Victória Holanda
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Eólico, sopro e tornado

Era uma noite chuvosa de domingo quando fui assistir Eólico no Sobrado. Era também o último dia desta temporada. Lá fora, no bar, alguns amigos compartilhavam conversas e cafés. Lá dentro, algumas outras pessoas se acomodavam nas cadeiras de praia. Ninguém parecia se lembrar da chuva, principalmente os que assistiriam à performance – um projeto independente que propõe criações em dança e é idealizado por Samuel Alvis e Ireno Júnior.

Assisti à versão eólico solo (existe a versão eólico des-dobrado) com Samuel Alvis. Dá pra dizer que Eólico é muita coisa, mas quero dizer apenas que é daqueles trabalhos gostosos de assistir. É daqueles que dá vontade de dançar, daqueles que dá vontade de voar, daqueles que dá vontade de se deixar levar feito pena, daqueles que dá vontade de enfrentar junto, que nem quando a gente está na estrada, viajando de carro, e coloca a mão pra fora pra sentir o peso que o vento tem.

EÓLICO - SAMUEL ALVÍS, foto- Adriano Abreu (1)

Foto: Adriano Abreu

Eólico tem peso. É motor que acelera e desacelera; freia bruscamente, freia lentamente, que repete, que desiste, que persevera, se derrete e se reconstrói – dinâmicas que são de movimento, de dança, de vida. Eólico é também aquele sussurro bom ao pé do ouvido, que dá ventinho na barriga, é variação de Dom Quixote abanando a vontade de fazer, é brisa que refresca a nuca, que faz balançar a saia. É sopro, furacão e tornado. Quantos km/h?

Eólico é que aquilo que tá no corpo porque tá na gente. Tá na gente porque tá no corpo. É sopro que teima, fôlego que acaba, suspiro que se cansa, todos obstinados a transformar, mas se esvaziam. Não sem antes mudar alguns poucos papeizinhos pelo espaço cheio deles: trabalho de formiguinha. São hélices que podem espalhar sonhos e desejos, mas juntas, em movimento e atravessadas colidem, definem pausas, esgotam-se. E depois, começa tudo de novo numa trajetória circular interminável.

Que vontade de te ter, iphone

Eu estava nessas bads absurdas que acometem a gente num domingo, e eis que uma amiga ligou e disse: “tô passando, desce”. Eu botei um body – porque se você está em 2017 e não tem um body asseguradamente você não é ninguém – pintei a cara e me senti poderosa. Hashtag partiu balada.

qualsenha

 

3 mojitos depois eu estava na chuva, de calça branca, fazendo trenzinho ao som de Asa Branca. Ninguém sabe me dizer porquê. Alguém(eu) teve a ideia muito maravilhosa de tomar umas duas pingas pra espantar o frio (??) e eu achei coerente. A gente dançou, a gente riu, a gente se perdeu, alguns beijaram na boca. A gente voltou no carro cantando o hit do meu carnaval – clica aqui pra tu ficar por dentro e balançar a pélvis.

E a última coisa de que me lembro é da Siri falando comigo desesperadamente. Sim, eu vi aquela mancha enorme de água no meu iphone, mas eu achei que se ele dormisse no arroz tava tudo ok – no outro dia, nós dois acordaríamos lindos e secos e seríamos plenamente felizes, como sempre foi.

Não rolou. E diante daquela maçã insistente aparecendo e sumindo pra mim no visor, eu recorri a uma assistência técnica: não recomendo. Um lugar cheirando a aroma de difusor barato, onde eles te cobram 50 reais só pra abrir e dar um diagnóstico evasivo sobre teu celular. E os dois dias que eu passei esperando por isso foi pior que ter um parente na UTI. Juro pra vocês – e podem julgar – que eu fiz até promessa.

Ele não voltou. E não venha me recriminar se parece que estou falando de um iphone 7 plus, porque na verdade era um modelo 5c amarelo com uma lasca de queda no canto inferior esquerdo, vestígios de uma dona inegavelmente cuidadosa. Não me importa, eu amava ele. E de toda a sucessão de perdas que enfrentei nos últimos tempos, essa sem dúvida foi a mais cruel, estúpida e brutal de todas. Iphone, por que me abandonastes?

Me causa profundo estranhamento que ninguém tenha criado o guia de como viver sem celular na modernidade tardia. Eu estou ha 14 dias, 72 horas, 32 minutos e 22 segundos sem meu telefone móvel e, no momento, com crises controladas de abstinência das redes sociais. Se você me acompanha no Instagram, adianto que eu não te bloqueei. Eu apenas não tenho mais o aparato técnico necessário pra exibir felicidade na internet. Talvez também não tenha agora a felicidade, mas isso é um detalhe mínimo.

Meu deus, o Twitter. Quantas vezes não teria este app me livrado de tentar a morte? Devo a esta rede e a eficiente produção de memes de seus usuários todas as horas que passei gargalhando e livre de toda a angústia existencial. Esqueça os antidepressivos, faça imediatamente uma conta no Twitter, esse é meu conselho pra humanidade.

E aí que vai chegando o carnaval, né. E eu tô solteira sem 3g, sem Tinder, sem Whatsapp, sem poder postar nem um stories purpurinada nas mil e trezentas redes que agora aderiram a isso contra a nossa vontade. Eu nem tenho esperança de ainda saber usar esses aplicativos quando eu voltar pra esse universo – a mudança frequente exige constância, quem sou eu offline na fila do pão? Ignorando o fato de que, além de tudo, smartphones servem para fazer ligação, eu nem vou relatar o fato de que distribui uns currículos por aí e estava estranhando o fato de ninguém ter entrado em contato.

POR POMBO CORREIO, CARA PÁLIDA??

Então, se você é possivelmente um patrão, fala comigo no face ou manda um email.
Eu juro, eu tô super a fim.

 

UPDATE: Ninguém sabe mais o que é esperar 5 minutos sem posar pra uma selfie, tá dando aquela conferida rápida nas mensagens, ou vagar sem rumo pelo facebook. É completamente doentio. Ontem eu fui na casa de uma amiga sem avisar por whats e me senti um E.T. Falar nisso, onde vocês pagavam contas antes dos apps de banco? Existe um lugar pra isso? Dinheiro em papel, boleto? Sério?

Carnavais de Outrora

(I)

Ano passado, quem diria, ela quase partiu desta pra melhor. Segundo o médico que a atendeu, Cláudia escapou por graça divina. Agora estava ali toda faceira, com Jivago, curtindo a Banda Bandida, na 24 de janeiro, na maior animação do mundo. Nem parecia a mesma garota que, desiludida, indagou-me se o amor, esse sentimento enigmático, acabava depois de proporcionar, ao longo de três anos, momentos de pura leveza. Ainda mais, dizia magoada, sem dar nenhuma explicação para o fim do relacionamento entre os dois. Sem resposta, apenas disse que não tivesse pressa, aceitando a silenciosa companhia do tempo, senhor de tudo. Fui além, que não valia a pena tirar a vida por causa de homem, ser tão ignóbil. “Conheço a raça, faço parte dela”, expressei diante de seu olhar incrédulo. Ao apresentar-me o marido, que conhecera há seis meses, encarnava uma foliã alegre como nenhuma outra no pedaço.

(II)

Criança ainda, eu já gostava de carnaval. Não perdia um ano sequer, na Frei Serafim, o desfile das escolas de samba. Para mim, tudo aquilo era mágico e sinônimo de alegria. Meu coração disparava a cada escola que entrava na avenida, com seus componentes sambando freneticamente, sob o irresistível ritmo da bateria. Mas, entre os milhares de foliões, inconfundível no meio deles, um merecia toda a minha atenção. Era a Nicinha, a carnavalesca mais animada que já encontrei na vida. Sem pertencer a nenhuma escola, ela despontava como autêntica porta-bandeira de todas. Tudo nela me fascinava, dos óculos fundo de garrafa até a pequena estatura. Sem falar também de sua zanga, quando caçavam conversa com ela, chamando-a de “doida”. Anos depois, para minha tristeza, soube que a tinham matado, os tidos como “normais”, com requintes de crueldade. O carnaval de Teresina, daí em diante, nunca mais foi o mesmo.

(III)

Naquele distante ano de 1980, eu ainda era virgem. Aos dezoito anos, podem não acreditar, desconhecia os remelexos das ancas. O danado do medo paralisava meus desejos, sem falar do angustiante sentimento de culpa, que me torturava até dormindo. Sexo para as mulheres, ensinavam os lá de casa, somente depois do casamento. Mas, entre os costumes e os apelos da carne, havia um carnaval, melhor dizendo, uma prévia carnavalesca, daquelas que são fatais, especialmente para as que andam a perigo. As preliminares começaram no salão do Iate, com troca de carícias e beijos, nós dois engolidos pela massa de foliões; os finalmente, concluídos no aconchego de um fusca, no estacionamento do clube, as modinhas abafadas pelos gemidos de um casal de mascarados. Boba na época, entreguei-me de graça, nunca imaginaria que um simples hímen, algum tempo depois, valeria milhões de dólares.

(IV)

Hoje todos me responsabilizam por algo que não tive culpa. Pelo menos, sozinha. Mas de nada adianta explicar. A megera é sempre, nesses casos, a mulher. De dedo em riste, quase triscando no meu nariz, as irascíveis bocas vociferam palavrões impublicáveis. Até dos próprios familiares, inclusive meus pais, não escapei do linchamento público. Como se fosse a única mulher casada a deixar o marido, após o carnaval, para ficar com um homem que acabara de conhecer. Mal sabem que a ideia partiu do Rogério, e não de mim. Ao chegarmos a Salvador, ainda na sexta-feira, ele foi taxativo: “aqui, longe do olhar da província, cada um toma seu rumo, voltamos a nos encontrar somente no aeroporto.” No dia combinado não apareci, apenas liguei, informando-o que ficaria por ali mesmo, nos braços do meu novo e, quem sabe, eterno amor. Que mulher resiste, por mais santa que seja, a um negão lindo e de olhar faceiro?

 

Autobiografia não autorizada de Maria Quem

Minha mãe, que chamava Edilene e era puta, chegou na Passarinha aos quinze. Olho roxo, trouxa nas costas, sandália havaiana e arrastando um farrapo que, dizia Meire Elen, a dona da Passarinha, era o que sobrava da vida dela. Um farrapo cor de rosa, manchado de azul e com cheiro de naftalina. Meu avô, pai da minha mãe, era crente da boca pra fora e filho da puta igualzinho ao meu pai da boca pra dentro. Ele descobriu que ela perdeu o cabaço e meteu a mão na cara dela, o pé na bunda dela e a boca no mundo, gritando da janela pro bairro inteiro ouvir “essa cadela é uma ímpia e só faço a vontade do Senhor: se queres cair na vida, que a vida caia sobre Vós”. Meu avô, pai da minha mãe, inventava coisas e dizia que elas estavam na Bíblia, só que ninguém nunca achava. E era tão filho da puta, tem dias que penso até que mais filho da puta que meu pai, que quem contou pra ele que minha mãe tinha perdido o cabaço foi a Gorete. Gorete era casada com o Gonçalo do Peixe, mas tinha um caso com meu avô, o pai da minha mãe. E quem comeu minha mãe foi o marido dela, o Gonçalo, e ela, pra se vingar, contou pra ele, meu avô, que primeiro quis matar o Gonçalo mas lembrou que o Gonçalo já tinha puxado cana por ter matado um outro amante da Gorete e preferiu descontar na minha mãe. Meu avô, além de crente da boca pra fora e filho da puta da boca pra dentro, era covarde. Mas minha mãe não. Minha mãe tinha coragem. E se era pra sair pra vida, ela saiu. Minha mãe, que chamava Edilene e era puta, chegou na Passarinha. Aos quinze. Olho roxo. Trouxa nas costas. Sandália havaiana. E arrastando um farrapo. Que, pensando bem, Meire Elen tinha razão: o farrapo era o que sobrava da vida dela. Um farrapo cor de rosa, manchado de azul e com cheiro de naftalina.

Bendito Chuvaceiro

Chico César - Estado de PoesiaEm dias de chuva, como esses ultimamente, bate uma malemolência gostosa, daquelas de não querer sair de casa, corpo estirado numa boa rede, coberto por lençol quentinho, esquecido do mundo lá fora, ouvindo a bela sinfonia das águas se esparramando pelo chão, o cheiro da terra exalando vida que desabrocha das árvores, um friozinho espantando pra longe o calorzão de Teresina, nem que por um final de semana apenas, fazendo a gente se sentir do Sul, das bandas de Sampa ou Curitiba, tomando uma cachaça Lira pra aquecer o peito, embora prefira, eu que não bebo, um chocolate quentinho com bolo de rosca, feito por dona Raimunda, minha mãe de 92 anos, que faz bolo delicioso como ninguém, e botando pra escutar, feliz da vida, o novo CD de Chico César, Estado de Poesia, esse trovador paraibano que toca fundo, com suas músicas lindíssimas, nossa alma sedenta de amores, tanto as de hoje quanto as de outrora, sentimento mágico que, ao surgir ou desaparecer, deixa cicatrizes indeléveis em nossa pele, a gente não sendo, nunca mais, mesmo querendo, a pessoa segura que fomos um dia, sem falar da grande emoção ao constatar que ele, o autor de Mama África, incluiu nesse biscoito fino, assunte bem, uma letra estupenda de nosso “Anjo torto”,  a instigante Quero Viver, na qual Torquato Neto expressa, de forma cristalina e direta, que devemos “cuidar da vida / já que a morte está parida”, repetindo outra vez, a fim de não esquecermos, que “a morte não é vingança / beija e balança”, e fecha o repertório, como artista engajado nas lutas de sua época, criticando duramente os Reis do Agronegócio, “produtores de alimento com veneno”, latifundiários desalmados, obcecados em algarismar os amanhãs, que desmatam e poluem o meio ambiente todo santo dia, sem que nada, O encontro marcadoabsolutamente nada, proíba sua ganância mórbida, tampouco sejam punidos pelo crime praticado, dentro e fora do Brasil, contra milhões de pessoas indefesas, tudo isso digerido e assimilado, no aconchego da rede, enquanto relia, maravilhado, depois de vários anos, um romance dos mais arretados, OEncontro Marcado, saído da mão talentosa de Fernando Sabino, autor mineiro que encanta seus leitores, hoje mais do que nunca,  tanto pelos temas abordados como pela escrita envolvente, de fácil compreensão, a nos restituir o sossego, embora duvide disso, somente ao concluirmos a leitura da narrativa, livro de quase 400 páginas, edição Record, história dramática de uma geração de jovens, numa Belo Horizonte ainda provinciana, em busca de respostas para inquietações existenciais típicas da idade, dificilmente respondidas até na fase adulta, com a vivência dos anos, tampouco encontradas em livros e bebedeiras homéricas, até porque, basta lembrar outro mineiro dos bons, um tal de Guimarães Rosa, sábio por natureza, que dizia, e não pedia segredo a ninguém, que “viver é negócio muito perigoso…  Por que aprender a viver é que é o viver… Travessia perigosa, mas é a da vida”, pena Eduardo Marciano (alter ego de Sabino) e seus amigos Mauro (Hélio Pellegrino) e Hugo (Otto Lara Resende) tenham sofrido bastante para compreender tirada filosófica tão didática e atual, essa travessia penosa que tento superar curtindo, agasalhado numa rede macia, esse chuvaceiro que cai sobre a nossa querida Chapada do Corisco. Nonada!