Nathan Sousa

“VAMOS NESSA”? – Nathan Sousa entrevista Xaxá Nobre, dos Geniais de Amarante

 

Poucas são as pessoas que moravam no Piauí, entre os anos 80 e 90, que não foram a uma festa animada pela maior banda da história do estado: Os Geniais de Amarante. Falar de Os Geniais é, sem sombra de dúvida, falar de Xaxá, o vocalista. Nascido em 21 de fevereiro de 1961, no Juazeiro do Norte-CE, Vicente dos Santos Nobre virou Xaxá Nobre. Da performance eletrizante ao estilo glamoroso e despojado – como se incorporasse um misto de Ney Matogrosso e Robert Plant – Xaxá deixou (nos palcos de um sem número de clubes espalhados pelo Piauí, Maranhão, Ceará e Pará) marcas de alegria, deboche e leveza, traços que só os que nasceram para o show sabem sem titubear. Agora, depois de tantos anos longe deste cenário e de estar superando com a mesma desenvoltura uma doença grave, o cara ainda tem fôlego para mais. Vem um livro por aí. É mole? Com vocês: Xaxá Nobre!

Nathan Sousa – Após 40 anos de carreira e agora, por ter tido um granuloma na prega vocal esquerda, com uma abdução total da voz, olhando para suas fotos, quando você atuava nos palcos do Norte e do Nordeste do Brasil, no que você pensa? 

Xaxá Nobre – Quando meu médico, o Dr Erick, me deu a notícia de que eu não ia mais poder cantar, na hora foi um baque muito grande porque era o que eu mais amava fazer: cantar e levar alegria para as pessoas. Mas, ao mesmo tempo, eu estava muito feliz e agradecido a Deus por estar vivo. Hoje, olhando minhas fotos e assistindo aos vídeos das minhas apresentações, sinto o quanto foram valiosos esses 40 anos de carreira. Não tenho nenhum tipo de frustração porque tudo o que eu fiz foi com muito amor, muita dedicação e respeito à minha legião de fãs. Deus me deu uma nova chance de viver, e isso, no momento, é a coisa mais importante na minha vida, ou seja, tentar viver com saúde.

NS – Antes de ser cantor você foi modelo. Como se deu essa mudança de ofício, se é que podemos chamar assim? 

XN – Em 1976, aos 16 anos de idade, fui convidado pela DIJOM JEANS para desfilar em um lançamento de sua marca em Recife. Eu já tinha 1,80m de altura e era apropriado para os padrões da época. Fiquei por 4 anos desfilando em alguns freelances, mais não era realmente o que eu queria para a minha vida. Eu tinha muita vontade de ser cantor, e foi aí que surgiu a minha primeira oportunidade de cantar em uma banda profissional: o MC-8, de Picos.

NS – “Tudo o que disseram sobre mim não é importante. Quando eu canto, eu acredito. Sou honesto”. Tomando como base esta frase de Frank Sinatra, o que o Xaxa de hoje diz sobre o Xaxa de Os Geniais? 

XN – Se falarem mal ao meu respeito, eu respondo com o meu canto. Eu acredito que a honestidade muda o mundo e, assim, você sempre terá o respeito de todos. O Xaxá de hoje leva a vida com mais leveza e carrega uma bagagem muito grande. Aprendi nesses 40 anos. Todos os que me conhecem sabem que nunca fui um artista de ostentação. Sempre procurei viver com dignidade em relação ao meu padrão de vida. Nos Geniais, eu tinha tudo ao meu alcance em termos financeiros. Eu era o cantor de banda mais bem pago do Nordeste. Nem isso, nem o sucesso virou minha cabeça porque eu sempre tive os pés no chão. Ganhei muito dinheiro, gastei muito também, mas não com coisas frívolas. Foi mais com meu próprio bem-estar. Sempre fui um cara vaidoso. Gosto de me vestir bem e de ter uma casa com muito conforto. Mesmo hoje, aos 60 anos, procuro me cuidar da melhor maneira possível.

Eu cantava e dançava. A galera veio à loucura. Muitos aplausos, gritos e muita viadagem, lógico!

NS – O Doutor Miranda (então prefeito de Amarante) viu você atuando e lhe procurou para que você fosse contrato. Como se deu esse episódio? 

XN – Em agosto de 1984, eu estava cantando em uma churrascaria em São Raimundo Nonato, com a Banda ELLU´sS, de Picos, e Os Geniais estavam tocando em um clube da cidade. A Banda ELLU`S encerrava sua apresentação mais cedo e íamos todos descansar no hotel. No entanto, eu tinha muita curiosidade para ver Os Geniais tocando, porque, naquela altura dos acontecimentos, ela já era considerada a melhor banda do Piauí. Então eu fui até lá, para conhecer a banda. Nessa ocasião, um dos cantores me chamou no palco para que eu desse uma “canja”. Subi e dei meu show cantando  Say Say Say, de Paul McCartney e Michael Jackson. Eu cantava e dançava. Com isso, a galera veio à loucura. Muitos aplausos, gritos e muita viadagem, lógico! (Gargalhadas). Foi o BOOMM da festa. O Doutor Miranda estava presente e me chamou para uma conversa. Ele me fez uma proposta para que eu cantasse nos Geniais. Eu quase tive um troço porque era o meu sonho cantar em uma banda grande como era os Geniais. Não pensei duas vezes. A proposta era irrecusável. Voltei para Picos e, no dia 15 de setembro de 1984, cheguei de mala e cuia em Amarante. Daí surgiu o nome “Xaxá”. O resto vocês vão saber na minha biografia!

NS – Você também transitou por outras bandas, fale-nos um pouco desta experiência. 

XN – Comecei minha carreira logo cedo em um grupo de jovens da minha cidade: Juazeiro do Norte-CE. Em 1980, eu fui para Picos, cantar no MC-8, depois, Martins Som, Banda Ellus, Os Geniais de Amarante, Black Banda, de Quixadá, Grupo Magazine, Bandas Azimuth e Banda Magazine. Em 2000, já de saco cheio de trabalhar para os outros, montei a minha a banda: a Nega Fulô. Em 2004, parti para a carreira solo.

NS – Você mora em Fortaleza com seu companheiro. O que o Xaxá escuta hoje? 

XN – Moro em Fortaleza há 14 anos com meu companheiro, o Antonio Valdecy, mesmo sentindo muitas saudades das nossas famílias. Já nos adaptamos aos ares praianos. Fortaleza é uma cidade linda. Moramos na Praia do Futuro. Sempre faço minhas caminhadas no calçadão da praia para poder respirar um pouco o ar fresco. Isso faz muito bem à minha saúde. Em casa, gosto de ouvir uma boa música, de preferência a dos anos 80, porque tenho um acervo musical muito grande. Eu sempre procuro ficar atualizado com relação às tendências da música. Escuto Ed Sheeron, Coldplay, Lady Gaga, Bruno Mars, Marisa Monte, Maria Rita, Jorge Vercillo, e muitos outros da MPB. Sempre fui um cara um tanto eclético. Só não curto esse “forró de plástico” que toca de cabo a rabo no país.

NS – O palco faz falta ou deu o que tinha que dar? 

XN – Eu sempre fui um cara do palco, de grandes shows, de figurinos exóticos, e foi isso que fez minha carreira durar 40 anos, além de sempre ser bem-visto pelo público. Devido à lesão na minha prega vocal, tive que me ausentar do cenário artístico. Eu acho que foi muito válido o que eu fiz na música. Tem uma hora em que você precisa parar. No meu caso, foi por problema de saúde. Graças a Deus estou muito bem resolvido com relação a isso. E… vida que segue, não é, bebê! (Gargalhadas)

NS – Para quem achou que você estava esgotado artisticamente, agora vem um livro por aí. O que o leitor deve esperar dessa nova jornada, um “Valeu, tchau!” ou um “Vamos nessa!”? 

XN – Logo quando recebi a notícia de que eu não poderia mais cantar, pensei em me isolar e tentar levar uma vida normal, desempenhando outro tipo de atividade. Quero ressaltar que eu não fiquei triste. Fiquei procurando achar uma maneira de sobreviver porque, mesmo tendo enfrentado duas cirurgias na garganta, jamais perdi a vontade de viver e de ser feliz. Mas eu sempre falo que Deus coloca anjos na sua vida, ele colocou um anjo e poeta chamado Nathan Sousa, um dos maiores escritores da atualidade do Piauí. Por falar nisso, deixe-me falar sobre ele como se ele não fosse você, tá bom, bebê? (Gargalhadas)

Ele, no começo da nossa conversa, queria apenas fazer uma entrevista para o seu Blog e para os portais e revistas aos quais  colabora, contando um pouco da minha trajetória no Piauí, em especial nos Geniais de Amarante, e de repente, no meio da nossa conversa, surgiu a ideia de escrever um livro, uma biografia, contando sobre a toda minha trajetória de vida, tanto pessoal quanto na música, já que uma não existe sem a outra. Você, como um grande fã, já sabia parte da minha história, e foi aí que me ascendeu uma luz: “Por que não”? – Eu pensei. A ideia foi sendo amadurecida, eu fui escrevendo sob sua orientação, e já estamos praticamente com o livro pronto. Se Deus quiser, lançaremos ainda neste ano. Eu estou tomando gosto pela literatura e pretendo não parar mais porque é uma maneira de eu estar sempre presente no mundo artístico. O meu eterno agradecimento a você. Hoje eu me sinto mais leve, feliz, e muito entusiasmado com o nosso projeto. Como sempre falo a você: LACROU, bebê!! (Gargalhadas).

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Nathan Sousa (Teresina, 1973) é ficcionista, ensaísta, poeta, letrista e dramaturgo. Tem vários livros publicados, dentre eles Um esboço de nudez (2014) e Semântica das Aves (2017). Venceu por 04 vezes os prêmios da União Brasileira de Escritores, foi finalista do Prêmio Jabuti 2015 e do I Prémio Internacional de Poesia Antonio Salvado.

email: nsrlezama@hotmail.com

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