Victória Holanda
Blog Title

O dia em que tudo ficou mais cinza

Eu estava prestes a sair do trabalho. O relógio marcava 13:34 e eu acessei a TV Senado. Encerrada a votação que se fazia no dia 31 de agosto, ouvi fogos de artifício na região. Da janela, o céu parecia azul, o sol tinindo. Mas quando cruzei a porta externa do prédio foi que eu enxerguei melhor: estava tudo mais cinza.

Foi o dia em que os adolescentes secundaristas tomando sorvete na esquina estavam mais cinzas, foi o dia em que a cor dos carros no trânsito parecia mais cinza, foi o dia em que os trabalhadores fardados da obra estavam mais cinzas, foi o dia em que eu não enxerguei verde ou vermelho no semáforo – estava cinza. Minha visão era de cachorro: estava tudo preto e branco, em tons de cinza.

Passei do cruzamento onde pararia para almoçar, estava tudo tão cinza. O ciclista parecia pedalar devagar, o pedestre caminhava em câmera lenta, os carros passavam a 20 km/h. Era um filme de stop motion. As nuvens estavam cinzas, o céu estava cinza, os pássaros voavam cinzentos.

No meu prédio, os gatos miavam, mas não como de costume. Não eram listrados, não eram amarelinhos, todos miavam mais, e cinzas. As plantas mal se mexiam com o vento, cristalizadas. Não eram verdes nem amareladas, estavam mais secas, estavam cinzas.

E tudo se tornou mais cinza, o que tinha cor ficou pálido, ficou cinza. O que era preto ficou cinza, o que era branco ficou cinza, o que era colorido ficou cinza. Não que tudo antes fosse multicolor e límpido, mas foi o dia em que tudo ficou mais cinza. Ao meu redor, mas também em todos os lugares. No centro e na cidade, em casa e na rua. São muitos tons de cinza, uma cartela inteira de cores cinzentas, tomando conta de tudo.

Era uma quarta-feira de cinzas.

“E no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar”

Sonho ou realização?

Qual é o motivo de nossa existência? O que realmente nos move? Ao que vejo, em última instância, buscamos a felicidade. O resto é reflexo disso. Tantos abandonos, decepções e cacetadas da vida que podemos perder a esperança de sermos felizes. Então a existência passa a ser para cada dia, cada momento, sem haver sequência. É o que percebo, por exemplo, ao olhar dentro dos olhos de uma pessoa desempregada. Existir fica assim como hemorragia, uma torneira aberta.

Ainda bem que nada é igual por muito tempo. Tudo passa e, por incrível pareça, a dor, a tristeza e a desesperança, também. Numa dessas tardes docemente nostálgicas, em que o crepúsculo insiste em desfilar seus vermelhos e âmbares esmaecidos, num átimo de segundo, tudo pode mudar. Embora o momento seguinte tenha silêncios que, às vezes, a gente já até possa sentir, por conta da poesia, a ultima chance desse silêncio se transformar em melodia.

Estar feliz é quase sempre possível. O momento pode sugerir motivos; até eu mesmo posso me sentir responsável por alguma felicidade que me causei. Hoje mesmo, estar em liberdade, depois de tantos anos aprisionado, é acontecimento que faz estar feliz. Acordar, abrir os olhos e me ver em casa, me faz ser invadido por um sentimento de prazer de viver que supera o explicável.

Já, ser feliz, é muito mais complicado. Porque envolve avaliação completa de toda nossa existência. Provavelmente as questões principais sejam: se estivermos fazendo o que gostamos em termos profissionais ou artísticos; se conseguirmos um bom relacionamento com os que nos cercam; se estarmos sendo bem sucedidos na criação e educação de nossos filhos; se formos produtivos a nível social; se estamos sendo respeitados; aquelas do bolso e outros quase infinitos motivos. São vários os componentes para que a felicidade seja inteira. Tantos que a inviabilizam, pelo menos aqui, na terra dos homens.

Já que estamos falando em felicidade, o que é mesmo a dita cuja? Bem, em duas palavras, eu diria que seja satisfação de viver. Prazer de estar vivo naquele momento, na condição que produz aquela satisfação. Como atingi-la? Tenho certeza que existem tantos caminhos quantos forem os que busquem. Pode até haver um para cada um de nós. Um para agora, outros para depois.

Nós até podemos dizer que queremos amor. Mas a história humana irá provar que amor é pouco. Na verdade, a gente vai descobrindo, na medida exata em que vai vivendo, que tudo é pouco. Nada, em si, é inteiro e suficiente para nós, sempre falta. A necessidade da condição humana é de sempre mais. Creio, como Sartre, que o homem é uma liberdade a se realizar. Não essa coisa de ir e vir. Isso é limitado; fico cansado de tanto que ando. Estou livre e às vezes, o fato de não poder estar com as pessoas que amo, me faziam chorar na madrugada, infeliz, como na prisão. Liberdade não garante felicidade. Somos um movimento contínuo de expansão. Partimos para todos os lados, absorvendo toda vida que nos cerca.

Ser feliz é estar livre? Se ser feliz significa atualizar potencialidades, sim; a recíproca se confere como verdadeira. Felicidade como projeto de crescimento e desenvolvimento contínuos. Vivi momentos extremamente felizes, mesmo estando preso. O olhar amoroso com que meus filhos me envolviam, quando me visitavam na prisão, produzia felicidade genuína em meu coração. Aqui e agora percebo que, se não conseguíssemos ter um mínimo de felicidade, não suportaríamos a existência com toda carga de pressões, preocupações e sofrimentos que ela representa.

Na verdade, todos ansiamos por ser felizes. O Zen budismo ensina que realização é fazer o que se esta fazendo com o máximo de perfeição que se for capaz. Talvez realização seja um dos caminhos para se chegar à felicidade, ou vice-versa. Tudo o que é fácil de ler, pode ter certeza, foi muito difícil de escrever. Então, no esforço por tornar meu texto mais fácil de ler, atinjo alguma realização. Atinjo a felicidade que me é possível quando sou finalista do Prêmio Jaboti, ou tenho um livro publicado no exterior, por exemplo.

Quando meu filho me convidou, aos 11 anos, para que eu o levasse à escola, estranhei. Mas depois fiquei feliz porque senti que ele queria é minha companhia, andar comigo e conversar. Quer mais motivos para estar feliz?

**

Luiz Mendes

23/08/2016.

E quem fica não se esquece

Passei três dias explicando essa história, mas ok, eu não me canso: Max Brooker saiu da Califórnia de moto e está ha dois anos e meio viajando pela América do Sul. Como essas coisas cósmicas, inexplicáveis, veio parar aqui. E estava sábado, uma da tarde, no Paulim Panelada.

Ele é skatista, e os skatistas são uma espécie de seita, uns maçons sobre shapes, que se reconhecem e ajudam em qualquer parte do mundo. E foi assim que nossa casa virou um hostel. Tudo que sabíamos de Max é que precisava de um lugar para dormir uns dias e que andava de skate. E isso pareceu o bastante.

Oferecemos uma rede na varanda, ducha fria, toalha e cobertor – até parece que alguém precisa desse item por aqui, mas é cortez oferecer. Ele fala um portunhol super aperfeiçoado para quem começou o intensivão ha 4 meses, quando cruzou a fronteira com o Uruguai. As primeiras palavras que se lembra de ter dito foi “banheiro” e “fome”. Naipe sobrevivência.

Eu nunca vou saber ao certo mas não me importo em apostar como os dias de Max por aqui foram mais enriquecedores para mim que para ele. Fizemos cuscuz e ele comia dizendo “muito bom”, surpresíssimo com as pessoas que banham o cuscuz de café e o devoram assim, encharcado. Fomos a um barzinho e, além de nossos amigos, ele também foi apresentado a cachaça Lira.

Enquanto ele confundia a pronúncia de Aracaju com acarajé, nossos empecilhos linguísticos eram muito mais complexos. Eu não conseguia não me sentir estúpida tentando arranhar qualquer frase simples em inglês. No sábado, enquanto ele mostrava no mapa para meu pai os mais de 14 países pelos quais passou, eu preparava tapiocas que não ficaram tão boas mas que ele curtiu e quis saber do que era e como era feito. Confesso que recorri ao Google.

Nesse dia o passeio foi longo: depois da panelada, conheceu o Encontro dos Rios e provou manjubinha frita no Flutuante – disse que era melhor que os grilos que provou no Chile. Fazia 36 graus e quando fizemos a conversão de celsius para farenheit ele quase desmaiou: “Uau!”. A máxima em San Francisco é 25 e as pessoas nem vão trabalhar passando mal, me contou. Ah, vale aqui uma nota para o fato de que eu nunca tinha ido ao Flutuante. Nunca, em 26 anos de Teresina. De repente, Max estava apresentando minha cidade para mim mesmo.

Também teve parada no picolé Amazonas, no Mafuá, onde ele torceu o nariz para bacuri mas adorou o sabor coalhada (menos quando soube que era leite azedo). Mas, entre todas as paradas, elencou o Abraham juice como o the best place. Apontou as teias de aranha nas garrafas de bebidas esquecidas nas prateleiras e disse: “Style”.

Max não era assim alguém exatamente difícil de agradar. As respostas que mais repete em português são “tranquilo” e “de boa”. Reparei que não usa relógio e, na maioria das vezes, saia de casa sem celular. Não havia pressa em partir, nem tampouco o compromisso de ficar. Eu olhava a sua moto estacionada e só via liberdade.

Teve algum momento em que me cansei de perguntar sobre os EUA – acho que foi entre ele sentar no sofá e me mostrar uma porção de fotos dos lugares por onde passou. Chile, Panamá, México, Venezuela, etc. Fogueiras, barraca, estrada, estrada, estrada de novo – a imagem da moto no centro de uma estrada de terra a perder de vista era sua preferida, me confessou: “És como se nunca tivesse un fim”. Novos velhos amigos, cachaça, picos de skate, cachoeiras, montanhas, favelas. Estrada de novo. Foi quando percebi a fluidez de uma nacionalidade. Encontros são mais que carimbos no passaporte e Max há um bom tempo deixou de pertencer a um lugar para ser o mais perto do conceito de cidadão do mundo que eu já conheci.

Max quis saber como era feita a castanha que compramos no semáforo, perguntou porque os prédios por aqui são azuleijados (?) e  me explicou porque carambola chama-se starfruit in english. Talvez tenha sido pouco tempo, talvez acreditamos que esse tempo podia parar quando vimos o sol nascer na piscina, discutindo a ocupação da América pelo homem pré-histórico (“Do you know Niede Guidon?”). Ele parecia tão curtido.

É estranho pensar que não sabemos se um dia nos veremos de novo – ignorando o fato de que sequer imaginei um dia conhece-lo. E, de repente, agora, a ideia de perde-lo soa triste. Max adora fotografia e por todos os cantos dessa casa tem uma câmera, o que torna muito patético pensar que não tiramos sequer uma foto. Mas não chego a lamentar, porque fotos não conseguiriam reproduzir o seu sotaque nem sequer trariam o jeito esquisito de franzir o olho esquerdo quando se enrolava pra dizer algo até ceder: “Ah, non sei”.

As 3 da tarde ele partiu sem olhar pra trás.

Preciso urgentemente escrever algo que responda o que é cultura e estou seriamente pensando em mandar esse texto.

Obrigada, Max.

Agora, um blues:

 

 

 

 

 

 

 

 

I’m alive vivo muito vivo

É aquela velha história: um dia você está aqui, e amanhã tudo muda de novo. Que coisa esquisita pensar que mudar o curso tem sido a constante dos meus últimos anos. E daí que rumo aos 30 eu resolvi virar essa pessoa impulsiva. Comprando passagem de véspera, disposta a acordar sem destino, mudando de fila no caixa do supermercado.

Tudo é tão arriscado e eu sei disso, mas ainda preciso aprender a lidar com um monte de sensações. Fracasso, insegurança, saudade – tudo é natural da perda, diz minha analista. Mas o que exatamente estou perdendo? Eu o abandonei, ou apenas deixei ir para onde quer que fosse? Qual a diferença exata entre não querer mais ou não querer agora? O que separa um pra sempre de um pelo tempo que durar?

Passa rápido, alguém dirá, tentando convencer-me da efemeridade de qualquer coisa menos importante para ele do que pra mim. Rápido é bom, mas pode ser ruim também. Eu não entendo, há cinco dias minha medida de tempo era um trator passando em cima de mim e me soterrando com as segundas-feiras mais difíceis de toda a história das segundas feiras. Hoje, abri mão do relógio. E tô boba que ninguém reparou ainda mas, congelamos na terça.

O que mudou, vocês sabem, foram vários nadas. Tirando o fato de que finalmente retirei minhas Piauí do plástico, organizei livros na prateleira por tamanho, fui numa loja de discos as três da tarde. Quem sabe nada disso fosse urgente. Quem sabe fosse crucial para eu estar existindo agora.

Pensei em viajar – talvez tenha tentado convencer alguém – mas todo mundo segue ocupado demais vivendo a vida para a qual eu acabara de pedir licença. Um dia cercada de gente e certeza, noutro sozinha, inventando as dúvidas.

As tardes estão quentes demais para fazer sexo, mas talvez seja bom quase morrer para sentir-se vivo.

De novo.

Entrevista – O escritor

– Estamos aqui na Penitenciária do Estado para entrevistar João Moura. Hoje, a Editora Verdade estará lançando nas livrarias, o seu livro “Capítulo Final”. João está preso. Esta é sua cela e este é o João.

A câmera, depois de focar a bela repórter de cabelos e olhos pretos, dá uma panorâmica na cela. Cama de ferro, mesa de madeira e o chão de caquinhos de cerâmica. Na prateleira, muitos livros e a janela entreaberta. Então fecha em um homem branco, atarracado, rosto quadrado com enormes olhos claros. O sujeito parece em atitude defensiva.

– João, qual é a tua sensação de estar preso e lançar um livro lá fora? Questiona a repórter com voz fina, modulada, a recolher sua saia curta para sentar em um banquinho de madeira.

– Difícil explicar. Sonhei com isso, lutei tanto, quebrei minha cabeça para escrever e reescrever esse livro várias vezes. Agora que acontece, ficou um vazio. Parece que o concebi e agora estou dando para os outros criá-lo. Responde o presidiário, com voz rascante, se embaralhando com as palavras, pessoas, câmara e microfone.

– Do que trata seu livro? Volta à carga a garota, já sentada no banco, em frente ao entrevistado. O homem luta, visivelmente, para não perder seus olhos para dentro daquelas coxas.

Um homem barbudo e alto focaliza-os com uma câmara enorme de pesada. Move-se com extrema leveza, quase que deslizando pelas paredes, concentrado em conduzir o aparelho e focalizar.

– Basicamente, conto minha vida. Inicio a história no Juizado de Menores. Não conheci meus pais e fui criado por instituições para crianças abandonas. Em seguida a assimilação da cultura ambiente desses abrigos, onde aprendi a vencer o medo e roubar. Mais adiante, narro minha vida dentro e fora das prisões para menores de idade que havia em meu tempo. A relação de tortura e corrupção com a polícia. Então, entro na maioridade já totalmente envolvido pela cultura criminal. Assaltos, drogas, velocidade, sexo, emoções fortes, adrenalina a mil e a prisão aos 20 anos de idade. E ai sequencia para a vida que vivi na prisão até há pouco tempo.

O prisioneiro já vai se soltando e deixando escapar emoção diante da câmara. A cama em que esta sentado, aparece com lençóis esticados e o travesseiro na cabeceira.

– Há quantos anos você está preso e de quanto é sua condenação, você concorda em nos contar? Pergunta a moça, um tanto desconfortável, remexendo-se no banco. Seu corpo nervoso comunica alguma coisa estranha aos olhos nus do preso, que se agitam a cada gesto dela.

– Sem problemas. Estou preso há 15 anos. Minhas penas somam 45 anos. Diz num sorriso entre dentes e lábios crispados.

– Puxa, deve ter sido terrível estar tanto tempo preso. O que você fez nesse tempo todo? Não doeu muito? Interroga a jovem repórter, sensibilizada e já começando a se envolver com a entrevista. Joga os cabelos para trás, ajeita com a mão direita e sorri para a câmara.

– Sofri dia por dia, hora a hora. E me arrastei esse tempo todo em busca de conhecimento e saber. Logo no começo do cumprimento de minha pena, compreendi que estava preso por ser ignorante, analfabeto e, conseqüentemente, violento. Na verdade, a vida toda justifiquei a política criminal vigente. Nos últimos 20 anos, sempre estive lá nas estatísticas sobre a criminalidade. Vai dizendo João, soltando-se de sua inibição.

– Você considera justa sua condenação?

– Sim e não. Depende de que modo se encara o sentido de justiça. Acredito, em certa medida, que ser preso foi um bem para mim. Arguiu reflexivo, em busca de uma profundidade. Uma ruga aprofundou-se em sua testa, seus olhos centralizaram-se.

– Como assim? Questiona a garota, surpresa com a resposta inusitada.

– Na embalada que eu ia, a alternativa teria sido a polícia me matar. Do mesmo modo com que matou a maioria da molecada que foi criada comigo na FEBEM. Posso me considerar um sobrevivente de uma catástrofe social de elevadas proporções. Estava bastante revoltado e com muito ódio acumulado. Se continuasse a liberar o desespero que havia em meu coração, talvez ultrapassasse a minha humanidade. Então nem estaria conversando com você agora. Concluiu, relaxando e soltando o corpo, à vontade com a equipe de filmagem em sua cela.

– E o que mais? Perguntou a esperta garota.

– Por outro lado, sei que sou produto de um meio social extremamente adoecido e nocivo ao ser humano. Questiono até que ponto essa sociedade tão injusta, perversa e desigual tem o direito de me manter preso como um animal, por tantos anos. Não examinaram as relações sociais que podem ter gerado meu comportamento criminoso. Veja: a cultura criminal que me trouxe para a prisão foi assimilada nesses reformatórios para jovens delinquentes. Foi ali que aprendi a revolta e o desespero que me fizeram odiar o mundo e desvalorizar a vida humana.

– E agora, esse ódio, essa revolta, essa cultura criminal, até que ponto ainda são fatores determinantes em você? Indaga a garota, tentando elucidar, com armadilhas sutis de palavras. Seus olhos estão acesos, estrelinhas os circundam no globo ocular.

– Depois de preso encontrei pessoas que me provaram que existe gente boa no mundo. Até então, isso era ficção para mim. Todos que se haviam mostrado bons e amigos, depois usaram e fizeram sofrer. Conheci, já preso, pessoas que me amaram e às quais amei devotadamente. Experimentei valores, caminhos e as culturas que me ensinavam. Só então percebi que aquilo era exatamente o que eu procurava a vida toda e jamais soubera como. Claro, sou humano, me desviei várias vezes. As coisas não aconteceram de uma hora para outra. Tudo é sedimentar. A cultura criminal que absorvi durante tantos anos, não podia desaparecer assim num estalar de dedos.

– Que valores, caminhos e culturas são essas? Especula a moça, entre mordaz e descrente.

– Tem a ver com a busca de verdades pessoais. Sempre imaginei que tendo a alma exposta, a verdade existencial brotaria. Busquei responder perguntas fundamentais que todo ser humano faz ao erguer os olhos do chão e enxergar o universo infinito à sua frente. Quem somos nós; de onde viemos; para onde vamos; qual é o motivo de nossa vida; existe algo além do que percebem os sentidos; há um Deus? E vai por ai afora.

– Você conseguiu as respostas? Questiona duvidando da capacidade do preso em pesquisar questões tão complexas como aquelas.

– Com os olhos abertos como velas, procuro responder todos os dias, empiricamente. De uma coisa estou certo. Não estou só no mundo. É fora de dúvidas para mim que há uma preocupação por mim e por cada um de nós. Ao contar minha história nesse livro, ficou absolutamente claro isso. Nos piores momentos, algo aconteceu; a vida respondeu, e eu consegui sobrevive-los. Tudo o que acredito esta embasado em experiências pessoais palpáveis, consistentes. Há alguma coisa que me quer bem, até mais que eu mesmo. Isso exige de mim um procedimento conseqüente. Coerência entre sentir, acreditar e buscar tornar vivência. Claro, dentro de meu possível.

– Interessante… Mas, você se considera um homem regenerado, adaptado à convivência social? Quer saber a moça, assim pensativa, seus olhos expressam dúvida.

– Olha, eu não considero nada. Para mim existe o aqui e agora. Quando estiver lá fora então quero colocar em prática as ideias que povoam minha mente agora. Mas eu sei, minha cara, que preciso lutar muito contra a cultura prisional que me permeia. Vou encontrar uma sociedade sem muito espaço para quem chega marcado por um passado como o meu. Depende muito do que acontecer com esse livro. Se for bem aceito, então terei uma carreira e uma profissão. Então tudo poderá ser diferente.

– Senão?…

– Senão, há outros caminhos. Espero que bons caminhos e boas oportunidades. Confio que o que me protegeu até hoje, não há de me abandonar, quando eu mais vou necessitar.

– Pena nosso tempo ser limitado. Gostaria de não terminar tão cedo essa matéria. Bem, mas o assunto é o livro, o que mais você diria sobre ele, para encerrar?

– Ali está minha vida, meus muitos erros e bem poucos acertos. Tentei dar o melhor de mim no que escrevia. Estudei seriamente o problema da criminalidade para tentar falar disso com propriedade. Tentei contribuir, passar minha experiência e vivência. Não há uma mensagem. Há sangue, carne e verdade. Toda sinceridade que fui capaz. Agradeço a oportunidade de divulgar.

– Monica Rangel, da Penitenciária do Estado, entrevistando João Moura, autor do livro “Capítulo Final”, para o jornal da Cidade.

**

Luiz Mendes

Novembro de 1990.