acalmava com ele. Os filhos cresceram, ficou viúvo, hoje cuida dos netos que moram com ele. Seu Tinhô é pai em poesia e essência.

Prometeu tentar fazer o meu tambor – o divino que vai dizer se sou digna de tê-lo. Se ele julgar que sim, deixarei claro que o tambor estará comigo mas será sempre da comunidade. A única vez que ele os comercializou foi para ajudar o tratamento do filho doente. Ainda apareceu político desviando essa renda. Agora tá mais difícil fazer, com a caça proibida e a madeira em extinção. E eles tem uma consciência total disso, por esta razão não se comprometeu.

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Dona Ilene construiu um banheiro – o cômodo agora está rente a nosso alojamento, imponente, todo pintado de branco. É o único espaço da casa de pau a pique com parede branca. A gente nota a alegria da dona em ostentar aquilo que até bem pouco tempo parecia inalcançável. Usei um dia, só pra agradá-la. Ela mesma concluiu: “já reparei que você gosta mesmo é de tomar banho no banheiro com teto de estrelas”.

No dia das esmolas – o famoso domingo de pentecostes – colei no alferes, o seu Orlando de Ninica. Vestindo a indumentária que a ocasião exige, é extremamente respeitado por todos ali: é ele quem escolhe o roteiro a ser percorrido, direciona os capitães, recolhe as doações. Depois das cantigas pro dividino e para o padroeiro da casa, é a hora do samba – particularmente, meu momento preferido. Acho que eu sou foliã de raiz – desculpa, Marmelada. Eu tinha que ter essa falha. Mas tenho o cuidado de não ser afoita demais sob o risco de ser considerada apenas pelega. É possível passear entre os dois, migrar rapidamente do sagrado pro profano. Tanto é que os melhores cantadores são exímios foliões.IMG_1124

É na hora do samba que surge a cachaça . Alguém (geralmente, o dono da casa), surge com a “Para tudo” e oferece ao alferes. Ele a impõe no alto, todos vibram, cantam, dançam, gritam, batem palma. Mas só bebe aquele a quem o alferes oferecer. É ele quem tem o poder de decidir quem vai beber, o quanto vai beber e a ordem – em geral, capitães recebem a dose primeiro. Preciso dizer que foi uma honra quando, após oferecer-me a dose da cachaça pela primeira vez, Orlando me botou sempre na roda – até, na última casa, da última esmola, eu chegar a ser a primeira pessoa – depois dele – a beber. Isso pra mim foi a maior honra.

Este ano reparei poucos bichinhos pagando promessa na Marmelada – sinal de um superávit na saúde dos animais da região. Dois cavalos e um cachorrinho seguiam com a gente a caminhada de um dia inteiro (12 casas), que sobe os grotões, atravessa rio ressequido, cruza literalmente o caminho das pedras e passa pelo cemitério, parando somente para o almoço. Encerra tudo na igreja, com uma procissão belíssima – todo mundo de velinha na mão, aqueles pontinhos de luz no meio da escuridão.

Voltei com uma sacola carregada de catinga de porco, coroa de frade, alecrim e canelinha – toda cura para todo o mal parece estar aqui comigo agora. Isso sem falar em presentes como favo de mel, caneta de pena, o chaveirinho do divino e a binga (ou artifício, nome que eu gosto mais). Aprendi a fazer fogo, a atirar com um bodoque, a aceitar tudo de bom e ruim que a vida pode me dar.

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família que me adotou na Marmelada <3

Na Marmelada, quando a gente agradece qualquer coisa (tipo, “obrigada, dona Ilene, pelo almoço!”), eles não dizem “por nada” nem tampouco “não há de que”. Eles sabem que há motivo sim para agradecer, porque tudo é custoso, tudo é trabalho, é suor – mas se a pessoa estiver comendo uma migalha de pão, e esta for o único alimento que ela tem, ela vai te oferecer, e quando você disser “obrigada!” ela vai apertar sua mão com força, talvez até te puxe pra um abraço, e vai dizer: “merece”.

E, depois disso, moço, você vai entender o que é o divino.

Recordações nada exemplares

Foto - O terno e o frangoRecordações pra lá de arretadas, essas do Joca Oeiras, agora reunidas em livro, nas quais descortina, sem pudor nem moralismos, um monte de histórias envolvendo a família, sobretudo, o resgate afetivo dos pais, ele, o advogado e jornalista Antônio Mendes, militante comunista desde 1927, preso 22 vezes, além de amargar um exílio no Uruguai, amigo de Prestes e Apolônio e Marighella, companheiros das utopias socialistas, que, não resistindo à truculência do golpe militar de 64, termina se encantando ainda novo, aos 61 anos, vítima de infarto fulminante, deixando na memória do filho bordão dos mais didáticos: “Cabeça fria, coração quente”, enquanto ela, sua mãe Beatriz Carvalho, graduada em História e Geografia, de quem herdou o prazer em contar histórias e uma mala repleta de fotos dos entes queridos, era uma mulher  e tanto, à frente de seu tempo, que ao perder o marido, bem como ansiosa por trilhar novos caminhos, resolve estrear no magistério, zona Leste de São Paulo, dando aulas em escolas noturnas, onde vem a conhecer, numa delas, sua alma gêmea, a também professora Maria Sebastiana, 20 anos mais nova, chamada carinhosamente por todos de Mariúcha, incluindo ela, amor lésbico que duraria até sua morte, embora fossem tidas, no convívio familiar, apenas como boas “amigas”, pois dividiam o mesmo teto e viviam correndo o mundo em viagens, felizes como nunca foram na vida, tudo dito e escrito de forma simples e poética, em textos curtos, através de linguagem acessível, própria dos mestres da palavra, a fim de tirar o fôlego do leitor com instigantes memórias, a exemplo da avó paterna, dona Otávia Winter, cujo nome foi abolido do convívio social por ter metido um par de chifre no marido, fugindo depois para a África com um padre, logo numa época em que o adultério (feminino, é claro) era considerado crime e passível de cadeia, merecedor do escárnio da sociedade, a ponto do pai e os tios serem apelidados, inclusive pelas tias solteironas, de grandes “filhos da puta”, vergonha que carregariam na alma pelo resto da existência, bem como o singelo relato que faz Joca Oeiras, dos poucos a seu respeito, quando ainda não passava de um guri, da inocente brincadeira do troca-troca com um amiguinho, peraltice comum entre adolescentes durante a descoberto do corpo, ou a lembrança emocionada, descrita com saudosismo, da Augusta “Eu faz”, empregada doméstica que marcou indelevelmente sua vida, rua Melo Palheta, no bairro Água Branca, figura e região de Sampa até hoje, segundo o “anjo andarilho”,  impregnados de eternidade nessa bem traçada obra que ora ele torna pública – O terno e o frango -, a pertencer daqui pra frente, sabedor que é como blogueiro tarimbado, exclusivamente ao leitor, cabendo a este toda sorte de crítica, positiva ou não, desde que embasada na leitura completa do livro e feita com os olhos puros de uma criança, afinal estamos diante de um memorialista sensível e mestre em contar histórias que merece todo nosso respeito e admiração.