Wellington Soares
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O Beijo no Asfalto

 

Minha vida desandou, hoje tenho certeza, depois do beijo. Não de qualquer beijo, mas daquele no asfalto. Dado num rapaz que sequer conhecia, na Praça da Bandeira, atropelado por um ônibus. O coitado escorregou do meio-fio e, fração de segundos, já não vivia mais. Gesto automático, corri pra socorrê-lo, amparando o pescoço nos meus braços. Mesmo pego de surpresa, atendi seu pedido de misericórdia: dei-lhe um beijo na boca. Pior ainda, na frente de todo mundo, incluindo meu sogro. Como iria adivinhar a presença de um repórter canalha, de jornal sensacionalista, entre a multidão que se formara para ver a desgraça alheia? Estampada na primeira página, dia seguinte, estava lá a maldita manchete, em letras garrafais: O BEIJO NO ASFALTO. A partir daí, quem diria, todos ficaram contra mim. Não entendem que o beijo foi apenas um gesto humano, de solidariedade. Que se danem!, pois não me arrependo. E por um único e simples motivo: fez eu me sentir, pela primeira vez na vida, um homem bom, sem maldade – “Lindo beijar quem está morrendo!”.

Perdoar Arandir até que seria possível, juro por Deus, mas voltar a beijá-lo nunca mais. Sempre lembraria dele beijando a boca de um homem. Isso é o fim da picada, mesmo reconhecendo a grandeza de seu gesto. Até relevaria os mexericos da vizinhança, as torturas sofridas da dupla Cunha/Amaro e os ciúmes doentios do Aprígio, meu pai. Nem lavando a boca mil vezes, acredite, eu seria capaz outra vez. E olha que Arandir é o grande amor da minha vida. Aliás, o primeiro e único namorado que tive. O homem que me fez mulher quando eu não passava de uma garotinha boba e virgem. Quanto à insinuação maldosa de ser gilete, cortando dos dois lados, nunca liguei a mínima. Amante do rapaz morto? Canalhice pra venderem jornal. Arandir é macho dos bons, daqueles que querem sexo todo santo dia, por isso não desejar ter filho tão cedo, atrapalha nossa eterna lua de mel. Vontade não faltou de ir ao seu encontro, em hotel no Largo de São Francisco, mas a lembrança do tal beijo pôs tudo a perder.

Selminha não vem, disse pra ele, mas eu vim no lugar dela. Vim por acreditar em você, na sua inocência diante da campanha sacana do jornal Última Hora. Grandíssimo filho da puta, esse Samuel Wainer! Vim também porque, ao contrário da sua esposa, não sinto nojo de você. Vim ainda porque, caso queira me beijar, meus lábios e língua estão à sua inteira disposição. Vim, por fim, pra deixar bem claro o amor que sinto por você. Não de agora, depois do famoso beijo, mas desde o namoro com a minha irmã, que o rejeita logo no momento que você mais precisa. Fiquemos em duas, dentre outras provas do meu amor: ter ido morar com vocês, a fim de ficar pertinho de ti; e ter deixado a porta do banheiro aberta, de forma intencional, para que me visse nuinha da silva, como nasci, desejando meu lindo corpo. Vou mais além, escuta Arandir, em minha louca paixão – querendo, morro agorinha com você, sem pestanejar. Bala ou veneno, tanto faz. Topa?

Seu desgraçado, não bastasse o que fez, tenta agora seduzir Dália, minha  caçula. Sempre falei que você não prestava, não valia um tostão. Mas as mulheres, ingênuas por natureza, são levadas na lábia dos canalhas. Minhas filhas provam isso. Por que eu, Aprígio, o odeio?  Por ciúme da Selminha, talvez você pense. Por ficar bisbilhotando Dália no banheiro, quem sabe. Por você ter casado com Selminha sem minha aprovação, decerto. Por você mentir pra gente que não conhecia o rapaz morto, quiçá. Por nunca ter pronunciado seu horroroso nome, porventura, preferindo chamá-lo de namorado, noivo e marido. Como explicar tamanho ódio, então, você deve estar se perguntando? Simples, meu caro: meu ódio é amor, amor dos grandes, irrespirável de tão sufocante. “Jurei a mim mesmo que só diria teu nome a teu cadáver.” Tudo eu teria perdoado, Arandir, menos vê-lo beijar outro homem que não eu, somente eu. Mesmo tardiamente, aprenda: traição implica morte. É batata!

Harmada

João Gilberto Noll (1946-2017) foi um escritor brasileiro nascido em Porto Alegre–RS. Além de romances, Noll também escreveu contos e textos para teatro. Iniciou o curso de Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o concluiu na Faculdade Notre Dame do Rio de Janeiro. Também trabalhou como jornalista e, em São Paulo, como revisor. Recebeu diversos prêmios literários, dentre eles, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em cinco ocasiões. Tem trabalhos adaptados para o cinema brasileiro, tais como: Nunca fomos tão felizes (1983) e Hotel Atlântico (2009). O autor foi bolsista e professor convidado da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, além de escritor residente no King’s College, em Londres, em 2004.

Em Harmada, vemos um herói em plena decadência. Sua narrativa (em primeira pessoa) é a dos que estão em busca de um alvo incerto. Não há coragem ou mérito. Todos os locais por ele visitados são caóticos. Trata-se de uma desconstrução do real (tão sufocante), onde o personagem central encontra-se fragmentado. Em nenhum momento Noll descreve algo com clareza. O mundo descrito é falível e, ainda assim, o narrador procura, incessantemente, traçar um caminho que visa construir sua própria realidade.

Não há grandiosidade. O protagonista é um homem comum, porém, único e contraditório, atrelado ao seu interior no diálogo que realiza consigo mesmo e com os pormenores do mundo que impõe seu peso sobre ele. Vejamos um trecho do romance que retrata muito bem essa assertiva: “não, não havia ninguém aparentemente a me escutar no outro lado de mim, mas quando acordei do tremor de terra comecei a falar, a princípio sem me dar conta de que do outro lado de mim realmente vinha uma premência difusa que estava a me ouvir” (p. 26).

O personagem guia-se por sua paixão pelo teatro. Quer dirigir uma peça e apenas isso faz sentido para a sua vida. Nota-se uma divergência entre aparência e essência numa relação dialógica socialmente criada. Harmada é um livro angustiante, provocador. Que deve ser lido com muita atenção para o subjetivismo ao qual o narrador se insere, já que ele vive num constante “colapso entre a aparência e o íntimo das coisas” (p.15).

Um livro fundamental para se repensar a prosa de ficção brasileira.

De tudo ficam três coisas

Tenho ouvido e observado coisas , pessoas e, sobretudo, comportamentos que antes não me chamavam a atenção. Um dia, conversando com o meu amigo Cícero Filho (desses que são verdadeiros oráculos particulares), percebi que, a certa altura, o homem passa a sentir necessidade de fazer parte de um clã, em que os poucos amigos têm em comum manias, piadas e anseios… principalmente anseios. Ainda distantes da senilidade, mas já depois de balzaquianos, enveredamos num papo acerca da vida que foi e da que virá. Surgiu, é claro, a frase tão conhecida, encontrada na obra de Eça de Queirós: “Plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho”. Eu, internamente, pensei que já fiz as três coisas e estou muito longe da sensação de dever cumprido. Aliás, está mais pra dever comprido do que cumprido. Essa sensação não me pertence, definitivamente. Passeei um pouco pela lembrança que tive de Drummond, no seu texto A imagem no espelho, no maravilhoso livro O sorvete e Outras histórias. O texto cria uma nova maneira de escrever as suas memórias, ele defende a ideia de que o melhor é fazer isso aos 20 anos, pois as aventuras serão mais fiéis e “terão a graça das coisas verdes”.  Imagine ter o poder de projetar a sua vida, baseada tão somente em vitórias e júbilo. Mera quimera! Perdoem-me a rima medíocre. Outrossim, seria igual devaneio borboletear pela vida sem enfrentar os reveses. Passo a discussão para o terreno da minha profissão: professor de cursinhos preparatórios para concursos públicos.

Meus alunos são pessoas vencedoras, já de saída. Abdicaram de paixões, prazeres e dias de sol. Muitas vezes são seres enclausurados, desbotados e sem assunto que não seja um edital aberto, uma questão anulada ou uma revisão de Português anunciada. São meus protegidos. Como eu os admiro! Mal sabe o concurseiro que eu sou o seu maior fã. Se possível fosse, eu arrombaria a porta da aprovação e o colocaria lá, na esfera pública, seu lugar por merecimento! Não sendo possível fazer assim, faço como posso. Todos os dias, manhã, tarde e noite, ensino tudo o que sei sobre a língua portuguesa. Mas não pense que só eles aprendem, eu saio transbordando de ensinamentos sobre dedicação, fé e motivação. Costumo dizer que são necessários os três pilares do sucesso: recurso, tempo e dedicação. Recurso para investir num bom material, num bom cursinho, num bom professor; dedicação para enfrentar as inúmeras dificuldades que surgirão; tempo para usufruir daquilo que o recurso te proporcionou, com a dedicação que você possui. É isso! Na vida, no trabalho, em casa…. você sempre vai precisar de recurso, dedicação e tempo. Lute pelo alinhamento desses pilares, você consegue. Boa sorte e boa-fé fazem muito bem. Lembre-se: NÃO FORCE A BARRA, A AMIZADE E A COLUNA.

Convite a pensar nos direitos humanos

Por Lunara Maria Soares e Silva Moura

 

Lendo Contos de Assombro, deparei-me com um conto chamado “Uma jaula de animais ferozes” (1867), de Émile Zola, um relato feito por um Leão e uma Hiena de um zoológico de Paris, que tinham curiosidade em conhecer a jaula dos homens. Certa manhã tiveram a oportunidade, e, ao se aproximarem da cidade com seus ruídos de trânsito, sorrisos e lágrimas dos transeuntes, ambos se assustaram, pois tais sons pareciam uivos ferozes e dor.  Por fim, tudo naquela cidade parecia um terror, já que os homens matavam sem estar com fome, trancavam-se em suas casas por portas enormes e fortes cadeados para não se devorarem e atropelavam suas crianças com suas carruagens sem se darem conta. Todas aquelas imagens eram tão aterrorizantes que o Leão e a Hiena correram de volta às suas devidas jaulas para nunca mais saírem.

Esse conto chama atenção para o contexto de várias transformações político-sociais, no bojo da ideia de emancipação humana trazida pelo iluminismo, entre as quais o surgimento da ideia de direitos humanos. Não obstante esses avanços, a noção do outro retratada no conto ainda se encontra perdida no individualismo e uma violência absurda continuava (continua) presente no dia a dia das pessoas.

A ideia de que a existência de lei, de direitos (como nos moldes dos direitos humanos), diminuiria a violência é um tanto ilusória – a luta pela efetivação de direitos, especialmente dos direitos humanos, tem que ser diária, constante e permanente.

Afasto-me da crença de que os direitos humanos não são necessários. Pelo contrário, alerto que esses direitos a cada dia devem ser reforçados e reafirmados. A comunidade internacional precisa ter em mente a ideia de coletividade, os consensos que foram sendo construídos ao longo da história, que culminaram na ideia de “civilização” que operamos contemporaneamente. Não podemos perder de vista o difícil equilíbrio entre as demandas locais de cada cultura, as particularidades de cada contexto social, e a ideia de direitos universais personalíssimos, condição necessária para que possamos nos afastar da indiferença frente a violência crescente, tanto entre nações como no interior das comunidades locais.

Lynn Hunt, em A invenção dos direitos humanos: uma história, diz que só foi possível a ideia dos direitos humanos com a mudança da mentalidade da sociedade da época. Essa mudança de mentalidade só foi possível porque, em meados do século XVIII, as personagens dos romances epistolares, muito populares naquele período, ajudaram a desenvolver na mente das pessoas as ideias de autonomia e de empatia, como por exemplo, no romance Júlia ou a Nova Heloisa de Jean-Jacques Rousseau, publicado em 1761, antes de seu O contrato social.

A capacidade de se imaginar no lugar das personagens romanescas, vivenciar suas situações, o contato mesmo com essas obras de arte, aguçava a mente das pessoas, incentivando-as a criarem novas formas de organização social e política, a reclamarem direitos, a se mobilizarem por causas comuns. Eis o embrião do que culminou na ideia de direitos humanos.

É interessante observar que, em se tratando da vida em sociedade, a empatia para com o outro parece ser condição necessária para que uma comunidade persista. Ver o outro como aquele que possui os mesmos direitos que eu, que sente e tem as mesmas necessidades que eu tenho, ver o “eu” do outro como o meu “eu”, parece ser um passo fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e igual para todos. O reconhecimento do eu no outro, essa reciprocidade entre o “eu” e o “outro”, é a base para que possamos construir uma ideia de direitos humanos universais.

Retomando a ideia do início do texto da surpresa do Leão e da Hiena com a violência dos seres humanos e seu desprezo pelo vida e pensando nas transformações políticas e sociais em marcha mundo afora, como as políticas de extrema-direita com discursos nacionalistas e autoritários, penso que os direitos humanos estão sob ameaça grave e os retrocessos em relação aos direitos conquistados não são apenas uma hipótese, mas uma realidade em vários lugares do mundo, como na Síria e na Venezuela e, inclusive, no Brasil.

Lynn Hunt nos fornece um bom caminho para superarmos a violência a que estamos expostos, seja pela ação dos governos internos, pelo conflito entre nações ou pelos interesses puramente econômicos dos grandes oligopólios financeiros internacionais: precisamos ler mais romances, aguçar a imaginação, desenvolver a empatia, criar um mundo melhor.

Faustino

Mário Faustino nasceu em Teresina, Piauí, no dia 22 de outubro de 1930, e faleceu em 27 de novembro de 1962, quando voava em direção aos Estados Unidos. Passou pelo Pará e pelo Rio de Janeiro, onde fez fama como poeta, tradutor e crítico literário, através de textos publicados no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Faustino foi um homem mergulhado na superação das vanguardas que surgiram na Europa do final do século XIX e da primeira metade do século XX. O autor de O homem e sua hora (1955), seu único livro publicado em vida, busca, incessantemente, trabalhar a linguagem poética como um laboratório de expressão cujo alicerce é a renovação estética e, por conseguinte, a ampliação do campo literário. Tem, como pilastras principais, a poesia de Mallarmé, de Ezra Pound, de Cummings, de Rilke, de Jorge de Lima, de Fernando Pessoa e a de Apollinaire, além da prosa inovadora e inquietante de James Joyce.

Em Faustino, o eu lírico está fragmentado, despersonalizado, donde se observa a expressão de múltiplas vozes, mas, ainda assim, tal atitude somente enriquece a unidade de sua poesia. O poeta piauiense realiza um trajeto voltado para a indagação metafísica: o questionamento a respeito do ser humano, a verdadeira vocação do homem e a pluralidade do eu.

Isso dá o tom da dinâmica que ele tanto buscava, o que deixa visível sua visão de mundo. O mundo que conhecia uma nova ordem: a reestruturação da vida após duas guerras mundiais, a efervescência da atmosfera de transgressão modernista e da superação surrealista dos feitos do inconsciente. Como ressalta Gilbert Durand, observava-se, na época de Faustino, uma ideia de “anti-individualismo, que diferencia com clareza a modernidade do século XX dos individualismos românticos do século passado”.

Faustino utilizou-se, sem medo de excessos, do chamado metapoema – artefato acentuado da fórmula poética moderna – para compreender melhor as teorias acerca da poesia. Trata-se de um poeta de caráter logopaico, para lembrar aqui uma definição de um dos seus poetas preferidos, o norte-americano Ezra Pound. Ou seja, Faustino era um poeta de sentimentos pensados. Jamais deixou que a emoção se desvencilhasse da razão na feitura de seus poemas. Para o crítico Mário Faustino, a tradição poética serve de substância primordial no processo de criação do poema, onde se conclui que o novo texto é fruto de uma assimilação cerebral e estética. Porém, deve-se canalizar para uma escrita independente e, notadamente, inovadora. Portanto, a poesia, para Faustino, é o lugar ou não-lugar onde a linguagem renasce. Deste modo, aos verdadeiros poetas, não há a angústia preconizada por Harold Bloom . Influência não gera fantasmas aos iniciados na poesia. Gera frescor e ímpeto de renovação.

O poeta vale-se de várias figuras mitológicas. Faz um verdadeiro retorno aos mitos clássicos, greco-romanos e sacros, dando-os nova significação no discurso poético. Valoriza o artifício da criação estética em detrimento da individualidade de quem cria, concebendo tal ideia através da multiplicidade das vozes poéticas. Faustino comunica-se com outras artes, em especial, com o cinema e com as artes plásticas. Faustino busca, incessantemente, a inovação, principalmente em relação ao arcabouço do verso e ao instrumental sintático. Em toda a sua obra, dois elementos atuam sem parar: o eterno e o passageiro na natureza humana. Trata-se de um poeta de múltiplas vozes, como se pode ver nestes versos: “Mas eu não sou o senhor/embora venham comigo a música e o poema./Por que vos ajoelhais se eu vim por sobre as ondas/e só tenho palavras?/Ouvi a minha voz de anjo que acordou:/Sou poeta.”

Sim, Faustino é um dos grandes poetas brasileiros do século XX. Um dos maiores do Piauí de todos os tempos. Um autêntico seguidor de Pound, empunhando a bandeira cujo lema gravado com as letras do tempo era: “repetir para aprender, criar para renovar”.