Wellington Soares
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ROGÉRIO NEWTON: Fazemos literatura à procura de sentido para a vida

ENTREVISTA Por Wellington Soares, professor e escritor

Rogério Newton, ao centro, entre J L Rocha do Nascimento e Wellington Soares

Quando me indagam quem eu gostaria de ser ao crescer, minha resposta é imediata: Rogério Newton. Sem titubear, na bucha. Quer saber a razão? Simples, pois ele reúne tudo o que gostaria de encarnar: filho de Oeiras, cronista dos melhores, poeta, defensor público, romancista, praticante de iôga, contista, vegetariano, mestre em Direitos Humanos, um cara legal, ligado ao Teatro do Oprimido, ambientalista, nascido na Rua das Portas Verdes, democrata convicto, amante da cultura e, acima de tudo, a leveza em pessoa.

Mas é como escritor multifacetado, jogando um bolaço em todos os gêneros, que minha admiração por ele só aumenta. Na crônica literária, sobretudo, na qual desponta como biscoito fino para deleite dos leitores. O cotidiano, as memórias, os amores, a natureza fluindo sob o olhar sensível de um autêntico poeta da vida e da linguagem. Daqueles que tocam fundo a alma da gente, como podemos aferir nos livros Ruínas da memóriaConversa escrita n’água e Grão, entre outros.

Rogério fez parte de uma geração cultural, batizada de Pós-69, que deu uma boa chacoalhada no cenário artístico de Teresina. Não só lançando revista, organizando exposições e saraus, mas dando umas cutucadas na ditadura militar, na falta de liberdade e na censura vigentes no Brasil da época. E o mais importante, passado batido pela nossa crítica, o surgimento de três grandes nomes da contemporânea literatura piauiense: ele, na crônica; Paulo Machado, na poesia; e, fechando o trio, Aírton Sampaio, no conto.

Embora tenha saído de Oeiras na adolescência, constatamos que nossa primeira capital, desde a arquitetura colonial/imperial aos banhos no riacho Mocha, passando pelos becos/ruas/casarões até as procissões religiosas, nunca saiu dele e da sua obra. Como uma paráfrase, fincada no coração, dos antológicos versos de Carlos Drummond: “Oeiras é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!”.

No fundo, será uma alegria degustar esta conversa, muito instigante, a fim de compartilhar o sentido da vida, mesmo um tantinho apenas, que os textos de Rogério Newton têm descortinado ao longo dos anos – inclusive escrevendo em Revestrés desde a nossa primeira edição. Terá ele conseguido?

Que acha do que disse Aldous Huxley, escritor inglês, sobre “a memória de todo homem é sua literatura particular”?

É uma frase bonita. Os escritores gostam de fazer frases assim. Mas parece que ele tem razão: é difícil imaginar uma literatura ou a vida mesmo sem memória, que parece um reservatório misterioso de coisas guardadas, boas e ruins, sábias e tolas. O escritor recorre à memória para escrever, mesmo que ele crie uma obra ficcional. Mas aí ele fatalmente tem que fazer uma seleção do que está armazenado na memória para criar o que quer que seja. Por isso, a literatura é uma construção, ou como diria meu amigo Paulo Machado: literatura é reconstrução. E aí reside o mistério. Penso que toda pessoa humana faz sua própria “literatura particular”, à procura de sentido. Todos nós estamos procurando sentido para a vida. Mesmo numa conversa de botequim alguém estará procurando (re)construir alguma coisa. Agora, há perigos como o esquecimento e o desprezo para com a memória. Por exemplo, há pessoas que defendem a volta da ditadura no Brasil. Pessoas sensatas não fazem isso. Millôr Fernandes é autor de uma máxima que diz mais ou menos o seguinte: o futuro é o passado usado. Há algo mais desanimador do que isso? A memória é dádiva preciosa. O mais importante é usá-la adequadamente para que resulte em coisas potentes e benéficas para a humanidade.

Todos nós estamos procurando sentido para a vida. Mesmo numa conversa de botequim alguém estará procurando (re)construir alguma coisa.

De que maneira ser filho de Oeiras, nossa primeira capital, impacta sua vida e obra?

O. G. Rego de Carvalho disse uma vez que não seria escritor se não tivesse nascido em Oeiras. Não chego a tanto, mas acho que a cidade contribuiu muito para eu ser escritor. Em primeiro lugar, Oeiras tem uma atmosfera sugestiva. Refiro-me à sua arquitetura, colonial e imperial, de ruas, becos, casarões, largos em um relevo que não é plano. A cidade histórica vista, por exemplo, do Rosário e do Morro da Sociedade, oferece imagens de telhados e quintais. Cada ângulo de visão tem um recorte diferente. A primeira impressão talvez leve a um impulso lírico – e os autores da cidade enveredam muito por esse gênero. Mas tudo também reivindica incursões épicas, que considero escassas. Por que os autores preferem o lírico e não o épico? Por outro lado, além da arquitetura histórica, Oeiras possui múltiplas memórias, a partir das quais pode-se (re)construir muita coisa não só no campo da arte, da poesia e da literatura, mas também da história, da geografia, da sociologia, das etnias, da vida social etc. Matéria-prima é que não falta.

A influência de Oeiras na minha vida deve-se muito ao fato de eu ter vivido a infância toda lá e uma parte da adolescência. A casa onde eu e nove dos meus irmãos nascemos ficava de porta e janelas abertas durante o dia. Não havia um limite rígido entre a casa e a rua. Facilmente, eu saía para jogar bola, tomar banho no riacho ou simplesmente perambular por lugares, como a feira, que achava fascinante. Os primeiros violeiros eu vi na feira. A miséria e a fartura e muitas outras coisas misturadas, como as tropas de jumentos que carregavam gêneros alimentícios, provenientes das pequenas propriedades familiares. Os botecos sórdidos com seus bêbados e prostitutas, os tipos humanos etc. Numa época em que não havia chegado o supermercado e o fast-food, a feira era um espelho da sociedade.

Acho que até início da década de 1970, havia uma convivência mais ou menos harmônica entre a cidade histórica e a outra Oeiras que passou a ser construída. Claro, ninguém espera que uma cidade seja a mesma o tempo todo. Mas Oeiras está pagando preço muito alto pela sua expansão urbana, que se dá sem critérios claros e sem considerar adequadamente as áreas verdes e as belezas naturais, que lhe conferiam muita graça, especialmente o leito e as margens do Riacho Mocha, transformado em esgoto na área urbana, e os morros que circundam a cidade.

Outras coisas fascinavam meus olhos: os eventos religiosos; procissões como teatros a céu aberto; banhos e passeios no Riacho Mocha e nos morros; os ensaios da banda de música no antigo sobrado do Círculo Operário; o cinema etc. Eu ouvia os adultos falarem em histórias. Havia as bibliotecas, como a que pertenceu ao que fora o Ginásio Municipal Oeirense. Foi lá que encontrei Jorge Amado e Lima Barreto. Na biblioteca pública municipal, havia mais de uma coleção de Machado de Assis. Um dia apareceu na minha casa um exemplar de Somos Todos Inocentes, de O. G. Rego de Carvalho. Esses autores eu os li antes de sair para estudar em Teresina. Eu já tinha em Oeiras referências de escritores e músicos residentes na cidade. Próximo a mim, na Rua do Fogo, morava o escritor Expedito Rêgo. Na Rua da Feira, Possidônio Queiroz. Na Rua do Izidro, Costa Machado. Na minha família mesmo, havia um escritor, meu tio Gaudêncio Carvalho, irmão do meu pai, que guardava como uma preciosidade o livro Poemas da Íntima Habitação, primeiro lugar no primeiro concurso literário de Brasília (1961), cujo prêmio foi entregue pelo poeta Manuel Bandeira, convidado especial para a solenidade de premiação.

Gosto de pensar em Oeiras como um microcosmo: tem tudo que o Universo possui, em doses mínimas e, às vezes, em doses cavalares. Percebi isso depois que saí da cidade. O distanciamento físico, o aprendizado em outras terras, o alargamento de horizontes pelo estudo e por outras vivências me proporcionaram outras visões, outras leituras, outras formas de sentir. Oeiras faz parte da minha “literatura particular” e da literatura que produzo. Saí de Oeiras, mas Oeiras nunca saiu de mim.

Acho que não seria cronista se, além dos jornais, revistas e filmes, não tivesse lido boas obras de ficção, de poesia, de teatro, letras de música, histórias em quadrinho e, naturalmente, crônicas.

Há quem veja em suas crônicas traços de poesia, um tipo de “cronemas”. Esse aspecto o aproxima ou o distancia dos leitores?

O escritor Aírton Sampaio, na orelha do livro Grão, foi quem falou que minhas crônicas eram “cronemas”, ou crônicas-poemas. Fico todo orgulhoso com esse elogio, porque, de uma maneira ou de outra, a poesia é quase uma presença “obrigatória” na crônica literária. Foram necessárias décadas para evoluir a um texto leve, aparentemente simples, com seu “quantum satis” de poesia, como diria Antonio Cândido. Não que a crônica tenha se rendido à poesia. Uma e outra permanecem sendo discursos específicos. Muitas vezes, o cronista recorre à poesia, e isso deve ocorrer sempre com naturalidade, porque a crônica moderna e a poesia dão muito certo uma com a outra. Mas isso é compreensível também porque o cronista usa também recursos de outras formas literárias, como o conto. Não há nada demais nisso, muito pelo contrário. Por exemplo, Manuel Bandeira foi muito ousado na época ao escrever “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Seu poema tem sabor da notícia de jornal, mas também do conto e da crônica. O nosso Geraldo Borges leu o Grão e disse que O Pequeno Engraxate parece um conto. Eu acho que tudo isso aproxima os leitores da crônica.

Na sua opinião, a crônica se identifica mais com o jornalismo ou a literatura?

Pesquisadores destacam que a crônica nasceu do antigo folhetim do século XIX, que era um espaço, geralmente, situado na parte inferior dos jornais, destinado à crítica literária e a assuntos políticos, sociais etc. Portanto, é impossível negar a filiação da crônica ao jornalismo impresso. Diz-se também que “grandes escritores brasileiros do século XIX passaram por jornais”, escrevendo o romance-folhetim e o romance em folhetim, este com preocupações temáticas e estruturais maiores que o primeiro. Mas sua pergunta é sobre crônica. Por isso acho necessário falar sobre a coluna Ao Correr da Pena, de José de Alencar, escrita nos jornais Correio Mercantil e Diário do Rio, em 1954-55. São textos longos, se comparados à crônica contemporânea, que “encurtou de tamanho”, mas têm certo tom de conversa, como as crônicas de hoje em dia.  Os textos da coluna de Alencar tinham também certo tom de literatura. Tomando esse exemplo histórico, a crônica se identifica com o jornal, mas com o passar dos anos, ela foi como que se emancipando e se transformando num texto literário ou numa mistura de literatura com jornalismo. O certo é que o jornal impresso passou a conviver, claro, com crônica jornalística, mas também com a crônica literária. Mas acho que isso só veio a ocorrer na primeira metade do século XX, embora seja bom mencionar Machado de Assis, que, em 1877, portanto, século XIX, escreveu O Nascimento da Crônica. No Piauí, acho que merecem atenção as crônicas escritas por Vítor Gonçalves Neto, no jornal “O Curare”. É difícil dizer onde ali começa o jornalismo e termina a literatura. No final das contas, há espaço tanto para a crônica jornalística como para a crônica literária e até para um misto das duas, porque as fronteiras não são bem delimitadas, nem acho que devem ser. Falando por mim, prefiro escrever – e ler – crônicas literárias, mas escrevo também crônicas jornalísticas. No final das contas, o que interessa mesmo é a qualidade do texto.

Em 2015, você estreia no romance, com No coração da noite estrelada, surpreendendo a todos. Como leitores e críticos receberam o livro?

Surpresa tive eu com a recepção ao livro. Pelo menos, quatro pessoas, que eu saiba, escreveram positivamente: Aírton Sampaio o chamou de “romance geracional”; Eulália Teixeira achou o livro “uma bela história”; Geraldo Borges, “um romance de ideias”; Dagoberto Carvalho Jr também elogiou o livro, puxando mais pro lado oeirense. O Geraldinho me falou que leu duas vezes: após a última página, voltou imediatamente para a primeira, relendo o livro todo. Acho que isso é o principal elogio para o escritor: saber que um leitor leu seu livro por duas vezes, de uma assentada. Logo após o lançamento, encontrei o Cineas Santos em um posto de gasolina, na estrada. Ele vinha acho que de São Raimundo Nonato e eu, de Oeiras. Ele falou com entusiasmo sobre o romance. Desde o início, Cineas tem sido generoso para comigo. Um professor do Ensino Médio de uma escola de Oeiras adotou o livro. Com os alunos, ele fez o percurso por ruas, praças, becos e arredores da cidade, onde a ação se desenrola, e tentou reconstruir a história, de forma teatralizada. Deu pra sentir o interesse e motivação dos alunos. Em nosso meio, não é comum os leitores se manifestarem. Os poucos que falaram comigo gostaram do romance. Um poeta de Oeiras, Edilberto Vilanova, fez a mim, pessoalmente, comentários bastante pertinentes sobre o livro. Acho que ele foi um leitor bem atento.

 Augusto de Campos comparou um bom poema não lido ao canto do uirapuru na floresta, que talvez poucos ou nenhum ser humano ouça, mas está cumprindo sua parte para o encantamento do mundo.

Não bastasse, foi mais além ao publicar, em 2019, a Outra face, segunda obra poética. Que sensações esses gêneros distintos marcam sua escrita e alma?

Na verdade, é muito difícil determinar fronteiras rígidas entre as várias formas literárias. Claro que cada uma delas tem suas características próprias que a identificam como tal, mas isso não impede a intercomunicação. Comecei como quase todo mundo começa, isto é, tentando escrever poemas, depois contos e artigos. Não pensava em ser cronista. Eu queria mesmo era escrever ficção. E aconteceu que, após chegar em Teresina, em 1977, passei a ler muito os jornais da chamada “imprensa nanica”, sobretudo, O Pasquim. Poxa, esse jornal usava uma linguagem que muito me agradava: havia a crítica, a ironia, o humor mordaz. Era uma linguagem ao mesmo tempo “participante”, antenada com o Brasil e o mundo, e uma linguagem “sem paletó e gravata”, altamente comunicativa. Lá pela metade da década de 1990, eu lia os colunistas da Folha de São Paulo e senti que poderia escrever daquele jeito. E  então comecei a publicar artigos no jornal O Dia, de Teresina. Mas lá pelo terceiro artigo, me cansei daquilo e, naturalmente, passei a escrever de um jeito mais solto e pessoal, sem estar vinculado a uma lógica argumentativa. Foi aí que fui migrando para a crônica, porque o tom passou a ser de conversa, às vezes, de “conversa fiada”. Eu achava que não estava fazendo nada demais, mas, um dia, me deparei com um texto de Aírton Sampaio elogiando minhas crônicas. Aí parei para pensar, porque eu admirava Aírton pelo seu livro Contos da Terra do Sol, e já naquela época era um crítico perspicaz. E mais: não era ainda meu amigo. A gente só se cumprimentava – “Ôi, tudo bem?! – de modo que achei seu elogio sincero. Ele não escreveria só para me agradar, não era do seu feitio. A partir de então, passei a dialogar com ele e a refletir sobre o que estava escrevendo e dando o que falar, porque eu encontrava conhecidos na rua e eles me falavam bem das crônicas. Uma vez, um leitor de Picos escreveu para a redação do jornal – era uma carta para mim -, dizendo que adorava minhas crônicas. E então passei a ler mais os cronistas brasileiros e tudo que eu via sobre crônica, pois ali eu me sentia bem, em casa, como leitor e escritor. Mas digo para vocês: acho que não seria cronista se, além dos jornais, revistas e filmes, não tivesse lido boas obras de ficção, de poesia, de teatro, letras de música, histórias em quadrinho e, naturalmente, crônicas. Acho que tudo isso marca minha escritura e minha vida, sendo que a poesia, para a vida e para a crônica, tem uma vitalidade sutil e muito especial. Por isso, cheguei a publicar dois livros de poemas: Último Round e A Outra Face. Mas, sem dúvida, fazer poemas é muito mais difícil que escrever crônicas, contos ou romances.

Tem valido a pena dedicar, desde a estreia em 1994, tantos anos de vida a uma atividade pouco valorizada no Piauí /Brasil?

1994 foi o ano da minha estreia em livro, mas minha primeira crônica foi publicada em 1981, no Jornal da Manhã. Eu também já havia publicado no tabloide Floretim, editado pelos poetas Paulo Machado e Nelson Nunes, na década de 1980, além dos jornais mimeografados Mafrense e O Beco, de Oeiras, e nos principais jornais de Teresina. Assim, comecei mesmo foi em jornal. Portanto, sou de uma geração que aprendeu a escrever, escrevendo pra jornal. Escrever é uma das atividades mais vitais para mim. Mesmo que não deem valor. Mas sinto que não é isso que acontece. Em geral, os leitores apreciam o que escrevo. Por falar em dar valor ou não, o poeta, crítico e tradutor Augusto de Campos respondeu a uma pergunta semelhante: ele comparou um bom poema não lido ao canto do uirapuru na floresta, que talvez poucos ou nenhum ser humano ouça, mas está cumprindo sua parte para o encantamento do mundo.

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Márcia Evelin: “As histórias alimentam a criança que há em mim”

Por Wellington Soares, professor e escritor

Essa afirmação dita acima, pela Márcia, não é jogo de retórica, não. Pode acreditar, pois quem a vê atuando, sozinha ou no Grupo Cafundó, percebe ser ela, entre todas, a criança mais feliz da roda. Animada, de olhos brilhando e sorriso aberto. Caso alguém duvide, recorro à expressão do velho cacique timbira, de Gonçalves Dias: “– Meninos, eu vi!”. Sempre que posso, assisto a seus espetáculos mágicos e envolventes.

Também pudera, Márcia Evelin teve uma infância povoada de livros e histórias. Sua família foi importantíssima, como faz questão de destacar, nesse gosto pela e com a palavra. Quer escrita ou oralizada. A primeira chegava, comprada pelos pais, em coleções e enciclopédias vendidas de porta em porta, uma vez que ainda não havia livrarias em Teresina. A segunda, através de contação de histórias, muito comuns na época, que varava as noites.

Daí para as outras manifestações artísticas foi um pulo, uma coisa puxando outra, levando-a, desde cedo, a perceber que, em termos culturais, quanto mais artes estiverem juntas e misturadas, melhor. Não tardou pra surgir então, com ajuda dos irmãos, o teatro, a dança e a música no cotidiano de todos, recursos fundamentais no seu futuro trabalho de contadora de histórias. Márcia Evelin se apresenta em praças, ruas, hospitais e encontros literários. Sem falar ainda da publicação de três livros autorais e dois em coautoria.

Conhecedor da paixão pelo que faz, costumo frequentemente convidá-la para as feiras literárias que organizo na capital e cidades do interior do estado. Salão do Livro do Dirceu (Saliceu) e Salão do Livro de José de Freitas (Salijo), pra ficarmos apenas em duas, são bons exemplos dessa nossa parceria. São os “baixinhos” e os “grandões”, nesses momentos, que ganham com atividades tão lúdicas e didáticas.

A inspiração para tantos afazeres – mãe, professora, contadora de histórias e escritora –, ela tira do verde das árvores e do canto dos pássaros do sítio onde mora, próximo a Teresina. Eis aqui, nesta entrevista, um pouco da Márcia Evelin, eterna criança deslumbrada com a poética das linguagens e com o universo enigmático da vida.

 

O escritor irlandês C. S. Lewis afirmou que uma história infantil que só pode ser apreciada por crianças não é uma boa história infantil. Que acha disso? 

Concordo plenamente com o escritor. Uma boa história sempre será apreciada por leitores de qualquer idade. Há uma ampla discussão em torno do adjetivo “infantil” para a literatura que é destinada a esse público, já que o infantil deve estar ligado a quem se destina e não a uma simplificação da linguagem para que seja entendida pela criança. A literatura que recebe o rótulo de infantil deve ser interativa, criativa, rica em metáforas, simbologias e não ditos, a fim de que o leitor possa preencher esses vazios com a sua própria história. Se o escritor enxerga essa literatura somente como pretexto para ensinamentos e conselhos morais, faz com que ela perca sua essência estética e fique sem espaços para o leitor habitar. Assim, ele não constrói leitores, não contribui para transformar leitores, nem faz uma literatura que agrade a todos. Por isso prefiro adotar para essa literatura a terminologia de livros para todas as idades. Dessa forma me sinto incluída, pois adoro comprar, ler e contar essas histórias. Elas alimentam a criança que há em mim.

Como surgiu em você a paixão pelos livros, em particular os infantis? 

Tive uma infância povoada de livros e histórias. Nesse tempo não havia muitas livrarias em Teresina e a venda de livros era feita de porta em porta, por vendedores ambulantes e suas grandes malas recheadas de livros, principalmente as coleções e enciclopédias (nosso Google de hoje). Tenho essa imagem muito viva em minha memória, desses livreiros que montavam expositores em nossos terraços. Eu ficava fascinada com a variedade de formas, tamanhos, cores… dos livros. Acredito que foi aí que nasceu minha paixão pelo objeto livro. Meus pais souberam passar para os filhos o valor e importância dos livros para nossas vidas, o que perdura até os dias de hoje. Eu e meus irmãos aprendemos a ler e a amar os livros debruçados nessas enciclopédias que traziam literatura e outros conhecimentos, por onde viajávamos em busca de aventuras. A Coleção O Mundo da Criança (da capa vermelha) foi uma dessas referências. Mais tarde veio a vida acadêmica, a escolha pela docência, a criação da livraria e Clube de Incentivo à Leitura Crie e Conte, a maternidade e a minha paixão pela palavra poética, pela narração de histórias, desembocando na escrita de livros literários destinados, principalmente, às crianças, mas que podem e devem ser lidos por todas as idades.

Nos seus três livros autorais lançados – O Boi do Piauí (2015), O Segredo da Chita Voadora (2017) e A Flor do Pequeno Principezinho (2019) -, que temas e lições de vida os leitores vão encontrar? 

O Boi do Piauí (2015/2021) foi minha primeira história, uma adaptação da cultura popular, que nasceu na oralidade e, depois de ser contada em vários lugares, virou livro impresso, a convite do editor Leonardo Dias, da Editora Nova Aliança (PI). O livro tem a força de manter no imaginário do leitor essa manifestação cultural tão importante que é o ritual do Bumba meu Boi. É um livro brincante e cantante que ganhou uma 2ª edição em 2021, tem a narrativa permeada por canções do Boi e podem ser ouvidas através de um QR Code localizado na contracapa do livro, que direciona o leitor para meu canal no YouTube, onde as músicas se encontram hospedadas.

O Segredo da Chita Voadora (2017) é um livro-homenagem onde referencio e enalteço a beleza da mulher negra e do tecido chita, numa linda história de amor, espécie de conto de fadas do sertão. Homenagem também ao continente africano, de onde eu trouxe o nome Abayomi para a protagonista da história. Nele, o leitor recebe como mimo uma bonequinha feita somente de nós, simbolizando essa personagem, que confecciono com minhas próprias mãos para cada um dos livros.

A Flor do Pequeno Principezinho (2019) é fruto de uma paixão que cultivo, desde a infância, pelo personagem do livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exúpery, obra que inspirou sua criação. É uma história em que coloco a Flor como protagonista, juntamente com o Principezinho e que mostra a força de se criar laços de amizade, de buscarmos nossas raízes ancestrais. Uma história que leva o leitor a um processo de construção de sua própria identidade étnica, quando apresenta um Pequeno Príncipe que se transforma ao pisar no solo do continente africano.

Todas as minhas histórias foram editadas pela Editora Nova Aliança (PI) e trazem o elemento mágico, a musicalidade, a valorização da cultura e do ser humano como tônicas da narrativa. Agora em janeiro de 2022 lanço meu novo livro, intitulado Menino do Congo, um presente de gratidão aos brincantes do Grupo de Congos de Oeiras (PI), com quem dividi minha pesquisa de mestrado, intitulada Tradição Oral e Literatura: laços de matriz cultural africana em crianças brincantes dos Conguinhos, cidade de Oeiras (PI), no ano de 2012. O livro também traz um QR Code, onde o leitor poderá ouvir as músicas cantadas no ritual.

Na sua opinião, a obra de Monteiro Lobato, que despertou o hábito da leitura em muita gente, ainda continua atual? 

Lobato foi muito importante para toda uma geração de leitores e escritores conceituados e tem sua relevância dentro da história da literatura infantil brasileira, isso não pode ser negado. Infelizmente sua obra, analisada com as lentes da contemporaneidade, apresenta muitos problemas relacionados a preconceitos e racismo, tanto na ilustração como na linguagem utilizada, o que tem contribuído para criar polêmicas em torno da aceitação e adoção pelas escolas e pelo público mais consciente do lugar que a literatura infantojuvenil ocupa como incentivadora de práticas antirracistas.

Além dos livros impressos, você leva também à criançada, através do Grupo Cafundó, contação de histórias. Qual dessas atividades desperta mais alegria em você? 

Ambas me alegram muito, porque faço por dom, desejo, paixão… Gosto muito de narrar histórias, de descobrir elementos que possam torná-las mais próximas das crianças, como a musicalidade presente no texto, as várias vozes dos personagens, as expressões corporais e toda a performance criada para contar. Primeiro nasceu a Márcia contadora de histórias, com o grupo Cafundó de Contadores de Histórias, na companhia de Anna Miranda (parceira de invencionices, que traz o dom de narrar na voz e no corpo), acompanhadas pelo musicista Garibaldi Ramos, mais tarde substituído por Fernando Ferreira e Tauana Queiroz, também musicistas. Juntos contamos histórias em praças, escolas, hospitais… em todos os lugares que tenham pessoas atentas a palavra narrada. Só depois de muitos anos dessa prática, me veio a vontade de experimentar a escrita. Diria que me considero uma contadora de histórias que de tanto contar histórias e visitar universos mágicos acabou tendo vontade de escrever.

A literatura infantil no Brasil, dentre todos os gêneros, é a que tem melhor acolhida junto aos leitores e às escolas. Como anda o nosso estado nesse cenário nacional? 

Produzimos muito, mas a nossa literatura ainda não tem grande visibilidade no cenário nacional. Precisamos acreditar no potencial literário dos escritores piauienses, na qualidade estética dos livros publicados por editoras do nosso estado e deixar de achar que o que produzimos é uma literatura menor. Somos muito bons e temos todas as qualidades para nos lançarmos no mercado editorial nacional. Infelizmente as escolas particulares e órgãos públicos ligados à educação do estado do Piauí ainda não pensam assim, não valorizam, como deveriam, a literatura infantojuvenil produzida por escritores piauienses, no que tange a conhecimento dos escritores, suas obras e adoção de títulos. Penso que temos um longo caminho a trilhar objetivando a mudança desse cenário, a começar pela união dos escritores e entidades literárias do Piauí.

Por que você costuma dizer que não conseguiria viver sem a literatura? 

Venho de uma família de artistas, das diferentes linguagens da arte. Sou apaixonada pela palavra poética e vivo cercada por ela. A literatura é meu instrumento de trabalho, minha arma contra o tédio, o ócio, a paralisação… Entendo a literatura como arte, criação e possibilidade de crescimento humano. Ela transforma, acalma, alimenta, nutre e responde a questionamentos. Como viver sem ela?

 

 

Espiritualidade e feminismo são incompatíveis?

 

Olho o calendário e conto os últimos dias de 2021. Não farei um balanço. Difícil aceitar o ano que poderia ter sido de esperança como uma realidade desanimadora. A vacina veio, é fato. Acompanhada de um obscurantismo que não se alinha ao nível de conhecimento alcançado pela humanidade. Por aqui temos um plus: a destruição se instalou em todas as áreas. Mas sobrevivemos e estamos respirando o advento. Isso faz acender aquela pequena chama que se esconde no fundo da alma.

Não sou religiosa. Entendo o sagrado (crença na existência de deus, de deuses ou deusas) como uma necessidade humana, apenas. Gosto de observar o reflexo disso nas ações dos que se dizem ligados ao divino. Talvez, um modo muito particular de viver a fé.

A ideia de um instante de harmonia pisca no nosso cérebro muito mais do que as luzes decorativas instaladas em lares, parques e avenidas. Daí aceitarmos confraternizar até com quem infernizou a nossa vida durante todo o ano no trabalho ou em família. Bom momento para refletir, não?

Nesse observar descobri uma doutora em teologia, feminista e pastora da Igreja Batista, que realiza um bonito trabalho com minorias. Seguindo o ensinamento de Cristo, ela leva conforto espiritual àqueles que sofrem preconceito, discriminação e são excluídos das igrejas e da sociedade. Sigo seu perfil em redes sociais. Por esses dias, ela celebrou o amor e a união entre duas mulheres cristãs. Ação que me encheu de fé.

O choque viria dois dias depois. Nos portais, a notícia de que a pastora e sua família prestaram queixa à polícia por sofrerem perseguições e ameaças de morte.  Vítimas do ódio que nasce do fundamentalismo religioso.

Nos mesmos portais, o adeus à teórica do feminismo bell hooks expande a tristeza. Minha mente se dispôs a fazer uma conexão. Em um ensaio publicado em 2015, bell faz uma análise da espiritualidade feminista. Uma breve passagem histórica sobre os conflitos entre feminismo e religião. Foi preciso desafiar a base do sistema de crenças judaico-cristãs de ideologia patriarcal e opressora. Em seguida, veio a conquista da espiritualidade libertadora através da transformação das crenças religiosas incluindo a busca por tradições orientais. Logo depois, entram em cena as teologias da libertação que acreditam ser o fim do patriarcado (e outros tipos de opressão) algo ordenado por deus. E por fim, o ameaçador retorno do fundamentalismo religioso associado a ideologias políticas de direita.

A pastora afirma que desde 2016 se intensificaram as críticas ao seu trabalho de acolhimento à diversidade. Um dado que coincide com o aumento do fundamentalismo religioso no Brasil, alimentado em igrejas neopentecostais (católicas e evangélicas).  Assim como coincide com a escalada de ameaças aos direitos civis conquistados por mulheres e minorias e com a demonização do movimento feminista. Como diria bell, uma ameaça à espiritualidade progressista.

Por que falar disso às vésperas do Natal?

Porque somos o produto de uma cultura religiosa cristã. Mesmo quem não tem prática, sente-se comovido neste período.  A ideia de um instante de harmonia pisca no nosso cérebro muito mais do que as luzes decorativas instaladas em lares, parques e avenidas. Daí aceitarmos confraternizar até com quem infernizou a nossa vida durante todo o ano no trabalho ou em família. Bom momento para refletir, não?

Voltando à pergunta que move este texto. O conflito é parte de todo processo evolutivo. É verdade que a maioria das religiões tem por base uma mentalidade dualista que tolera o sexismo e a dominação masculina (inclusive sobre o corpo das mulheres). Vale lembrar que estamos sempre em movimento. É possível contextualizar os textos sagrados, fazer leitura crítica e aberta a questionamentos. Ou, buscar práticas espirituais que abraçam o feminismo e fazem perceber que não pode haver incompatibilidade entre aquilo que promete um bem-estar espiritual e um movimento que luta por justiça, igualdade e valorização do ser humano, seja qual for o formato do seu corpo.

Que o espírito do Natal, se existir, ilumine as mentes e abra caminho para a tão propagada renovação. Crucial para preservação da humanidade, pois um vírus nos avisa que o modelo de mundo como conhecíamos está com os dias contados.

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Imagem: TINTORETTO – Magdalena penitente (Musei Capitolini, Roma, 1598-1602).

Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos, Editora Quimera (Teresina, 2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana, Editora EDUFPI/Avant Garde (Teresina, 2018); Conexões Atlânticas, Infinita (Lisboa, 2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras ABR Editora (Guarujá, 2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos, Patuá (São Paulo, 2018)

Sobre o quinquagésimo sonho

EDITORIAL – Por André Gonçalves

Em fevereiro de 2012, ou seja, há praticamente 10 anos, a Revestrés #1 chegava às bancas. Na capa, o sorriso aberto e feliz do nosso primeiro entrevistado: o grande escritor piauiense Assis Brasil. A Revestrés surgia como resultado de sonhos compartilhados, da vontade de mostrar, não só ao mundo mas para nós mesmos, piauienses, o quanto temos de talento e capacidade de criar e, não vamos deixar de dizer, de alguma “irresponsabilidade” de nossa parte: a imprescindível irresponsabilidade de se acreditar no que se faz com alegria, vontade de deixar marcas pela vida e de nos sabermos parte de algo que traga conhecimento e beleza aos que nos cercam.

De lá para cá aconteceu de quase tudo, no Piauí, no Brasil, no mundo. E nas vidas de todos nós. Esta é a edição de número 50 e, de alguma maneira, em nossas 50 edições há reflexos de tudo isso: por aqui passaram sonhos, decepções, alegrias, realizações, impossibilidades. E muita coragem e resiliência, nossa, de todos os que de alguma maneira estão impressos em nossas páginas e, também, de nossos apoiadores e leitores. Aprendemos muito nesses anos com cada pessoa com que tivemos algum tipo de contato, e muito nos impressiona como parece, sim, que tudo está interconectado e se movimenta de acordo com o movimento uns dos outros. Só nos resta seguir em frente, e nos movimentando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como diz o título da entrevista desta edição 50, agora é “começo, meio e começo”, porque tudo segue se recompondo. A entrevista é com Nêgo Bispo, o quilombola que é materialização do termo “intelectual orgânico” e que, aos 62 anos e palestrando por universidades pelo Brasil e pelo mundo, nos tira do lugar de conforto intelectual em que tanto tentamos viver. Por exemplo, quando perguntado sobre o que é preciso fazer para alcançar a paz, Bispo responde: “Vá pro cemitério. Nós não somos de paz, somos de festa”.

A repô de número 50 mistura nossas memórias às memórias de Teresina, que tanto procuramos reavivar e provocar. Damos uma passada por várias matérias em que falamos da cidade como patrimônio, e atualizamos perguntas que já fizemos – descobrindo que, cinquenta edições depois, várias seguem sem resposta.

Memória é também o tema do quinquagésimo ensaio artístico/fotográfico que publicamos: Pele Memória, da artista Mika, que baseia sua criação na “palavra dos antigos”, deixando seus ouvidos atentos para aqueles que “guardam a sabedoria do tempo e da terra”. Lembramos ainda de procurar saber a quantas anda a lei que exige o ensino de literatura piauiense nas escolas do nosso estado, e isso se tornou matéria. Outra matéria bem curiosa é sobre artistas que, com toda piauiensidade, compõem e cantam em inglês: quem são, e por que essa opção? Curiosidade também na matéria sobre artistas que fizeram, de um Fusca, o seu circo. Isso mesmo, o Fuscirco está desfilando por nossas páginas com sua irreverência e originalidade. E ainda encontramos tempo para conversar com Nita Freire, viúva do grande e inesquecível educador Paulo Freire, e ainda para descobrir quem e porque andam espalhando Brasil afora biscoitos com mensagens políticas, numa biscoitagem “antiBolsonaro”. E, é claro, essa edição #50 ainda tem muito mais, inclusive uma homenagem ao jornalista e poeta piauiense Paulo de Tarso Moraes.

Encerrando esse 2021 de tantas perdas, de tantos sonhos, de tanta necessidade de acreditar no futuro, entregamos nossa quinquagésima edição. Esperamos que seja o marco do fim de um período tão doloroso e que tudo comece a melhorar. E que em 2022 possamos ser felizes de novo. Fique bem.

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O paraíso é para poucos?

 

Depois de um ano e sete meses de confinamento, devidamente vacinada, reencontrei uma amiga para um café. Eram tantos os assuntos para nossas emoções incontidas que duas horas não foi mais que um instante.  Pandora papers, nuvem de poeira, marco temporal, mortes, queda das redes sociais, prêmio Nobel e toda a pauta do momento pululando entre nossos projetos a serem retomados, para nos questionar: que lugar foi esse onde ancoramos o barco do nosso envelhecer?

É fato que a coisa já desandava antes da pandemia se instalar. No entanto, o vírus nos revelou o horror. Não o desabamento do mundo como imaginávamos a princípio. Mas o horror que se escondia e que saltou aos olhos apesar das máscaras. E por que estamos tão chocadas se, desde quando lutávamos pelas Diretas, já éramos conscientes dos mecanismos que norteiam esta república?

Dizem os sábios que a interatividade gera novas qualidades no comportamento coletivo, assim como no campo da individualidade o reinventar-se e seguir em frente é uma necessidade.

Talvez seja esse o ponto: acreditamos na evolução. Acreditamos que os valores que nos levaram a Eco 92, a estabelecer cotas nas universidades, a eleger uma presidenta, a legalizar uniões homoafetivas estavam internalizados nas gerações que criamos e educamos. Engano. Talvez as nossas crias até tenham compreendido tudo e se tornado pessoas melhores que nós, porém havia uma massa ressentida que no seu covil também criava herdeiros a sua imagem e semelhança. Bastou uma crise econômica para que a vergonha de ser politicamente incorreto se dissipasse e os egos inflados fizessem ninhos na liberdade de expressão (conquistada a duras penas) para expor a sordidez. Ao ponto de se considerar sinal de capacidade para gerir a economia de um país o cidadão que fez fortuna fugindo dos impostos, da regulação financeira e das obrigações de transparência ditadas pelo avanço civilizatório. Ou, médicos se julgarem no direito de fazer experimentos em humanos sem o rigor da ética e da metodologia científica.

A massa ressentida precisava apenas de uma autorização simbólica: ganhar as eleições para o poder central. E depois da conquista não poderia perder para um ser minúsculo que nem vida, propriamente, tem. Um ser que, apesar de invisível, exigia o olhar para o todo. Negar foi solução. E tudo que acompanhamos foi consequência.

A essa altura, devo dizer que minha amiga conjuga o verbo esperançar muito facilmente. Para quebrar a tristeza, ela puxou do celular notícias sobre o Nobel 2021: na física (mais ligada à sua área de atuação) e na literatura (a minha). Syukuro Manabe, Klaus Hasselmann e Giorgio Parisi, pelas contribuições inovadoras para compreensão de sistemas complexos, o que envolve pesquisas sobre meio ambiente e mudanças climáticas. Na Literatura, Abdulrazak Gurnah e suas histórias de migração, nas quais a impermanência e a agitação constante são dadas como certas. Estamos em movimento.

Saí de lá um pouco mais leve. Dizem esses sábios que a interatividade gera novas qualidades no comportamento coletivo, assim como no campo da individualidade o reinventar-se e seguir em frente é uma necessidade. A academia manda um recado. Ou, em melhor rearranjo de palavras: não estamos sós. Acende-se uma chama.

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Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos (Quimera, 2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana (EDUFPI/Avant Garde, 2018); Conexões Atlânticas (Infinita – Lisboa, 2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras (ABR Editora, 2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos (Patuá, 2018).