Sergia A.
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Operação Iguana

 

Nada me acontece por acaso. Tudo com o tempo se conecta e arranja um jeito de se justificar. Ou seria possível também dizer o contrário, que tudo é o acaso e esse acaso apenas me espanta? Bom, mas isso é só um jeito de introduzir a história de uma Iguana no asfalto.

Nos meus textões no Facebook (olha o referencial: para a pressa das redes sociais são textões; para o que costumo ler é quase nada) comentei um dia desses sobre a minha tristeza em não ter representação feminina no parlamento à altura das mulheres da minha terra. O que temos por aqui são corpos femininos, sem autonomia ou firmeza, usados para driblar a lei que garante um mínimo de representatividade. Em pleno 2021, estão lá dando vida a uma tragédia ambiental, sanitária e econômica.

Um dia depois aconteceu o fato que passo a narrar.

Desde março de 2020, eu não dirijo. Meu carro fica lá na garagem até que alguém se candidate a fazê-lo funcionar. Nas poucas vezes que precisei sair de casa o fiz de carona.

Um pouco antes de conseguir me vacinar (primeira dose), minha filha precisou do carro. Emprestei e o recebi de volta brilhante, sem aranhas, sem teias e sem cocô de passarinhos. Depois da vacina, ocasião em que o danado foi usado, ela precisou novamente. Ao chegar ao local de trabalho estacionou em frente à vigilância. Alguns segundos depois foi avisada de que havia um barulho estranho no compartimento do motor. Como se algo lá dentro se movesse insistentemente. Astuto, o vigilante abriu de leve o capô e avistou a ponta de um rabo comprido e esverdeado. Formou-se a confusão.

O telefone toca.

– Mãe, cê está bem? teve alguma reação à vacina?

– Tive febre e uma ligeira indisposição. Mas não virei jacaré.

gargalhamos. Senti certo alívio na voz dela.

– Que bom! A senhora não usa o carro, os bichos estão tomando conta!

Desligou e eu fiquei sem entender até receber fotos e um vídeo comprovando o dito.

Diante da minha resposta, ela resolveu chamar a polícia ambiental. Chegaram os homens corajosos e que sabem lidar com a situação. Na primeira olhada, o comandante gritou para seus ajudantes:

– Operação Iguana!

Pronto. Com muito cuidado a bichinha assustada foi colocada em uma caixa apropriada e levada daquele lugar inóspito para exercer a sua missão onde lhe é mais apropriado.

Mas o que isso tem a ver com a introdução?

Tem que uma Iguana, que nada entende de carros, sem nenhum compromisso com o funcionamento de motores, por lá se acomodou por puro oportunismo.  Da mesma forma que as mulheres sem compromisso com a população do meu Estado se apropriam dos lugares no parlamento pela inércia das demais (das que tem inteligência, conhecimento, competência e talento para a política e das muitas que não sabem diferenciar essas das primeiras na hora de votar).

Eis o recado das iguanas.

 

(Foto de Alexis Antonio, cedida gratuitamente por Unsplash License, a quem agradeço)

Clara Mello: “Minha literatura é uma fábula de mim mesma”

 

Por Wellington Soares, professor e escritor

No texto que abre Vênus em câncer, sua estreia na poesia, Clara Mello não tem receio em se desnudar aos leitores: “Nasci com essa incoerência/ um corpo estreito e miúdo/ e uma alma enorme e pesada/ o resultado é leve”. Mas não pense que “Incompatibilidade”, título do poema, termina assim, sem mais nem menos. Ela vai fundo, de forma sucinta, nesse enigma pessoal – “Não vou dizer que não falho,/ às vezes eu caio,/ mas só caio porque voo”.

Voo esse que remonta, em termos literários, ao lançamento de As maluquices do papai, quando Clara tinha apenas oito anos de idade. A rigor, nada mais que os primeiros passos – um exercício literário – de uma garota aberta ao instigante mundo das palavras. Depois vieram A casa de Isabel, que publicou aos 16 anos, e Despedida, narrativas de pegada intimista e psicológica.

A paixão pelos livros, nascida ainda na meninice, a fez descobrir escritores que marcariam sua escrita, a exemplo de Clarice Lispector, Eça de Queiroz, Camões e, não podia faltar, Fernando Pessoa, cuja poética tem estudado ultimamente, a quem considera seu mestre principal. Além de levá-la à carreira literária e concluir Letras na UFRJ, uma das mais respeitadas universidades do país.

Outra faceta importante da Clara, pouco conhecida infelizmente, é a de roteirista de cinema e TV. A famosa série “As guardiães da floresta”, sobre lideranças amazônicas femininas, e “Encantadeiras”, um longa documental, têm sua participação direta. Sem falar ainda, acredite, em duas outras: a de letrista, a exemplos de “Navegante” e “Facada”, em parceria com Patrícia Mellodi; e a de fascinada por astrologia, como boa virginiana que é.

Mas por que ela afirma, na entrevista, que sua literatura é uma fábula de si mesma? Como não sou estraga-prazer, longe de mim essa pecha, deixo que você descubra por conta própria. Adianto somente que Clara é visceral em tudo que faz, uma teresinense radicada no Rio de Janeiro e filha de dois talentosos artistas piauienses: João Cláudio Moreno (humorista) e Patrícia Mellodi (cantora).

 

Há quem diga que nosso tempo não é propício à literatura diante do império da imagem, da velocidade e da internet. Você concorda?

Em parte sim, porque a literatura precisa de contemplação, espaço de interiorização, concentração, e o excesso de telas reduz tudo isso. E tudo tem que ser muito imagético, rápido, tem que ter dancinhas, gifs, memes, artes gráficas elaboradas, ser muito rápido e mastigado, se não, não engaja. E tudo isso é muito difícil. Ter blog, por exemplo, que foi uma marca do meu início de carreira, não é mais tão viável. Ninguém acessa mais. Por outro lado, a criatividade humana é infinita, e eu sou otimista. Eu confio no poder da literatura de resistir às mudanças do mundo. A velocidade traz agilidade, poder de síntese, novas redes sociais voltadas só para a literatura, com seus leitores de nicho, novas formas narrativas e poéticas. Pessoas que não conseguiriam chegar no mercado editorial e estão produzindo e vendendo on-line. Eu vi até poetas de TIK TOK, coisas que nunca pensei que veria. Não dá pra lutar contra certas forças, como a força das redes, então a gente tem que se adaptar na medida do possível e usar a nosso favor.

Ter pais artistas me mostrou que era possível viver de arte e fazer disso uma carreira profissional.

De que maneira ser filha de humorista com cantora ajudou em seguir a carreira literária?

Ter pais artistas, para começar, me mostrou que era possível viver de arte e fazer disso uma carreira profissional. Muitas pessoas têm as mesmas ou até mais aptidões que eu, mas nascem em contextos em que isso seria impossível, uma desonra, um tabu, uma ruptura familiar. Me ajudou a ter bagagem e referências diversas também, observar processos criativos, ter familiaridade com a criação, o mercado, conhecer pessoas. Os ambientes artísticos sempre estiveram próximos. E, de certo modo, já havia algum público preparado por eles disposto a ver o que eu faço. Cada trajetória é única, claro, e cada um passa pelos erros que precisa, mas ajuda muito ter o aconselhamento e a vivência dos pais, tentar se espelhar em certos acertos e evitar alguns equívocos. Além de poder criar em família, o que é um luxo. Minha mãe é uma enorme parceira de composição, por exemplo.

Relendo hoje seu primeiro livro, A Casa de Isabel, escrito aos 16 anos, você gosta do resultado ou faria alguma ressalva?

Estava relendo agora mesmo, depois de muitos anos, quase como um ritual de atleta, de dar impulso para trás para ir em frente, numa maratona. Faria várias ressalvas, vi vários furos na narrativa, coisas que não são tão verossímeis, uma linguagem que mal reconheço como minha, muito formal. Além do tema do suicídio, que se fosse hoje, eu faria com muito mais responsabilidade e cautela. Mas quando lembro a menina boba que escreveu, perdoo tudo e acho que está ótimo. Eu era muito nova, já tinha uma boa bagagem de leitura, mas pouquíssima bagagem de vida. E isso é insubstituível. Mas continuo gostando do resultado, e achando que foi um trabalho bem feito.

Em 2017, você ressurge com outro romance, Despedida, cuja marca da obra é o vazio. História ficcional ou autobiográfica?

Os dois. Para mim é muito difícil separar. Meu mestre maior é Fernando Pessoa, o camarada que contou para a gente que o poeta é um fingidor. Mas eu mesma não sou nenhum pouco fingidora. Só sei fazer literatura tirando de todas as entranhas e vísceras de mim. Eu sou quase um instrumento de experimentação científico da minha arte. Sempre me defini pelo meu ofício, não com adjetivos mas com verbos. Escrevo, crio, comunico, expresso. Isso é o que eu conheço de mim no mais íntimo e profundo. Ao mesmo tempo, dizer que é puramente autobiografia é excluir parte fundamental do meu trabalho e retirar do balaio todos os meus estudos e conhecimentos narrativos, ficcionais, etc. É como se fosse uma fábula de mim mesma. Está tudo ali, mas em simbologia, não literalmente.

Ao lançar Vênus em câncer, um livro de “quase-poemas”, segundo apresentado por você, senti da sua parte uma certa insegurança. Medo das críticas ou receio de não agradar os leitores?

Nenhum nem outro, acho. Definir como quase-poemas tem mais a ver com o meu enorme compromisso com a despretensão. Com a parte de mim que gosta de ser um pouco amadora. Acho que minha pulsão criadora nasce muito desse lugar de leveza e intimidade, que é simplesmente fazer, sem tentar ser nada em especial. Nesse lugar de eterna concepção, uma pré-criação, que nunca vai ficar pronta, porque me interessa muito mais o processo que a suposta chegada. Não inscrever em pedra o que aquele texto é me dá uma sensação de liberdade que me interessa muito. Não sei o quanto disso dá para separar da insegurança ou dos medos, mas como disse Clarice Lispector, nunca se sabe o defeito que está sustentando o edifício todo.

Além do amor, que outros assuntos são essenciais nos seus livros?

Talvez eu esteja escrevendo para tentar responder a essa pergunta, para achar os meus temas essenciais. Na verdade, acho que eu sou bem monotemática. Como disse Adélia Prado lindamente, talvez eu passe a vida inteira reescrevendo meu primeiro livro. Acho que esse tom reticente de sempre se perguntar o que mais a vida pode ser, o mais eu posso sentir, como pequenas coisas nos tiram do automático e nos levam a outras dimensões e olhares. Perceber os detalhes da existência como portais de expansão, é essa coisa sem nome, banal mas ao tempo tempo mágica, que é o assunto dos meus livros.

Pode-se considerar feminista sua obra?
Sim, com certeza. Embora raramente tenha essa temática de forma direta, a minha obra é totalmente sobre a liberdade de escolhas, expressão e vivências de um corpo feminino. Inevitavelmente, toda a minha criação é feminista.
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JL Rocha do Nascimento: “Nossa contística rompeu com o regionalismo tacanho”

Por Wellington Soares, professor e escritor

 

Antes de apresentar o autor, contista consagrado da nossa literatura, faz-se necessário uma trilha sonora, de preferência com Evaldo Braga, um dos ídolos da música brega. Pra começo, que tal Sorria, sorria e Eu não sou lixo? Depois organizar, à maneira do cinema, a história em cenas distintas, mas interligadas. Artes essas que, inspirando a literatura, formam o alicerce da sua produção escrita.

 

Cena 1 

Meu interesse pelos seus textos remonta a 1979, quando ele, junto com Francisco Sales e Manoel de Moura Filho (Leonam), publicam Um dedo de prosa, livro meio artesanal e com capa do genial Fernando Costa.

Cena 2 

Lançamento em 2007, no Clube dos Diários, da antologia Geração de 1970 no Piauí: contos antológicos, reunindo textos de oito autores, entre eles JL e Aírton Sampaio, e belíssima capa de Antônio Amaral.

Cena 3 

Com o salão da Adufpi lotado, ele e Leonam e Aírton Sampaio lançam, em 2012, o mais belo livro erótico das letras piauienses, Dei pra mal dizer, JL abrindo o ousado projeto gráfico de Antônio Amaral com Fesceninos – “Instantes depois, nossas roupas misturadas pelo chão, nossos corpos nus perseguiam um ao outro e nossas carnes, trêmulas, ardiam em brasa.”, a exemplo desse trecho do conto Morangos silvestres.

Cena 4 

Em 2019, inaugura um novo marco na carreira literária, ao lançar Um clarão dentro da noite, seu primeiro livro individual, com boa acolhida dos críticos. Não tardou muito pra publicar este ano, embalado pelo incentivo dos leitores, Os pés descalços de Ava Gardner. E o que é melhor: existem outros no ponto de virem à tona brevemente.

Instigante na obra de JL, independente se coletiva ou individual, são as marcas da modernidade, diferencial que o distingue da maioria dos contistas locais: narrativas urbanas, densidade psicológica, linguagem trabalhada, intertextualidade e, traço importante, valorização do aspecto estético.

Embalado agora pelo som de Paulo Sérgio, outra referência do brega romântico – com as músicas Desiludido e Não creio em mais nada –, gênero  simpático a algumas de suas personagens, deixo com vocês esse oeirense que domina tão bem a palavra, quer como escritor, juiz do trabalho e professor.

  

1. Segundo João Cabral de Melo Neto, a vida não se resolve com palavras. Pode-se dizer o mesmo pra literatura? 

A vida não se resolve apenas com palavras, e sim com atos concretos, mas a palavra é nossa condição de possibilidade de estar no mundo, não temos acesso direto às coisas, tudo que fazemos na vida e no mundo é mediado pela linguagem, portanto, pela palavra. E se não resolve, pelo menos revolve, como diz o poeta. A literatura como recriação verbal da realidade bem cumpre esse papel, porque tanto o seu objeto como o processo de criação são linguísticos, tem a palavra como principal ferramenta.  

2. O que levou você, depois de integrar algumas obras coletivas, a trilhar uma carreira individual? 

Com o falecimento do Airton Sampaio em 2016, o grupo Tarântula de Contistas meio que se desfez, ficando reduzido a uma dupla (eu e o M de Moura filho, que o Bezerra JP muito antes já o tínhamos perdido para a esquizofrenia). O Airton era o elemento agregador do grupo, responsável por nos juntar quando passávamos muito tempo separados um dos outros, o que levou ele dizer, numa certa entrevista, que era uma pena que a literatura tivesse perdido dois escritores. Um para a magistratura, meu caso. Outro para a advocacia, o M. de Moura Filho. O direito bem que tentou, mas nunca conseguiu me separar da literatura. Ao contrário, por entender que o direito tem muito o que aprender com a arte literária, faço aproximações entre direito e literatura nas minhas pesquisas acadêmicas, trazendo o direito para dentro da literatura. Fiz isso na minha dissertação de mestrado e na Tese de Doutorado em Direito Público.  Em 2009, com o lançamento do livro “Geração de 1970 no Piauí: contos antológicos”, o Airton conseguiu reunir novamente o grupo e dessa (re)união surgiu em 2012 o livro “Dei pra mal dizer: contos eróticos”. Em 2016 estávamos preparando um novo livro, tendo a velhice como tema central, quando o projeto foi interrompido pela sua morte prematura. Meio que ficamos órfãos e resolvi partir para o voo solo e tenho incentivado o M de Moura Filho a fazer o mesmo. Em 2019 lancei o meu primeiro livro individual de contos (“Um clarão dentro da noite”), que teve uma boa recepção de crítica e de leitores. “Os pés descalços de Ava Gardner”, o segundo livro, deverei lançar no dia 22.05.21. Há um terceiro livro pronto em fase de revisão e a expectativa é publicá-lo até dezembro de 2021. Neste livro, intitulado provisoriamente “Dentro do olho do cão azul”, eu volto a trabalhar o erotismo como tema central. Há outros projetos. Para 2022, a publicação de mais dois livros, um de microcontos (“O livro de João”) e uma novela em construção, cujo título já está definido: “Diagnóstico precoce da farsa”. Em 2023, o projeto é partir para o meu primeiro romance.

3. Que objetivos buscavam vocês ao criarem o Grupo Tarântula de Contistas e de que forma essa experiência marcou a sua escrita? 

Entre nós havia algo em comum: idades aproximadas, ambiente universitário e a literatura com um sentido ontológico, como um existencial, um modo de ser. Além disso, nos identificávamos muito com o conto, talvez por ter sido este a principal expressão do “boom” literário surgido nos anos setenta e que deu origem a uma nova geração de escritores, contistas, sobretudo. Mas algo nos incomodava. A percepção de que o conto piauiense de até então não refletia esse movimento, ainda estava preso a temáticas regionais, não que esse tema não renda boas narrativas. A questão é outra. É que boa parte das obras não ultrapassavam a simples “contação” de causos, sem qualquer tipo de problematização, tratamento estético ou profundidade, enfim, ninguém se arriscava em penetrar territórios difíceis. O Airton tinha um nome pra isso: regionalismo tacanho. Resolvemos então criar o grupo Tarântula com o objetivo de, com um olhar crítico, propor uma contística centrada na problematização de temas urbanos, universais, mais complexos e provocativos, tudo isso sem descuidar da estética, da qualidade no tratamento dado à palavra escrita. Tais fundamentos são os que ainda movem minha escrita.

4. Ainda se pode considerar, no dizer do Mário de Andrade, qualquer texto um conto? 

Definir o que é o conto sempre foi uma tarefa difícil e olhe que estamos falando de uma das mais antigas formas de expressão literária. Trata-se de uma dificuldade própria dos textos em prosa, que não encontramos, por exemplo, na poesia. Quando lemos um poema, mesmo que tenha sido escrito em prosa, já temos a pré-compreensão de que se trata de um poema e não de um conto ou crônica.

Na prosa, não só a ficcional, recorrentemente se tem definido o conto a partir da distinção em relação aos demais subgêneros (romance, novela, crônica). E nem se diga que a extensão da narrativa é o critério mais acertado, que esse é o pior deles. Tome-se, por exemplo, “Um copo de cólera” e “Menina a caminho”, de Raduan Nassar. O primeiro tem um pouco mais de 80 páginas e é catalogado como um romance. O segundo é um conto, mas tem mais da metade das páginas do primeiro.

A tarefa se torna mais tormentosa quando o desafio é diferenciar o conto da crônica, pois ambos podem ser tanto curtos como longos. Com um agravante, dado que às vezes as estações se misturam e, nesse caso, dão origem a outra dificuldade: o conto pode não ser pura ficção, no sentido de invenção e a crônica pode revelar algo mais do que um simples retrato do cotidiano. Mas isso de se prender a um enquadramento rigoroso é muito complicado mesmo. Em muitos textos de Jorge Luís Borges, por exemplo, que só escreveu contos, fica difícil dizer onde começa o conto e onde termina o ensaio. Ele mistura tudo propositalmente, mas os chamou de contos, foram lidos como contos e foi nessa condição que se tornaram famosos, isso é o que importa.

Muito provavelmente a razão esteja com J. J. Veiga quando disse que a definição definitiva de conto nunca será encontrada e nem isso tem muita importância porque o conto é uma criação de mais de mil faces, portanto, é indefinível, e assim deverá continuar. Ou com Clarice Lispector ao dizer que era inútil querer enquadrá-la. Simplesmente não dava muito bola para essa classificação de gêneros e subgêneros.  Algo parecido já tinha feito Charles Baudelaire que ao publicar Le spleen de Paris (“As melancolias de Paris”), deu ao livro o subtítulo de “pequenos poemas em prosa”. No mesmo sentido, o contista peruano Julio Ramón Ribeyro com o livro “Prosas Apátridas”. Achou que a expressão “apátridas” merecia explicação e justificou pelo fato de que não havia como enquadrar plenamente a obra em nenhum dos gêneros, não pertencia a um território literário próprio. Talvez tenha sido por tudo isso que Mário de Andrade radicalizou ao dizer que “conto é tudo aquilo que o autor chama de conto”. Em certa medida, continua valendo.

5.- Em “fesceninos”, contos que abrem o livro Dei pra Mal Dizer, escrito em parceria com Airton Sampaio e M. de Moura Filho, você mostra sua faceta erótica. A recepção foi a mesma dos livros anteriores? 

Embora recorrente, o erotismo ainda é um tema interditado, quase sempre visto com alguma com reserva, sobretudo por quem não sabe fazer distinção entre erotismo e pornografia. Parafraseando o filósofo alemão Hans-Giorg Gadamer, se o leitor quer compreender um texto, tem que deixar que ele diga algo, numa palavra: tem que dar uma chance ao texto. Foi isso que aconteceu. Quem suspendeu os seus pré-juízos e leu o livro, percebeu que o tratamento dado ao tema foi sério, há nele uma preocupação estética. Infelizmente, alguns leitores fizeram apenas juízos morais e não estéticos.

6. De que maneira Um clarão dentro da noite, seu primeiro livro solo, pode ser tomado como um divisor de águas em sua obra? 

Primeiro, por se tratar do marco inicial de uma virada na carreira. Ontem, as obras coletivas, hoje as obras individuais. Segundo, pelo fato de que o livro reflete o amadurecimento do escritor. É o primeiro de uma série de outros que se seguirão, a começar por “Os pés descalços de Ava Gardner”.

7. Observa-se entre nossos escritores contemporâneos um anseio grande em pertencer a academias literárias, desejo que não víamos tanto no passado. Como você analisa tal fenômeno e se tem essa pretensão?  

Trata-se de um fenômeno curioso, mas impensável há 40 anos. Faço parte de uma geração de escritores denominada pelo Airton Sampaio de “Geração 70”, cuja consciência foi forjada no meio do movimento estudantil universitário e em um ambiente de resistência e de luta contra a ditadura militar. Nesse cenário, havia uma aversão a tudo que, de algum modo, lembrasse ou se identificasse com o sistema, com o “establischment”. Justo ou não, tínhamos a percepção de que as academias de letras, em especial a ABL, assim como qualquer outro sodalício, com a pompa e a circunstância que lhe são próprias, eram alheias à realidade daquele momento da nossa história e isso meio que nos afastou da ideia de pretender pertencer a uma academia. Nossas referências eram Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, que nunca pertenceram à academia, tempo em que jamais poderíamos conceber um Ferreira Gullar envergando o fardão. Quando formamos o Grupo Tarântulas de Contistas na primeira metade dos anos 80, fizemos um pacto: quem ingressasse em alguma academia seria excluído do Grupo.

Claro que olhando pelo retrovisar, penso que, de certa forma, fomos rigorosos demais na crítica, mas há que se considerar o contexto em que a ideia se formou. Hoje não penso mais da mesma forma e reconheço o valor das academias. Quando digo isso, me refiro às instituições sérias e com propósitos definidos e vinculados à literatura, o que não inclui as meramente ornamentais e que, no limite, abrigam membros que nunca escreveram uma linha literária sequer.

Quanto ao anseio dos escritores contemporâneos em entrar para as academias, trata-se de um reflexo da realidade que vivemos hoje. Há uma notória carência de significantes e pertencer a uma academia, não importa qual, pode ser sinal de prestígio, pode render alguns dividendos, enfim serve para aumentar o portfólio do escritor, mesmo porque, não devemos esquecer, vivemos naquele mundo de que nos falava Zygmunt Bauman: fugaz, de tempos líquidos e instantâneos, que privilegia as efetividades quantitativas no lugar das qualitativas. Desse mundo, tudo indica que somos reféns. Quanto mais tentamos nos livrar, mais somos puxados para dentro. Ele, praticamente, nos obriga a sermos felizes, ainda que a felicidade que anunciamos para o mundo inteiro não passe de um autoengano. Quanto a mim, por enquanto continuo imune à picada do aguilhão. Não tenho interesse em ingressar em academia, mesmo porque não tenho méritos para tanto.

Carta do Reino da Terra do Poço sem Fundo

 

Caros amigos,

Trago notícias de um reino distante. Perdido entre a idade média e a pré-história, alternando-se entre valores que remontam à pedra lascada e às adversidades do século XXI. É difícil situar no que conhecemos como História, uma vez que parte do seu povo é adepta de uma estranha seita que nega o tempo e os avanços da humanidade embora use muita tecnologia. Outra parte está sintonizada com os conhecimentos da ciência e da civilização. A última parece ser maioria, mas estranhamente se submete ao governo da primeira.

Devo dizer que por lá o tempo também é apressado. Perdi-me em seus labirintos e quando dei por mim estava no quinto mês do terceiro ano em que ele se instalou e do segundo em que a peste por lá se abateu. Confesso: os labirintos do Reino de onde venho são intermináveis, pegajosos, sugadores de pensamento e coragem. No entanto, hoje consegui me desvencilhar. Estou aqui para enxugar lágrimas e falar de um fio daquele sentimento que parece ser mais teimoso do que triste.

Primeiro a dor, sou do tipo que deixa o melhor pedaço para a última garfada por mais sem lógica que isso possa parecer. Lá no Reino, apesar das profundezas, a luz do sol ainda bate na janela e o Wi-Fi funciona.  O difícil mesmo é abrir o olho quando a fresta de luz atravessa a persiana e os grupos de WhatsApp pipocam notícias do amigo entubado, da tia ou mãe que não resistiu compondo as vergonhosas 400 mil vítimas da peste. Haja repertório para emojis de tristeza e notas de solidariedade. Sem falar do constrangimento de agradecer diariamente por ter a si e os seus a salvo. Mais difícil ainda para quem, como eu, não usa referências religiosas comuns naquelas terras. Além de não ter prática, tenho dificuldade em entender um pai que escolhe qual filho merece proteção. A palavra desígnios há muito se perdeu do meu vocabulário, porém por lá se ouve muito que existe um deus no controle. Aceito de melhor grado a exaltação de um trecho do seu livro sagrado que diz “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”

A TV também funciona direitinho. As telas estampam, além das covas e cruzes, a morte das florestas e de ampla diversidade que dela sobrevive. Muitos números e análises vazias. Ou que não repercutem como deveriam. Aqui já não se sabe se o problema está no modelo que de tanto se repetir esgotou, na estranha surdez imposta pela seita ou no abatimento dos que não fazem parte dela. O certo é que o cinismo e a mentira dão o tom e colocam a todos em risco.

O espantoso é que a população do Reino está consciente de que o tal vírus que causa a peste é super frágil. Do tipo que morre com água e sabão. Sabe que é o corpo humano que o fortalece e dissemina e uma vez fortalecido não há remédio que o derrube, a não ser a reação do próprio corpo. Aí entra a estranheza do comportamento dito novo normal no Reino. Para não ser vista como covarde pelo Rei, uma faixa da população que minha avó chamaria de meia-carga (que se julga rica por ter uma casa, um carro) se oferece em sacrifício por amor à pátria. Faz festa, passeia e dispensa equipamentos de proteção invocando o artigo quinto da Constituição. Há também outra classe que se submete ao sacrifício: a dos pequenos empreendedores. Uma nova espécie de escravatura, em que o escravo é levado a crer que é livre. Sem questionar direitos, são os heróis da nação.

Para não mais me alongar, vamos ao fio de sentimento teimoso que escorreu pelas janelas por esses dias. Não sei se já podemos chamar esperança. Chegaram, por fim, as vacinas para grupos de idosos. Uma antiga estrutura chamada SUS, que milagrosamente ainda se mantém de pé, tem dado conta da enorme tarefa. Além disso, o Senado do Reino está investigando os desmandos do Rei. Esse e sua tropa de choque estão em desespero.

Espero que no próximo desvencilhar dos labirintos, as notícias sejam mais animadoras. Penso que o sentimento me pegou de jeito.

Até.

(imagem: Pixabay License, gratuitamente cedida)

A literatura do fim do mundo em Vargas Llosa

Nathan Sousa
Poeta, ficcionista, ensaísta e dramaturgo

Certo dia, o monumental Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, caiu nas mãos de outro gigante das letras da América Latina: Mario Vargas Llosa. O escritor peruano, figura fundamental do chamado boom da literatura latino-americana, empreendeu uma jornada pelo caminho trilhado por Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, na Guerra de Canudos. Figura central da obra de Euclides, Antônio Conselheiro percorre o sertão da Bahia. Desta empreitada nasceu a obra La Guera del Fin del Mundo (1981). É sabido que a ficção tem a função de ajudar o real a se revelar, ao contrário do que pensam, aqueles que relegam a função da literatura a mero agente secundário. Não me acanho diante das palavras, essas bailarinas que revelam a “alma” da realidade.

A Guerra de Canudos aconteceu entre os anos de 1896 e 1897. O evento se deu no começo da Primeira República. Tratava-se de um regime incompreendido pela população brasileira. A Guerra de Canudos, uma contra resposta ao Regime, acontecia em um Brasil que o Brasil não conhecia. Foi o próprio Vargas Llosa, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2010, quem usou de fina ironia na dedicatória de seu livro: “A Euclides da Cunha no outro mundo”. A figura messiânica de Conselheiro era tida por seus seguidores e ainda concebida por muita gente que habita aquela região, como uma espécie de santo e profeta. Um anti-herói a serviço do povo, contra os ideais de uma República incompreendida pelas massas. O romance de Varga Llosa se passa entre Salvador e Canudos. O Conselheiro trabalha como restaurador de templos católicos e de cemitérios pelo interior da Bahia.

A utopia nasce onde a realidade fracassa, ainda que a busca não seja por outro lugar para se viver, mas para o mesmo, modificado, ainda que seja no fim do mundo.

Mario Vargas Llosa nasceu em Arequipa, Peru, no ano de 1936. O autor de La ciudad y los perros (1963) e de Conversación en La Catedral (1969), dois dos seus livros mais conhecidos, faz uma releitura crítica da História em La Guera del Fin del Mundo (1981), ampliando o campo de ação da ficção através do traço dos personagens e do uso excessivo da intertextualidade. A República era a simbolização de uma utopia: o desejo de se ter um país sem desigualdades sociais, provenientes da fortuna monárquica que marcava o Brasil. Euclides traçou um perfil ensaístico, sistemático, científico, físico e psicológico de Canudos. Vargas Llosa explorou os meandros da Guerra através da ficção com seu lado subversivo, obscuro, radical. Admirado e odiando em várias partes do mundo (características típicas dos grandes escritores), Vargas Llosa apresenta o caráter subjetivo de um momento tão importante e tão esquecido da realidade brasileira, onde as contradições políticas, sociais e econômicas se acentuavam cada vez mais. Era a vez do trabalhador campesino, vitimado pela fome, pelo descaso e pela penúria de sua condição de vida, ser visto com olhos que, até então, ninguém viu. A resistência, em Canudos, dava voz e vez aos que eram considerados como bandidos a favor da “desordem” nacional. Uma afronta ao latifúndio. Antônio Conselheiro, restaurador de igrejas, teve na Igreja Católica seu principal denunciador. A adesão às seitas religiosas foi inevitável. Ele, que nunca pregou contra a Igreja Católica, mas que a defendeu como poucos em seu tempo.

Curiosamente, não há, na obra de Euclides, nenhum relato acerca do cordelismo, expressão popular iletrada, típica da região de Canudos, local marcado por dois elementos: o misticismo e o cangaço. Com esses subsídios, tem-se a esperança em um “salvador” à maneira de D. Sebastião, esvanecido na batalha de Alcácer-Quibir. E uma implícita louvação ao sertão, tal a Terra Prometida. Diante deste cenário, o caminho era o da rebeldia violenta. Ou melhor, pegando de empréstimo as palavras de Euclides da Cunha: da ação “no fio da espada”.

Como uma das figuras de destaque em La Guerra del Fin del Mundo tem-se o “Jornalista Míope”. Descrito apenas desta maneira, trata-se de um personagem que trabalhava para o periódico de propriedade do Barão de Canabrava. Um representante político com fortes ligações às oligarquias rurais. Deste matutino, passou a trabalhar para o Jornal de Notícias, que tinha como figura central o senhor Epaminondas Gonçalves, um representante republicano. Observa-se que Vargas Llosa desvia o enfoque da concepção local para uma ampliação de interesses ideológicos nacionais com o amparo da mídia formadora de opinião. A narrativa se dá em terceira pessoa, donde tem-se um agente que usa de fina ironia, emitindo juízos de valor em várias passagens do livro.

O Jornalista Míope segue Jurema, esposa de Rufino, e o Anão, um ex-integrante do Circo do Cigano e também exímio contador de histórias trovadorescas, dos tempos da Idade Média. Tais episódios transformam o ponto de vista do Jornalista Míope a respeito de Canudos. Ao perder seus óculos, ele passa a depender de Jurema e do Anão. Acontece a ligação entre a sua mente (analítica e perquiridora) e sua visão do mundo e do imaginário do homem do sertão, além do altruísmo e do sentimento de humanidade do mesmo. Canudos passa a ser apenas uma amostra do retrocesso do sertão. Ultrapassando as barreiras impostas pelo cientificismo de sua concepção da Guerra de Canudos, suas certezas começaram a desmoronar. Até o amor lhe flechou o peito na pessoa de Jurema. O tempo narrado oscila entre o anacronismo e o avanço acelerado.

Outro personagem aparece no livro como representante, digamos assim, da ciência: Galileo Gall, o frenólogo escocês. Este muda seu nome para tentar escapar das autoridades de várias partes do mundo, por ter cometido crimes em prol da revolução. Obcecado pelos ideais de liberdade, Gall acaba chegando a Canudos. É ele quem dá notícias do “fim do mundo” para o mundo. Suas ideias e suas ações fazem com que Epaminondas Gonçalves encomende sua morte. O mesmo Epaminondas Gonçalves, com quem Gall (o homem dos cabelos vermelhos, rebeldes, símbolo do socialismo e do comunismo) faz um acordo de transporte de armas para Canudos. Temos aí dois elementos defensores da bandeira da ruptura: Antônio Conselheiro (o barbudo de camisolão azul) e Galileu Gall. O primeiro, representante do medievalismo impregnado no Nordeste do país. O segundo, o mundo intelectualizado da costa marítima.

Quem conhece a rota até Canudos é Rufino, esposo de Jurema. Os dotes de Jurema violentam os desejos sexuais de Gall, que a estupra. Rufino sente sua honra também violentada e resolve matar o escocês (também a mulher). Antes, precisa dar uma surra na cara do frenólogo, símbolo máximo da falta de respeito para o sertanejo. Para legitimar a morte de sua mulher, Rufino recebe a autorização do Barão de Canabrava, em uma clara manifestação dos ideais feudais. O embate entre esses dois personagens demostra uma nítida relação entre o velho e o moderno; entre jagunços e republicanos. Ambos morrem. Não há vencedores. Morrem como muitos em Canudos e do mesmo motivo: a incompreensão.

Já o ponto de vista político fica ao encargo do Barão de Canabrava. Defensor fervoroso da República, o coronel Moreira César é outro personagem de destaque dentre tantos. O Barão era um fiel representante da elite agrária da Bahia. O que estava em jogo era a defesa da riqueza até então conquista pela elite. Mas Canudos adveio. Um de seus aliados era exatamente Moreira César. Gravemente ferido em um conflito contra Canudos, Moreira é levado para Calumbi, propriedade do Barão. No diálogo entre os dois fica claro um choque de opiniões. O radicalismo e a lucidez de Moreira afrontam o conservadorismo do Barão. Passado algum tempo, o Barão depara-se com sua esposa em estado de loucura. Neste momento, ele recebe a visita do Jornalista Míope que lhe pede emprego em seu jornal e uma ajuda para o tratamento da tuberculose que acometeu o Anão. A conversa entre os dois é longa e indutiva. Ao contrário de Euclides da Cunha, sob a tutela da ficção, Vargas Llosa busca outras vozes que não apenas a dos vencedores, e estas vozes manifestam uma reavaliação dos conceitos, principalmente da nossa condição humana. Trata-se de um período onde as tensões em volta da utopia da América, criada pelo colonizador europeu com as investidas ultramarinas, tomava corpo no interior da Bahia, o que demarca, claramente, uma herança do feudalismo.

O ideal de justiça e a esperança por um mundo melhor, tinham, nas pregações do Conselheiro, um viés apocalíptico. Deve-se destacar ainda dois nomes que exerceram forte liderança em Canudos: o ex-cangaceiro João Abade e o índio Pajeú. Canudos assemelha-se, em certos aspectos, a Macondo, de Cem Anos de Solidão, obra máxima de outro ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, o colombiano Gabriel García Márquez, no que diz respeito ao caráter missionário fantástico: passavam por lá curandeiros, mascates, romeiros, cartomantes e gente de todas as estirpes. O cenário era propício para ampliar o leque de incertezas a respeito do futuro de suas vidas: a proximidade da virada do século. Outros personagens de destaque são Maria Quadrado, que foi estuprada quatro vezes até tornar-se “Mãe dos homens” em Belo Monte, nome dado a Canudos, e Beatinho, o imitador de Antônio Conselheiro. Com a iminência da morte de Antônio Conselheiro, seus seguidores temiam a possibilidade de ficarem órfãos. Nota-se como sua figura mística conseguiu dar uma nova roupagem à concepção de pobreza. Pode-se dizer, a grosso modo, que ele “dignificou” as mazelas pelas quais os sertanejos passavam com frequência. A rebeldia de Conselho, ao queimar os editais, decretou sua guerra contra o poder opressor. Daí nasce sua utopia e a de seu povo.  E a utopia nasce onde a realidade fracassa, ainda que a busca não seja por outro lugar para se viver, mas para o mesmo, modificado, ainda que seja no fim do mundo.

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