Sergia A.
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As mulheres desenharão portas

 

 

Para as mulheres que me abrigaram
e me guiaram nesta imersão

Os tambores e blocos já estavam nas ruas da capital quando tomei um ônibus e atravessei a noite rumo a um lugar encantado. Natureza repleta de mistérios protegidos por rochas e mãos femininas. Eram cinco horas da manhã quando uma delas, sonolenta ainda, abriu o portão em meio aos latidos do cachorro que lhe garante a segurança. Um abraço acolhedor e uma cama macia, vedação perfeita da janela para garantir o escurinho a um sono reparador. O bom dia, sem cansaço, viria depois em torno de uma mesa na varanda em que vozes femininas me levavam a experimentar o frescor do umbu.

Café com pão quentinho. O cuscuz e o requeijão Cardoso nos aproximando em um primeiro contato para as decisões do dia. O Museu do Homem Americano logo ali no virar da estrada que faz vezes de avenida. Sentei-me diante daquela tela enorme como se fosse a primeira vez. Novamente o espanto por cada uma das descobertas que a valentia daquelas mulheres registrou durante quase cinquenta anos. Chorei pela grandeza do entendimento, em mentes jovens ainda, de que aquilo tudo pedia um estudo interdisciplinar e só teria valor se envolvesse a comunidade e se mostrasse ao mundo. Chorei pelas histórias que não se registram em museus, laboratórios ou artigos científicos mas são contadas pelos rostos felizes dos que frequentaram as escolas montadas por elas, se profissionalizaram e hoje estão nas universidades, nos museus, na própria Fundação do Homem Americano, no Parque, ou como guias turísticos.

Outro caminho. No percurso a memória indicando a direção. Elas tecem histórias do tempo em que não havia estradas dentro do parque. Sim, é preciso lembrar que o espaço deste enredo nasceu como Parque Ambiental demarcado depois de uma longa gestação dessas mulheres que o geraram, alimentaram, cuidaram e o viram o crescer. Nasceu da insistência, da persistência e da resistência de uma protagonista que agora exibe a fala mansa das mulheres sábias cujos anos e adversidades não as afastaram de suas essências.

Os relatos são cheios de graça e guardam semelhança aos dos caçadores que elas combatiam com o intuito de educar para a preservação. Com a diferença de que elas buscavam compreender a vida, eles a subsistência que os levaria à morte. Homens sabiamente conquistados para que não se perdesse o conhecimento da região, e se mantivesse a necessária ajuda para andar por quilômetros abrindo trilhas, carregando consigo instrumentos e alimento. Escavar rochas por um dia inteiro, armar redes nos galhos mais altos, dormir ao relento vendo o céu da caatinga se derramar sobre os sonhos, enquanto animais alertas rastejavam e se punham à espreita. Pequenas histórias que permeiam o rigor científico que edificou uma História a partir dos vestígios coletados por arqueólogas, biólogas, paleontólogas, ambientalistas e tantas outras profissionais residentes ou de passagem que, juntas, davam vida nova às pinturas rupestres, aos fósseis e outros elementos como o carvão de origem antrópica protegido sobre base rochosa por cem mil anos.

Entre uma risada e outra o acesso a detalhes da reconstrução da nossa pré-história a partir dos fragmentos que não passaram despercebidos por olhares dotados de aguda intuição. Nos estudos geológicos dos paredões a compreensão de que ali se revelava não apenas a reviravolta sobre a presença humana nas Américas, mas o processo de formação do lugar. Assim como a história da fauna a nos dizer: o bicho-homem é apenas mais um na longa existência da Terra. É isso que repete a moderna instalação do Museu da Natureza. Um espaço lúdico em que os visitantes são chamados a mergulhar em um buraco negro, brincar nas ondas de um mar primitivo, deixar-se encantar com a simulação da era do gelo, acompanhar o desfile dos animais diante dos seus fósseis, alçar um voo de asa delta sobre a imensidão do Parque sem sair do lugar.

Hora de pôr os pés no chão e voltar à realidade do nosso tempo pela observação da delicada montagem dos esqueletos de animais ali encontrados. Para o cansaço que chega, inevitavelmente, o remédio é relaxar o corpo e olhar para o teto. Permitir que a voz de Betânia preencha todas as lacunas que, por acaso, escaparam à compreensão da razão de estarmos ali.

O dia perfeito findaria com a visão do entardecer sobre os paredões que cercam a saída do museu. Contudo, a alguns quilômetros dali uma mesa disposta com belas cerâmicas produzidas no local se montava com carinho. O vinho e as vozes femininas costurando retalhos do ontem e do hoje, montando bastidores para o amanhã. Pontos cheios de cores que me trazem as palavras de Clarissa Pinkola, em Mulheres que correm com os lobos, que eu tomo de empréstimo para dar título a este texto. Não poderiam ser outras.

As paredes contam que mãos masculinas se aliaram nesta jornada e suas contribuições foram recebidas de bom grado, com o devido reconhecimento.  Fossem eles pesquisadores europeus ou gente simples do lugar. No entanto, foram elas que desenharam e, por inspiração, outras gerações continuam desenhando portas no escuro. Do outro lado, a luz.

 

 

 

Figura única

 

Sábado passado não foi um dia bom pra mim. Além de acordar gripado, sem ânimo pra nada, exceto dormir, recebi a triste notícia da morte de uma pessoa querida: Jorge Salomão, poeta baiano radicado no Rio desde 1969, que, depois de um infarto em fevereiro e três pontes de safena, resolveu se encantar em plena véspera do Dia Internacional da Mulher, no hospital Miguel Couto, aos 73 anos de idade. De imediato, lembrei alguns versos de Pseudo-blues, uma linda canção na voz de Marina Lima, com letra de autoria do filho de Jequié: “Dentro de cada um/ Tem mais mistérios do que pensa o outro/ Uma louca paixão avassala a alma o mais que pode/ O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta/ De vez em quando acerto, depois tropeço no meio da linha”. Justamente quando ele, artista multifacetado, vivia uma das melhores fases da vida, com o lançamento da obra 7 em 1, coletânea de livros já publicados, e o álbum Poética, a ser lançado ainda este ano pelo Sesc-SP.

Nossa convivência, infelizmente, se resumiu a dois encontros. Um tantinho de nada em termos de quantidade, porém marcante do ponto de vista estético e afeto humano. O primeiro, em Teresina, setembro de 2016, na Casa da Cultura, reunindo escritores de várias gerações.  O segundo ocorreu no Rio, em novembro de 2019, final do show da cantora piauiense Patrícia Mellodi, no Teatro Rival. Em ambos, a conversa girou em torno da cultura brasileira atual – seus desafios, conflitos e estratégias de resistência em tempos de ódio. Sempre com muito humor e boas gargalhadas, ele que era a inquietude e a irreverência por natureza, como podemos constatar ao dizer que em “todas as manhãs/ grito por viver/ clamo ao sol por mais justiça/ abro o leque da solidariedade/ todas as manhãs/ sou mais eu/ sendo mais justo/ em todas as medidas/ todas as manhãs/ danço minhas manhas/ abrindo as manhãs.”

Após o show da Patrícia, que nos deixou comovidos pro diabo, seguimos todos prum barzinho em Botafogo, onde fomos bebemorar a boa música,  comer algo pra espantar a fome,  tomar chopp gelado, jogar conversa fora e, barulhentos e felizes, celebrar a amizade que dá sentido a vida. Dos presentes, Jorge Salomão era, disparado, o mais alegre de todos, distribuindo simpatia indistintamente. Sua performance poética durante o espetáculo, em dobradinha com o talentoso Christovam de Chevalier, fora sensacional, sendo ovacionado pela plateia. Além de poeta, Jorge se destacou também como artista visual, diretor teatral e compositor, tendo sido parceiro de grandes nomes da MPB: Zizi Possi, Cássia Eller, Frejat, Marina Lima, Adriana Calcanhoto e Nico Rezende, entre outros.

Figura carismática, que seduzia os que atravessavam seu caminho, pouco importando convivência diária ou encontros fortuitos apenas, Jorge Dias Salomão estreou na literatura com Mosaical, em 1996, cujo título desnuda a velha polêmica entre poesia e letra de música. Depois vieram O olho do tempoCampo da amerikaSonoroA estrada do pensamentoConversa de mosquito e Alguns poemas e + alguns, sua última publicação de inéditos, reunindo poesias pra serem lidas em voz alta, como ele gostava tanto de fazer. Por iniciativa da Gryphus Editora, veio à tona ano passado o conjunto da obra num só volume, batizado por ele de 7 em 1, disponibilizando ao leitor um acervo de livros já esgotado nas livrarias. Para Caetano Veloso, seu conterrâneo era uma figura única, de quem gostava pelo humor e, sobretudo, pelo radical brilho em não se adequar a convenções. Salve, Jorge

Memórias do Zé

 

O sol já despontava no topo do Gurupi, bairro próximo à ladeira do Uruguai, quando concluí as Memórias do Zé / Volume I, um calhamaço de 496 páginas. Na realidade, sua pra lá de instigante autobiografia, escrita ainda na prisão, detalhando uma fascinante trajetória de vida que mais parece um roteiro de filme – desde a militância estudantil nos anos 1960, que rendeu prisão e exílio, até sua luta atual, fora das grades, em recolocar o Brasil nos trilhos da democracia outra vez. Embora cismado com esse tipo de livro, marcado geralmente pelo cabotinismo, gostei ao perceber que o Zé, diferente dos outros, assume qualidades e defeitos, apresentando-se como uma pessoa normal – sem encarnar o estereótipo de herói nem mito Além de afirmar, sem meias palavras, que “não estou escrevendo para o passado, mas para o futuro, para as próximas gerações, para aqueles que ainda estão no meio do caminho.” Ao invés de fanfarronices, o leitor aprecia mesmo, cá entre nós, é de relatos pautados na verdade, rabiscados “com o coração e a alma”, deixando o autor completamente nu, visto indistintamente pelos dessemelhantes: criança e adultos. Mas de que Zé você está falando? Do Zé Dirceu, cara pálida, ex-presidente nacional do PT e ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula. Um mineiro de Passa Quatro, interior de Minas Gerais, de família humilde e religiosa, daí a origem do nome bíblico José, que ao migrar pra São Paulo – “Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas” – ganha consciência política, em plena ditadura, ao ingressar na Faculdade de Direito da PUC e participar das mobilizações da UNE, embalado pelo sonho juvenil de revolucionar Pindorama sob todos os aspectos imagináveis. No turbilhão da época, depois vieram, baixado o AI-5, com o fechamento de todas as portas, a opção pela luta armada e a prisão, exílio em Cuba ao ser trocado pelo embaixador norte-americano, treinamento pra ser guerrilheiro na ilha de Fidel, o retorno clandestino ao Brasil (de rosto mudado após cirurgia plástica), casamento com Clara Becker (com quem teve o filho Zeca) em Cruzeiro do Oeste, no Paraná. Com a anistia de 1979, desaparece o Carlos Henrique Gouveia de Mello, pseudônimo adotado pra escapar da repressão, e reassume sua verdadeira identidade o José Dirceu de Oliveira e Silva, filho de Castorino de Oliveira e Silva e Olga Guedes. A partir daí a trajetória do Zé Dirceu, como passou a ser chamado, é mais ou menos conhecida dos brasileiros, toda ela ligada ao Partido dos Trabalhadores: ajuda a fundar o PT em 1980, deputado estadual e federal do partido por São Paulo, presidente nacional da sigla e estrategista da chegada do Lula ao governo federal: “Assinei a ata de fundação com o sentimento de que acabava de readquirir meus direitos políticos e minha nacionalidade que a ditadura roubara. O PT entrou em minha vida para não mais sair.” Antes que alguém pergunte, Zé também fala sobre o escândalo do “Mensalão”, da cassação do mandato pelo Conselho de Ética da Câmara Federal, da condenação pela Lava-Jato, dos momentos solitários no Presídio da Papuda, em Brasília, e da incansável labuta em provar sua inocência das várias acusações. E das mulheres e amores, ele não menciona nadinha de nada? Claro que sim, uai, como figura sedutora que sempre foi em relação ao sexo feminino. Deixando o preconceito ideológico de lado, convido você, leitor(a), a mergulhar numa história do Brasil envolvente e contada por um dos quadros mais brilhantes da esquerda nacional. Feliz da vida e saboreando um novo dia, que nasce repleto de aprendizagens, dialogo com meus botões: que venha agora, sem muito tardar, as Memórias do Zé Dirceu – Volume II

Oscar 2020

 

A expectativa era grande no domingo retrasado, quando da entrega do Oscar 2020, em torno de Democracia em vertigem, filme brasileiro que concorria à estatueta de Melhor Documentário. O coração agitado, quase saltando do peito, na maior torcida para que, finalmente, trouxéssemos o cobiçado prêmio do cinema mundial. Um sonho acalentado por cineastas e atores brasileiros de várias gerações, tendo início em 1945, ao disputar Melhor Canção Original, com a música Rio de Janeiro, do lendário Ary Barroso, tema do filme norte-americano Brazil. Embora não tenha ganho, Petra Costa fez bonito no Teatro Dolby, em Los Angeles, na Califórnia, tanto pela marcante presença na cerimônia, trajando um belo vestido vermelho, quanto por denunciar, de forma sensível e contundente, o golpe parlamentar que tirou Dilma Rousseff da presidência da República e, depois de prender injustamente e tornar inelegível Lula,  possibilitou que a extrema-direita chegasse ao poder.

O primeiro brinde foi pra vitória de Renée Zellweger, norte-americana que, merecidamente, levou o Oscar de Melhor Atriz pela atuação grandiosa no filme Judy: muito além do arco-íris, ao encarnar a estrela do cinema americano Judy Garland, mãe de Liza Minnelli, no último ano de sua vida tão conturbada, já em pleno declínio da carreira musical, quando é obrigada a mudar para Londres devido questões financeiras e a guarda dos filhos. Não bastasse tudo isso, ainda tinha o problema de alcoolismo, que a levava a chegar atrasada e cair nos shows; e, a exemplo de outras divas, as decepções amorosas. Filme que nos deixa, como diria Drummond, comovidos pro diabo frente ao impactante desempenho de Renée Zellweger. Com este, ela soma dois Orcars, o primeiro conquistado em 2003, de Melhor Atriz Coadjuvante, no drama Cold Mountain. Sem falar de quatro Globos de Ouro, dois BAFTAs e quatro SAG Awards.

Quem mereceu a outra taça de vinho foi, sem páreo na disputa, o talentosíssimo Joaquin Phoenix, porto-riquenho que arrebatou o Oscar de Melhor Ator por interpretar, magistralmente, um dos grandes vilões de histórias em quadrinhos (DC Comics) – Joker, batizado de Coringa no Brasil, ambos significando palhaço. Sua atuação é tão impecável, sob todos os aspectos, que o personagem Arthur Fleck, cuja história de abuso o torna um criminoso niilista, vira símbolo de redenção para os marginalizados de Gotham City. E agora com o filme e o Oscar não se transforme também, quem sabe, em esperança aos milhões de deserdados pelo capitalismo mundial. Phoenix já havia me impressionado bastante, como ator genial, em Gladiador, no qual faz o papel do diabólico Cômodo que, pra chegar ao poder, mata o pai, o imperador Marco Aurélio, e persegue implacavelmente Máximus, general preferido pelo seu predecessor ao trono de Roma.

Mesmo pego de surpresa com a premiação de Parasita, que levou o Oscar de Melhor Filme, não deixei de saborear mais uma taça de Casa Valduga, vinho tinto produzido na Serra Gaúcha. Primeiro, por não ter visto o filme sul-coreano. Depois, ser torcedor de O Irlandês, do mestre Scorsese, sobre a velha temática da máfia e reunindo elenco de primeira: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci e Harvey Keitel. O deslumbramento não poderia ter sido melhor, “na vida de minhas retinas tão fatigadas”, ao presenciar um cineasta jovem, Bong Joon-Ho, trazer à tona o problemão da desigualdade social de forma realista e bem-humorada, que não atacado com seriedade vai explodir em pouco tempo – afinal, ninguém nasceu pra viver como rato, a exemplo de Ki-Taek e seus familiares, enquanto uma minoria esbanja riqueza e luxo, representada pelos Park, família de classe média alta. De tão bom, mereceu ainda mais três Oscars: Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Estrangeiro. Que tal conhecermos outros trabalhos do criativo Joon-Ho, tais como Memória de um assassino, O hospedeiro e Expresso do amanhã?

Carnaval da abstinência (Se você fosse sincera)

 

Estou retornando de uma viagem no tempo e tenho uma longa história para contar. Ando meio tonta desde que me jogaram neste trem desgovernado rumo à Idade das trevas (que por aqui nem sequer existiu, né?), por isso vamos com calma. O caso é que ouvi uma marchinha de carnaval antes de dormir e acordei com Alice no pensamento. Não, não se trata da personagem de Lewis Carroll, mas de uma menina que eu conheci. Teria sido um sonho? Não sei. Deixo para a imaginação de vocês.

Estudávamos na mesma escola e Alice tinha um ano a mais que eu. Isso fazia uma enorme diferença para crianças ansiosas por crescer. Ainda mais quando a beleza dela começou a se salientar na roupa, no trato do longo cabelo domado pela trama das tranças e fitas coloridas, no tom bronzeado da pele sem espinhas. Sim, Alice era “beleza pura”, era “de se olhar”.

Alice não sangrou antes de nós, eu lembro. Suas regras demoraram a descer. A novidade corria solta entre as meninas quando chegava a vez de cada uma. Apesar disso, seu corpo muito cedo deu outros sinais hormonais. Muito antes de nós, os seios empinaram e as penugens cobriram as partes secretas. Muito cedo também ela descobriu que aquilo despertava o interesse dos meninos da sua idade. Contaram que certa vez os viram em fila no fundo da quadra de esportes apelando por uma chance de ver o que o botão, entreaberto, da blusa mostrava.

Enquanto descobria o fascínio que seu corpo em revolução exercia sobre os meninos, Alice também observava as reações incontroláveis no corpo dos meninos. Nunca acreditei muito neste boato. Talvez porque meu corpo ainda tão reto e sem graça não me permitisse verbalizar aquilo, mesmo quando ficamos sabendo da surra que levou do pai, e da penitência: missa todos os dias, com  pai-nosso e vinte ave-marias, de joelhos, ao fim de cada celebração. Nós todas saíamos e ela ficava com a freira a lhe vigiar. Os meninos não foram castigados. A curiosidade masculina era coisa da idade. Também foi por esse tempo que se intensificaram as leituras sobre a vida das santas, virgens, mártires, que escolheram a morte diante do risco de terem seus corpos profanados. Era preciso fortalecer o conceito de abstinência como prevenção contra um mundo desregrado.

Reencontrei Alice em outro colégio em outra cidade. Por esse tempo ela já era mulher feita e muito mais linda. Ela mesma me contou que a tal penitência veio pela sua ingenuidade em confessar para uma professora aquilo que ela nem sabia ser pecado. Só queria entender o que estava acontecendo com o seu corpo. Se era normal sentir aqueles arrepios quando os meninos invadiam seu corpo com o olhar.   Penso que poderiam ter tomado o fácil caminho da biologia, esclarecendo que um corpo adolescente naturalmente se prepara para a reprodução. Um processo que tem o desejo como exigência. Mas havia a sombra do medo pairando sobre o caminho. Disseram-lhe que era coisa do demônio que se apossava do corpo de algumas mulheres para provocar os homens e levá-las para o mau caminho. Aula sobre sexualidade humana, prazer, concepção, proteção… nem pensar. Isso poderia despertar os mais ingênuos, como se cada um já não vivesse os mesmos suspiros nas suas intimidades de corpos tímidos. Era mais confortável para os adultos se abster sobre o assunto, impondo a privação do conhecimento e da consciência sobre si mesmo.

Àquela altura Alice já estava convencida de que seu corpo delgado, de pernas alongadas, cintura marcada, bumbum empinado e os seios mais firmes e arredondados que uma mulher poderia desejar, de fato tinha sabor de pecado. A prova? o brilho nos olhos.  Depois, tinha o carnaval. Tinha seu pai e amigos (aqueles homens da Igreja) no meio do salão fazendo coro: “linda morena/ morena que me faz penar/ a lua cheia que tanto brilha/ não brilha tanto quanto o teu olhar”. Depois do carnaval vinham os dias calmos em que eles repetiam ao violão em noite de lua: “Esse corpo moreno/Cheiroso e gostoso/ Que você tem/É um corpo delgado/Da cor do pecado/Que faz tão bem”.

Hoje poderíamos considerar abuso o que aconteceu (se é que aconteceu) na quadra da escola entre meninos em plena puberdade. Contudo, o pior estava por vir. Ela ainda não tinha dezessete anos quando passou a ser assediada (cantada, dirão alguns homens) no caminho de casa, por um moço elegante. Um moço de família. Daqueles que moravam em “apartamento com porteiro e elevador”, e mantinham ao seu lado uma mulher sincera e merecedora do título de “madame antes do nome”. Em seguida vieram as flores, os presentes, as roupas caras.  Já no fim do ensino médio, quando o garoto mais fofo da escola se apaixonou perdidamente por ela, tragicamente ela disse não. Mesmo com toda a insistência da família que já tinha se afeiçoado ao menino bacana que volta e meia batia na sua porta para lhe dar aulas de matemática, inglês, português. Alice gostava dele de um jeito especial, mas já era muito tarde. Seu corpo não o merecia. Como confessar a ele os seus pecados?

O garoto fofo e eu seguimos para a mesma faculdade. Um dia ele me pediu o ombro para deitar o seu infortúnio. Foi quando uma amiga dos tempos de escola comentou que atendera no seu plantão de estágio uma jovem em estado avançado de infecção. Muito provavelmente em decorrência de um aborto clandestino. As fofocas chegaram rapidinho para contar que ela engravidara e recebera do namorado a clássica saída: homens não assumem uma criança sem ter certeza de ser o pai. Afinal o seu belo corpo já não era virgem quando se conheceram e isso era prova de que ela não era uma mulher sincera.

Vejam bem, não estou falando do século XVIII. Era início dos anos oitenta do século XX. Embora as feministas estivessem nas ruas na década anterior e já conhecessem a pílula, as solteiras não tinham acesso aos programas de saúde para mulheres, nada sabiam sobre a AIDS, os homens achavam a camisinha brochante, o teste de DNA ainda não estava disponível e aborto era crime.

Fomos juntos ao enterro da nossa bela Alice, cujo desespero escolheu o caminho da morte. Não houve benção para um corpo portador de múltiplos pecados. Nós, as sinceras, a abençoamos cheias de remorso. Algo nos dizia que aquela pálida beleza estendida entre rosas podia ser qualquer uma de nós, se fôssemos espontâneas e sinceras como Alice foi. Melhor dizendo, ali estava um pouco de cada uma de nós que fomos treinadas para não sentir ou silenciar o que sentimos.

Talvez eu não estivesse aqui precisando contar essa história triste e anacrônica (?), se o demônio e o deus punitivo não tivessem saltado dos púlpitos e livros sagrados para se inserirem nos assuntos em que as ciências naturais e humanas já explicam há muito tempo, abrindo alas para que as pessoas possam fazer escolhas e viver plenamente.