Por José Vanderlei Carneiro

“O prazer do texto é esse momento em que meu corpo

vai seguir suas próprias ideias – pois meu corpo não tem

as mesmas ideias que eu.” – Roland Barthes.

O que me faz sentir? Uma narração, uma descrição, … uma poética? Uma percepção antropológica do feminino? Uma didática biocêntrica de ensino? Ou simplesmente um texto, uma toalha, uma tela, um tecido para a mesa do jantar, uma renda sobre o altar, uma peça de pano para acariciar os corpos, … um toque pequeno de sensibilidade no ritual único dos humanos que é o Encontro; um instante em que posso soltar meu grito em silêncio: eu estou aqui!

Para sentir é preciso mobilizar os sonhos, os desejos, as feridas, os traumas, as histórias de vida. Sem encantamento e sem angústia profunda não teremos acesso ao transcendente. Eu posso! Eu sinto!

Eu que não sou afeito a nenhuma filiação ideológica, escola filosófica, movimento literário, corrente de pensamento erudito… mergulho por deleite nas entranhas do texto, do toile. Deixo-me embriagar pela sua boniteza móvel, lisa, leve, delicada, receptiva, acolhedora; fios mágicos, tímidos, férteis, dançantes; provocando os corpos a feitiçarias, pois educa o olhar, afaga a alma, desperta o físico ao que pensar; tudo simbólico, real, existencial… Eu existo!

Parafraseando o filósofo, a toalha nos dá o que falar. A fala surge da provocação do sentir, do caminho, do diálogo, da vida, das narrativas sobre a vida ou a vida que é exatamente o que narramos. Isso é precisamente uma dialética do amor. “Necessitamos de um ato mágico, de um exorcismo”, de uma experiência de amor, de um movimento de tornar-se e de aprender-se a ser o que somos. Somos capazes de nos abrir ao inesperado, de gostar de aprender, de gostar de ter prazer em ensinar, de gostar de amar o conhecimento… toda razão só deve ser levada a sério se estiver molhada de prazer. Para sentir é preciso mobilizar os sonhos, os desejos, as feridas, os traumas, as histórias de vida. Sem encantamento e sem angústia profunda não teremos acesso ao transcendente. Eu posso! Eu sinto!

Estou necessitado de arte. Arte de ver e de perceber a beleza na simplicidade das coisas, nas surpresas do cotidiano, nos incômodos da realidade, nas relações e nas miopias dos sistemas de controle dos sentidos.

Estou necessitado de arte. Arte de ver e de perceber a beleza na simplicidade das coisas, nas surpresas do cotidiano, nos incômodos da realidade, nas relações e nas miopias dos sistemas de controle dos sentidos. Preciso ver os sentidos nas curvas dos voos da vida e dos livros: “Olhar para além da superfície com olhar de fazer amor com o mundo”. Mas também arte de ouvir: “saber ouvir é a arte de saber fazer silêncio”, de “acordar os ouvidos…”, “de escutar os sons do mundo, os sons da alma”. Preciso de uma escuta sensível que rompe com toda e qualquer metodologia anti-humanista, pois abre-se a roda para compartilhar os saberes diversos, falas de lugares diferentes, de pessoas com marcas simbólicas salientes e com propósitos múltiplos.

Ver e ouvir textos, tecidos, são formas poéticas de evoluir o conhecimento como música e dança, como leitura e aprendizagem que se traduzem como ato político e consciência humanizada. Sou pertencente originariamente do “líquido amniótico” e depois das formações cósmicas (natureza, espécies, seres outros) e ainda pertencente ao outro e outro.

Também arte de ouvir: “saber ouvir é a arte de saber fazer silêncio”, de “acordar os ouvidos…”, “de escutar os sons do mundo, os sons da alma”. Preciso de uma escuta sensível que rompe com toda e qualquer metodologia anti-humanista.

Com efeito, a toalha de Tereza me conduz para uma elaboração dos nossos afetos, dos nossos vínculos originários: o cuidado, o respeito e a presença amorosa – vínculos universais. Preciso acordar deste sono e despertar os sonhos que fortalecem os nossos laços inspiradores da convivência: a justiça e a paz. Pois, como escreve Leonardo Boff, existe “Brasas sob cinzas”. O exercício que me resta é soprar o tempo, suavemente, para desvendar a beleza da vida. Do ventre eu sou, assim, minha tarefa é deixar que a pulsão da vida me provoque a imaginação. “… Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas. Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza, um mundo livre aos poemas”.

Em suma, estou pronto para começar este texto: no primeiro dia ela chega com um sorriso espontâneo, com uma tolha litúrgica e um jarro de flores, prepara a sala, coloca um livro sobre a mesa, que não abre, não neste dia, e nos convida ao Encontro…

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José Vanderlei Carneiro é doutor em Linguística pela Universidade Federal do Ceará – UFC e tem pós-doutorado em Filosofia pela Universidade do Vale dos Sinos – UNISINOS. É professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Piauí (PPGFIL/UFPI).