Desde que me entendo como gente, as coisas acontecem exatamente assim: sai ano, entra ano, e a vida a nos surpreender sempre. Espetáculo para ser não só assistido como, sobretudo, vivenciado com paixão e destemor. Alguns anos, sabemos todos, passam quase despercebidos, varridos que foram para um cantinho da memória. Outros, ao contrário, são guardados com muito carinho do lado esquerdo do peito, uma vez que encerram fatos e lembranças tatuados até hoje em nossa pele. Mas existem também, acreditem, os anos que teimam em sobreviver, dado os paradigmas que abraçaram em tão curta existência. É o caso, por exemplo, de 1968, ano que simboliza o melhor das pessoas – o inconformismo diante do mundo injusto e careta de todas as épocas.
Tanto lá fora quanto no Brasil, o bicho literalmente pegou, com a rapaziada tentando tomar a liberdade em suas próprias mãos e despachar de vez todas as formas de opressão. Em Paris, o lema adotado pelos jovens nas manifestações estudantis não poderia ser mais emblemático: “É proibido proibir”, com a pluralidade de sentidos que a expressão conota. No Brasil, em plena ditadura militar do AI-5, o refrão entoado era de Caminhando, música censurada de Geraldo Vandré, tida por alguns como a nossa Marselhesa: “Quem sabe faz a hora, / não espera acontecer”. Em ambos os casos, a estudantada teve que enfrentar a fúria e o autoritarismo da polícia, com seus cães e bombas de gás (Polícia é polícia, / é qualquer canto, parafraseando aqui os Titãs), mas sem arredar pé de suas utopias e desejos. Flores no lugar de canhões, era a troca empunhada por esses garotos nas passeatas mundo afora.
No aspecto cultural, tivemos importantes contribuições através do movimento hippie, nos Estados Unidos, que ousou falar de paz e amor em plena guerra do Vietnã, substituindo as armas por letras bem humoradas e críticas; os campos de batalha, por festivais de rock; a carnificina ideológica e física, por um encontro festivo entre irmãos. No Brasil, um poeta desfolhava a bandeira e o movimento tropicalista surgia. Criativo, polêmico e abusado, na grande geleia geral que Pindorama havia se transformado. Torquato Neto e seus amigos baianos – Caetano veloso, Gilberto Gil e Tom Zé – tiveram a coração de desafinar o coro dos “contentes”, daqueles que estão presos ao passado ou tentam algarismar o futuro. Sem falar também dos instigantes filmes de Jean-Luc Godard (A chinesa) e Gláuber Rocha (Deus e o diabo na terra do sol), cineastas que nos apontaram uma outra maneira de olhar a “sétima arte”, mais fascinante e reveladora.
Além da rebeldia, da contestação,da militância política e das viagens através das drogas, 68 representou um avanço na sexualidade das pessoas. Longe dos sentimentos de pecado, tão difundidos pelas religiões, o sexo passava agora a ser desfrutado como sinônimo de prazer e bem-estar. Melhor ainda, sem o perigo de gravidez indesejada, graças às pílulas anticoncepcionais. De tudo o que herdamos desse período, aponto como mais significativos o despojamento das roupas, a alegria de viver, o êxtase em sonhar e produzir, o senso de justiça e, principalmente, a vontade de mudar as coisas. Mesmo quando não conseguimos, nada se compara a sensação da tentativa. Imperdoável é não fazer por onde ou achar que este mundo sempre foi assim: imprestável e absurdo. O espírito de 68 somente vale a pena – descontados os exageros e os equívocos – se for reinventado. Resta saber se a juventude de nossos dias tem disposição e tutano para tanto.

Um dos líderes do movimento que revolucionou a cultura brasileira em 1922, através da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, Mário de Andrade era um escritor de rara sensibilidade e um homem apaixonado pelo seu país. O legado da obra produzida é imenso, abrangendo da literatura à música, passando pela filologia e desaguando no estudo das tradições populares. Mas de todos os livros lançados, são as peripécias de Macunaíma que conquistam o imaginário dos leitores. Não à toa, pois as histórias do lendário “herói sem nenhum caráter” nos deixam bastante comovidos. Ele é filho de índios, mas nasce preto retinto e depois vira branco, síntese de nossa miscigenação. Desde cedo faz coisas de sarapantar, a começar passando mais de seis anos sem falar, decepando cabeças de saúvas, bolinando as cunhãs, cuspindo na cara dos marmanjos, mijando na mãe, dando pra ganhar dinheiro e, como se não bastasse, “brincando” com as cunhadas. Para enganar os outros, desde novo criou um bordão que o acompanharia ao longo da vida: “Ai! que preguiça!”.