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Negacionismo e pandemia: a produção da ignorância como política de governo

Por José Elielton de Sousa

 

Com a pandemia da COVID-19, um dos fenômenos políticos que vem chamando atenção é o recrudescimento de movimentos negacionistas mundo afora, inclusive no interior da própria comunidade científica. O negacionismo se caracteriza pelo ato de negação de uma ideia, juízo ou fato apresentado como verdadeiro por uma comunidade científica, acadêmica ou filosófica, resultante de análises metódicas dos membros dessas respectivas comunidades. Nesse sentido, o negacionismo é um conceito aplicável a indivíduos ou grupos de pessoas que “optam” voluntariamente por não acreditarem em uma informação, fato ou ideia vista como consensual nos meios acadêmicos e científicos.

O ponto de partida negacionista são teorias conspiratórias sobre determinado assunto, cujo objetivo seria divulgar a “verdade oculta”, escondida por uma grande conspiração internacional para que as pessoas não tenham acesso a tal realidade. Além disso, as teorias negacionistas se apoiam em informações manipuladas, descontextualizadas, suprimidas ou falseadas por supostos “especialistas” que, na realidade, tem visões e informações sobre o assunto em questão que são totalmente divergentes do conhecimento estabelecido. O termo “negacionismo” tem origem francesa e foi empregado para classificar o primeiro grande movimento negacionista contemporâneo: os negacionistas do Holocausto.

No âmbito da ciência, embora possa remeter retrospectivamente ao início da idade moderna, quando cientistas como Copérnico e Galileu foram obrigados a falsearem suas próprias conclusões científicas por causa da contradição doutrinal da Igreja, o negacionismo é um fenômeno que remete a meados da segunda metade do século XX, com a indústria do tabaco financiando pesquisadores para questionar o fato de que o fumo causa câncer, manipulando e alterando propositalmente dados e evidências científica com vistas a atender fins econômicos.

Se antes o negacionismo estava restrito a grupos articulados em torno de interesses econômicos-ideológicos ou religiosos específicos, com a proliferação de movimentos de extrema direita mundo afora, associada ao uso das redes sociais para disseminação de teorias conspiratórias, informações falsas ou distorcidas e discursos de ódio, esse fenômeno se integrou a essa agenda política mais ampla, ultraconservadora, reacionária, xenofóbica e teocrática que reúne esses diversos movimentos de extrema direita em torno de pautas e valores retrógrados (racismo, xenofobia, chauvinismo), antidemocráticos (autoritarismo, separatismo, populismo), tradicionalistas (Deus, pátria e “família”) e anticientíficos (contra vacinas, contra medidas profiláticas e negacionistas do vírus SARS-Cov-2).

Com a chegada da COVID-19, esse fenômeno negacionista se intensificou, “contaminando” de forma significativa membros da comunidade científica e de governos de diversas partes do mundo, tornando-se inclusive discurso oficial e política de governo em vários lugares do mundo, como no Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo. Como aponta Carlos Orsi e Natalia Pasternak, em Contra a realidade: a negação da ciência, suas causas e consequências, embora o negacionismo seja motivado por interesses difusos e os grupos negacionistas sejam distintos entre si, podemos perceber que todos eles adotaram a mesma estratégia reativa ao longo da pandemia da COVID-19, estabelecendo uma espécie de fronteira móvel diante realidade dos fatos, que vai se ajustando a cada momento de acordo com a conveniência.

O processo de produção da ignorância não é aleatório, ele é fabricado propositalmente, é uma construção articulada por pessoas que possuem informações e meios sofisticados de produzir conteúdo

Assim, se eles reconhecem existir um discurso sobre a pandemia, questionam sua veracidade ou relatam que se trata apenas de um vírus comum, acusando os governos de montarem uma farsa para justificar a adoção de medidas autoritárias de controle dos direitos e das liberdades individuais. Por outro lado, se eles admitem a realidade da doença, desconsideram sua gravidade, criando teorias conspiratórias sobre a origem do vírus e seu suposto uso como arma biológica. O mesmo procedimento em relação às formas de prevenção da doença: se eles reconhecem a gravidade da doença e a importância de salvar vidas, desconsideram os métodos científicos, como a utilização de máscaras, o isolamento social, o lockdown e a própria vacina. Preferem acreditar na utilização medicamentos não comprovados cientificamente, como ivermectina e hidroxicloroquina, mesmo depois de verificado que os mesmos não apenas são ineficazes no combate à COVID-19, mas que seu uso prolongado traz sérios riscos para a saúde de usuário.

Especificamente no caso do Brasil, o atual presidente da República conseguiu a proeza de juntar em seu governo uma variedade impressionante de negacionistas, desde grupos “clássicos” como aqueles que negam o holocausto, passando por terraplanistas, negacionistas climáticos, fundamentalistas religiosos, revisionistas da escravidão e da ditadura civil-militar brasileiras, até, obviamente, os negacionistas da pandemia da COVID-19, articulados ao negacionismo científico. Dessa forma, pela primeira vez na história de nosso país temos um mandatário que adota o negacionismo como discurso oficial e norte para suas ações governamentais – é a ignorância e a estupidez transformadas em política de governo.

Três momentos da atuação do governo federal, sob a liderança explícita do presidente da República, no enfrentamento à pandemia são particularmente emblemáticos, denotando claramente a institucionalização governamental do negacionismo e a estratégia reativa acima mencionada, ajustável à conveniência do momento. Primeiramente ele se omitiu no combate à pandemia, não adotando as medidas necessárias para conter a disseminação e circulação do vírus, culpando o STF por, supostamente, ter retirado a competência da União para tal finalidade. Posteriormente, e apesar da omissão, o governo federal passou a questionar e criticar publicamente as informações e recomendações produzidas pela comunidade científica nacional e internacional, promovendo uma campanha orquestrada de desinformação, defendendo a tese da imunidade de rebanho e estimulando o “tratamento precoce” mesmo sem eficácia comprovada. Por fim e não menos importante, vem a questão da vacina: o governo federal não apenas esnobou diversas ofertas de compra de vacinas e se omitiu de participar de um consórcio internacional para aquisição e distribuição de vacinas para países em desenvolvimento, como passou a fazer campanha contra as vacinas disponíveis no Brasil, inclusive acionando dispositivos legais para não recomendar a vacinação de adultos e crianças.

Essa exposição reiterada à desinformação tem provocado uma espécie de dissociação cognitiva entre a realidade da pandemia e as crenças subjetivas dos negacionistas, levando-os a recorrer a narrativas fantasiosas para explicar os fatos. Assim, se tornaram comuns narrativas que defendem que não houve o colapso funerário de Manaus (AM) em 2020, que caixões funerários estavam sendo enterrados vazios, ou que o número de casos divulgados pelas secretarias estaduais de saúde estava fraudado, pois os hospitais estariam vazios e as entidades de saúde fariam laudos falsos sobre os óbitos por Covid-19. Em relação as vacinas, as narrativas negacionistas mais comuns relacionam a origem das vacinas à sua eficácia, o controle biológico da população por meio de microchips implantados através da vacinação, ou ainda a estória de que as vacinas são responsáveis pelo surgimento de novas variantes.

O processo de produção da ignorância não é aleatório, ele é fabricado propositalmente, é uma construção articulada por pessoas que possuem informações e meios sofisticados de produzir conteúdo e influenciar grupos enormes de pessoas, para ocultar interesses políticos-ideológicos de controle e manutenção de poder. Uma das consequências perversas desse processo de produção da ignorância é a intensificação de uma política de naturalização de morte e a banalização da vida, voltada especialmente para grupos mais vulneráveis, não por acaso os mais atingidos proporcionalmente pela pandemia.

Esse fenômeno de produção intencional e articulada da desinformação, associado ao negacionismo científico como políticas públicas, quando relacionado à política de naturalização de morte e a banalização da vida promovida pelo governo federal, é um exemplo daquilo que muitos estudiosos chamam de tanatopolítica: economia e governo da morte do Outro. É isso que temos hoje no Brasil: um governo da morte do Outro!

Isis Baião: “Amo o teatro desde quase sempre”

por Wellington Soares, escritor e professor

foto: Maurício Pokemon

Estou por ver uma pessoa tão apaixonada pelo teatro quanto a Isis Baião. Ela respira, fala, escreve, comenta, ministra oficinas, assiste e, não bastasse, personifica o próprio teatro. Literalmente, sem exagero. Não à toa afirmar, nesta bela entrevista, que “amo o teatro desde quase sempre”. Ainda na adolescência, mandava buscar peças no Rio, que lia com voracidade e prazer. Depois sonhou em ser atriz, caindo fora ao não encontrar sua praia. A dramaturgia representou, finalmente, o tão almejado grito de Eureka! E não é que esse encontro amoroso entre os dois, para nossa felicidade, perdura firme e inabalável até hoje.

Além da fissura pelo teatro, Isis nos fascina por ser uma pessoa amável, educada, doce e de sorriso franco. Daquelas que inspiram confiança, acolhimento. Que nos trata de imediato, no primeiro encontro, como velhos amigos.  A conversa brotando espontânea, descontraída, sem tabus de qualquer natureza. Sem falar de uma mulher inteligente, de senso crítico, antenada com seu tempo. Daí produzir um teatro, a exemplo de Nelson Rodrigues, distinto do bombom com licor. Na realidade, como arma para falar das coisas que realmente interessam: sentimentos, ética, política, humanismo, conflitos, tragédias e problemas sociais.

Foi no Rio de Janeiro onde tudo começou. Ainda cursando Jornalismo na PUC, percebeu que estava intrinsicamente ligada à cultura, em suas mais diversas manifestações, sobretudo, à arte cênica. Dois fatos a aproximaram, entre outros, do teatro em definitivo: a participação numa oficina, ministrada por Sérgio Britto, para atores estreantes; e a entrevista que fez, ousadia sem igual, com “O anjo pornográfico”, epíteto pelo qual ficou conhecido nacionalmente o polêmico dramaturgo pernambucano. Sua obra inclui textos cinematográficos, biografia, contos e peças teatrais, essas últimas reunidas hoje em livros – Teatro (In) completo / Volumes I e II.

Vim conhecer Isis Baião pessoalmente quando retornou, depois de muitos anos, a Teresina da sua adolescência e berço natal da sua mãe. Encantado, tratei logo de convidá-la para uma entrevista à Revestrés, uma das melhores já feitas pela nossa revista. Nada mais natural que o lançamento tenha ocorrido, com direito a coquetel e tudo, no Espaço Cultural Trilhos, juntando bastante gente da classe artística da cidade. Indagado por mim, sobre se valeu a pena toda a vida dedicada ao teatro, ela não titubeou: “Nunca me arrependi. Pelo contrário, apesar de toda a luta – porque é uma luta, sim – eu não tive nenhum dia em que achasse que poderia ser outra coisa que não teatróloga.”

Para retribuir tamanho amor e entrega, resta-nos apenas ler com atenção, extraindo as devidas lições, cada sábia resposta dada por Isis Baião, essa mineira de nascença e piauiense de coração.

Que você acha do que disse, certa vez, o polêmico Nelson Rodrigues: “Teatro não tem que ser bombom com licor”?
Concordo com ele. O teatro, como simples divertimento, parece perda de tempo e dinheiro. Sim, porque o teatro é uma arma (que não mata) preciosa para falarmos de sentimentos, de ética, de política, de humanismo, ao representarmos os nossos conflitos, as nossas tragédias e mazelas sociais. E digo mais, acho que o humor, para quem sabe usá-lo, é um grande aliado do dramaturgo. O humorista Leon Eliachar disse certa vez que “fazer rir, é rir do Rei”…

Fazer teatro no Brasil nunca foi tarefa das mais fáceis. Não bastasse, vieram o (des)governo do Bolsonaro e a Covid 19. Como tem sobrevivido a classe nestes tempos de perseguição artística e negacionismo?
Tem sido difícil sobreviver, companheiro. Uns mais, outros menos, dependendo da condição anterior a essas duas tragédias que se abateram sobre nós, a Covid 19 e o Bolsonaro (a ordem não altera a malignidade dos fatores). Têm pessoas passando necessidades mesmo. E me impressiona como esse (des)governo conseguiu reunir, em primeiro e segundo escalão, gente tão incompetente, ignorante e sem pudor para servi-lo (desservindo ao povo), inclusive artistas! É como se um espírito perverso tivesse baixado sobre este país. Mas eu acredito em Deus e sei que a “farra do boi” está no fim…

Sei que não distribuo “bombons com licor”, embora faça rir, às vezes, até muito. Dizem que o meu humor está mais para o satírico e o cruel. É verdade.

Quando nasceu em você a ideia de ser dramaturga, área ocupada geralmente por homens?
Amo o teatro desde quase sempre. Quando adolescente e ainda morando em Teresina, mandava buscar livros de peças no Rio. Lia tudo, encantada. Mas não pensava que me tornaria dramaturga. Achava que queria ser atriz e tinha fascínio pelas grandes atrizes. Conheci algumas no Rio, onde fui morar em 66. Já trabalhava na imprensa cariosa quando me formei em Jornalismo, em 70, na PUC/RJ. Em seguida, passei quatro meses em Londres e lá também trabalhei, por acaso!, no Serviço de Rádio para Portugal e América Latina, do COI (Central Office of Information). Na volta, o Sérgio Britto me chamou para fazer uma reportagem em um Laboratório de Teatro, que ele acabara de montar, com outros artistas, a “nata” do teatro carioca. Fui e não saí mais. Continuei a trabalhar em jornalismo, mas estava cada vez mais ligada ao mundo teatral. Por outro lado, comecei a sentir que não era aquele o meu barato. No final do Laboratório, o grupo se dividiu em dois. Um deles era a turma bem jovem, que formaria o Asdrúbal Trouxe o Trombone, sob a direção do Hamilton Vaz Pereira. Eu estava no outro grupo, dirigido por José Carlos Gondim, que fez uma adaptação da Antígona, de Sófocles, na qual interpretei Ismênia, a irmã da protagonista. Na estreia, amigos e amigas me afiançaram que eu estava ótima!!! Será? Bom, gostei muito da experiência, mas vi que ser atriz não era exatamente o que eu queria. O tempo passou, eu continuava a fazer matérias para jornais e revistas. Um dia, não me lembro se a propósito de uma reportagem, uma atriz, minha amiga, me disse: “Você devia escrever para teatro. Têm poucas mulheres escrevendo. Já pensou nisso?” Não, eu nunca tinha pensado, mas passei a pensar. Resolvi começar pelas adaptações: a primeira, de Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel Garcia Marques; em seguida Cândido ou o Otimismo, um conto satírico-filosófico, de Voltaire. Depois, começaram os originais, com Maria Manchete Navalhada e Ketchup, tragicomédia, ainda inédita; Instituto Naque de Quedas e Rolamentos, minha estreia no palco. E a vida seguiu, acompanhada de muitos títulos, nenhum deles convencional…   

De todas suas peças, qual delas é a filha preferida por ter sido um parto difícil e prazeroso no final da gestação?
Não existe filho(a) preferido(a) para um coração de mãe… Mas é certo que existe um chamego especial com aquele(a) cujo parto foi mais sofrido. É o caso da minha Casa de Penhores. Ela veio ao mundo de maneira totalmente diferente das demais. Eu estava grávida e não sabia. Passei alguns dias numa grande aflição, sentindo as ideias se misturando dentro de mim, sem nenhuma definição. De repente, peguei um bloco de papel e comecei a rascunhar um roteiro. Eram umas 10h da manhã. À medida que escrevia, as cenas apareciam mais nítidas. Fui sendo tomada por uma grande emoção. No final da tarde, o roteiro estava pronto, relaxei e desabei num grande pranto. Acabara de parir um bebê, ainda descarnado, a que dei o nome de Casa de Penhores. Anos depois, ela se tornou a menina dos olhos da família Baião, quando obteve um dos prêmios do concurso 1997 Onassis International Cultural Competitions – Theatrical Plays, em Athenas-Grécia.

Quais nomes despontam hoje na dramaturgia brasileira, incluindo a piauiense, no sentido de renovação e atração de público?
Estou há sete anos no Piauí e por fora do teatro no Rio, que sei debilitado, como o da maioria dos estados, pelos efeitos da pandemia e desse (des)governo do inominável. Prefiro falar da dramaturgia piauiense, que teve e tem dramaturgos nacionalmente conhecidos, como Francisco Pereira da Silva e Benjamin Santos.  Cito ainda os colegas consagrados, Aci Campelo e José Afonso de Lima (este, também poeta) e outros, cujos trabalhos me entusiasmaram em estreias diversas. Mas confesso que tenho especial carinho por uma pequena turma que fez a minha Oficina Avançada para Novos Autores, em 2017, realização da Secult. No final, organizamos um mini- festival com a produção da Oficina, em que, cada Novo(a) Autor(a), ocupava uma 5ª feira, no Teatro Torquato Neto. Uma das novas dramaturgas desta turma, a jornalista Samira Ramalho, já atingiu Sampa: ano passado encenou, no Teatro Gazeta de São Paulo, a peça A Ciumenta, em parceria com a atriz do SBT, Renata Brás.

O que motivou você e Terezinha Marçal a escreverem “Mara Rúbia, a Loura Infernal”, biografia da atriz paranaense Osmarina Lameira Colares Cintra? 

foto: Maurício Pokemon

Pois é, na vida, tudo é história, as coisas acontecem e se encaixam, ou não. Em 84, três atrizes me pediram para escrever um texto sobre as questões da mulher. Aceitei e nos encontrávamos uma vez por semana para uma troca de depoimentos de vida. Virávamos a noite, contando nossas histórias umas para as outras, rindo, chorando. E só a partir de um determinado momento, comecei a escrever os esquetes que iriam compor o espetáculo As Bruxas Estão Soltas. Therezinha Marçal, filha de Mara Rúbia (na época, ainda viva) era uma das atrizes e, nos seus depoimentos, falava muito da sua mãe. Nós todas ficávamos encantadas com as histórias de vida daquela mulher linda, de forte personalidade, carismática e à frente do seu tempo. Montamos As Bruxas numa galeria de arte, bem no coração de Ipanema, e foi um sucesso, mas, quando terminou o contrato com a Petite Galerie, não tivemos dinheiro para alugar um teatro. Com uma grande tristeza, fomos cada uma para um lado (no Rio, é o que acontece quando se desfaz um elenco). Anos depois, reencontro a Therezinha e a fulmino com esta proposta: vamos escrever a biografia da Mara Rúbia? Ela ainda estava muito abalada pela morte da mãe, mas topou. A princípio queria que eu escrevesse todo o livro, mas convencia-a de que, no decorrer da narrativa, era interessante que houvesse pequenos textos dela, contando coisas de Mara, com o olhar e o sentir de filha. Foi incrível. Acho os textos da Thê um dos charmes de Mara Rúbia, a Loura Infernal.

Ao assistir ou ler suas peças, que mensagens/lições ficam no imaginário coletivo?
Realmente, não sei. Cada cabeça, uma sentença, não é? Mas faço o possível para que me entendam. Sei que não distribuo “bombons com licor”, embora faça rir, às vezes, até muito. Dizem que o meu humor está mais para o satírico e o cruel. É verdade. Vejo mais a vida como uma tragicomédia, bem mais do que uma simples comédia. E raramente a vejo de maneira realista. Minha linguagem é essencialmente expressionista. É o que eu acho, mas posso estar errada. É difícil ser crítica de si mesmo…

O novo imortal da APL

O governador Wellington Dias acaba de ser eleito membro da Academia Piauiense de Letras. Foi no último sábado (12), em segundo escrutínio, obtendo 22 dos 34 votos. Sua eleição repercutiu nas redes sociais. Enquanto poucos vibraram com a sua escolha, a maioria preferiu, por motivos políticos e ideológicos, espinafrar sem dó nem piedade. Em comum entre ambos, o desconhecimento da obra escrita por ele. Com as raras e honrosas exceções de sempre, bom destacar.

Por enquanto, são três livros lançados: Macambira (1995/Zodíaco), reeditado em 2020; Tiradas do Tio Sinhô (2007/Oficina da Palavra) e A Melancia do Presidente (2018/Quimera). Escreveu ainda, embora sem publicação, as peças Reizados da Minha Terra e Estamos Todos Inocentes. Sem falar da participação nas coletâneas O Conto na Literatura Piauiense (1981) e Novos Contos Piauienses (1984). Com o texto Maria, Valei-me (1984), recebeu menção honrosa no Concurso João Pinheiro de Contos, da secretaria estadual de Cultura.

A eleição de Wellington Dias para a Academia Piauiense de Letras foi criticada nas redes sociais. Mas o que muitos desconhecem é que o governador do Piauí escreve desde os anos 1980, quando era bancário, foi destaque em concurso e elogiado pela crítica.

Sobre Macambira, disparado seu melhor livro, bom ler o que disse Xico Sá, um dos mais respeitados jornalistas do país: “O escritor Wellington Dias domina a arte do conto e faz dos viventes das terras secas e dos arruados de Oeiras – a primeira capital do Piauí – criaturas de histórias universais. Para quem não é familiarizado com o interior do Nordeste brasileiro, são tipos que até parecem nascidos da imaginação de um autor da escola do realismo-fantástico”.

Ouçamos agora o que falou Cineas Santos, professor e escritor, a respeito das Tiradas do Tio Sinhô: “No início de 2002, fui procurado pelo então deputado federal Wellington Dias. Veio mostrar-me os originais de um livrinho de crônicas ou causos, como ele prefere. Eram historietas engraçadas, tendo como personagem principal um certo Adrelino José Dias, mais conhecido como tio Sinhô. O livro me pareceu interessante”. 

Quanto ao terceiro livro, A Melancia do Presidente, a contista e poeta  Cláudia Manzolillo não poupou elogios, ela que é mestra em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ): “O resgate da tradição oral, da conversa que se alonga e, gostosamente, conquista o ouvinte/leitor é o que nos trazem os textos de A Melancia do Presidente. O autor consegue, por meio de narrativas plenas de humor e ironia, cativar quem se enreda em seus contos. Gente simples e personagens conhecidos se misturam e, lado a lado, os “causos” relatam experiências características do ambiente regional, com sua linguagem própria e peculiar”. 

Dito isso, que tal dar uma passada nas livrarias de Teresina e adquirir, se não todos, pelo menos um dos livros de Wellington Dias? Assim deixamos os elogios estéreis e as críticas infundadas de lado, que nada constroem. E nunca esquecer que, numa disputa como essa, na Casa de Lucídio Freitas, a obra dos autores deve pautar, a despeito de qualquer coisa, a devida escolha. Ou não?

***

Wellington Soares é escritor, professor e editor.

A normalização da morte como medida

 

 

 

Por ocasião do fechamento da editora Cosac-Naify, eu aproveitei a liquidação e adquiri títulos cujos preços de suas magníficas edições me impediam até então.  Entre eles, alguns infantis como a tradução de O pato, a morte e a tulipa de Wolf  Erlbruch. Ao ler fiquei tão assustada que escondi na parte alta da estante, bem distante dos livros que minhas netas costumavam acessar à vontade.

O livro é belo, em desenhos e textos. A ilustração é do próprio autor e os diálogos entre o pato e a morte são construídos em linguagem simples, direta e muito rica. No entanto, considerei desafiador demais para minha capacidade de responder às perguntas que brotariam. Não conseguia ver a morte com a naturalidade que o livro apresenta. Tampouco teria coragem de conversar com as crianças sobre o tema sem uma provocação que me obrigasse. Melhor deixar esse assunto para os pais. Essa é uma das coisas boas de ser avó.

Então, qual a razão da escolha desse livro? O assunto me atrai e me assombra. É frequente no que escrevo e por isso também frequente nas minhas pesquisas. Um dia desses, lendo uma psiquiatra especialista no ramo, encontrei uma explicação para o meu pavor e negação de sua naturalidade. Dizia ela que para o inconsciente é impossível imaginar um fim real. O inconsciente tende a nos impulsionar para a vida. O fim é visto como algo externo e é por isso considerado uma intervenção maligna, um acontecimento medonho. Fiquei satisfeita e aliviada por alguns
instantes. A minha negação da morte, ou visão da morte como algo trágico, nasce do meu desejo de viver.

 

Em 2020, o livro desceu para as prateleiras mais baixas. Estamos há dois anos convivendo diariamente com o tema. Não que antes não morressem pessoas todos os dias. É que a pandemia jogou a morte na roda sem subterfúgios.  Não deu para retirar as crianças da sala.

Para mim, a compreensão filosófica da morte como um fato puro tal qual o nascimento – o ciclo da vida na natureza – que está como pano de fundo do O pato é racionalmente palatável. É um norte, é uma justificativa para o aprimoramento do nosso estar no mundo. É o que dá sentido e brilho à vida. No entanto, emocionalmente não é tão simples assim quando temos aqueles olhinhos brilhantes e cheios de vida diante de nós perguntando: você vai morrer? Nunca mais vou falar com você? Eu vou morrer?

Mas o ponto em que eu queria chegar, quando imaginei este texto, está ainda aqui latejando na minha cabeça, tentando encontrar uma forma no papel enquanto as ideias pipocam no meu cérebro. Uma coisa é entender a morte como parte de um ciclo natural da existência de todas as coisas e não se apavorar diante dela. Outra é ter a normalização da morte como medida para ações de descuido com a vida humana.

Chegamos à marca oficial de 640 mil mortes por uma doença evitável. Evitável porque conhecemos o mecanismo de transmissão e o que precisa ser feito para interromper. O que fazer em parte depende de políticas públicas e em grande parte depende da atitude individual. Temos um governo que declaradamente alimenta o encanto pela morte: na defesa da tortura e da eliminação dos que pensam diferente, no armamento da população civil, na defesa da truculência policial, na liberação de agrotóxicos, na agressão ao meio-ambiente e povos originários, na exposição das pessoas a uma epidemia com a justificativa de que só morrem os que têm que morrer. Esse último é um discurso perversamente interiorizado pela maioria da população, mesmo os que discordam das demais políticas nefastas. Ficamos no mato sem cachorro.

Neste pico da terceira onda, todas as noites vamos pra cama com a notícia da morte de mais de mil pessoas por uma doença evitável. Evitável, é preciso repetir. Paradoxalmente, o que mais se ouve é o discurso de que é preciso viver, de que é tempo demais pra ficar parado com medo da morte. Como se esse pensar individualista absorvesse tortuosamente o entendimento filosófico sobre a realidade finita do homem e fechasse os olhos para as portas abertas a algo maior: a morte do outro, o fortalecimento de um agente mortífero, a extinção. Portanto, um pensamento suicida em que a arma pode ser um vírus ou outras causas que ameaçam a vida humana e cujo antídoto depende do pensar coletivamente e do repensar o viver, que será exigido mais cedo ou mais tarde.

Ficou pesado, né? Hora do ponto final. Uso a descrição de fim do mundo de Ailton Krenak – uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder – para perguntar: não valeria a pena adiar o fim?

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Sergia A. (sergiaalves@hotmail.com)  vive em Teresina-PI, como aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, Memória e Cultura, é autora do livro Quatro Contos, Editora Quimera (Teresina, 2018) e participou de coletâneas diversas: A mulher na literatura Latino-americana, Editora EDUFPI/Avant Garde (Teresina, 2018); Conexões Atlânticas, Infinita (Lisboa, 2018); 2ª Coletânea Poética Mulherio das Letras ABR Editora (Guarujá, 2018); Antologia do Desejo: Literatura que desejamos, Patuá (São Paulo, 2018).

ENEM: Haja coração!

Além do carnaval, fevereiro é o mês de o Inep divulgar o resultado do Enem 2021. Para ser mais exato, será no próximo dia 11. Haja coração, do estudante, até essa data. Dependendo das notas obtidas, nas cinco áreas do conhecimento, ele terá motivo ou não para bebemorar. Antes, vai enfrentar uma via-crúcis das grandes. De sofrimento e noites mal dormidas. Tão penosa, ou mais, quanto a angústia experimentada nas provas. Fala-se da inscrição no Sisu, de 15 a 18 deste mês. O Sisu é o Sistema de Seleção Unificada que leva ao ensino superior. Sobretudo, às universidades públicas, espalhadas pelo país, em razão do caráter nacional do vestibular. Ter calma, confiar no próprio taco e tomar suco de maracujá são coisas mais que aconselháveis neste momento.

Enquanto a pontuação não chega, o aluno dá uma espiada no termo de adesão da universidade onde pretende estudar. Todas as informações ele vai encontrar lá: cursos e vagas ofertados, turnos disponíveis, nota de corte e, importante observar, os programas de assistência estudantil. Sem esquecer também, sob pena de “dançar”, os documentos exigidos no ato de efetivação da matrícula. Afinal, são apenas seis dias, a contar de 23 a 28 de fevereiro, para o enemzeiro dar conta desse processo. E, como sabemos, não é novidade nenhuma, que o brasileiro deixa tudo pra última hora. Como a concorrência é pesada – 2,1 milhões de candidatos disputando pouco mais de 200 mil vagas –, qualquer descuido é fatal.

Quem fez o Exame Nacional do Ensino Médio, em novembro passado, acabou sendo beneficiado sem querer. A razão? O número de participantes foi o menor registrado desde 2005. Essa queda resulta, a rigor, de dois fatores. Primeiro, o estrago causado pela pandemia, que afetou tanto o emocional como disseminou o medo na “galera”. Segundo, a desastrosa condução do Enem pelo Ministério da Educação (MEC), cuja gestão autoritária levou servidores a pedirem exoneração do Inep, instituto responsável pela execução do certame. Basta comparar os números: 8,7 milhões de candidatos em 2014, no governo Dilma Rousseff, e 3,1 milhões em 2021, no governo Jair Bolsonaro. Desnecessário dizer que esse contingente enorme de excluídos tem origem em famílias pobres, são pretos e vêm de escola pública.

Caso seu nome não apareça na chamada regular, a ser divulgada no dia 22/02, o candidato ainda gozará da prerrogativa de se inscrever na lista de espera – de 22 a 28 do presente mês. E o que é melhor, o Inep ainda disponibiliza, conforme sobrem vagas, outras listas de espera. Ao longo do ano, ocorrem várias chamadas no primeiro e no segundo semestres. O estudante só não pode é abrir mão, depois de ter ralado tanto, do sonho de um futuro promissor. Sem falar também das oportunidades abertas com o Prouni (Programa Universidade para Todos) e o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), que dão acesso a faculdades privadas. Até a confirmação da matrícula, recomenda-se cantarolar, no espírito festivo do carnaval, a velha marchinha do Pinduca: “Alô papai, alô mamãe/ Põe a vitrola pra tocar/ Podem soltar foguetes/ Que eu passei no vestibular”.

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Wellington Soares é professor e coordenador do Pré-Enem Seduc Piauí.