As aulas daquela manhã, comecinho de 1979, estavam chatas pra burro, até eles surgirem, alunos de medicina, nos convidando a um tal de Congresso da UNE. E disseram mais: havia sido posta na ilegalidade, pelos milicos, com o golpe de 1964. Que diacho era aquilo, pensei comigo, desistindo de antemão. UNE? Nunca ouvira falar na vida. Mas foi eles mencionarem Salvador, palco do evento, para meu coração dar pulos e cambalhotas de alegria. Gaiato como sempre, expressei interesse em participar, embora nada soubesse de nossa entidade máxima. Menos ainda, de suas lutas em defesa do ensino superior gratuito e de qualidade. Por um Brasil mais justo também. No fundo, queria mesmo, a exemplo de outros colegas da Biologia, era desfrutar das belezas de Salvador – cidade de praias lindíssimas, comidas apetitosas, ritmos envolventes e, sobretudo, de mulheres bonitas e sensuais. Que me aguardasse a Bahia, pois estaria lá nos dias 29 e 30 de maio, participando do tão aguardado “Congresso de Reconstrução”.
Na semana seguinte, já estávamos todos engajados – alunos da UNI-RIO e de outras universidades e faculdades cariocas – na campanha financeira. Para o aluguel de ônibus, usamos todos os meios possíveis a fim de arrecadar grana: festas, rifas, pedágios, livros de ouro, bingos e shows musicais. Não faltaram apoio e solidariedade das pessoas, inclusive de artistas e escritores famosos, todos entalados com a ditadura militar. Ninguém aguentava mais tirania e respirar medo. Nesses espetáculos, geralmente de caráter lítero-musical, ouvíamos textos e cantigas de protesto, embalados por um profundo sentimento de “liberdade, essa palavra” / – segundo a poeta Cecília Meireles – “que o sonho humano alimenta / que não há ninguém que explique / e ninguém que não entenda”. E não é que conseguimos, depois de ralar bastante, materializar a sábia tirada de Fernando Pessoa, poeta português – “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.
Ao longo do percurso, driblando as escaramuças dos homi, finalmente chegamos a Salvador, onde fomos bem recebidos. A hospitalidade dos baianos nos aguardava de portas abertas, cedendo um cantinho pra descansarmos o esqueleto e embalarmos nossas utopias. Foi na abertura do Congresso, o 31º da história da entidade, que experimentei uma das mais fortes emoções da vida. Um coro de aproximadamente 10 mil universitários – de todos os cantos deste imenso e misturado Brasil – cantando o Hino da UNE, sob a batuta de Carlos Lyra, autor da melodia inspirada em letra de Vinícius de Moraes, nosso querido poetinha. Contido no refrão, o espírito combativo da classe estudantil: “A UNE reúne futuro e tradição / A UNE, a UNE, a UNE é união / A UNE, a UNE, a UNE somos nós / A UNE, a UNE, a UNE é nossa voz”.
Foi lá que senti, num misto de indignação e esperança, uma vontade danada de chorar. Um chuvaceiro de lágrimas, para espanto de todos da delegação, sem querer cessar. Mal sabiam que o choro do “Piauí”, como fora batizado por eles, era a expressão sofrida de alguém inconformado com seu estado de completa alienação. Mas que prometia a si mesmo, a partir daquele instante, ser mais atento aos
“probleminhas” do país. E o melhor, inserido nos embates políticos do nosso povo. Ao lado dos excluídos do farto banquete dos ricaços. Que não abriria mão, aliás, de saber o que se passava no Brasil da ditadura civil-militar, a exemplo do desaparecimento de Honestino Guimarães, o estudante de geologia da UNB e presidente da UNE homenageado naquele encontro, preso e sumido em outubro de 1970, quando tinha apenas 26 anos e um caminhão de sonhos pela frente.
Desde Salvador de 1979, sou outro homem, mais consciente e politizado, capaz de distinguir, de longe, o pessoal da Casa Grande e seus “digníssimos” representantes. Infelizmente ainda movidos pelos mesmos sentimentos de outrora: egoísmo, insensibilidade social, nariz empinado e ganância sem limite. E também, claro, encharcados de ódio à plebe rude. Hoje tenho clareza, mais do que nunca, que ao aceitar o convite daqueles jovens acadêmicos de medicina, estava eu contribuindo não somente para a refundação da UNE, como para o renascer de um cidadão que não aceitaria ser ludibriado pela segunda vez. “Probleminhas” coisa nenhuma, houve golpe e ditadura sim, senhor Capitão, e não adianta ocultar os cadáveres e os instrumentos de tortura debaixo do tapete.

Foram seis tiros certeiros. Um na cabeça e os demais espalhados pelo corpo. Todos disparados por mãos assassinas. A poucos metros de distância. Mãos essas que estavam a serviço de fazendeiro cruel, desumano, mais assassino que os executores. Covardes, todos, acima de tudo. No momento do crime, Dorothy Stang se encontrava sozinha, no meio da mata, uma senhora de 73 anos. Em vida, só procurou fazer o bem, ajudar os necessitados. Indagada se portava alguma arma, pelos criminosos, respondeu convictamente: “somente a bíblia”. Antes de ser morta, pediu para ler um trecho das palavras de Deus. Foram seis tiros disparados à queima roupa. Um na cabeça e os outros em diferentes partes do corpo. Sem clemência nem piedade. Uma senhora de 73 anos que, ao longo da existência, nunca fez mal a ninguém. Tornou-se missionária a fim de ajudar as pessoas, sobretudo, os pobres, marginalizados de tudo. Ela pertencia às Irmãs de Notre Dame de Namur, uma congregação católica internacional que realiza trabalho pastoral ao redor do mundo.