Sergia A.
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Uma naja no planalto

 

— Vó, tem uma naja no meu condomínio!

— Tá doida, menina? A naja não vive por aqui. Aí no planalto tem outras serpentes, literal e metaforicamente!

Por um bom tempo o WhatsApp se manteve mudo. Nada no FaceTime. E a avó, a 1.700 km de distância, em pânico. Por mais que tudo parecesse inverossímil, havia sempre a certeza da dúvida. Hoje tudo é possível. Principalmente quando falamos de Brasília.

Inquieta, procuro notícias. Os portais me dizem que no planalto central um rapaz está entre a vida e a morte por conta de uma picada de naja. O instituto Butantã, em São Paulo, tinha apenas uma dose do soro antiofídico específico, que o hospital aguardava enquanto uma hemodiálise tentava reduzir a carga tóxica do seu sangue. Um menino de classe média, jovem, saudável e com uma vida toda a seguir.  Estudante de veterinária na UNB. Pronto. É o suficiente para o sono ir embora. Decido ligar.

— É verdade, mãe! A polícia ambiental esteve no condomínio para averiguar porque os pais do rapaz moram aqui. Mas já encontraram a cobra em outro lugar. Fica tranquila!

Como ficar tranquila? Pergunto aos meus botões depois da despedida. Não consigo entender o que aconteceu com o mundo. Parecia haver um caminho, um rumo, uma saída. E, de repente, tudo desandou.

Quando eu era criança, não tínhamos educação ambiental na escola. Valia o que a minha avó dizia:  com a natureza não se brinca, se respeita! Valia para os banhos de cachoeira, para a contemplação das exóticas lagartas de fogo, para casas de maribondo e para as ondas do mar. Por inúmeras vezes, vi minha mãe matar cascavel quando ainda não existiam as leis de proteção e as instruções sobre os procedimentos adequados. Elas invadiam a nosso quintal no período das cheias do riacho que corria a poucos metros dali. Talvez fôssemos nós os invasores daquele espaço de reprodução. Não sei. Só sei que minha mãe precisava agir e nos proteger. O ato drástico era um alívio enorme para ela, que tinha visto um irmão agonizar sob o veneno de uma delas. Alívio também para a menina amedrontada que eu era. Cresci e trouxe comigo o pânico desses répteis escorregadios e traiçoeiros (os ambientalistas juram que não e eu tendo a acreditar. Racionalmente eu sei que o ataque é uma defesa, mas aqui o estereótipo me cai bem).

Morando a muitos metros do chão em um grande centro urbano, vi com alegria a educação ambiental chegar às escolas. O que minha avó dizia, agora era ciência e exigia estudo. Por incentivo da empresa em que eu trabalhava, fiz um curso de Gestão Ambiental.  Como vibrei com os conceitos de sustentabilidade. Pensar no equilíbrio econômico, social e ambiental era garantia de futuro!

Dormi. Acordei com esse susto instalado no planalto central. Desde quando resolveram voltar a acreditar que leis ambientais atravancam o progresso? (ui! progresso é uma palavra que me causa arrepios!). Desde quando resolveram reativar o entendimento de que destruir a natureza é sinônimo de avanço? Desde quando resolveram que somos livres para criar najas no cerrado mesmo com a lei, a ciência e a natureza dizendo o contrário?

Não tem como não associar o fato com a tristeza de saber que o poder instalado no planalto nega a ciência, desmontou estruturas de fiscalização ambiental e, na área de economia, tem a mente enterrada lá pelos anos 1970.  Como é que retrocedemos tanto em tão pouco tempo? Como nos deixamos envenenar em doses diárias desse discurso letal?

Não sei se o rapaz, que assumiu o risco de conviver com serpentes fora de seu habitat, sobreviverá. Espero que sim. Espero também que esse seja um tempo de reflexão, para ele e para nós que estamos adormecidos pelo encantamento de tipos diferentes delas. Que desperdício para uma vida que podia aprender com a natureza e fazer tanto pela humanidade! Que desperdício para um povo que vive sobre uma terra rica e exuberante, porém não sabe lidar com ela! Que desperdício!

Uma volta na Frei

Por Allyson Jullyan dos Santos Nascimento

 

Uma volta na Frei, respirando o ar da Liberdade, é cedinho e tem um sol limpo e harmonioso e só a São Benedito que quer desabar. Estamos com uma pandemia e no jornal não se fala de mais nada, nem de nós mesmos. Sigo na Antônino Freire e vejo o Karnak, estou cansado de ver ele ali, e vejo até além das paredes do próprio.  – Burle Marx que o fez: o jardim. Existe uma epistemologia clara na execução dos pensamentos ali expostos e a filosofia política não passa de uma matéria da graduação. Volto-me a esquerda e olho mais uma vez para a Frei: uma volta na Frei e o Santo preto está do lado de fora da Igreja, trepado, lá em cima: carnaúba e carnaubais. Um lugar tranquilo agora naquele momento e espaço, um jazz de reflexão explode num dado momento e misturado à autofagia da reflexão surge um debate: expressões intolerantes e humanas, de um lado, e os pombos, bem- ti- vis, rolinhas e pardais, de outro. Caldo de cana. Alguém está à beira da rua mas ninguém o vê. Chega a hora de uma filosofia de vida que dê conta desses extremos, significações tão claras de decadências humanas. Os pássaros voaram e tenho a impressão de liberdade.

 

 

O jornalista, a fonte e o danado do texto

Por Samária Andrade

A sinopse do filme é suficiente para chamar a atenção de quem é jornalista. “Fred Rogers (Tom Hanks) foi o criador do Mister Rogers’ Neighborhood, um programa infantil de TV muito popular na década de 1960, nos Estados Unidos. Em 1998, Tom Junod (Matthew Rhys), até então um cínico jornalista investigativo, aceitou escrever o perfil de Rogers para a revista Esquire. Durante as entrevistas para a matéria, Junod mudou não só sua visão em relação ao seu entrevistado, como também sua visão de mundo”.

A promessa de A Beautiful Day in the Neighbourhood (2019) é redentora e pode ativar o bichinho crítico e desconfiado que existe na gente. Mas ali há outros elementos interessantes: o jornalista conhecido, a revista Esquire (que ganhou fama na década de 1960 pela qualidade e inovação nos textos, ainda que anos depois adotasse o estilo muito-mais-propaganda-que-conteúdo-editorial) e o homem que fez sucesso na TV ao criar um programa infantil diferente: ao invés de brincadeiras e competições, promovia discussões sobre temas pouco falados aos mais jovens, como divórcio, racismo, ciúmes. O programa Mister Rogers’ Neighborhood permaneceu no ar por 33 anos e teve mais de 900 episódios, de 1968 até 2001. Rogers já tinha 40 anos quando criou o programa infantil e o apresentou até os seus 72 anos. Ele faleceu em 2003, aos 74.

Capa da revista Esquire com matéria de Tom Junod sobre senhor Rogers.

Mas voltemos ao jornalista/jornalismo: escrever sobre Rogers não agradou Junod. Manter-se como jornalista investigativo garantia mais prestígio que entrevistar um senhor na faixa dos 70 anos que era celebridade na TV falando com crianças, usando fantoches e, às vezes, parecendo criança.

Mas nem sempre o jornalista faz a pauta que quer. A editora da revista avisou que fariam vários perfis de pessoas que poderiam ser tidas como “heróis” e que os jornalistas se dividiriam entre os personagens. Para Junod, restou o senhor Rogers. Mas por que? – quis saber. “Ele foi o único que aceitou ser entrevistado por você” – disse ela.

Pois é. Nem sempre a fonte tem o jornalista que quer.

Junod era um profissional premiado, mas igualmente conhecido por expor os “pecados” dos entrevistados. Rogers não se intimidou e fez dos encontros com o jornalista quase uma terapia para este.

Foram inúmeros momentos de observação da fonte: nos bastidores de gravação do programa, no metrô, na casa de Rogers. O cético Junod esperava pelas contradições do apresentador, por alguma falha de caráter, pelas misérias tão humanas. Irritou-se quando se viu respondendo perguntas (“Você teve algum amigo especial quando criança, Tom? Seu amigo especial tinha um nome, Tom?”), enquanto deveria estar fazendo-as.

Diante das dificuldades do jornalista, a editora chegou a pedir que ele escrevesse apenas 30 linhas e entregasse logo o texto. Mas Junod foi se envolvendo com Rogers, querendo entender se era possível alguém ser legal de verdade, em que momento o personagem se desmancharia após os 30 minutos de gravação diária.

O longo perfil de Rogers escrito por Junod teve como título “Can You Say … Hero?”, virou capa da Esquire e foi a base para o roteiro do filme A Beautiful Day.

Para um jornalista, o filme não é imperdível. O texto de Junod para a Esquire, sim.

O relato é montado como um quebra-cabeça, com partes que se encaixam e que, de repente, talvez pudessem mudar de lugar.

Por vezes é escrito como se falasse com uma criança – explicando coisas de modo muito simples. “Arquitetos são pessoas que criam grandes coisas a partir dos pequenos desenhos que desenham em pedaços de papel”. Ou “Um relógio é uma máquina que diz às pessoas que horas são”. Na verdade, são explicações complexas. Tal qual Rogers fazia na TV.

Por fim, o texto é literatura demais para ser jornalismo!

Como quando o jornalista narra o encontro com o senhor Rogers no vestiário do clube onde este nadava todas as manhãs. “Aqui está ele, de pé em um vestiário, com setenta anos de idade e tão branco quanto o coelhinho da Páscoa, coberto de geada onde quer que ele tenha cabelos, roído nas manchas cor de rosa onde sua pele seca ficou descamada, ligeiramente ferido no pescoço, ligeiramente curvado no ombro, ligeiramente afundado no peito, ligeiramente curvado nos quadris, ligeiramente curvado nos dedos dos pés … E, todavia, quando ele fala, é a sua voz, a famosa, a inconfundível, a televisiva, a voz vestida de suéter e tênis, a suave, a tranquilizadora, a curiosa e expositiva, a voz que soa adulta aos ouvidos das crianças e infantil aos ouvidos dos adultos”.

E como você, jornalista, falaria sobre um dia de gravação de um apresentador de TV num zoológico com uma gorila chamada Koko, que havia aprendido a língua de sinais?

Junod escreveu como literatura.

“Koko era muito maior que o senhor Rogers. Ela pesava 280 libras, e o senhor Rogers pesava 143. Koko pesava 280 libras porque ela é uma gorila, e o senhor Rogers pesava 143 libras porque ele pesava 143 libras desde que era o senhor Rogers, porque era uma vez, cerca de trinta e um anos atrás, o senhor Rogers subiu em uma balança, e a balança disse a ele que o senhor Rogers pesa 143 libras”.

Aqui, Junod usava um dia de gravação apenas como “gancho” para expor, na verdade, o que lhe intrigava mais: que Mister Rogers parecia metodicamente sempre igual (até no peso) desde que se converteu em um personagem de TV. Mas, por escrever como literatura ele não nos diz isso desta forma, mas daquela.

Mais do que ver o filme, leia o perfil. Ele é didático para se pensar: como montar o quebra-cabeça do texto, como começar, como concluir, como intercalar partes, como “apresentar” personagens, como contar cenas.

E nos lembra: ser um tanto literatura, sem abandonar a técnica jornalística, pode levar a um jornalismo melhor. Talvez seja isso que estejamos precisando.

Para ler a matéria de Tom Junod para Esquire, acesse:

https://www.esquire.com/entertainment/tv/a27134/can-you-say-hero-esq1198/

 

Aquele abraço

Há pouco mais de 15 dias, boa parte das pessoas de quem vale a pena se dizer amigo hoje completou cem dias de solidão. 100 fucking dias confinado. Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que a quarentena seria quarenta dias? Logo depois começamos a trabalhar com a ideia de que, bom, talvez durasse até o fim do semestre – mas o semestre parecia algo ainda muito longe também de acabar. E fomos todos aprendendo a repetir que, tudo bem, “isso tudo vai passar” – sem se tocar, talvez, que, o que vai passando enquanto a gente espera tudo isso passar é também um pouco de vida.

Você não tá quarentenando bem se ainda não pintou uma parede, tentou fazer pão ou cortar o próprio cabelo. Acreditou que teria audiência se, why not?, começasse a usar o IG TV – os casos mais críticos se atreveram a baixar o oriental TikTok. Virou o louco do skincare, achou uma caixa de fotografias, intitulou-se mãe de planta, tentou vestir o pet, pediu um delivery totalmente dispensável na madrugada e depois ficou se remoendo de remorso porque, afinal, morte ao capitalismo e a exploração da mão de obra precarizada – fica tranquilo, amanhã acontece o #ApoioBrequeDosAPPs e você pode postar isso nas suas redes e ser absolvido de sua tão grande culpa. Será o seu canudinho no oceano, fica só aqui entre nós.

Fomos lançados a um confinamento compulsório. É tipo um BBB, mas sem prêmio, sem liderança e sem desejo algum de sair lá fora porque, tal como o leão do Roberto Carlos, o corona está solto nas ruas. Quem, durante este confinamento, obrigado a sair para serviços essenciais não sentiu um misto de pânico e prazer, que atire a primeira pedra. Não negue que no fundo, bem no fundo, ali depois do calafrio e da sensação de quase morte ao ter que topar com pessoas amontoadas na fila da padaria ou batendo um pão de queijo com as mãos dentro do supermercado, sentiu uma mini felicidade por estar de volta a uma cena cotidiana da qual um dia fizemos parte. O drama é que meio segundo depois dessa sensação, o prazer dá lugar a certo desespero – estou me arriscando no meio de uma pandemia por um pedaço de queijo fresco, é isto mesmo, Brasil? – e a luz da razão que geralmente gira em meia fase se acende e você quer correr, chorar, gritar, sei lá, dar três tabefes em um bolsominion. A frustração invade todo o ambiente.

A geração da conexão tornou-se também a única capaz de promover o descontato humano. Você consegue lembrar a última vez que deu aquele abraço?

Estamos – nós, os privilegiados – isolados, confinados, hiperconectados. Será? No 4º mês somente cedi as lives – não sei ainda se gosto, mas tal qual Caetano já aprendi a mandar corações e me sinto “vivo, muito vivo”. O que não quer dizer, no entanto, que não sejam tristes, muito embora se pretendam alegres. Especialistas pipocam em telas o tempo todo e de repente a angústia do não saber se estamos aproveitando tudo se transfere do real pro virtual – se é que se pode dizer que havia, ainda, ao menos uma só pilastra de sustenção nessa pretensiosa divisão. Outro dia perdi a live muito interessante de um amigo porque estava eu mesma presa em minha própria live. Segmentados, juntos, distantes, próximos e separados. Excesso também pode ser escassez.

Talvez você esteja preso com pessoas que escolheria levar pra Lua se possível fosse se mudar pra lá. Talvez esteja a um passo de jogar sua companhia pela janela porque ela nem de longe seria alguém com quem você escolheria passar o resto da vida trancado. Talvez sozinho esteja lidando tão bem com a solidão – que não significa estar solitário: cedeu aos encontros online, as festas no zoom, as videochamadas (você lembra que isso um dia foi um recurso que a gente abominou?) – que nem se deu conta de que houve um tempo em que considerávamos importante e defendíamos a coisa do contato humano. Paradoxalmente, a geração da conexão tornou-se também a única capaz de promover o descontato humano. Você consegue se lembrar a última vez que deu aquele abraço? Desculpa ser eu aqui, do nada, te trazendo essa verdade, viu. A live do Gil me destruiu.

 

 

Todo destino é o chão

 

Antes que os apressados vejam no título uma justificativa para palavras proferidas pela boca suja do senhor que ocupa o poder central deste país, informo que se trata do último verso do poema Ícaro de Adélia Prado. É sim, uma referência à insignificância da vida humana e está aqui como provocação para afirmar, logo de início, que toda vida importa. Ainda que para o indivíduo a morte seja um destino inevitável, é o modo como esse indivíduo nasceu, cresceu, se desenvolveu e morreu que dá sentido à existência da humanidade.

Em julho de 2011, publiquei no blog Palavrasde.Lirantes o texto Há um segredo. Lá estavam presentes a questão ambiental e a preservação da vida na Terra. Reli por esses dias em que uma coisinha minúscula, que nem sequer possui vida fora de um corpo humano/animal, nos enclausura e nos obriga a enfrentar uma crise que não é apenas sanitária, mas econômica, ambiental, política e de valores. É a crise. A encruzilhada que nos pede para rever o nosso modo de vida e escolher um novo caminho. Portanto, é daquele texto que parto para dissolver em palavras a angústia que fez morada no meu peito, trazendo velhas questões: quem somos, como chegamos até aqui, para onde vamos?

Pois bem, para não sufocar faço o exercício de sair de mim para ampliar a compreensão do que seja vida. Se um acaso a gerou e não se tem, ainda, certeza de sua existência em outro ponto do universo, a vida é uma preciosa raridade. O que não deixa de ser um paradoxo diante da realidade cotidiana repleta de banalidades, que nos faz passar por ela sem pensar, ou da naturalização das interrupções que podiam ser evitadas.

Quando escrevi o texto, uma revista científica dizia que o código genético dos chimpanzés difere do humano em apenas 1%. Ou seja, um pequeno detalhe torna a raça humana única na imensidão cósmica e perpetua atavicamente o traço egocêntrico. Um traço que a levou a dominar o fogo e em consequência ocupar o planeta como se este lhe fosse um presente dos deuses, uma generosa dádiva para satisfação de suas necessidades infinitas. A inteligência avançou a passos largos dividindo cada palmo da Terra, dominando seus recursos. Decidiu, muitas vezes de forma violenta, quem teria direito ao usufruto. Irredutível, criou um braço tecnológico. Segue seu caminho na sequência de dias banais por ela denominados anos, séculos, milênios que correm em fluxo para alimentar o que chamam de História.

Inventaram relógios na tentativa de apreender o tempo ou dar asas à tola ilusão de controlá-lo. Ora, esquecem que não são os ponteiros que fazem nascer ou findar o dia, ou os calendários que fazem mudar as estações. Com ou sem relógios, enquanto houver sol, a inclinação da luz dará um tom alaranjado ao despertar do homem e a escuridão cobrirá suas noites. Com ou sem calendários, os campos se vestirão de flores na primavera e as folhas cairão no outono, graças a um movimento natural que influencia a vida na terra, a dança dos astros no universo.

Ao vê-la de longe, o homem repetiu atônito que a terra é azul. O distanciamento permitido pela tecnologia revela o seu valioso mundo como apenas uma bola coberta por um gigantesco manto azul. Alheia, a bola flutuante segue seu curso iniciado há milhões de anos, em um constante processo de transformação. De rochas fumegantes à glaciação, da pangeia aos diversos continentes, dos dinossauros ao homem deixa marcas em cada era. Entre elas a marca tranquilizadora de um espesso manto azul que vem garantindo no fluxo do tempo o ato de respirar. Ato que foi negado a um homem negro por um homem branco que pressionava o seu pescoço, em uma cena levada ao mundo pela tecnologia que nos fala tão de perto. Ato que é negado aos meninos pretos do meu país por homens investidos do poder das armas. Ato negado à população pobre do meu país (negra ou mestiça, em sua maioria) por um homem branco que diante de uma pandemia nega a ciência e a inteligência, levado ao poder pelo mau uso da mesma tecnologia que toca de perto as pessoas.

Vivemos o caos com duas certezas bem óbvias: a pequenez do homem diante do universo e a sua dependência do ar. O oxigênio que preenche, gratuitamente, as ruas vazias lá fora. É só ele que nos basta. É a esse elemento que ora nos agarramos, atentos à possibilidade de prolongar e intensificar o doce sabor da vida.

Protegida pelo vidro da minha janela vejo lagartixas espreitando moscas, andorinhas dançando no azul. Fito o beija-flor que invade o jardim florido em mais um gesto banal. O bico alongado, em desespero, busca energia para manter o movimento de suas asas frenéticas, satisfazendo o desejo instintivo de preservar a vida. O bicho-homem, em desespero reproduz o desejo, buscando respostas para o seu enigma. O destino do indivíduo é o chão pelo tempo natural. Antes disso só quando lhe são brutalmente negadas as oportunidades de inspirar e expirar. Já o destino da humanidade, esse está irremediavelmente associado ao legado de cada um desses indivíduos durante o percurso dos seus passos rumo ao chão.