Com o governo federal ao lado, dando todo apoio, o cinema nacional já enfrenta muitas dificuldades, imagina tendo um governo que ameaça cortar verbas e censurar os filmes a serem produzidos. Sem falar de acabar também com a Ancine, a Agência Nacional do Cinema, órgão responsável em fomentar, regular e fiscalizar a indústria cinematográfica e videofonográfica nacional. Em outros países, ao contrário do nosso, os presidentes não só apoiam como veem o cinema na difusão de seus valores culturais e econômicos. Os Estados Unidos são, desde longas datas, bons exemplos dessa estratégia política. Infelizmente, nossas autoridades no Brasil, além de não terem essa visão, ignoram o cinema nacional, preferindo, tomados ainda pelo complexo de vira-lata, os filmes de fora, sobretudo, os hollywoodianos. 
Acredite ou não, gosto bastante dos filmes brasileiros, curtindo-os sempre que possível, notadamente nos finais de semana e feriados. Da chamada “retomada” até os dias presentes, o salto de qualidade impressiona nos aspectos de roteiro, fotografia, imagem, elenco e som. Daí não compreender a implicância das pessoas em relação ao nosso cinema, quase sempre taxado de pobre e rotulado de ruim. Opinião emitida, quase sempre, sem conhecimento de causa, sem terem visto sequer produções celebradas dentro e fora do país, tais como O palhaço, Faroeste caboclo, Estômago, O signo da cidade, Batismo de sangue, Lavoura arcaica, Não por acaso, Besouro, O filme da minha vida e O animal cordial.
Fora esses sugiro também mais três, todos de tirar o fôlego, daqueles que impactam a gente do começo ao fim da película. Comecemos por Entre nós, um suspense dirigido por Paulo Morelli (e seu filho, Pedro Morelli) centrado na história de alguns jovens que voltam a se encontrar, na mesma casa de campo, a fim de lerem as cartas enterradas há dez anos. Além da crueldade do tempo, eles agora têm que conviver com a morte de um dos membros da trupe e, mais doloroso ainda, encararem segredos e verdades ditos numa época marcada pela ingenuidade de sentimentos. A trama gira em torno de temas importantes dessa faixa etária: amor, sexo, traição, amizade e fracasso. Tudo vivenciado de forma intensa e franca, sem medo de ferir suscetibilidades. Quem sabe assim, mesmo tendo que suportar o mundo nos ombros, a galera aprenda que sonhos podem virar tragédias pessoais. Lançado em 2014, o filme ganhou vários prêmios. Merecem destaque a fotografia, a trilha sonora e o elenco do filme, especialmente Caio Blat (Felipe) e Martha Nowill (Drica).
O segundo é O lobo atrás da porta, uma fábula de horror centrada
nos absurdos de um triângulo amoroso, que tem início com o desaparecimento de uma criança. Quando os pais vão à delegacia dar queixa, a verdade não custa a aparecer: crime passional. A desbocada Rita (Leandra Leal) havia sequestrado a criança para chantagear o impulsivo Bernardo (Milhem Cortaz), casado com Sylvia, mulher serena e de gestos tranquilos. Tomados em separado, os depoimentos do trio registram uma teia de mentiras, amor, vingança e ciúmes. A partir das versões e álibis apresentados, flashbacks ilustram pontos de vista distintos, mostrando versões contraditórias e a fragilidade de cada um deles. Bom é ver a metamorfose dos três ao longo da história, de personagens inofensivas a figuras diabólicas, irreconhecíveis ao revelarem do que são capazes para alcançar seus objetivos. O filme recebeu prêmios importantíssimos nos festivais de Toronto (Seleção Oficial), San Sebastian (Melhor Filme), Havana (Melhor Opera Prima) e Rio (Melhor Filme e Melhor Atriz).
Fecho a lista com Feliz Natal, filme dirigido por Selton Mello abordando o drama
da solidão e dos desencontros pessoais. As feridas estouram quando Caio (Leonardo Medeiros) resolve passar o Natal com a família, depois de anos ausente e sem dar notícias. A recepção não é das melhores. Além do mal-estar causado, ele é recebido friamente por todos, exceto por Mércia (Darlene Glória), a mãe que sempre o amou e metida com bebidas e psicotrópicos. Do pai (Lúcio Mauro), que vive atualmente com mulher de caráter duvidoso, não recebe um cumprimento sequer. Como não bastasse, seu irmão Theo (Paulo Guarnieri) sofre com o casamento em crise, apesar de ter uma amante. No fundo, a presença de Caio altera não somente a vida dos outros, mas a sua própria na eterna busca de identidade. Filme denso e perturbador, daqueles que nos levam a refletir sobre um monte de coisas, sobretudo, a respeito dos paradoxos da vida.

culturais”, eufemismo usado pra designar proibição do que não agrada estética e ideologicamente aos atuais “donos” do poder. Diante de tal absurdo, não custa nada passear um pouco, de forma sucinta, pela sétima arte nacional.
inconsciente coletivo brasileiro: O Ébrio (1946), de Gilda de Abreu, visto por cerca de 12 milhões de pessoas; O Cangaceiro (1953), primeiro filme a conquistar as telas do mundo, escrito e dirigido por Lima Barreto, inspirado na lendária figura de Lampião; O Pagador de Promessas (1962), filme de Anselmo Duarte baseado na peça de teatro de Dias Gomes, ganhador da Palma de Ouro em Cannes; Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, considerado marco do Cinema Novo e tido como o melhor filme nacional de todos os tempos.
escritor gaúcho; Central do Brasil (1998), o road-movie de Walter Salles, talvez nosso filme mais conhecido no exterior, com Fernanda Montenegro indicada ao Oscar de melhor atriz; Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, adaptação do livro de Paulo Lins, abordando o drama do crime organizado em favela carioca.
(2012), dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, inspirado no romance de Marçal Aquino, uma fascinante love story com final surpreendente; O Céu de Suely (2006), com direção de Karim Aïnouz, a triste história de uma jovem que, sem dinheiro, resolve rifar o próprio corpo a fim deixar sua pequena cidade; e, finalmente, Contra Todos (2004), de Roberto Moreira, filme que nos remete à violência das grandes metrópoles, depois do qual dificilmente o espectador continuará o mesmo.


