Amar e ser amado é o que há de mais íntimo sobre nós. É quando somos chamados para além da opressão de ser somente em nós. Ser para que, então, senão para amar e ser amado?
Ser com os outros, além do interesse, do dever, da tirania do sangue e do respeito. Livre, oh sim, livre para amar uma outra vida que não é semelhante à nossa em coisa alguma e que talvez não tenhamos ousado empreender.
Não podemos gastar nossas vidas aceitando apenas que como esta ainda é melhor do que já esteve. Isso não é humildade. É medo do inusitado. Principalmente do que pode revolucionar e colocar nossa vidas de pernas para o ar. É necessário arriscar e encarar de frente. Mesmo que alguém saia magoado ou ferido.
No que é estranho há o fascínio do mistério a nos encantar. É sempre uma autonomia radical a nós e que nos abre para novas riquezas. É outra vida a nos interpelar. Carecemos aceita-la sem reservas ou censuras, acolhendo-a e crescendo com a multiplicidade que ela representa. Conscientes de que jamais será nossa e até pode ser contras nós. Estamos entrando em contato com um verdadeiro tesouro existencial.
O homem anda perdido das dimensões do próprio homem. Estudando a história parece claro que o homem abortou a si mesmo em seus momentos cruciais. O limite e a diferença sempre nos apavoraram. Ainda assim sempre ficaram vestígios. Postulados filosóficos, religiosos, utopias fantásticas, obras de arte magníficas. Há também a ação iluminada de alguns poucos, como Gandhi; Mandela; Albert Schweitzer; Martim Luther King; Chico Xavier; Madre Tereza de Calcutá, felizmente nossos contemporâneos que fizeram a grandeza de nossa geração.
A diferença é um tesouro. Por isso o amor a uma mulher é tão enriquecedor ao homem. Pela radicalidade da diferença cultural e da existência feminina. A mulher é essa dimensão perdida nos milênios de civilização feita pelo homem e para o homem. Esquecemos da complementaridade, dessa chama que nos faz conhecer o amor.
É preciso sobrepujar resistências tenazmente. O homem tem sido um projeto a se realizar. Um sonho de ser que nunca foi. Mas que podemos parir de dentro de cada um de nós com a coragem de que somos portadores. É preciso apostar no porvir daqueles que se aproximam de nós. Em suas infinitas possibilidades. Como as árvores não sabem onde cairão suas folhas, nós não sabemos o destino de nossos dias. Amanhã talvez seja tarde.
Urge lutar ao limite para incorporar que as pessoas trazem em si uma condição mais satisfatória de vida para nós. É, sem duvida, como nos relacionamos com os outros que determina o grau de nossa satisfação de viver. Cada pessoa que entra em nossa existência é um ganho. É um sol que se desenha em nosso rosto.
Amar alguém, de repente, pode ser tão enriquecedor que transcenda a idéia de ganho. Porque então é troca e comunicação total. Amar é quando todos só têm a ganhar e ninguém a perder. Tudo o que há de diferente no outro é justamente o que nos falta.
Quando só podemos contar conosco tendemos a individualizar para poder sobreviver. Então nossa vida torna-se um acontecimento secreto. A solidão nos mergulha em nossas reflexões mais insanas, absurdas e deselegantes. Este somos nós sem a referência do outro. Sem a possibilidade do amor que a outra pessoa nos trás.
Naquelas horas cruciais é que o vidro fino da sanidade parece estilhaçar-se. Quando a vida arde nas veias e queremos assaltar a nossa própria sombra, a consciência nos ensina que é preciso buscar alguém. Talvez sejamos um entrelaçamento de relações vivas unidas em um tecido indissolúvel.
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Luiz Mendes
11/07/2016.

Comecei dizendo que o verso faz parte de um belo texto de sua autoria, intitulado Objeto de amor, constituído de uma única estrofe com nove versos, no qual a poeta diz ser impossível guardar, em tom lírico e pungente, esse segredo tão fundamental – “De tal ordem é e tão precioso/ o que devo dizer-lhes/que não posso guardá-lo sem a sensação de um roubo:/cu é lindo!”. Para o torpor não ser ainda maior, falei pra eles, tampouco cair no sorriso estéril, basta ler/ouvir com olhos/ouvidos de criança, esquecendo de vez a malícia dos adultos. Ou, parafraseando Oscar Wilde, não existem poemas morais ou imorais. Os poemas são bem ou mal escritos. E recitei os versos restantes aos caros amigos: “Fazei o que puderdes com esta dádiva./Quanto a mim dou graças/pelo que agora sei/e, mais que perdoo, eu amo.”
dramático (teatro), tendo merecido inúmeros prêmios, entre eles o Jabuti, em 1978, com O coração disparado. Além de poeta e filósofa, abraçou também o magistério em Divinópolis, cidade onde nasceu e mora até hoje. A temática de seus textos gira em torno de assuntos caros à autora: espiritualismo, cotidiano e erotismo. Uma escrita autêntica, singular, sem medo de agradar ou não o leitor, como deixa claro em Com licença poética, um de seus textos mais conhecidos: “Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina./Inauguro linhagens, fundo reinos/ – dor não é amargura.”
Diante disso, fica a lição para todos nós, frente ao clichê o ‘Piauí é o cu do mundo’, de que não devemos mais pular na jugular de pessoas tão desinformadas. Ao contrário, devemos tirar um sarro delas dizendo que nossa terra é uma peça artística de rara beleza. Se não entenderem, basta explicar o silogismo: O cu é lindo; o Piauí é o cu do mundo; logo, o Piauí é o lugar mais bonito do planeta.
