Wellington Soares
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Dois pequenos contos de Teresina

DESORIENTADO

Depois que ela se foi, há quase um mês, esta é a primeira vez que saio do apartamento. Não por vontade própria, mas insistência dos amigos. Precisava espairecer um pouco, diziam, ver gente. Talvez receassem eu enlouquecer de vez. Meu corpo, entretanto, não dava sinal de vida, estirado na cama sem disposição pra nada. Quanto à alma, dava pena vê-la destroçada num canto do quarto, talvez buscando compreender tamanho desamparo. Agora entendia o porquê de ligarem o amor a precipício, metáfora de fundura sem fim, com a pessoa despencando lá de cima,  sequer um galho para amortecer a queda. Dar voltas pelas ruas de Teresina, ao contrário do que se imaginava, acentuou ainda mais a sensação de desespero. Cada pedaço dessa cidade guarda muito de Olívia, particularmente o centro, ela que adorava tanto passear por ali em silêncio e ouvindo Cat Stevens, seu cantor predileto, curtindo as belezas da Frei Serafim e o crepúsculo na Ponte Metálica, onde o sol se esconde no horizonte mais bonito que noutro lugar. Dizia gostar muito do cheiro de nossos rios – o Parnaíba e o Poty -, infelizmente abandonados por todos, incluindo gestores e habitantes; e, sobretudo, do calor nos meses do B-R-O-Bró, quando afirmava sentir a libido pulsar de forma intensa. Preferia mil vezes o calor, destacava sempre, do que o frio estéril em sentimentos viscerais. Em Olívia, eu adorava tudo, o beijo em especial, sabor diferente a cada dia e capaz de acariciar nosso âmago. Desejo de jamais desgrudar de seus lábios sensuais, horas a fio num siribolo ardente de línguas. É o beijo na boca – profetizava Nelson, o Rodrigues, o sábio teatrólogo pernambucano – que faz do casal o ser único, definitivo, tudo mais sendo tão secundário, tão frágil, tão irreal, com o que assino embaixo. Acontece que ela partiu, de repente, sem avisar nada, deixando-me completamente desorientado e triste. E agora, sem rumo, não sei o que fazer.

***

NO INFERNO

Morro, mas morro feliz. Levo comigo dois desses desgraçados que infestam a cidade. Irão agora prestar conta no inferno com o diabo, o pai deles. Tive medo de afrouxar na hora, cagar na calça, como se diz, mas encontrei coragem no ódio. Foi ele, com certeza, que encheu meus culhões de sangue para enfrentá-los cara a cara. Vão se foder, escancarei a boca e gritei, seus filhos de uma grande arrombada. E o três-oitão começou a soltar fogo pela boca, como se eu tivesse xingado a mãe dele. Me fez lembrar o pipocar das balas, os folguedos juninos em Teresina. Senti a mesma emoção quando estourava, ainda criança, traques nos pés dos outros. Quanto maior o susto, maior era minha alegria. A gargalhada azul e barulhenta do mar. Como era prazeroso senti-la novamente. De dois, pelos menos, o mundo vai se ver livre. O terceiro, que me acertou, conseguiu fugir. Experimento agora uma indescritível sensação de paz. Do peito ainda escorre um sangue quente, começa a ficar embaçada a minha vista. Umas lembranças surgem, como formiguinhas, em fila indiana. Menino, jogando peteca e banhando de chuva com os outros molecotes. Adolescente, me sentindo livre em cima de uma bicicleta e da prima que morava em casa. Adulto, cercado por amigos numa mesa de bar e contando histórias para meu filho dormir. Estranho o frio que passo a sentir, quem sabe do sangue perdido ou do sentimento de abandono.  Onde estão todos? Deviam ter aparecido no foguetório do juízo final. Coisa mais arretada que já vi na vida, com as pessoas completamente irreconhecíveis, numa animação só. Eu mesmo, covarde que sempre fui, me surpreendi no papel de valentão. Precisavam ter visto. Agora, infelizmente, é tarde. A morte, hoje vestida de vermelho, me beija com sofreguidão. Para sempre, digo a vocês, ela me seduziu e conquistou.

Viver

A primeira dedução que me surge à mente é que viver é uma emoção infinita. O que não quer dizer muita coisa, eu sei. Tentarei ser mais específico. Penso que, em qualquer lugar, a qualquer tempo, viver me parece experiência radical, um reservatório imensurável de presente. Acho que é o caminho e nós os caminhantes de uma trajetória infindável que começa agora e não termina mais. Uma brecha aberta pela qual a alma respira.

Viver talvez seja estar. E estar é estar com os outros no mundo. A maior dificuldade é que julgamos e organizamos tudo em relação a nós. E as pessoas e seus motivos são irredutivelmente diferentes de nós. Isso gera conflitos e insatisfações. Elas não estão para nos satisfazer ou concordar conosco. Como nós, elas são uma liberdade a se realizar. Pensá-las assim, nos faz percebê-las como um mistério cheio de fecundas possibilidades.

Vivo extremos desde que me conheço por gente. Matei, roubei, fiquei preso quase 32 anos. Estive à deriva, numa errância descontrolada. Conheci pessoas maravilhosas e outras mesquinhas e perigosas. Odiei e fui amado. Encontrei em cada outra pessoa o que me faltou para viver plenamente, mas consciente que o problema era sempre comigo mesmo.

Há poucos anos, estava em uma cela que media 5 por 4 metros; hoje vivo em uma casa com muitos cômodos e cada um deles maior que aquele xadrez. No lançamento do meu segundo livro, “Tesão e Prazer”, fiquei hospedado no Hotel George V, por conta da revista em que tenho uma coluna já vai para 14 anos. O apartamento em que fui colocado sozinho era maior que o pavilhão em que morávamos em mais de 100 presos. O banheiro era bem maior que a cela que habitávamos em 16 pessoas e a hidromassagem era do tamanho do banheiro, lavatório e da ducha, que todos usávamos.

Havia um prazer impossível ali, eu não conseguia aproveitar. Estava só. Não havia com quem dividir todos aqueles prazeres. Tudo era insólido, desamarrado do que fora minha vida. Um passo em falso no inexprimível. A mesa do café da manhã, selfservice, era tão comprida quanto meus olhos alcançavam. Possuía uma tal variedade de alimentos que alimentaria um batalhão. Meia dúzia de espécies de bolos; doces, brioches, queijos e frios fatiados que eu nem imaginava o que fosse. Pães de todo tipo; salgado, doce, preto, branco, pintadinhos, pequenos e grandes. Frutas, então, era tamanha a variedade que perdi a vontade. Quando peguei um pedaço delicioso de bolo e saí comendo, meu advogado, que viera para me levar ao lançamento do livro, chamou minha atenção. Tinha que pegar no prato e comer na mesa. Fazia parte da educação. Quanta frescura, pensei. Perdi a vontade de comer: todo meu desejo era correr daquele logro sedutor.

Dia seguinte, fui ver meus filhos. Na casa vizinha, residia minha comadre, havia batizado meu filho mais novo. Convidou-me para tomar café em sua casa. Eu a conhecia de menina e ela queria me apresentar o marido e os filhos. Havia uma tal alegria em me receber, um brilho de prazer nos olhos dos meninos e um aperto de mão tão sincero do marido que me fez sentir satisfação em viver. Era um momento mágico. Não havia cadeira para sentar. A comadre encheu um copo de vidro de café e me deu um pãozinho francês com fina camada de margarina. Estava dividindo comigo o café e o pão de seus filhos. Nunca mais tive um café da manhã tão delicioso. Sai para comer no quintal, a cozinha era tão pequena que quase não dava para nos mexermos. O céu lavava o ar de azul e eu sentia o esplendor de estar vivendo. Aquele povo sofrido, com dificuldades até para alimentar seus filhos, tornava minha vida grande.

A vertigem de viver é sentida quando nos envolvemos com pessoas de alma simples. O coração submerge, de soterrado, como um pássaro assustado com as penas em desalinho. Não, eu não sabia bem o que fosse viver. Sabia apenas sobreviver. Estou aprendendo agora, em meio a tantos contrastes e extremos, a viver, depois de tantos anos de sobrevivência nos cárceres e mais de década de lutas por viver aqui fora. Tudo me parece um processo dinâmico, relativo à capacidade de cada um de perceber. O que definir hoje como viver, amanhã, com certeza, estará ultrapassado. Acho que toda sabedoria está em viver o melhor que se consegue no momento, já que o conhecimento não perdura. Somente dura o momento de sua ação. Saber o que é viver é, sem dúvida, viver.

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Luiz Mendes

26/01/2016

Com o Coração na Estrada (1)

A maioria destas “acontecências” se passam a meio caminho entre Altamira e a capital do Pará, onde se estende a Transamazônica, com sua pista estreita, barrenta, pontes precárias que as chuvas desmontam, despenhadeiros.

Em Altamira, o velho Soares é proprietário de uma frota de caminhões de transporte. Homem feliz, bonachão, fiel à esposa, com quem tem três filhos: dois varões e Dalila, a primogênita e predileta do pai. Em um mundo de machos, foi Dalila que o velho Soares escolheu para acompanhá-lo nas longas e acidentadas viagens pela Transamazônica. Com o pai, ela aprendeu a dirigir e a caçar. Aos 17 anos, já pilotava os caminhões de carga e, armada de uma bereta, desafiava os motoristas da frota na caça para o almoço à beira da estrada. Botas de cano longo, enfiava-se no mato com o bando de homens e, para orgulho do velho, era quase sempre quem trazia as melhores caças.

Dalila tornou-se uma espécie de talismã da frota. Os motoristas acreditavam que os acidentes só ocorriam quando a moça não estava ao lado do velho Soares na liderança da frota. Superstição, talvez, mas o certo é que havia algo misterioso na figura ambígua de Dalila, que manejava uma arma com a mesma simplicidade com que embalava uma criança: bonita, corpo ágil e esbelto, maneiras delicadas, jeito doce mas extremamente decidido de olhar, um quê de profundezas de rio mesclado a uma energia de fogo. Em Dalila, o masculino e o feminino conviviam numa perfeita harmonia.

Mas o curioso é que, com ela, as coisas pareciam acontecer sem aviso prévio. Certa noite, sentiu-se mal subitamente no meio da estrada e, para espanto de todos, pariu um bebê. Naquele mundo de homens, ninguém percebera o estado da moça, até porque nem mesmo o pai jamais soubera de qualquer envolvimento da filha com algum homem. No momento do parto, vida e morte se aproximam, quando Dalila tem uma visão do amante sendo assassinado.

Alguns meses depois, ela confia o filho aos cuidados da mãe e volta ao trabalho. A ausência do talismã deixara a frota a mercê dos acidentes.

Naqueles poucos meses, o velho Soares perdeu dois caminhões, sendo que um deles rolou o despenhadeiro, inutilizando a carga e matando o motorista.

Novamente lado a lado na solidão da estrada, o velho Soares só então toma conhecimento da história de amor entre a filha e um homem que passou por

Altamira e alí foi assassinado, ninguém sabe porquê. Esta história folhetinesca, narrada por Dalila, deixa no ar uma indagação: realidade ou ficção? Sem dúvida, existe uma criança, fruto desse romance, mas foi assim mesmo que as coisas aconteceram? Ou Dalila quer esconder, com uma fantasia, os verdadeiros fatos?

Continua na próxima semana

Etcetera e tal

Alívio. É um passo de cada vez. Sem cessar. Pra correr daqui. Pra libertar. Que faz engatinhar. Apaixonada. Sem mais nem menos. Você não me amou. Superar. Extravasar. Saber pra serve aquilo. Coração faz tum tum tum. Um abraço precisa de dois corpos. Quem disse que eu não sei desenhar? Essa tarde vou empinar pipa. Você já foi ao cinema? São dois pra lá, dois pra cá. Rebola, desce até o chão. Ele pode porque é menino. O sinal abriu. Quem foi esse filho da mãe que buzinou na minha traseira? Dar a seta. Pare! Pedestre. Respeite os mais velhos. Você sabe assobiar? É um passo de cada vez. Nada é pra já. Hoje, meu cabelo tá legal. Por favor né?! Senta que lá vem história. #gourmetizado. #dicadodia. #vdc. #fériasnohavaí. Você sabe dançar? Mãe, me empresta essa bolsa? Agora eu tô aqui usando esse recurso que um monte de gente usou. Disse que não ia casar, nem ter filhos. Ave maria! Pra quê isso? Joga o lixo fora. Passa roupa. Lava louça. Já te disse que você tá bonita hoje? Mas só hoje. Viu o mar aos 12 anos pela primeira vez. Tinha que ser mulher no volante. Mulher tem que pagar as próprias contas. Ser bem-sucedida. Mas não pode ficar pra titia. Tem que estar feliz. Na próxima parada. Se arrependeu. Gostou. Ai, que delícia. Correr. Correr mais. Mais ainda. Sem parar. Não pode cair. Se cair, tem que levantar. Última da fila. 10 pães massa grossa, por favor. Desculpa, vai ficar tudo bem. 52 kilos e 300 gramas. 1,67 de altura. Não sei quanto de busto, não sei quanto de quadril. Olha o carro! Quase foi atropelada…Você viu o noticiário? Que tragédia. Saber rodar. No salão. De saia rodada. Rodar até ficar tonta. Pra cair no chão. Dessa vez, não precisa levantar. Julgada. Eu te avisei. Alô? Pai? Liguei só pra saber se tá tudo bem. Manda um beijo pra vó, tá? Tem que descansar. Louca. Doida. Pirada. Lé lé da cuca. Pisando forte. Firmeza. Robusto. Tem que saber fazer. 5,6,7,8. Plié. Battement tendu. Vai mandar que horas? Abre seu e-mail, tá lá. Uma barata. Mata! Uma estrela de Hollywood. Desfilando na passarela, que lá vem ela. Quem mandou? Com licença, senhora. Own, mas é fofo. Quantos meses? Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades. Amor I Love You. Fica pra próxima. No pain, no gain. Você pode vir me buscar? Medo. Saudade. Cheiro de bolo de laranja. Sessão da tarde. Café com peta. Aquele filme cult dos anos 60 hiper-mega-power alternative. Não vi. Eles formavam o casal perfeito. Morreu de que? Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Caminhar na praia. Panela velha é que faz comida boa. Satisfação. Patinar no gelo. Frio na barriga. Ansiedade. Saltar de para-quedas. Adrenalina. Quebrar a cara. Declarante, aos costume disse nada. Mas você disse que sabia nadar. Respiração boca a boca. Diz que em Marte existe vida. Não olhou para trás. Foi embora.

A verdade sobre mim

Não, não teve texto de ano novo porque talvez – mas só talvez – não tenha tido ano novo algum. Peguei uma greve no mestrado, de modo que 2015 está estanque e pode ser esse o motivo da ausência de um reveillón em mim. Não somente. A verdade é que lá em janeiro do ano passado eu comecei um ano que só vai terminar daqui a dois. Aguardemos.

Mas é estranho aguardar sem que o tempo que passa seja marcado pelos acontecimentos – nada acontece, novamente, em mim. Não consigo mais ser mil. Não que um dia eu tenha conseguido, mas é fato que está bem mais difícil agora parar de problematizar tudo, falar de bobagem com os amigos, tomar um vinho – eu que nunca fui de vinho, veja você – escutando Gal cantando Azul. Tudo tem ficado tão intenso enquanto tento convencer a mim mesma que as coisas não precisam ter o peso de um elefante.

Fui acometida por uma LER na mão direita e agora digito enquanto penso no ousado projeto do meu corpo de tentar prender tantas palavras em mim. Dei pra ir deitar as 4 da manhã, mas isso nem significa exatamente dormir.

Fico muito bem em mim e, aparentemente, parei de sofrer por saudade ou expectativas. Sou de uma apatia terrível, tanto faz se tá frio, tanto faz se calor, se estamos na noite de sábado ou se a quarta-feira derrama cinzas pelo país. Você vai me ver sorrindo e pensar que estou curtindo pra valer qualquer momento, mas na verdade, em qualquer hipótese, pode apostar que eu preferia estar no sofá lendo o Twitter.