Luiz Alberto Mendes
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Relacionamentos

Nada do que vivi era falso porque sempre me levou a constantes aprendizados. Por eu haver ficado mais de 30 anos preso, se pode pensar que nada sei sobre relacionamento humano. Enganam-se profundamente. Na prisão também somos humanos e, como não poderia deixar de ser, nos relacionamos. E a questão do relacionamento na prisão é delicadíssima; a vida depende, muitas vezes, das relações que conquistamos. Vivi grandes emoções com pessoas incríveis que estavam presas. Amei, fui amado e, mesmo preso, tive meus momentos felizes. A fluidez e a liquidez do atual relacionamento humano tem sido o meu maior problema.

Acredito, sinceramente, que vivemos a protagonizar o que não somos porque não temos coragem e nem habilidade para viver o que somos de verdade. O mundo de relações é complicado. Entendo um pouco porque Platão não queria poetas em sua República. Assim como cabelos brancos pode disfarçar os canalhas, a poesia pode mascarar a verdade. Mais da metade dos pais, a estatística mostra, são alcoólatras. Ser pai ou mãe não torna o homem ou a mulher diferente do que é. Família não é o que se representa para os outros e sim o que se vive no dia a dia. E esta, praticamente, tal como é idealizada, não existe mais. A não ser nos anseios e na mente das pessoas. Há muito o lar deixou de ser o melhor lugar do mundo para a criação e desenvolvimento de gente. Se é que um dia chegou a ser.

Hoje é a televisão e o vídeo quem educam nossos filhos. Lá estão eles: olhos redondos de curiosidade, alegria pela surpresa de cada novo conhecimento e prazer na exploração de seu espaço/tempo. Somos transformados em seres sociais. Politicamente corretos, normopatas, como querem os psicanalistas. Delineamos espaços e ali fazemos nosso tempo. Nos limitamos e nos voltamos cada vez mais para o individualismo prático, sem ideologias. Compartimentamos sonhos, calculamos prazeres, ficamos incoerentes na base de nosso pensar e, principalmente, não temos mais curiosidade. Nos ensinaram a temer surpresas.

Para mim fica tudo muito claro. Reingressei recente ao meio social, atento a tudo para fazer o mais certo possível. Muito jovem, atirei-me à devoção daqueles que amei. Depois fui aprendendo que relacionamento é esforço contínuo e que é de fragilidades que se constroem fortalezas. Sei que todos somos profundamente carentes de afeto, consideração e respeito. As minhas carências sempre foram infinitas. Às vezes ultrapassavam minha capacidade de suportar. Mas sentir a importância que tinha para aqueles que me amavam, era luz que lavava a alma de brilho e calor. Enquanto conseguia essa importância, nada mais importava, nem a dor ou a morte. Mas nada é como é para sempre, tudo foi se transformando independente de minha vontade. A vida é uma grande ultrapassagem. Esta é uma lição das mais difíceis que ainda estou tentando assimilar.

Tudo fica mais difícil ainda porque esta tudo diante de nossos olhos. Enxergamos e sentimos, mas não verbalizamos, nem para nós mesmos. O pragmatismo ocidental vem usando métodos pavlovianos há décadas para nos convencer que o caminho é a acumulação econômica a qualquer preço. Através métodos sofisticados, usam o conhecimento acumulado acerca da psique humana para estimulara o consumo.

O que pensar? Relacionamentos, assumimos, fazem parte da vida produtiva que todos queremos. Há quem julgue em contrário. Gostaria de conhecer seus argumentos; devem ser bem interessantes. A partir de assumir que é fundamental o relacionamento para o desenvolvimento sadio da pessoa humana, é preciso assumir também que não sabemos quase nada sobre isso. Nos relacionamos mal e porcamente. Somos, na verdade, medrosos, mentirosos e nem um pouco amorosos. Tratamos os outros como somos tratados, não acrescentamos nada. Ninguém diz tudo o que faz e nem faz tudo o que diz. Conversamos desconversando de modo a estarmos ausentes, porque nada importa além de nós mesmos e nossos problemas. Nós temos problemas; os outros, bem, não importa.

Não tenho uma solução. Apenas posso afirmar por experiência, que o amor não é o principal elemento no sucesso das relações. Ele não se basta e carece de bases seguras para vicejar. Acredito, sinceramente, que a plataforma mais segura para desenvolver sentimentos e, portanto relações, é o respeito.

Composto por Luiz Alberto Mendes em 03/07/2006.

 

Balada Literária 2016

Visitar São Paulo é sempre uma grande comoção na vida da gente. Imagino viver lá, na capital, colado aos seus mais de 10 milhões de habitantes. No meio daquele turbilhão de emoções e mundos presentes, com infinitas línguas e sotaques e cores, juntos e misturados, naquelas ruas da fascinante e assustadora metrópole. Talvez o coração não resistisse diante de tanta beleza e opções artísticas: Masp, exposições, Avenida Paulista, museus, Parque Ibirapuera, shows musicais, Mercado Municipal, peças teatrais, Catedral Metropolitana, Bienal do Livro, Estação da Luz, Jegue Elétrico, Praça da Sé e, há 11 anos, a Balada Literária de Marcelino Freire, evento cultural dos mais importantes que, dada à sua generosidade, esse nordestino arretado de bom, filho de Sertânia dos pernambucos, abre espaço às facetas luminosas desses inúmeros brasis esquecidos pelo imenso Brasil.

De sua vasta programação em homenagem a Caio Fernando Abreu, iniciada na quarta-feira passada, só não marquei presença, infelizmente, no show de abertura do evento – “Em Tercina”, com Alzira E, Tetê Espíndola e Ney Matogrosso, que, soube depois, ter sido maravilhoso de bom. Mas na manhã seguinte, às 11 horas, lá estava eu na Livraria da Vila, com olhos e ouvidos atentos a fim de assistir ao “Inventário do irremediável”, uma instigante conversa entre amigos envolvendo Claudiney ferreira, Cláudia Abreu (irmã do autor gaúcho), Vânia Toledo e Paula Dip, autora de uma das biografias escritas sobre ele: Para sempre teu, Caio F. No Centro Cultural B_arco tive, à noitinha, a alegria de presenciar um diálogo lindíssimo, mediado pela cantora Fabiana Cozza, com Rogéria e Márcio Paschoal. Sem falar também do incrível sarau dedicado a Elke Maravilha – “Transarau Maravilha”, comandado por Ed Marte e Renato Negrão.

Balada 2016

 

Na sexta-feira pela manhã, a emoção foi imensurável ao ouvir Marcelo Rubens Paiva comentar Ainda estou aqui, livro dedicado à sua mãe Eunice na luta que ela trava cotidianamente, ao longo desses últimos anos, contra a Doença de Alzheimer. Se já era seu admirador desde a leitura de Feliz ano velho, no qual retrata o episódio que o torna tetraplégico, imagine após ouvi-lo falar com enorme carinho dessa mulher destemida e defensora dos nossos índios que o infortúnio varreu a memória. A conversa feita à noite entre as cantoras Cida Moreira e Marina Lima (filha de piauienses) sobre Caio Fernando Abreu foi algo de arrepiar a alma dos presentes no Sesc Pinheiros, elas que conviveram e foram amigas do autor de Morangos mofados, livro hoje considerado um clássico da literatura nacional.

Já embriagado de felicidade, ainda recebo, antes das apresentações de Ernesto Dabó (poeta de Guiné-Bissau) e Miró (poeta recifense), a ótima notícia que Torquato Neto será o próximo homenageado da Balada Literária. E de repente, depois daí, não mais que de repente, experimentei a insustentável leveza do ser, com o corpo levitando frente às outras atividades do evento: “Tchau, querida”, peça inédita (apenas o 1º ato) de Ana Maria Gonçalves, com direção de Wagner Moura; “Um canto para Noémia de Sousa”, encabeçado pelo Sarau das Pretas; shows de Sofia Freire e Fernanda D’Umbra, no Estúdio Lâmina; conversa entre Cristovão Tezza, Fernando Ramos e Lucimar Mutarelli a respeito dos frutos da literatura; e, por fim, antes de tomar o caminho do aeroporto, participar de uma mesa redonda – “Pedras de Calcutá: Nos caminhos da literatura” – ao lado de feras como Paulo Lins, Simone Paulino, Henrique Rodrigues e Abel Menezes. Mais do que nunca, agora só quero saber, até novembro de 2017, como diria nosso saudoso “Anjo torto”, do que pode dar certo, pois não tenho tempo a perder.

Das histórias

Toda família tem histórias, e são essas histórias, reais ou inventadas ou imaginárias ou bem sólidas que, juntas, fazem a história de uma família. A minha, como todas, tem muitas, em especial as histórias de viagens do tataravô do meu bisavô, que em tempos bastante remotos rodou o mundo, Ásia, Europa, Oceania, passou ainda pela África e conheceu as Américas como ninguém mais e que, dizia ele, andou por tantos lugares que descobriu que os continentes são oito, os mares dezesseis e oceanos são nove. Essas afirmações contrariam as noções e afirmações da ciência contemporânea mas, enfim, são falas do tataravô do meu bisavô e isso basta para que as tomemos como a mais pura e cristalina verdade, já que era homem honrado e não mentia, exceto quando dormia e falava enquanto sonhava, mas aí não sei se seria possível que se afirmasse que mentia, já que sonhava, e sonhos são sempre o que existe de mais real e verdadeiro.

Então o tataravô do meu bisavô, ao retornar para casa numa viagem de volta que levou cerca de três anos após nove meses desbravando a região da Rondívia, chegou a Thang Long, hoje Hanoi, capital do Vietnam. Era uma manhã com garoa e, mineiramente acocorado às margens do rio Vermelho, o tataravô de meu bisavô tomava tranquilamente seu phò com pedaços de frango, coisa que muito lhe apetecia. Ao terminar, levantou-se e, ao procurar a sombra de uma árvore para descansar, percebeu uma pequena aglomeração. Chegando perto viu que as pessoas cercavam uma moça que rodopiava. Rodopiava. Rodopiava. O vestido azul em redemoinho, pedaços de céu orbitando em torno da moça que, alheia a tudo, rodopiava. Rodopiava. Rodopiava. Rodopiava. O tataravô do meu bisavô dominava como poucos a língua vietnamita e perguntou por que a moça rodopiava. Uma senhora explicou que a moça era uma vendedora de rodopios e cobrava o que hoje seria equivalente a dois dongs por rodopio e, como isso era bastante barato no mercado nacional de rodopios, as pessoas estavam pagando para vê-la rodopiar. E ela rodopiava. Rodopiava. Rodopiava. Rodopiava.

Meia hora ficou o tataravô de meu bisavô observando os rodopios da jovem que vestia céu, e a cada rodopio ele tentava olhar nos olhos dela mas ela rodopiava de olhos fechados. O tataravô de meu bisavô conseguiu perceber que a moça que rodopiava rodopiava com um breve sorriso no rosto, além dos olhos fechados. Até que a moça que rodopiava começou a rodopiar um pouco mais lentamente, um pouco mais lentamente, u m  p o u c o   m a i s   l e n t a m e n t e,  u    m     p    o   u    c    o       m    a    i   s      l    e    n    t    a    m   e    n    t    e. Até que parou. O tataravô do meu bisavô finalmente conseguiu olhar nos olhos da moça que rodopiava. Ela tinha os olhos agora abertos mas olhava para algum lugar que não existia. As pessoas iam se afastando lentamente, até que ficaram apenas a moça que rodopiava e o tataravô do meu bisavô. Contava o tataravô do meu bisavô que a moça que rodopiava passou ainda algo próximo a duas horas olhando para algum lugar que não existia, e durante esse tempo ele ficou ali, em frente a ela, que não o via.

Até que em algum momento a moça que rodopiava e olhava para algum lugar que não existia percebeu que o tataravô do meu bisavô estava ali, olhando para ela. Ele contava que ela abriu um sorriso um pouco maior, moveu a cabeça como se lhe agradecesse por algo, recolheu algumas moedas que estavam pelo chão, segurou a barra do vestido de céu à altura dos joelhos e saiu, caminhando tão levemente que mais flutuava que caminhava.

E o tataravô do meu bisavô contava que sentiu uma vontade grande de rodopiar também, e ali, no mesmo lugar, começou a fazer como a moça que rodopiava, e fez isso primeiramente bem devagar, depois um pouco mais rápido, e cada vez mais rápido. E rodopiava. Rodopiava. Rodopiava.  Rodopiou por vinte horas sem parar, e depois desse tempo foi reduzindo a velocidade nos rodopios, rodopiando um pouco mais lentamente, um pouco mais lentamente, u m  p o u c o   m a i s   l e n t a m e n t e,  u    m     p    o   u    c    o       m    a    i   s      l    e    n    t    a    m   e    n    t    e. Até que parou. O tataravô do meu bisavô rodopiou tanto que o chão em que pisava foi cedendo aos poucos, e ao fim de seus rodopios ele estava três metros abaixo. O tataravô do meu bisavô contou então que durante quase duas horas ele não conseguia deixar de olhar para algum lugar que não existia, e que era um lugar bem bonito e azul. E que ao fim desse tempo, após algum esforço para sair do buraco onde havia se metido rodopiando, percebeu que era noite. E que, apesar de sentir algo que nunca havia sentido antes e, segundo ele, nunca mais deixou de sentir depois, retomou o caminho na estrada que, três anos depois, o levaria de volta para casa. Não era mais o mesmo.

Toda família tem histórias, reais ou inventadas, e essa é mais uma das histórias que o tataravô do meu bisavô contava de suas vivências pelo mundo e seus quem sabe oito continentes. São histórias como essa que fazem a história de minha família, e atravessam os séculos. E, mais que histórias, são nossas melhores verdades, as verdades mais sólidas, as que são suporte e norte das almas dos que me são próximos.

Vidas perdidas

Numa dessas tardes em que o sol, cansado de pintar os telhados de amarelo, se infiltrava por entre os edifícios, esparramando sua luminosidade pelas calçadas, eu costurava o tempo com assobios ao vento. Subia uma rua do bairro de Pinheiros, ao encontro de dois cineastas que queriam comprar os direitos de filmagens de meu primeiro livro. Estava cheio de grilos quanto ao contrato, mas cheio de esperanças e até feliz.

De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, fui parado pelo choque. A vida, sempre atrasada para encontros vazios, chegava atropelando pela violência da grande metrópole. Cheiro de pólvora queimava as narinas adocicadamente. No chão um jovem de cerca de 20 anos, baleado. O sangue escorria por baixo de seu corpo. Policiais o rodeavam de armas embaladas nas mãos, qual fosse possível reação da vítima, talvez já morta.

Pessoas aglomeravam em torno, de olhar ansiosos. Não entendo bem essa necessidade de ver a desgraça alheia. Mas há algo que atrai fortemente e, mesmo eu que critico, sinto esse magnetismo. Em caso de aglomerações, tenho que lutar dentro de mim para não ir olhar o que aconteceu, curioso também. Às vezes cedo, paro, observo e escuto tudo o que se pode saber, como no caso em questão. O comentário é que ali, jazente, estava um bandido. Ocorrera um assalto. A polícia intervira. Tiroteio e aquele jovem ali restava mortalmente ferido. Alguns diziam que deviam matá-lo de uma vez. Ninguém lhe tinha compaixão por estar morrendo ali, jogado a sangrar na calçada.

Fiquei olhando, ouvindo e fui acometido por profunda compaixão. Todos ali me sabiam a vítimas. Vítimas da violência, essa praga a flagelar a humanidade. O jovem que sofria, mesmo ali inconsciente no chão, aguardava o SAMU. Os policiais, em sua triste profissão de proteger, prender, ou matar; salivando, excitados pelo sangue escorrendo ali na rua. O povo, sedento de emoções violentas por conta da rotina esmagadora de suas vidas, olhava de olhos arregalados. Eu continuei ali pregado ao chão, murcho, vazio, sem conseguir me afastar daquela desgraça toda.

Às vezes, a liberdade, após tantos anos na prisão, é o mesmo que uma pessoa que sabe que vai morrer. A vida assume uma gravidade que pulsa envolta em escuro e fumaça. Tudo fica elástico como sustenidos e plástico como bemóis. Duras lembranças de cruéis passados ficam como ventos desorientados a voar borboletas.

Ao tempo em que os nós da ignorância, são aos poucos desatados, o sofrimento humano fica próximo, cada vez mais próximo. As cores, de tão vivas, explodem na cara como relâmpagos e dominam os olhos a ponto de não conseguir fechá-los. Toda palavra trava na garganta. Às vezes, como nesse encontro com a morte na rua, sou apenas um homem que quer chorar, sem explicações.

Sempre desejei viver na ponta da existência. Busquei desenvolver um sentir central das coisas e, nessas ocasiões, ruídos inaudíveis me remetiam ao impensável. Continuei andando, agora mais solidamente, perdendo-me entre vitrines e carros que quase me atropelavam. Como é dolorido tudo isso! Tudo deixa de acontecer lá fora e parece que é dentro de mim que acontece! Sobreviverá o jovem ferido: já não estará morto? A multidão, conseguirá ultrapassar a curiosidade mórbida e chegar à sensibilidade? E eu, quando deixarei de pensar, imaginar e passarei a viver? E, o que isso importa diante daquele corpo estendido no chão?

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Luiz Mendes

22/10/2016.

 

Minha estupidez

Adoro Fernanda Torres, tanto que dei um desconto naquele episódio em que ela falou umas bobagens sobre o feminismo. Polêmicas a parte, na semana passada ela estreou um programa chamado “Minha estupidez”, no GNT.

ubaldo

 

Foram cinco episódios onde Fernanda Torres aparece entrevistando alguns intelectuais que admira – a edição mistura a conversa informal com uma esquete de ficção, adaptada livremente de um texto: Viva o Povo Brasileiro (João Ubaldo Ribeiro), José Agrippino de Paula, Shakespeare e outros tantos textos desses que nos trazem a sensação de sermos estúpidos.

O primeiro episódio me pegou de cara: Fernanda apresenta sua estante de livros, herdada do avô. “Esse programa nasceu dessa estante aqui”, afirma. “Por mais que eu tenha lido e amado os livros que eu li, eles se reduzem a isso aqui. Ou seja: nada, perto do que existe pra se ler”. E com a perplexidade de quem se reconhece miúdo, conclui: “Essa estante de certa maneira mede o tamanho da minha estupidez”.

A entrevista com João Ubaldo Ribeiro foi gravada em 2008. Fernanda confessa que apesar de ter feito “A casa dos budas ditosos” no palco por anos, nunca havia lido um livro fundamental do autor: “Viva o povo brasileiro”, de 1984. Ela resolve relatar isso pessoalmente a Ubaldo.

Fernanda não é uma repórter – esse é outro grande charme. Na contramão daqueles que se preparam lendo tudo sobre alguém a quem vai entrevistar, ela escancara a ignorância, a fragilidade, a vulnerabilidade – e, não podemos negar que a intimidade com o entrevistado acaba o deixando à vontade para também transparecer as suas.

É assim que temos Ubaldo dizendo: “Eu lia muita coisa sem entender coisa nenhuma”, uma antropóloga falando da burrice do etnocídio, uma ministra preocupada com a força da palavra, Caetano Veloso dizendo que perdeu dois anos no colégio e um agrônomo que, ao falar do antropoceno (período geólogico que estamos vivendo, caracterizado pelo impacto da intervenção humana no planeta) faz a gente se sentir ao mesmo tempo culpado e insignificante.

Ideia original, conversas que rendem longuíssimos debates e reflexões – tudo isso pescado das lembranças de Fernanda da infância, as dúvidas, as questões existenciais e a conclusão a qual só os grandes conseguem chegar: a certeza da nossa ignorância.