Ítalo Lima
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Parece domingo

Joelson chegou na hora mais estranha do dia. Quinze para as nove. Já repararam que quinze para as nove é sempre uma péssima hora para tocar incansáveis vezes a campainha de uma casa em uma plena segunda-feira? Mas era Joelson.

 Já vai!

Gritei da cozinha. Atravessei descalça a passos longos e não mais irritada com o incansável barulho da campainha. Eu acabara de acordar. Porque era o Joelson.

 Eu disse já vai!

Dessa vez gritei eufórica e com um sorriso disfarçado no rosto. Porque era o Joelson. Esperei por alguma notícia urgente. Algum aviso que só poderia ser dado assim, quinzes para as nove de uma segunda-feira. Mas não. Joelson não queria me entregar flores. Nem explicar os motivos de ter saído de casa há mais de uma semana sem deixar um bilhete. Joelson não tinha os olhos de arrependimento. Joelson não trazia na bagagem as malas de volta para casa. Não tinha serenata para me cantar Bob Dylan. Não tinha bom dia na face de Joelson. Nem ao menos um abraço de despedida. Não tinha, reparem bem, não tinha Joelson de joelhos ao chão. O arrependimento passou longe da minha calçada. Também nos lábios, nossa! Os lábios de Joelson não esperavam pelo meu beijo.

Aliás, não tinha Joelson na porta de casa. Foi engano. Engano! Tenho enlouquecido sempre às quinze para as nove de segunda-feira.

Pra que o amanhã não seja só um ontem com um novo nome

Nem sempre a gente sabe o que está filmando. “Estas são as primeiras imagens que eu filmei”, diz Petra, assim mesmo, em primeira pessoa, já quase na metade do filme. Foi dali, daquelas imagens, ou melhor, da angústia de entender o que elas poderiam dizer, que surgiu a inquietação fundamental para “Democracia em vertigem” – o documentário mais político e sensível dos últimos tempos que você vai ver.

 

Político aqui foge do sentido partidário, embora o filme de Petra Costa, de forma honesta, revele um posicionamento sobre o Game of Thrones que virou o Brasil – todo filme, na verdade, em essência, revela. Pra mim a Petra põe o dedo na ferida de forma corajosa quando se coloca na história como mais do que observadora. Foi Chris Marker, aliás, francês cuja frase ela cita, que lançou a justificativa para cineastas falarem de si mesmo sem remorso: “Ao contrário do que se costuma dizer, usar a primeira pessoa em filmes tende a ser sinal de humildade: a única coisa que tenho a oferecer sou eu mesmo.”

Petra está lá o tempo todo. Desde antes de chegar ao mundo, na verdade – é extremamente lúcida a consciência de que sua história de vida, assim como a história de um país, prescinde sua existência. Antes de Petra vieram seus avós, e depois deles seus pais, e também Pedro Pomar, o amigo da militância, assassinado na ditadura. Seu nome é em homenagem a ele e reconhecer isso no filme é, talvez, a forma que ela encontrou de dizer que sua história política já estava o tempo todo ali.

Pensando agora, é ousado o projeto de Petra. Está cada vez mais raro encontrar gente com pique e vontade de entender a realidade, de expandir a necessidade, se colocando como peça importante da construção de uma verdade – ela tenta isso tudo, abandonando o lugar de isentona que, no geral, cobramos da imprensa, da ciência, do cinema, da história. Spoiler: nunca vai acontecer.

Todo recorte marca uma posição, é uma escolha que se faz – seja estética, temporal ou pretenciosamente, imparcial. “Eu não sei como isso deve ser contado”, assume a diretora-narradora que se dedica por duas horas a interpretar imagens – imagens feitas por ela, imagens feitas pela televisão, imagens feitas pela câmera de um elevador e também por qualquer um de nós no lugar e hora que só fizeram sentido como certas quando analisadas no depois.

Enquanto a crítica resume o filme de Petra pelo seu trunfo de furar bastidores e capturar ângulos inacessíveis de momentos que só mais tarde se configurariam cruciais para o desenho político do país, eu o acho forte e corajoso por suas inquietações, pela franqueza de suas motivações e pela honestidade de suas limitações: a imagem não é um documento inquestionável.

É muito mais o que você diz e faz nos momentos em que não está sendo filmado que me diz quem você é – ou, colocando de outra forma, o modo como você se comporta diante das câmeras que lhe interessam que define o seu caráter. A exemplo, o desdém com o qual Aécio trata Petra em uma das cenas que, provavelmente, julgava off. Aquilo que nós somos quando ninguém está vendo é o que melhor nos define.

 

É assim que a cena de um sindicalista roubando o cigarro da mão de Lula me diz mais sobre ele do que milhões de discursos ou entrevistas. A arara com os terninhos de Dilma passando em silêncio, sendo retirada do Palácio da Alvorada, as metáforas sofríveis usadas pelos deputados (que, impressionantemente, sabiam que estavam sendo gravados) e o close em um cordão de isolamento caído – derrubado por uma direita enfurecida e odiosa, incapaz de respeitar qualquer noção de limite.

Nem sempre a gente sabe o que está filmando. E assim, talvez, se forma a metáfora imagética mais perfeita do filme: a cena em que faxineiras tentam remover toda a sujeira do carpete na casa símbolo de poder no país. Petra então faz a pergunta que polarizou o Brasil desde o impeachment – você esperava? Talvez nem ela soubesse, naquele momento, o que aquela imagem iria representar – talvez a faxineira, que só cumpria timidamente ali a sua função nem soubesse exatamente o que dizer. E foi assim, meio sem jeito e ao mesmo tempo convicta que ela conseguiu resumir o sentimento que unificava, naquele instante, uma nação: “A democracia, eu acho que ela não existe não”.

Pode-se seguir para sempre acusando a esquerda de não fazer autocrítica – mas tirem Petra dessa. Petra usa a história de enriquecimento da própria família para analisar a relação promíscua da política com o dinheiro. Usa aquilo que a gente tem de mais pessoal – nossa história e nossos próprios sentimentos – para tentar narrar da forma menos distópica possível o curso dos acontecimentos políticos desse país. Usa a própria náusea como combustível e a insistência como estratégia para se manter firme e resistindo – não importa o tamanho e a força da vertigem.

 

*Título em referência a música AmarElo, de Emicida, com participação de Majur e Pablo Vittar. (Ouça aqui).

 

O poeta do mau gosto

 

Espanto é a palavra que traduz o que senti ao ler: “Eu, filho do carbono e do amoníaco/ Monstro de escuridão e rutilância/ Sofro, desde a epigênese da infância/ A influência má dos signos do zodíaco”, versos que maltratavam os ouvidos de um adolescente vidrado nos autores românticos, como os poetas Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias. O impacto foi tamanho, diante da morbidez do tema e da crueza vocabular, que tive de parar e respirar fundo, não acreditando no absurdo daquela leitura. A queda definitiva, do meu conforto literário, ocorreu mesmo ao passar a vista nas duas últimas estrofes de Versos íntimos, seu poema mais festejado: “Toma um fósforo. Acende teu cigarro!/ O beijo, amigo, é a véspera do escarro,/ A mão que afaga é a mesma que apedreja.// Se a alguém causa inda pena a tua chaga,/ Apedreja essa mão vil que te afaga,/ Escarra nessa boca que te beija!”.

Após esses versos estranhos, nunca mais fui o mesmo enquanto leitor e pessoa, deixando as ilusões de lado e encarando a vida sem mistificações. Sem falar também do próprio texto literário, encarado agora como um labirinto cuja saída precisamos desvendar. Se não atende ao sentido utilitário da sociedade capitalista, a poesia serve, pelo menos, para revolver nossos conceitos estéticos e a concepção da alma humana. Que o belo pode ser extraído tanto dos aspectos relevantes e saudáveis como dos banais e repugnantes do cotidiano. Tocar o coração das pessoas vai depender tão somente do talento e da criatividade do artista, além de certa dose de sorte ofertada pelos deuses. Como gostar de textos assim, indagava minha razão, que falam de verme, cuspe e lama, porém os sentidos não perguntavam nada, de tão maravilhados com o mau gosto.

Feliz do escritor que, 105 anos depois da morte, continua lembrado pela literatura de seu país. Glória maior é quando permanece amado pelos leitores, antigos e novos que foram surgindo. E o que dizer quando ele lançou, em vida, um único livro? Para quem não lembra ou sabe, estou falando de Augusto dos Anjos, o consagrado poeta paraibano falecido no distante ano de 1914, em Leopoldina, cidadezinha do interior de Minas Gerais. Sua idade ao partir? Apenas 30 anos, muito jovem ainda, vítima de pneumonia. O título da obra, lançada em 1912, não poderia ser mais expressivo: Eu, reunião de textos marcados pela melancolia e o sentimento trágico da existência. O soco no estômago do leitor, desfazendo qualquer ilusão sobre o destino humano, é dado logo no poema que abre o livro, Monólogo de uma sombra, um sexteto perturbador: “Tal qual quem para o próprio túmulo olha,/ Amarguradamente se me antolha,/ À luz do americano plenilúnio,/ Na alma crepuscular de raça/ Como urna vocação para a Desgraça/ E um tropismo ancestral para o Infortúnio”.

A aversão às escolas literárias, embora dialogando com todas, tornou-o um poeta singular no começo do século passado, capaz de fundir tradição e inovação num mesmo texto. Para tanto, não teve receio de agradar ou desagradar leitores, tendo compromisso apenas com a poesia de boa qualidade. Sua consagração definitiva, infelizmente, chegou somente depois da morte, injustiça até hoje cometida a grandes talentos da literatura nacional. Sempre ao dormir, não sei por que cargas d’água, os versos iniciais de O morcego despertam inquietações em mim: “Meia-noite. Ao meu quarto me recolho./ Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:/ Na bruta ardência orgânica da sede,/ Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.” Grande Augusto dos Anjos, poeta daqueles que inspiram amor ou ódio, nunca a indiferença abominável.

A sedutora ideia de deus

 

O que significam esses heróis nesse palco?
(Friedrich Nietzsche, in A Gaia Ciência)

 

Escrevi este texto em novembro de 2016, atormentada com o que as nuvens pesadas anunciavam. Hoje me debruço sobre ele, reescrevendo-o aqui e ali sem alterar a sua essência, depois de ver os cordeiros vestidos de branco em Marcha para Jesus comandada por uma Igreja, que é um rentável negócio. É público o fato de que seus donos foram alvo de inquérito policial e processos na justiça por evasão de divisas e entrada em território americano com valores acima do permitido por lei, muito bem protegidos por um livro sagrado. Decido publicá-lo pela tormenta que agora se faz bem real, pela necessidade de entender a loucura coletiva que vivemos e manter a esperança.

O tempo não está para flores, disseram-me às portas do avião. Ouvi. Acomodei a bagagem de mão. Sentei-me e fechei os olhos para esquecer do tempo lá fora. Falo das nuvens cinzentas e dos raios que serviam de cortina para a pequena janela. Peguei-me rezando, entre uma turbulência e outra, aos deuses da chuva e do trovão e ao atencioso padre Cícero do Juazeiro. Quando me dei conta, fiquei imaginando o quanto é valiosa a ideia de deus. O quanto é confortador devotar ao sagrado a angústia, tudo o que nos aflige, ou deixar em suas mãos o que ultrapassa a nossa compreensão e controle. As nuvens eram passageiras e foram vencidas rapidamente pela força e velocidade das turbinas. Onde aterrisso o céu é azul. O que não impede que o tempo lá fora, falo agora do que se conta no calendário, continue turvo e ameaçador.

No aconchego dos meus lençóis leio a coluna do escritor J.P. Cuenca para o The Intercept-Brasil, na qual o autor interpreta a cor do tempo como uma entrada na Tyson Zone (em suas palavras: quando o comportamento de alguém se torna tão insano que nada vindo da pessoa possa chocar ou surpreender). Encontro em outras páginas a nossa realidade mais preocupante. Duas pesquisadoras se debruçam sobre o fenômeno do avanço político dos evangélicos nas eleições nos últimos anos. O resultado de suas pesquisas é assustador: uma confirma o projeto político religioso-pragmático da prosperidade, que a muitos encanta a partir do púlpito dos templos e das redes de TV mantidas sob a égide e regalias da religião. A outra denuncia o projeto religioso-jurídico que tem foco na ocupação de cargos na magistratura, numa tentativa de levar à interpretação das leis uma visão moral em defesa da família e da propriedade de forma mais conservadora. Uma tentativa de abocanhar, portanto, o último refúgio dos que sofrem a discriminação, o preconceito, dos que defendem uma agenda progressista para mulheres e minorias, e até mesmo dos que buscam um chão ou um teto por meio do princípio da função social da terra – questão que está ainda muito longe de ser resolvida na nossa extensão tropical.

Nas pesquisas, que me imponho para chamar o sono, encontro a física, escritora e conferencista norte-americana Danah Zohar, falando a investidores chineses. Usa o termo crise da democracia para explicar a amoralidade e imoralidade que domina o capitalismo do nosso tempo, e de suas inevitáveis consequências sociais e políticas. Acredita que o Ocidente está experimentando não apenas uma crise socioeconômica mas uma crise espiritual que atinge os valores democráticos, como se estivéssemos enlouquecendo. Não se envergonha de apontar como única possibilidade de saída desse ‘dark times’ a transformação/evolução da consciência, por mais que isso possa parecer um ‘New Age Cliche’.

Mais adiante está Dalai Lama, o líder espiritual do Tibet. Em artigo para o N.Y. Times, alerta para a urgente necessidade de construção de uma sociedade inclusiva e que saiba valorizar a contribuição de todos em suas diversidades e capacidades. Baseado em pesquisas sobre o comportamento depressivo de pessoas que não se sentem úteis, acredita que a fúria e a frustração que se espalham pelo mundo civilizado neste instante, podem ser vistas positivamente. Entende que o fenômeno se deve à nossa hunger to be needed (uma necessidade de ser útil, que faz parte da natureza humana). Fazendo uso de um ensinamento Budista do século XIII, defende uma posição que se coloca acima de ideologias ou religião. No seu pensar, o que nos une e pode nos levar ao diálogo é a crença na dignidade humana e na possibilidade de cada um fazer a sua parte por um mundo melhor e mais significativo: se alguém acende o fogo para o outro, esse fogo também iluminará o seu próprio caminho.

Acordo no meio da noite e retomo o exercício da escrita, para acomodar o pensamento e tentar entender as escolhas do meu povo. O título me vem de repente. Debruço-me sobre uma ideia e sua capacidade de persuasão. Quando a incerteza nos sacode torna-se cômodo fechar os olhos e seguir uma voz que se coloca acima de nós. Daí a nossa busca histórica e constante por heróis e por deuses. Líderes religiosos fanáticos (a poderosa igreja católica do passado, os evangélicos ou muçulmanos do nosso tempo, entre outros) conhecem de sobra esse componente sedutor, e não se constrangem em usá-lo em seus projetos políticos e de poder. Encontro no meu não alinhamento religioso a liberdade de retirar máscaras à procura da compreensão da face humana obscura que se esconde sob a ideia sedutora de deus.

Volto ao hoje, uma sexta-feira de junho de 2019, depois do feriado de Corpus Christi, com Santo Antônio e São João enchendo as noites de bandeirolas e fogueiras, sacudida por uma tempestade no peito. Abro a janela em busca de ar. Uma estrela corta o céu. Cabe a mim um desejo: que se acenda uma luz antes que a escuridão nos arrebate! E por via das dúvidas, Viva São Glenn! (se ele não existir, o meu desespero acaba de inventá-lo).