Wellington Soares
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Marleide Lins: “O poema conciso me atrai por ser leve e imagético”

Por Wellington Soares, professor e escritor 

 

Ela é uma pessoa intensa, a Marleide Lins, das que se entregam inteira a tudo que planeja. Tanto na vida pessoal quanto nos projetos culturais. Não faz nada pela metade ou mais ou menos. Quer como escritora, militante feminista, designer gráfico, editora e ativista política. Estou pra conhecer outra igual a essa paulista que veio ainda criança morar em Teresina. Daí minha profunda admiração por ela.

Sua trajetória literária percorreu caminho semelhante ao das grandes poetas dentro e fora do Brasil. Primeiro, adquiriu o gosto pela leitura desde cedo, hábito que a possibilitou viajar por infinitos horizontes. Segundo, descobriu alguns autores que a acompanhariam ao longo da vida, dentre outros, Maiakovski, Bashô e Bandeira. E, por último, decidiu ser escritora ao ler, em especial, duas obras: Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, e Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.

Embora tenha feito alguns rabiscos antes, a estreia em livro somente ocorreu aos 17 anos, com Sub-vivo, impresso em mimeógrafo (1979). Depois vieram, para deleite dos leitores, outros títulos, entre os quais Oito para ela (1992), Interno/externo (2002), Plexo solar (2010) e Lirismo antropofágico e outras iscas minimalistas (2016). Sem falar ainda, claro, de participação em antologias coletivas.

Marleide Lins tem preferência por textos curtos, tanto no verso como na prosa, estética que ela batiza de “incisão de gorduras”, estruturada de forma densa e profunda. O poema conciso me atrai por ser leve e imagético, diz ela, enquanto é fascinada por mini e microcontos. Ao invés da inspiração, coloca-se diante da escrita como uma operária da palavra, humildemente em busca da alquimia verbal e da síntese temática.

Como ela se põe toda no muito que faz, parafraseando Ricardo Reis, sem exagero nem exclusão, deixemos que seu brilho literário nos ilumine nesta entrevista.

Que acha da afirmação de George Braque, pintor francês, quando disse que “a arte é uma ferida transformada em luz”? 

L’art est une blessure qui devient lumière. Sim, a arte, ao revolver os nossos modos de subjetivação, fere, sangra e, às vezes, deixa cicatrizes. Creio q todas as autênticas linguagens de arte passam por este processo: ferida/treva q se torna “luz” ao funcionar como antídoto do próprio veneno causador da úlcera. Percebo em mim, especialmente, como produtora de literatura, o seu veneno e bálsamo. Antes eu dizia “poemas são luzes nas trevas”, hoje eu sei q são, também, “Luzes das trevas”. E mais além, por conexão, a arte/ferida/luz é contagiante, alcança outras pessoas, cria asas e se recria. Entre distintos, ela passa por processo semelhante ao habitar outras solidões. Salve, salve George Braque e a saga dos “malditos franceses”.

Quando sua mãe queria castigar os filhos, ela os obrigava a ler e contar-lhe o resumo da obra. Essa é uma boa estratégia pra se criar o hábito da leitura nas crianças? 

“Criar filhos é um ato político”. Gostaria de contextualizar: minha mãe nasceu em 1924, em Valença-PI. Aquele cenário rupestre, pleno de significados, cercado de signos pré-históricos e histórias de “cabocos brabos”, não dizia muito para Dona Cândida. Sua avó fora “pega no laço”, e isso não se repetiria com ela, “não aceitaria o cabresto do pai, generoso, mas tão rude com as filhas.” Minha mãe, menina, tinha outros anseios e forjou asas. Casou-se, se tornou viúva e se casou com o meu Pai. Viajou, trabalhou bastante e não teve tempo para estudo, mas gostava de ler romances. Minha mãe quis nos oferecer conhecimentos e cada um, ao seu modo, absorveu as suas lições e não “castigos”. Ela comprava enciclopédias, coleções de escritores brasileiros e estrangeiros e os grandes pensadores. Exercia o seu papel de mostrar limites e apresentar caminhos, buscava mudar o foco daquilo q ela não considerava saudável ou ético, usando como estratégia o mundo da literatura (além de “tacas”…). Era para pensar e não deixar criar teia de aranhas naquele investimento. Enquanto q no Brasil parte dos genitores “espancam” seus filhos, na Itália o “castigo” é mandá-los pensar. “Zitta! Resta qui a pensare.” “Silêncio! Fica aqui a pensar”.

Louvo a sua atitude, da aquisição das obras consideradas mais relevantes para a formação do pensamento humano, assim como a utilização desta estratégia para conhecermos mais, incluindo-nos naquele universo além da nossa realidade periférica. Para mim, uma satisfação! Aos quinze anos eu já lia os maiores filósofos, Sócrates, Platão, Schopenhauer… Dos dezessete aos vinte anos busquei Nietzsche, Heidegger, Sartre, Simone Beauvoir, Cioran e Clément Rosset, entre outros e outras. Na literatura, eu já lia Dostoiévski, Proust, Ezra Pound, Fernando Pessoa, entre outros clássicos. Creio que esta intimidade com a literatura promoveu, além do hábito da leitura, a necessidade de escrever. Aos oito anos, muito intimista, a palavra não me funcionava como um signo linguístico de comunicação, mas como abstração. Aproximei-me, à época, de uma literatura considerada fantástica/onírica/nonsense, mas de movimento transgressivo, Alice no país das maravilhas e Don Quixote de la Mancha. Nos meus rabiscos iniciais, aos dez anos, eram perceptíveis as pinceladas surrealistas. Salve, salve, Dona Cândida!

Entre outras, poema curto é característica marcante da sua obra. Qual a razão dessa preferência? 

“Eu não nasci assim…” Em 1979, lancei meu primeiro livro, Sub-vivo, em mimeógrafo, temática sociopolítica, pelo contexto em que vivíamos, no entanto a linguagem poética não era panfletária. Geração movimento literário/libertário conhecido como “Poesia Marginal ou Geração Mimeógrafo”. Um poema da fase: “Na frieza de cada canhão/em ferro/Criam-se ninhos de paz/em fogo/Vão-se aos ares os pombos/em massa.” Entre 1980 e 1987 fui desconstruindo e construindo uma poética para chamar de minha. Segundo o poeta Affonso Ávila, em Discurso da difamação do poeta, “todo criador é tributário de outros no processo de linguagem da poesia”. E Eu flanei do megapoema maiakovskiano e pessoano/Álvaro de Campos (niilista-metafórico), como exemplo, “Teresinália, últimos dias de piauípéria – 1982”, ao concreto e ao haicai. Mergulhei no lago do Bashô, mas não me aquietei com a natureza do “sapo”. Trouxe Olga Savary e Safo, a poeta da “Paideia” grega e de todos os tempos.

O poema conciso me atrai por ser leve e imagético, mas não raso. É denso e profundo. Simples e/ou sofisticado tem alcance imediato, o âmago. A concisão minimalista é traço da minha dicção poética e embora eu faça alguns haicais, ao “modo Guilhermino” e experimentos de tankas, não me considero uma haicaísta. Estou cada vez mais livre, sem amarras. Os meus livros Sem Plano e sem piloto; Oito para ela; Os sinos q dobravam em silêncio e Lirismo antropofágico e outras iscas minimalistas, representam esta estética de incisão de gorduras. Em prosa, escrevo mini e microcontos, mas as “redes sociais” já veiculam a “twitteratura”, outra tendência minimal.

Como editora, que motivação a leva a publicar grupos “invisíveis”, a exemplo de mulheres, imigrantes e exilados políticos? 

A literatura tem significativa importância como elemento de construção do pensamento social e representa a sociedade de um determinado espaço e época. Se ela é produzida e editada apenas por uma elite branca, androcêntrica, misógina e LGTBfóbica q detém o poder, certamente, a sua produção literária não será representativa, mas excludente. É preciso fazer ecoar as vozes gerais q são silenciadas e considerar o discurso e lugar de fala do outro, da outra, do outre. Sofremos de um racismo estrutural q afastou durante anos alguns segmentos sociais da produção do discurso e da literatura. Mulheres, pessoas negras e negros, imigrantes e LGBTQI+ foram intencionalmente colocados no vão da invisibilidade. Na literatura brasileira percebemos vários exemplos. No romance os personagens em sua maioria são brancos e quando a pessoa negra aparece é quase sempre de forma pejorativa. O homem negro é visto como “cafuçu”, desprovido de inteligência e objeto de desejo da mulher branca. A mulher é quase sempre a vilã das relações afetivas. Há uma tentativa, na academia, de embranquecer nomes negros como Machado de Assis e Mário de Andrade, ao tempo em que buscam invisibilizar nomes como Solano Trindade e Conceição Evaristo q não conseguiu ocupar uma vaga na ABL, quem sabe por ser mulher e negra.

Na historiografia literária do Piauí havia uma lacuna entre o século dezenove e meados do século XX sobre a participação da mulher na literatura piauiense. Para mudar este cenário, apareceram algumas mulheres q realizaram investigações e registros. Entre outras, cito a profª Teresinha Queiroz, Olívia Candeia, Algemira Mendes, minha parceira nas produções de literatura e gênero. Publicamos pela Avant Garde Edições a obra Escritoras piauienses – Século XIX a contemporaneidade e mais cinco títulos sobre literatura e gênero. Editei a série “Identidades e Diversidade Cultural”, conquistando a parceria de Síria Borges e de várias instituições brasileiras e estrangeiras, especialmente, de Portugal e países da África. Pelo teor investigativo, científico e cultural recebemos duas chancelas internacionais, “Selo Ano-Brasil/Portugal” e “Selo de Cultura da União Europeia – Artes e Gestos Humanos”. Com o Grupo Matizes publicamos a obra de dupla face Letra da diversidade – Cenas e literatura de livre expressão. Este ano será editada a Antologia Brasil-Moçambique, em parceria com o NEPA-Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro e afro-brasileira/UESPI e CCBM – Centro Cultural Brasil-Moçambique, com a curadoria de Assunção Sousa e Élio Ferreira e apoio do SIEC. Estamos organizando o livro de contos Racconti de farfalle / Contos das borboletas, a partir de laboratório de contos com transexuais brasileiras q residem na Itália e, com o Grupo Matizes, “Letras da diversidade – artigos acadêmicos”, entre outras obras.

Sob que aspecto o erotismo aparece em seus textos? 

O erotismo em alguns poemas meus e em minicontos aparece de forma lírica, imagética e, às vezes, homoerótica. Quase sempre são ficcionais… ou não. Cito este bem cinematográfico q não representa qualquer “escrevivência”: falo versus língua/pinga orvalho/e orgasmo finda. A análise fica a cargo da recepção. Alguns graduandos e mestrandos do curso de letras da Uespi já investigaram em meus livros este presente tema.

De que forma você explica o paraxodo entre a grande quantidade de obras poéticas lançadas e o reduzido número de leitores desse gênero literário

No momento não me considero apta para explicar tal fenômeno. O tema merece mais investigação. Quanto à formação de leitores de poemas, penso eu q se faz necessário descobrir q esta leitura é mais eficaz q “os tarjas pretas” e os livros de autoajuda. Poemas são antídotos fortes em doses homeopáticas, florais de Bach. Apresentar livros de poemas infantis a essa faixa etária, talvez seja a estratégia, pois é revolver subjetividades e incentivar o hábito à leitura. Eis o desafio: fazer com que a criança tenha intimidade e aprenda a brincar com as palavras desde cedo, interpretando-as e seus fenômenos oníricos e lúdicos, pois q este gênero contribui para a formação do imaginário criativo. Ponte entre o mundo real e o simbólico. Alguns pedagogos afirmam q a leitura poética pode contribuir, também, para o desenvolvimento cognitivo e sensibilidade estética. Portanto, é bastante significativo o empenho de alguns professores e professoras na formação de grandes leitores.

Que conselhos você dá a quem quer ser escritora? 

Conselhos? Difícil para algo tão intimista, mas diria q a leitura dos clássicos e dos contemporâneos, de todos os gêneros, se faz extremamente necessária, além da intimidade com a língua q se escreve. Outro ponto, importante não criar expectativas em relação à crítica, recepção da obra exposta. Clarice Lispector dizia não escrever para ninguém, apenas para si. Sim, também compreendo a escrita como necessidade orgânica e solitária, mas ao dar à luz a obra, a mesma cria asas. Então é escrever… escrever e escrever…e relaxar.

Nathan Sousa: “Literatura é, antes de tudo, um ato de prazer”

Por Wellington Soares, professor e escritor 

 

De supetão, ele resumiu assim a história: “Você foi meu professor no Colégio Objetivo, perto do Verdão, lá pelo ano de 1990. Sala 2M306, até hoje na memória, com aulas maneiras de literatura – viagens nas quais embarquei de corpo e alma.” Lembrar tudo isso, acredite, é sinal que fiz bem o dever de casa em sala de aula. Sensação gratificante essa de marcar a vida dos nossos ex-alunos.

Mas o melhor ainda estava por vir, quando Nathan Sousa, feliz da vida, me presenteou com O percurso das horas, seu livro de estreia, lançado em 2012 no Salipi. De cara, gostei de Combate, texto em que diz, metalinguisticamente, que “escrever poemas/ é como rasgar a camisa,/ mostrar o peito,/ se armar com uma faca cega,/ olhar no olho do mundo/ e autorizar:/ pode vir”. Ali deu pra perceber, diante da atitude desafiadora frente à escrita e à própria existência, um escritor que cavaria um lugar de destaque na literatura. Dentro e fora do estado.

Ser lembrado pelos alunos é algo maravilhoso, imagina reencontrar um deles que, sob o ponto de vista da leitura e da escrita, supera de longe o antigo mestre do ensino médio. É a glória total nesses casos. Além de torcer pelo sucesso na carreira literária, fui tratar de ler sua obra, hoje premiadíssima, e acompanhar seu crescimento literário.

Destaco entre os catorze já publicados, englobando poesia e ficção, os seguintes títulos: Um esboço de nudez (2014), livro finalista do Jabuti57; Nenhum aceno será esquecido, seu primeiro romance; Semântica das aves (2017), Prêmio Internacional Vicente de Carvalho (UBE/RJ); e Anfíbia (2019). Em todos eles a literatura, pra nosso deleite, transformada em exercício estético, a novidade em linguagem para espanto e estranheza do leitor.

Agora vamos conferir, sem mais delongas, o porquê da literatura, segundo Nathan Sousa, ser um ato de prazer.

 

Você acredita também que a escrita, como afirmava Drummond, é uma luta vã? 

Certamente. Porque a palavra nada mais é do que um artefato rudimentar que encontramos para que possamos dar vazão a uma necessidade orgânica que é típica dos seres humanos: a comunicação. De algum modo, precisamos expressar algo. Ainda que seja para ninguém. Como disse Ferreira Gullar: “é próprio da palavra/não dizer/ou/melhor dizendo/só dizer”. Portanto, lutar contra as próprias armas não é uma luta perdida; é uma luta sem sentido.

Em que momento o garoto de São Gonçalo meteu na cabeça que seria escritor? 

A paixão pelos livros se deu ainda na infância, quando minha mãe comprou, de um vendedor ambulante, em Santa Inês (MA), lá pelo final da década de 1970, uma coleção de livros infantis para mim e para a minha irmã. Sou filho de um caminhoneiro e eletricista rural, e de uma professora do primário que também era artesã. Tratava-se da coleção “Reino Colorido da Criança”. Mas foi somente na década de 1990, quando eu já estava na Universidade, cursando Economia, que eu, totalmente tomado pela literatura, ainda que de uma maneira um tanto boêmia, procurei amadurecer a ideia. Confesso que quase tudo em minha vida aconteceu de maneira tardia. Curiosamente, eu não pretendia enveredar pela poesia, mas pelo romance. Até que um dia, já em 2010, instigado pela leitura de poetas como Marina Colasanti, Ferreira Gullar, Salgado Maranhão, Rainer Maria Rilke e Carlos Drummond de Andrade, eu suspirei fundo e mergulhei na realidade. Para que o primeiro livro saísse, vendi um Ford Del Rey que eu ganhara de meu pai, e que eu o batizei carinhosamente de “Bob Dylan”, e contei com o apoio da prefeitura municipal de São Gonçalo e com a ajuda de uma tia. O milagre aconteceu em agosto de 2012. Saiu, então, meu primeiro livro: O percurso das horas.

Como explicar o fato de continuar desconhecido entre os leitores, apesar de ser hoje o autor piauiense mais premiado? 

Ocorrem alguns fenômenos paralelamente para explicar essa questão. Primeiro: eu nunca tive apoio ou dispus de condições financeira suficientes para tirar mais de 1000 exemplares por edição, o que torna o meu poder de distribuição limitadíssimo. Segundo: só consegui publicar meus livros através de editoras pequenas, ou seja, que esbarram na dificuldade anteriormente citada. Terceiro: poesia é o gênero menos lido e, talvez pela sua estrutura linguista, pelo uso de metáforas e por seu poder de concisão, desperta menor interesse de leitura na população. As premiações me ajudaram muito a divulgar meu nome. Não a divulgar meus livros. De modo que acabei caindo em uma armadilha: sou muito conhecido entre os escritores e leitores de poesia, e pouco conhecido entre leitores de prosa, ou seja, ainda sou desconhecido para o público maior de leitores.

Por que você afirma em Anfíbia, texto que dá nome a uma de suas obras poéticas, que “nasci para parir o esquecimento”? 

Por ser poeta e, como foi tratado na questão anterior, representar uma voz que é praticamente inaudível. Por saber que a minha expressão atinge muito poucas pessoas, considerando que pouca gente se interessa, verdadeiramente, por poesia. Mesmo sabendo que a condição de “ser poeta” não depende desta realidade. O poeta não escolhe ser poeta. Há uma força inexplicável que o torna assim. Ainda assim, há uma constatação estranha (e feliz): tal esquecimento não representa uma limitação que nos impossibilite de continuar escrevendo que a poesia nos chama. Sem querer cair na vala comum, é uma atividade artística-existencial que se parece muito com a do semeador. Se a planta vai nascer, aí são outros quinhentos.

De que forma sua obra dialoga com a música e o cinema? 

Sou letrista de uma maneira quase acidental, porém, a relação da minha obra com a música ocorre de modo muito intenso. Sabemos que escrever poemas e escrever letra de música são ações com propósitos diferentes, o que acaba nos levando a “dançar” a mão sobre o papel de maneira diversa. No mais, a sonoridade que eu busco no poema beira a uma espécie de canto extinto; de uma oração deixada por algum profeta em um lugar remoto. Do cinema, eu me atenho à formação de boas imagens, como se fossem fotografias em movimento, além de projeção de um tempo que ainda dorme, dada a minha afeição a filmes como Blade Runer e Mad Max, tendo em vista que trabalhar essa perspectiva de novas formas de vida e linguagem me atrai muito. É comum você encontrar essas formas em meus poemas. Há uma comunicação – e isso se dá de maneira intencional – com diversas artes porque eu sinto essa necessidade, ou seja, de me banhar em rios, mares, açudes e lamaçais para sentir que estou dizendo algo que vai além de um simples relato. Como eu já disse em um poema: “Nada do que escrevo vem dos desertos”.

Quais temas perpassam indelevelmente sua literatura? 

O corpo, a geografia (mais humana do que física), a memória e a própria linguagem. Olhando o percurso de minhas horas, agora que muita coisa se passou, percebo que sempre estive intrigado com essa relação: homem-mundo-linguagem. Talvez aí esteja a sombra de Mário Faustino ou mesmo de Ezra Pound, mas nada disso me acompanha sobre as águas da consciência. Ainda assim, eu posso dizer, sem titubear, que o tempo é o tema soberano na minha produção, independente do gênero.

Certo país adotou como punição, aos que eram pegos sem máscara, a leitura de livros. Que pensa dessa medida? 

Peço aos deuses e deusas da literatura que isso nunca aconteça com meus livros. Literatura tem que ser, antes de tudo, um ato de prazer. Ninguém vai tomar gosto pela leitura por métodos que não despertem tesão. Ninguém passou a ler ou ler mais nessa pandemia por causa do confinamento. Quem leu mais é porque já gostava de ler. E escrever, por sua vez, é uma representação da volúpia. Ler é um descortinar interminável de rotas para o desconhecido. Se isso não acontecer, vão apenas engrossar a fila dos que detestam a leitura. O livro é um pássaro, e ter a leitura como punição é ter que contemplar esse pássaro na gaiola. Na boa: não dá pra mim!

Sérgia A: Escrevo por deleite e necessidade interior

 

Por Wellington Soares, professor e escritor

Eu já a conhecia há bastante tempo, desde as lutas estudantis na Ufpi dos anos 1980, quando reivindicávamos uma educação superior de qualidade e o fim da ditadura militar. Tempos memoráveis aqueles. Sua faceta literária, no entanto, era desconhecida por mim. À distância, tinha conhecimento que se formara em Letras e concluíra o mestrado em Literatura: memória e cultura, ambos na Uespi.

Voltamos a nos encontrar depois, com regularidade, nos saraus literários que eu organizava na Livraria Anchieta, toda quarta-feira de cada mês. Foi aí que ela, ainda de forma tímida, começou a ler alguns poemas e contos de sua autoria. Os aplausos recebidos sinalizavam que o público havia gostado, com pessoas querendo, inclusive, adquirir seu livro. Pena os textos existirem, na época, apenas em folhas avulsas e na própria memória.

Um belo dia, estava eu na Revestrés e ela apareceu, dotada de coragem, manifestando vontade em estrear na literatura. Com os textos em mão, queria ouvir minha opinião se valeria publicá-los em volume. Em tom de brincadeira, mas falando sério, recorri aos sábios versos de Fernando Pessoa: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Sendo assim, disse que deixava os originais de Quatro contos comigo e que assinaria o livro como Sérgia A.

Não tardou muito para a obra, em formato artesanal, ser lançada ao público pela Quimera. Sob a benção de um chuvaceiro, a noite do coquetel, na cafeteria O Guarany, não poderia ter sido melhor e mais animada. Nascia ali, para espanto dela mesma, uma escritora que, com um único livro, inscrevia seu nome entre os talentos da atual literatura piauiense. A vertente poética surgiu em 2019, com a publicação de Adejo, pela Venas Abiertas, uma editora mineira.

Como não ler essa entrevista maneira de uma ex-bancária e quase engenheira civil que, por meio do binômio leitura/escrita, resolveu trilhar os inquietantes caminhos da cultura?

 

A poesia não resolve, revolve, escreveu o poeta William Soares. Você concorda?

Sim, me parece uma boa definição. William foi certeiro como sempre. Entendo que a poesia está no mundo e se revela ao olhar do poeta/artista como um espanto. Traduzir esse espanto em palavras e torná-lo espelho é o labor do poeta, assim como traduzir o espanto em desenho, pintura, música, dança, cinema etc. é o trabalho de outros artistas. O verbo resolver traz a ideia de apresentar uma solução ou uma resposta. Enquanto revolver, pelo contrário, é revirar, mostrar o lado encoberto, instigar… causar incômodo ou levar à reflexão. É o que a poesia faz.

Mesmo ligada ao mundo das letras, por que demorou tanto a publicar um livro?

Já me fiz essa pergunta e cheguei à conclusão de que existem duas razões que estão interligadas. A primeira é pessoal, por insegurança em relação à qualidade do que eu escrevia ou medo da exposição. A segunda nasce da desigualdade de gênero e da distância dos ditos “centros culturais”, que ainda são fatores presentes no mercado editorial. Há algumas décadas era muito pior, não havia internet (sou desse tempo). Até os livros chegavam com dificuldade e já passando por uma “seleção” feita pelo olhar masculino dos livreiros. Uma menina criada no Piauí crescia sem referências próximas, palpáveis, acreditando que aquele mundo era inalcançável. Poucas escritoras conterrâneas de gerações anteriores ou da minha geração superaram todas as barreiras e abriram o seu espaço. Aí retornamos à primeira: pra enfrentar é preciso ter um suporte ou acreditar muito em si mesma. Eu não contava com uma coisa nem outra. A coragem só veio com a maturidade.

Em qual praia literária você fica mais à vontade pra lutar com as palavras: poesia ou conto?

Uma pergunta difícil de responder porque meu processo criativo é meio caótico. Dificilmente me sento diante de uma folha em branco com a decisão sobre que gênero literário escrever. As ideias me chegam e são elas que definem o próprio rumo. Faço anotações sobre o que vejo, o que escuto, o que sinto… dali com transpiração, e muita pesquisa se for o caso, pode nascer um poema, um conto, uma crônica ou outro texto fora dos trilhos.

Ao contrário do passado, hoje despontam várias mulheres em nossa literatura. Alguma explicação pra isso?

Eu não tenho dados para citar, mas é notório que nos últimos anos cresceu o número de publicações de literatura produzida por mulheres como também essas publicações passaram a ter a qualidade reconhecida em premiações. Credito esse avanço a uma conjunção de fatores. Entre eles, a expansão dos estudos de literatura e gênero nas universidades na última década que jogam luz sobre a produção feminina; a eclosão de movimentos como o Mulherio das Letras e clubes de leitura como o Leia Mulheres que incentivam a produção e a leitura respectivamente. À medida em que mais mulheres produzem literatura maior a possibilidade de se encontrar qualidade nessa produção que diversifica o olhar. Assim como à medida em que mais mulheres são lidas maior a possibilidade de reconhecimento e valorização dessa produção. Isso cria uma reação em cadeia que influencia o próprio mercado editorial.

Sua obra está mais sintonizada com as causas feministas ou políticas?

Bom, eu não diria que o que escrevo tem uma causa além da própria arte de escrever. Não escolho os temas. São eles que se apresentam dentro do meu espanto diante do mundo. O “Quatro Contos”, por exemplo, são histórias que se guardaram em mim, ouvidas aos sussurros na infância/adolescência vivida sob uma ditadura militar. Portanto, os dois aspectos estão dentro de mim e ressoam. Sou mulher, mãe e avó de meninas… não tem como a minha obra não ser atravessada pelo feminismo. É uma questão de sobrevivência. Da mesma forma que por sermos humanos, somos seres políticos e manifestamos nas criações as angústias do nosso tempo. Nesse sentido, o feminismo é abarcado pelo político que seria então a causa maior. Como disse a poeta polonesa Wislawa Szymborska no poema “Filhos da época”:

“O que você diz tem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.”
Dá pra viver e ser feliz com literatura?

Viver no sentido de ter a literatura como fonte de renda é quase impossível neste país. São poucos os casos de autores, mesmo os consagrados, que vivem da sua arte. Felizes são os que têm atividades paralelas vinculadas como o ensino de literatura ou produção cultural. Sob esse ponto de vista, o fato de ter dedicado longos anos a outra carreira profissional me favorece, me deixa livre para escrever e ser feliz. É um privilégio. Escrevo por deleite e necessidade interior. Sem pressão. Não conseguiria mais viver de outro modo. Mesmo com todas as angústias que a sensibilidade traz sou feliz por ter encontrado esta forma de expressão. É um canal para extravasar o que me sufoca por tristeza ou por encanto, às vezes até inconscientemente. Catarse, talvez!

O isolamento social tem favorecido ou prejudicado sua escrita?

Como todo mundo, vivi fases. O mais fácil foi ficar em casa porque já trabalhava assim e nunca tive vida social agitada. O problema é a sensação de impotência, de ver a humanidade inteira ameaçada por algo invisível, desconhecido. No início não conseguia produzir. Depois de um tempo a gente se adapta, se organiza mentalmente e a coisa flui. Participei de grupos de estudo à distância com incentivo à produção que me ajudaram a manter o foco. Alguns eventos literários importantes nos facilitaram o acesso, pelo formato on-line. Mantive minha rotina de leitura. Escrevi pela primeira vez um conto de terror, para uma edição muito bonita que reúne 15 autoras, como se estivéssemos em uma roda em que mulheres usam a ficção para lidar com o medo. 2021 trouxe a esperança da vacina e o desespero de tantas mortes diárias, cada vez mais próximas, que poderiam ser evitadas se tivéssemos um governo preocupado com a vida a exemplo de outros países. Novamente fico abatida, mergulho na dor que nasce da percepção de que não aprendemos (nós humanidade) muito sobre o que o vírus nos diz: somos um todo, estamos conectados, se o coletivo não estiver bem o indivíduo não estará… Respiro fundo (enquanto posso) e sigo encontrando refúgio em novos projetos. Penso que, no cômputo geral, a minha escrita manteve o ritmo.

 

Biografia

Sérgia A. vive em Teresina-PI. É mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura. Tem publicações acadêmicas e literárias em revistas culturais e coletâneas diversas, sendo mais recente a coletânea de contos de terror COVEN (Editora Desdêmona, 2020). Escreve para o blog Do Caminho, site da Revista Revestrés. Autora dos livros Quatro Contos (Quimera, 2018) e Adejo [poemas] – Coleção I Mulherio das Letras (Venas Abiertas, 2019)

Vanessa Trajano: “A literatura é um projeto e uma missão de vida”

Por Wellington Soares, professor e escritor

 

A literatura é um projeto e uma missão de vida

Foi ao ler Mulheres incomuns que conheci Vanessa Trajano. Era sua estreia na literatura, ano de 2012. Um livro de contos que, à primeira vista, não se dava muito por ele. Projeto gráfico tímido, meio artesanal. Mas o impacto forte, soco no estômago, não tardou pra nos tirar a respiração. Texto a texto, era uma pancada só, com o fôlego retornando, aos tantinhos, apenas no final – saboreada a última história.

Ali percebi o desabrochar de uma escritora que, com destemor, alargava os horizontes das letras piauienses, substituindo a escrita comportada, vigente até então, pelo sentimento de estranheza. Deixando claro que, em termos literários, a vida pulsa sem mistificações. Ainda mais quando, focada na liberdade, traz, sem pudor nem moralismos, o exercício estético do erotismo.

Depois vieram, lidos com sofreguidão, outras pauladas: Poemas proibidos (2014), textos “obscenos” com ilustrações ousadas, pouco recomendável aos preconceituosos; Doralice (2015), romance  inspirado numa garota interiorana que, limitada por condições socioeconômicas, sonha em voos maiores para si; e, finalmente, Ela não é mulher pra casar (2019), reunião de 24 contos sobre mulheres que desafinam, cada uma a seu modo, a cultura machista cerceadora de direitos e felicidades.

Mas deixemos de lero-lero, como diria Bandeira, e ouçamos o que tem a nos dizer essa autora teresinense radicada em Brasília, mestra em Estudos Literários pela Ufpi e professora de língua portuguesa.

 

Mário Quintana dizia que “quem faz um poema abre uma janela”. Quais janelas você está abrindo, hoje, com a sua literatura? 

Acredito que quando as mulheres leem a minha literatura se sentem mais abertas, cobram menos uma postura moral de si mesmas. Porém, infelizmente vejo que escrevo não para a minha geração, e sim para as próximas, pois a janela está sendo aberta lentamente, num processo, como tudo ao longo da história. Nisso os leitores também têm participação, pois alguns (só alguns) entenderam que, na verdade, não existe mulher pra casar e mulher pra pegar, e que o título do meu último livro não passa de uma grande ironia.

Entre tantas profissões, por que você escolheu justamente o ofício da escrita? 

Prefiro afirmar que a escrita me escolheu, pois é a única coisa que persiste até agora. A literatura é um projeto e uma missão de vida. Só alguém com um mínimo de audácia e coragem teria peito para fazer o que eu fiz até agora, e o que ainda vou fazer. Muitas coisas precisam ser ditas, e eu percebo que os artistas e os intelectuais hoje estão indo para o caminho da unilateralidade. Todavia, quando leio os grandes clássicos e filósofos, percebo justamente o contrário: a observação humana, em sua completude. Desse modo, sinto-me obrigada a escrever minhas constatações de mundo (que podem perfeitamente não estar certas, mas isso é outra história).

Como explicar a obsessão pela sexualidade em sua obra e a reação nada cordial de muitos leitores? 

Não diria pela sexualidade, mas sim pela liberdade – o que acaba incluindo o sexo. Todos nós sabemos que se um homem tiver duas famílias ninguém irá denegri-lo por esse motivo, mas se uma mulher der uma simples pulada de cerca veja o que acontece com ela. Um homem pode ter uma vida sexual muito badalada, entretanto dificilmente assumirá relacionamento sério com uma mulher que também tenha, apesar de estar até apaixonado. Então friso nesse ponto justamente para mostrar que podemos ser iguais, pois todos(as)  temos nossos desejos e eles merecem ser atendidos. Acho que é isso que incomoda, porque o conservadorismo consiste justamente em querer que as estruturas permaneçam como estão, sem prenúncio de qualquer mudança. É uma ameaça tanto para aqueles que acham mais confortável do jeito que está quanto para as Amélias, porque elas ainda não entenderam que a mordaça que colocaram nelas é puramente social e deve ser desconstruída.

O que a leva a polemizar, nas redes sociais, com algumas mulheres? Você não é feminista? 

Como a Fernanda Young, demorei a me assumir feminista, não por negação à luta, pois a minha postura sempre foi de questionar a tudo e a todos, desde criança. Demorei devido ao fato de perceber certas questões nos bastidores que me conduziram, num primeiro momento, a generalizar quem carregava essa bandeira de maneira estúpida com suas ações incoerentes. Eu já fui atacada verbalmente por outra mulher na frente de cinquenta pessoas, já me xingaram para o meu melhor amigo sem saber disso, fora inúmeras histórias que eu poderia contar, mas isso aqui não é uma revista de fofoca. Então não acho que seja bem uma polêmica, é uma reação legítima. Levo a falta de noção dos homens até numa boa, pois eles se encontram numa engrenagem viciosa em que foram educados a nos cobiçarem como forma de provarem a sua macheza. Mas eu simplesmente não admito sofrer violência vinda de outra mulher, ainda mais se ela se diz feminista, porque aí subentende-se que é esclarecida e não deveria agir de tal maneira. Eu jamais polemizei com mulher alguma nas redes sociais, eu apenas expus, com indignação, como me senti em determinadas situações – até porque nunca coloquei nome de ninguém nessas postagens. E a respeito desse assunto, estou produzindo um Documentário, que se chama: A DESunião faz a FORCA! Sairá ainda este ano, com direção e roteiro de Camila Maia e montagem de Marcos Aureliano.

Verdade ou absurdo quando a comparam à escritora francesa Anaïs Nin? 

Se eu disser verdade estarei sendo muito orgulhosa, se responder absurdo serei injusta com o Feliciano Bezerra, quem primeiro me chamou de Anaïs Nin tropical, lá em 2012. Como a admiro demais, tal comparação é uma verdadeira honra. Estudei-a no mestrado, a minha dissertação é sobre a obra dela. Então, posso afirmar que essa relação é fundamentada sim, embora considere que falta muito para chegar ao seu patamar. 

De que forma não só a literatura como a cultura em geral ajuda a salvá-la nestes tempos de pandemia e isolamento social? 

Não está sendo um período que eu consiga produzir algo, mas o bom é que ando consumindo bastantes séries, filmes, livros e documentários. Se não fosse essa válvula de escape, seria bem pior. Não digo só por mim, por todos. A arte é, talvez, a única forma de  lembrarmos que ainda existe vida, da forma mais catártica que ela pode ser.

Em qual espécie literária você viaja com mais desenvoltura: poesia, romance ou conto? Explique. 

Considero-me uma contadora de histórias. Então se me atrevo em versos, às vezes, é porque pretendo escrever um enredo um tanto mais lírico e em outro formato. É sempre uma ficção, procuro nessa “mentira” dizer algumas “verdades”. Portanto, o melhor ambiente para mim é, sem dúvida, o da prosa. E ela escolhe se quer ser longa ou curta. Prefiro ler romances, mas me saio melhor nos contos enquanto escritora – embora a palavra final seja do público e da crítica.

 

 

 

 

Marcelino Freire: “O artista, nessa pandemia, deu ‘asas’ às nossas ‘casas’.”


Entrevista por Wellington Soares, professor e escritor
Foto: Antônio Andrade

Eu o conheci pessoalmente em 2012, mas já ouvira falar muito dele no meio artístico. A nosso convite, Marcelino Freire veio ao 10º Salipi, realizado à época na Praça Pedro II, papear sobre “Amar é crime e outras paradas culturais”.

Em novembro do mesmo ano, fui a São Paulo, retribuindo a visita, a fim de conhecer a Balada Literária, evento cultural idealizado por ele e um dos mais importantes do país. Depois desses encontros, não nos largamos mais. Foi amizade à primeira vista.

O filho de Sertânia (PE) veio a Teresina outras vezes, foi o entrevistado da Revestrés#16 e iniciou o projeto Quebras, do Itáu Cultural, por nossa capital; eu, por outro lado, estive noutras edições do projeto e, atualmente, sou o curador da Balada no Piauí.

Além de um grande “agitado cultural”, como prefere ser chamado – organizando feiras de livros pelo país e ministrando oficinas de escrita criativa -, Marcelino Freire inscreve ainda seu talento na contemporânea literatura brasileira, destacando-se nos textos em prosa: Contos Negreiros (Prêmio Jabuti 2006/Conto) e Nossos ossos (Vencedor do Prêmio Machado de Assis/Romance).

Trancado em seu apartamento, na grande São Paulo, Marcelino nos concedeu uma baita entrevista. Bora conferir?

Evocando o poeta Fernando Pessoa, indago se a peleja em organizar a Balada Literária durante esses 16 anos valeu a pena?
Vale a pena, a purpurina, a fantasia. Faço porque não me aguento… Dizem que eu sou agitador cultural. Não, eu sou “agitado”. Agitar para sair do lugar. Aliás, você também, Wellington, eita escritor, eita professor agitado…

Qual a importância da cultura na vida das pessoas, sobretudo, em tempos de pandemia e isolamento social?
A cultura abre a nossa alma, nos faz companhia, ajuda a gente a enxergar… Nessa pandemia mesmo, tantos e tantas artistas que vieram nos abraçar, olhar nos nossos olhos… Veja, por exemplo, Chico César. Quantas canções inéditas ele fez no Instagram. Cantando ali do quintal da casa dele para dentro da nossa casa. O artista, nessa pandemia, deu “asas” às nossas “casas”.

Comparada aos anos anteriores, como você avalia a edição virtual de 2020?
A gente não deixou de fazer. Quando eu digo “a gente”, eu digo: você, no Piauí; Nelson Maca, na Bahia; e eu, aqui, costurando essas pontes em São Paulo. Vocês são meus parceiros “baladeiros”. A gente fez a Balada virtual nas mesmas datas em que havíamos programado sem saber da pandemia… Que homenagem linda fizemos, nacionalmente, a Geni Guimarães. Ficou aí, tudo gravado. Somos resistentes e não ficamos “parados”. Agitamos sem sair de casa… Foi uma Balada histórica e vitoriosa nesse sentido…

O que representa o desmonte da cultura, pelo governo federal, na produção e na vida dos artistas brasileiros?
Não falo de cultura quando me refiro a eles que estão aí, chamo só de “desmonte” mesmo. “Governo”, qual? Federal? Não há uma consciência “federal”… Só “federal” de “feder”. É triste o que acontece. Mas repito: a gente não para. A gente teima. A gente é enfrentamento. Esse o nosso papel: o de lutar “gritando”. Gritando com o que a gente escreve, com o nosso testemunho, com os nossos “livros” em punho. A nossa palavra é um calibre pesado, viu?

Uma das inovações deste ano é a realização da Balada Mês a Mês. Explica os objetivos disso.
Por causa da experiência da Balada Literária virtual do ano passado, achamos que poderíamos mês a mês continuar abraçando as pessoas virtualmente. Por isso, resolvemos fazer um especial da Balada todo mês. Uma maneira idem de a gente organizar a memória do evento, que acontece desde 2006. Temos muito material gravado, daí exibimos. E também tem atração inédita a cada mês, como as “aulas” que acontecem na Sala Paulo Freire. Estamos já nos antecipando ao centenário de Paulo Freire que acontece este ano. Todo mês tem uma aula inédita. Vocês podem assistir tudo pelo canal do YouTube, da Balada Literária. Claro que haverá a Balada Literária anual, em novembro desta vez. Esperamos que seja presencial…

Quem são os artistas homenageados em 2021 nas três capitais e que papel cada um deles exerce na cultura nacional?
Vamos fazer a décima sexta edição da Balada Literária em novembro e resolvemos trazer de volta a poeta Geni Guimarães, desta vez ao lado da escritora indígena Eliane Potiguara. Queremos abraçar e celebrar essa dupla de autoras brasileiras. Se elas são conhecidas, mais gente precisa conhecer. E o que dizer do Marcelo Evelin, aí de Teresina? Conheci por causa de você. O trabalho dele na dança, nas artes, na filosofia de coletividade é algo à frente… Evelin é mundial. Se muita gente o conhece, mais gente precisa conhecer. Sobre a homenageada da Bahia, Nelson Maca está confirmando ainda. Aguardemos em breve o anúncio de mais essa celebração.

Que sensação você experimenta hoje, depois de lançar em 2018 a antologia-manifesto “Lula Livre – Lula Livro”, ao ver restituídos os direitos políticos do ex-presidente?
A gente vem gritando desde o golpe sofrido pela Dilma. Ali começava uma narrativa forjada de “combate à corrupção”. Quando Lula foi preso, resolvemos, eu e Ademir Assunção, organizar uma antologia-manifesto chamada “Lula Livre – Lula Livro”. Reunimos 90 autores e autoras de todo o Brasil. Você está lá com a gente, inclusive. Chico Buarque mandou texto inédito. Raduan Nassar mandou. Roberta Estrela D’Alva, Alice Ruiz. Gritamos por justiça. O prefácio do livro, inclusive, conta dessa narrativa mentirosa. Só agora se deram conta de que tudo foi um erro. Só agora ouviram o que todo mundo estava gritando… Um das maiores farsas jurídicas da história mundial. Com o livro, a gente deu a nossa contribuição no sentido de ter tentado acordar as pessoas. Que bom ter deixado isso em livro registrado: de que lado nós  sempre estivemos.

Algum livro seu para ser publicado ainda este ano?
Pensei que viria um romance. Estou ainda mexendo nele… Infinitamente. Mas vem, sim, um livro de “ensaios” curtos. E estou muito ligado ao teatro. Fazendo dramaturgia para alguns atores e atrizes. Tenho curtido voltar a essa escrita teatral. Achei, adolescente, que eu seria um dramaturgo a vida inteira. Acho que voltei a esse sonho antigo. Estou fissurado nessa volta. Sou muito adaptado para o teatro. Amo teatro. É amor sem fim, viu?