Sergia A.
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Era para se chegar à primavera

 

Abro um livro nesta manhã do décimo quinto dia e encontro num verso de Wislawa
Szymborska, traduzido por Regina Przybycien, a validação de um sentimento que cresce
dentro de mim e que preciso deixar transbordar. Tomo-o de empréstimo para o título.

Escrevo por necessidade. Escrever é minha forma de organizar o caos, interno e externo.
Sim, também o externo porque é através da mente que a realidade encontra significado.
Wislawa, que só conheci após a primeira tradução no Brasil em 2011, tem o poder de
despertar em mim a vontade de escrever. Talvez, porque as profundas reflexões sugeridas
por suas palavras me desestabilizem, toquem sorrateiramente em meu frágil equilíbrio e me
obriguem a olhar para o escuro. Aquele lugar que meus olhos teimam em se desviar. E para
retornar à luz é preciso escrever.

O poema Ocaso do Século (1987) traz uma sequência de ideias, em tom de lamento por trás
da ironia, sobre a expectativa do que seria o século XX para a humanidade e como de fato
se revelou. Um balanço acentuado pelo desencanto, fazendo uso do efeito chiaroscuro – do
que faz rir e do que entristece – que é marca dos seus poemas. Para mim, é impossível ler e
não enxergar o início da terceira década do século XXI como o aprofundamento do
desencanto de que trata o eu lírico às vésperas da virada.

Estou saindo de duas semanas de isolamento, ainda com olfato e paladar alterados.
Estranho levantar-me, fazer um café e não ser despertada pelo cheiro. Mais estranho, lidar
com o amargo residual que as papilas guardam como sabor único. Como se os sentidos
tivessem sido apagados do meu cérebro racional para me fazer sentir no corpo o estar no
mundo neste instante.

Não escapei, apesar das vacinas e de todos os cuidados que me fizeram chegar até aqui sem
ser infectada num país que ostenta um dos piores índices de casos e mortes por covid. Não
precisei de hospital, tampouco me pareceu leve como dizem os risos triunfantes nas redes
sociais depois de cinco dias de um teste positivo. Sabia, desde o início, que pertencia ao
grupo dos vulneráveis. Assim como soube desde os primeiros embates sobre o controle da
pandemia que ela se tornaria isso que estamos vendo: mais que uma infecção causada por
um vírus, uma exposição assustadora de todos os males da sociedade do século XXI. A

sociedade que valorizou absurdamente o individualismo, o cada um por si, o sistema que
não pode parar, em detrimento do senso de coletividade ou do respeito pelo outro.

Como poderia ser diferente?

Depois de um tempo de sonho com o avanço do processo civilizatório, reaprendemos a
aplaudir os que esbanjam convivendo lado a lado com os que reviram o lixo pra saciar a
fome. Na era digital, continuamos aceitando que uma minoria seja dona da riqueza
acumulada pela exploração da maioria. A miséria continua natural. A mesma miséria que
abalou o alicerce da sociedade industrial e fez nascer a ideia de bem-estar social. Somos
cúmplices de um sistema que destrói o planeta, apesar de conhecer cientificamente seus
limites em nos oferecer o básico: água e ar. Seria diferente com relação a uma doença
perigosa apenas pra porção descartável dessa engrenagem?

Ainda que não tenha me faltado afeto e atenção, foi aterrorizante ver meu corpo entre os
descartáveis. Observar o descaso de um lugar de privilégio, analisar dados, criticar, achar
que estou fazendo a minha parte é uma coisa. Outra é ser um número entre os invisíveis, os
desprezados, os que não fazem falta.

A finitude é inevitável. Sou consciente e este não é o ponto. O assombroso é saber que
nosso tempo foi um tempo em que a humanidade não apenas deixou de cumprir as
promessas da lógica evolutiva, mas escolheu regredir. Saber que virão outras crises
econômicas, sanitárias e ambientais cujas soluções passam por uma mudança radical no
modo de vida, sendo levada a crer que essa mudança não virá em socorro de nossa
descendência. Saber que já não se vislumbram os sonhos coletivos de futuro, pois colonizar
outro planeta é a aposta fantasiosa da minoria que enriqueceu com a destruição da Terra e
considera isso um merecimento.

Se as utopias saíram de moda, como continuar vivendo?

O poema fecha a última estrofe afirmando não há perguntas mais urgentes/do que as perguntas
ingênuas. A única esperança é que outras linhas se preencham com cândidos pontos de
interrogação.

AS PRIMEIRAS LETRAS INGLESAS

por Nathan Sousa
poeta, ficcionista, ensaísta e dramaturgo

No que diz respeito à literatura escrita em inglês, esta começa com Geoffrey Chaucer (c. 1344-1400) há, aproximadamente, setecentos anos. A exemplo de outros povos, muito tempo foi preciso para que a Inglaterra pudesse unificar a escrita e a fala de sua população. Das histórias semimíticas dos tempos do reino de Arthur, chega-se aos Contos da Cantuária. Com Chaucer, não apenas se inicia uma uniformidade do idioma, mas prepara-se o campo para a criação de uma enorme literatura. Trata-se de uma figura de elevada erudição, fluente em várias línguas. Para Chaucer, a vida humana podia ser “mundana” e “religiosa”. Mas Chaucer era terminantemente contra os excessos da igreja, principalmente no que se tratava da venda de indulgências. Nos primeiros contos, como os conhecemos hoje, tem destaque a nobreza dos cavaleiros, daí a expressão “cavalheiresco”, mas há o acréscimo das narrativas de baixo calão, o que fazia com que os textos dos Contos da Cantuária fossem quase sempre censurados, principalmente para o público leitor jovem, até meados do século XX, ainda que seu final seja feliz com os sermões do Pároco.

Por sua vez, entre os séculos XV e XVI surge, na Inglaterra, a impressão e o teatro moderno. O palco eram as ruas. Na terra de Shakespeare as apresentações eram chamadas de “mistério”. As primeiras guildas, ou seja, as primeiras manifestações organizadas, realizavam encenações de passagens bíblicas. O drama apresentado nas ruas servia como instrumento evangelizador de massa, já que poucas pessoas tinham acesso aos livros. Mas as várias facetas de uma sociedade cada vez mais urbanizada ganha representação nos primeiros anos deste tipo de teatro.

Com o advento da impressão, a Bíblia ganhou outro meio de divulgação mais eficiente que as peças de mistério. Ao contrário deste tipo de apresentação da literatura, no livro, desenvolve-se essa atividade de maneira mais intimista. Portanto, eis o valor do teatro como representação literária nos seus primeiros anos: trata-se de uma literatura de fluidez popular no sentido lato da palavra.

Do livro inédito de ensaios, A PALAVRA ÁVIDA, de Nathan Sousa.

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Texto exclusivo no site.

O texto faz parte do livro inédito de ensaios, A PALAVRA ÁVIDA.

Rita e Maria: acaso e ideias ao vento

 

Já disse por aqui uma vez que o acaso está sempre a me oferecer algo bom. No mínimo, boas histórias. Desta vez não foi diferente.

No último dia sete de junho, enquanto eu me preparava para assistir a uma palestra da escritora Maria Valéria Rezende, recebi uma mensagem da organização do evento. Pediam-me para substituir a professora responsável pela mediação. Passado o susto, perguntei a mim mesma: devo agradecer ou ter um ataque cardíaco?

Parece que minha pulsão é pela vida. Catei os livros. Juntei na cabeça tudo que a memória guardava sobre a autora e sua obra e agradeci.

Maria e Rita se dedicam, cada uma a sua maneira, à educação libertadora.

Dias antes, quando observei na programação que a presença de Maria coincidia, data e horário, com ninguém menos que Rita von Hunty, não tive dúvidas. Apesar da curiosidade pelo fenômeno Rita, escolhi ver e ouvir Maria. Inscrição feita, coube ao destino ampliar a minha visão e escuta.

Não me tome, o leitor, por uma pessoa afeita à crença de que cavalo selado passa uma vez e que é preciso se aventurar saltando em cima.  Sou mesmo um bichinho lento, sem grande propensão a saltos, que se acomoda em livros e escritórios. Meus encontros se dão, antes, nas páginas. Por outro lado, o destino é o destino. Não dá pra dizer não a fortes batidas na porta. Arrumei coragem e fui.

Mas não é desse acaso que quero falar. Vamos direto ao ponto. Quero me ater à energia paulofreiriana que contagiou a noite por puro acaso, até onde me consta.

No auditório principal, com lugares disputados por jovens, em sua maioria, a festejada drag queen apresentava pontos importantes sobre cultura e marxismo. Rita é professora e atriz. Bom conteúdo, aliado a performances bem montadas e atrativas para olhos de hoje, levou o canal Tempero Drag no YouTube a ostentar mais de um milhão de inscritos. Guilherme Terreri Lima Pereira, a pessoa por trás de Rita, afirma que criou a personagem para discutir a questão de gênero. No seu entender, gênero é uma forma de opressão social. Uma construção, nos termos de Simone de Beauvoir. Por isso ele se monta de Dona Rita. No seu discurso, obviamente, não podiam faltar as agressões a que são submetidos os corpos subalternizados e a pedagogia da autonomia.

No auditório menor, com cadeiras ocupadas por fiéis conhecedores da obra, Maria Valéria contagiava a todos com a firmeza da voz e a simplicidade das histórias vividas e recontadas por sua memória. Desde sua vivência entre grandes poetas na infância, sua saída de Santos na década de 1960, suas leituras de O Capital em francês e de Os Sermões de Pe. Antônio Vieira em Latim, sua descoberta de que não queria viver em um aquário, seu encontro com Paulo Freire, seu trabalho de alfabetização pela pedagogia freiriana no sertão nordestino em plena ditadura militar, a sequência em outros países da América Latina, até as premiações literárias no século XXI (Jabuti, Prêmio São Paulo de Literatura, Casa de las Américas).

Vários contrapontos poderiam ser levantados. Maturidade versus Juventude (Maria, 80 anos – Rita, 31 anos); Teoria versus Práxis (Maria fez, tem a ação em educação popular em seu currículo – Rita estuda a teoria, e tem prática em ensino, mas não um contato semelhante no contexto de miséria); Tentativa de Adequação versus Completa Adaptação ao mundo midiático em que vivemos (Maria escreve contos e romances, divulga em redes, tem uma loja virtual e faz lives eventualmente – Rita é profissional do mundo virtual, e o presencial é consequência). No entanto o que me motiva a escrever este texto é o ponto de conexão entre as duas e a coincidência de estarem no mesmo território, separadas por alguns metros de distância, discutindo o mesmo tema (pelo menos por alguns instantes), no ano em que podemos dar uma chance à transformação da realidade.

Ao abraçar Maria na despedida, no vão aberto entre os auditórios, uma brisa leve soprava a brasinha que dentro de mim aquece o verbo esperançar.

Nada mais freiriano do que este encontro entre as ideias e a práxis e o diálogo. Por isso não há aqui julgamentos. As duas personagens se dedicam, cada uma a sua maneira, à educação libertadora. O que há é apenas a constatação de que, na sociedade fluida e de vidas midiáticas, valorizamos menos quem traz no corpo físico as marcas da prática cultivada e fortalecida em uma longa experiência de troca e aprendizagem, mesmo teorizando sobre.

Cuidemos aqui do amadurecimento construído nas interações humanas, por um sentimento de justiça. Maria segue ensinando e aprendendo e tendo como ferramenta principal o diálogo. Perguntada sobre o seu despertar tardio para a escrita de ficção, ela respondeu que escrever ficção é uma forma de dar continuidade à educação popular. Uma forma de questionar a realidade ou provocar no leitor indagações. Ao ficcionar a realidade dos invisíveis estaria dizendo: olhe, isto existe. O que você pensa a respeito?

Crédito de imagens: fotos de divulgação em redes sociais.

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Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos, Editora Quimera (2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana, Editora EDUFPI/Avant Garde (2018); Conexões Atlânticas, Infinita (2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras ABR Editora (2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos, Patuá (2018).

Sobre a “morte de Deus” e seus (reiterados) assassinos

Por José Elielton de Sousa

A “morte de Deus” é um dos tópicos mais emblemáticos e polêmicos da filosofia nietzschiana. Aparece pela primeira vez na Gaia Ciência, nas seções 108, 125 e na seção 343, entretanto se torna mais conhecida por sua associação com Assim falou Zaratustra, especialmente o final da parte 2 do Prólogo. Na referida seção 125 da Gaia Ciência, Nietzsche aborda a morte de Deus nos seguintes termos: “Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. ‘Para onde foi Deus?’ gritou ele, ‘já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! […] Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!”

Mas qual o significado de tal expressão? O que o filósofo quis dizer com tal afirmação? Qual sua relação com muitas das manifestações religiosas contemporâneas? Há muitos significados e intepretações possíveis para esse tópico visceral da filosofia nietzschiana. Contudo, com tal expressão, Nietzsche está chamando atenção, antes de mais nada, para o fato óbvio de que a religião em geral e o cristianismo, em especial, estão em declínio na cultura ocidental. Nietzsche não está negando a religião enquanto fenômeno histórico-social, inclusive crescente em muitos lugares, mas seu papel como doadora e garantidora de sentido ao mundo em geral e às ações humanas em particular. E esse é um acontecimento perceptível em várias esferas da vida moderna: na filosofia, na ciência, na política, na literatura, nas artes, na educação, na vida social cotidiana e na vida espiritual interna dos indivíduos.

Deus não é mais a principal fonte de inspiração para grandes ideais e nem inibidor moral. Pelo contrário, é usado como justificação de desejos e perversões.

É que Deus não é mais a principal fonte de inspiração para grandes ideais e nem um inibidor moral para ações particulares de indivíduos que se dizem pertencentes a algum tipo de crença religiosa (sejam líderes religiosos ou leigos). Muito pelo contrário, é usado como objeto de justificação de seus desejos e perversões, basta observar, por exemplo, a quantidade de crimes praticados por pessoas reconhecidamente religiosas mundo afora, como estupro, abusos sexuais, corrupção, propina, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, entre outros, praticados em nome de “Deus”.

Além disso, com a mercantilização da fé, potencializada com o advento das mídias televisivas e eletrônicas, a religião se tornou um grande e lucrativo negócio, em expansão no mundo todo. No caso do cristianismo, não apenas surgem novas denominações religiosas a cada dia, mas também teologias e “líderes religiosos” que prometem prosperidade material e domínio espiritual àqueles adeptos da “boa nova” que seguirem à risca seus “conselhos” motivacionais. Não teriam essas teologias e seus “líderes” confundido aquela divindade que condenava a riqueza material, como expressa, por exemplo, na parábola do jovem rico e no episódio dos mercadores do templo, com outra divindade presente no texto bíblico, essa sim ligada às riquezas materiais e à cobiça: Mamon? Não por acaso, é no Velho Testamento, especialmente no Livro de Malaquias, que tais movimentos buscam fundamentar essa interpretação da Bíblia.

No caso especifico do cristianismo concebido como um projeto de poder, este se reverte de movimento político-eleitoral como forma não apenas de ocupar o espaço público, mas também de conquistar mais poder e influência – Não seria uma aliança entre Mamon e César e novamente uma negação do Evangelho? No Brasil, por exemplo, embora não seja novidade a participação de religiosos na política, o envolvimento atual dos evangélicos com a política decorre de um plano de poder com fim explícito de apresentar um projeto de nação evangélico pentecostal e colocá-lo em prática, tal como expresso no livro Plano de Poder: Deus, os cristãos e a política, do Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo.

É o que se pode perceber com a intensificação desse processo, a partir de 2003, com a fundação da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional (Bancada Evangélica), que tem como principais bandeiras a manutenção de privilégios como a isenção tributária das Igrejas, a concessões de TVs e rádios e o avanço de pautas conservadoras como a proibição do aborto, a proibição da discussão sobre gênero, a revogação do Estatuto do Desarmamento e o retirada de direitos de grupos vulneráveis. A atuação de bancada evangélica apresenta, em seu cerne, a aproximação com uma agenda de extrema direita reacionária, com seus comportamentos belicosos, persecutórios, discriminatórios, violentos e inquisitoriais, totalmente contrários aos preceitos amorosos do Evangelho.

Nietzsche tinha razão: “Deus está morto” e “nós o matamos – você e eu. Somos todos seus assassinos!”. E mais que isso, continuamos a assassiná-lo reiteradamente quando não observamos seu mandamento mais importante: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Como escreve o teólogo e filósofo brasileiro Leonardo Boff, em seu artigo “Não basta ser bom, há que ser misericordioso”, pouco importa a identidade, o gênero, a etnia ou a condição social desse “próximo”, “quando Jesus manda amar o próximo, significa amar esse desconhecido e discriminado; implica amar os invisíveis, os zeros sociais, aqueles que ninguém olha e passam ao largo, amar aqueles que no momento supremo da história, quando tudo será tirado a limpo, ele os chama de ‘os meus irmãozinhos menores’”.

Ao invés disso, se Jesus voltasse hoje defendendo a mesma ideia central presente no Evangelho, se levantasse a bandeira do amor ao próximo, da igualdade de direitos e da justiça social, se andasse com moradores de rua, prostitutas, doentes e “leprosos”, se condenasse aqueles que lucram com a fé do povo, ele seria novamente torturado, crucificado e morto em seu próprio nome pelo menos setenta vezes sete por boa parte daqueles que se dizem seus seguidores.

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José Elielton de Sousa é Doutor em Filosofia e professor da UFPI.

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Marcelino Freire: “Sem a literatura, eu despenco…”

ENTREVISTA / Por Wellington Soares, professor e escritor

 

Eu o conheci pessoalmente em 2012, mas já ouvira falar muito dele no meio artístico. A nosso convite, Marcelino Freire veio ao 10º Salão do Livro do Piauí (Salipi), realizado, à época, na Praça Pedro II, papear sobre “Amar é crime e outras paradas culturais”.

Em novembro do mesmo ano, fui a São Paulo, retribuindo a visita, a fim de conhecer a Balada Literária, evento cultural idealizado por ele em 2006, e considerado um dos mais importantes do país. Depois desses encontros, não nos largamos mais. Foi amizade à primeira vista.

O filho de Sertânia (PE) veio a Teresina outras vezes, foi o entrevistado da Revestrés#16 e iniciou o projeto Quebras, do Itaú Cultural, por nossa capital; eu, por outro lado, estive noutras edições do projeto e, atualmente, sou o curador, a seu convite, da Balada Literária no Piauí, desde 2017, quando Torquato Neto foi o poeta homenageado.

Além de um grande “agitado cultural”, como prefere ser chamado – organizando feiras de livros e ministrando oficinas de escrita criativa –, Marcelino Freire ainda inscreve seu nome na contemporânea literatura brasileira, destacando-se como prosador dos mais criativos e irreverentes da língua portuguesa.

Contos Negreiros (Prêmio Jabuti 2006/Conto) e Nossos ossos (Vencedor do Prêmio Machado de Assis/Romance) são exemplos, para ficarmos apenas em duas obras, da sua maestria com as palavras. Tem livros publicados na Argentina, México, França e Portugal. O teatro, outra de suas paixões, é espaço onde seus textos costumam reverberar positivamente.

Trancado em seu apartamento, na grande São Paulo, Marcelino nos concedeu uma baita entrevista, na qual deixa claro que, sem a literatura, que exige entrega total, ele despenca literalmente. Bora conferir?

Evocando Fernando Pessoa, indago:  tem valido a pena você dedicar tantos anos à literatura?

Quando alguém chega para mim e pergunta se a dedicação à literatura vale a pena, eu devolvo com uma pergunta: “Se tirarem a literatura da tua vida, o que é que sobra?”. A pessoa fica olhando para mim, pensativa. Uns respondem: “não sobra muita coisa”. Então vá fundo. Enfie o pé nos teus parágrafos e versos e siga, avante e confiante. Agora se a literatura for apenas “mais uma entre tantas coisas, caia fora”. Para qualquer ofício que você escolher, a dificuldade será grande. É preciso entrega. Daí, a literatura é só o que eu sei fazer da vida. Então minha vida é essa… Nenhum arrependimento. Foi feita a escolha e seguirei com ela até o fim dos dias. Sem a literatura, eu despenco…

De que maneira os prêmios literários ganhos impactaram sua vida e definem sua escrita até hoje?  

Prêmio literário é consequência. Se vier, estará ótimo. E, se for prêmio em dinheiro, melhor ainda. Com a literatura, eu gastei todo o dinheiro que eu não tinha. Daí qualquer centavo é lucro. Eu, na minha trajetória, não tenho tantos prêmios assim. Só mais indicações. Das indicações, venci dois: o Jabuti de Melhor Livro de Contos e o Machado de Assis de Melhor Romance. No entanto, longe de ser resposta de efeito, o maior prêmio para mim é quando aparece um leitor, uma leitora. Ou quando eu sou adaptado para o teatro. Amo teatro e sempre que eu sou procurado por um grupo teatral é um prêmio que eu recebo. Muitas peças de teatro, a partir de textos meus, foram premiadas. E muita gente passou a me conhecer a partir do teatro. Isso, de fato, me trouxe mais leitores e leitoras. Logo, o impacto na minha vida, vindo do teatro, é bem grande. Eu me sinto mais vivo quando meus textos sobem ao palco…

 Na sua vasta experiência, um escritor já nasce com talento literário ou aprende em oficinas de escrita criativa?

Um escritor, uma escritora, tem de ter vontade. Tem de ler, experimentar. Tem gente que chega às oficinas que eu coordeno e querem publicar, não querem escrever. Tem gente que quer escrever, mas não quer ler. Todo ofício, o de um motorista, o de um artesão, o de um bailarino, todo ele tem de ter dedicação, estudo, energia depositada ali. Se o cara tem talento, mas não exercita os músculos da escrita, de que vale? Encontre seus parceiros e parceiras de caminhada, eles e elas vão também te ajudar a escrever. É bom você não se sentir tão sozinho nem sozinha nessa estrada… Trabalhe, trabalhe, trabalhe… Fazer é milagroso…

Por que em Ossos do Ofídio, seu livro mais recente, observa-se certa desmistificação da figura do autor e do glamour literário?

Não gosto de me levar a sério. Não gosto de sentir que eu já cheguei lá. Cheguei lá aonde? Odeio solenidade, odeio medalha. Eu sou um trabalhador, entende? Estou em permanente construção. O livro Ossos do Ofídio é um livro para acordar até a mim mesmo. Quando estou sentindo que estou ficando com cara de Jabuti, sacudo o rosto, caio na real. Eu penso em autores feito Osman Lins, em autoras feito Noémia de Souza. Muita gente o conhece, muita gente a conhece, mas muita gente ainda falta conhecer. Daí a fila de leitura é grande. Eu estou na rabeira dessa fila. Não posso me sentir o primeiro em nada. Nem posso me sentir melhor do que ninguém: estamos todos e todas a caminho do mesmo abismo. Escrevi o Ossos do Ofídio para lembrar, a mim mesmo, que sou apenas um entre tantos autores… Lá eu até, às vezes, cago regras. Mas escrevi lá: “eu cago regras, mas dou a descarga”. É bem isso…

Um escritor, uma escritora, tem de ter vontade. Tem gente que chega às oficinas que eu coordeno e querem publicar, não querem escrever. Tem gente que quer escrever, mas não quer ler.

 O que tem levado você, ultimamente, a escrever para o teatro e a aceitar seus textos adaptados para o audiovisual? 

Já falei lá em cima: amo o teatro. Eu escrevo pensando em teatro, sempre. Eu escrevo em voz alta. Estou me aproximando ainda mais do teatro nesses últimos tempos. Recentemente, fui convidado pelo diretor Antônio Araújo para escrever para o Teatro da Vertigem. Os convites não param de chegar. Isso se deve a tanta gente que levou meus textos aos palcos. Aí outros atores e atrizes vão chegando e eu vou indo, vou indo. Também gosto de misturar meu ofício a outros ofícios. Note que sempre convido um artista plástico para um livro meu, um desenhista… Recentemente, convidei um arquiteto para fazer a capa do meu Ossos do Ofídio. Se a gente fica convivendo só com os nossos, a gente atrofia. Eu quero conhecer mais astronautas no meu caminho, entende?

 Que sensação você experimentou ao ser convidado pela José Olympio a abrir uma coleção histórica da editora – no caso, Seleta de Contos de Marcelino Freire – que fez muito sucesso no passado?

Quando eu fui convidado para relançar a série Seleta, e com capa exclusiva do mestre Ciro Fernandes, eu disse para mim: “agora já posso morrer”. Eta danado! Eu tenho comigo a Seleta em prosa de Clarice Lispector, a Seleta em Poesia de João Cabral. Daí figurar nessa série é uma glória. A ideia da Seleta é que o autor ou autora escolha, dentro de sua própria obra, seus textos preferidos. Eu escolhi meus contos preferidos a partir de todos os meus livros publicados. Eu dei à Seleta o subtítulo de Por Pior Que Pareça. Para não parecer que estou escolhendo meus melhores contos. Longe disso. Escolhi, sobretudo, os contos que as pessoas mais me pedem, mais comentam, mais adaptam para o teatro. É uma Seleta coletiva essa, de alguma forma.

Em 2017, a Balada Literária homenageou lindamente Torquato Neto em três capitais: Teresina, Salvador e São Paulo. Qual o motivo dessa celebração e que papel exerce o referido evento na cultura nacional?  

Olha, eu posso dizer que, entre todas as edições da Balada Literária, essa de 2017, em homenagem ao Torquato, foi a melhor de todas. Porque aí começou a parceria com Teresina de fato. A Balada Literária acontece no Piauí, desde lá. E nunca vi, na história da Balada Literária, uma edição que trouxesse tanta gente ligada ao homenageado. Vieram leitores e leitoras piauienses e gente de todo o canto do Brasil. E senti que o evento, de alguma forma, ajudou a relembrar e a impulsionar ainda mais a obra maravilhosa do Torquato. A Balada é outra desde esse tempo… Agradeço muito ao escritor e parceiro Wellington Soares. Sem ele, essa forma renovadora da Balada Literária não existiria. E também agradeço ao parceiro e poeta Nelson Maca, que, há tempo, faz com a gente a Balada acontecer na Bahia. A Balada Literária me deu muitos irmãos, mas Wellington e Maca são sanguíneos, viu? Sem contar toda a equipe baladeira… Ave nossa! A nossa batalha é grande. A Balada é sempre punk de fazer. Já é referência no Brasil. Fico feliz que ela aconteça, a duras batalhas, desde 2006. Eu me sinto mais atuante quando realizo algo assim… Com ela, não me sinto um escritor bundão, entende?