Wellington Soares
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Saliceu 2017

Depois do Salipi, em 2003, outras feiras literárias surgiram no Piauí, tanto na capital como no interior do estado. Fato extremamente animador do ponto de vista cultural e na formação de leitores, haja vista o pouco hábito de leitura entre nossa população. Se no Brasil a média não ultrapassa quatro livros por ano, abaixo de países vizinhos, imagine em solo piauiense, onde faltam bibliotecas e livrarias. Sem falar também de gestores indiferentes e da inexistência de políticas públicas nesse sentido. Não fossem alguns professores de índole quixotesca, vencendo moinhos de vento, a situação estaria uma lástima, sem os jovens terem acesso ao livro – verdadeiro passaporte para o futuro das novas gerações. Em Teresina, outro evento que desponta nessa área, precisamente no bairro mais populoso da cidade, é o Salão do Livro do Dirceu, previsto para acontecer entre os dias 20 e 22 deste mês.

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Dentre os convidados da 2ª edição, Ano Clóvis Moura, poeta e sociólogo amarantino que dá nome ao campus da Uespi no bairro, local de realização do Saliceu, destaca-se o nome da Ana Miranda, escritora cearense consagrada nacionalmente a partir do lançamento, em 1989, do romance O Boca do inferno, reconstituição histórica da Bahia do século XVII com seus polêmicos representantes literários: Gregório de Matos e Pe. Antônio Vieira. Nessa sua obsessão em evocar vozes de outros séculos, no campo das letras, temos ainda A última quimera (Augusto dos Anjos), Dias & Dias (Gonçalves Dias) e Semíramis (José de Alencar). Em entrevista a jornal carioca, Ana Miranda esclarece esse paradoxo: “Mas minha identificação maior não é com personagens, e sim com o modo de narrar, de construir o livro. Os únicos personagens em que me vejo são os que eu mesma desenho, e todos eles. Desde Gregório de Matos até Semíramis ou Iriana, todos são pedaços de mim.”

Os outros três palestrantes nacionais, provenientes do Maranhão, já são bastante conhecidos do nosso público: o poeta Salgado Maranhão, filho de Caxias radicado no Rio de Janeiro, “uma das vozes mais originais de sua geração”, segundo Luiz Fernando Valente, professor da Brown University, que “representa um elo importante na evolução do que identificamos como a linha apolínea na moderna poesia brasileira. Herdeiro de Drummond, Cabral e Faustino, sua elegante obra poética continua e renova o melhor da produção poética brasileira das seis últimas décadas”; e a dupla formada por Celso Borges, poeta e letrista, e Beto Ehongue, DJ e compositor, que apresenta um trabalho poético da melhor qualidade, marcado pela irreverência e crítica política – “A posição da poesia é oposição”, performance aplaudida em São Luís e outras capitais do país, experimentações verbais e sonoras em torno da palavra.

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A prata da casa vem representada por um timaço de profissionais, escolhido a dedo, que deixará o público simplesmente impactado com suas falas. A começar por Cineas Santos, professor e escritor, ao abordar “O Piauí na poesia de Dobal”, autor dos mais queridos de nossa literatura; Joselita Izabel, com “A mulher levanta a saia”, sobre a vida e a obra de Hilda Hilst, escritora malvista pelos textos eróticos; Feliciano Bezerra, com “A escritura de Torquato Neto”, uma visão multifacetada do artista predestinado a desafinar o coro dos contentes; Cícero Filho, cineasta maranhense, com o seu inquietante “Ai! Que Vida”, 10 anos de uma comédia política recordista de público e  atual como nunca; Adriano Lobão, destrinchando “A luta com as palavras na redação do Enem”, fantasma que tira o sono de vestibulandos e concurseiros; e, entre outros, Nelson Nery Costa e Socorro Magalhães, ambos membros da APL, explicitando o legado e os desafios da Casa de Lucídio Freitas. O lançamento do evento ocorre amanhã (13), na Uespi do Dirceu, com palestra pra lá de instigante de Nathan Sousa: “A poesia brasileira do século XXI”, ele que é a grande revelação da nova safra da poética piauiense. Nunca esquecer que um país, tirada magistral de Monteiro Lobato, se faz com homens e livros. Ou não?

Havia uma pichação no muro: reflexões no meio do sol quente

por André Henrique M. V. de Oliveira

(Professor de filosofia/IFPI e fã de Bob Dylan)

 

É possível conhecer alguma coisa sem que se tenha um cérebro? Para os “enativistas” a resposta é “sim”.  De imediato, é provável que isso nos soe absurdo, ou no mínimo estranho. Então uma planta sabe? Os primeiros coacervados sabiam?

Refutar a ideia de que é plausível comparar um computador à mente humana: eis um dos propósitos dessa teoria. Na perspectiva enativista, um computador não é comparável à mente de um ser vivo pela mesma razão que o pé de jambo sabe, e que “a ciência da abelha e da aranha muita gente desconhece”: a característica essencial dos seres vivos, com sistema nervoso ou sem, é que eles são capazes de atribuir significado ao mundo.

O que é atribuir significado, senão o saber diferenciar, distinguir? No nosso caso, que talvez não seja o da aranha e o do pé de jambo, essa capacidade de diferenciar vem acompanhada do pensamento, e para isso precisamos de um cérebro. Mas, no fundo, a atitude de um ser humano de buscar alimento é semelhante à de uma planta crescer buscando luz: ambas resultam da atribuição de significado, do saber, do sapere, do saborear o mundo.

Dar significado à alguma coisa quer dizer conferir-lhe importância. O que tem significado para mim é o que é importante para mim. Como nascemos sem nada, ou quase nada, passamos a buscar aquilo que nos parece importante; aquilo que nos falta. Sim. É a falta que nos põe em movimento. E essa falta varia justamente segundo a importância que damos às coisas. “A gente não quer só comida: a gente quer comida, diversão e arte”, diz a canção. Por isso, ser capaz de se importar é algo humano, demasiado humano.

Na banalização se torna difícil distinguirmos o que é essencial, isto é, o que realmente falta, do que é supérfluo. De minha parte, tendo a pensar que o essencial passa pelo básico, em sentido biológico mesmo: comer, beber, dormir, procriar (não necessariamente nesta sequência). E em época de banalização de tudo (a nossa), come-se de tudo, bebe-se de tudo, dorme-se menos e procria-se menos. Haverá um desequilíbrio?

A resposta, se é que ela existe, deve estar no saber o que importa. Diferenciar é dar importância, e isso só se pode fazer enquanto vivo, pois na morte não há importância: ela é a indiferença absoluta. Quando tudo: coisas, fatos, pessoas, relacionamentos, tendem a se banalizar, a perder a importância, a morte adentra à vida.

Importar-se com as coisas, com as pessoas, com o mundo é conseguir pequenas vitórias sobre a invencível morte. No muro que dá para ver da minha janela há uma pichação: “Bom dia, amor”.

Madeleine Stowe

Esta semana me veio à cabeça um poema antológico de Vinícius de Moraes, escritor carioca que se notabilizou por celebrar o amor, temática universal e presente em todos os tempos. Quando menos espero, estou eu recitando alguns versos de A mulher que passa, texto no qual o “Poeta da Paixão” expressa todo deslumbramento e desejo à bela garota que cruza o seu caminho: “Oh! Como és linda, mulher que passas / Que me sacias e suplicias / Dentro das noites, dentro dos dias!”. No meu caso, a declaração de interesse foi motivada, no que dá no mesmo, por uma atriz norte-americana que costumo ver nos filmes hollywoodianos. O nome dela é Madeleine Stowe, filha de pai britânico e mãe costa-riquenha que, ao aparecer na tela, acorda em mim uma súplica mais que urgente: “Meu Deus, eu quero a mulher que passa.”

Fiquei encantado por essa deusa, pela primeira vez e em definitivo, ao vê-la no papel de Cora, heroína do O último dos moicanos, filme baseado no romance homônimo de James Fenimore e dirigido pelo tarimbado Randolph Scott. A história trata da guerra entre ingleses e franceses, nos anos de 1756 a 1763, pela posse das terras localizadas na costa leste dos Estados Unidos. Filha do coronel inglês Munro, encarregado pela defesa do forte William Henry, Cora é perseguida e ameaçada de morte pelo cruel Magua, um dos chefes guerreiros da tribo Yuron, aliado dos franceses. Sob um fundo musical comovedor, nossa bela e irresistível mocinha é salva por Nathaniel Hawkeye (Daniel Day Lewis), destemido jovem americano criado por uma família de índios moicanos. Já naquela película, brotavam convictamente os versos de Vinícius: “Como te adoro, mulher que passas / Que vens e passas, que me sacias / Dentro das noites, dentro dos dias!”.

Madeleine Stowe

 

A rendição total à beleza de Madeleine Stowe se deu quando a vi encarnando a sensual Mireya, do filme Vingança, dirigido por Tony Scott e lançado em 1990. Casada com um poderoso negociante mexicano, com idade para ser seu pai, a jovial e atraente Mireya acaba se apaixonando pelo ex-piloto Michael Cochran, amigo do chefão Tiburon Mendez (o “Tibby”) a quem resolve visitar após a merecida aposentadoria, depois de 12 anos de serviços prestados à marinha estadunidense. Flagrados na cama, tanto Mireya quanto Cochran provam da implacável ira do traído esposo. Ela é levada para um puteiro e disponibilizada a todos os homens; ele, leva uma surra tremenda dos capangas do “Tibby”, escapando milagrosamente por pouco. A cena na qual Mireya, dentro do carro, senta nas pernas do sortudo Cochran, que mal consegue dirigir, é digna dos apelos mais sinceros e voluptuosos por Madeleine Stowe: “Meu Deus, eu quero a mulher que passa! / Eu quero-a agora, sem mais demora / A minha amada mulher que passa!”.

De sua extensa filmografia, ainda vi dois outros filmes muito interessantes: Blink – Num piscar de olhos(1994), no qual interpreta uma violinista que ficou cega aos oito anos após ser agredida pela mãe; e A filha do general, em que vive uma advogada tentando desvendar um misterioso crime acontecido numa base militar. Além de ser bonita, Madeleine é daquelas mulheres que transpira uma sensualidade inquietante e urgente. Daí sempre associá-la a mulher festejada por Vinícius de Moraes, o poeta que não teve receio nem despudor em cantar o gênero feminino, combinando sentimento e carnalidade. Ver Madeleine Stowe atuando sempre relembra em mim o cancioneiro amoroso desse saudoso poeta: “Teus sentimentos são poesia / Teus sofrimentos, melancolia. / Teus pelos leves são relva boa / Fresca e macia. / Teus belos braços são cisnes mansos / Longe das vozes da ventania”.

Troco jamais

Teresina - Foto

De Teresina gosto, praticamente, de tudo. Até mesmo, se duvidarem, dos defeitos. Porque amor é sentimento estranho e inexplicável. Ou é por inteiro, com doces e salgados, ou não interessa pela metade. Tenho pra mim que essa relação, mal resolvida e intensa, é o meu destino: amar sem conta, inclusive de forma doentia, essa cidade que me pariu e embala ainda hoje. Seu passado e presente que se confundem com a minha própria existência, mais de meio século, por meio de uma memória fragmentada, verdadeiro entrelaçar de emoções e lembranças que perduram infinitamente. Na Clodoaldo Freitas, os brinquedos do Avião, nosso Papai Noel, recebidos com tanta alegria por todos os guris. O prazer de ser aplaudido, na inauguração do Karnak, ao cantar num coral sob a batuta do maestro Reginaldo Carvalho. O momento inesquecível das Diretas Já, no bairro do Marquês, com Ulisses, Brizola e Lula desfraldando a bandeira da democracia, luta memorável pelo fim da ditadura civil-militar.  O desespero de milhares de torcedores, ante a falsa notícia do desabamento de arquibancadas, na inauguração do estádio Albertão. A incrível memória do Cavaleiro da Esperança, aos 80 e tantos anos, discorrendo sobre sua Coluna pelo Piauí, em palestra realizada na Ufpi, estudantada atenta na exposição de Luís Carlos Prestes, lenda do comunismo brasileiro. A sensação inesquecível, nas Casas Pernambucanas, de andar numa escada rolante, na Praça Rio Branco, medo danado de prender o pé naquela geringonça. Os banhos memoráveis, em manhãs ensolaradas, nas coroas do Parnaíba, nosso Velho Monge – “as barbas brancas alongando e ao longe / o mugido dos bois da minha terra.” As peladas no campinho do Bariri, com o mestre Pato Preto orientando e revelando novos craques pro nosso futebol. O ginásio Verdão lotado de gente, em show inesquecível do RPM, com Paulo Ricardo soltando a voz em Louras geladas e Olhar 43, com milhares de fãs em êxtase. A perda da virgindade na Paissandu, rezando para não pegar uma doença da vida, revoltado por não acontecer com a namorada. O gostoso pão de queijo do  Seu Cornélio, nos intervalos das aulas, em conversa animada com os amigos, ali na P2. As novenas na Vila Operária, dias de terça-feira, levado por dona Raimunda, sob a condição de ganhar um picolé Amazonas. O surgimento dos shoppings na zona Leste, Riverside e Teresina, com nossa capital adquirindo aspecto de metrópole, mundão de gente maravilhado com as acrobacias da Esquadrilha da Fumaça e os saltos mortais de paraquedistas. As manifestações estudantis na Praça Pedro II, entoando a canção de Vandré, hino dos universitários contra a tirania e a falta de liberdade no país: “Vem, vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer”. O fascínio pelos circos, nas figuras do palhaço e malabarista, instalados na Praça da Bandeira, coração dando pulos de alegria. A faixa protestando contra a fome do povo, em ato de coragem e rebeldia, diante do sensível olhar do papa João Paulo II, em 1980, diante de mais de 100 mil pessoas: “Santo Padre, o povo passa fome”. As boas gargalhadas dadas em função, nos cines Rex e Royal, das engraçadas traquinagens do Carlitos, o gênio do cinema mudo – nosso eterno Charles Chaplin. Os sucos deliciosos do Abrahão, na zona Norte, acalmando nossa fome diária e outras angústias. A feirinha da Sulica e do Zé Elias, na Praça Saraiva, onde encontrávamos a rapaziada da cultura e ouvíamos música de qualidade. Os namoricos dentro de carro, em avenidas e ruas, antes dos motéis e da violência que tomou conta da cidade. Para recarregar as baterias, depois das baladas noturnas das sextas-feiras, nada melhor que um café reforçado no Mercado da Piçarra: panelada, sarapatel, carneiro ao molho, buchada, galinha caipira, caldo de carne, bolo frito, beiju com ovo e um bom cuscuz acompanhado de carne de sol. O Salão do Livro de Teresina, realizado anualmente em junho, despertando o gosto pela leitura desde cedo na garotada. O espetáculo e tanto do coral de mil vozes, protagonizado por crianças humildes, nas escadarias da igreja de São Benedito. Enfim, como diria o poeta itabirano, o meu amor por Teresina faísca na medula, agora em seus 165 anos, e para sempre, enquanto respirar. Daí viver repetindo, constantemente, os versos antológicos da dupla Aurélio Melo e Zé Rodrigues: “Apenas olho minha Teresina/ Como quem delira na beira do cais/ Ai, troca, quem troca, destroca/ Minha Teresina não troco jamais”.

(foto: Portal R10)

O Caneleiro e a Palavra

por José Vanderlei Carneiro (Filosofia/UFPI)

Este é um texto já escrito, como tantos outros. O que muda é somente a árvore, a leitura e o leitor. Começo, pois, pedindo desculpa aos senhores, pois com a idade avançada, o velho já não tem mais as condições necessárias de demarcar a fronteira entre a ficção e a realidade. Sua memória se alimenta de seus fragmentos infantis, uma mistura de lucidez e fantasia. Assim como encontrei no livro que “a vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia de ser como sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho”. Mas posso lhes assegurar que tudo que contarei, aqui, é verdade.

Não sou o velho profeta do filósofo contemporâneo, pois não vou à igreja e não tenho a lanterna, além de não ser um homem de pronúncia. Fico aqui debaixo do caneleiro escutando estórias e vendo o mundo passar. Este caneleiro é como o sertão do Guimarães, está em todo lugar. Podemos encontrá-lo próximo de tudo que existe: da igreja, do quartel, da universidade, da praça, da farmácia, da feira de roupas e de perfumes, do mercado, da rua asfaltada, da fazenda, do cabaré, do hospital ou do hospício.

Este lugar tem muitas serventias. O senhor que estuda, sabe, as coisas inúteis moram no silêncio de Deus. O caneleiro, este mesmo, serve como sombra para a pessoa fatigada respirar, para o bacana seu carro estacionar, para a moça se maquiar, para o homem almoçar, para a louca delirar, para o estudante se enganar, para o boêmio descansar, para o pássaro cantar, para o justo ordenar e para o guarda dormir. Enfim, como diz Drummond: “eta vida besta!”

Uma vez, estava aqui, como todos os dias úteis e inúteis da semana, no meu lugar de trabalho, com o cajado na mão, chega um doutor e me faz uma pergunta: – Senhor! O senhor acredita que toda palavra proferida é verdade? Respondi: – não sei. Eu não opero por meio da crença, pois já tive acesso a alguma leitura e minha consciência não tem tempo para alienação. Ela se nutre de suspeita. Tenho a desconfiança por princípio. Mas chega meu amigo Zé Grosso, homem que sabe muitas coisas, e diz: – não. Toda palavra dita não é verdade, a verdade está no uso que fazemos dela. E eu, indaguei: – como assim? A verdade para os senhores do saber é objeto de negociação, como as vestes do judeu que foi dividida em pedaços entre os operadores da lei. Fiquei pensando. A pergunta do doutor tem propósito de verdade, mas a minha resposta também. A intervenção do Zé só poderia ser a expressão da pragmática cultural. E, desse modo, então, o caneleiro se torna uma metáfora das nossas narrativas cotidianas.

Falando nisso, estamos vivendo tempos estranhos. Escutei aqui o homem culto comungando da mesma opinião do iletrado. Deve existir uma escola com o poder de formar homens e mulheres com leituras comuns sobre acontecimentos comuns. O caneleiro é, pois, o lugar da catarse moral, pois há um vazio que se alastra sobre vários problemas da convivência humana: justiça, economia, política, gênero, configuração social e educação, ou seja, tudo tem a mesma semelhança e intensidade, uma estilizada banalidade do bem coletivo.  São todos justos, honestos e verdadeiros com eles mesmos. Ou como dizia uma amiga mineira: “cada qual com seu cada qual”. Pois orientam suas obrigações e deveres públicos em torno do filho, da sogra, da amante, da mulher, do pai, do neto, da igreja, do bairrismo e dos amigos. Todos, menos eu, porque sou estrangeiro e velho.

Vocês leitores já devem estar concluindo, que este texto, de fato, deve ter sido escrito por um velho, por tornar o caneleiro numa espécie de pharmakon filosófico, descrevendo doenças da alma como se fosse o cotidiano da vida; receitando veneno para curar o ódio, pois quanto mais se aproxima da morte, mais necessitamos de amor. E disso sentimos falta, mas é falta que alimenta o desejo de viver.  Adélia Prado meditava na sua tarefa de provocadora do saber: “não quero a faca nem o queijo quero a fome. Afinar o espírito é, em última instância, ouvir os gemidos do mundo e produzir fome de conhecimento.  Portanto, continuo minha sina de escutador, com o cajado na mão, expondo como justeza da memória a infelicidade e como memória feliz o esquecimento. Então, e a Palavra? Continua.