Luana Sena
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O que aprendi com Duda Beat

Não é bitch de piranha, nem é beach de praia.

Duda Beat é meu crush pesadíssimo já tem um tempo e eu precisava escrever sobre ela <3

A primeira música que ouvi, como a maioria dos fãs, foi “Bixinho” – e foi só a porta de entrada para drogas mais pesadas como “Back to bad“, “Bédi beat” e “Todo carinho“. Eu fiquei completamente arrebata pelo som dessa pernambucana de sotaque sexy e que dizia tanta coisa que eu precisava ouvir.

Sinto muito” é o primeiro álbum dela, que já surge nessa onda do do it yourself e do streaming – mesmo assim, a era do consumo segmentado e totalmente sob demanda não tirou a maravilhosidade do que é fazer um disco – “Sinto muito” é uma narrativa, com começo, meio e fim, que faz sentido escutado em fragmentos mas fica muito mais bonito se seguindo a sua lógica.

 

Naturalmente a gente é levado a pensar nas inspirações – que doído ter vivido tudo isso e transformado em música. Apesar disso eu não curto a mania da imprensa de pôr rótulos: “novo indie da sofrência”. Ok que tem mais de uma entrevista da Duda confessando ter feito “Sinto muito” para três ex-boys que passaram pela sua vida – mas colocar tudo o que ela é nesse neologismo me soa reducionista, principalmente no sentido que temos dado a esse termo, o de sofrer por algo ou alguém. “Sinto muito” é um pedido de desculpa de Duda para alguém super importante que passou por sua vida: ela mesma.

Começa com a tomada de consciência dançante, pra cima: “eu vivia a flor da pele e nem percebia”; passa pelo desapego (o hit “bixinho”) e na insistência por se reconectar com o passado (“foi lá que a gente se conheceu”), até a lição ressentida (“eu aprendi a ser egoísta com você”, na faixa que contém o verso que dá nome ao disco) que muitas vezes é nada mais do que a compreensão daquilo que, bem lá no fundo, a gente já sabia mas nunca percebeu. A penúltima música, “Bolo de rolo” – isso mesmo, o rocambole de goiaba do Pernambuco é a cereja do bolo, tão gostosa e acolhedora como receita de mãe: “Eu não vou buscar a felicidade em mais ninguém”. Aqui em casa esse mantra foi pra minha placa de padoca, pro caderno, pros post it na parede e se for preciso vamos tatuar na testa também.

A reflexão mais bonita de todas, para mim, vem na canção que fecha o álbum: “Todo carinho”. “Eu sou de um outro tempo, amor que é pra sempre”. Bicha, eu te entendo demais. Essa música é a cara da ressaca pós-festa, aquela que você acorda tendo flashes da noite increveland e louca e é acometido por toda a solidão do mundo. Perdido na imensidão de um quarto escuro você se pergunta de que serviu tanta euforia, tanto amor infinito com hora certa para acabar e desencana de encontrar alguém que um dia corresponda a seus sentimentos, porque, afinal, “todo carinho do mundo para mim é pouco” – a linha entre a autovalorização e a extrema exigência é muito tênue e a bad bate louca, segura forte a tua mão.

Depois de me abraçar com cada uma das canções de Duda lentamente, eu passei a seguir seus passos no Instagram, em busca das datas de shows – do próximo ano não passa ver essa mulher no palco, já botei como meta pra 2019. Ai eis que a bonita, além de bonita, é cientista política e postou váaaarios #elenão na época das eleições (fez até paródia e tudo). “Meu assessor falou que não era muito inteligente eu me posicionar, mas eu pensei: será se eu quero mesmo esse público que curte uma extrema direita?”. Eu amo uma mulher sem amarras.

 

A Duda é linda, me ensinou um novo jeito de cantar e de sentir, e mais que isso, tem me ensinado muito sobre autoconfiança, amor próprio e superação. “Eu já esperava esse sucesso sim, porque eu trabalhei muito em cada detalhe”, diz na maior franqueza do mundo e eu do outro lado da tela tenho vontade de abraça-la porque se tem uma coisa que abominamos juntas é a falsa modéstia. Vejo bastante verdade em seu posicionamento político, artístico e feminino, como sujeito que sabe que é inútil achar possível se desligar desses papeis.

Duda passou sete anos tentando cursar medicina, queria ser anestesista para curar as pessoas sem que elas sentissem dor. É curioso porque ela conseguiu atingir o objetivo, só mudou os instrumentos – trocou as seringas pelos beats e acertou a batida que vai certeira no meu coração.

Para de vacilar e vai ouvir essa mulher, pra ontem!

No spotify
No youtube
No deezer

P.s: eu esqueci de comentar que esse “Sinto muito” tá entre os 25 melhores discos brasileiros do segundo semestre de 2018, segundo a APCA, que Duda vai tá no Lolla do próximo ano e que o produtor do disco é namorado dela (essa história é fofa e é totalmente a parte, rysos).

 

 

O desafio de escrever sobre qualquer coisa

Jeany da Conceição de Maria Rodrigues

Ao ser desafiada a escrever algo para a revista indaguei sobre o que escrever e tive como resposta que estaria livre para escrever sobre “qualquer coisa”, temas que fossem para mim relevantes.
Refletindo um pouco mais sobre o que seria qualquer coisa, percebi que qualquer coisa é muita coisa. Será que posso mesmo falar sobre qualquer coisa? Em caso afirmativo, ate quando terei esse direito respeitado?
Quando um dia pensei em me graduar em História, nunca imaginei que chegaria o momento que faria parte efetiva do processo histórico, tal qual li nos livros e assisti nos filmes. O que vinha na mente é que aqueles assuntos já estariam todos bem resolvidos. A História se encarregou de passar tudo a limpo.
No entanto, o que sinto no presente é um profundo receio de não poder mais falar sobre qualquer coisa. Ter a voz silenciada que nem muitos tiveram ao longo dos séculos. Ao mesmo tempo sei que tantos outros nunca tiveram a oportunidade de mostrar sua verdade.
Como historiadora é muito desesperador ser convidada a silenciar. O ofício do historiador se baseia em dar voz aqueles que nunca tiveram vez. Resgatar aquilo que ficou escondido, que foi impedido de se manifestar.
A quem interessa não podermos falar sobre qualquer coisa? E por que falar sobre qualquer coisa é assim tão grave? Do que devemos nos esconder? Quem determina o que é qualquer coisa?
Em qual esquina da História nos perdemos a ponto de não podermos ser quem somos? Quem se apropriou do discurso e impediu que a minoria que é maioria, dele não fizesse parte? São muitos questionamentos. Para alguns há respostas, para outros há apenas mais dúvidas.
O fato é que no dia de hoje muitas coisas parecem fazer total sentido. Para que a História possa seguir seu curso é necessário que aprendamos com ela que determinados fatos precisam ser escancarados, enfrentados, desnudados, dissecados a ponto de não restar mais nada incompreendido.
Não precisaríamos passar por esse momento se conhecêssemos e aceitássemos nosso passado de forma a reparar alguns erros, mas uma vez que ele se descortina à nossa frente é importante entender que muitos dos direitos conquistados, não estão de fato garantidos, é preciso estar vigilantes a ponto de não permitir que a História nos torne a cobrar por um passado mal resolvido.
Só quando um direito, que normalmente, não foi por nós conquistado se encontra ameaçado, é que nos damos conta que qualquer coisa é sim, muita coisa.

 

Paixão pelo mar

 

Estivemos na bela cidade de Parnaíba num desses finais de semana. O passeio não poderia ter sido melhor. Ainda mais acompanhado de duas pessoas queridíssimas: Ceiça, irmã mais velha, e dona Raimunda, nossa mãe, que fez 94 anos neste mês de setembro. De certa maneira, foi nosso presente de aniversário à matriarca, cumprindo uma antiga promessa de levá-la outra vez ao litoral. Nada comparável a um banho de mar. Parece que todo aquele mundão de água salgada e azul, sem falar da brisa que acaricia o corpo, lava de vez as impurezas da gente. Ali, nas praias de Luís Correia, não vi ninguém triste nem deprimido. Ao contrário, imperava nas pessoas, sobretudo em dona Raimunda, apenas o sentimento de alegria. De todas, sem dúvida, as crianças eram as mais felizes, dado a estreita relação que mantêm com o mar, abraço afetuoso trocado entre velhos amigos.

Durante três inesquecíveis dias, pudemos matar saudade dos encantos do nosso litoral, a começar pelo Coqueiro, praia belíssima e onde comemos peixes deliciosos no Restaurante Dona Maria, tendo como sobremesa cocadas daquelas de nos tirar o fôlego, de tão gostosas. Em Macapá, o prazer foi deitar numa rede e descansar a vista diante de tanta beleza, reafirmando em nós a convicção de que Deus não só é piauiense como tem moradia naquelas praias. À tardinha, de volta ao Hotel Cívico, demos um pulo na sorveteria Araújo a fim de provar de uma variedade incrível de sabores: cajá, bacuri, castanha, morango, açaí, tapioca e coco, cada um mais apetitoso que o outro. Sendo o de abacate, de longe, o meu preferido. Programa sem o qual, costumo dizer, a viagem fica incompleta.

Misto de prazer e conhecimento foi nossa viagem ao Delta do Parnaíba, desde o nome do barco (MANDU LADINO) até o didatismo do guia turístico, explicando tudo nos mínimos detalhes. Passando pelas Ilhas Canárias, onde na volta almoçamos, ele falou dos “homens-peixes” ou “pé-de-pato”, como ficaram conhecidos os índios Tremembés. Nos manguezais, além de informados da retirada diária de 2.500 cordas de caranguejos, exportadas para Fortaleza, fomos apresentados a um deles pelo barqueiro,  que recebeu merecidos aplausos. Aquele cenário paradisíaco despertou em mim, mesmo não sendo cineasta, uma vontade enorme de produzir um filme de aventura nos moldes de 007, com muitas perseguições arriscadas e mulheres bonitas.

Em Atalaia, praia onde começavam e terminavam nossos dias, o barato era entrar no mar e banhar até se fartar, de tão mansas e convidativas suas águas. Depois, uma boa caminhada pela areia, exercitando o corpo e respirando o ar puríssimo da brisa. Dona Raimunda parecia uma criança de tão feliz, banhando sem parar e esquecida do horário de almoço, que fizemos na Barraca Carlitus, saboreando uma deliciosa peixada amarela. Relembrando os bons momentos de 2016, mamãe foi logo nos avisando antecipadamente que diante do calor de Teresina, cada dia mais insuportável, quer passar o Réveillon deste ano em Luís Correia. Fora esse argumento, o que pesa mesmo, não tenho dúvida, é a sua grande paixão pelo mar: “Quero ser feliz/ Nas ondas do mar/ Quero esquecer tudo/ Quero descansar”, como diria o inesquecível Manuel Bandeira. Cumpramos sua vontade, então.

Conto é faísca

 

Dentre as facetas do gênero narrativo, que são muitas e variadas, tenho uma predileção pelo conto. Texto centrado na linguagem e, só depois, no enredo, sob o risco de descambar para o simples causo. De preferência, com apenas um núcleo temático e poucos personagens vivenciando a trama. História que termina mal começa, cujo objetivo nunca é amarrar as coisas direitinho, de ponta a ponta, mas deixar em aberto a fim de proporcionar ao leitor a indescritível viagem pelas entrelinhas. Embora assuma tamanhos distintos, prefiro os curtinhos, dentro da filosofia do Velho Graça: “escrever é a arte de podar”. Abaixo seguem, para deleite do leitor, contos extraídos de Linguagem dos sentidos, meu livro de estreia lançado em 1991.

 

CERCA DE COBIÇA

Ele gostava muito de se gabar pelo fato de ser o maior proprietário de terras da região. Eram tantas afinal, que a vista perdia-se na amplidão dos hectares, sendo necessário o auxílio de avião para percorrer tudo aquilo. Bastava ouvir falar que havia camponês apertado, tratava de mandar alguém levar-lhe uma navalha. Outras vezes, apoderava-se das terras devolutas do Estado, sob o silêncio cúmplice das autoridades. Tão logo fechava o negócio, cercava tudo de arame farpado, cobiça e mesquinhez. Quando morreu, precisou apenas de alguns palmos de chão. Nada mais.

 

QUINZE ANOS SOBRE A MESA

Para ele, a presença de uma pessoa tão importante, como o senhor Manfredi, em sua casa, era motivo de orgulho e grande satisfação. Afinal, tratava-se de um empresário bem sucedido na cidade e, é claro, um ótimo partido para qualquer família. Querendo agradar o ilustre visitante, serviu-lhe uma dose de bom uísque escocês. Depois, mandou pôr o jantar, preparado especialmente para a ocasião. E, por último, ofereceu a filha de quinze anos como sobremesa.

 

CICATRIZES DA BELEZA

Tenho uma filha com cicatrizes horríveis no rosto. A navalha cortou fundo sua tez morena. Ela explicou que fez isso porque os homens só viam nela apenas a beleza física, ignorando sua beleza interior, mais importante segundo sua opinião. Mas agora, quando homem nenhum lhe dirige sequer um olhar, ela fica triste, num choro extremamente penoso. Eu, como pai, estou com as mãos completamente atadas, pois não sei como proceder para acalmar o sofrimento de minha filha. Afinal, o que se faz quando se tem uma filha com extraordinária beleza interior e nenhum homem é capaz de perceber isso?

 

TESÃO NA GELADEIRA

Ao chegar em casa, depois de um dia de cão, não encontrou, como de costume, a mesa posta, o banho morno, as sandálias no lugar e o “oi” correspondido. Apenas um bilhete seco, sobre a cama, vazado em tom de amargura e adeus. “Epitácio, parto como cheguei, com a roupa do corpo. Você não queria uma mulher, e sim uma xoxota, que te deixo embrulhada na geladeira”.

 

GESTO INÚTIL

O homem passou a vida inteira tentando convencer as pessoas da grandeza de seus gestos e da altivez de seu espírito. Como demorava a conseguir isso, foi tornando-se calado e de expressão triste. No final, frustradas todas as tentativas, recorreu ao suicídio, como último recado aos amigos e desafetos. O gesto tresloucado, porém, não foi capaz de sensibilizar ninguém, deixando apenas dúvidas e perplexidades em todos. Mas agora é tarde, o homem já não pode tentar nada mais convincente.

 

MÚTUO SILÊNCIO

Um relacionamento marcado pelo silêncio, mesmo quando saíam para passear ou quando recebiam visitas em casa. Não aquele silêncio enunciador de coisas e de sentimentos, mas que causa mal-estar e constrangimento, como se todas as palavras já tivessem sido ditas. Resolveram, em comum acordo, trocar a comodidade do lar pelos sobressaltos do inesperado.

Seleta erótica

Em 2008 lançávamos, eu e Feliciano Bezerra, Estas flores de lascivo arabesco, antologia erótica reunindo dez poetas piauienses, cada um entrando com quatro textos bem sacanas, no bom sentido do termo. Um livreto com temática inédita na literatura local, daí a repercussão na época e a importância histórica que passou a ter a partir de então, hoje considerado cult por muita gente. Com projeto gráfico modesto, assinado pelo Master P (Júnior Medeiros), e capa ilustrada pelo talento de Evaldo Oliveira, a obra teve uma tiragem pequeníssima, coisa de 500 exemplares, tendo esgotado rapidamente. De um verso de Carlos Drummond, nosso poeta maior, nasceu o sugestivo título do livro, composto de 75 páginas curtas. Com estilos e abordagem distinta, eis aqui os autores envolvidos nesse bacanal lítero-sexual: Adriano Lobão, Chico Castro, Durvalino Couto, Élio Ferreira, Emerson Araújo, Keula Araújo, Laerte Magalhães, Marleide Lins, Nílson Ferreira e Salgado Maranhão.

Na apresentação do livrinho, o professor Feliciano Bezerra (Fifi) dizia que “em Estas flores de lascivo arabesco, as dicções encontradas, os cânticos de prazer, o libidinoso léxico, dão mostras da agudeza de construção na obra desses dez poetas apresentados. Não há necessidade aqui de auferirmos créditos à falsa dissociação que certa recepção preconceituosa faz entre erotismo e pornografia. O que importa nesta seleta poética é o uso do erotismo em forma de linguagem, e não pudores moralistas ou sexualidades culposas. A proposta é de um erotismo despojado, como, por exemplo, Durvalino Couto apresenta no soneto Bocage: Fodo o cuzinho logo após o talho./E se no escuro a buça inda revisto,/Mais que remonta o peso do caralho. Ou como a poeta Marleide Lins transforma o prazeroso felatio no elegante poema: Falo/ versus/ língua// Pinga orvalho/ e orgasmo/ finda.”

Enquanto eu, na abertura, enfatizava que “Por acharmos que a faceta erótica (ou pornográfica?) é tão importante como as demais, desde que os poemas sejam bem construídos do ponto de vista da linguagem e da sensibilidade do escritor, resolvemos juntar, nesta modesta antologia, dez de nossas mais talentosas vozes poéticas e contemporâneas. Todas pertencentes a uma geração de cabeça mais arejada e que não sente vergonha de expressar suas vivências e fantasias sexuais. Oxalá que permaneçam assim. E que você, caro leitor, ao invés de ficar ruborizado, sinta o bendito prazer de degustar cada uma dessas 48 apetitosas maçãs, cujo sabor afrodisíaco somente os desprovidos de tabus e moralismos são capazes de experimentar e, em seguida, gozar desvairadamente. Vamos, portanto, nos deliciar com Estas flores de lascivo arabesco.”

 

Dou-te meu cravo, Safo
se de ti me deres o vaso
onde tua forma lúcida
esplêndida pisa os astros
na pele de minha túnica
em ânsia e canto lasso
que na ponta de meu mastro
tua nua pele úmida
tome posse de terra tua

                         (Adriano Lobão)

 

Lavada

de ontem à noite
não ficou nada

só esse meu riso
escárnio

saciada e vitoriosa

         (Keula Araújo)

 

Língua solta

Se pela língua falada
pouco ou nada
digo a você,

deixe que
a minha língua carnuda,
úmida e muda,
lhe fale de prazer.

          (Laerte Magalhães)

 

Natureza viva

Nossos corpos nus
abandonados
na grama.

Um beijo antes,
um toque de após,

Até o girassol
ficar de quatro
sobre nós.

       (Chico Castro)

 

Triunfante

As pernas, em cruz,
e o frêmito animal vão servindo de
amém.

Novamente,
o invasor – exaurido –
sucumbe após o embate.
e a paz toma conta de nós…

                 (Nílson Ferreira)

 

Fetiche

Tal como os dendritos surgem
da pedra, nessa penugem

que o sol doura em tuas coxas
há um quê de pluma e rochas

e muito mais que isso, apelos
já que nuvens de pentelhos

desabrocham. São preâmbulos
ao vértice do triângulo.

sobra um halo de fetiche
que da selva de azeviche

flui – um pouco mais em cima –
onde jorra o mel da mina.

(Salgado Maranhão)

 

(I)

Língua gêmea
onda que se aveluda
invade a fremir a senda

trazendo o que extrai da gruta
sente o sêmen da concavidade fêmea
e serve-se no convexo da fruta

               (Marleide Lins)

 

Poesia, poesia

Poesia, poesia
às vezes me acordas
de madrugada,
e te deitas ao meu lado,
na minha cama,
completamente nua,
serpenteando no meu corpo
como se tu fosses uma fêmea no cio,
exalando o cheiro alucinante
da tua vagina.

Poesia, poesia

cavalgas como uma amazonas,
a galope
sobre meus pelos, a galope
sobre minhas ilhargas.
penetro os lábios úmidos
da tua vagina
e tua beatificas meu pênis rijo
com palavras e gritos abafados
na hora do gol.

Adormeces, o rosto sobre meu peito,
meu coração amanhece o dia,
canto uma poesia de passarinho.

                       (Élio Ferreira)

 

Alegorias e maçãs II

A delícia das mãos sobre o caule da tarde
Mexe com todos os suores
Num vai e vem de boca
Mel na tarde derramado em seios
Neste uivo de loba
Orquestração de gritinhos e dores.

                  (Emerson Araújo)

 

Cocaína

é bem verdade que a cocaína
inibe os homens e excita as mulheres
então cheira mais essa
e vem pra cama comigo se quiseres
vamos nessa
antes que meu pau vire halteres
é melhor amar uma linda menina
dar outro ofício pras narinas
que ficar esquentando essas colheres

               (Durvalino Couto)