Luana Sena
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No rádio do seu coração

(foto: Mauricio Pokemon)

(foto: Mauricio Pokemon)

Parece hoje, fechar os olhos e lembrar da viola de madeira verde do mau pai, tocando os primeiros acordes de Preta Pretinha. Do alto dos meus quatro ou cinco anos, eu bateria em qualquer um que me dissesse que aquela canção não era nossa.

“Eu sou um pássaro que vivo avoando…”

Anos depois eu captei alguém dizer: “toca aquela do Moraes Moreira”. Aprendi aquele nome – e que, apesar da gente pegar pra si, as músicas tinham dono.

Já adolescente eu me encantei pelos Novos Baianos, os filhos de João. A loucura de morar num sítio com menino e música, gastar a grana do disco com chuteira e bola, morar num ap no Rio com o lendário quarto da bíblia (tudo isso tá aqui nesse doc, que você não deve passar por essa vida sem ver). Eu queria ser da turma deles, sorrir e cantar como Bahia.

(foto: Mauricio Pokemon)

(foto: Mauricio Pokemon)

Assistir Moraes Moreira ontem foi revisitar essas memórias. O som da infância. A trilha sonora da saudade. O show “Anos 70 e hoje” trouxe um repertório pra agradar todas as gerações – de “Mistério do Planeta” (Moraes Moreira / Galvão) a “Flor do desejo” (Fausto Nilo/Moraes Moreira/Pepeu Gomes). Todos os maravilhosos frevos, entre eles o imortalizado por Gal Costa, “Bloco do prazer” (Moraes Moreira/Fausto Nilo), que transformou o Teresina Hall num baile de carnaval. Depois veio “Sintonia” (Morares Moreira) e até homenagem a Teresina com “Cajuína” (Caetano Veloso).

O show é parte de um projeto dos Correios, “Pombo Correio”, que passa por cinco capitais e tem uma contraproposta social: na véspera, Moraes fez uma apresentação fechada na Associação dos Cegos do Piauí (Acep). Além disso, os Correios selecionam cartas de pessoas separadas pela saudade e promovem o reencontro delas no show. Em Teresina, Renata, que mora há dez anos em São Paulo, reencontrou a mãe, Raimunda.

E eu me reencontrei comigo.

Meu passado, minhas histórias.

Estava tudo lá, em cada canção, que são minhas, e até podem ser do Moraes também.

Cenas do Cotidiano

Pendurei-me. O ônibus estava abarrotado de gente. Gente contrariada, nervosa. E assuavam o nariz, esbravejam e disputam cada centímetro de espaço. Uma longa briga. Não podiam se dar ao luxo da educação. Antes, tinham que picar o cartão no horário determinado e sobreviver a cada dia.

No empurra-empurra, quase como um caroço de abacate expelido, cheguei ao cobrador. Difícil até para retirar dinheiro do bolso. O cobrador batia uma moeda no ferro de sua mesa, acelerando: “Um passinho à frente”, dizia. Paguei a contragosto. Devia ser muito bem pago para agüentar aquilo. Fui sendo levado pelo povo que entrava a cada parada do ônibus. Lá fora chovia. O fedor de cachorro molhado só era superado pelo nauseabundo creme que as mulheres usavam no cabelo úmido.

Não dá para comparar aquela compressão com uma lata de sardinha. Na lata, as sardinhas estão ajeitadas com um oleozinho e tudo. Submetido às exigências brutais da vida cotidiana, meu corpo era parte de todos os corpos; um imenso corpo de ferro sacolejante.

À custo, fazendo uso de toda minha habilidade e força, encaixei-me em um vão. Alguém se jogara na correnteza que desaguava na saída do veículo. Recobrando o fôlego, observei as pessoas sentadas. O privilégio dos bancos nos diferenciava. Invejei cada um dos ocupantes. E o ônibus corcoveava, sacudia e embrulhava o estômago. Corria, parecia estar fugindo do inferno tendo todos os demônios atrás. Do lado esquerdo, um sujeito parrudo, através olhares, dizia: “Não empurre, senão…” Lancei olhar de desdém à sua ameaça: “Grande coisa!” Que pensava ele: eu era excelente espadachim de olhos!

Ao meu lado direito, uma moça segurava um pacote rosa que lhe tomava todo tronco. Reparei, puxa, era um bebê! A garota segurava a alça do banco com uma mão e com a outra, aparava sua delicada carga. Automaticamente olhei para os bancos. Ninguém se preocupava com o perigo que corria aquela criança. Vibrei a espada dos olhos como uma metralhadora a derramar balas censoras no povo sentado.

Um rapaz, sentado à janela, pareceu ler meus pensamentos beligerantes. Depois de complexa manobra, posicionou-se em pé. Uma senhora tentou adiantar-se para sentar. Barrei sua passagem acintosa e brutalmente. Com um jogo de corpo, dei inteiro acesso à garota.

Acomodada a garota agradeceu com os olhos, após longo suspiro de alívio. Observei-a lidar com seu bebê. Ela parecia a mais dedicada das mães. Mas seu semblante denunciava preocupação. Estava atenta demais. Sei lá porque, impulsivamente abaixei até a jovem e perguntei:

-O que tem o nenê?

Olhou-me assustada, com jeito de pássaro indefeso. Ao notar meus olhos desarmados, respondeu apressada:

-Nasceu doente. Estou levando ao Hospital das Clínicas para hemodiálise. De dois em dois dias ela necessita de transfusão de sangue. A voz era um fiapo de manga.

Seus olhos ficaram úmidos. Uma doce, estranhamente doce dor, esparramou-se em seu rosto, empalidecendo-o. Havia enorme aflição no que dizia. Aquilo me atingia em cheio, chegava a doer em mim. Acordava uma agonia antiga, escondida pela claridade do dia. Não tinha intenção de me apiedar e muito menos sentir compaixão pôr alguém. Não queria me envolver em dramas alheios. Os meus já estavam pesados demais para mim. E ali estava eu; nu e sem palavras, embaraçado, de repente quase chorando.

A garota voltou aos seus cuidados com o nenê, toda compenetrada. Toda minha humanidade se derramou sobre ela. Eu a senti mãe, como minha mãe. Desejei, do fundo do coração, toda saúde e felicidade do mundo a ela e seu bebê. O ônibus foi esvaziando e pude me sentar também, agora já humanizado.

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Luiz Mendes

10/10/2015.

A cena muda

O deputado jaz no seu caixão mortuário, cercado de coroas e lágrimas dos familiares. (O deputado sentiu-se mal na Assembleia, quando, emocionado, dizia-se vítima de um complô perverso da esquerda. As ambulâncias não chegaram a tempo. Misteriosamente, pifaram a meio caminho, todas).

Amigos e correligionários vêm-lhe prestar a última homenagem. A cada cumprimento compungido, a viúva chora. Do burburinho no salão, de vez em quando sobressai-se um riso. Paira no ar um contentamento mal disfarçado. (O deputado estava sendo pressionado pela operação Lava-Rápido e diz-se que, se abrisse a boca, muitas reputações rolariam)

Súbito, cresce o burburinho. Lá fora, a turba se agita. Gritos e xingamentos invadem o salão, enquanto a polícia tenta conter os grupos dos sem (sem teto, sem terra, sem história, sem saúde, sem juízo, sem sem), que ameaçam o nobre recinto, atirando ovos e tomates, num destemperado desrespeito ao poder constituído.

Rodeado pelos seguranças, está entrando o Presidente da Casa e sua comitiva. Com suas roupas salpicadas de ingredientes culinários, os ilustres políticos mais parecem personagens saídos de uma comédia pastelão. Um cordão de puxa-sacos adianta-se na faxina aos ternos e gravatas aviltados.

A viúva recebe um buquê de rosas vermelhas. Numa cena comovente, beija cada rosa antes de colocá-la sobre o corpo inerte do amado. (Certa vez, o deputado a presenteou com uma chuva de rosas vermelhas, caídas de um helicóptero). O falecido parece sorrir. Assustada, ela cobre com um lenço aquele querido sorriso de descaramento.

Mas nem a dor da viúva consegue inibir a absurda alegria que, como erva daninha, alastra-se pelo ambiente.

De repente, ouve-se uma espécie de rugido vindo das entranhas do morto. Os familiares e um curioso que levantava o lenço de decoro da cara do parlamentar, recuam empanicados: “Oh!”. Um arrepio percorre os circunstantes: “Oooooooh!”.

O deputado levanta a cabeça, olha em torno, senta-se, retira os algodões das narinas, o lenço que lhe segura o queixo e sorri, traquinas, qual um menino que aprontou mais uma. Mas antes que o ex-falecido abandone o caixão, ouve-se um estrondo e um cogumelo de fumaça engole o salão, que se desmancha como que sugado pelas profundezas da terra.

“Povo implode deputado e seus cúmplices”, diz um locutor de TV.

Lá fora, soa a batucada dos sem, que, em profano delírio, canta: “não chore não, vovó, não chore não…”

Rio-São Paulo de Revestrés

(Por Victória Holanda. Fotos de São Paulo: Maurício Pokemon/Fotos do Rio de Janeiro: Rafaela Freitas)

Literatura, arte, cultura e algo mais. Essa frase que vem junto com a palavra Revestrés não é à toa. É que esse algo mais pode ser muita coisa e, várias delas ao mesmo tempo. Não gostamos de ficar quietos. Quem sabe fomos inspirados por Fernando Pessoa que deixou o conhecidíssimo recado: navegar é preciso, viver não é preciso.

Pois foi nesse barco que pularam alguns dos nossos tripulantes. Deixando um pouco a rotina de lado durante uma semana, nossa equipe seguiu suas respectivas viagens. Enquanto Maurício Pokemon e Luana Sena desembarcavam em São Paulo, Victória Holanda chegava ao Rio de Janeiro.

Na vasta São Paulo, fotógrafo e repórter se depararam: show de Caetano e Gil, o artista Tec Fase pintando mural em prédio com vista para o Minhocão, instalação de Berna Reale no 34º Panorama da Arte Brasileira e ainda se encontraram com o artista Flip, na abertura da mostra “Fliprints, 10 anos de impressões”.

O artista Flip, na abertura da mostra "Fliprints, 10 anos de impressões" com toda sua produção impressa no Brasil e no mundo feita nessa década, no Pico do Glicério.

O artista Flip, na abertura da mostra “Fliprints, 10 anos de impressões” com toda sua produção impressa no Brasil e no mundo feita nessa década, no Pico do Glicério.

O artista Tec Fase pintando um mural em um prédio, em cima de uma empena, com a vista pro Minhocão. A ideia do mural é refletir criticamente a relação das pessoas com os problemas reais.

O artista Tec Fase pintando um mural em um prédio, em cima de uma empena, com a vista pro Minhocão. A ideia do mural é refletir criticamente a relação das pessoas com os problemas reais.

Instalação de Berna Reale no 34º Panorama da Arte Brasileira – Da pedra Da terra Daqui - 03 out - 18 dez, no MAM - SP.

Instalação de Berna Reale no 34º Panorama da Arte Brasileira – Da pedra Da terra Daqui – 03 out – 18 dez, no MAM – SP.

Caetano e Gil - Show "Dois Amigos, um Século de Música" - CityBank Hall - SP

Caetano e Gil – Show “Dois Amigos, um Século de Música” – CityBank Hall – SP

Enquanto isso, o Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, na Tijuca, estava sendo palco de encontros históricos, aulas diárias e apresentação de trabalhos sobre a produção e reflexão em dança no 9º Seminário de Dança Angel Vianna.

Tatiana Leskova e Angel Vianna: Um encontro histórico entre os maiores expoentes da dança clássica e da dança contemporânea com a presença de Ana Botafogo, Lidia Costalá e Fauzi Mansur.

Tatiana Leskova e Angel Vianna: Um encontro histórico entre os maiores expoentes da dança clássica e da dança contemporânea com a presença de Ana Botafogo, Lidia Costalá e Fauzi Mansur.

Aula com Fauzi Mansur (RJ) - Ballet Clássico

Aula com Fauzi Mansur (RJ) – Ballet Clássico

Angel Vianna e Helena Katz na Conferência Corpo e Tecnologia.

Angel Vianna e Helena Katz na Conferência
Corpo e Tecnologia.

Se viver não é preciso, navegar é mais que fundamental.

O Sentido da Vida

Nascemos inteiramente desinformados. Principalmente sobre o que fazer para que a existência nos seja satisfatória. Até a pouco tempo, estávamos presos a um sistema. Determinados ao nosso papel na vida, do nascimento à morte. Não havia preocupação de satisfação pessoal em viver. Havia o dever. A promessa era de que se o cumpríssemos, encontraríamos o prazer da vida.

Hoje temos a nossa consciência expandida e nossas liberdades. Mas, não sabemos bem o que fazer de nossas possibilidades. Fazemos o que os outros fazem. Quem não se conforma, e exige significados, vive a beira do abismo existencial. Nietzsche talvez possa ser considerado, dos humanos, o que mais tangenciou abismos.

Existe uma razão de estarmos vivos? E seria preciso que existisse? Essa é abordagem desce aos alicerces da realidade humana. Nossa existência carece dessa resposta. Todos os outros significados; aquele dos instantes; das circunstâncias; trabalho; escola; comunidade, família e do indivíduo estão contidos nessa resposta. Ela permeia do mais simples ao mais complexo da vida humana. A idéia de Deus é exemplo mais claro do que estou dizendo. Partindo da crença em Deus, ocorre encadeamento de idéias que chega ao que fazemos com nossos órgãos genitais.

Não somos filósofos para praticar tais malabarismo mentais. O que precisamos é tornar nossa existência satisfatória agora, agora. Os significados que agregam valores atualmente, são os de mercado. O marketing promove valores de acordo com lucros decorrentes.

Para a realização humana, é preciso ter o carro do ano; a casa dos sonhos; esposa (o) de acordo com padrões da moda; filhos em colégios caros; amante de cabelos platinados; casa de campo, de praia. O homem consciente dessa manipulação tenta outros valores. Despreza a banalidade de tais estímulos. O significado da vida parece não estar nas coisas. Criamos mecanismos de valoração que não nos satisfaz. Quanto mais temos, mais carecemos. Parece que ter é pouco.

Penso que cada momento compõe uma circunstância. As circunstâncias exigem decisão. No dia todo talvez não seja encontrado significado. Mas para cada unidade desse dia, existe seu motivo de ser. No mínimo compõem o dia. Os significados são ímpares. Parece também que há um significado inerente, adormecido em cada circunstância. A nossa consciência o fareja como um cão fareja a presa. É a principal tarefa da existência, já que sem precedentes.

Os significados estão presentes no objeto, ou é a consciência que os cria? Desde o inicio da filosofia essa discussão permanece. É a idéia do objeto que existe, ou o objeto em si? A finalidade não é aprofundar. A proposta é mais linear. As situações existenciais estão grávidas de significado. A consciência os descobre de acordo com a definição de cada um. Um religioso entenderia significado diferente de um materialista. Em suma: o objeto do significado está nas situações existenciais, mas há uma interação no ato de descobrir.

Há, em nós, uma insatisfação relacionada à vida. Nem sempre conseguimos definir o motivo de vivê-la. Surge então vazio existencial que nos leva à angústia. Essa insatisfação, essa angústia, são módulos propulsores para ultrapassagens. É o desespero existencial a nos triturar. É assim que procuramos adquirir novos conhecimentos, criamos ou inventamos uma vida nova. E, num processo semelhante à tese darwiniana das mutações, somente o for melhor se estabelece.

Na verdade, se nascemos desinformados, cabe a nós nos informar. A cada novo dia, descobrir novas idéias e buscar saber de é feito o mundo que nos cercam. O vazio e a angústia só existem porque são infinitas nossas possibilidades.

A busca pela motivação da vida é incondicional e ocorre sob quaisquer condições ou circunstâncias.

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Luiz Mendes