Wellington Soares
Blog Title

Candidato, eu?

 

De dois em dois anos, a história se repete comigo: “você será candidato nesta eleição?”. Amigos, leitores, familiares, alunos e admiradores querendo uma resposta – de preferência positiva – para tal indagação. Mesmo sendo a política uma atividade nobre, sobretudo, quando exercida com ética, respondo categoricamente que não. Que estou bastante satisfeito em ser professor, além de eterno aprendiz de escritor. Mania absurda essa das pessoas acharem que, para ser feliz e realizado, temos de exercer um mandato parlamentar. Costumo agradecer a lembrança, bem como a manifestação de voto, mas digo ter outras utopias mais instigantes. Talvez queiram demonstrar apenas, quem sabe, o legítimo desejo de ver cara nova em nosso legislativo federal.  Mal sabem que, tendo vivido essa experiência em 1988, lançando-me a vereador de Teresina pelo PT, não gostaria de repeti-la novamente. Dentre outras, por duas simples razões: liseira para encarar as atuais campanhas milionárias e, acima de tudo, o medo de perder o pouco de privacidade que ainda me resta.

Uma lembrança nítida daquele pleito, guardada até hoje na memória, é a da pobreza franciscana com que encarei os eleitores: megafone, tamborete de madeira e uns santinhos com as propostas.  Sem grana sequer para alugar comitê, a estratégia foi abordá-los diretamente onde estivessem.  Portas de escolas e universidades eram locais perfeitos para soltar o verbo e, na medida do possível, plantar um tantinho de esperança. Sem falar também das paradas de ônibus e mercados públicos da periferia, plateias sempre atentas ao que o candidato tem a dizer. No fundo, verdadeira prova de fogo para quem pretende representá-los no parlamento, encarando-os de frente e ouvindo suas reivindicações. Triste do candidato que não passar, nesse corpo a corpo, bastante sinceridade, recebendo em troca uma constrangedora indiferença. Não ter ficado com débito, tampouco comprado voto de ninguém, deixou em mim uma sensação indescritível de leveza e alegria.

Outro fato que marcou a referida campanha, ainda fresca na cachola, aconteceu na entrada dos alunos do Helvídio Nunes, escola pública localizada na zona Norte da capital, bairro Marquês. Acabara eu de fazer o empolgado discurso, quando uma senhora humilde se aproximou de mim e, após um breve relato de sua penosa situação financeira, pediu uma casa para morar com o marido e os cinco filhos. Ao falar da impossibilidade de atendê-la, tanto por ser um simples professor quanto morar em casa alugada, ela sapecou um conselho dos mais pedagógicos: “gente lascada, seu moço, não deveria jamais se candidatar”. E sem interesse em ouvir meus argumentos, virou as costas e saiu atrás da sonhada moradia. Bendita e sábia senhora!

Toda essa conversa vem à tona não só por causa daquela convocação dos meus prováveis “leitores”, mas também por ter passado, tempos atrás, uma situação vexatória no HGV.  O constrangimento se deu quando levei um jovem que passava mal, na praça Pedro II, para o devido atendimento no hospital. Um gesto despretensioso de solidariedade ao próximo. Ao responder que não era parente nem o conhecia pessoalmente, ouvi de uma enfermeira a perversa insinuação de que essa “alma bondosa está querendo votos”. Desde esse episódio, tomo o maior cuidado em não deixar transparecer nenhuma pretensão em ser candidato a nada. Estou feliz assim, dando aulas e publicando livros. E metido, claro, em projetos culturais. Atividades que contribuem também, e como!, para o engrandecimento do nosso estado e do país.

Filosofia Dança!?

Por José Elielton de Sousa

 

Onde acaba uma coisa e começa outra? Qual o ponto de interseção entre dois universos? São os buracos que nos permitem transitar por entre realidades distintas? Determinar os limites da experiência humana parece um grande problema, senão ao menos uma arbitrariedade de certo campo sobre outro. O que diz um corpo dançando? O que não conseguimos perceber? Qual o sentido de um movimento quebrado? É possível captar tudo no conceito, como queria o filósofo alemão Hegel? Ou a vida mesma sempre nos escapa por alguma rachadura? Não seria propriamente certos objetos, atitudes, relações, disposições, certa estética do efêmero, aquilo que é próprio de uma filosofia viva, de uma vivência artística, como nos lembra acertadamente o filósofo, sociólogo e psicanalista brasileiro Daniel Lins? Não parece que existe mesmo uma instância primordial onde todos os olhares se entrecruzam e os limites se dissipam? Filosofia, ciência, arte, dança….

Não seria o corpo, em certo sentido, essa instância a partir da qual algumas fendas se abrem? Não estaria aqui os limites de certas filosofias que se ocupam justamente da eternidade (da alma, do conceito, da verdade)? Não seria a fragilidade do corpo, sua finitude, suas desmedidas, seus desequilíbrios, seus buracos, suas percepções afetivas, matéria para filosofia? E o conceito, o unidimensional, o movimento acabado, a constância, o entendimento, os limites da dança? A “bela forma” da dança, sua harmonia e perfeição, mata seu caráter perscrutador – a dança só é uma pergunta quando não faz sentido! Uma coreografia pronta é uma filosofia menos potente!

Se é na efemeridade, na fragilidade, no descontínuo, nas fendas, nos buracos, que filosofia e dança se tocam, o trouble maker-inventor-da-maldade-daimon não parece ser justamente aquilo que traz à tona nossos abismos internos? Nossos buracos existenciais? Nossos fragmentos infantis? Os arquétipos que nos determinam? Amor fati: nada desejar além daquilo que é – eis a bela provocação nietzschiana que a vida nos convida a experimentar. Ao invés da falta de sentido da existência, do medo de olhar o abismo, do apego desesperado ao conceito abstrato e desprovido de conteúdo, da barbárie que invade a porta, que tal uma dança?

Essa parece ser a provocação que o processo de criação “The Trouble Maker Series”, do coreógrafo piauiense Marcelo Evelin/Demolition Incorporada em pesquisa com o filósofo dinamarquês Jonas Schnor, nos convida a experimentar. Filosofia Dança: palco aberto ao imperceptível, à efemeridade das relações e dos sentidos, momento de edificação de significados silenciosos e de verdades corpóreas. Coreógrafo como filósofo – dança como interrogação!

 

 

Marielle Franco

Foram quatro tiros certeiros, todos na cabeça, disparados quase à queima-roupa, que tiraram a vida de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, eleita com 46. 502 votos no último pleito, 2016, em pleno cumprimento de seu primeiro mandato parlamentar, colocado a serviço, desde o início, das camadas pobres das periferias, sem falar também da defesa intransigente dos direitos humanos, infelizmente entendido, por fascistas e ignorantes, como proteção a bandidos, quando põe em prática, na realidade, resolução tomada pela ONU em 1948, que garante aos seres humanos em geral, independente de qualquer coisa, direitos fundamentais de cidadania e vida digna, mas os que a mataram fria e covardemente, obedecendo ordem superior, gente de costas largas, não ligavam a mínima pra esses aspectos, afinal quem “defende” criminoso, segundo pensam, merece morrer também, daí os quatro disparos na cabeça, sem dó nem piedade, talvez um aviso pra quem ainda se meter à besta, sobretudo, parlamentares esquerdistas e lideranças populares e sindicais, que teimam em ficar ao lado da escória social, pois arrego não terão daqui pra frente, ainda mais se o grande líder deles, matador convicto, com aval da grande mídia e judiciário, levar a melhor na campanha presidencial, outubro próximo, e nomear generais pra  maioria dos ministérios, bem como aprovar no Congresso, finalmente, sob o patrocínio da indústria bélica e das bancadas evangélica e da bala, a liberação do porte de arma,  aí sim, senhores e senhoras, a matança vai correr solta, com ricaços e classe média exultando de alegria,  vestidos de verde e amarelo outra vez, as cores da seleção Canarinho, e tomando ruas e praças a fim de bebemorar o novo Brasil, branco e elitista, capaz de colocar a raia-miúda no seu devido lugar, onde já se viu, indagam os assassinos e seus mandantes, ralé andar de avião, transformando aeroportos em rodoviárias fétidas, ou, o que é pior, frequentando praias da zona Sul, bonitas por natureza e abençoadas por Deus, hoje transformadas em piscinões de negros e putas, que escutem direitinho o aviso dado pela extrema-direita, com a execução da Marielle, quatro tiros na cabeça, de um total de nove disparados, pouco importando, caso queiram saber, se três levaram Anderson Gomes, motorista da vereadora e rapaz humilde, tampouco ligam, acreditem, pra enorme repercussão dentro e fora do país, lisonjeados mais com os apoios recebidos nas redes sociais, até de desembargadora, deputados, jornalistas, professores e delegados, uma legião de imbecis que adora beber o sangue, de preferência em quantidade, de pobres, negros, mulheres, gays e bandidos, embora digam ser cristãs e pessoas do bem, porque pra elas, gritam em voz alta e batendo no peito, que mal existe em tirar a vida de uma militante do Psol, useira e vezeira em plantar ideias de igualdade e de direitos nas favelas do Rio, lixando pro fato da vítima ser jovem demais pra morrer, 38 anos apenas, mãe dedicada e amorosa, formada em sociologia (PUC/RJ) e mestra em Administração Pública (UFF), tendo conquistado tudo, inclusive o mandato de vereadora, com muito esforço e determinação, podendo alçar voos maiores no futuro, lamentavelmente interrompidos, quarta-feira passada (14), às 21h07, rua Joaquim Palhares, no Estácio, por uma rajada de pistola 9mm, um segundo de nada e, com barulho forte e rápido, vários tá, tá, tá, tá, pondo em questionamento o sentido da intervenção militar na cidade: segurança pra valer ou jogada de marketing eleitoral?

Sertão é dentro da gente

 

      Nestes dias chuvosos lembrei, deitado numa rede aconchegante, da bela história de amor, infelizmente não concretizada, entre Riobaldo e Diadorim, protagonistas de Grande Sertão: Veredas, romance de Guimarães Rosa. Narrativa que desponta, sem dúvida, como meu alumbramento maior em termos literários. O impacto da leitura foi tamanho que faltou ar para respirar, além de deixar em mim atroz sentimento de culpa por não ter degustado a obra antes. Explico: tive a grata sensação de encontrar num só livro todos os outros já lidos, tanto do ponto de vista da variedade temática quanto da profundidade de enfoque. Algumas frases garimpadas ao longo do texto, nas suas mais de 500 páginas, nos permitem dimensionar a grandeza desse enredo.

        “Quem muito se evita, se convive.”

        “Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso.”

        “É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é…”

        “Diverjo de todo o mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

        “Todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura.”

        “Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo.”

        “Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque merece e carece.”

        “Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal…”

        “O senhor sabe: há coisas de medonhas demais, tem. Dor do corpo e dor da ideia marcam forte, tão forte, tão forte como o todo amor e raiva de ódio.”

        Das genialidades do escritor de Cordisburgo, cidadezinha do interior de Minas, gosto mesmo é da linguagem esquisita, organizada a seu modo, demonstrando a riqueza de nossa língua, liberta dos padrões asfixiantes da norma culta. As palavras assumindo outras possibilidades, provocando estranheza num primeiro momento, mas nos deliciando em seguida. Poesia e musicalidade em prosa refinada, como se pode constatar noutras passagens do romance.

        “O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.”

        “Remei vida solta. Sertão: estes seus vazios.”

        “O senhor vá pondo seu perceber. A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho.”

        “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

        “Ser chefe – por fora um pouquinho amarga; mas, por dentro, é rosinhas flores.”

        “Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!”

        “Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais.”

        “Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.”

        “Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar.”

        “Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. Que alarga o mundo e põe a criatura solta. Medo agarra a gente é pelo enraizado.”

        “Viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na face dos olhos.”

        Garanto que não há prazer maior que tirar um final de semana, notadamente neste comecinho ainda de ano, entre o Carnaval e a Semana Santa, para refletir sobre o intrincado e complexo jogo da vida. As tiradas filosóficas do mestre Guimarães Rosa nos proporcionam luz nesta travessia existencial nem sempre clara. Daí valer a pena substituir a indigesta programação televisiva aos domingos, com cada programa pior que o outro, pela mais fascinante história literária já escrita até hoje. Afirmo sem medo de decepcionar meus leitores.

        “Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.”

        “Homem foi feito para o sozinho? Foi.

        “Sertão: é dentro da gente.”

        “Viver é muito perigoso.”

         “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”

        “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

        “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

        “O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza!

Como já dizia Odair

É preciso dizer o quanto essa entrevista do João Moreira Salles foi transformadora para mim. A Caravana Piauí, aliás, como um todo, passou por aqui deixando em mim aquela sensação que eu só sentia nos congressos – a vontade de que cada minuto, de tão intenso, fosse eterno. Mas nada vai permanecer no estado em que está.

Durante tanto tempo eu encarei a vida com uma visão determinista – o que é irônico se pensarmos que a única certeza que se tem diz respeito ao estado inacabado das coisas. Por que evitar a vida em todas as suas possibilidades, inconstâncias e incertezas se é ela uma experiência tão única e passageira? Tempo, tempo, tempo, tempo: és um dos deuses mais lindos.

Eu estava lá, ao lado do João, enquanto ele falava com serenidade e sabedoria sobre os instantes, os intensos e as paixões. O que, afinal, te sobra além das coisas casuais? “O intenso passa”, dizia ele. E é fácil encontrar sentido quando a vida tá a volume máximo. O duro, continuava, é inventar maneiras de ser feliz na vida cotidiana. “No Intenso Agora é sobre isso: sobre a alegria, a perda da alegria e o que se deve fazer para recuperá-la”.

Eu ouvia essas coisas de João com um leve sorrisinho e inquietude: estaria eu vivendo o meu intenso? Quando eu vou saber se o meu intenso ainda está por vir ou, quem sabe, já passou?

Só quem sabe o que é a perda inesperada da alegria pode entender o desespero que se passa para tentar reencontrá-la. Ressignificar. Revisar. Recontar – estive pensando sobre como falar é também uma forma de reviver, e mudar o modo de narrar (como um editor da própria vida) é crucial para alterar a importância que damos as coisas. Transformar o tema antes principal em mera nota explicativa ali no rodapé.

Eu não sei se o meu intenso é agora, nem o quanto de tempo ele pode durar – talvez passe como um furacão, talvez venha tão de leve que nem desperte, no momento, uma emoção. A diferença é só minha consciência de que uma hora, eu sei, ele vai acabar. E é um alento perceber, no fundo de nós, toda a graça existente em se reinventar.