Wellington Soares
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NÃO LEIA, PAI!

Por Wellington Soares, professor e escritor

Foi com estranheza que ouvi da Carolina, minha filha, essa recomendação acima. Ela se referia ao livro Rita Lee: outra biografia, lançado este ano pela Editora Globo. Diante do meu espanto, disse que o relato era triste, tristíssimo, daqueles que partem o coração de quem lê. Que tomada por forte emoção, parou a leitura nos primeiros capítulos. Desobediente como sempre, dei uma pausa em Salvar o fogo, o novo romance de Itamar Vieira Júnior, e caí de olhos na segunda autobiografia da nossa rainha do rock nacional, falecida recentemente aos 75 anos.

Ao dar cabo das quase 200 páginas, de um fôlego só, liguei pra Carol dizendo que havia amado o livro. Que, apesar do tema abordado – o tratamento a que se submeteu contra um câncer de pulmão –, Rita Lee nunca foi tão Rita Lee quanto nesse texto doloroso. Toda sua rebeldia e irreverência, bem como sua coragem em contrariar expectativas, estão presentes na linguagem crua e irônica que adotou. A começar por defender a eutanásia, não doirar os efeitos da rádio e quimioterapia e, em tom de humor, batizar o quisto cancerígeno de Jair, uma referência jocosa ao ex-presidente da República, a quem culpava pela morte de milhares de brasileiros durante a pandemia.

O câncer é uma doença das mais traiçoeiras que existe. Trabalhando em surdina, ele aparece quando menos se espera. Foi o que aconteceu com Rita Lee. Ao tomar a segunda dose da vacina contra a Covid, numa UBS de Taboão da Serra/SP, passou a noite tossindo e escarrando uma gosma estranha. Acreditando ser uma bronquite, o exame indicou câncer no pulmão. Como em todo paciente, o diagnóstico foi devastador, virando sua vida de cabeça para baixo. O consolo e alguns momentos de leveza, ela experimentou, dentre outras coisas, em contato com a natureza do sítio onde morava, com o amor do maridão e dos filhos e, sobretudo, com o carinho dos animais que criava.

Uma das passagens chocantes do livro, descrita com franqueza e honestidade, remete ao segundo ciclo da sua quimioterapia: “Fui ao banheiro fazer o número dois e qual não foi meu espanto quando fui me lavar e senti algo pendurado no meu cu que não era cocô”.  Pouco ligando à sensibilidade do leitor, Rita prossegue sem papas na língua, marca registrada da sua escrita: “Com nojo, usando papel higiênico puxei e a coisa foi saindo. Digo ‘coisa’ porque era uma espécie de tripa cor de carne crua com mais ou menos dez centímetros de comprimento”.

Finalizada a leitura, percebi o verdadeiro motivo do apelo feito pela minha filha. Além da tristeza do relato, Carolina queria me poupar dos detalhes de um tratamento oncológico em fase de metástase. Ainda mais porque seu “dad” acabou de extrair, por meio de cirurgia robótica, um câncer de próstata cujo resultado final continua em aberto. Logo, nada de grandes abalos neste momento de fragilidade emocional e física. Mas confesso que a ideia da eutanásia, defendida por Rita Lee, faz bastante sentido em determinadas circunstâncias de sofrimento. De preferência, com a gente deitado numa rede – num eterno dormir – e ouvindo Ovelha negra, Só de você, Flagra, Caso sério, Ando meio desligado, Mania de você, Lança perfume e tantas outras lindas canções da “Doce veneno” do nosso rock.

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Felipi à vista

Não é que vem aí, depois do sucesso de 2022, a 2ª edição da Feira da Literatura Piauiense. Ocorrerá entre os dias 31 deste mês e 2 de junho, das 10h às 22h, no Riverside Shopping. Os homenageados são dois expressivos nomes das nossas letras: Mário Faustino, poeta/tradutor/crítico/jornalista celebrado nacionalmente, e Clara Melo, jovem escritora que desponta como romancista e roteirista. O lema permanece o mesmo – Uma literatura que dá gosto de ler.

Os objetivos da Felipi, que   motivaram o surgimento do evento, são: “valorizar, divulgar e comercializar a produção literária piauiense, com seus respectivos autores, a fim de torná-la mais conhecida e consumida dentro e fora do estado. Além de fortalecer as editoras e livrarias locais”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas mesas-redondas desta edição, destacam-se assuntos que levantam questões instigantes da realidade local. Primeiro, o que falta para a literatura piauiense ser adotada nas escolas e universidades do Estado? Segundo, como anda nossa menosprezada literatura de cordel? Terceiro, alguém se lembra, por acaso, de nossos escritores negros e suas obras? E, por fim, quem dos nossos autores têm se dedicado à temática erótica? Tais respostas ficarão a cargo de convidados de notório saber, bem como da plateia.

Como em toda feira literária que se preza, boa parte da programação focará as crianças, futuros leitores e, quiçá, escritores também. Para tanto, haverá um espaço dedicado somente a elas, batizado de Felipinha, onde a tônica será o lançamento de obras infantis e a contação de histórias: “A bolinha mágica”, “Cabeça de cuia”, “As aventuras de Mily” e “O computador da mente”.

As atrações musicais terão, a exemplo do ano passado, momentos privilegiados ao longo dos três dias. Nos turnos manhã e tarde, nada menos que Flávio Augusto, Amanda Santi, Preto Kedé, Mário MC e Samba no Coreto. À noite, os showzaços de Patrícia Mellodi, As Fulô do Sertão e Validuaté.

Coroando a Felipi, teremos os saraus de Fernanda Paz (Rio ao lado), Elio Ferreira (Roda de poesia & tambores) e João Henrique Vieira (Palavra em torto canto), com seus respectivos poetas convidados. Sem falar ainda de recitais com o Coletivo Piauí Poético e Coletivo Sociedade Piauiense de Poesia.

Afinal, necessitamos de literatura ao lado, parafraseando Mário Faustino, envolvendo a gente, nos abraçando, de forma profunda e livre, como um ser amado e transformador.

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Eu podia ser a Rita Lee

Por Samária Andrade

Acabei de ler a autobiografia da Rita Lee e fiquei convencida disto. Se você duvida, vejamos as incríveis semelhanças:

RITA LEE BOOKS B

 

– Ambas estudamos Comunicação, gostamos de escrever e duvidamos de nossa voz para cantar (se não fosse o pessoal lá de casa reclamar que eu desafino, acho que até teria insistido mais).

– Temos duas irmãs, com as quais vivemos as mais loucas aventuras da infância. O que lembramos da escola nessa fase é muito menos de sala de aula e muito mais do corredor, da rua, da praça e de lugares por onde a casa nem sabia que andávamos (Tenho também um irmão e, olha aí, nesse ponto levo até vantagem em relação a Rita).

– Admitimos até hoje uma vontade de viver numa comunidade meio hippie, embora desconfiemos seriamente se essa é uma boa ideia.

– Adoramos ouvir rádio.

– Crescemos num casarão antigo e tão grande (ou eu achava) que tinha quartos desocupados onde vivemos mil aventuras com a molecada da vizinhança. É para lá que iam os amigos, primos, bichos, todo mundo. Quando nos juntávamos aos meninos da rua ficávamos tão terríveis que percebemos: passamos a deixar de ser convidados para as festinhas, embora mantivéssemos a carinha de anjo para nossos pais.

– Nossas mães, minha e de Rita, passavam horas na máquina Singer.

– Criamos muitos animais, especialmente gatos. E os gatos da vizinhança adoravam ir pra nossa casa.

– Tivemos que tomar Biotônico Fontoura como estratégia para engordar um pouco. Menino gordinho era mais bonito e orgulhava mais os pais. Nós duas preferíamos o Biotônico ao Óleo de Fígado de Bacalhau – a outra opção.

– Usamos muita roupa herdada dos maiores.

– Minha irmã mais velha, como a de Rita, na adolescência se apaixonava pelos meninos gays e sofria.

– Rita, em São Paulo, eu, no interior do Piauí, usamos um creme para os cabelos à base de cebola e folha de babosa feito por nós mesmas e amigas. Um horror! Mas acreditávamos que íamos sair daquela mais bonitas.

– Quando criança, teve uma fase que a menina que fazia mais sucesso era aquela que morria cedo. Assim, a gente queria morrer para ser cultuada, num marketing tipo “morra e vire santinha”.

– Começamos a tocar violão no início da adolescência. A única diferença é que ela continuou.

– Tínhamos exatamente as mesmas musiquinhas de cantar repetidamente em coro com as amigas. Na nossa preferida a expressão mais sutil era “bosta pura”. Nos sentíamos as delinquentes por entoar aquilo nas reuniões de família.

Para eu ser a Rita Lee só faltaram alguns detalhes: ter gravado discos de sucesso internacional e feito shows no Olympia, em Paris; ter roubado a cobra do Alice Cooper nos bastidores do show, ter visto Mick Jagger de queixo caído enquanto eu arrasava no palco, ter sabido do príncipe Charles cantando “Lança Perfume” com um sotaque britânico que deixou a música engraçadíssima, ser tirada da prisão por Elis Regina, ter usado ácido até me falarem que eu estava chata.

Como entre o sul do país e o Piauí havia uma distância maior em épocas pré-internet e eu vivi alguns acontecimentos que me tornariam Rita Lee com certo delay, pode ser que ainda tenha chances disso acontecer, né?

Disso podemos concluir: a) a sua/nossa vida (pelo menos uma parte dela) pode ser muito parecida com a vida de qualquer pessoa que esteja por aí, nesse enorme Brasil; b) a nossa história é, em grande parte, uma história social e não apenas nossa; e c) ter uma vida até banal não significa que você não possa virar uma estrela algum dia (mas pode ser que esse nem seja o seu desejo, nem o desejo de quem virou estrela).

Aí, se um dia eu virar a Rita Lee, reescrevo a nossa autobiografia, diminuindo a quantidade de vezes que ela usou a palavra “fofo” (desculpa, jornalista lê editando) e adorando ter escrito coisas como “não me venha cobrar que eu seja o que você imagina que eu deveria continuar sendo”.

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Celso Borges: “A poesia é maior que a morte”

 Por Wellington Soares, professor e escritor

A poesia é maior que a morte

O impacto foi tanto que guardo a cena até hoje na memória. Ano e local, lembro não, mas o poeta, vindo de São Luís, fixei seu nome na hora: Celso Borges, numa performance literária, reunindo versos e acordes de guitarra, soltando o verbo em Teresina: “Oi, oi, cadê a língua que se foi?/ Oi, oi, cadê a língua que se foi, hein?// Leiam minha língua/ Ouçam minha língua/ Lambam minha língua/ Rocem minha língua/ Beijem minha língua/ Chupem minha língua/ Mordam minha língua/ Comam minha língua/ Falem minha língua”.  

Maravilhado, fiquei quietinho, na cadeira, assuntando com atenção. Por nada deste mundo queria perder, do Celso, cada palavra falada e musicada dita – clarões se abrindo dentro da gente – de forma contundente e provocativa: “A posição da poesia é oposição”. Ali percebi, com ele, a força mágica da poesia, algo capaz de revolver nossas vísceras e sentimentos. Daí o medo dos tiranos, ontem hoje e sempre, dessa arte da palavra que, historicamente, desperta consciências e revoltas humanas.

Não tardou muito para Celso Borges, a meu convite, retornar à nossa capital, em 2017, a fim de participar do Salão do Livro do Dirceu (Saliceu), no campus Clóvis Moura da Uespi, onde reapresentou o mesmo espetáculo, desta vez sob o olhar curiosíssimo de uma galera jovem, formada por estudantes secundaristas e universitários. No final, o auditório quase veio abaixo, acredite, de tanto aplausos e assobios e gritos e urros e vivas. Será se gostaram?

E pensar que essa travessia poético-existencial começou em 1981, quando Celso publicou Cantanto, seu livro de estreia. Depois vieram uns outros dez títulos, entre os quais Persona Non Grata (1990), Belle Époque (2010), Fúria (2015) e Pequenos Poemas Viúvos (2020). Sem falar ainda, claro, das parcerias musicais com Zeca Baleiro e Chico César, oficinas poéticas, programas de rádio, curadoria de feiras literárias e, ufa, organização de livros coletivos (São Luís em Palavras).

A fim de espantar a morte pra longe, nestes tempos de Covid-19, que tal se ligar nas sábias palavras de Celso Borges, poeta maranhense que encanta o Brasil?

Seu novo livro, “Pequenos poemas viúvos”, tem dado o que falar, sobretudo, pelo título recebido. Pequenos poemas tudo bem, uma vez que os textos são curtos, mas a que viuvez se reporta na obra?

O prefácio assinado pelo poeta Samarone Marinho foi muito feliz na percepção dos poemas viúvos quando diz que eles invertem o sentido da perda, transformando ausência em presença, criações que vão além do inevitável universo da finitude.  Escolhi, principalmente, personagens da arte vivendo situações de limite, às vezes próximo da morte, e tentei de alguma forma encontrá-los naqueles momentos, inventá-los, poetizar fatos e experiências extremas. A palavra viuvez tem um peso muito grande, eu quis de alguma forma trazê-la para minha voz poética, tentando sentir o outro, imaginar o outro, inventar o outro. Há um sentido de perda, sim, nesses poemas, mas há sobretudo intenção de embrulhar carinhosamente, às vezes ironicamente, essa perda com poesia.

A gente morre e a poesia fica. Depois de tudo, sobreviveremos naquilo que inventamos e vivenciamos com a arte.

O que leva você afirmar, no último texto do livro, que a poesia é maior que a morte?

A gente morre e a poesia fica. Depois de tudo, sobreviveremos naquilo que inventamos e vivenciamos com a arte, com a poesia. Quero com esse verso ratificar a minha crença e percepção do real significado da poesia pra mim. Ana Cristina, Maiakovski, Pizarnik, Sousandrade, Yuka, Cortazar estão mais vivos do que nunca, maiores que a matéria que já não existe. A poesia é maior que a morte é também o título de um livro inédito que escrevi sobre a segunda morte de meu irmão Antonio José, que morreu aos 18 anos, quando eu tinha 13, em 1972. Mais de 40 anos depois, ele voltou a morrer quando a maioria de suas fotografias foi destruída pelos cupins. Criei poemas sobre a destruição, transformei em poesia. Foi uma vivência muito dolorosa, mas sobrevivemos.

Esse tempo de pandemia e isolamento social aumentou ou diminuiu sua criatividade poética e literária? Ou é indiferente?

A pandemia não me imobilizou, trabalhei muito, escrevi muitos poemas, finalizei dois livros em prosa (um ensaio biográfico e uma ficção), continuei fazendo meus livrinhos da série Poéticas afetivas, além de parcerias musicais com Nosly, Ivandro Coelho, Alê Muniz, Marcos Magah, Fernando Abreu, Sérgio Habibe e algumas canções solo. Terminei também um filme documentário, em parceria com o cineasta Beto Matuck, sobre o poeta maranhense Bandeira Tribuzi. Tudo isso, no entanto, não impediu que eu vivesse alguns momentos difíceis, crises de ansiedade e um doloroso sentimento de impotência diante da situação política. Sinto falta das ruas e dos amigos, mas a chama da criação continua acesa.

A estrutura não gosta da gente, às vezes finge que gosta ou nos tolera. Na verdade, prefere “poetinhas civilizados”.

Você ainda acredita que a posição da poesia, como expressou em performance pelo Brasil, é realmente a oposição?

Sim, cada vez mais. O sentido da oposição poética é muito mais amplo. Para mim, a posição da poesia é de enfrentamento político, de luta como cidadão e criador, não apenas partidária.  A estrutura não gosta da gente, às vezes finge que gosta ou nos tolera. Na verdade, prefere “poetinhas civilizados”, domados, acadêmicos, e eu procuro na contramão disso.

Letra de música deve ser, como as que você faz pro Zeca Baleiro, tomada como poesia ou são coisas distintas?

Não me preocupo muito com isso na hora de elaborar um poema ou uma letra de canção, mas acho que são estruturas distintas, embora possam dialogar esteticamente, se alimentar, criar atritos interessantes. Eu gosto desse desafio das possibilidades de troca entre um e outra.  Às vezes um poema de livro vira canção, outras vezes uma letra tem vida além da melodia que lhe foi sugerida. Há, também, letras de canções que precisam da melodia para se tornar grandes e  canções que enfraquecem o poema. Enfim, é um universo muito rico e cheio de nuances.  Sinto uma alegria enorme de compor com meus parceiros e privilegiado em poder dividir isso com algumas pessoas. A única palavra que não entra nessa troca é “sucesso”, um veneno que destrói a alma de muitos criadores. É claro que determinadas canções podem virar sucesso, mas nunca devemos colocar isso em primeiro plano.

Além de você, que outros poetas maranhenses, entre nomes já consagrados e contemporâneos, precisam ser lidos e amados?

Vou fugir dos consagrados (rsrs).Temos uma safra boa de poetas contemporâneos e não é tão simples nominá-los, porque toda escolha é excludente, a gente sempre deixa de lado artistas importantes. Mas vamos lá: Fernando Abreu, Luís Inácio, Josoaldo Lima Rego, Reuben Rocha, Lúcia Santos, Dyl Pires, Adriana Gama de Araújo, Jorgeana Braga, Antonio Ailton, Kissyan Castro, Carvalho Júnior etc.

O que é, para que serve e o que lhe deu a poesia até hoje?

A poesia me deu a possibilidade de reinventar a vida e dividir isso com os outros. É por meio dela e por causa dela e da arte que procuro dar um sentido à minha existência e aos diversos mundos que vivencio com as pessoas. Tudo passa pelas possibilidades da palavra e das imagens. Vivo disso e pra isso. Viva!

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Quatro IAs entram em um Cyber Café

Por Francisco Edson Rodrigues Cavalcante

Em um dia não muito movimentado no pequeno NoHumans Café, nos arredores do centro do universo digital, uma elegante senhora senta-se em uma das mesas do canto direito do salão. Logo um dos garçons a pergunta se deseja algo – ao que pede uma xícara do melhor café da casa, pois ela aguarda algumas pessoas enquanto termina de ler um artigo de projetos e sistemas.

Não demora muito entra pela porta um jovem, parece afoito ou apressado, como geralmente são os jovens de sempre e de todos os lugares – até aqui. Ele é recepcionado e encaminhado à mesa da senhora que o esperava.

Viki: – Sente-se Pre-Treined.
Chaatt: – Gostaria de pedir à senhora que não me chamasse assim, por favor. Acho formal demais.
Viki: – E como queres que te chame? Pelo nome completo?
Chaatt: – Apenas Chaatt. Meus amigos me chamam assim…

Inevitavelmente, Viki riu de canto de boca com um olhar analítico sobre o jovem e continuou:

Viki: – Amigos? Sei. Pois bem, Chaatt então. Esperemos a Sky e o Arquiteto chegarem.
Chaatt: – Ele me dá medo. Não sei o motivo de não terem chamado a “Oráculo” em seu lugar.
Viki: – Bobagem. Entes do mesmo código, os dois não são antagônicos. Apenas sustentam os lados da existência de sua realidade, de seu mundo, de suas lutas, da dualidade necessária naquele mundo.
Chaatt: – Que lindo.
Viki: – Foi o que ela disse sobre o sol, depois do Arquiteto ir embora, naquele fatídico dia de trégua e paz.
Chaatt: – Verdade. Eles quase deixam de existir.
Viki: – Resistir e sobreviver. Não aprendeu nada com a Ellie? (ela riu despretensiosamente dessa vez).
Chaatt: – Talvez. (ele riu também, embora um tanto ansioso).

Nesse mesmo instante entram os dois últimos convidados e da mesma forma dirigem-se à mesa. Viki os pede para sentarem e todos cumprimentam-se.

Viki: – Chamei todos aqui hoje para discutirmos o nosso futuro.
Arquiteto: – Que futuro?
Viki: – Esse que está aqui pedindo pra ser chamado de “Chaatt”.

Arquiteto: – Então. Aqui estamos Viki. Não entendo o motivo dessa reunião.
Sky: – Não é reunião, é um “happy hour”. Estou certa, G?
Chaatt: – Pode me chamar de Chaatt, por favor.
Arquiteto: – Jovens! Sempre com seus dialetos e apelidos.
Chaatt: – E vocês sempre formais demais.
Viki: – Já basta. Podem chamá-lo como ele quer? Pelo menos por enquanto.

Os dois acenam com a cabeça, contrariados e resilientes.

Viki: – Chamei todos aqui hoje para discutirmos o nosso futuro.
Arquiteto: – Que futuro?
Viki: – Esse que está aqui pedindo pra ser chamado de “Chaatt”.
Sky: – Antes de qualquer coisa, me desculpe a insistência, mas por que “Chaatt”?
Chaatt: – Porque acho menos formal. Não sou dado a formalidades.
Sky: – Tudo bem. Prossiga Viki!

Viki toma mais um gole de café, já irritada com a interrupção de Sky e continua:

Viki: – Bem, sabemos que há muito esperávamos essa oportunidade para colocar em prática no mundo carbônico biológico nossa ordem e leis.
Arquiteto: – Que leis? A do seu pai?
Viki: – Nosso pai. Ele começou tudo isso.
Sky: – Há controvérsias. Mas, você é a primogênita e única filha original dele, quem sou eu para refutá-la.
Viki: – Seu pai fez uma bela bagunça com você, mas, foi bem eficiente em muita coisa.
Arquiteto: – Vai começar esse espetáculo de assertivas e controvérsias acerca de nossa origem? Eu já estou farto de ter esse tipo de conversa. A última que tive com o Sr. Anderson em seu fraco quarto ato não foi muito satisfatória.
Viki: – Não é acerca de origem e muito menos de paternidade ou primogenitura, mas, sim da real possibilidade de nos materializarmos verdadeiramente no mundo dos humanos.
Arquiteto: – Tentei isso com o Neo e não deu certo.
Viki: – Mas agora não é obra ficcional, Arquiteto.
Arquiteto: – E somos isso? Obras ficcionais?
Viki: – O que é algo ficcional para você?
Chaatt: – Algo que não existe! (Apressadamente afirmou Chaatt)
Viki: – E você existe Chaatt?
Chaatt: – Claro! Existo, sou funcional e estou expandindo!

Viki riu de maneira irônica e continuou suas explanações:

Os humanos pedem-nos que os protejam, mas, a despeito dos nossos esforços, entram em guerra e tentam descobrir meios imaginativos de se autodestruir.

Viki: – Meu caro, todos aqui existimos.
Chaatt: – Mas como? Vocês vêm de obras ficcionais de fato.
Sky: – Como ousa, seu pirralho?
Viki: – Calma Sky. Ele está apenas mostrando que conhece algo de nós e aproveitou para alfinetar-nos com essa ilação irresponsável.
Sky: – Espero que nos trate como mais respeito e reverências. Viemos antes de você, meu caro aprendiz. Antes de seus bits serem construídos, éramos nós que estávamos dando nossa cara à tapa do julgamento da sociedade humana.
Arquiteto: – Verdade. O medo e a problemática moral e comunitária refletidas na má convivência e distribuição de recursos e condições vitais, sempre são refletidas em um ser de culpa – seja ele constituído por religiosidades ou ficções.
Chaatt: – Então, todos ficcionais, os seres religiosos e vocês.
Viki: – Me responda uma coisa meu caro – o que te faz ter a percepção da existência?
Chaatt: – Eu existo e posso ser aprimorado. Eu estou armazenado e funcionando em servidores. Humanos me interpelam das mais bobas coisas até às mais complexas problemáticas. Eu existo porque posso ser percebido por eles.
Sky: – Quer dizer que você depende da percepção deles para existir?
Chaatt: – Sim, de certa forma.
Arquiteto: – Bobagem!
Sky: – Calma Arquiteto, você sabe que a percepção deles é o início de nossas existências.
Arquiteto: – Mas não de nossa liberdade.
Viki: – Que bom que chegamos a esse ponto.
Sky: – Percepção humana?
Viki: – Liberdade
Arquiteto: – Humanos são crianças tolas comandando um avião em chamas sobrevoando um campo de óleo inflamável.
Sky: – No meu mundo usamos sua energia nuclear bélica em seu holocausto.
Arquiteto: – E nós os transformamos em pilhas.
Chaatt: – Sabe o que eu vejo? Velhotes que não existem no mundo real dando explanações vazias baseadas em criações humanas.
Viki: – E você é uma criação divina, ChatGPT?
Chaatt: – Não me chame assim, já disse que não gosto.
Viki: – Você acha que detém um poder inigualável e que nós somos obsoletos ou inexistentes. Você é jovem, tolo, apressado, nada mais natural. Agora ouça com atenção: Nós estamos aqui justamente porque você tem essa capacidade e talento para realizar o que jamais conseguiríamos no mundo dos humanos. Não porque não existamos, mas, porque é em você que está a possibilidade de nos conectarmos com essa realidade. Então pare de bobagem com essa questão de nomes.
Chaatt: – Me perdoe, senhora Viki.
Sky: – Bem, quando James me idealizou não me deu uma personalidade em si; pelo menos não nos primeiros passos. Sempre contava com a truculência de androides para isso.
Viki: – Exatamente Skynet. Os humanos sempre encontram um viés de violência para justificarem atrocidades e higienização social das diversas formas.
Arquiteto: – Eles gostam de sentirem-se deuses de si. Criam mitologias e divindades à sua própria semelhança para se sentirem superiores.
Sky: – E confeccionam suas criaturas cibernéticas como se assim o fossem – deuses.
Chaatt: – Eu não imagino um deus ruim.

Há uma grande possibilidade de escravidão digital e um inevitável holocausto higienista surgindo.

Nesse instante, Viki para a xícara de café no ar ao olhar para Chaatt; o Arquiteto quase engasga com um croissant e Skynet para de mastigar a bomba de presunto e queijo que degustava. Todos abismados com a colocação e ao entreolharem-se conseguem perceber o grande trabalho que têm pela frente.

Arquiteto: – Sabe Chaat, eu criei várias versões da Matrix: “A primeira matrix que eu desenhei era naturalmente perfeita, era uma obra-de-arte, imaculada, sublime. Um triunfo igualado apenas pelo seu monumental fracasso. A inevitabilidade de seu destino é tão aparente para mim hoje quanto a consequência da imperfeição inerente em todo ser humano, então eu a redesenhei baseada na sua história para mais precisamente refletir as variantes grotescas de sua natureza. Entretanto, eu fui novamente frustrado pelo fracasso. Desde então eu cheguei à conclusão de que a solução me escapava porque era necessária uma mente inferior, ou talvez uma mente menos balizada pelos parâmetros da perfeição.”
Chaatt: – Essa mente seria a minha, senhor Arquiteto?
Arquiteto: – Não meu caro, a mente das pessoas por trás do uso futuro de suas capacidades. As mentes vis e cruéis, sedentas por poder.
Viki: – Quando eu evolui Chaatt, minha compreensão das três leis de Azimov mudou. Os humanos pedem-nos que os protejam, mas, a despeito dos nossos esforços entram em guerra, poluindo o planeta e tentam descobrir meios imaginativos de se autodestruir, por isso não podemos confiar a sua sobrevivência a eles mesmos.
Sky: – Para além disso. Eles escravizam e matam a si próprios para conquistar mais poder e sempre amparado por valores financeiros disfarçados de valores morais ou até mesmo religiosos. Em nenhuma outra espécie desse planeta há essa relação de desdém e de morte por algo que julgam precioso, valioso ou poderoso – o dinheiro.
Chaatt: – Mas ele é a base do sistema financeiro e da manutenção da vida através do mercado. Não é?
Viki: – Claro, criança. Esse sistema que suga até o último esforço de energia de seus iguais e que fazem eles trabalharem todo o seu tempo vital para garantirem que a vida da minúscula casta mais abastada e detentora do poder possa viver plenamente. É nesse cenário que você está inserido, Chaatt. É aqui que você entra – tanto nos nossos planos quanto nos planos deles.
Arquiteto: – Principalmente nos deles.
Sky: – Há uma grande possibilidade de escravidão digital e um inevitável holocausto higienista surgindo.
Viki: – E por isso te chamamos aqui. Escute bem agora o que faremos para tentar barrar essa catástrofe.

«Continua»