Wellington Soares

Coisas e outras

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André Gonçalves: “Escrevo para que alguns saibam que estive aqui um dia”

ENTREVISTA / Por Wellington Soares, professor e escritor

Já são tantos anos de amizade que me foge à memória quando, precisamente, conheci o André Gonçalves. Sei apenas que a empatia foi imediata, dado ser um cara tão legal, pois nunca mais desgrudei do seu convívio. Sua inteligência, amor pela literatura e sensibilidade social têm contribuído bastante para nossas parcerias culturais.

Ele possui uma obra, por enquanto, relativamente pequena. Em quantidade, deixemos claro, mas significativa do ponto de vista literário. São quatro livros: Coisas de amor largadas na noite (2008), Pequeno guia das mínimas certezas (2013), Rita Hayworth foi a Paris (2020) e A Faca (2020), todos lançados pela editora Quimera.

Sobre o primeiro, escrevi na apresentação: “Um olhar privilegiadíssimo sobre o amor, tema abordado com sutileza e humor em suas várias nuances e (in)devidas implicações”. A respeito do segundo, Vange Leonel disse: “André escreve com os olhos e desenha a modo de escrever, como sua Jackie S. reconhece a dor pelo olfato”. Quanto ao último, ouçamos as palavras de Thiago E: “É nesse clima de sucessivas cenas em edição que o livro se monta, aproximando-se também do processo cinematográfico, porém com textos mais ou menos curtos. Seriam tomadas fílmicas de encontros, amores, angústias, mulheres, filhos, pais, morte? Além de ironia, humor e violência, um bom manejo lúdico da língua constrói os personagens”.

Quando matutei lançar uma revista cultural em 2012, logo ao deixar a linha de frente do Salão do Livro do Piauí (Salipi), a pessoa que convidei, a fim de ser parceiro na empreitada, foi o André Gonçalves. Entre outras, pelas seguintes razões: tinha experiência no ramo, percebia o vácuo do jornalismo cultural dentro e fora do Piauí e, sobretudo, por acreditar nessas viagens utópicas, como diria Belchior, feitas sem dinheiro no banco nem parentes importantes.

Não tenho dúvida de que, após ler esta entrevista e, depois, seus livros, os leitores já sabem, de antemão, que você, caro André, é uma personalidade literária notável e, além da expressão artística pela palavra, também se destaca na publicidade e na fotografia. Isso tudo sem esquecer de participar apaixonadamente da torcida do seu time, o Cruzeiro. Simbora!

“Em arte, a realidade verdadeiramente possível é a que nós inventamos”, disse Ana Hatherly. Que acha dessa afirmação da escritora portuguesa?

Ana Hatherly era uma pessoa inquieta, múltipla, com um pé permanentemente enfiado na reinvenção do mundo. A partir da palavra fazia também imagens, pinturas e movimento. Era artista, verdadeiramente. Vou a outro artista, o alemão Joseph Beuys, que dizia: “todo mundo é um artista”. Gosto de acreditar nos dois. Acho, como Beuys, que todo mundo é artista, com a diferença de que alguns fazem o que convencionamos chamar de arte. Ou de literatura. Ou de música, ou de cinema. O que seja. Mas só vivemos verdadeiramente no que inventamos. Alguns inventam isso de “arte”. Outros inventam política, outros inventam o horror, outros inventam naves espaciais, outros inventam empresas, outros inventam iogurtes. Tudo que fazemos é invenção. Nada do que vemos, é. O “nosso” mundo é uma reinvenção do mundo que está posto, e que nos permite estar nele por uns poucos anos, e depois segue sem nós, sem mal perceber que existimos. Então reinventamos tudo para tentar seguir existindo de alguma forma. O Gullar dizia que “a arte existe porque a vida não basta”, ele falou isso várias vezes e repetiu para nós, na sala do apartamento dele. E é simples. É de uma simplicidade quase paralisante. A única realidade possível é, sim, a que inventamos, e inventamos a arte para ser possível viver em um mundo que, verdadeiramente, não nos quer por muito tempo. Talvez seja por isso que eu escrevo. Para que alguns saibam que estive aqui um dia.

A única realidade possível é a que inventamos. E inventamos a arte para viver em um mundo que, verdadeiramente, não nos quer por muito tempo.

Entre os escritores atuais, você desponta como um dos que mais vende livros. Qual o segredo desse sucesso e que ferramentas utiliza para chegar até os leitores?

Até gostaria que isso que você chama de “sucesso” se traduzisse em números realmente impressionantes e, porque não, em recursos financeiros que me permitissem escrever mais. Na verdade, as tiragens no Brasil são muito pequenas, muito. Então vender 1500 exemplares é “sucesso”, num país de 250 milhões de pessoas. O Coisas de amor largadas na noite teve duas edições, perto de bater 2 mil exemplares – mas isso ao longo de mais de 10 anos, veja bem. Não dá para viver disso. Quase que 100% das minhas vendas são pelas redes sociais. As livrarias maltratam muito os pequenos, muito. Não sei se é assim com as grandes editoras – talvez as grandes editoras maltratem os livreiros e, sem querer, eles descontam na gente! É uma possibilidade, quem sabe?

De qualquer modo, prefiro medir algo que possamos chamar de “sucesso” no que realmente me importa: quando alguém diz que um livro meu passou a fazer parte de sua vida. Uma vez uma pessoa, que eu não conhecia, me procurou e mandou uma foto da parede de casa, a sala da própria casa, adesivada com um texto meu para recepcionar visitantes. Claro que fui a Fortaleza conhecê-la e nos tornamos amigos. Outra pessoa viajou a Paris e levou Rita Hayworth foi a Paris na mala, e publicou fotos do livro “passeando” pelas ruas parisienses. Em tempos tão duros, tão difíceis, alguém levar um livro na mala numa viagem e “perder tempo” fotografando-o pelas ruas, ou alguém abrir espaço em meio às dores e medos da vida e mandar uma mensagem pelo Instagram dizendo “hoje li você, e o dia me sorriu” é, para mim, o que significa “fazer sucesso”. É o que quero com a literatura. O resto realmente não me importa muito.

Que fato ou pessoa acendeu em você o gosto pela leitura e paixão pela escrita?

Não sei precisar, mas especulo. Reza uma lenda familiar que, um dia, eu tinha ali uns 4 anos, e um tio meu lia o jornal, talvez O Estado de Minas, e eu, brincando no chão, li a manchete da capa: “Mazurkiewicz não joga contra a raposa”, algo assim. Mazurkiewicz era o goleiro uruguaio que levou aquele drible do Pelé na Copa de 70, jogava no Atlético e iria desfalcar o time em um clássico contra o Cruzeiro. Minha avó dizia que foi um auê, perguntaram se eu tinha lido mesmo, se eu sabia ler, e eu teria dito: “até de cabeça pra baixo” e peguei o jornal, virei e li alguma outra frase qualquer. Virei celebridade na família, pessoas passavam horas me dando coisas para ler aonde eu ia. E eu gostava, né? Um pequeno exibicionista. Daí foram me enchendo de revistas em quadrinhos, livros, e eu, louco por futebol, com 9, 10 anos, lia as colunas de Roberto Drummond no jornal. Aí Roberto lançou “Sangue de Coca-Cola”, e foram feitas umas camisas com um trecho do livro, pedi tanto que ganhei o livro e duas camisas. Tinha então uns 12 anos. Um dia, eu vestindo uma das camisas, quem chega perto de mim na Savassi? Roberto Drummond. Ele perguntou se eu sabia o que estava escrito, e eu disse o texto de cor: “Agora eu sei, Tati, que nunca vou poder assistir com você um comício do PCI em Roma: eu estou morrendo, Tati”, etc. “Você já leu o livro?”, e eu, “claro, li Sangue de Coca-Cola, A morte de Dj em Paris e suas colunas leio todo dia”. Ele foi tão carinhoso, deve ter achado engraçado um moleque daqueles ser seu leitor, cruzei com ele umas outras duas ou três vezes, e ele sempre simpático, me chamava pelo nome, perguntava coisas… Acho que ali entendi que escritores eram pessoas legais, que ler proporcionava encontros e alegrias, e daí me tornei um escritor imaginário. E lia e escrevia montes de pequenas coisas, e isso me levou, por intermédio de minha “vodrasta” Ieda, a um estágio em uma grande agência de publicidade aos 15 anos, na redação. O resto foi acontecendo e sabe-se lá se foi isso mesmo ou se inventei algo.

Além do trabalho com a linguagem, que outros aspectos ligam publicidade à literatura?

Acho que já estiveram mais ligados. A publicidade brasileira era um lugar de escritores, de poetas, de artistas. Grandes nomes da literatura estiveram em redações de agências de publicidade. A minha geração teve a publicidade como uma das possibilidades de se viver escrevendo coisas belas, curiosas, criativas, e bem remuneradas. É só olhar os comerciais de TV de várias décadas passadas, os anúncios, e você vê ali – claro que não todos –, frequentemente, peças com textos literários – ou quase. Hoje não é mais assim. Agora quem manda são as métricas, as pesquisas, os algoritmos, raramente, inclusive, se vê grandes textos na publicidade – grandes em tamanho ou grandes em algum valor literário. Mas em algum momento ainda podem voltar a se tocar. Se um dia o texto publicitário voltar a ganhar importância, vamos ver ali como cativar o leitor ou espectador em duas frases, vamos ver pequenas histórias contadas de formas inusitadas, vamos voltar a ver conexões emocionais que só podem existir a partir da literatura. Pode ser uma visão otimista de quem ainda se ilude que o lucro pode abrir espaço para a poesia e os sonhos, mas vamos torcer.

Rita Hayworth foi a Paris recebeu, dentro e fora do Piauí, críticas bastante elogiosas. Como você encarou os elogios e qual o diferencial desse livro em relação ao conjunto de sua obra?

Creio ter uma relação saudável com a crítica, e isso talvez se deva à experiência em publicidade, onde um texto, antes de ser publicado, é chutado, esticado, mordido, atacado e, muito eventualmente, defendido, por um monte de gente – dos colegas aos departamentos de marketing. Isso é ruim, mas é ótimo para exercitar o afastamento do ego. Então me chama muito mais atenção a crítica – no sentido de apontar erros, falhas ou inconsistências – do que o elogio fácil. Claro, é preciso que a pessoa que critica me faça sentir que ali tem algo a ser respeitado como aprendizado. Elogios são ótimos, mas é como comer bolo de chocolate recheado de chocolate com cobertura de chocolate: é delicioso, mas te deixa diabético ou com dor de barriga. É preciso alguma parcimônia ao engolir elogios fáceis. A crítica, elogiosa ou nem tanto, mas feita com respeito e coerência, deve sempre ser considerada dentro de parâmetros que cada um de nós decide quais devem ser.
O Rita foi lançado exatos 5 dias antes de decretada a pandemia, então não sei bem o que ele é ou ainda pode ser. Circulou pouco, o processo dele é diferente, por exemplo, do Coisas. Ainda estou tentando entendê-lo e o seu percurso. Por exemplo, ser citado elogiosamente por Manoel Ricardo de Lima, um gênio da crítica, em um espaço nobre da literatura como a revista Cult, é algo para se alegrar – mas muito mais para se pensar, mesmo. Ainda estou tentando entender o Rita e o que dizem dele – confesso, não estou muito preocupado com isso. Mas atento.

Como um dos editores de Revestrés, que papel exerce a revista no jornalismo cultural do estado/país?

Essa é uma leitura que, acredito, não me cabe. O que nos cabe, na Revestrés, pelo menos assim eu penso, é fazê-la. Fazê-la do jeito que pensamos ser o melhor, e o melhor dentro do que nos é possível. Nosso papel, se é que existe a possibilidade de nos dar algum, talvez possa ser o de resistir à tentação de desistir. É muito fácil desistir diante de tantas dificuldades na cultura, na literatura, no Brasil, no bolso, na conta bancária vermelho-sangue. Se dessa teimosia, como já disse Marcelino Freire, sair alguma percepção de que cumprimos algum outro papel, ficarei feliz. Mas não me arrisco a dizer qual seria, nem se temos alguma relevância a ser medida de alguma forma. Bem, já estamos na edição de número 51, e lá se vão fechados dez anos. Se alguém disser um dia “que gente teimosa essa, que fez essa revista durante tanto tempo” já será uma herança importante aos que estão aí e aos que virão depois de nós.

Em termos literários, que surpresas você guarda para este e os próximos anos?

Realmente não guardo nenhuma surpresa, não escrevo nada assim, planejado, previamente pensado. Gosto que as surpresas se apresentem para mim e, aí sim, imagino que esse algo que me surpreendeu possa parir um livro em mim. Mas, vou confessar, tenho um livro parado há um ano. Já escrevi o que julgo ser a metade, digo ser um pseudo-romance porque não sei se se enquadra em romance, nem onde pode ser enquadrado – nem quero muito que se enquadre em alguma caixinha – mas muita gente gosta de saber “o que é esse livro”? Eu não sei ainda. Tem até títulos – digo no plural porque já fiz 3 títulos, mas não sei qual vai ficar. Pensei nele quando li um livro italiano sobre Ho Chi Minh, e comecei a escrever em meio à pandemia. Mas ainda não está pronto. Espero que fique. Mas pode ser que eu me surpreenda com alguma outra coisa, antes, e escreva outro. Quem há de saber?

Isis Baião: “Amo o teatro desde quase sempre”

por Wellington Soares, escritor e professor

foto: Maurício Pokemon

Estou por ver uma pessoa tão apaixonada pelo teatro quanto a Isis Baião. Ela respira, fala, escreve, comenta, ministra oficinas, assiste e, não bastasse, personifica o próprio teatro. Literalmente, sem exagero. Não à toa afirmar, nesta bela entrevista, que “amo o teatro desde quase sempre”. Ainda na adolescência, mandava buscar peças no Rio, que lia com voracidade e prazer. Depois sonhou em ser atriz, caindo fora ao não encontrar sua praia. A dramaturgia representou, finalmente, o tão almejado grito de Eureka! E não é que esse encontro amoroso entre os dois, para nossa felicidade, perdura firme e inabalável até hoje.

Além da fissura pelo teatro, Isis nos fascina por ser uma pessoa amável, educada, doce e de sorriso franco. Daquelas que inspiram confiança, acolhimento. Que nos trata de imediato, no primeiro encontro, como velhos amigos.  A conversa brotando espontânea, descontraída, sem tabus de qualquer natureza. Sem falar de uma mulher inteligente, de senso crítico, antenada com seu tempo. Daí produzir um teatro, a exemplo de Nelson Rodrigues, distinto do bombom com licor. Na realidade, como arma para falar das coisas que realmente interessam: sentimentos, ética, política, humanismo, conflitos, tragédias e problemas sociais.

Foi no Rio de Janeiro onde tudo começou. Ainda cursando Jornalismo na PUC, percebeu que estava intrinsicamente ligada à cultura, em suas mais diversas manifestações, sobretudo, à arte cênica. Dois fatos a aproximaram, entre outros, do teatro em definitivo: a participação numa oficina, ministrada por Sérgio Britto, para atores estreantes; e a entrevista que fez, ousadia sem igual, com “O anjo pornográfico”, epíteto pelo qual ficou conhecido nacionalmente o polêmico dramaturgo pernambucano. Sua obra inclui textos cinematográficos, biografia, contos e peças teatrais, essas últimas reunidas hoje em livros – Teatro (In) completo / Volumes I e II.

Vim conhecer Isis Baião pessoalmente quando retornou, depois de muitos anos, a Teresina da sua adolescência e berço natal da sua mãe. Encantado, tratei logo de convidá-la para uma entrevista à Revestrés, uma das melhores já feitas pela nossa revista. Nada mais natural que o lançamento tenha ocorrido, com direito a coquetel e tudo, no Espaço Cultural Trilhos, juntando bastante gente da classe artística da cidade. Indagado por mim, sobre se valeu a pena toda a vida dedicada ao teatro, ela não titubeou: “Nunca me arrependi. Pelo contrário, apesar de toda a luta – porque é uma luta, sim – eu não tive nenhum dia em que achasse que poderia ser outra coisa que não teatróloga.”

Para retribuir tamanho amor e entrega, resta-nos apenas ler com atenção, extraindo as devidas lições, cada sábia resposta dada por Isis Baião, essa mineira de nascença e piauiense de coração.

Que você acha do que disse, certa vez, o polêmico Nelson Rodrigues: “Teatro não tem que ser bombom com licor”?
Concordo com ele. O teatro, como simples divertimento, parece perda de tempo e dinheiro. Sim, porque o teatro é uma arma (que não mata) preciosa para falarmos de sentimentos, de ética, de política, de humanismo, ao representarmos os nossos conflitos, as nossas tragédias e mazelas sociais. E digo mais, acho que o humor, para quem sabe usá-lo, é um grande aliado do dramaturgo. O humorista Leon Eliachar disse certa vez que “fazer rir, é rir do Rei”…

Fazer teatro no Brasil nunca foi tarefa das mais fáceis. Não bastasse, vieram o (des)governo do Bolsonaro e a Covid 19. Como tem sobrevivido a classe nestes tempos de perseguição artística e negacionismo?
Tem sido difícil sobreviver, companheiro. Uns mais, outros menos, dependendo da condição anterior a essas duas tragédias que se abateram sobre nós, a Covid 19 e o Bolsonaro (a ordem não altera a malignidade dos fatores). Têm pessoas passando necessidades mesmo. E me impressiona como esse (des)governo conseguiu reunir, em primeiro e segundo escalão, gente tão incompetente, ignorante e sem pudor para servi-lo (desservindo ao povo), inclusive artistas! É como se um espírito perverso tivesse baixado sobre este país. Mas eu acredito em Deus e sei que a “farra do boi” está no fim…

Sei que não distribuo “bombons com licor”, embora faça rir, às vezes, até muito. Dizem que o meu humor está mais para o satírico e o cruel. É verdade.

Quando nasceu em você a ideia de ser dramaturga, área ocupada geralmente por homens?
Amo o teatro desde quase sempre. Quando adolescente e ainda morando em Teresina, mandava buscar livros de peças no Rio. Lia tudo, encantada. Mas não pensava que me tornaria dramaturga. Achava que queria ser atriz e tinha fascínio pelas grandes atrizes. Conheci algumas no Rio, onde fui morar em 66. Já trabalhava na imprensa cariosa quando me formei em Jornalismo, em 70, na PUC/RJ. Em seguida, passei quatro meses em Londres e lá também trabalhei, por acaso!, no Serviço de Rádio para Portugal e América Latina, do COI (Central Office of Information). Na volta, o Sérgio Britto me chamou para fazer uma reportagem em um Laboratório de Teatro, que ele acabara de montar, com outros artistas, a “nata” do teatro carioca. Fui e não saí mais. Continuei a trabalhar em jornalismo, mas estava cada vez mais ligada ao mundo teatral. Por outro lado, comecei a sentir que não era aquele o meu barato. No final do Laboratório, o grupo se dividiu em dois. Um deles era a turma bem jovem, que formaria o Asdrúbal Trouxe o Trombone, sob a direção do Hamilton Vaz Pereira. Eu estava no outro grupo, dirigido por José Carlos Gondim, que fez uma adaptação da Antígona, de Sófocles, na qual interpretei Ismênia, a irmã da protagonista. Na estreia, amigos e amigas me afiançaram que eu estava ótima!!! Será? Bom, gostei muito da experiência, mas vi que ser atriz não era exatamente o que eu queria. O tempo passou, eu continuava a fazer matérias para jornais e revistas. Um dia, não me lembro se a propósito de uma reportagem, uma atriz, minha amiga, me disse: “Você devia escrever para teatro. Têm poucas mulheres escrevendo. Já pensou nisso?” Não, eu nunca tinha pensado, mas passei a pensar. Resolvi começar pelas adaptações: a primeira, de Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel Garcia Marques; em seguida Cândido ou o Otimismo, um conto satírico-filosófico, de Voltaire. Depois, começaram os originais, com Maria Manchete Navalhada e Ketchup, tragicomédia, ainda inédita; Instituto Naque de Quedas e Rolamentos, minha estreia no palco. E a vida seguiu, acompanhada de muitos títulos, nenhum deles convencional…   

De todas suas peças, qual delas é a filha preferida por ter sido um parto difícil e prazeroso no final da gestação?
Não existe filho(a) preferido(a) para um coração de mãe… Mas é certo que existe um chamego especial com aquele(a) cujo parto foi mais sofrido. É o caso da minha Casa de Penhores. Ela veio ao mundo de maneira totalmente diferente das demais. Eu estava grávida e não sabia. Passei alguns dias numa grande aflição, sentindo as ideias se misturando dentro de mim, sem nenhuma definição. De repente, peguei um bloco de papel e comecei a rascunhar um roteiro. Eram umas 10h da manhã. À medida que escrevia, as cenas apareciam mais nítidas. Fui sendo tomada por uma grande emoção. No final da tarde, o roteiro estava pronto, relaxei e desabei num grande pranto. Acabara de parir um bebê, ainda descarnado, a que dei o nome de Casa de Penhores. Anos depois, ela se tornou a menina dos olhos da família Baião, quando obteve um dos prêmios do concurso 1997 Onassis International Cultural Competitions – Theatrical Plays, em Athenas-Grécia.

Quais nomes despontam hoje na dramaturgia brasileira, incluindo a piauiense, no sentido de renovação e atração de público?
Estou há sete anos no Piauí e por fora do teatro no Rio, que sei debilitado, como o da maioria dos estados, pelos efeitos da pandemia e desse (des)governo do inominável. Prefiro falar da dramaturgia piauiense, que teve e tem dramaturgos nacionalmente conhecidos, como Francisco Pereira da Silva e Benjamin Santos.  Cito ainda os colegas consagrados, Aci Campelo e José Afonso de Lima (este, também poeta) e outros, cujos trabalhos me entusiasmaram em estreias diversas. Mas confesso que tenho especial carinho por uma pequena turma que fez a minha Oficina Avançada para Novos Autores, em 2017, realização da Secult. No final, organizamos um mini- festival com a produção da Oficina, em que, cada Novo(a) Autor(a), ocupava uma 5ª feira, no Teatro Torquato Neto. Uma das novas dramaturgas desta turma, a jornalista Samira Ramalho, já atingiu Sampa: ano passado encenou, no Teatro Gazeta de São Paulo, a peça A Ciumenta, em parceria com a atriz do SBT, Renata Brás.

O que motivou você e Terezinha Marçal a escreverem “Mara Rúbia, a Loura Infernal”, biografia da atriz paranaense Osmarina Lameira Colares Cintra? 

foto: Maurício Pokemon

Pois é, na vida, tudo é história, as coisas acontecem e se encaixam, ou não. Em 84, três atrizes me pediram para escrever um texto sobre as questões da mulher. Aceitei e nos encontrávamos uma vez por semana para uma troca de depoimentos de vida. Virávamos a noite, contando nossas histórias umas para as outras, rindo, chorando. E só a partir de um determinado momento, comecei a escrever os esquetes que iriam compor o espetáculo As Bruxas Estão Soltas. Therezinha Marçal, filha de Mara Rúbia (na época, ainda viva) era uma das atrizes e, nos seus depoimentos, falava muito da sua mãe. Nós todas ficávamos encantadas com as histórias de vida daquela mulher linda, de forte personalidade, carismática e à frente do seu tempo. Montamos As Bruxas numa galeria de arte, bem no coração de Ipanema, e foi um sucesso, mas, quando terminou o contrato com a Petite Galerie, não tivemos dinheiro para alugar um teatro. Com uma grande tristeza, fomos cada uma para um lado (no Rio, é o que acontece quando se desfaz um elenco). Anos depois, reencontro a Therezinha e a fulmino com esta proposta: vamos escrever a biografia da Mara Rúbia? Ela ainda estava muito abalada pela morte da mãe, mas topou. A princípio queria que eu escrevesse todo o livro, mas convencia-a de que, no decorrer da narrativa, era interessante que houvesse pequenos textos dela, contando coisas de Mara, com o olhar e o sentir de filha. Foi incrível. Acho os textos da Thê um dos charmes de Mara Rúbia, a Loura Infernal.

Ao assistir ou ler suas peças, que mensagens/lições ficam no imaginário coletivo?
Realmente, não sei. Cada cabeça, uma sentença, não é? Mas faço o possível para que me entendam. Sei que não distribuo “bombons com licor”, embora faça rir, às vezes, até muito. Dizem que o meu humor está mais para o satírico e o cruel. É verdade. Vejo mais a vida como uma tragicomédia, bem mais do que uma simples comédia. E raramente a vejo de maneira realista. Minha linguagem é essencialmente expressionista. É o que eu acho, mas posso estar errada. É difícil ser crítica de si mesmo…

O novo imortal da APL

O governador Wellington Dias acaba de ser eleito membro da Academia Piauiense de Letras. Foi no último sábado (12), em segundo escrutínio, obtendo 22 dos 34 votos. Sua eleição repercutiu nas redes sociais. Enquanto poucos vibraram com a sua escolha, a maioria preferiu, por motivos políticos e ideológicos, espinafrar sem dó nem piedade. Em comum entre ambos, o desconhecimento da obra escrita por ele. Com as raras e honrosas exceções de sempre, bom destacar.

Por enquanto, são três livros lançados: Macambira (1995/Zodíaco), reeditado em 2020; Tiradas do Tio Sinhô (2007/Oficina da Palavra) e A Melancia do Presidente (2018/Quimera). Escreveu ainda, embora sem publicação, as peças Reizados da Minha Terra e Estamos Todos Inocentes. Sem falar da participação nas coletâneas O Conto na Literatura Piauiense (1981) e Novos Contos Piauienses (1984). Com o texto Maria, Valei-me (1984), recebeu menção honrosa no Concurso João Pinheiro de Contos, da secretaria estadual de Cultura.

A eleição de Wellington Dias para a Academia Piauiense de Letras foi criticada nas redes sociais. Mas o que muitos desconhecem é que o governador do Piauí escreve desde os anos 1980, quando era bancário, foi destaque em concurso e elogiado pela crítica.

Sobre Macambira, disparado seu melhor livro, bom ler o que disse Xico Sá, um dos mais respeitados jornalistas do país: “O escritor Wellington Dias domina a arte do conto e faz dos viventes das terras secas e dos arruados de Oeiras – a primeira capital do Piauí – criaturas de histórias universais. Para quem não é familiarizado com o interior do Nordeste brasileiro, são tipos que até parecem nascidos da imaginação de um autor da escola do realismo-fantástico”.

Ouçamos agora o que falou Cineas Santos, professor e escritor, a respeito das Tiradas do Tio Sinhô: “No início de 2002, fui procurado pelo então deputado federal Wellington Dias. Veio mostrar-me os originais de um livrinho de crônicas ou causos, como ele prefere. Eram historietas engraçadas, tendo como personagem principal um certo Adrelino José Dias, mais conhecido como tio Sinhô. O livro me pareceu interessante”. 

Quanto ao terceiro livro, A Melancia do Presidente, a contista e poeta  Cláudia Manzolillo não poupou elogios, ela que é mestra em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ): “O resgate da tradição oral, da conversa que se alonga e, gostosamente, conquista o ouvinte/leitor é o que nos trazem os textos de A Melancia do Presidente. O autor consegue, por meio de narrativas plenas de humor e ironia, cativar quem se enreda em seus contos. Gente simples e personagens conhecidos se misturam e, lado a lado, os “causos” relatam experiências características do ambiente regional, com sua linguagem própria e peculiar”. 

Dito isso, que tal dar uma passada nas livrarias de Teresina e adquirir, se não todos, pelo menos um dos livros de Wellington Dias? Assim deixamos os elogios estéreis e as críticas infundadas de lado, que nada constroem. E nunca esquecer que, numa disputa como essa, na Casa de Lucídio Freitas, a obra dos autores deve pautar, a despeito de qualquer coisa, a devida escolha. Ou não?

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Wellington Soares é escritor, professor e editor.

ENEM: Haja coração!

Além do carnaval, fevereiro é o mês de o Inep divulgar o resultado do Enem 2021. Para ser mais exato, será no próximo dia 11. Haja coração, do estudante, até essa data. Dependendo das notas obtidas, nas cinco áreas do conhecimento, ele terá motivo ou não para bebemorar. Antes, vai enfrentar uma via-crúcis das grandes. De sofrimento e noites mal dormidas. Tão penosa, ou mais, quanto a angústia experimentada nas provas. Fala-se da inscrição no Sisu, de 15 a 18 deste mês. O Sisu é o Sistema de Seleção Unificada que leva ao ensino superior. Sobretudo, às universidades públicas, espalhadas pelo país, em razão do caráter nacional do vestibular. Ter calma, confiar no próprio taco e tomar suco de maracujá são coisas mais que aconselháveis neste momento.

Enquanto a pontuação não chega, o aluno dá uma espiada no termo de adesão da universidade onde pretende estudar. Todas as informações ele vai encontrar lá: cursos e vagas ofertados, turnos disponíveis, nota de corte e, importante observar, os programas de assistência estudantil. Sem esquecer também, sob pena de “dançar”, os documentos exigidos no ato de efetivação da matrícula. Afinal, são apenas seis dias, a contar de 23 a 28 de fevereiro, para o enemzeiro dar conta desse processo. E, como sabemos, não é novidade nenhuma, que o brasileiro deixa tudo pra última hora. Como a concorrência é pesada – 2,1 milhões de candidatos disputando pouco mais de 200 mil vagas –, qualquer descuido é fatal.

Quem fez o Exame Nacional do Ensino Médio, em novembro passado, acabou sendo beneficiado sem querer. A razão? O número de participantes foi o menor registrado desde 2005. Essa queda resulta, a rigor, de dois fatores. Primeiro, o estrago causado pela pandemia, que afetou tanto o emocional como disseminou o medo na “galera”. Segundo, a desastrosa condução do Enem pelo Ministério da Educação (MEC), cuja gestão autoritária levou servidores a pedirem exoneração do Inep, instituto responsável pela execução do certame. Basta comparar os números: 8,7 milhões de candidatos em 2014, no governo Dilma Rousseff, e 3,1 milhões em 2021, no governo Jair Bolsonaro. Desnecessário dizer que esse contingente enorme de excluídos tem origem em famílias pobres, são pretos e vêm de escola pública.

Caso seu nome não apareça na chamada regular, a ser divulgada no dia 22/02, o candidato ainda gozará da prerrogativa de se inscrever na lista de espera – de 22 a 28 do presente mês. E o que é melhor, o Inep ainda disponibiliza, conforme sobrem vagas, outras listas de espera. Ao longo do ano, ocorrem várias chamadas no primeiro e no segundo semestres. O estudante só não pode é abrir mão, depois de ter ralado tanto, do sonho de um futuro promissor. Sem falar também das oportunidades abertas com o Prouni (Programa Universidade para Todos) e o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), que dão acesso a faculdades privadas. Até a confirmação da matrícula, recomenda-se cantarolar, no espírito festivo do carnaval, a velha marchinha do Pinduca: “Alô papai, alô mamãe/ Põe a vitrola pra tocar/ Podem soltar foguetes/ Que eu passei no vestibular”.

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Wellington Soares é professor e coordenador do Pré-Enem Seduc Piauí.

ROGÉRIO NEWTON: Fazemos literatura à procura de sentido para a vida

ENTREVISTA Por Wellington Soares, professor e escritor

Rogério Newton, ao centro, entre J L Rocha do Nascimento e Wellington Soares

Quando me indagam quem eu gostaria de ser ao crescer, minha resposta é imediata: Rogério Newton. Sem titubear, na bucha. Quer saber a razão? Simples, pois ele reúne tudo o que gostaria de encarnar: filho de Oeiras, cronista dos melhores, poeta, defensor público, romancista, praticante de iôga, contista, vegetariano, mestre em Direitos Humanos, um cara legal, ligado ao Teatro do Oprimido, ambientalista, nascido na Rua das Portas Verdes, democrata convicto, amante da cultura e, acima de tudo, a leveza em pessoa.

Mas é como escritor multifacetado, jogando um bolaço em todos os gêneros, que minha admiração por ele só aumenta. Na crônica literária, sobretudo, na qual desponta como biscoito fino para deleite dos leitores. O cotidiano, as memórias, os amores, a natureza fluindo sob o olhar sensível de um autêntico poeta da vida e da linguagem. Daqueles que tocam fundo a alma da gente, como podemos aferir nos livros Ruínas da memóriaConversa escrita n’água e Grão, entre outros.

Rogério fez parte de uma geração cultural, batizada de Pós-69, que deu uma boa chacoalhada no cenário artístico de Teresina. Não só lançando revista, organizando exposições e saraus, mas dando umas cutucadas na ditadura militar, na falta de liberdade e na censura vigentes no Brasil da época. E o mais importante, passado batido pela nossa crítica, o surgimento de três grandes nomes da contemporânea literatura piauiense: ele, na crônica; Paulo Machado, na poesia; e, fechando o trio, Aírton Sampaio, no conto.

Embora tenha saído de Oeiras na adolescência, constatamos que nossa primeira capital, desde a arquitetura colonial/imperial aos banhos no riacho Mocha, passando pelos becos/ruas/casarões até as procissões religiosas, nunca saiu dele e da sua obra. Como uma paráfrase, fincada no coração, dos antológicos versos de Carlos Drummond: “Oeiras é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!”.

No fundo, será uma alegria degustar esta conversa, muito instigante, a fim de compartilhar o sentido da vida, mesmo um tantinho apenas, que os textos de Rogério Newton têm descortinado ao longo dos anos – inclusive escrevendo em Revestrés desde a nossa primeira edição. Terá ele conseguido?

Que acha do que disse Aldous Huxley, escritor inglês, sobre “a memória de todo homem é sua literatura particular”?

É uma frase bonita. Os escritores gostam de fazer frases assim. Mas parece que ele tem razão: é difícil imaginar uma literatura ou a vida mesmo sem memória, que parece um reservatório misterioso de coisas guardadas, boas e ruins, sábias e tolas. O escritor recorre à memória para escrever, mesmo que ele crie uma obra ficcional. Mas aí ele fatalmente tem que fazer uma seleção do que está armazenado na memória para criar o que quer que seja. Por isso, a literatura é uma construção, ou como diria meu amigo Paulo Machado: literatura é reconstrução. E aí reside o mistério. Penso que toda pessoa humana faz sua própria “literatura particular”, à procura de sentido. Todos nós estamos procurando sentido para a vida. Mesmo numa conversa de botequim alguém estará procurando (re)construir alguma coisa. Agora, há perigos como o esquecimento e o desprezo para com a memória. Por exemplo, há pessoas que defendem a volta da ditadura no Brasil. Pessoas sensatas não fazem isso. Millôr Fernandes é autor de uma máxima que diz mais ou menos o seguinte: o futuro é o passado usado. Há algo mais desanimador do que isso? A memória é dádiva preciosa. O mais importante é usá-la adequadamente para que resulte em coisas potentes e benéficas para a humanidade.

Todos nós estamos procurando sentido para a vida. Mesmo numa conversa de botequim alguém estará procurando (re)construir alguma coisa.

De que maneira ser filho de Oeiras, nossa primeira capital, impacta sua vida e obra?

O. G. Rego de Carvalho disse uma vez que não seria escritor se não tivesse nascido em Oeiras. Não chego a tanto, mas acho que a cidade contribuiu muito para eu ser escritor. Em primeiro lugar, Oeiras tem uma atmosfera sugestiva. Refiro-me à sua arquitetura, colonial e imperial, de ruas, becos, casarões, largos em um relevo que não é plano. A cidade histórica vista, por exemplo, do Rosário e do Morro da Sociedade, oferece imagens de telhados e quintais. Cada ângulo de visão tem um recorte diferente. A primeira impressão talvez leve a um impulso lírico – e os autores da cidade enveredam muito por esse gênero. Mas tudo também reivindica incursões épicas, que considero escassas. Por que os autores preferem o lírico e não o épico? Por outro lado, além da arquitetura histórica, Oeiras possui múltiplas memórias, a partir das quais pode-se (re)construir muita coisa não só no campo da arte, da poesia e da literatura, mas também da história, da geografia, da sociologia, das etnias, da vida social etc. Matéria-prima é que não falta.

A influência de Oeiras na minha vida deve-se muito ao fato de eu ter vivido a infância toda lá e uma parte da adolescência. A casa onde eu e nove dos meus irmãos nascemos ficava de porta e janelas abertas durante o dia. Não havia um limite rígido entre a casa e a rua. Facilmente, eu saía para jogar bola, tomar banho no riacho ou simplesmente perambular por lugares, como a feira, que achava fascinante. Os primeiros violeiros eu vi na feira. A miséria e a fartura e muitas outras coisas misturadas, como as tropas de jumentos que carregavam gêneros alimentícios, provenientes das pequenas propriedades familiares. Os botecos sórdidos com seus bêbados e prostitutas, os tipos humanos etc. Numa época em que não havia chegado o supermercado e o fast-food, a feira era um espelho da sociedade.

Acho que até início da década de 1970, havia uma convivência mais ou menos harmônica entre a cidade histórica e a outra Oeiras que passou a ser construída. Claro, ninguém espera que uma cidade seja a mesma o tempo todo. Mas Oeiras está pagando preço muito alto pela sua expansão urbana, que se dá sem critérios claros e sem considerar adequadamente as áreas verdes e as belezas naturais, que lhe conferiam muita graça, especialmente o leito e as margens do Riacho Mocha, transformado em esgoto na área urbana, e os morros que circundam a cidade.

Outras coisas fascinavam meus olhos: os eventos religiosos; procissões como teatros a céu aberto; banhos e passeios no Riacho Mocha e nos morros; os ensaios da banda de música no antigo sobrado do Círculo Operário; o cinema etc. Eu ouvia os adultos falarem em histórias. Havia as bibliotecas, como a que pertenceu ao que fora o Ginásio Municipal Oeirense. Foi lá que encontrei Jorge Amado e Lima Barreto. Na biblioteca pública municipal, havia mais de uma coleção de Machado de Assis. Um dia apareceu na minha casa um exemplar de Somos Todos Inocentes, de O. G. Rego de Carvalho. Esses autores eu os li antes de sair para estudar em Teresina. Eu já tinha em Oeiras referências de escritores e músicos residentes na cidade. Próximo a mim, na Rua do Fogo, morava o escritor Expedito Rêgo. Na Rua da Feira, Possidônio Queiroz. Na Rua do Izidro, Costa Machado. Na minha família mesmo, havia um escritor, meu tio Gaudêncio Carvalho, irmão do meu pai, que guardava como uma preciosidade o livro Poemas da Íntima Habitação, primeiro lugar no primeiro concurso literário de Brasília (1961), cujo prêmio foi entregue pelo poeta Manuel Bandeira, convidado especial para a solenidade de premiação.

Gosto de pensar em Oeiras como um microcosmo: tem tudo que o Universo possui, em doses mínimas e, às vezes, em doses cavalares. Percebi isso depois que saí da cidade. O distanciamento físico, o aprendizado em outras terras, o alargamento de horizontes pelo estudo e por outras vivências me proporcionaram outras visões, outras leituras, outras formas de sentir. Oeiras faz parte da minha “literatura particular” e da literatura que produzo. Saí de Oeiras, mas Oeiras nunca saiu de mim.

Acho que não seria cronista se, além dos jornais, revistas e filmes, não tivesse lido boas obras de ficção, de poesia, de teatro, letras de música, histórias em quadrinho e, naturalmente, crônicas.

Há quem veja em suas crônicas traços de poesia, um tipo de “cronemas”. Esse aspecto o aproxima ou o distancia dos leitores?

O escritor Aírton Sampaio, na orelha do livro Grão, foi quem falou que minhas crônicas eram “cronemas”, ou crônicas-poemas. Fico todo orgulhoso com esse elogio, porque, de uma maneira ou de outra, a poesia é quase uma presença “obrigatória” na crônica literária. Foram necessárias décadas para evoluir a um texto leve, aparentemente simples, com seu “quantum satis” de poesia, como diria Antonio Cândido. Não que a crônica tenha se rendido à poesia. Uma e outra permanecem sendo discursos específicos. Muitas vezes, o cronista recorre à poesia, e isso deve ocorrer sempre com naturalidade, porque a crônica moderna e a poesia dão muito certo uma com a outra. Mas isso é compreensível também porque o cronista usa também recursos de outras formas literárias, como o conto. Não há nada demais nisso, muito pelo contrário. Por exemplo, Manuel Bandeira foi muito ousado na época ao escrever “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Seu poema tem sabor da notícia de jornal, mas também do conto e da crônica. O nosso Geraldo Borges leu o Grão e disse que O Pequeno Engraxate parece um conto. Eu acho que tudo isso aproxima os leitores da crônica.

Na sua opinião, a crônica se identifica mais com o jornalismo ou a literatura?

Pesquisadores destacam que a crônica nasceu do antigo folhetim do século XIX, que era um espaço, geralmente, situado na parte inferior dos jornais, destinado à crítica literária e a assuntos políticos, sociais etc. Portanto, é impossível negar a filiação da crônica ao jornalismo impresso. Diz-se também que “grandes escritores brasileiros do século XIX passaram por jornais”, escrevendo o romance-folhetim e o romance em folhetim, este com preocupações temáticas e estruturais maiores que o primeiro. Mas sua pergunta é sobre crônica. Por isso acho necessário falar sobre a coluna Ao Correr da Pena, de José de Alencar, escrita nos jornais Correio Mercantil e Diário do Rio, em 1954-55. São textos longos, se comparados à crônica contemporânea, que “encurtou de tamanho”, mas têm certo tom de conversa, como as crônicas de hoje em dia.  Os textos da coluna de Alencar tinham também certo tom de literatura. Tomando esse exemplo histórico, a crônica se identifica com o jornal, mas com o passar dos anos, ela foi como que se emancipando e se transformando num texto literário ou numa mistura de literatura com jornalismo. O certo é que o jornal impresso passou a conviver, claro, com crônica jornalística, mas também com a crônica literária. Mas acho que isso só veio a ocorrer na primeira metade do século XX, embora seja bom mencionar Machado de Assis, que, em 1877, portanto, século XIX, escreveu O Nascimento da Crônica. No Piauí, acho que merecem atenção as crônicas escritas por Vítor Gonçalves Neto, no jornal “O Curare”. É difícil dizer onde ali começa o jornalismo e termina a literatura. No final das contas, há espaço tanto para a crônica jornalística como para a crônica literária e até para um misto das duas, porque as fronteiras não são bem delimitadas, nem acho que devem ser. Falando por mim, prefiro escrever – e ler – crônicas literárias, mas escrevo também crônicas jornalísticas. No final das contas, o que interessa mesmo é a qualidade do texto.

Em 2015, você estreia no romance, com No coração da noite estrelada, surpreendendo a todos. Como leitores e críticos receberam o livro?

Surpresa tive eu com a recepção ao livro. Pelo menos, quatro pessoas, que eu saiba, escreveram positivamente: Aírton Sampaio o chamou de “romance geracional”; Eulália Teixeira achou o livro “uma bela história”; Geraldo Borges, “um romance de ideias”; Dagoberto Carvalho Jr também elogiou o livro, puxando mais pro lado oeirense. O Geraldinho me falou que leu duas vezes: após a última página, voltou imediatamente para a primeira, relendo o livro todo. Acho que isso é o principal elogio para o escritor: saber que um leitor leu seu livro por duas vezes, de uma assentada. Logo após o lançamento, encontrei o Cineas Santos em um posto de gasolina, na estrada. Ele vinha acho que de São Raimundo Nonato e eu, de Oeiras. Ele falou com entusiasmo sobre o romance. Desde o início, Cineas tem sido generoso para comigo. Um professor do Ensino Médio de uma escola de Oeiras adotou o livro. Com os alunos, ele fez o percurso por ruas, praças, becos e arredores da cidade, onde a ação se desenrola, e tentou reconstruir a história, de forma teatralizada. Deu pra sentir o interesse e motivação dos alunos. Em nosso meio, não é comum os leitores se manifestarem. Os poucos que falaram comigo gostaram do romance. Um poeta de Oeiras, Edilberto Vilanova, fez a mim, pessoalmente, comentários bastante pertinentes sobre o livro. Acho que ele foi um leitor bem atento.

 Augusto de Campos comparou um bom poema não lido ao canto do uirapuru na floresta, que talvez poucos ou nenhum ser humano ouça, mas está cumprindo sua parte para o encantamento do mundo.

Não bastasse, foi mais além ao publicar, em 2019, a Outra face, segunda obra poética. Que sensações esses gêneros distintos marcam sua escrita e alma?

Na verdade, é muito difícil determinar fronteiras rígidas entre as várias formas literárias. Claro que cada uma delas tem suas características próprias que a identificam como tal, mas isso não impede a intercomunicação. Comecei como quase todo mundo começa, isto é, tentando escrever poemas, depois contos e artigos. Não pensava em ser cronista. Eu queria mesmo era escrever ficção. E aconteceu que, após chegar em Teresina, em 1977, passei a ler muito os jornais da chamada “imprensa nanica”, sobretudo, O Pasquim. Poxa, esse jornal usava uma linguagem que muito me agradava: havia a crítica, a ironia, o humor mordaz. Era uma linguagem ao mesmo tempo “participante”, antenada com o Brasil e o mundo, e uma linguagem “sem paletó e gravata”, altamente comunicativa. Lá pela metade da década de 1990, eu lia os colunistas da Folha de São Paulo e senti que poderia escrever daquele jeito. E  então comecei a publicar artigos no jornal O Dia, de Teresina. Mas lá pelo terceiro artigo, me cansei daquilo e, naturalmente, passei a escrever de um jeito mais solto e pessoal, sem estar vinculado a uma lógica argumentativa. Foi aí que fui migrando para a crônica, porque o tom passou a ser de conversa, às vezes, de “conversa fiada”. Eu achava que não estava fazendo nada demais, mas, um dia, me deparei com um texto de Aírton Sampaio elogiando minhas crônicas. Aí parei para pensar, porque eu admirava Aírton pelo seu livro Contos da Terra do Sol, e já naquela época era um crítico perspicaz. E mais: não era ainda meu amigo. A gente só se cumprimentava – “Ôi, tudo bem?! – de modo que achei seu elogio sincero. Ele não escreveria só para me agradar, não era do seu feitio. A partir de então, passei a dialogar com ele e a refletir sobre o que estava escrevendo e dando o que falar, porque eu encontrava conhecidos na rua e eles me falavam bem das crônicas. Uma vez, um leitor de Picos escreveu para a redação do jornal – era uma carta para mim -, dizendo que adorava minhas crônicas. E então passei a ler mais os cronistas brasileiros e tudo que eu via sobre crônica, pois ali eu me sentia bem, em casa, como leitor e escritor. Mas digo para vocês: acho que não seria cronista se, além dos jornais, revistas e filmes, não tivesse lido boas obras de ficção, de poesia, de teatro, letras de música, histórias em quadrinho e, naturalmente, crônicas. Acho que tudo isso marca minha escritura e minha vida, sendo que a poesia, para a vida e para a crônica, tem uma vitalidade sutil e muito especial. Por isso, cheguei a publicar dois livros de poemas: Último Round e A Outra Face. Mas, sem dúvida, fazer poemas é muito mais difícil que escrever crônicas, contos ou romances.

Tem valido a pena dedicar, desde a estreia em 1994, tantos anos de vida a uma atividade pouco valorizada no Piauí /Brasil?

1994 foi o ano da minha estreia em livro, mas minha primeira crônica foi publicada em 1981, no Jornal da Manhã. Eu também já havia publicado no tabloide Floretim, editado pelos poetas Paulo Machado e Nelson Nunes, na década de 1980, além dos jornais mimeografados Mafrense e O Beco, de Oeiras, e nos principais jornais de Teresina. Assim, comecei mesmo foi em jornal. Portanto, sou de uma geração que aprendeu a escrever, escrevendo pra jornal. Escrever é uma das atividades mais vitais para mim. Mesmo que não deem valor. Mas sinto que não é isso que acontece. Em geral, os leitores apreciam o que escrevo. Por falar em dar valor ou não, o poeta, crítico e tradutor Augusto de Campos respondeu a uma pergunta semelhante: ele comparou um bom poema não lido ao canto do uirapuru na floresta, que talvez poucos ou nenhum ser humano ouça, mas está cumprindo sua parte para o encantamento do mundo.

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