Luana Sena
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Jeito felino

Há um mês a Pudim chegou lá em casa e agora colecionamos arranhões pelo corpo todo – apesar de doloridos, interpreto como marquinhas de amor.

Ela era uma bolinha de pelo que miava choramingando acuada. Se escondia de qualquer movimento e barulho. Tinha, talvez, duas semanas, quando a pegamos. Não tomava o leite, recusou a caminha, ignorou a caixa de areia. Deu zero bola para o brinquedinho que trazia um falso peixe em uma corda e nos custou 10 reais no pet shop.

Elegeu, ela mesma, o espaço entre o sofá e a parede como seu esconderijo – só parou de dormir ali quando descobriu as maravilhas de um ar condicionado. Levou dois dias para que as mães de primeira viagem descobrissem que ela precisava de uma mamadeira. Mamava igual um bebê no colo. Foi ficando manhosa e comilona. Algum tempo depois, Pupu, para os íntimos, passou a comer ração de filhote, que amaciamos com água morna e carinho. Começou finalmente a brincar com a cordinha do tal peixe.

Depois nossa Pupu, sorrateiramente, seguiu a explorar os demais cômodos. Descobriu que o mundo ia além da sala. Meu quarto passou a ser um parque de diversões. Sobe e desce caixas, brinca com cadarços (é absolutamente louca por sapatos), se enrosca no edredom, fone de ouvido, carregador, entra e sai debaixo do criado-mudo e caminha entre os travesseiros. É minha companheira de seriados, embora deteste não ser o centro das atenções. É comum ela subir em cima do notebook, socar a tela do celular com a patinha, morder livros e fazer tudo o que puder para retaliar o inimigo – nunca está disposta a dividir minha atenção com ninguém. Ela roda, roda e escolhe o lugar mais improvável para deitar-se: entre minha visão e o livro que tenho nas mãos, indiferente ao fato de que está atrapalhando algo e fazendo aquela cara de blasé.

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     Tô nem aí pro teu netflix, humana.

É lindo quando acorda e caminha pela casa se espreguiçando, numa espécie de ginástica matinal felina. É a gata mais curiosa que eu conheço, fica a um triz de cair dentro da minha xícara de café todas as manhãs (um dia ela o derrubou no meu pijama novim). Passou a explorar o quarto da mamãe, com quem escolhe dormir agora quase sempre, persegue agarrando o pé, pendura-se na calça jeans, esconde-se atrás da porta para dar pequenos sustos com pulinhos. É a fase mais fofa e brincalhona. Ah, ela já curte o peixe. Na verdade, ela já o destruiu.

Fico olhando pra Pupu e pensando em quanto tempo perdi sem entender porque o mundo se rendeu aos gatos. Quanto tempo passei subestimando essas fofuras e repetindo argumentos vazios da turma contra-gatos, sabe-se deus por qual razão. Pudim é independente, amorosa e inteligente. Eu achava que a tínhamos salvado de morrer na rua, mas ela explica tudo com o olhar, aquelas duas bolotas azuis dizendo: “que sorte essa família teve quando a adotei”.

O Garoto do Estácio

A morte pisou feio na bola ao levar o querido Luiz Melodia na última sexta-feira. Se a intenção era silenciá-lo de vez, aos 66 anos, perdeu seu tempo e viagem. Como bom negro gato, ele apenas trocou seu espaço de shows: a terra pelo céu. Sem falar que dispõe ainda, segundo a crendice popular, de seis outras vidas. E o que é melhor, ao invés do esquecimento, será lembrado a cada dia – para tristeza da indesejada das gentes – por seus milhares de fãs e admiradores. Quem mandou mexer logo com ele, o travesso menino do Estácio, Morro de São Carlos, de talento artístico sem igual e presença carismática em palco? Agora é que cantaremos pra valer, letras na ponta da língua, suas músicas que tocam fundo nossa alma, a começar por Pérola negra: “Tente passar pelo que estou passando / Tente apagar este teu novo engano / Tente me amar pois estou te amando / Baby, te amo, nem sei se te amo”.

Sádica como ela só, de sentir prazer com o sofrimento alheio, não darei esse gostinho à dita cuja, preferindo falar de momentos felizes envolvendo Melodia a ficar pelos cantos remoendo tristezas. Dos inúmeros shows que fez aqui, ele que não cansava de vir a Teresina, relembro alguns de forma especial. Comecemos pelo que foi apresentado na Praça Pedro II, dentro da programação em homenagem a Torquato Neto, no qual cantou divinamente bem, além de expressar gratidão ao nosso Anjo Torto pela força recebida no início da carreira, destacando seu talento aos leitores do Última Hora, jornal carioca prestigiado na década de 1970, onde assinava a coluna Geleia Geral. Difícil não acompanhá-lo quando ele soltava a bela voz: “O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço / Trago, não traço, faço, não caço / O amor da morena maldita do Largo do Estácio”.

Melodia - Foto

 

Outro show marcante aconteceu em 2010, no encerramento do Salão do Livro do Piauí, com o 4 de Setembro lotado, ele na voz e Renato Piau no violão, levando o público ao delírio num acústico da melhor qualidade. Era tamanha a sintonia que, nas pausas feitas de propósito, a cantoria prosseguia em forma de coro afinadíssimo. Sem grana na época, o espetáculo somente foi possível graças a providencial intervenção do violinista piauiense, seu parceiro de longas datas, que tendo direito a show por cachê módico, possibilitou a concretização de um acalentado sonho dos organizadores do Salipi. Felizes da vida, levantamos depois, na Confraria Uchôa, um brinde ao nosso convidado tão ilustre, sem esquecer de cantarolar, em agradecimento, um trecho de Juventude transviada: “Lava roupa todo dia, que agonia / Na quebrada da soleira, que chovia / Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada / Uma mulher não deve vacilar”.

Ano passado, no Seis e Meia, ele não só cantou maravilhosamente, como fez uma pungente declaração de amor aos piauienses. Tanto verbal quanto em cada música interpretada. Sentindo-se em casa, entre amigos próximos, chegou a tirar a blusa para ficar bem à vontade – inspiradíssimo como nunca. Uma despedida discreta e sem alarde? Em retribuição, cantávamos suas músicas com paixão e alegria, deixando claro que o sentimento era recíproco e verdadeiro. Difícil foi Melodia finalizar o show diante dos inúmeros bis que gritávamos, ele atendendo solícito, talvez pressentindo, quem sabe, que ali ocorria nosso último encontro em vida. Mas bonito mesmo, cá entre nós, era ouvi-lo cantar Magrelinha,  Codinome beija-florDores de amores e Fadas, ainda mais com a gente fazendo a segunda voz.

 

Dez Anos

Em revisão do Pré-Enem num desses finais de semana, projeto de inclusão universitária da Seduc, fui surpreendido com uma grata notícia dos alunos: todos eles, sem exceção, haviam assistido ao filme Ai que vida, do cineasta maranhense Cícero Filho. Como amante da sétima arte, além de defensor pedagógico de seu emprego nas escolas, confesso nunca ter visto nada parecido assim, uma unanimidade tão absoluta em torno de uma película, ainda mais produzida nestas bandas, entre o Piauí (Amarante e Teresina) e o Maranhão (Poção de Pedras e Esperantinópolis). “Bilheteria” igual não presenciei, graças à pirataria, nem com a exibição de “Titanic”, grande sucesso do cinema hollywoodiano, tampouco com “Se eu fosse você 2”, filme nacional mais visto na história recente do país. Detalhe importante: agrada gregos e troianos, sem falar de pessoas de classes sociais e nível de escolaridade distintos. Um fenômeno ainda hoje, de público, em seu décimo aniversário de produção, a ser comemorado no próximo mês de setembro.

Mas o que essa comédia romântica tem, afinal, de tão extraordinário a ponto de deixar tanta gente embasbacada? O roteiro é trivial, elenco amador e cenário, acredite, bastante simples. A explicação, se é que existe uma, deve ser buscada na espontaneidade e no entrosamento do grupo, cada um dando o melhor de si, a fim de conquistar o coração dos espectadores. Acrescente também umas boas pitadas de improviso e situações engraçadíssimas. Filme que parece, no fundo, com a nossa comidinha caseira, sem a sofisticação dos bons restaurantes, porém com tempero e sabor que agradam à beça. A trama combina sátira política e relacionamento amoroso, facetas marcadas pelo inequívoco sentimento de mudança.

Ai_Que_Vida

 

No aspecto político, temos o prefeito Zé Leitão (Feliciano Popô) enrolado em suas próprias contradições, ora encarnando o gestor tradicional envolvido em trambicagens  e disputas pela reeleição, perdendo o mandato para a indignada Cleonice Piedade (Toinha Catingueiro); ora no papel do marido bonzinho e corneado por Rosinha (Nelza Alves), mulher frívola e brega que vivia de aprontar, inclusive dentro de casa. Em contraponto, aparece uma love story protagonizada por um casal de jovens – Valdir (Rômulo Augusto), rapaz rebelde e inconsequente, e Charlene (Irisceli Queiroz), dançarina bonita e sensual de forró, que resolvem, tomados de amor, largar tudo e amadurecer juntos. Tanto num como noutro caso, predomina a ideia da possibilidade de mudança coletiva ou individual, com o povo escolhendo seu próprio destino e um garotão, quem diria, transformado pela flecha certeira de Cupido.

O binômio política e amor, tão do agrado das pessoas, foi uma escolha feliz do diretor Cícero Filho, uma vez que ele deixa nas entrelinhas, ao optar pelo gênero comédia, que as coisas não devem ser levadas ao pé da letra. Ao contrário, uma pitadinha de humor não faz mal a ninguém. Quando embalada por uma envolvente trilha sonora – no caso interpretada por Dalmir Filho e Lily Araújo – a vida se torna realmente mais leve e suportável. Incrível é descobrir que o filme nasceu de um esboço de roteiro, foi produzido por uma única câmara e custou um tantinho de nada – uns 30 mil reais apenas. O resto veio por tabela. E todos que assistimos, não cansamos de dizer: “Ai que filme danado de bom!”. Antes, Cícero Filho já havia lançado Sentimento verdadeiroO milagre do amor e Entre o amor e a razão. Depois veio Flor de abril, hoje com mais de 500 mil visualizações na Net. Ainda este ano, em parceria com a Uespi, será lançado Onde moram os cavalos-marinhos, história de quatro amigos que buscam o sentido da amizade no litoral piauiense. Sei não, mas tenho a leve impressão que o Cícero Filho, a continuar produzindo com esse olhar tão sensível, não tardará para despontar no cenário nacional.

O que aprendo sobre Jornalismo (e algo mais) indo a um Congresso de Sociologia

Por Samária Andrade

As mais sólidas bases (isso ainda existe?) dos estudos teóricos de Comunicação vêm da área de Sociologia. Sempre foi assim. E, algumas vezes, a gente ficou até com ciuminho dos sociólogos: essa gente que parece entender mais do nosso campo que nós mesmos, ora, ora.

Mas trago verdades (impressões?): ou a gente estuda o campo a sério ou já foi. Talvez nós saibamos operacionalizar mais os recursos (eles talvez nem estejam interessados nisso – a maioria, pelo menos), mas eles estão afiadíssimos, “pensando” a “nossa” área (se é que existe o “nossa”). Mas o interesse aqui não é discutir inter ou multidisciplinaridade. É, para além disso, partilhar com vocês alguns pontos, com o sério risco de cometer equívocos. Mas daí a gente pensa juntos, né?

– Até onde nós vamos manter os ritos, quando o país e as instituições se desmancham na nossa cara? Na noite de abertura do Congresso de Sociologia, o cerimonial convidou a todos para ficarem de pé e ouvirem o hino nacional, enquanto os telões exibiam imagens de um país que vai pra frente. Que anacronismo é esse?! Todos de pé, ninguém cantava. Minto: alguns até botaram mão no peito (eu é que preferia não ter visto). A mesa, de sociólogos renomados, visivelmente constrangida, salvou a todos do vexame quando a professora Lourdes Bandeira, chefe do departamento de Sociologia da UnB, lembrou que a Sociologia deve assumir posições e não pode ignorar a conjuntura nacional. Wellington Almeida, diretor-presidente da FAPDF, citou Florestan Fernandes “neste momento em que a força das ideias está dando lugar às ideias da força”. Foram aplaudidos, embora merecessem ser mais aplaudidos.

– Sabe aquele povo que diz que acabaram direita e esquerda (geralmente gente de direita)? Pois é, eles não foram ao Congresso de Sociologia. Lá eles estão falando adoidado em direita e esquerda e suas diferenças complexificadas pelos contextos: as direitas, as esquerdas.

– O neoliberalismo e os conservadorismos estão tirando o sono desse povo. E acho bom prestar atenção a isso, mesmo que você não estude Economia Política da Comunicação.

– Sabe Junho de 2013? Não é simples de entender como você, que já definiu tudo, pensa que é. Há grupos de pesquisadores debruçados sobre esse movimento e suas contradições, inclusive sobre o papel da comunicação nisso tudo.

– Sabe aqueles programas de TV ou meios de comunicação que você descreveu, anotou, fez tabelas, mediu, metrificou e acha que arrasou na pesquisa? Eles vão lhe perguntar: é só isso que você tem a dizer?

– Ou nós, comunicadores, vamos ao Congresso de Sociologia ou não vamos entender mais nada. Aliás, eram poucos os comunicadores por lá. Mas tinha gente do direito, arquitetura, administração, ciências políticas, economia…

– Pergunto-me se parte dos estudos dos comunicadores está aprisionando os veículos de comunicação e/ou os movimentos sociais somente como “objetos” de estudo (essa busca-armadilha da ciência pelo objeto) centrados em si mesmos? Assim escapamos dos cruzamentos que, muitas vezes, não temos capacidade de compreender e adotamos uma visão normativa, limitada e limitante.

– Parte dos sociólogos fala como se estivesse lendo o livro “a representação do eu… blá blá blá”; mas eles são legais, recebem bem e são irônicos: criaram a expressão “pênis acadêmico” para se referir àqueles colegas que se orgulham do tamanho do Lattes e o comparam aos de outros colegas. Aposto que todo mundo conhece alguém assim na academia, né?

– Por fim: esqueça aqueles congressos onde o pessoal não lê o seu artigo. Eles vão ler e vão fazer boas críticas e trazer contribuições e sugerir leituras e fazer perguntas as vezes difíceis. Se isso acontecer, faça como eles: responda alguma coisa que termine com “eu não sei se lhe respondi, mas a gente pode continuar essa conversa mais tarde”.

O Terapeuta da Imperatriz

O Terapeuta da Imperatriz está em absoluto estado de perplexidade, evoluindo para o desespero. Há alguns meses que os clientes vêm, paulatinamente, dispensando os seus indispensáveis serviços. Ele nunca tinha pensado na vida sem clientes e, ainda que o tivesse feito, não imaginaria como resultado uma tal catástrofe no seu psiquismo. É como se só os clientes tivessem a insulina para a sua diabete, só eles doassem sangue para desarmar a sua hemofilia. Acontece que o Terapeuta da Imperatriz não é diabético, tampouco hemofílico e sabe que os clientes não se apoderaram do ar que ele respira. Mas sente um sufoco insuportável.

Quando o primeiro cliente se despede, ele até sente um alívio. Trata-se de um chato, fixado numa ejaculação precoce que o atormenta desde a juventude e agora, ultrapassados os 60 anos, adquiriu uma outra fixação: a impotência. Esta última, veio com a falência, que determinou a resolução de deixar a terapia.

Uma semana depois, um outro cliente encerra as contas. Uma cliente, aliás. Esta também não causa nenhum impacto no psiquismo do terapeuta, apesar da pena que sente da moça, tão necessitada de uma terapia, porém impossibilitada de sustentá-la no desemprego.

A terceira a desertar, logo em seguida, já grila o terapeuta. Uma escritora, que lhe contava estórias divertidíssimas, enquanto ele tentava arrumar-lhe a cabeça para que ela se permitisse o sucesso. Esta perda doía-lhe. Através dessa cliente, ele se sentia colaborando com a cultura. Mas já não se sobrevive de cultura neste país, afirmou-lhe a escritora, fechando as contas.

Contudo, não é só esta recente perda que o perturba. Algo está batendo mal no seu astral, parecendo mesmo anunciar um longo período de azar. A este pensamente, o terapeuta bate três vezes na escrivaninha de jacarandá e corre a consultar o seu astrólogo, que lhe fala na passagem de Urano e Plutão, significativa de mudanças drásticas. O terapeuta procura alguns colegas e constata que eles também estão sendo atingidos pelas intempéries planetárias.

Mas, ao sair o sétimo cliente (sete, número cabalístico!), o terapeuta volta a sentir aquele frio na espinha. Consulta sua cliente preferencial, a Imperatriz, que, diante do relato, sente um arrepio generalizado e manda chamar o pai-de-santo do palácio. O pai-de-santo, em transe, constata que a quinta ex-mulher do terapeuta mandou fazer um “trabalho” pesadíssimo contra ele. E indica-lhe os antídotos para o mal: “trabalhos” em casa, no terreiro e na rua. Feito tudo isso, a urucubaca voltar-se-á contra a agressora.

De fato, a agressora sofre um atropelamento, porém os clientes do terapeuta continuam saindo e todos pelo mesmo reles motivo, que a Imperatriz não consegue entender: falta de grana. Afinal, pelos informes do palácio, as condições de vida no país estão melhorando consideravelmente.

Só o terapeuta mingua, parece. Em reconhecimento aos bons serviços prestados (o terapeuta curou-a de uma anorexia), a Imperatriz agora tem sessões diárias. Mas não consegue preencher o vazio deixado pelos outros clientes. Dir-se-ia que a Imperatriz não é tão boa doadora de vida quanto os mortais comuns, que lhe confidenciavam tantas e tão diversas complicações existenciais. Os problemas da Imperatriz, sabe-os de cor: uma falta de apetite intermitente (na verdade, provocada pelas sucessivas dietas no passado, quando disputava a mão do Imperador); a mania de comprar objetos inúteis, que já enchem três aposentos do palácio; um vazio na cabeça, responsável pela maioria das bobagens que declara à imprensa; o pânico de sequestro (até justificável); uma certa tendência à histeria; e uma compulsão pra viver na periferia do real. E aqui vale acrescentar que, embora nunca tenha ouvido falar em Maria Antonieta, muito menos na sua célebre pergunta (“se o povo não tem pão, por que não come brioches?”), a Imperatriz faz perguntas e observações de semelhante teor. E o que é pior: a cliente preferencial jamais apresentou qualquer melhora. Isto arrasa o terapeuta.

Mas não é somente o terapeuta da Imperatriz que está à beira do suicídio. Outros também o estão. A coisa parece síndrome ou praga. Alguma maldição abateu-se sobre os profissionais da terapia, sem escolher correntes. Ao tomar conhecimento disso, o nosso personagem propõe aos colegas uma saída genial: abrir os consultórios, fazer terapia de graça, clamar generosamente “venham a nós os necessitados”.

Os “necessitados”, porém, não aparecem. Será que um milagre dos céus ou alguma combinação astral acabou com a neurose na terra? O que é feito do complexo de Édipo – os filhos já não estão nem aí para as suas mamães? Onde, aqueles deliciosos maluquinhos, que se acreditam em busca do prazer, enquanto tornam a própria vida e a dos outros um inferno? E os empanicados, os histéricos, os sadomasoquistas, os necrófilos? As mulheres já não sofrem de frigidez, já não têm culpas? Como é possível viver sem culpas? Freud morreu? Que absurdo!

Maldita saúde mental!, explode o terapeuta, suando sua solidão à janela do consultório em um 8º andar. A rua está febril, parece uma grande feira. Os transeuntes correm, em direções diversas, alguns deles em nenhuma direção. Param nas centenas de barracas dos camelôs. As lojas e restaurantes fecharam. Tudo se compra, se come, na rua. Dorme-se também na rua, transformada em um gigantesco dormitório. Pessoas bem vestidas, com cara de quem passou por universidade, compõem a malta e não parecem incomodadas pela situação ou por ela esmagadas. Dir-se-ia que extrapolaram e pairam agora, estranhamente, sobre a realidade. Súbito, surge um homem, de Bíblia na mão, ameaçando a todos os impuros com o fogo do inferno. E logo aparece um outro pregador, bradando que a besta do Apocalípse já mostra suas garras e que todos se penitenciem, pois é chegado o final dos tempos. A multidão se divide entre um e outro.

O terapeuta sorri, um sorriso de quem entendeu tudo. Aperta o nó da gravata e fecha o consultório.

Na rua surge, então, um terceiro pregador. Este, pós-apocalíptico, diz-se o enviado do Senhor para guiar o povo à terra prometida, onde só há alegria e riqueza, uma grande Miami. A multidão o aclama, em uníssono. Ele anda e a multidão o segue, ávida por suas palavras. E enquanto a multidão o segue e deposita o dízimo na sua capanga, o coração do (ex) terapeuta enche-se de bem-aventurança. Já não lhe faltarão clientes.

Agora, quem se sente miseravelmente só é a Imperatriz. Inconformada com a deserção do ingrato terapeuta, a Imperatriz manda colocar água e flores perfumadas na sua banheira de hidromassagem e se suicida com uma overdose de cocaína, aspirada nas pétalas de uma rosa chá.