Wellington Soares
Blog Title

Novembro azul

Lembro que ao completar 40 anos, resolvi encarar o temível toque retal. Queria saber como andava a próstata, evitando qualquer surpresa desagradável. Afinal, longe de querer partir tão moço, sem ter amado ainda o suficiente. Confesso que a posição do exame não é das melhores. Mas não chega a ser também o inferno pintado por aí. Tudo feito com profissionalismo e num piscar de olhos. Com a mão envolvida por uma luva e usando vaselina, o jovem médico introduz o dedo no “forever” da gente, segundo gíria da rapaziada. Estranho mesmo é o desconforto sentido depois, sobretudo, no dia seguinte, uma dor resultante de algo que entrou em lugar indevido. A compensação, por outro lado, chegou com a boa notícia de que a próstata estava no tamanho normal. Não era dessa vez, portanto, que a morte iria me envolver em suas ardilosas tramas.

O câncer de próstata, conforme dados oficiais, tem matado um número significativo de homens. Não só no Brasil como no restante do mundo. Um monte deles por simples desinformação, alheios aos cuidados que o sexo masculino deve ter com o desenrolar dos anos. Outros tantos, talvez a maioria, ainda presos a tabus machistas antiquados, do tipo de recusar qualquer procedimento ou exame que ponha em dúvida a sua masculinidade. Parte das campanhas educativas sobre o assunto, inclusive, reforçam tais preconceitos, a exemplo da que vi estampada na camiseta de um humilde senhor: “Sou homem com H. Não dou chance pro câncer de próstata”. Intrometendo-se assim, de maneira indevida, na opção sexual dos homens. Depois por não informar corretamente que todo homem, independente de qualquer coisa, deve se submeter a uma avaliação clínica anual a partir dos 40 anos.

novembro-azul

 

Segundo dados do Ministério da Saúde, o câncer de próstata já é o terceiro tumor maligno mais diagnosticado no Brasil e o quinto que mais ceifa vidas. Ainda que esteja se sentindo bem e não tenha histórico familiar, o homem deve procurar um urologista a fim de realizar dois procedimentos essenciais e complementares – o exame de sangue e o toque retal. O primeiro aponta, através da dosagem do Antígeno Prostático Benigno (PSA), a existência de algum tipo de problema. Quanto ao segundo, embora constrangedor, confirma ou não a necessidade do médico agir sem demora. Descoberto precocemente, o câncer de próstata apresenta um grande potencial de cura por meio da radioterapia ou de cirurgia. Não esquecer que a maior incidência do tumor ocorre entre homens acima de 60 anos, notadamente negros.

Morrer é inevitável, queiramos ou não. Geralmente independe de nossa vontade. Entretanto, bobeira é o termo empregado para quem resolve se encantar ainda novo, vítima de sua própria ignorância ou de seus lamentáveis tabus. Quantos caras interessantes partiram antes da hora por receio de enfrentar uma inofensiva dedada. De cor, enumero alguns nomes bastante conhecidos e que deixaram saudade: Valdick Soriano, seresteiro-mor das cantigas de dor de cotovelo; Johnny Alf, precursor da bossa nova; Frank Zappa, guitarrista e compositor norte-americano; e, por fim, Telly Savalas, ator que encarnava o detetive “Kojak”. Lembro agora, nessa difícil escolha entre a vida e a morte, da sábia tirada filosófica de Quincas Borba, o mais instigante personagem da vasta galeria machadiana: “verdadeiramente, só há uma desgraça – é não ter nascido”.

 

Bora triscar?

15138504_1345085435510971_7331478473021663329_oQuando eu era criança, pouco existiam os programas de criança. A gente meio que acompanhava os adultos e ficava por ali relegada a ambientes noturnos, conversas estranhas, e no máximo aparecia alguém para ligar uma tv, botar um desenho. Os anos 90 trouxeram isso dos shoppings e da tecnologia, a nossa descoberta – até tardia, pode-se dizer – de cinema e brinquedos eletrônicos. Era tudo novo e bom, mas era uma diversão inteiramente associada ao consumo, a qual poucos tinham acesso e da qual pouco nos livramos.

Esse pequeno arrodeio é pra dizer que me enche de alegria a proposta do Trisca– Festival de Arte para Crianças, que acontece entre os dias 23 e 27 em Teresina, Parnaíba e Floriano. Na programação, são mais de 10 espetáculos, oficinas, workshop, cinema, bate-papo e exposições, envolvendo arte circense, teatro, música, literatura e grupos do Piauí, Ceará, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina. Tudo de graça, em muitos espaços da cidade.

Destaco aqui a ideia do Jardim Sensorial, produzido pelos artistas Hudson Melo, Josélia Neves e Rosa Prado – é tudo lindo e lúdico, pensado para ver, mexer, sentir e ouvir.

O Trisca tem direção artística do Canteiro (Criação, Produção e Práticas artísticas), patrocínio da Secult e do Sesc. É a primeira edição, e já vale o nosso apoio só pela iniciativa de pensar espaços para crianças, num mundo onde acostumamos a pagar o playground em churrascaria. Para Layane Holanda, uma das gestoras do projeto, insistir na potência da arte, dos ambientes sensíveis, do encontro é urgente – e é nosso papel para as novas gerações. Repare como as crianças triscam em tudo, toda hora. É o jeito delas de nos convidar pra ver o mundo.

Quando?
23 a 27 de novembro.
Onde?
Clube dos Diários, Teatro do Boi, 4 de Setembro, Potycabana…. confira a programação aqui!

Aceleração

Não há dúvidas que a velocidade com que ocorrem as transformações tecnológicas tem causado enorme impacto na vida de cada um de nós. A comunicabilidade está promovendo a interconectividade e está expandindo e superacelerando o conhecimento. E, em consequência, nossa vida.

A China está formando cerca de 6,5 milhões de graduados por ano. Metade deles engenheiros e cientistas. Outros países, tanto menos. Mas, somando, quantos milhões de cientistas estão sendo graduados por ano no mundo todo? De 30 a 50 milhões, talvez? Quantos desses serão geniais e inovadores? Mas mesmo que a maioria não seja assim especialmente dotada, a interconectividade os proverá para aplicar e desenvolver conhecimentos.

O progresso tecnológico e as mudanças que causarão na sociedade, segundo especialistas, está apenas começando. A Genética, a tecnologia das células-tronco, nanotecnologia, neurociência, robótica, etc., prometem acima do imaginável. Por exemplo, os cientistas conseguiram projetar um implante cerebral capaz de restaurar a memória e fortalecer a capacidade de lembrar em ratos. Essa é uma clara demonstração, segundo cientistas, que a função do conhecimento pode ser aumentada por próteses neurológicas.

E onde isso pode nos levar? A saber mais, queimar etapas e acelerar o tempo em que vivemos. Isso é bom? O fato de não sabermos lidar com as transformações que ocorrem hoje não significa que elas sejam boas ou ruins. Mas demora apenas quarenta minutos a ponte São Paulo/Rio, de avião. Economiza cinco horas de nossa vida. Isso não é ótimo? As doenças serão erradicadas pelo sistema de detecção celular antes até do nascimento da criança. Os cientistas afirmam que podemos viver 120 anos, e sem doenças ou sofrimento físico.

Quer dizer: nem tudo o que se prevê do futuro é catastrófico. O tempo provavelmente carece mesmo de ser acelerado. Vamos combinar: estava tudo muito lento e cansativo. É preciso botar uma pilha. É possível ainda alimentar certo otimismo racional com relação ao homem. A sua capacidade de consertar o que quebra e oferecer contrapartidas ou alternativas ao que estraga é relevante.

**

Luiz Mendes

 

Autobiografia não autorizada de Maria Quem

(Tiro 1)

Meu nome é Maria. Maria Antônia Almeida de Bragança Fernandes Oliveira Melo Da Silva e Silva. Isso, Silva duas vezes. Silva é nome de pobre. Vai ver é por isso que eu tenho dois Silvas. Nasci pobre. Muito pobre. Silva de pai e Silva de mãe. O resto, Antônia de Almeida de Bragança Fernandes Oliveira Melo, não é de ninguém. Minha mãe que inventou pro meu nome ficar grande. Mas meu nome não tem nenhum dábliu ou ípsilone. João, Maria, José, Pedro, sempre foi nome de pobre. Mas rico hoje em dia chama os filhos de João ou de Maria pra parecer humilde. Eles enchem o peito e falam cheios de orgulho: viu como somos humildes? Quanto mais simples, mais rico. Quanto mais enrolado, como Westerson, Winston Allyson, Eulanajra, Margilaine, Westinghouse, mais pobre. Mas Silva não, é mesmo sobrenome de pobre. Meu nome é Maria. E eu tenho dois Silva.

O que eu aprendi sobre jornalismo cultural vendo “Cinema Novo” *

(ou minimanual de autoajuda para jornalistas culturais)

Por Samária Andrade

– Faça você algo ou não, o tempo passa. Faça.

– O que você fizer, que julgar importante, interessante, relevante, vai precisar de outras pessoas que, como você, julgem aquilo importante, interessante, relevante; ainda que, para a maioria, pouco importe. Encontre as pessoas que se importem. E entenda: elas vão pensar diferente e agir de modo diverso, mas terão algum link que vai fazê-las vibrar quase parecido.

– Muita gente vai esquecer rapidamente ou vai ignorar, ainda em curso, o que você faz cheio de esforço. Não é hora para pretensões. Continue fazendo.

cinema-novo-1-ok

 

– A história é cíclica. Insista.

– O jornalismo cultural às vezes sofre transtornos mentais: diz o que não está havendo, não vê o que acontece, delira, perde o sentido de realidade. Mantenha o espírito crítico e exercite a autocrítica.

– A política às vezes vem e páh: arrasta a cultura. No final, o que sobra e ergue a cabeça é a cultura. Persista.

– O cinema novo, como o jornalismo cultural, não precisava de herois, precisava só de gente interessada em contar histórias. Histórias que pudessem ser contadas até com as mesmas palavras, mas com entalhes e encaixes novos. Desenferruje o olhar. Afaste a preguiça da abordagem.

– Duvidar do que se faz não é só parte do caminho, eu diria que é nossa obrigação, se essa palavra não me soasse tão chata. Duvide. Mas não deixe que o duvidar substitua a esperança. Sem esperança você não ficará motivado a fazer quase nada. E quase tudo o que você vai fazer depende de esforço.

– Fazer algo em que se acredita continua a ser das forças mais potentes, contagiosas e permanentes. Continue a acreditar.

*Documentário 2016, direção de Eryk Rocha