Victória Holanda
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Fio condutor

Espero a água ferver no bule, esquento o almoço requentado no micro-ondas, checo se a porta está mesmo fechada várias vezes. Acordo subitamente no meio da noite, a TV ainda ligada, baixinho. A água do meu chuveiro voltou a vir forte de novo, oba! Seguimos riscando itens, modo piloto automático, devastados.

Às vezes levo ração para os gatos que moram no meu condomínio e que eu nem gosto, faço compras e fico orgulhosa em cuidar de mim. Estou sempre com a sensação de que esqueci alguma coisa. Eterna disputa com os ponteiros do relógio, sempre atrasada. Pego atalhos, fujo do trânsito, do que é improvável, do que não tá na minha lista.

Mas diante do imprevisível, a gente reza.

Gosto de acordar tarde, de ter a casa arrumada, de fazer um prato especial só pra mim. Acendo uma vela, escondo o choro, dor fincada no peito. Uma parte de mim acha que tá perdendo alguma coisa, perdendo tempo, perdendo amigos. Um fiozinho fino e elástico, que se puxar demais arranca e se soltar desmancha.

A gente desvia da topada no asfalto, do assalto, do acidente de trânsito. Numa noite tem os amigos aqui com a gente, na outra a gente não sabe. E sofremos.

Sinto minha fé tinindo

Não acho nada mole falar da fé. Talvez por isso eu tenha escrito cinco vezes um texto procurando uma perfeição que nunca vem. Antes eu tinha muita propriedade pra falar sobre qualquer coisa e achava todo mundo engraçado e interessante. Hoje não me sinto capaz nem de opinar no facebook. Minhas palavras, eu quero dormir com elas, enquanto assisto suspensa meus muros de certezas desabarem.

Aí teve esse dia almoçando de frente pro rio com meu pai, e ele comia e falava driblando a morte de um jeito que só ele é capaz: “O mundo nunca vai mudar enquanto tiverem pessoas acreditando nisso tudo”. E, sem que me perguntassem, enquanto um camaleão corria para a árvore em cima de nós, eu disse que acreditava em tudo. Acredito em tudo aquilo que as pessoas acreditam lhes fazerem bem.

Não sei quanto a vocês, mas os links que salvo para ler num futuro próximo só me deprimem. Está ali, na minha cara, uma sequência de coisas que eu quis ser e não fui. Veja como está a cidade de Edward Mãos de Tesoura, aprenda a fazer uma horta no ap, inscrição para aquele congresso que passou, nomes curiosos de operações policiais e, deus do céu, 10 coisas que eu preciso saber sobre o desenho do filho que eu não tenho.

Parei de sentir o gosto dos alimentos e não recomendo a ninguém. Mal durmo, mal como e reparei que tanto tenho me magoado  quanto ofendido as pessoas com certa frequência. Fui ontem ajustar meu relógio, numa sala quente e inóspita onde um senhorzinho brincava de acertar ponteiros. Eu rezava para não perder a hora, quando ele me surpreendeu dizendo: “Não há problema algum com seu relógio”. Consenti, desolada. O problema, moço, é esse tempo que não para.

 

O sobrevivente

Vivia triste, como triste vivem as pedras esverdeadas pelo musgo, nos muros antigos. Triste porque infeliz, como infelizes parecemos todos nós. Não escondia. E também não fugia. Ele estava sendo. Fazia parte de sua natureza.

Encarava tudo de frente. Sem esconderijos ou fantasias. Mesmo que apertado em sua angústia de não poder estar diferente do que estava. Havia doçura escondida por trás de seus olhos vermelhos. Apertados, numa expressão enigmática, chinesa, que parecia deixar sua vida por um fio.

Sofria de repente. Sem pressa, sem ter porquê. E gostava: quando todos fugiam, ele procurava. Sentia-se humano sofrendo. Parecia-lhe que a alegria não era natural, parte da condição humana, já que efêmera. Sentia-se melhor em hospitais que em lugares de entretenimento. Ali a vida parecia pulsar em um ritmo mais verdadeiro. Doentes, as pessoas pareciam mais reais. O resto era fuga.

Seus olhos eram secos. Dava-se melhor com os outros assim. Era capaz de compaixão e solidariedade, sofrer com as dores de seus iguais. Embora se sentisse roubado da melhor parte da vida, era feliz com sua infelicidade. Buscava a solidão. As pessoas, paradoxalmente, ao tempo que o fascinavam, cansavam. Não eram como ele, absolutamente. Sentia-se com cem anos de idade e os outros com cinco. Eram infantis em suas buscas desesperadas de fugir à solidão e a si próprias. Ele adorava estar consigo. Seu silêncio era cheio de vozes íntimas.

Ninguém o entendia e, assim, é que ele gostava. Não tinha a menor ilusão de ser entendido. E era tão obvio que chegava a saltar para dentro de qualquer um que tentasse. Mas ele temia perder-se, caso fosse possível explicar.

Todos percebiam sua densidade. Mesmo não sabendo como se aproximar, ficavam por perto, para o caso dele dizer o que jamais diria. Era muito calmo em sua tristeza. Não expressava a fúria que lhe ia por dentro. A raiva acumulada contra tudo aquilo. Por que tinha que ser assim? Perguntava-se incessantemente. Não se dava ao trabalho de responder. Era vasto demais. Sua base de poder era sua fragilidade. Sua permanente instabilidade.

Sofria sem suspiros, sem dor. Poderia se dizer que ele sofria sem sofrer. Apenas sofria de uma tristeza nostálgica que não precisava de sentido ou motivo. Pelo menos não para ele. Sua existência consistia de conteúdos que lembravam floresta úmida de chuva, verde escura.

Por dentro era um livro de infinitas páginas. Assim de uma substância palpável, algo feito de concreto e água, de mar e encantamento. Sim, oceano, desses pacíficos, atlânticos e índicos.

Triste como um blues de Baddy Guy. Um cantor, não importa se negro, cego dos olhos e longo na voz de sua boca. Garganta rouca, talvez as primeiras composições dos Stones. Jagger a expandir angels e devlins. Qualquer coisa a chocar e bater por dentro. Ao tempo em que ritual apaixonado, Nirvana e Cobain in acústico. Quase o primeiro cigarro após o café.

E era amado. Ó sim, era amado, principalmente por si mesmo. Particularmente porque não havia mentiras de si para si. Estava com os costados no paredão que existia de frente e no mais absoluto limite. Para os outros, mistério o circundava. Sim, capas que encobriam outras capas, infinitamente. O heroi irreal, embora tão verossímil.

Para quase todos, representava perigo. Como uma cobra enrodilhada. Embora fosse tão manso quanto uma noite profunda. Violentamente manso, de tanto vagar e passar. Era uma longa busca para sedimentar, acumular e consistir a soma de si. Uma cor violeta e seu perfume no ar…

Era o céu e todos os lugares, era só fechar os olhos e imaginar… Um sino a badalar horas intermináveis, esparramando melancolias no ar. Havia um fogo, um crepitar, longo e avermelhado. Todos temiam o fogo. Ele o amava. Era digno o fogo em sua necessidade. A sua tristeza era cheia de paz. Uma paz assim como pecado original, parecido com versos de Rimbaud e Baldelaire.

Sim, ele era triste, imensamente triste como flores murchando num vaso de cristal. Tão triste, mas tão triste que nem existia…

***

Luiz Mendes

14/06/2016.

 

Levantando a poeira do tempo

Uma das frases de que mais gostei a respeito das manifestações no Brasil foi: “estamos construindo uma nova governança da espécie”. Infelizmente meu desmemoriamento crônico não me deixa lembrar quem a disse, e peço desculpas. Mas ela cabe exatamente no que penso sobre o momento, ainda vigente. Estamos, não só no Brasil mas em todo o mundo, construindo um novo modo de pensar sobre o que é tudo.
Algumas pessoas tem me dito que é impossível satisfazer todas as demandas e que governo nenhum tem condições de resolver tudo. Claro que não. Mas a questão maior a ser debatida é: que tipo de mundo queremos ter? E essa pergunta engloba muitas coisas.

Que tipo de mundo queremos ter implica em que relações queremos que países e pessoas tenham com o dinheiro, com o capital. Dinheiro. O que é dinheiro, hoje? Que mundo queremos ter implica em que tipo de sociedade desejamos, qual a nossa relação com a diversidade cultural, com o outro, com os diferentes. Que tipo de mundo queremos ter significa o que é ser médico, engenheiro, político, artista, quais os novos compromissos e descompromissos de cada um. Significa o que é liberdade de ir e vir, o que são fronteiras e em que condições pessoas de nacionalidades diversas podem entrar e sair de outros países, seja para fazer turismo, estudar ou exercer uma profissão. Que mundo queremos ter significa que tipo de soberania um país tem sobre ele mesmo e sobre os outros, e como essa noção de soberania se adequa ao resto do mundo. Se é ético ou razoável que presidentes tenham seus aviões proibidos de pousar por que outro desconfia de uma carona a um denunciador de espionagem. Esse mundo que queremos ter, qual é a relação dele com a tecnologia, qual a nova configuração de direitos individuais, como é e o que é sexualidade? Quais os limites para a pobreza? E para a riqueza, qual o limite? Deve haver limite? É ético, sustentável, razoável, dispor de bilhões de dólares na conta bancária e outro dispor de um pedaço de pão dormido? Aliás, o que é sustentabilidade? Quais os limites para se definir o que é e o que não é uma afronta à dignidade humana? Que mundo queremos ter significa como as instituições vão se adaptar à sociedade em rede e na nova identidade do comum e reaprender o que é democracia, o que é participação popular, o que é trabalho, hierarquia, comando, chefia, liberdade. O que é corpo? O que é autonomia? O que é direito? O que é cidadania? E direita e esquerda e centro, o que são? Ainda são?

Quando vemos governantes, aqui e mundo afora, perdidos, sem saber que decisões tomar e aparentemente sem entender as transformações que começaram e já faz algum tempo, percebemos o quanto se distanciaram da(s) sociedade(s). E mantêm uma lógica caduca e empoeirada para tomar decisões que, não, não serão aceitas por todos e não vão impedir protestos e revoltas e, até mesmo, oh!, vandalismo. Vandalismo? Hoje, o que significa “vandalizar”? O Big Brother está invertido. Agora, as pessoas apontam olhos mágicos para quem as espiava e espionava. Agora múltiplos panópticos têm, no centro, velhos líderes embolorados, instituições mofadas e inconformados guardiões do ontem. Mesmo que esses ainda nos vigiem, todos estamos de olho neles, em uma espécie de contravigilância.

Estamos no meio de uma revolução. No centro dela. Não há como saber se maior, mas claramente diferente de todas as outras. Não adianta pensar usando a mesma lógica de sempre. Há uma nova lógica em construção. Novas éticas. E o que vai vir daí? Tentar respostas imediatas é usar modelos de pensamento carcomidos. É preciso estudar, observar e demolir as velhas estruturas rígidas, hoje lívidas e geladas. As novas estruturas serão fluidas, plurais, e estão sendo gestadas hoje, nesse instante, e não sabemos quando estarão ou se estarão prontas um dia. Até porque, de alguma maneira, elas já estão aí, ainda não como formas mas seguramente como devires de governanças. É bom que se compreenda isso e que se levante a poeira de tudo. O quanto antes. Levantar a poeira do tempo e recriar utopias.

Mais do que nunca, novas utopias são necessárias. As antigas, bem ou mal, nos trouxeram até aqui. Para onde vamos vai depender das que conseguiremos fazer nascer.

(texto de 2013)

A história de Stella

Stella acaba de fazer… é melhor não tocar neste assunto, ela não gosta. Na verdade, Stella só fez aniversário, com número no bolo como de praxe, nos verdes anos. Quando a fruta tornou-se Madura, começou a achar que Nelson Rodrigues tinha razão: mulher que confessa a idade, é capaz de qualquer coisa… Fosse ou não, passou a acreditar na máxima.

O certo é que ela deve ter mais do que parece… Bonita, elegante, altiva, forte personalidade, mas gosta de cultivar um ar lânguido pra lembrar “Blanche Dubois”. Aliás, ela é cheia de contrastes. Aprendeu piano classico e a falar francês, como as moças de alta estirpe de sua época, mas tem um pé no bas fond e adora tango.

Stella descende de uma família tradicional do Rio de Janeiro. Sua mãe, Nanette, era francesa e dizem que começou a vida como dançarina de um famoso cabaré em Buenos Aires, onde a conheceu João Henrique – jovem oficial do Exército brasileiro, descendente do Barão de Mauá, dizem!. E, apesar dos protestos da família, com ela se casou. Nanette, bela e sedutora, brilhou nos salões da Capital Federal, exacerbando os ciúmes do marido, irascível e brigão. Falavam as más línguas que Nanette corneava o marido, porém, os mais íntimos do casal, juravam que tal suspeita não passava de preconceito, uma referência ao seu suposto passado de cabaré. E que, na verdade, Nanette era uma esposa dedicada, mãe atenta, e o casal vivia como pombinhos, pois, em casa, a mulher neutralizava o mau gênio do marido às vezes com doçura, outras gritando mais alto do que ele. A única frustração do casal era não ter um filho varão – ao parir Stella, Nanette quase morreu e passou por uma cirurgia que lhe tirou a chance de ter outro filho. Inconformado, João Henrique projetou na filha o seu desejo de um filho homem: costumava chamar Stella de “filho”, ensinou-lhe equitação, esgrima, tiro ao alvo, embora apoiasse Nanette na cruzada de fazer da única filha uma grande dama, destinada a casar-se com algum jovem rico de família abrasonada.

Stella saiu a cara da mãe. Quando criança, tinha jeito de garoto, pois procurava imitar o pai, a quem adorava, mas ousava desafiar sempre que as vontades de um e de outro não coincidiam. Chegada a adolescência, as orientações maternas e os olhares cobiçosos dos homens começaram a fazê-la assumir as posturas do “eterno feminino”. Isto perturbou muito o Coronel João Henrique, que, ameaçado de perder a filha para um pretendente, passou de aliado a pai severo. Assim, Stella, que na infância achava Nanette absolutamente dispensável, agora aliava-se à mãe. Mas jamais perdeu as maneiras destemidas e o temperamento voluntarioso, que, mesclados ao que aprendeu com a mãe, davam-lhe uma aparência meio andrógina, raríssima na época. À beleza juntou-se, então, um charme muito pessoal, irresistível.

Aos 18 anos, concluído o curso normal e o conservatório de piano, estava na hora de pensar em casamento, segundo a mãe. Os pretendentes eram muitos, manifestos em serenatas quase diárias, que tiravam o já debilitado humor do Coronel. Nanette tinha o seu predileto, um jovem médico, de rica e tradicional família paulista. Stella chegou a dar-lhe alguma esperança, mas terminou concordando com o pai, para quem o rapaz era um bunda mole. Passou a rir-se do coitado, como de tantos outros, cujos defeitos eram logo descobertos e ridicularizados. A verdade é que Stella queria mesmo era divertir-se e, apesar das admoestações da mãe para que escolhesse um marido enquanto a messe era farta, não conseguia levar a sério a ideia de casamento. Isto agradava ao Coronel, para maior desespero de Nanette.

Aos 20 anos, Stella continuava solteira e estava decidida a ser atriz. Disto o Coronel não gostou e aliou-se à mulher na guerra doméstica contra o teatro. Mas Stella meteu-se com um grupo de teatro e começou a namorar um ator, para maior desgosto dos pais. “Um ator, um vagabundo. Vocês vão viver de que, menina?”, gritava Nanette, com o seu sotaque francês. Stella ria-se de tão absurda pergunta. Estava apaixonada. Vinicius, o ator, tinha 26 anos e era o galã do grupo. Demasiado bonito e delicado pra ser homem, segundo o Coronel, Vinicius parecia gostar mesmo de mulher e estava visivelmente apaixonado por Stella. Fugiram e casaram-se.

Stella entrou para o grupo de teatro, fazendo par romântico com o marido. Formaram um casal de lindos canastrões, que faziam enorme sucesso. Dois anos depois de casados, Stella engravidou e durante os últimos meses de gravidez afastou-se do teatro. Por manobra do destino, neste momento entrou para o grupo um belo mancebo de 18 anos, que atendia pela alcunha de Baby. Não durou muito e logo começaram os boatos de que Vinicius e Baby estavam de caso. Stella imprensou Vinicius e teve a confirmação. O casamento rompeu-se, na vida e no palco. Profundamente magoada, Stella saiu do grupo de teatro, resolvida a deixar o palco. Lúcida, avaliou: não será uma grande perda para o teatro. Os amigos protestaram, mas ela foi irredutível.

O desenlace não surpreendeu o Coronel João Henrique, para quem aquele rapaz era um tanto estranho. Apoiou a filha, inclusive financeiramente até que esta arranjasse um trabalho. Logo Stella estava dando aulas de francês, com as quais conseguiu garantir o sustento seu e do filho, Alfredo.

Stella teve muitos namorados, mas não quis mais se casar. Dizia, com um sorriso irônico, que a casa era pequena demais para três. Na verdade, resolvera não dividir mais a sua vida com ninguém. Adorava viajar e reservava todas as suas economias para as viagens. Quando Alfredinho era ainda muito pequeno, ficava com os avós. Depois, passou a viajar com a mãe, que, eventualmente se fazia acompanhar por um namorado. Amava o filho, mas não era escrava do amor materno. Ensinava o filho a ser também independente, porém nisso, não teve muito sucesso, pois Alfredinho era absolutamente fixado em Stella.