Wellington Soares
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Balada LiTHErária

Ouvir falar já havia, mas conhecer mesmo, in loco, participando da Balada Literária/SP, somente ocorreu em 2012, edição dedicada a Raduan Nassar, autor paulista celebrado, dentro e fora do Brasil, pela escrita de dois extraordinários livros: Lavoura arcaica e Um copo de cólera, ambos transformados em filmes. Num pequeno auditório da Livraria da Vila, bairro Vila Madalena, onde ocorre boa parte das palestras, figuei emocionado ao constatar outro formato de feira literária, um acústico que privilegia o silêncio das ideias em detrimento da barulheira estéril nas bienais de livros. Que troca o puro comércio por uma boa discussão sobre temas relevantes da atualidade. Sem falar ainda das produções alternativas e independentes, bem como da valorização de artistas que vivem fora do Sul Maravilha, abandonados à própria sorte, invisíveis culturalmente no país, apesar de talentosos a ponto de encher nosso coração de alegria. Não só no campo das letras, mas nas demais expressões artísticas, tudo junto e misturado, num grande mosaico democrático de nossos distintos brasis, sob a batuta generosa de Marcelino Freire, pernambucano arretado de Sertânia que migrou pra Sampa a fim de escancarar as portas da pauliceia e convidar todo mundo a entrar.

Tomado de paixão pelo evento, voltei lá depois em 2016, ano comemorativo a Caio Fernando Abreu, escritor gaúcho dos mais talentosos de sua geração, com livros que marcam os leitores até hoje: Ovelhas negrasMorangos mofados, ganhadores de prêmios e aplaudidos pela crítica, focando temas sempre instigantes, a exemplo de solidão, morte, sexo e medo. Dele guardo uma frase das melhores já ditas – “Nada em mim foi covarde, nem mesmo as desistências: desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de coragem.” No ano seguinte, não é que estava na Balada novamente, dessa vez pra louvar nada menos que Torquato Neto, anjo torto piauiense que teve a coragem de desafinar, em plena ditadura militar, o coro dos contentes que festejavam o milagre econômico e o autoritarismo das baionetas. Bonito de ver foi o show de abertura, no Sesc 24 de Maio, em homenagem a Torquato com Jards Macalé, Arnaldo Antunes e Márcia Castro, três vozes inconfundíveis e belas sincronizadas num repertório exclusivo reunindo o melhor do cancioneiro torquatiano, ele que foi letrista dos bons da Tropicália e parceiro de grandes nomes da nossa MPB.

Em novembro próximo, estarei em São Paulo, se Deus quiser, participando da 13ª Balada Literária, edição que celebra a obra de dois gigantes de nossa cultura: Alice Ruiz, poeta curitibana, e Itamar Assumpção, cantor paulista. A labuta de Alice com as palavras tem início aos nove anos de idade, escrevendo contos, e aos 16 começa a rabiscar os primeiros versos, gênero que a projeto nacionalmente, sobretudo, ao publicar  seus livros de haicai, poema de origem japonesa estruturado numa única estrofe, curtinho e delicioso de ler: “lembra aquele beijo/ corpo alma e mente?/ pois eu esqueci completamente”. Destaca-se também como letrista, musicada e interpretada por muitos artistas, incluindo o próprio Itamar em Vê se me esquece, parceria das mais exitosas da dupla. Quanto a Itamar Assumpção, temos um artista na mais completa abrangência do termo: compositor, instrumentista, cantor e produtor musical. Criativo e genial, firmou seu nome na cena independente e alternativa de Sampa entre os anos 1980 e 1990, batizada de Vanguarda Paulista, transitando por ritmos variados com a mesma paixão estética – MPB, rock, samba, reggae, rap e jazz. Além das belas canções, a exemplo de Milágrimas e Fico louco, curto bastante uma frase atribuída a ele: “Já tive muitos critérios. Hoje, só vários delírios.”

O sucesso do evento tem levado a Balada para outras capitais, desejo antigo do intrépido Marcelino Freire. Inicialmente, em Salvador, sob a coordenação do poeta Nelson Maca, que a realiza há três anos, indo pro quarto, no Espaço Cultural da Barroquinha e Teatro Gregório de Matos. E desde 2017, sob minha batuta, em Teresina também, no Complexo Cultural Praça Pedro II. Em nossa segunda edição, resolvemos homenagear, como  prata da casa, a autora e professora Graça Vilhena, poeta e mestra que dignifica as letras piauienses. Obra pequena em quantidade, reunindo três livros apenas, mas enorme em valor estético-literário: Em todo Canto (poesia), O jornaleiro de gesso (conto) e Pedra de cantaria (poesia), ilustrado tão bem nos seguintes versos de Desencontro – “Vasculho as manhãs/ e posso respirar-te/ e sentir nos galos/ os acordes de teu nome/ no entanto queimo meu corpo/ no metal das tardes/ em tentativas azuis/ e lilases desencantos.”

Faca

passa um pouco
das cinco e a

faca

que eu trazia
entredentes
está dissolvida
na saliva
que despejo na pia

Quando for entrevistar alguém, não leve seus preconceitos (ou tente não levar)

Por Samária Andrade

Parece fácil. Mas não é. Certa vez, quando Laerte era entrevistada por Marília Gabriela, esta lhe disse “você é uma pessoa sem preconceitos…”. Nesse momento a entrevistadora foi interrompida por Laerte. Ainda que parecesse um elogio, a entrevistada se recusou a ser identificada dessa forma e disse algo como: Tenho preconceitos, sim. Mas vivo resistindo, trabalhando para não tê-los.

Aquela informação ficou comigo. Mas eu só a compreendi de fato anos depois, quando entrevistamos Luiz Alberto Mendes, que estava em Teresina para ministrar oficinas de texto em presídios. Encontramos o escritor, com cinco livros publicados e colunista da revista Trip, num restaurante de comidas típicas onde ele, mesmo fazendo elogios aos pratos, se achava desconfortável: considerava que as pessoas o olhavam.

O que dava a Luiz Alberto essa sensação eram quase 32 anos de presídio. Não sei se alguém olhou de fato para ele, além de nós. Nós olhamos. E nossos olhos tinham preconceito, sim.

Wellington Soares, Luiz Alberto Mendes, André Gonçalves e Samária Andrade. Foto: Maurício Pokemon

Esse preconceito se revelava entranhado nas brechas, entre uma resposta e uma próxima pergunta. Foi assim que, quando Luiz afirmou: “no presídio, os piores caras são os da faxina”, eu prontamente perguntei: “o que é faxina?” – como se nosso entrevistado fosse revelar algo surpreendente. Ele me olhou como quem precisa afirmar o óbvio e disse: “limpeza…”.

Mas o pior viria quando Luiz Alberto contou que foi procurado por um preso que “precisava eliminar o primeiro grau”. Eu pensei: agora temos uma informação quente, e mandei a pergunta: “Quem era o Primeiro Grau?”. Luiz me observou como quem diz: “que entrevistadora maluca” e por fim falou: ele se referia ao ensino médio. Luiz Alberto Mendes era professor no presídio.

Ali eu já havia compreendido (compreender vem do latim cum-prehendere e significa agarrar a coisa com as mãos, como acontece no puro entendimento): só estava em busca de interpretações meio clandestinas para o que Luiz falava porque tinha na minha frente um ex-presidiário.

Essas histórias, depois contadas nos papos sobre mancadas da equipe, foram motivos de muitos risos. Eram também flagrantes de nossas próprias pequenezas. Nunca contei nada disso a Luiz. Não sei se ele vai sorrir ou me achar uma tola preconceituosa. Na entrevista, do alto da sua sinceridade, ele nos disse: “Meu, se você não tem preconceito com preso, tá se arriscado a tomar uns tiros!” – era a forma dele avaliar (talvez justificar?) os olhares desconfiados.

O que sei é que desde então fui aprendendo a admirar mais e mais aquele homem inquebrantável. É dele que me lembro nos dias em que pareço cansada. Depois de nossa entrevista Luiz escreveu um blog na Revestrés, lançou um novo livro, descobriu um câncer, tornou-se consultor de filmes que abordam o tema das prisões, continua a participar de inúmeros Salões de Livros e oficinas de texto pelo país. Quase todo dia registra pílulas de sinceridade e coragem nas mídias sociais. Como hoje, quando escreveu: “Hoje, exatamente hoje, a essas horas, há 14 anos atrás, eu estava sendo solto da prisão, onde ficara encarcerado dos 19 aos 51 anos de idade; 31 anos e 10 meses de prisão. É a única data que penso em comemorar. Só penso. Não tenho dinheiro e não aprendi a comemorar nada. Apenas mais um dia comum como os outros, mas eu sei, sim, eu sei…”.

Gosto de pensar que ele sabe do meu respeito. E agora, sabe da lição que me ensinou: quando for entrevistar alguém, não leve seus preconceitos – ou tente não levar – essas coisas que estão presas na gente. E que não adianta fazer de conta que não existem. Ao contrário, devemos vê-las, identificá-las, arrancá-las a contrapêlo e deixar que sequem. Deixar que sequem fora da gente. Ou elas secam a gente.

Isso serve para uma entrevista e para qualquer coisa que você for fazer na vida.

Para estar vivo

é preciso um pouco
de sorte
um tanto de morte
circulando nas veias
para estar vivo

Jornalismo no espelho: discutindo a relação

Por Samária Andrade

Quando, na edição 34 de Revestrés, fizemos uma autocrítica, enfatizando a relação entre jornalismo e mulher na nossa produção jornalística, encontramos dados que nos surpreenderam negativamente. Chama-se metacrítica a análise que, antes de ser dirigida a um objeto externo, busca enxergar a si próprio como uma tentativa de se avaliar e na intenção de que essa ação se converta em um novo jeito de fazer, constituindo-se em uma busca de sentidos éticos ao exercício da profissão. (Para ver mais sobre metacrítica no jornalismo leia: https://bjr.sbpjor.org.br/bjr/article/viewFile/984/927.  Para ver a matéria autocrítica da Revestrés acesse: https://revistarevestres.com.br/reportagem/me-too/).

Hoje, com a acelerada midiatização da sociedade, quando as tecnologias, os meios e formas de comunicação se espalham por todos os terrenos, o jornalismo fica mais exposto, exigindo, em consequência disso, um exercício metacrítico.

Em geral, o jornalismo brasileiro não tem feito esforços suficientes nesse sentido. É possível argumentar que o próprio meio de comunicação virou produto da indústria midiática, necessitando ser vendido. E quem vai ficar apontando os erros do que deseja vender, não é verdade?

O próprio meio de comunicação virou produto da indústria midiática, necessitando ser vendido. E quem vai ficar apontando os erros do que deseja vender, não é verdade?

Maia, Drumond e Aniceto (2017, link citado acima), buscando o que justificaria essa demência na autocrítica jornalística apontam a cumplicidade comercial e política de parcela expressiva das mídias tradicionais, que nos coloca diante de um quadro no qual a (auto)crítica foi subsumida pela “privatização” da profissão.

Os mesmos autores, por outro lado, avaliam que é também possível perceber a potência do trabalho crítico desenvolvido no campo jornalístico. Seguindo esse raciocínio, citam como pontos favoráveis os observatórios de imprensa (produzidos por profissionais da área ou cidadãos interessados nesse debate); a prática dos ombudsman (que no Brasil nunca se estabeleceu de modo sólido) e também a crítica de caráter acadêmico. O jornalismo já é um tema estudado por diversos campos, como Sociologia, Ciência Política, Antropologia, Linguística – muitos desses estudos adotam perspectivas críticas que ajudam a analisar o jornalismo. Não seria um desperdício se o próprio ensino do Jornalismo abrisse mão desse tema?

Mas o maior espaço de oportunidade para a autocrítica jornalística ultimamente pode ser encontrado nas contranarrativas que as mídias alternativas têm interposto no fluxo de informações da mídia corporativa. Algumas dessas críticas são explícitas e feitas de modo sistemático, outras são difusas e outras ainda empregam uma ação performativa, que não apenas rejeita o que é veiculado na chamada grande mídia, mas testa formatos e coloca ações em prática, negando o instituído. Ainda que esses formatos e ações também possam ser merecedores de críticas, eles ajudam a dar emergência e visibilidade a um panorama metacrítico no interior do campo do jornalismo.

Sabemos que não é fácil colocar-se como objeto de si mesmo. A Revestrés levou 34 edições e quase seis anos de produção para perceber a importância da empreitada. Outro ponto importante foi tornar a discussão pública, buscando interação com os leitores (aquela autocrítica interna já é obrigação e nem se fala mais disso).

Em recente atividade na universidade, quando se discutiu a autocrítica de Revestrés exposta na reportagem citada, foi-nos perguntado se a escolha de uma mulher transexual como entrevistada na edição seguinte à pesquisa teria sido influência desta. Certamente, pois uma autocrítica deve tentar provocar modificações, ou não terá cumprido de fato o seu papel . E essa é uma discussão que não se encerra: a prática metacrítica deve ser uma constante, como um caminho que pode contribuir para se enfrentar uma burocratização na profissão.