DESORIENTADO

Depois que ela se foi, há quase um mês, esta é a primeira vez que saio do apartamento. Não por vontade própria, mas insistência dos amigos. Precisava espairecer um pouco, diziam, ver gente. Talvez receassem eu enlouquecer de vez. Meu corpo, entretanto, não dava sinal de vida, estirado na cama sem disposição pra nada. Quanto à alma, dava pena vê-la destroçada num canto do quarto, talvez buscando compreender tamanho desamparo. Agora entendia o porquê de ligarem o amor a precipício, metáfora de fundura sem fim, com a pessoa despencando lá de cima,  sequer um galho para amortecer a queda. Dar voltas pelas ruas de Teresina, ao contrário do que se imaginava, acentuou ainda mais a sensação de desespero. Cada pedaço dessa cidade guarda muito de Olívia, particularmente o centro, ela que adorava tanto passear por ali em silêncio e ouvindo Cat Stevens, seu cantor predileto, curtindo as belezas da Frei Serafim e o crepúsculo na Ponte Metálica, onde o sol se esconde no horizonte mais bonito que noutro lugar. Dizia gostar muito do cheiro de nossos rios – o Parnaíba e o Poty -, infelizmente abandonados por todos, incluindo gestores e habitantes; e, sobretudo, do calor nos meses do B-R-O-Bró, quando afirmava sentir a libido pulsar de forma intensa. Preferia mil vezes o calor, destacava sempre, do que o frio estéril em sentimentos viscerais. Em Olívia, eu adorava tudo, o beijo em especial, sabor diferente a cada dia e capaz de acariciar nosso âmago. Desejo de jamais desgrudar de seus lábios sensuais, horas a fio num siribolo ardente de línguas. É o beijo na boca – profetizava Nelson, o Rodrigues, o sábio teatrólogo pernambucano – que faz do casal o ser único, definitivo, tudo mais sendo tão secundário, tão frágil, tão irreal, com o que assino embaixo. Acontece que ela partiu, de repente, sem avisar nada, deixando-me completamente desorientado e triste. E agora, sem rumo, não sei o que fazer.

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NO INFERNO

Morro, mas morro feliz. Levo comigo dois desses desgraçados que infestam a cidade. Irão agora prestar conta no inferno com o diabo, o pai deles. Tive medo de afrouxar na hora, cagar na calça, como se diz, mas encontrei coragem no ódio. Foi ele, com certeza, que encheu meus culhões de sangue para enfrentá-los cara a cara. Vão se foder, escancarei a boca e gritei, seus filhos de uma grande arrombada. E o três-oitão começou a soltar fogo pela boca, como se eu tivesse xingado a mãe dele. Me fez lembrar o pipocar das balas, os folguedos juninos em Teresina. Senti a mesma emoção quando estourava, ainda criança, traques nos pés dos outros. Quanto maior o susto, maior era minha alegria. A gargalhada azul e barulhenta do mar. Como era prazeroso senti-la novamente. De dois, pelos menos, o mundo vai se ver livre. O terceiro, que me acertou, conseguiu fugir. Experimento agora uma indescritível sensação de paz. Do peito ainda escorre um sangue quente, começa a ficar embaçada a minha vista. Umas lembranças surgem, como formiguinhas, em fila indiana. Menino, jogando peteca e banhando de chuva com os outros molecotes. Adolescente, me sentindo livre em cima de uma bicicleta e da prima que morava em casa. Adulto, cercado por amigos numa mesa de bar e contando histórias para meu filho dormir. Estranho o frio que passo a sentir, quem sabe do sangue perdido ou do sentimento de abandono.  Onde estão todos? Deviam ter aparecido no foguetório do juízo final. Coisa mais arretada que já vi na vida, com as pessoas completamente irreconhecíveis, numa animação só. Eu mesmo, covarde que sempre fui, me surpreendi no papel de valentão. Precisavam ter visto. Agora, infelizmente, é tarde. A morte, hoje vestida de vermelho, me beija com sofreguidão. Para sempre, digo a vocês, ela me seduziu e conquistou.