Luana Sena
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Vida, doce mistério

Um dia eu me toquei que a bateria do meu celular não tava prestando mais pra nada. Saia de casa cedo e antes do meio dia tava la, 10%. Tomada direto. Carrega de novo. Pausa pro almoço, eu querendo responder o whats, zapear pelos stories: bateria fraca de novo. Comprei outro iphone. Ai veio o questionamento: é a bateria desses aparelhos que não duram mais ou a gente que tá vivendo num nível hard de aceleração que nem as máquinas estão aguentando?

2018 eu vivi uns cinco anos em um. Foi dureza, eu tô cansada – e termino o ano olhando as fotos do povo na praia e pensando: ainda bem que eu me aquietei. De fevereiro pra cá eu não lembro de uma pausa. Todos os meus feriados, domingos e férias foram emendando trabalhos, grudada em e-mail, word e computador. Esqueci o que é escrever com tesão. Virou um fardo, uma obrigação. Prazos e provas, projetos e notas, boletos chegando – eu com aquela eterna sensação da vida passando e eu: o que é que eu tô conquistando?

Também não dá pra reclamar – este ano eu cheguei a postos e lugares que eu jamais poderia pensar. Foi o ano que eu mais peguei em microfone (ooopaaaa), mas pra quem era sempre a mais tímida da sala e tinha vergonha da própria voz, isso é sim uma grande conquista. “Eu descobri que não era tímida, mas sim silenciada”, lembro dessa fala da Monique Evelle e me identifico – aliás, esse foi o ano de conhecer gente massa, entrar pra uns bondes inimagináveis, expandir os limites, retomar laços que eu nem queria ter perdido e essa é a parte muito boa, talvez a melhor de 2018.

Acho que as coisas começaram a correr mais leve quando eu passei a me levar menos a sério – eu posso ser quem eu quiser, eu posso ser um monte de coisas. Nem tudo tem que ser tão cabeça, nem dicotômico, nem preto no branco – inclusive eu tenho fetiche nas zonas cinzentas. Ao mesmo tempo foi preciso me disciplinar – eu tenho noção da profissional que eu poderia ser em todos os aspectos se eu fosse um tantinho menos preguiçosa. É preciso me cobrar, é preciso entrar nos eixos – tatuei uma libélula pra todo dia olhar e não esquecer da importância de manter o equilíbrio. Talvez vem daí meu fascínio pelo não-extremo: a dificuldade de saber o meio termo.

Já na reta final desse ano crazy eu decido mudar de rumo – ou melhor, voltar pro foco do qual eu me desviei distraída – cuidado que sair de uma obsessão é facilmente entrar em outra. Eu tava ganhando um dinheiro que eu jamais sonhei em ganhar pra comprar coisas que jamais pensei precisar. Na mesma rapidez que entra, sai – e toda semana as oito horas do mesmo dia, tava eu lá, na terapia, um espaço autorizado pra ter essa pausa na rotina e chorar. Veja você o quão cruel é um sistema que te obriga a trabalhar para pagar uma sessão com a promessa de te curar dos problemas que o próprio trabalho te causa. Seja honesto com você. Seja transgressor: faça cocô no horário do expediente. Se rebele e não tenha medo de mostrar quem você é – se o que você for, for de verdade.

O meu planner sugeriu a difícil missão de eleger a foto mais feliz de 2018.

Aliás, verdade foi uma coisa tão atraente quanto incoerente nesse ano todo que passou. Eu busquei verdade na política, no trabalho, na pesquisa, nas pessoas e, na maioria das vezes estive cara a cara com um dilema que está no coração da filosofia. De quantas verdades precisamos saber? A quem interessa essa busca incessante pela verdade? Existe, aliás, apenas uma verdade?

Verdade e trabalho deram o tom do meu 2018. E eu adoro o trabalho, eu só me desespero um pouco quando eu paro de enxergar o propósito – a falta de verdade no trabalho. Pra que tanta correria? O que a gente tá ganhando? Afinal, não seriam extremamente relativas essas noções de ganhar ou perder? Quando eu consegui dar respostas convincentes ao meu pai – a pessoa que mais me testa emocionalmente nesse mundo – ou melhor, quando eu percebi que eu não precisava dar essas respostas a ninguém, eu fiquei aliviada e leve.

A minha liberdade incomoda. E ela está na minha escrita, no meu trabalho, na minha dor. Reparei que mais da metade das minhas tatuagens remetem a momentos tristes – a morte do meu avô, a perda da Pudim – e isso talvez aponte para um jeito muito exacerbado e externo que eu tenho de lidar com a dor. Pode ser condenável para alguns, mas pra mim é libertador. E só quem vive a sensação de se ressignificar sabe do que eu posso estar falando.

2018 a gente tretou pra caramba também – foi o ano das máscaras caírem, ano de xangô, não precisa nem ser muito bruxa pra saber disso. O ponteiro ainda tá correndo e até o último minuto vai ter sim gente quebrando a cara. Já tinha um tempo que eu ensaiava esse texto tentando absorver o que vivi e tudo que senti e amadureci – foi um ano de descobertas amorosas incríveis, inclusive sobre novas formas e novos tipos de amor, mais ligados ao efêmero e ao presente, mais conectado a forma apressada de viver as coisas – tipo a bateria do iphone – nada feito pra durar. E foi importante, ao seu modo, cada uma dessas vivências – nem que tenham sido pra deixar saudade ou pra mostrar que em teoria tudo pode funcionar – mas pode não ser adequado para mim.

Autoconhecimento seria o ano em uma palavra. E fico feliz que em tempos onde se pregou tanto o ódio, eu tenha insistido no amor. Eu ainda acho que estar junto é uma forma afrontosa de resistir. Me elogiaram porque eu fui uma lady na ceia de natal: eu não tretei com tiozão, eu ouvi bolsominion levantar a voz pra mim e respondi com meu silêncio. Embora eu tenha aprendido a importância de falar, soltar a voz, me posicionar, faz parte da inteligência estratégica saber sua hora de calar. Escolher as brigas que vale a pena ou não comprar. Às vezes você quer só ter razão, mas às vezes é melhor ter paz.

Por um consumo – inclusive de tretas – consciente, pela retomada do foco, pela busca por um propósito, pela certeza de que tudo que eu quiser vai dar pé: vambora partir rumo a 2019. Um ano novo cheinho de força, de coragem e de vida. E a vida, como resume Caetano, é esse doce mistério.

 

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Obsessão musical

 

Talvez o que estragou tudo entre nós, querida, tenha sido minha intolerância musical, essa paixão desmedida pela Janis Joplin, de querer ouvi-la incessantemente, sem trégua nem pausa. Sem perceber, acabei me tornando um fanático típico, desses que andam por aí implicando com Deus e o mundo, incapaz de respeitar as preferências dos outros. No fundo, acho que você suportou até demais, indo além do limite, pois nada mais insuportável do que um chato, ainda mais sendo roqueiro. Mas só vim perceber isso, acredite, depois de pegar um tremendo pé na bunda de você, de ser trocado logo, quem diria, por um fã de música sertaneja. E o que é pior, por um carinha de nosso ciclo de amizade que, sem eu dar conta, já vivia de butuca em sua beleza. E eu, de otário metido com a Janis, melancólico e triste, ouvindo sem parar Maybe, Piece Of My Heart e Cry Baby, indiferente a você e a todos ao meu redor. Quando tocava Summertime, disparada a mais bonita, podia estourar a 3ª Guerra Mundial que não ligaria a mínima. Educada, você não reclamava nada, talvez até gostasse das canções dela, a “desgrenhada maluca”, segundo alguns de nossos amigos. Ou era amor que sentia por mim? Na época, acreditava que fosse tão somente o desejo de ter um namorado, um marido em potencial, essa paranoia que ainda perturba o imaginário das mulheres, sobretudo, em Teresina. Imbecil, não percebia que, longe de interesse, o amor se manifesta de várias formas, inclusive através do silêncio, poesia traduzida em você como em ninguém. Mal desconfiava que qualquer amor, como disse um grande escritor, já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Amadurecido hoje pelo sofrimento, fruto dessa eterna dor de cotovelo, quem sabe não tolerasse você curtir a Ivete Sangalo, essa tal de axé music sem pé nem cabeça, enlatado baiano pra enganar trouxa. Tá vendo, eu de novo com meus preconceitos, não é mesmo? Engraçado era que você indagava, vez por outra, a razão que me levava a gostar tanto de Janis Joplin se não entendia bulhufas do que ela cantava. Confesso realmente que meu inglês, se é que posso chamar assim, não vai além de “the book is on the table”, único legado assimilado do ensino nas escolas. O diabo é que a música toca na alma da gente, como só essa cantora norte-americana é capaz de fazer, pra nunca mais desgrudar dos tímpanos, independente de entendermos ou não. É naquela voz gritada, num desespero de compartilhar sentimentos, que está sua diferença em relação aos demais intérpretes. Ela cantava não só com a boca, mas com o corpo todo, entregando-se inteira igual enlace amoroso. Não pense que passei a odiá-la, querida, por me retirar ao vê-la chegar com o fulano, ou mal cumprimentá-la. Apenas não tolero ver a felicidade estampada no seu lindo rosto, atestado notório de minha incapacidade em amar. Negar que gostaria de tê-la de volta, merecedor de seus estupendos beijos, não é possível nem sensato. Durmo e acordo diariamente alimentando essa esperança. Difícil é reconhecer que, apesar de tudo, nosso entrelaçar de desejos não daria em nada outra vez, vocacionado que sou à tristeza e à tara por Janis Joplin. “Penso em você com insistência. Se fosse possível recomeçarmos… Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.” Enquanto isso, a saída é afogar as mágoas em Maybe, Summertime…

Over-heróis e poser-heróis

                                                                                                                               Por Heraldo Aparecido Silva

 

Nos primórdios das histórias em quadrinhos, na primeira metade do século XX, os heróis eram conhecidos por suas respectivas áreas de atuação ou contextos, que eram de três tipos: a selva, a cidade ou o espaço sideral. Alguns dos principais representantes de cada um desses ambientes foram Tarzan e Fantasma (selváticos), Dick Tracy e Mandrake (urbanos) e, ainda, Buck Rogers e Flash Gordon (espaciais). Posteriormente, com a criação do Superman, o arquétipo do super-heróismo dos quadrinhos, foi estabelecida uma nova distinção, agora entre heróis e super-heróis; além de seus respectivos antípodas, os vilões e supervilões. Exemplos de super-heróis e super-heroínas são amplamente difundidos nas produções das principais editoras norte-americanas, como a Marvel, DC, Image, WildStorm e Top Cow, dentre outras.

Essa distinção tradicional perdurou até a segunda metade do século XX quando, entre as décadas de 1970 e 1980, paulatinamente, são criados ou ganham destaque personagens que não podem ser descritos ou classificados como heróis/super-heróis ou como vilões/supervilões. Tais personagens são chamados de anti-heróis.

Os anti-heróis têm as seguintes características básicas ou distintivas principais: a transgressão proposital do código moral heroico/super-heróico (sem, necessariamente, agir como vilões/supervilões); o uso de violência extrema para a realização de seus objetivos; o erotismo ou sexualidade exacerbados como instrumentos explícitos de sedução; uma abordagem mais sombria, assustadora e amargurada da realidade; além da apresentação de algum tipo de distúrbio psíquico ou parafilia. São exemplos de anti- heróis, os seguintes personagens: a Patrulha do Destino, de 1963; OMAC, o exército de um homem só, de 1974; Juiz Dredd (1977), Elektra (1981), Dreadstar (1982), Lobo (1983), Gladiador Dourado (1986), Demolidor (1986), Legião Alien (1987), Marshall Law (1987), Orquídea Negra (1989), Spawn (1992), etc. Dentre as obras características do anti-heroísmo, destacamos as sagas: Batman, o Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal. Watchmen (1988), V de Vingança (1982), A queda de Murdock (1986).

Entre o final do século XX e o limiar do século XXI, em decorrência da demasiada exploração da temática sombria do anti-heroísmo nos quadrinhos, chegamos a uma nova situação na qual constatamos personagens que não podem ser simplesmente definidos como heróis, super-heróis ou anti-heróis. Descrevemos tais figuras a partir de duas subcategorias inéditas: a do over-heroísmo e a do poser-heroísmo.

De modo geral, o over-herói caracteriza o desprezo extremo ao super-heroísmo e se distingue em três tipos de modalidades ou formas de atuação: a) pela confrontação (gládio) na qual eles aleijam ou destroem seus opositores heroicos/super-heróicos (e também os vilanescos/supervilanescos); b) pela superação (obsolescência) na qual suas próprias atitudes tornam ultrapassado ou ineficiente o modus operandi heróico/super- heróico; e, c) pela simulação (paródia) na qual a figura heróica/super-heróica é ridicularizada de modo intencional ou não. Sua relação é de extremo desprezo em relação à figura do herói/super-herói e aquilo que ela representa. Não há hierarquia ou exclusão entre as três formas de atuação citadas. Embora o over-herói geralmente priorize uma delas, ele pode oscilar entre as demais ou, simultaneamente, confrontar, simular, superar e simular o super-heroísmo.

Exemplos diversos são: Reino do Amanhã (1996), por Mark Waids; Hitman (1993); The Authority (1999) e Planetary (1999), ambos de Warren Ellis; Sixpack (1997), The Boys (2006) e A Pro (2012), todos idealizados por Garth Ennis; Foolkiller (2008), por Gregg Hurwitz; Esquadrão Supremo (2003), por J. Michael Straczynski; Zumbis Marvel (2005), por Robert Kirkman; Freshmen (2007), por Hugh Sterbakov; Os Supremos (2002), Velho Logan (2008) e Kick-Ass (2008), os três escritos por Mark Millar; O Sentinela (2005) por Brian Michael Bendis; e Halcyon (2010) por Marc Guggenheim e Tara Butters.

Por sua vez, o poser-herói, caracteriza o falseamento dos modelos heroico/super- heróico, ou seja, ele ou ela possui super-poderes, traja vestes heroicas, mas não compartilham do mesmo código moral heroico/super-heróico e tampouco agem como tal. Assim, o poser-herói finge ser alguém que realmente não é, a despeito de suas elaboradas tentativas visuais, linguísticas e comportamentais de tentar parecer como se fosse. Sua relação é ambivalente, pois oscila entre a admiração e a aversão acerca da figura heroica/super-heróica e seu legado.

Exemplos de poser-heroísmo são: algumas fases alternadas do Gladiador Dourado (1986) que antecederam sua participação na saga Contagem Regressiva para a Crise Infinita; o Conglomerado (1990), por Sprouse, Dematteis e Giffen; as personagens Ashley (Mulher-Aranha), Justiceiro e Demolidor, todos na saga O Velho Logan; diversas versões alternativas hipsters dos descendentes dos principais super-heróis e vilões do universo DC, no episódio The Just, da saga Multiversity (2014), por Grant Morrison; vários personagens na saga O Legado de Júpiter (2013), por Mark Millar; a jovem equipe na saga Danger Club (2015), por Eric Jones e Landry Q. Walker.

De tempos em tempos, a sociedade apresenta algum tipo de mudança cultural significativa ou ainda, subgrupos transformam radicalmente seu padrão comportamental, de uma maneira que ainda não pode ser classificada pela terminologia crítica vigente. Assim ocorre no campo das revoluções científicas e no âmbito das ações afirmativas, na área dos direitos humanos, etc. A dinâmica é invariavelmente a mesma: primeiro é criada provisoriamente uma nova perspectiva ou novo padrão atitudinal (de linguagem ou ação). Esse ineditismo gera uma demanda, ou seja, o novo fenômeno já existente precisa ser nomeado, pois é fato incontestável que o mesmo passou a integrar a realidade. Assim, surgem novos termos para designar algo cuja existência é irreversível.

Similarmente, no campo das histórias em quadrinhos, quando surgiram a Patrulha  do  Destino  (1963),  Conan  (1970),  Red  Sonja  (1973),  Justiceiro  (1971), Homem-Coisa (1971), Monstro do Pântano (1971), OMAC (1974) e Wolverine (1974), só citar alguns exemplos, eles foram considerados anômalos porque não podiam ser classificados literalmente como heróis/super-heróis ou vilões/supervilões. Entretanto, como essa era a terminologia disponível na época, eles foram incomodamente conformados ao rigor estrito dessa nomenclatura dualista e que já indicava sinais de esgotamento e exaustão. Posteriormente, nas décadas subsequentes, com a inserção da subcategoria do anti-heroísmo, eles foram devidamente compreendidos e assimilados pela historiografia da arte sequencial. Da mesma forma, atualmente, muitos over-heróis e poser-heróis ainda são chamados de anti-heróis por falta de uma denominação adequada. A proposição das duas referidas subcategorias consiste numa alternativa para lidar com situações como essa, pois conforme acreditamos, a nona arte seguirá com a intensa produção de novos personagens que também não poderão ser definidos como anti-heróis (e, futuramente, nem como over-heróis ou poser-heróis).

Diante do exposto, da mesma forma que o gênero do heroísmo nos quadrinhos amealhou infinitas possibilidades temáticas com a gênese do super-heroísmo, posteriormente, o super-heroísmo também expandiu consideravelmente suas fronteiras temáticas a partir do advento do anti-heróismo. Assim, nessa mesma linha de raciocínio, sustentamos que as circunvoluções paradigmáticas estão longe de encerrar seu ciclo criativo e que, por isso, as novas subcategorias do over-heroísmo e do poser-heroísmo, representam uma modesta, porém relevante contribuição para esse fértil campo de estudos, pesquisas e produção de experiências teóricas, práticas e poéticas no âmbito das histórias em quadrinhos.

Cultura no Natal

Quando o Natal se aproxima, pensamos logo em festa, ceia e presentes. Não necessariamente nessa ordem, não é mesmo? Festa simbolizada na reunião de familiares e amigos. Ceia relembrando o nascimento de Jesus. E presentes, claro, gesto de carinho a pessoas queridas. Enquanto alguns preferem algo caro, outros coisas fúteis, sou dos que optam em dar e sugerir objetos culturais. Baratos em termos monetários, mas expressivos em afetividade, sobretudo, nestes tempos de crise econômica. Vale mais a lembrança, acredite, que o valor em si do presente. Entre eles, destaco o livro, fonte de conhecimento e diversão, que agrada a todos indistintamente. Tanto aos vidrados por leitura como aos que nunca abriram um livro na vida. Os primeiros, por terem um título novo para degustarem no final do ano. Quanto aos segundos, por se verem desafiados a penetrar num universo mágico e de riqueza interior.

Comecemos pelos autores nacionais, publicados por editoras renomadas ou alternativas. Ana Paula Maia é uma excelente pedida. Já ouviu falar dessa escritora carioca? Se não, precisa conhecê-la urgentemente. Não pelo fato de ser jovem, tampouco possuir uma obra ainda pequena, mas por ter uma escrita forte, pungente, das que deixam o leitor com náusea, descrente da vida. Li três de seus livros pra nunca mais esquecer: Carvão animal, Enterre seus mortos e Assim na terra como debaixo da terra, histórias centradas em homens rudes exercendo trabalhos braçais que moldam sua percepção de mundo. O livreto Sertão Japão, de Xico Sá, é outra boa opção também, pela lindeza do projeto gráfico – com xilogravuras de José Lourenço e ilustrações de thais Ueda – e haicais ligando ficcionalmente o país oriental e o Cariri do interior cearense: “chinelo de Virgulino/ solado de samurai/ despiste no destino”.

Dentre os piauienses, vamos com dois poetas da melhor qualidade, que tiveram livros reeditados este ano: Graça Vilhena e Paulo Machado. Com selo da Quimera, a Obra reunida, da teresinense Maria das Graças Pinheiro Gonçalves Vilhena, reúne seus livros anteriores – Em todo canto (1997) e Pedra de cantaria (2013), edição lançada na Balada Literária daqui e de São Paulo, no último mês de novembro. Os versos de Revelação indicam a grandeza dessa poetisa madura, que gosta de refletir sobre as coisas simples do cotidiano e as escaramuças das relações amorosas: “No corpo da noite/ o silêncio é cicatriz/ à luz de velas/ meus olhos velam tua ausência/ doem com os barcos/ Tristíssimas velas/ no horizonte do meu quarto.” Não é que voltamos a ter pra nossa felicidade, 36 anos depois, uma nova edição de A paz do pântano, de Paulo Henrique Couto Machado, obra das mais importantes de nossa poética, um olhar  questionador e cheio de ternura sobre a Teresina marcada pela indiferença do tempo: “na praça marechal deodoro/ às nove horas há velhas com suas memórias/ recompondo o tempo”.

Como não se vive só de literatura, especialmente nesta época, que tal algumas sugestões de música? De fora, destaco os trabalhos estupendos da campo-grandense Alzira E, com o álbum Corte, reunindo dez faixas de tirar o fôlego do ouvinte, entre as quais despontam Em nome de quem e Dízima; e direto da Penha, distrito de São Paulo, nada menos que Anelis Assumpção, com Taurina, um álbum que emociona do começo ao fim, biscoito fino que nos lambuza de tanta gostosura, 13 faixas desnudando o universo feminino: “Naquele dia eu te dava na cozinha / Cê gozava e eu fingia que não tinha amor ali”. Da prata da casa, temos três CDs maravilhosos, todos lançados em 2018, a começar pelo Manual de instruções para, da banda Validuaté, que traz 12 faixas inéditas com pegada romântica e pop. Em seguida, vem Teófilo, do genial artista parnaibano, com dez canções que revisitam sua própria história e certa inquietação social (Globolidanão). E, por fim, Encontros, trabalho que sinaliza a volta da cantora Laurenice França aos estúdios, verdadeira celebração à música e à amizade, a exemplo da faixa Como um bolero, num belo dueto com Agnaldo Timóteo.

Inspiração

Toda vez que vou a Sampa os versos de Inspiração, do poeta Mário de Andrade, saltam da memória e gritam felizes: “São Paulo! Comoção de minha vida…”. Talvez por despertar em mim emoções incontroláveis, de puro prazer. Quem sabe fascínio pela agitação frenética da cidade, metrópole acolhedora de todos os povos do mundo.  Ou ainda, provavelmente, suas vastas opções de atividades culturais, a saciar nossa gulodice estética. Foi o que experimentei lá, tudo isso e algo mais, ao participar da 13ª Balada Literária, entre os dias 20 e 25 de novembro último. Homenageados do evento? Nada menos, assunte bem, que dois artistas excepcionais: Itamar Assunção e Alice Ruiz, melodia e letra em contornos geniais mudando a cara da MPB – “Os meus amores são flores feitas de original…”, como diria o autor de Macunaíma e Pauliceia Desvairada.

Comoção foi encontrar também figuras que, literariamente, inspiram nossa vida de eterno aprendiz de escritor. Fernando Bonassi e Marçal Aquino são duas boas referências dessa instigante viagem com e através das palavras. O primeiro, pela leitura de Passaporte, relatos de viagem com pitadas de humor e olhar devastador; sem falar dos roteiros pro cinema, tais como Os matadores e Carandiru. O segundo, pela envolvente história de amor entre Cauby e Lavínia, em Eu receberias as piores notícias dos seus lindos lábios, romance bem urdido e com toque poético. Quanto ao jornalista Xico Sá, que mediou conversa na Balada, recebi dele presentes maravilhosos: Sertão Japão, livrinho de haikais, ligando o Nordeste brasileiro ao país oriental; e a garantia de sua vinda a Teresina, convite aceito e juramentado, pro Salipi do próximo ano. No Instituto Brincante, bairro Vila Madalena, nada melhor que conhecer e ouvir texto de Sérgio Vaz, poeta dos que mais admiro atualmente: “Enquanto eles capitalizam a realidade, eu socializo sonhos.”

Blubell: Confissões de Camarim.

Quase dando um troço, de tão comovido, levitei com a linda exposição Millôr: Obra Gráfica, no Instituto Moreira Sales, reunião de peças originais que mapeiam, ao longo de 70 anos, os temas mais abordados pelo genial artista carioca – Millôr Viola Fernandes (desenhista, dramaturgo, humorista, escritor, poeta, tradutor e jornalista). No Centro Cultural B_arco, em Pinheiros, fui tomado de paixão pelo talento musical de Blubell, nome artístico de Isabel Fontana Garcia, cantora paulistana que seduz pela empatia no palco e autoria de letras criativas. Na noite da diversidade, dentro da Balada Literária, ela simplesmente arrasou ao homenagear Ângela Maria, cantando alguns de seus inesquecíveis sucessos. Com direito a autógrafo de Blubell, adquiri Confissões de Camarim, de pegada jazzística, que escuto extasiado sem parar.

Emerson Boy e Banda Van Grog: fazendo bonito na antiga terra da garoa.

Como ir a São Paulo, comoção de minha vida, e não assistir ao O Fantasma da Ópera? Em cartaz no Teatro Renault, o musical que completou 30 anos em 2018, inspirado no romance homônimo de Gaston Leroux, sucesso estrondoso da Broadway até hoje, emociona em sua versão brasileira. História centrada num triângulo amoroso – envolvendo uma misteriosa figura mascarada (Erik), a jovem soprano Christine e o aristocrata Raoul –, com enredo e desfecho surpreendentes. Na Paulista, avenida livre aos domingos, curti o blue maneiro de Peter Hassle & Screw’d, banda da melhor qualidade. Mas comoção mesmo, bofetada lírica no Bambu Brasil, barzinho na Vila Madalena, foram os shows protagonizados por Soraya Castelo Branco, acompanhada de Josué Costa, e Emerson Boy e a Banda Van Grog, músicos piauienses fazendo bonito na antiga terra da garoa – “Galicismo a berrar nos desertos da América!”.