Luiz Alberto Mendes
Blog Title

Títeres e Lampiões

Estamos à mercê de nós mesmos. Óbvio, não é mesmo? Seria de estranhar se esse não fosse o caso. Um prisioneiro sem muralhas ou grades, é um escravo. Um escravo que não careça ser torturado para sê-lo, é um títere. E o que é um títere? Marionete, boneco de pano movido por cordéis. E esses cordéis, por acaso seriam o dinheiro, a propaganda, ou mais precisamente o marketing? Depois de Pavlov, marketing e auto-ajuda “formatam” a mentalidade dos seres humanos.

Penso se o que vivemos na sociedade moderna não faz de nós prisioneiros sem grades. A rotina traz segurança, mas infere recompensa posterior. Ninguém vai se permitir às rotinas cotidianas caso não haja compensações. Até concordo que escolhemos caminhos. Mas as disciplinas e exigências inerente ao caminho escolhido, acabam por serem excessivas. O custo do bem adquirido ou do erro cometido é demasiadamente caro. Tudo vira rotina massacrante que nos submetemos a pulso e mesmo sem acreditar mais em resultados.

O que é um títere (gostei da expressão) na prática social? Alguém cuja vontade não é levada em consideração. Pergunto se a nossa vontade tem sido observada e devidamente considerada. Somos nós que determinamos o que fazemos ou estamos à mercê de decisões alheias? Elegemos nossos representantes, mas é possível que eles realmente nos representem e cumpram com o que prometeram? Tudo depende das conjunturas e da correlação de forças, não é mesmo?

Os funcionários de 1º, 2° e 3º escalões e em cargos de confiança (essa excrescência da gestão pública brasileira) estão apreensivos em todo país. O grupo político que esta no poder e a oposição digladiam: parece o samba do “criolo doido”. Corruptos fingem que atacam a corrupção para que suas falcatruas sejam “esquecidas” e possam produzir mais corrupção ainda. Ninguém quer tirar a Presidenta por motivos reais. É que se ela prosseguir no governo, temem que a Operação “Lava Jato” os leve para a prisão, como alguns poucos que foram. Ou querem que o balcão de “negócios” seja reaberto para que negociações escusas possam se efetuadas. Há muitas pressões, ameaças, exaltações, conchavos, verdadeiras guerras de foice no escuro por cargos e oportunidades. Eles equivalem a mais de 2 anos de chances de riqueza e mordomias plenas e, quem sabe, uma recondução em 2018.

E o tempo, os horários a nos prenderem em suas malhas de aço? Dormimos mais tarde que precisamos e somos obrigados a acordar mais cedo que queremos. Ingerimos alimentos rapidamente para “aproveitar o tempo”. Vivemos mortos de sono. Embora, paradoxalmente, sofrendo de insônia. O tempo é relativo a muita coisa, mas principalmente ao modo de vida e cultura de cada pessoa, de cada sociedade e também de cada espécie.

Os zoólogos afirmam que diferentes espécies de animais percebem a passagem do tempo de maneiras diferentes. Até onde sei, os programas televisivos passam cerca de sete quadros por minuto. Parece que essa velocidade é perfeita para o entendimento humano. Mas veja: para um desses pássaros caçadores de insetos, como o sabiá, deve parecer totalmente desarticulado. Seu sistema nervoso funciona de modo a acompanhar vôos muito mais rápidos dos insetos que caça para viver.

Acho que o problema deve estar no fato de que ordenamos as coisas que percebemos no mundo do modo como sabemos. E, com certeza, deve haver muitos outros muitos modos alternativos. Aprendi vivenciando que deixamos de ter chances de encontrar unicamente quando deixamos de procurar. Por enquanto vamos seguindo, acendendo lampiões para não morrermos no escuro.

**

Luiz Mendes

13/04/2016.

Reportar é ocupar-se com o outro

Por Samária Andrade

Pensei que quase todos os problemas pudessem ser resolvidos com a escrita. Assim, num dia em que eu estava triste, considerei que seria um bom dia para fazer uma matéria. Eu poderia ouvir as histórias de outra pessoa e depois escreveria sobre aquilo, como um antídoto, uma espécie de cura.

Havia algo de egoísmo nisso. Ao ouvir os problemas de outra pessoa, talvez com dificuldades maiores que as minhas, quem sabe eu me confortaria. “Olha aí, você nem tem o maior problema do mundo.”

Bom, para ser sincera não funciona exatamente assim. O jornalista não fica competindo pra saber quem tem o maior problema: ele ou o entrevistado. Até porque, geralmente, a medida em que se conversa, vai-se esquecendo o que lhe angustia, quase como uma terapia. E de repente não há mais egoísmo, mas talvez solidariedade.

IMG_5058

O médico Antônio de Noronha em sua rede e suas histórias, na companhia de Wellington Soares, André Gonçalves e Samária Andrade.

Talvez o jornalismo possa fazer isso vez ou outra: lhe lembrar que não é você o centro do mundo, mas há tantas histórias esperando para serem contadas (algumas talvez esperando para serem respeitadas). E em tempos de crise profissional, quando as formas de jornalismo e o fazer jornalístico são questionados, talvez seja bom que a gente possa lembrar disso: o jornalismo serve para contar histórias – que não são as histórias do jornalista, mas de um outro, que não precisa ser o mais rico, o mais conhecido, o mais inteligente, o mais bonito. Mas alguém. Alguém com sua história.

IMG_1230

O piauiense Chiquinho, em sua livraria na UnB

Eliane Brum disse que para fazer jornalismo é preciso fazer “um movimento profundo que consiste em se desabitar de si para ser habitado pelo mundo do outro”. Ela fala em despir-se das suas visões de mundo, preconceitos, julgamentos, para se deixar habitar por uma outra experiência. E, depois, empreender o caminho de volta, o que não é nada fácil. Ela ainda diz: “Se um repórter não faz este movimento, em vez de escrever sobre um outro escreverá apenas sobre si mesmo.”

 

IMG_5317

Luana Sena ouve as histórias do padeiro Seu João

IMG_5015

Nayara Felizardo, um brinde (só pra conferir se o que o mestre cervejeiro falou faz sentido)

E é claro que esse não é um caminho fácil. Nunca há uma só verdade em uma história. Há sempre contradições, outras possibilidades. Mas talvez essa seja a profissão que mais possibilite essa aventura: desabitar-se de si e ser habitado por outro. Algo parecido talvez experimentem os escritores de ficção ou os atores. Mas estes, na maior parte do tempo, estarão sendo habitados por pessoas que só existem na ficção ou por eles mesmos. No jornalismo não: aqui você se deixa preencher pelas histórias de outro que tem existência real, com suas vivências, alegrias, tristezas, tentativas de querer ser ainda outro. E não vai adiantar você fazer a matéria mais distante ou a cobertura mais internacional se você levou tanto de si que não deu espaço ao outro.

IMG_2903

Victória Holanda: porque nem só o acrobata Arnaldo se desdobra

Noronha-8

Maurício Pokemon: fotografar é também conhecer o outro

Assim, seja na esquina de sua casa, seja no Japão, antes de sair com a sua pauta, desabite-se. Talvez seja esse o movimento mais difícil do repórter: se esvaziar de si e se deixar ocupar pelo outro, sem “pré-conceitos”, liberto do que já sabia antes do encontro. Vale a pena o exercício. Ainda que você se pergunte: e agora, quanto eu trouxe do outro comigo?

Liberdade e preconceito

Tento me reinventar a cada texto. Não suporto me repetir, embora o faça até sem querer. E isso esta se tornando cada dia mais difícil. Já um célebre pensador dizia que depois de Shakespeare ninguém criou mais nada. Sou obrigado a concordar em parte. É só observar o enredo das novelas e dos filmes atuais para enxergar as histórias do grande vate britânico. O que me leva a pensar que não somos livres quanto aos arquétipos históricos. Estamos presos a super permanências históricas e condenados a nos repetirmos.

A população do planeta aumenta 210 mil pessoas por dia; cerca de 3 pessoas por segundo. Essa multidão de novos moradores do planeta vai ficar repetindo o que todos anteriormente fizeram? Liberdade mesmo só existe para aqueles que buscam o novo, inusitado. Tem a ver com expansão, com crescer para todos ao lados. Expandir em termos de conhecimentos para aumentar nossa capacidade de dimensionar a existência.

À medida em que empreendi aprendizado, fui respondendo às minha indagações e entendendo um pouco mais do processo existencial. Então construí uma liberdade especial que pouco tinha a ver com ir e vir apenas. Era um processo ao mundo e às pessoas com meus livros, textos e idéias.

Em muitos momentos, por paradoxal pareça, mesmo aprisionado, estive mais livre do que agora estando do outro lado da muralha. Claro, vou conseguindo por aqui um desempenho bastante razoável. A responsabilidade por nossos dias tangencia a história geral na qual estamos incluídos. No fim, penso, estamos agregados ao destino de todos e temos pequeno espaço para desenvolver o nosso.

Da prisão sai com um único preconceito. Todos os outros a vivência carcerária alijou de uma vez para sempre. Jamais gostei de polícia. Desde muito pequeno, sempre torci para os bandidos. Eram meus inimigos pessoais. Eu os vi cometer muitas barbaridades e sempre com enorme covardia. Sofri demais em suas mãos, desde menino e por décadas.

Então fui pai. Como tudo muda quando temos vidas sob nossa responsabilidade! Nunca havia sido responsável por ninguém. Fui pego inteiramente de surpresa. E estava preso. Vi minha companheira tão frágil e indefesa, com o nenê no colo e comecei a entender meu engano.

Também eu quis sentir que eles estavam protegidos pelas leis e pela polícia. Minha condição de presidiário me colocava inteiramente a mercê. Não podia estar lá para olhar por eles e defendê-los. Essa releitura me ajudou a construir minha cidadania, meu compromisso com a coexistência social. Minha libertação desse preconceito se deu por expansão e não por mudanças pessoais. Todo preconceito limita, cerceia.

Não acredito em transformações ou mudanças. Somos sempre nós mesmos nos fazendo melhores ou piores em relação a tudo o que nos cerca. Quando aprendo tomo posse de um conhecimento que me leva para além do que sou. Posteriormente esse novo entendimento vai ser ponte para novos aprendizados. Sou o que aprende. Aprender é expandir, crescer dentro de si mesmo. Sou todos que fui em camadas superpostas que formam o que sou hoje. Não há limites à expansão.

Com a liberdade não ocorre o mesmo. Somos livres apenas para escolher as regras que mais se adaptam ao nosso sistema pessoal de existência. Vencer um preconceito é avançar em nossa existência. A liberdade de aprender é sempre o primeiro passo e aprender é expandir, ultrapassar, ir além. O homem é um devir, como queriam os existencialistas.

**

Luiz Mendes

06/04/2016.

Cruel como o túmulo

Não sei em que obra foi, mas nela o autor afirmava que o ciúme é uma bomba que, depois de armada, explode cedo ou tarde. E, quando isto acontece, o estrago é grande e insuportável, geralmente caindo na cabeça de inocentes. Começa até com um pouco de charme, sendo visto por muitos como a expressão do mais puro e sincero amor, mas depois engrossa a voz e quer mandar. Pior ainda, inocula em certas pessoas o germe abominável do sentimento de posse, que, como se sabe, traz sempre consigo as nada recomendáveis companhias da intolerância e da violência. OteloAssim, o ciumento só para quando sente o acre e quente gosto de sangue na boca; ou, então, ao perceber que a vítima, mesmo sobrevivendo, dificilmente escapará do infortúnio psicológico, a mais terrível de todas as mortes. A literatura, aliás, tem sido pródiga em explorar esse tema de forma abundante e reflexiva, tanto em textos de autores estrangeiros como nacionais.

Quem não lembra do trágico fim de Desdêmona, a bonita veneziana morta  por Otelo, o marido transtornado que, picado pelo veneno do ciúme, a asfixia com um travesseiro, apesar de se declarar inocente e profundamente apaixonada pelo general mouro. O “caso” entre ela e Cássio, como sabemos, não passava de uma vergonhosa armação do despeitado Iago, tentando ocupar a vaga de lugar-tenente daquele. Quando Otelo tomou conhecimento da diabólica tramoia, o gesto tresloucado e injusto já havia sido cometido por ele, não lhe restando outra saída exceto a morte, enfiando um punhal no próprio corpo e beijando Desdêmona antes de partir também. Com Otelo, William Shakespeare, o genial dramaturgo inglês, criou uma das mais comovedoras histórias de amor já escrita.

No caso de Madalena, a personagem de São Bernardo, o final não foi diferente. Sufocada pelos ciúmes de Paulo São BernardoHonório, que a tinha como esposa adúltera e fingida, ela acaba tirando a própria vida em busca de paz e sossego inexistentes na relação com o agreste fazendeiro. A mania do marido em considerar todos como objetos de sua propriedade – dos escravos até a mulher -, é que pôs tudo a perder. Coitada da Madalena, sem culpa nenhuma no cartório, tendo que aguentar as  suspeitas de Paulo Honório.  Logo ela, cuja única preocupação era educar e dar um tratamento humano aos que trabalhavam na fazenda. Somente depois da burrada feita, agora tentando juntar os cacos da vida através da linguagem, ele reconhece o ser bruto que é: “Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos… Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.” Aqui, nessa verdadeira obra-prima, presenciamos um Graciliano Ramos melhor do que nunca, tecendo uma história instigante a respeito, dentre outros assuntos, do absurdo amor esquizofrênico.

Outro texto marcante nesse aspecto é Valsa Negra, romance da talentosa escritora Patrícia Melo, que relata a conturbada relação entre um maestro cinquentão, bem-sucedido e famoso, e a jovem violinista de nome Marie, de família rica e judia, com quem vive depois de largar a esposa e a filha. Inseguro, embora a nova amante não tenha dado nenhum motivo, chega a pagar a empregada da casa para bisbilhotar a própria mulher, devendo aquela prestar atenção em todas as suas ligações, sobretudo, as de um tal Sandorsky, professor que Marie conhecera emValsa Negra Tel Aviv e por quem tinha a maior admiração. “Se não entender o que dizem, se for outra língua, tente ver se Marie fala Sandorsky.” Obriguei-a a repetir “Sandorsky” várias vezes, e ela me garantiu que jamais ouvira “nada disso” naquela casa. “Você sabe escrever”, perguntei. Dei-lhe um papel, caneta, “escreva aí ‘Sandorsky’. Ela não se saiu tão mal, uma letra esculhambada como a de qualquer semianalfabeto. Tínhamos agora um trato.”

Dos nacionais, o mais conhecido é Dom Casmurro, de Machado de Assis, que mostra um Bentinho implacável e vingativo em relação à Capitu, esposa que o teria traído, segundo ele, com o seu melhor amigo, o ex-seminarista Escobar. Inconformado, manda a mulher e o filho (Ezequiel) para a Europa e os abandona por lá, não querendo mais conversa com os dois. Bento Santiago só readquire a calma interior, se é que podemos falar nestes termos, ao receber a notícia da morte deles. Primeiro, de Capitu, que jamais recebeu resposta, sequer uma, às inúmeras cartas enviadas ao amado; depois, de Ezequiel, que o levou a jantar Dom Casmurromaravilhosamente bem e ir ao teatro, feliz da vida e como se nada tivesse acontecido. Por isso, devemos torcer para que a patológica bomba do ciúme não se aproxime da gente e, caso isto ocorra, que essa pessoa fique léguas de distância de nosso convívio. Nunca esquecer das sábias palavras de Salomão: “o amor é forte como a morte. O ciúme é cruel como o túmulo”.

Caríssimo Bandeira

A conversa com a garotada sobre a tua poética, na semana passada, não poderia ter sido melhor. Todos eles ainda muito jovens, entre 15 e 17 anos, cursando o ensino médio e tendo que encarar, sob um total espanto, a irreverência dos textos modernistas de 22, entre os quais tua obra desponta pelo lirismo comovedor e a espontaneidade da linguagem. Para iniciar esse itinerário de viagem, tomei Estrela da manhã, teu livro de 1936, como bússola a nos guiar por universo tão instigante. Em silêncio e maravilhados, eles ouviram com atenção a melancolia existencial que transborda nos versos introdutórios de Desencanto: “Eu faço versos como quem chora / De desalento… de desencanto… / Fecha o meu livro, se por agora / Não tens motivo nenhum de pranto.”Manuel Bandeira

O mais interessante, meu caro, foi que eles gostaram de tua poesia, tipo de texto que geralmente evitam ler, alegando dificuldade na compreensão dessa escrita literária. Mas ficaram deslumbrados ao constatar que estavam entendendo tudo, cílio tirado do olho com grande alívio. Disseram, aliás, que tu falas a língua deles, de forma simples e sem rebuscamentos, como puderam constatar em Evocação de Recife: “Capiberibe / – Capibaribe / Lá longe o sertãozinho de Caxangá / Banheiros de palha / Um dia eu vi uma moça nuinha no banho / Ela se riu / Foi o meu primeiro alumbramento.” Outro aspecto destacado,  e com o qual se identificaram muito,  é o apreço que tu costumas demonstrar pelas coisas do cotidiano, tão comovedoramente presente no Meninos carvoeiros: “ – Eh, carvoero! / Só mesmo estas crianças raquíticas / Vão bem com estes burrinhos descadeirados. / A madrugada ingênua parece feita para eles… / Pequenina, ingênua miséria! / Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis! / – Eh, carvoero!”

A tuberculose, acredites ou não, é um dado da tua biografia que os fascina muito, não só por lembrar-lhes os poetas românticos da geração byroniana, a quem admiram com paixão religiosa, como também por teres dedicado – até mesmo de forma obsessiva – vários poemas à morte, tema pelo qual se sentem irremediavelmente atraídos, como ficou evidente nos versos de Consoada: “Quando a Indesejada das gentes chegar / (Não sei se dura ou caroável), / Talvez eu tenha medo, / Talvez sorria, ou diga: / – Alô, iniludível!” Ou, ainda, em passagem mais sofrida como em “Morrer sem deixar o triste despojo da carne, / A exangue máscara de cera, / Cercada de flores, / Que apodrecerão – felizes! – num dia, / Banhada de lágrimas / Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.”,  extraída de A morte absoluta.

De tudo, meu saudoso Bandeira, a galera vibrou pra valer foi com as tuas poesias lírico-amorosas, nas quais celebras a mulher brasileira do ponto de vista sensual, através de um canto envolvente e persuasivo, como vemos em Poemeto erótico: “Teu corpo claro e perfeito, / – Teu corpo de maravilha, / Quero possuí-lo no leito / Estreito da redondilha… / (…) / A todo o momento o vejo… / Teu corpo… a única ilha / No oceano do meu desejo…”  Sem falar, tu hás de convir, do amor sublime e bem humorado de Neologismo, quando o sentimento maior de todos escorre de maneira apaziguada nestes versos antológicos: “Beijo pouco, falo menos ainda. / Mas invento palavras / Que traduzem a ternura mais funda / E mais cotidiana. / Inventei, por exemplo, o verbo teadorar. / Intransitivo: / Teadoro, Teodora.”

Da turma lotada que assistiu à aula, sei não, poeta, mas saí de lá com a leve impressão de ter fisgado alguns leitores – espécie ainda rara no meio da estudantada – para a tua boa e sempre confortante poesia, a ser mantida sempre na cabeceira da cama, a fim de acalmar nossa alma e trazer a leveza acolhedora do sono. Entre os outros poemas de Estrela da Manhã, eles curtiram também a tirada filosófica sobre morte/vida de Momento num café; o lirismo exagerado e pungente de Balada das três mulheres do sabonete Araxá; a valorização da cultura popular e da vida no interior de Trem de ferro; e, como não poderia deixar de ser, a triste história amorosa da Tragédia brasileira, na figura apaixonada e patética de Misael. Mas basta de lero-lero, meu querido Bandeira, vida noves fora zero.

(foto: www.algumapoesia.com.br)