Luiz Alberto Mendes
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Amar

Amar e ser amado é o que há de mais íntimo sobre nós. É quando somos chamados para além da opressão de ser somente em nós. Ser para que, então, senão para amar e ser amado?

Ser com os outros, além do interesse, do dever, da tirania do sangue e do respeito. Livre, oh sim, livre para amar uma outra vida que não é semelhante à nossa em coisa alguma e que talvez não tenhamos ousado empreender.

Não podemos gastar nossas vidas aceitando apenas que como esta ainda é melhor do que já esteve. Isso não é humildade. É medo do inusitado. Principalmente do que pode revolucionar e colocar nossa vidas de pernas para o ar. É necessário arriscar e encarar de frente. Mesmo que alguém saia magoado ou ferido.

No que é estranho há o fascínio do mistério a nos encantar. É sempre uma autonomia radical a nós e que nos abre para novas riquezas. É outra vida a nos interpelar. Carecemos aceita-la sem reservas ou censuras, acolhendo-a e crescendo com a multiplicidade que ela representa. Conscientes de que jamais será nossa e até pode ser contras nós. Estamos entrando em contato com um verdadeiro tesouro existencial.

O homem anda perdido das dimensões do próprio homem. Estudando a história parece claro que o homem abortou a si mesmo em seus momentos cruciais. O limite e a diferença sempre nos apavoraram. Ainda assim sempre ficaram vestígios. Postulados filosóficos, religiosos, utopias fantásticas, obras de arte magníficas. Há também a ação iluminada de alguns poucos, como Gandhi; Mandela; Albert Schweitzer; Martim Luther King; Chico Xavier; Madre Tereza de Calcutá, felizmente nossos contemporâneos que fizeram a grandeza de nossa geração.

A diferença é um tesouro. Por isso o amor a uma mulher é tão enriquecedor ao homem. Pela radicalidade da diferença cultural e da existência feminina. A mulher é essa dimensão perdida nos milênios de civilização feita pelo homem e para o homem. Esquecemos da complementaridade, dessa chama que nos faz conhecer o amor.

É preciso sobrepujar resistências tenazmente. O homem tem sido um projeto a se realizar. Um sonho de ser que nunca foi. Mas que podemos parir de dentro de cada um de nós com a coragem de que somos portadores. É preciso apostar no porvir daqueles que se aproximam de nós. Em suas infinitas possibilidades. Como as árvores não sabem onde cairão suas folhas, nós não sabemos o destino de nossos dias. Amanhã talvez seja tarde.

Urge lutar ao limite para incorporar que as pessoas trazem em si uma condição mais satisfatória de vida para nós. É, sem duvida, como nos relacionamos com os outros que determina o grau de nossa satisfação de viver. Cada pessoa que entra em nossa existência é um ganho. É um sol que se desenha em nosso rosto.

Amar alguém, de repente, pode ser tão enriquecedor que transcenda a idéia de ganho. Porque então é troca e comunicação total. Amar é quando todos só têm a ganhar e ninguém a perder. Tudo o que há de diferente no outro é justamente o que nos falta.

Quando só podemos contar conosco tendemos a individualizar para poder sobreviver. Então nossa vida torna-se um acontecimento secreto. A solidão nos mergulha em nossas reflexões mais insanas, absurdas e deselegantes. Este somos nós sem a referência do outro. Sem a possibilidade do amor que a outra pessoa nos trás.

Naquelas horas cruciais é que o vidro fino da sanidade parece estilhaçar-se. Quando a vida arde nas veias e queremos assaltar a nossa própria sombra, a consciência nos ensina que é preciso buscar alguém. Talvez sejamos um entrelaçamento de relações vivas unidas em um tecido indissolúvel.

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Luiz Mendes

11/07/2016.

“Cu é lindo”

Quando menos espero, sabe-se lá por qual razão, a frase surgiu inteira na minha cabeça. Pior, ou melhor, ao gosto do leitor: foi dita em voz alta, sem cerimônia, pegando a todos de surpresa, inclusive eu. Depois de certo espanto, o riso brotou escancarado na turma de amigos. Luta foi convencê-los de que tal expressão, de caráter escatológico, não tinha nada a ver comigo, menos ainda com os textículos que costumo rabiscar.CU 1

Trata-se, na realidade, de um verso polêmico de Adélia Prado, uma das grandes vozes da poética nacional. Sua consagração se deu, em grande parte, aos elogios recebidos por Carlos Drummond: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo – esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis”. Mais calmos, quiseram conhecer essa poeta que encanta ao misturar religiosidade com erotismo, nascida numa pacata cidade do interior de Minas Gerais. CU 5Comecei dizendo que o verso faz parte de um belo texto de sua autoria, intitulado Objeto de amor, constituído de uma única estrofe com nove versos, no qual a poeta diz ser impossível guardar, em tom lírico e pungente, esse segredo tão fundamental – “De tal ordem é e tão precioso/ o que devo dizer-lhes/que não posso guardá-lo sem a sensação de um roubo:/cu é lindo!”. Para o torpor não ser ainda maior, falei pra eles, tampouco cair no sorriso estéril, basta ler/ouvir com olhos/ouvidos de criança, esquecendo de vez a malícia dos adultos. Ou, parafraseando Oscar Wilde, não existem poemas morais ou imorais. Os poemas são bem ou mal escritos. E recitei os versos restantes aos caros amigos: “Fazei o que puderdes com esta dádiva./Quanto a mim dou graças/pelo que agora sei/e, mais que perdoo, eu amo.”

A estreia de Adélia Prado ocorreu em 1976, com Bagagem, coletânea de poesias que mereceu elogios de grandes nomes da literatura brasileira, a exemplo de Carlos Drummond, Affonso Romano, Clarice Lispector, Nélida Piñon e Antônio Houaiss. Sua obra é vasta e diversificada, englobando os gêneros lírico (poesia), narrativo (prosa) e CU 2dramático (teatro), tendo merecido inúmeros prêmios, entre eles o Jabuti, em 1978, com O coração disparado. Além de poeta e filósofa, abraçou também o magistério em Divinópolis, cidade onde nasceu e mora até hoje. A temática de seus textos gira em torno de assuntos caros à autora: espiritualismo, cotidiano e erotismo. Uma escrita autêntica, singular, sem medo de agradar ou não o leitor, como deixa claro em Com licença poética, um de seus textos mais conhecidos: “Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina./Inauguro linhagens, fundo reinos/ – dor não é amargura.”

Caso alguém tenha ficado chocado com tal afirmação, de que o cu é lindo, basta recordar que aconteceu na França, em 2013, a polêmica EXPOCU, uma exposição de fotografias sobre o ‘esfíncter anal’. O sucesso foi tamanho, em termos de público e crítica, que a exposição foi levada a outros países. E o que é mais interessante, com o rótulo de cultura. Não satisfeitos apenas com a beleza de tal orifício, os gringos ainda o batizaram de arte contemporânea em galeria de Paris. CU 4Diante disso, fica a lição para todos nós, frente ao clichê o ‘Piauí é o cu do mundo’, de que não devemos mais pular na jugular de pessoas tão desinformadas. Ao contrário, devemos tirar um sarro delas dizendo que nossa terra é uma peça artística de rara beleza. Se não entenderem, basta explicar o silogismo: O cu é lindo; o Piauí é o cu do mundo; logo, o Piauí é o lugar mais bonito do planeta.

E se a pauta fosse “gentileza”?

Por Samária Andrade

Quando vocês vão fazer uma matéria com a gente? Perguntou-nos mais de uma vez o Chagas Júnior, criador do movimento coletivo Salve Rainha. Não era uma cobrança. Era uma pergunta.

E achamos que era suficiente o que estávamos a fazer. Uma vez fizemos uma matéria sobre o abandono do prédio da Fundação do Humor, ocupado então temporariamente pelo movimento do Salve Rainha com exposições, feira de produtos, música. A matéria mesmo era o abandono do prédio. Eles estavam por alí, dando um destino ao local – foi o que interpretamos – mas também a eles mesmos. Depois procuramos Júnior e o ouvimos, entre outros tantos entrevistados, na matéria que produzimos sobre consumo de cultura em Teresina. Mais recentemente convidamos Júnior para a seção 10 Dicas. Ele deveria indicar o que anda lendo, ouvindo, vendo. Temos um bem querer danado por esse espaço pois ele é inteiramente de quem convidamos a deixar suas impressões digitais conosco, em geral sem qualquer pitaco ou edição nossa. É nessa seção que aprendemos um pouco mais com quem convidamos.

Jr Salve foto

Foto: Manoel Soares

Anos antes, quando a Revestrés ainda nem existia, eu estive na banca de conclusão de curso do Júnior, no CEUT. Ele apresentou uma revista de cultura que se chamava Grude. Depois, em outros tempos, ficamos sabendo que aquele rapaz esperto, que trabalhou como fotógrafo no Jornal Meio Norte, agora estava fazendo umas festas diferentes na cidade. A Luana e o Maurício foram os primeiros a ver de perto o que andava acontecendo. “Olha, tá dando gente. É interessante”, disseram.

O movimento que o Júnior fazia foi crescendo, foi virando movimento. Outras pessoas já se juntavam e formavam uma turma cheia de charme, animada, que arregaçava as mangas ora no centro da cidade, numa rua de calçadão, ora ocupando o prédio deixado para trás pela Câmara de Vereadores, ora embaixo da ponte da Frei Serafim. “Quem disse que Teresina não tem nada para se fazer no domingo à noite?” – Ouvimos Júnior afirmar mais de uma vez. Bonito, expressivo, um sorriso como cartão de visitas, um turbante na cabeça, uma saia comprida a lhe cobrir as pernas, um abraço demorado, uma vontade danada de juntar mais gente.

Mas o que é mesmo que vocês estão fazendo, Júnior? “Um café sobrenatural”.  E o que é mesmo o Salve Rainha? “Uma tecnologia social”. As perguntas tinham o interesse de avaliar se se fazia daquela vontade, pauta – ainda que pauta, para nós, sambe nos critérios de noticiabilidade. E íamos frequentando, e participando, e vendo aquilo se formar, transformar. E quem era de foto, foto colava; e quem era de texto, anotava; e até quem não era de carinho, abraçava. E as perguntas estavam conosco: como tratar isso que está aí? Já estava maduro o suficiente, era pauta o suficiente, era cultura o suficiente? Era febril, tinha saúde forte, se sustentaria? O discurso correspondia, já foi testado pelo tempo? Era como se se pudesse ir ticando alguns critérios. Mas a nossa fonte tinha pressa. E mais: não podia nos avisar assim tão claramente. Entre um piscar de olhos e um sorriso, quase nos alertava: “Façam logo essa matéria”.

Na reunião de pauta da edição 25, talvez tenhamos chegado coletivamente ao nome de Júnior para a seção 10 Dicas.  Ele nos respondeu rápido. Mais que profundas, suas dicas vieram generosas, gentis. Na hora não compreendemos bem.

Paradoxalmente a morte dá sentido aos eventos que vamos fragmentando ao longo disso que chamamos vida. Júnior era lindo, sorridente, talvez não fosse suficientemente dramático. Júnior incluía, incentivava, sugeria, tinha coragem. Júnior tinha pressa.

Perguntamos se podíamos editar suas dicas. Talvez seria preciso cortar algo para caber na página, para caber na diagramação, para caber no jornalismo. Ele respondeu: fiquem à vontade, confio em vocês. A generosidade dele não cabia na pessoa. Por fim, não editamos. Aumentamos sua única página inicial para duas. Quando a revista sair da gráfica, Júnior já partiu. Tinha virado pauta, sem pedir nem precisar sugerir. E o jornalismo, que se debate pelo impacto ou pelo profundo ou pelo urgente, enfim descobre: nada há de maior impacto ou mais profundo ou mais urgente que a gentileza de ser.

 

Da memória #1

Todos os dias, por volta das cinco da tarde, ela estacionava seus setenta e poucos anos ali, em frente à loja de discos no Largo do Machado, colocava suas sacolinhas no chão e esperava. Da loja logo soava, bem alto, o Bolero de Ravel, que ela regia, concentrada. Algo em torno de treze minutos depois, uma reverência da maestrina improvável a um público invisível, sacolinhas de novo nas mãos e o andar instável em direção à esquina.

Trinta anos depois ainda não sei bem quem melhor representaria a loucura: a maestrina, o dono da loja de discos, eu, que sempre assistia ao espetáculo ou as pessoas que passavam e achavam aquilo uma coisa de loucos.

Volta, rainha

Ju,

aproveitando esses meus dias de fé, ontem eu peguei no sono rezando por ti. peguei até o que é mais normal em ti – tua vontade de fazer as coisas, tua saia, teu turbante e o sorriso que sempre veste – e transformei em prece. lembrei do quanto foi bom te abraçar na sexta – arrisco dizer que tua alegria naquele parque era a mais contagiante. tu me convidou pra um drink – e quem neste mundo faz um mojito melhor que o teu? – e eu, boba, não pude ficar. tu botou um carão que me lembrou os tempos de Ceut – eu te achando abusado de um jeito que inexplicavelmente me atraia. aí veio a revista Grude, o jornal, a vida, as festas, o Salve, muitos carnavais, e a gente sempre se topando de modo delicioso. tem essa nossa conversa jogada fora no face, que você encerra dizendo: “a senhora tá se fortalecendo, fia”, e me apoia num projeto maluco de vida. agora sou eu que te peço: se fortaleça, merman. tem uma multidão aqui torcendo pra que você fique bem.

pra que você volte a nos fazer bem.

#SalveJunior

 

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Eu, tu e a Gorete <3