Wellington Soares
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Alguns textículos

ESTADO DE ESPÍRITO

Antes de partir, Marisa ainda perguntou, com lágrimas nos olhos, se eu a amava. Claro, disse sem titubear, mas ela não acreditou. Se a amasse de fato, passou na minha cara, diria espontaneamente, e não somente quando fosse indagado. Calado estava, calado fiquei, inútil justificar. Que adiantaria? Ela estava, sabia no íntimo, repleta de razão. Custava reafirmar, vez por outra, meus sentimentos. Não satisfeita, ela voltou à carga: verdadeiro, por que não expressá-lo diariamente? Longe de eu imaginar, enfatizou, como aquilo aplacaria a incerteza que a corroía por dentro. Por acaso era vergonha?  Timidez? Ou, quem sabe, alguma sirigaita que ocupava meu coração? Difícil explicar que amor é um estado de espírito, um bem-estar que dispensa protocolos, silêncio a emudecer qualquer comentário. Uma pena!

 

SÍNTESE ESTRANHA

Quer saber de quem eu sou filho? Pode até não acreditar, difícil realmente, mas de duas expressões. Isso mesmo que você acaba de ouvir. Não é brincadeira, acredite, longe de querer tirar sarro de sua cara. Tivesse sido criado, como fui, ouvindo-as diariamente, você chegaria também a essa conclusão. Mesmo a contragosto, sou filho de uma síntese entre Machado de Assis – “verdadeiramente só há uma desgraça: é não nascer” – e um provérbio bíblico – “nenhum obstáculo é grande demais quando confiamos em Deus”. A primeira repetida pelo meu pai, um leitor apaixonado do escritor carioca, ao presenciar eu reclamando da vida; a segunda, bordão de minha mãe, dita às vezes que ouvia o filho colocar dificuldade em tudo, inclusive no ato penoso de estudar. Traduzir uma frase na outra, questão de vida ou morte, levou-me a encarar a existência com menos sofrimento.

 

TIRO PELA CULATRA

Para pôr fim ao namoro, confesso que não foi nada fácil. Muito ao contrário, gastei muitos neurônios a fim de achar a melhor estratégia. Ainda mais depois de Ítalo ter tentado o suicídio, segundo ele, quando ouviu eu falar em dar um tempo na relação. Não foi em terminar, escute bem, mas um time para refletirmos sobre nossas constantes brigas. Era normal, por acaso, o ciúme exagerado que ele sentia de mim? Sem falar também de uma dependência e um grude, ambos de forma exagerada, que terminavam sufocando o brotar espontâneo do amor. Ao saber que ele estava fora de perigo, respirei aliviada e chorei bastante. Ali no hospital, orando baixinho, prometi que nunca mais permitiria que alguém, mesmo pessoas queridas, colocasse sua vida sobre meus ombros. Talvez o bilhete, curto e grosso, o tenha demovido da ideia de procurar-me novamente: “Quem ama não chantageia, babaca!”.

 

ÍNDIOS DE ARAQUE

Quem procura acha, diz o ditado, nunca tão verdadeiro como naquele dia, com o motorista enfurecido, de porrete na mão, correndo atrás da gente, molecotes das proximidades do Lindolfo Monteiro, nosso estádio municipal de futebol. À primeira vista, alguém poderia considerá-lo um monstro perseguindo garotos inocentes, quando éramos nós, na realidade, os verdadeiros monstrinhos do pedaço: meninos desalmados atirando, com baladeiras certeiras, mamonas nos passageiros de ônibus provenientes de Timon, machucando-os impiedosamente no rosto, alguns com ferimentos graves nos olhos. Tudo movido à brincadeira de mau gosto que nos proporcionava, na época, um enorme prazer, além de nos sentirmos autênticos índios cheyennes norte-americanos atacando as diligências dos homens brancos e cruéis. A correria desesperada e umas boas lapadas nas costas, que alguns tomaram, deixaram lições difíceis de esquecer até hoje.

Um homem inesquecível

Quero falar hoje sobre um homem que me impressionou mais que todos os outros, um velho militante comunista da melhor qualidade já nascido em solo brasileiro. Se duvidarem, um dos mais solidários e destemidos do mundo. Seu nome, verdadeira legenda na esquerda nacional, é Apolônio de Carvalho. Para tanto, preciso de completa atenção. Desliguem os televisores, paralisem os negócios e, acima de tudo, esqueçam os celulares. Afinal, trataremos não de um indivíduo qualquer, mas de uma pessoa que soube dignificar a espécie humana, por meio de um espetacular exemplo de vida e de uma corajosa luta política. Se uma definição lhe cabe bem é, sem dúvida, a de visionário, alguém que acredita ser capaz de transformar utopias em realidade, mesmo contrariando o senso comum e a indiferença geral.

Filho de uma modesta família de classe média sergipana, desde cedo aprendeu, como depois viria a confessar, que “para viver é preciso merecer viver”. Tal sentido existencial só foi encontrado, após largar o sonho de ser médico, na apaixonante carreira militar, que abraçou com o mesmo desvelo e determinação do pai e do irmão, ambos combatentes do exército brasileiro. Sua adesão ao projeto comunista aconteceu somente ao deixar a prisão, ele que havia participado do fracassado Levante de 35, período em que conheceu alguns militantes históricos do antigo “Partidão”, a exemplo de Olga Benário, mulher de Prestes, e Graciliano Ramos, autor de Vidas secas e Memórias do cárcere, importantes livros de nossa literatura.

Apolônio - Foto

 

Em 1936, junto com outros 17 companheiros de partido, Apolônio de Carvalho seguiu para combater na Guerra Civil Espanhola – engrossando as fileiras das Brigadas Internacionalistas -, defendendo a bandeira republicana das ameaças do general Franco. Sob o seu comando, numa tropa de artilharia, chegou a ter entre 300 e 400 homens, merecendo a confiança e o respeito de todos por sua coragem e espírito democrático. Infelizmente, as forças reacionárias levaram a melhor, com apoio de Hitler e Mussolini. Derrotado, mas não vencido, ele desembarca na França ocupada, participando ativamente da Resistência aos nazistas. Na liderança de um grupo de combatentes, foi o responsável pela libertação das cidades de Carmaux, Albi e Toulouse. Terminada a Segunda Guerra Mundial, recebeu do governo daquele país a mais alta condecoração: a Legião de Honra. Foi lá, em 1942, que conheceu o grande amor de sua vida, Renée France, militante comunista, com quem teve dois filhos – René e Raul.

De volta ao Brasil, Apolônio se depara com uma situação inusitada na história autoritária do país, a legalização do Partido Comunista. Sem mencionar ainda, fato que o deixou muito contente, a eleição de uma significativa bancada no Congresso Nacional, incluindo o senador mais votado (Luís Carlos Prestes) e deputados federais do porte de Gregório Bezerra, Carlos Maringhella, João Amazonas e Jorge Amado, que mais tarde se tornaria o maior nome de nossas letras. Como alegria de pobre dura pouco, segundo o ditado popular, o registro do PCB é cassado e seus dirigentes acabam perdendo o mandato. Na ditadura militar, vamos encontrá-lo pegando em arma novamente, desta vez como dirigente do PCBR, sendo preso e torturado. Em troca do embaixador alemão, é exilado na Argélia, retornando com a lei da Anistia, em 1979.

Fui conhecê-lo na década de 80, já como um dos dirigentes nacionais do PT, quando veio a Teresina participar de encontro com a militância local do partido. À noite, livre dos compromissos políticos, fez questão de comparecer aos folguedos juninos da Universidade Federal do Piauí, varando a madrugada em conversa amistosa e marcada pelo humor. Nem parecia haver passado por tantas e boas. Estava feliz e alimentava ainda grandes esperanças, como a fé inabalável na construção de um Brasil socialista, desde que, frisava sempre, com liberdade e democracia. Na despedida, refletia comigo que, diante daquele homem capaz de preservar a ternura de uma criança, era possível continuar acreditando em alguma coisa.  Infelizmente, a indesejada das gentes o levou em 2005, aos 93 anos, vítima de insuficiência respiratória, deixando um livro autobiográfico – Vale a pena sonhar -, transformado em documentário homônimo de grande sucesso, no qual o velho comunista sentenciava: “Quem passa pela vida e não tem nenhum horizonte definido, nenhum ideal que possa e queira lutar, está sujeito à mediocridade”.  Mais atual impossível. Apolônio de Carvalho, presente!

Jornalismo e a hiprocrisia necessária

Por Samária Andrade

Nós dissemos que essa coluna iria falar de bastidores da produção de jornalismo (do nosso jornalismo na Revestrés, pelo menos). E aí que ontem eu quase não durmo me perguntando: até onde se vai para que se fale, mas não se fale a ponto de perder o encanto? Para que se diga, mas não se perca a aura? Para que se partilhe, mas isso não lhe torne frágil, vulnerável? Até onde se pode revelar? Essa pergunta vale para se pensar do jornalismo às relações de trabalho e amorosas, bem como todas as instituições nesse momento de falência da representatividade.

Há quem defenda: para que se mantenha o “funcionamento das instituições” é preciso que muita coisa nunca seja revelada, que permaneça oculta, que possa ser negada. Por isso a política é feita na base do on stage/backstage.

Eugéne Enriquez diz que sem ilusão, sem crença, sem idealização, sem disfarces, sem hipocrisia, a vida social (e a vida psíquica, consequentemente) seria impossível.

Imagine você um mundo entregue à transparência, onde cada qual saberia o que o outro pensa em seu foro interior. Onde você soubesse o que seu entrevistado pensa, enquanto lhe responde outra coisa. O entrevistado soubesse o que passa em sua cabeça, enquanto anota o que ele diz. Você soubesse o que seus alunos pensam, enquanto você acha que está dando uma aula de arrasar. Seus alunos soubessem o que está registrado em seu pensamento quando você escreve “precisa revisar”. A gente soubesse o que passa na cabeça das pessoas que assistem a missa, que participam da reunião, que escutam o promotor dando entrevista, que fingem que acreditam. Seria suportável esse mundo se todos nós estivéssemos, juntos, nos bastidores?

É provável que estejamos longe de saber o impacto real, sobre o mundo, das revelações de Snowden e Assange, quando a crise é mais política que econômica. É possível que ainda não compreendamos o que acontece de fato quando Mídia Ninja e Jornalistas Livres acusam: “assim não é jornalismo”, ou assumem: “a mídia corporativa não é neutra, nem nós”.

Nem tudo o que você descobre sobre alguém precisa ser dito, precisa virar matéria – nos disse, do alto de sua experiência, Zuenir Ventura, em entrevista para Revestrés. E agora, com esses tempos em que se corre para a internet e se publica?

Se não existe sociedade sem idealização das instituições, como defende Enriquez, o que acontece quando não mais idealizamos a política, a justiça, o jornalismo?

A Sociologia Clínica trabalha o conceito “conhecimento equivocado”. E se o que andamos aprendendo ou repetindo ou respeitando sobre as instituições são “conhecimentos equivocados”? Talvez tenha chegado a hora de remexer nesses conhecimentos. Para fazer isso teremos que chegar nos bastidores de nossas atividades.

O que nos aparece institucionalizado quer manter a aparência de que é soberano, intocável, de que controla o jogo. Para isso conta com a nossa crença. Ou pelo menos, com nosso silêncio. Por ironia, as instituições aparentemente mais sólidas são igualmente frágeis, muitas vezes até mais frágeis: pela incapacidade de estarem dispostas a ver o que já se anuncia.

Para Nietzsche, o desconhecimento acaba por levar ao abismo aqueles que pensam que melhor controlam uma situação.

Se revelar os bastidores pode nos encher de dúvidas, por outro lado não há morte mais segura do que querer preservar algo que já não se controla. E um corpo social – seja o político, a justiça, a família, o jornalismo – não pode fugir das perguntas. Deve procurar respostas aos questionamentos, sob pena de desaparecer. O que você verbaliza publicamente não consegue sufocar o que recalca. O que você não fala, continua a existir.

Miró da Muribeca

Ele chegou de mansinho, sem fazer alarde, mas ao falar encheu nosso coração de grande emoção, sobretudo, quando disse que, mesmo já nos braços da morte, em coma no hospital, havia driblado a indesejada das gentes, como a batizara outro pernambucano famoso, e estava vivinho da silva, pois não era louco de faltar a Balada Literária 2016, em Sampa, justo na homenagem a Caio Fernando Abreu, escritor gaúcho dos bons, além de estar morrendo de saudade dos amigos reunidos ali, na Livraria da Vila, finalzinho de novembro, bem como a língua coçando pra recitar alguns de seus poemas, painel doloroso da miséria brasileira, que as elites nacionais teimam em ignorar, e de repente, não mais que de repente, sapecou uns versos contundentes.

Deus, Tu que agora carregas um homem,

Puxando pelas rédeas o seu cavalo e uns

sacos de cimento

De cada lado um sol insuportável…

Deus,

Choves agora no meu coração

Para que eu não pense em comprar um

guarda-chuvas de balas

E fazer justiça com as próprias mãos.

Quando vimos, o auditório, que era pequeno, explodiu numa enxurrada de aplausos e lágrimas, frevo de felicidade a celebrar o retorno dele, o João Flávio Cordeiro da Silva, conhecido por Miró, não o pintor espanhol, mas uma das vozes mais inventivas da poética independente do Brasil, nascido em Recife e morador do bairro Muribeca por vários anos, poeta popular muito querido e festejado no país inteiro, autor de diversos livros e recitador de poesia como ninguém, capaz de levar ao delírio pessoas sensíveis à boa poesia, daquelas que cortam fundo a carne da gente, misto de senso crítico e humor escrachado, o cotidiano exposto sob o olhar nada complacente de quem é oriundo da periferia, de aguçada consciência de classe, tão bem ilustrada no texto Carla.

Miró - FotoConheci Carla catando lata
Seus olhos brilhavam como alumínio ao sol
São Paulo ardia num calor de quase
quarenta graus
Pisou na lata como pisam os policiais
Nos internos da Febem
Jogou no saco
Com a precisão que os internos jogam
monitores dos telhados
E rápido foi embora
Tal qual sequestro relâmpago
Deixando a lembrança
De um tempo que não havia sequestros,
Febem
Nem tanta polícia
Muito menos catadores de lata
Os olhos de Carla
Nem desse poema precisavam. 

 

Se a poesia impressa de Miró da Muribeca já toca fundo nossa alma, imagine sendo declamada por ele, em performance inigualável, com os textos gritados e corpo em êxtase, de forma visceral e, mais importante, encarnando a verdade dos excluídos, dos que só ganham visibilidade ao ocuparem os espaços, incluindo os burgueses, e soltam o verbo com destemor e irreverência, pouco ligando se o levam a sério ou não, uma vez que, desde cedo, quando ainda sonhava em ser jogador profissional, lá nos campinhos de várzea, subúrbios de Recife, aprendeu que respeito advém de você ser excepcional no que faz, e ele, inspirado nos grandes trovadores pernambucanos, a exemplo de Ascenso Ferreira, aprendeu a lição direitinho, hoje não ficando a dever a nenhum de seus antigos mestres, mesmo ao trilhar pela vereda lírica.

Acho que foi a primeira vez que conheci a dor
Um domingo de 1971
Naquele tempo o domingo era o dia mais
feliz,
Minha mãe fazia um macarrão com carne de
lata e Q-suco
Ficávamos brincando de mostrar a língua
vermelha
Pra provar que éramos felizes….
Norma era tão linda com seus cabelos
negros,
Que me deu um branco aos 11 anos
Quando me pediu um biscoito maizena e um
gole de fratele vita…
Domingo era o dia mais feliz
Antes de Norma beijar um outro na boca

E pra completar nossa alegria, ele chegou com livro novinho, Miró até agora, lançado pela Cepe, coletânea reunindo sua obra entre 1985 e 2012, esse recifense que prefere ser chamado “cronista da cidade”, por retratá-la crua e verdadeiramente, sem as pieguices costumeiras dos bardos tradicionais, ainda mais ao viver sóbrio nesses últimos meses, longe do álcool – “Quando um bêbado vai embora / Nem o bar sente saudade” -, como bem diz versos da nova fase. Em belo projeto gráfico, com retrato do poeta na capa, temos os seguintes títulos: Quem descobriu o azul anil? (1985), Ilusão de ética (1995), Pra não dizer que não falei do flúor (2004), DizCrição (2012) e a Deus (2015). Para quem não o conhece, é recomendável ficar de olho em Miró da Muribeca, lendo seus textos e pesquisando sobre ele na internet, uma vez que uma coisa é certa: sua poesia vicia que nem beijo na boca.

Carta para Helena

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Senhora Helena.

Antes de qualquer coisa, peço desculpas pela demora em respondê-la. Há tempos não peço desculpas por nada nem a ninguém, nem dou explicações sobre o que quer que seja a quem quer que seja. Não percebo porque alguém haveria de se interessar e já não disponho mais de pudores que me provoquem a necessidade de me desculpar por algo que tenha feito, dito, pensado ou desejado. Mas aqui, senhora Helena, abro uma exceção, e exceções também são coisas que não costumo abrir, salvo em condições extremas. Como essa, ao me corresponder com a senhora.

Há pessoas que pensam, provavelmente, que sou amargo. Que sou estranho. Que sou arrogante. As pessoas pensam o que querem, senhora Helena. Não me importo com elas. Sinceramente, não faço a mínima sobre o que passa na cabeça de qualquer pessoa desse mundo. Todos pensam muito sobre tudo, o que significa que não pensam nada sobre nada. A única pessoa a quem eu daria explicações, pediria desculpas ou coisa que o valha seria Beatriz. Mas me senti aqui tocado pela sua carta, veja só, a segunda que recebo da senhora em tão pouco tempo. Há anos não recebia nada, como já disse, e pela segunda vez recebi seu envelope verde, o que provocou em mim uma reação bastante curiosa. E é a essa reação que se deve minha demora em respondê-la.

Ao receber seu envelope verde, senhora Helena, não senti medo. Não, desta vez não senti nenhum medo. Ao contrário, senti vontade de cantar. A senhora canta, senhora Helena? Eu não canto. Nunca. Sou incapaz de emitir um arrulho sequer, ou mesmo um som gutural, ou mesmo de movimentar os lábios para qualquer lado com a pretensão de que deles saia uma melodia. Uma vez minha mãe fez uma competição em casa, senhora Helena. Éramos cinco irmãos, eu o mais velho, depois duas meninas, depois outros dois meninos. A competição consistia em cada um cantar a melodia que mais lhe agradasse e, pelo voto direto de todos, o que melhor desempenhasse a função de rouxinol-mirim ganharia um mês de sorvetes e uma semana sem fazer as lições de casa, que seriam realizadas por minha mãe. Evidente que meu pai não imaginava nada disso. Na minha vez de cantar, senhora Helena, emudeci. Minha boca ficou presa na forma de um “o”, e era impossível movimentá-la. Passei três dias assim, senhora Helena. Uma paralisia, que gerou muitas visitas médicas, cerca de duas mil injeções de um líquido amarelo em minhas nádegas e o pânico eterno de cantar. Esse pânico ainda se tornou maior e se transformou em vergonha já que meus irmãos, depois do fatídico, para mim, concurso caseiro, formaram um grupo vocal, agraciado em Viena como a maior revelação da música erudita na Europa. Desde então, não canto.

Sua carta, então, me deu vontade cantar. Sentei na escada do meu edifício, senhora Helena, respirei fundo e, sem me dar conta do que fazia, era Charles Aznavour e cantava Que C´est Triste Venise. Cantei, senhora Helena! E os vizinhos abriram as portas, e mesmo assim eu não me sentia intimidado, e todos olhavam admirados, não sei se por alguma eventual qualidade musical ou pelo estranho fato de alguém como eu, segurando um envelope verde, cantar Que C´est Triste Venise, sentado na escada. Ao fim, senhora Helena, aplaudiam. Aplaudiam-me com fervor. E ouvi alguém gritar “bravo”, e alguém me jogou flores do último andar. Eu era Aznavour, senhora Helena. Eu cantei. E foi sua carta que me fez cantar. Mas fiquei sem entender porque Que C´est triste Venise. Nunca fui a Veneza. Mas subi, senhora Helena, em meio aos abraços efusivos dos vizinhos, e li sua carta, e agradeço por querer me ajudar a encontrar Beatriz. Não creio que isso seja possível. Reencontrar Beatriz. Mas decidi algo. Vou a Veneza, senhora Helena.

Há anos não saio deste cubículo em que vivo, nem desta cidade. Vou tomar um trem, porque não tenho pressa, as pessoas sempre têm muita pressa e eu não tenho nenhuma. Não admito viagens por avião. Toda viagem deveria ser por terra, para que se perceba o deslocamento do tempo. Enfim, vou a Veneza.

Se me permitir, enviarei nova carta. Não sei se lhe incomodarei.

Ia falando tanto de mim que quase me esqueço de algo que realmente me causou surpresa, até estranhamento. Senhora Helena, eu lhe afirmo que nunca, jamais, enviei uma carta sequer em envelope cor de vinho. Não sou afeito a esses caprichos, senhora Helena. Meus envelopes, digo novamente, são como eu: sem cor. São sempre brancos. Completamente brancos. Não creio que seja daltônica. Mas nunca utilizei envelopes cor de vinho. Não compreendo. Não compreendo porque me dizes que os meus envelopes são cor de vinho.

Outra coisa: surpreende-me também a qualidade de sua escrita em francês. Pude deduzir que é brasileira, mas que lindo seu modo de escrever em francês. Nem Blanchot o faria tão bem. Já viveu em França?

Um abraço,

H.