Por Wellington Soares, professor e escritor

 

 

No ano em que o Brasil reconquistava a democracia, pondo fim a 21 anos de ditadura militar, nascia Dani Marques, na Maternidade Evangelina Rosa. Estou falando de 1985, data festejada pelos brasileiros, e da capital Teresina, cidade onde nasceu. Mal sabiam os pais que a filhota iria, desde cedo, despertar o gosto pela leitura e guiar-se pelo signo da liberdade.

Aos 12 anos, já colecionava cadernos com as suas anotações, bem como devorava livros de Sidney Sheldon, Jorge Amado, Fernando Sabino, Luis Fernando Verissimo e, acredite, os nada fáceis textos de Clarice Lispector. Esses autores e suas instigantes histórias arrebataram de tal forma essa jovem do Mocambinho que, cercada por livros, ela deixou a solidão de lado – como filha única – e embarcou em viagens prazerosas através das palavras.

Surpreendente é que Dani, mesmo gostando de ler e escrever, formou-se em Química (Uespi) e Nutrição (Ufpi), cursos aparentemente distantes do universo literário. Mas não devemos esquecer que sem ligações com a realidade e alimentos fortalecendo a alma, fica difícil, pra não dizer impossível, construir uma obra de valor estético.

Entre verso e prosa, escolheu o último, ao contrário da maioria de nossas escritoras, optando assim pelo narrativo, sobretudo, a crônica, gênero que encanta os leitores pela leveza e por um olhar poético do cotidiano. Ao fazer isso, remonta à origem da literatura brasileira, em particular à Carta de Achamento, de Pero Vaz de Caminha, tida como certidão de batismo do país.

Seu nome está intrinsecamente ligado a vários aspectos da atual cultura no Piauí, em particular ao cenário da capital: lançamento de fanzines coletivos e individuais, saraus poéticos, “Leia Mulheres”, coluna no site Malamanhadas, literatura feminista e, não podemos esquecer, o “Desembucha, mulher!”, clube de leitura dedicado a textos escritos por manas. Sem falar ainda de Textos feitos em momentos (in)oportunos, sua estreia solo em livro, pequena coletânea inspirada nos sentimentos de maternidade.

Dito isso, façam silêncio e desliguem-se de tudo porque agora, senhoras e senhores, vocês serão fisgados pela bela entrevista da Dani Marques, uma autora de prosa envolvente e carisma irresistível.

 

Vinícius dizia que a construção literária é fruto da vida de cada um (a). Que acha dessa afirmação?

Sim, eu concordo. Eu, enquanto pessoa que escreve, posso dizer que fui forjada nos livros que li e nas minhas vivências. Uma grande parcela dos meus textos reflete minha indignação enquanto mãe-solo.

Você acredita na responsabilidade da literatura com a sua época? 

Totalmente. Cada autor tem sua visão de mundo, porém, enquanto leitora, não consigo consumir nada contemporâneo que seja escrito em cima de narrativas racistas, homofóbicas, machistas, que tenha menosprezo pelas minorias, que tenha desrespeito pelos Direitos Humanos, porque na época em que vivemos essas narrativas não são mais toleráveis. Eu acredito no poder modificador da Literatura, seja para o bem ou para o mal. Tanto que hoje em dia se observa que, paralelo a nossa realidade, alguns autores foram essenciais na construção dessa narrativa delirante que estamos vivenciando, infelizmente.

E a opção pela prosa, quando e como se deu? 

Por ser uma leitora de prosa, acabei me identificando com ela, mais especificamente com a crônica. Acho um gênero maravilhoso, atemporal. Fui fisgada pela prosa.

Seu nome está ligado hoje a dois projetos: “Leia Mulheres” e “Desembucha, mulher!”. São coisas distintas ou complementares? 

Leia Mulheres é uma das melhores coisas que me aconteceu (o Leia Mulheres é um clube de leitura que se propõe a ler obras escritas por mulheres). Eu sou muito grata à escritora piauiense Lorena Nery Borges que teve essa iniciativa de trazer o Leia pra cá em 2017. Sempre fui muito ativa no clube como frequentadora e, em 2018, recebi o convite para ser uma das mediadoras. O Leia está ligado ao nascimento do fanzine “Desembucha, mulher!”, porque uma das maiores façanhas do clube é mostrar que aqui, no Piauí, existem grandes escritoras. Então, a partir do momento que conseguimos conhecê-las, fica a mensagem que também é possível pra gente. O “Desembucha, mulher!” foi um projeto muito bonito, que nasceu dessa perspectiva, eram mulheres lançando seus textos sem medo, sem precisar de validação. Tudo era feito por uma mulher, desde a curadoria, passando pela diagramação, impressão e venda. Então, isso deixava as mulheres muito mais à vontade para desembucharem as palavras que estavam presas em suas gargantas.

Dos fanzines ao primeiro livro, Textos feitos em momentos (in)oportunos, foram alguns anos. Por que a demora e que significado tem essa estreia na sua carreira? 

O fanzine me abriu portas, foi ele que me encorajou a abrir uma editora independente, a Caneleiro Editora. Eu já tinha lançado três títulos e me dei conta que poderia lançar o meu pela editora, aqui vale aquela máxima “santo de casa não opera milagre”. Foi aí que saiu Textos feitos em momentos (in)oportunos, que nada mais é que um exorcismo em forma de textos, que foram saindo nos momentos oportunos, ou inoportunos, que a maternidade me proporcionou.

Quais escritoras marcam a sua voz literária? 

No Piauí, eu gosto muito da Sérgia A, Ananda Sampaio, Lorena Nery Borges, Cynthia Osório e Lara Matos. Além dessas maravilhosas, também sou fã da Jane Austen, Virginia Woolf, Conceição Evaristo, Lygia Fagundes Telles, Angélica Freitas, Marina Colasanti, Chimamanda Ngozi Adichie e Buchi Emecheta.

Em que aspectos a escrita feminina se diferencia da masculina? 

Em tudo. Sabemos que o cânone é eurocêntrico, masculino e branco. A mulher que aparece nessa literatura nos é falada por um homem. A partir do momento que se começa a dar visibilidade à escrita feita por mulheres, assim gosto de chamar, abre-se um leque, uma diversidade infinita de mulheres. Na verdade, essa diversidade sempre existiu, era invisibilizada. Apesar de existirem várias vozes femininas, infelizmente existem alguns pontos convergentes, como o machismo, por exemplo. Essa visibilidade tem o poder de mostrar à sociedade essa mazela que é o machismo em suas várias nuances.