São nove horas da noite e três pessoas sobem 18 lances de escada para chegar ao topo de um prédio abandonado na zona Leste de Teresina. A estrutura, inacabada, desperta medo e insegurança – sobretudo pela escuridão, quebrada apenas pela luz de uma lanterna à pilha. Além da lanterna, eles carregam mochilas e sacolas com latas de spray, tintas e rolinhos de pincel. Lá do alto, só as luzes e a visão privilegiada da cidade chama a atenção. Pouco mais de uma hora depois, está pronto o trabalho. E, na manhã seguinte, é a cidade, aqui de baixo, que observa as cores naquele concreto quase tocando o céu.

Lá no alto está escrito “KASA”, apelido do pichador que aceita ser acompanhado por nossa equipe. Ele explica que o nome é referência ao palhaço Caçarola, e não se importa com o erro de grafia. Ele escreve num alfabeto próprio, desenvolvido com linguagem e códigos específicos. Após a aventura no prédio, Kasa compartilha conosco um pouco da sensação: “pura adrenalina”.

Ela pode estar por toda parte: no muro da escola, no terreno baldio, na porta da igreja, no banheiro público, no portão da sua casa ou no Cristo Redentor. A pichação (em São Paulo, “pixação”, com X, para se diferenciar da pichação política dos anos 60, e da pichação poética da década de 70; em Teresina, charpi – inversão silábica de pichar) é o ato de escrever ou rabiscar muros, fachadas e edificações usando, em geral, spray ou rolo de tinta. Dificilmente removível. Facilmente percebida no cenário urbano.

Não tem limites para ela. Há cerca de um mês, logo após a abertura da Nova Potycabana em Teresina, o muro de acesso ao parque foi “inaugurado” com um grafismo preto, de complicada assimilação. A ação repercutiu nas redes sociais e fez ressurgir uma polêmica que há tempos se arrasta pelo mundo das artes. Pichação: arte ou vandalismo?

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Prof. Dra. Zozilena Fróz

“Tudo o que é feito pelo homem tem alguma estética, porque passa pelo aparato corporal dele”, diz Zozilena Fróz, Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo. “Embora eles façam um signo rápido e de difícil identificação, tem uma estética ali, fruto de imaginação, de sensibilidade, ao modo deles”. Para a professora, além da técnica e do grafismo utilizado, chama muita atenção a escolha dos locais. “Na cidade de São Paulo eu fico impressionada com prédios de 20 andaras riscados até o topo. Fico pensando em quanta obstinação para produzir algo”.

Mais do que a mensagem, muitas vezes codificadas e, em sua grande maioria, interpretadas apenas entre os próprios grupos de pichadores, a escolha do local também pode fazer parte do tipo de protesto que se tenta expressar. Se é que se trata de um picho de protesto. Nem sempre a intenção é claramente percebida nesse atos. Segundo pesquisadores, artistas, professores e até mesmo os próprios pichadores, existem tipos diferentes de pichos – que vão de simples assinatura a gritos de revolta – e com objetivos distintos.

John Wedson dos Santos, mestrando em Antropologia na Universidade Federal do Piauí, pesquisa o surgimento do charpi em Teresina, o comportamento de seus adeptos e os significados dessa expressão para seus produtores. O estudo de John identificou três fases dessa prática na capital piauiense. “É a forma como os charpis são compostos que distinguem os diferentes momentos na cidade”, explica. No primeiro momento, as ocorrências são de inscrições praticamente inteligíveis. Depois, tem-se a introdução de um alfabeto mais estilizado. Contudo, quase sempre busca-se a representação da subjetividade do praticante, através da divulgação quantitativa de uma marca pessoal pelos suportes urbanos – com o intuito de obter fama e reconhecimento. “Tal como ganha o escritor com seus livros, ou o jogador de futebol com seus gols”, diz o pesquisador. “Ávidos por reconhecimento, munem-se com jet (vem de Colorjet, marca tradicional de spray), e circulam pelas diferentes zonas da cidade para imprimir suas marcas”, explica. “Teresina também é deles.”

Independente do estilo, não há como negar que a pichação aqui ou do outro lado do mundo parte do mesmo objetivo: o de comunicar, expressar-se através dos muros da cidade. “A imagem, mesmo sendo letras sem sentido para nós, é uma imagem, e como tal é uma forma de comunicação e expressão: ele está se fazendo presente, ouvido – ou melhor, lido – no mundo”, diz Zozilena. Para a pesquisadora Valéria Silva, coordenadora do Mestrado em Sociologia da UFPI, a pichação é, em geral, uma prática dos coletivos juvenis. “Os membros do grupo compartilham afetos, sentidos e constroem também suas referências subjetivas nessas interações”. A pichação, para ela, vem da necessidade desses jovens de se manifestar e construir visibilidade e existência numa sociedade cada vez mais excludente. Mas, quem são esses jovens e o que eles precisam tanto dizer?

Em busca  dos sujeitos

“Arack” é como é conhecido um dos pichadores do grupo (ou crew, como costumam denominar) OCB, do bairro Ceilândia, em Brasília. “Significa Os Cobaias, que podem ser os cobaias do sistema, da arte proibida, etc”. Arack não diz seu nome a jornalistas. Ele tem 28 anos, trabalha como pintor na capital federal, e conheceu a pichação aos 15, quando um amigo comprou uma lata de spray. “O que motiva a pichação pra mim é a adrenalina, a fama, o prazer de passar naquele lugar e falar ‘eu que catei esse pico’”, revela. “Quando você picha em um lugar bem difícil, a galera comenta. Você fica considerado e respeitado entre os pichadores”.

IMG_1543Há pouco menos de um mês, Arack foi surpreendido pela polícia em um domingo à tarde, quando riscava um viaduto próximo à Esplanada dos Ministérios em Brasília. “Um local muito visado entre os pichadores, justamente por ser sempre vigiado”. Foi algemado, conduzido a um distrito policial e intimado a comparecer à Justiça assim que lhe for solicitado. “Eu sabia que isso ia acontecer a qualquer momento. Mas valeu a pena. Deixei minha marca lá”.

No Brasil a pichação é considerada vandalismo e crime ambiental, nos termos do artigo 65 da Lei 9.605/98 (Lei dos Crimes Ambientais), que estipula pena de detenção de três meses a um ano e multa para quem pichar, grafitar ou por qualquer meio conspurcar edificação ou monumento urbano. Entretanto, os juízes vêm adotando a aplicação de penas alternativas, como o fornecimento de cestas básicas a entidades filantrópicas ou a prestação de serviços comunitários pelo infrator. Para acabar com a colher de chá da justiça, frequentemente as polícias vêm enquadrando pichadores em formação de quadrilha, a fim de possibilitar penas maiores.

“É fácil criminalizar os jovens. Obrigá-los, por meio da condenação social e da força dos órgãos repressores do Estado a responderem, sozinhos, por tamanha problemática que tem sua origem no modo como a sociedade se organiza”, critica a socióloga Valéria Silva. “Difícil mesmo é apurar as responsabilidades maiores, conhecer e denunciar a sociedade que os marginaliza”. Ela explica que não só pichadores e bandidos, mas também artistas, estudiosos e profissionais são sempre frutos do ambiente social em que estão inseridos.

Jonylton Carvalho tem 33 anos e mora em Fortaleza, onde trabalha dirigindo carros de grande porte para uma empresa. Durante dez anos, respondeu pelo apelido “Bola 8”, e foi um dos pichadores mais conhecidos dos muros de Teresina. São sobre ele as histórias de picho mais famosas da cidade nos anos 1990 – riscos no prédio cartão-postal Colégio das Irmãs e até tetos de postos de combustível. “Eu saía cinco dias por semana pra pichar. Muitas vezes fui dormir em distrito, tomei tiro de polícia, segurança patrimonial, caí de lajes, pulei da ponte às três da manhã fugindo da polícia e fiquei até as oito pra sair sem ser pego”, relembra Jonylton, que diz ter assinado pichações em quase todo o Piauí, Maranhão, Ceará, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Hoje, afastado da agitada vida de pichador e ex-usuário de drogas, se diz contra o vandalismo e não vê a pichação como uma forma de arte. “Não me arrependo de nada, porque tudo foi experiência de vida. Mas hoje, não aconselho ninguém a seguir nesse caminho, porque existem outras formas de se destacar, como na profissão, que traz mais efeito e é mais aceitável na sociedade”, diz ele que encerra a entrevista com a frase “Jesus te ama”.

Para a socióloga Valéria, os pichadores falam, com seus rabiscos e resistência, de uma dor que não sara, de um incômodo, de uma rejeição. “Pichar é dizer: eu rejeito essa sociedade que me fere, que me nega”. Na sua visão, não são os jovens que são marginais, o vetor é diferente. “É a sociedade que marginaliza grande parte dos jovens, deixando-os sem alternativas de expressão, de construção identitária”, afirma. “Às vezes, uma lata de spray é o que lhes resta. Em outras, um revólver”.

Pichação: arte, protesto ou vandalismo?

Onde alguns veem beleza e forma de expressão, outros só enxergam sujeira e poluição visual. Há anos as pichações são associadas ao vandalismo quando se fala de intervenção urbana. Riscar mensagens nos muros da cidade pode ser mal interpretado por aqueles que zelam pela “ordem” e a “moral” social.

Para o antropólogo Fabiano Gontijo, antes de mais nada, é preciso definir o conceito de vandalismo que se pretende empregar. “A mídia é muito perversa com a definição de vandalismo, e o que vimos nesses últimos tempos de protesto deixou isso muito claro”, aponta. “E as pessoas incorporam esses discursos, isso é muito perigoso”.

“Às vezes uma pichação pode parecer uma coisa feia mesmo, e isso em cidade grande é gritante, com demarcação de territórios, bairros e ruas inteiras com a mesma pichação se repetindo”, exemplifica Gontijo. “Mas por outro lado, tem pichações que podem se integrar perfeitamente ao espaço em que está inserida”.

A socióloga Valéria Silva não vê razões para que a pichação não seja encaixada no conceito de arte. “A pichação que tem por objetivo principal passar uma mensagem, sem preocupação maior com o signo utilizado em si, talvez se situe mais distante da arte e estreitamente vinculada ao ato político de manifestar-se”, esclarece. “Mas existem pichações em que os signos adquirem tanta importância quanto o significado que se quer comunicar, isso em diferentes gradações. Nesse contexto, encontramos um campo simbólico em que ambos ganham muita relevância subjetiva”. Para ela, em nenhum dos exemplos a pichação deve ser tomada como vandalismo.

Fabiano Gontijo reforça a ideia de comunicação e expressão dos pichadores. “E essa forma de se expressar inscrevendo na parede pode ter múltiplas motivações”, afirma. “Depredar aquilo que é considerado como patrimônio público talvez seja a única forma encontrada para dizer ‘nós não somos ouvidos pelos meios tradicionais’”. Para ele, é esta realidade, talvez, que incomoda as pessoas com uma visão purista e organizada dos espaços. “Se aquela parede estava prevista no projeto pra ser branca, e de repente você coloca as iniciais de um nome, estão você está ‘sujando’, tirando a ‘pureza’ daquilo: e tirar a ‘pureza’, para elas, é trazer o perigo”, aponta. “Mas o que é o limpo? O que é o organizado? As pessoas vivem os espaços. Ele não pode ser eternamente aquilo que está no projeto.”

Existem ou não maneiras de controlar o fenômeno urbano da pichação? “Acho que as pessoas têm todo direito de escolher seu condomínio fechado, um boulevard para viver. Mas tem que entender que o mundo externo vai sempre existir”, afirma o grafiteiro Hudson Melo. “Existe picho em porta de igreja, porque de repente o cara tá indignado com guerras étnicas, religiosas, com a vinda do Papa ao Brasil ou sei lá”. Não há, para ele, como mapear locais e espaços que devem estar imunes à pichação. “Isso não vai ser possível nunca, porque nunca a pichação vai atender aos pedidos de uma sociedade”.

Grafite e charpi: na corda bamba da ilegalidade

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Hudson Melo

Equívoco frequente é pensar que o grafite, tipo de street art que surgiu nos anos 70, é uma evolução do picho. Nem sempre o pichador de hoje é um grafiteiro em potencial se preparando para o amanhã. “Alguns grafiteiros tem traços muito semelhantes de uma pichação, você nota que existe a referência. Mas isso não é tão frequente”, quem fala é o artista Hudson Melo, que assina diversos grafites pelos muros de Teresina.

Na corda bamba da ilegalidade, grafite e pichação, porém, andam bem próximos – seja pela questão do espaço, quanto o material e a técnica – e quem sabe até a intenção. “Só que talvez o picho não tenha tanto o objetivo de ser popular. Eu vejo mais como uma tentativa de buscar audiência. É como um cartaz levantado apenas para dizer: ei, eu estou aqui”.

Hudson algumas vezes estampa seus grafites em galerias e lojas de decoração, outras em muros sem dono e paredes esquecidas pela pressa do cotidiano. “Para mim, tanto o grafite como o picho tem que sofrer toda interferência da rua: água, lama, sol, uma pessoa ir lá e apagar”, diz o grafiteiro. O desafio da escolha do espaço passa por critérios mais importantes, para eles, do que a questão do público ou privado. “Fazer com que o tema se aproxime cada vez mais do espectador, que faça cada vez mais parte da vida de mais pessoas, que seja cada vez mais comum na cidade: esse é o nosso desafio”.

Segundo Hudson, a maioria de seus grafites é ilegal. “Nunca peço permissão. Quero um lugar que destaque a minha arte, onde mais pessoas passem, que não agrida o espaço, mas faça parte dele”, diz. “A pichação tem algo semelhante. Ela quer o lugar mais alto, de maior visibilidade”. Ele diz não se incomodar ao ser chamado de “pichador”. “Incomoda, na verdade, o fato de saber que as pessoas não diferenciam os estilos, mas não porque a pichação é algo negativo”.

Grafiteiros e pichadores costumam conviver bem pelas ruas de Teresina – e de qualquer lugar do mundo. “Existe um respeito na rua”, explica Hudson. “Eu só vou cobrir o trabalho de um determinado artista se ele me permitir. Isso é sagrado”, afirma o artista, que perdeu as contas de quantas vezes viu suas criações atropeladas por camadas de tinta ou por publicidade. “A gente pinta muito aqui em Teresina pra ter 10 ou 20 grafites na cidade. Apagam muito, e com muita frequência”.

Para a professora de Artes Zozilena, tanto o grafiteiro quanto o pichador têm estilos muito próprios que acabam sendo facilmente reconhecidos por quem observa. “Hoje, por exemplo, você sabe quem são Os Gêmeos, virou uma marca”, aponta. “Aqui em Teresina, tem também os grafites que já são marcas registradas do Manim. São trabalhos muito interessantes, com o uso de figuras, gestalt (palavra alemã, sem tradução em português, que refere-se ao processo de dar forma, configurar) e que estão sendo, inclusive, estudados por alunos da UFPI”.

FAMA NA POTYCABANA

O parque Nova Potycabana, localizado na Avenida Raul Lopes, zona nobre à margem do rio Poti e em frente ao maior shopping da cidade, foi reinaugurado no dia 16 de abril, após quatro anos desativado para reforma. Dois meses após a inauguração, que trouxe ao espaço uma nova proposta, a porta de entrada do lugar foi rabiscada por pichadores.

A notícia, em todos os sites e jornais de Teresina, levantou uma discussão acerca do que teria motivado o ato, muitas vezes associado ao protesto. É que a Potycabana foi esperada pela população como o novo espaço de lazer e integração da capital cuja inauguração aconteceu em grande festa e com shows gratuitos. O picho representaria algum tipo de insatisfação?

Nossa reportagem não conseguiu contato com o autor, mas, segundo a análise de pichadores, a inscrição significaria “Fama – GL” – representando nome do pichador e o grupo ao qual pertence. Para Plínio Dumont, Coordenador Estadual da Juventude e responsável pela administração e manutenção do Parque, a atitude foi lamentável. “Agora a cultura Hip Hop é o grafite, esse negócio de pichação ficou para trás”, afirma. “Não é arte, e não vemos com bons olhos. É pejorativo e não transmite nenhuma mensagem”.

Na mesma semana, o muro recebeu uma nova demão de tinta, apagando a pichação. Para Plínio, foi importante a repercussão negativa que o ato gerou na cidade. “A Potycabana demorou muito a ser devolvida à população, é um espaço de todos, feito com dinheiro nosso. Felizmente a população tomou para si essa agressão”.

Mas, para o grafiteiro Hudson Melo, atrás da inscrição existem interpretações que podem ir além de uma simples assinatura. “A Potycabana é a joia, né? As pessoas vão pra lá ser bonitas, fazer caminhada. Acho que foi necessário esse picho. Foi um grito contra tudo o que vem acontecendo na política, no estado, no mundo”, diz o artista. “Talvez eu possa estar interpretando errado. Mas veja só: se fosse uma bomba que destruísse aquela parede logo após a inauguração? Seria um atentado totalmente direcionado contra o governo que fechou os olhos para o povo. E talvez, assim, fosse mais fácil de ser entendido”.

“Muitas vezes, o desconhecimento da complexidade do fenômeno pichação, somado ao preconceito, alimenta esse incômodo”, diz a socióloga Valéria Silva. “Pouco se sabe, popularmente, da realidade dos jovens das periferias, das favelas. Pouco nos ocupamos em saber, porque não nos interessa. É mais fácil exigir a ordem, uma cidade limpa, do que se perguntar o que faz esses grupos escolherem ‘sujar’ a cidade”.

LIBERTEM A BIENAL

Djan Ivson tem 29 anos, é de Osasco, município da Grande São Paulo, e trabalha com arte e cinema. Estuda e pesquisa, por conta própria, sobre filosofia, arte e política. Talvez ele seja só mais um personagem da cidade cinza, mas nos muros ganha uma identidade única e exclusiva: Cripta Djan.

Djan ficou famoso em 2010, ao trazer à tona uma polêmica envolvendo uma de suas ações. Com latas de spray, ele invadiu um dos pavilhões da 29ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo e deixou um recado em uma das obras. A instalação, assinada pelo artista plástico Nuno Ramos, era uma gaiola gigante com alguns urubus dentro. Com letras de pichador, Cripta fez um apelo: “Libertem os urubus”.

Pego em flagrante, Djan conta que foi espancado por homens que faziam a segurança no local. Depois da repressão policial, ele explicou que a mensagem era uma analogia entre urubus e pichadores, ambos marginalizados pela sociedade. “Eu também tinha a intenção de trazer à tona a prisão de um grupo de pichadores de Belo Horizonte naquele ano”, recorda. Na época, cinco jovens da capital mineira, integrantes do grupo conhecido como Os piores de Belô, foram presos e indiciados por formação de quadrilha.

“Para mim, ficou bem clara nesse episódio a guerra de classes: a arte do rico contra a arte do pobre”, afirma Djan. Para ele, não faz sentido uma obra de arte que aprisiona animais – e só mesmo a pichação dentro do campo institucional conseguiria expor a fragilidade de um circuito que não é capaz de abrigar ou entender tudo que é arte. “Pichar uma parede é crime ambiental, mas urubus presos em um galpão confinado é arte?”, questiona.

Na época, o artista Nuno Ramos decidiu não dar queixa do pichador que, mesmo sem autorização, acabou sendo co-autor da obra, desencadeando questionamentos sobre a finalidade política da arte e a desigualdade. “Acho uma grande contradição e hipocrisia essa lei sobre crime ambiental. O que degrada mesmo o meio ambiente são os prédios, os esgotos a céu aberto, a poluição. Nossa pichação não entope bueiros, não atrapalha a luz do sol e é de longe bem menos opressiva que a depredação imobiliária que acontece diariamente em nossas cidades”, aponta Djan.

Três anos após o incidente da Bienal, ele segue defendendo a pichação como a grande potência da street art no mundo. “Não tem outra manifestação urbana que ocupe tanto a cidade como a pichação”, acredita. No entanto, para ele, nada mudou no que diz respeito a concepção das pessoas sobre a pichação. “O picho continua a ser odiado pela sociedade, e esse é o papel dele. A pichação não veio para agradar, mas sim questionar e incomodar”.

(Reportagem publicada na Revestrés#9)