Rio de Janeiro, Maracanãzinho, 29 de setembro de 1968. Mais de 20 mil pessoas lotavam o estádio para assistir a final nacional da terceira edição do FIC – o Festival Internacional da Canção. O júri acabara de anunciar o segundo colocado – o paraibano Geraldo Vandré, – e coube a ele mesmo a função de acalmar a plateia que vaiava e gritava enfurecida. “Gente, gente, por favor…”, pedia o cantor, inutilmente, no microfone. “É marmelada, é marmelada!”, respondia a multidão em coro. “Olha, tem uma coisa só: a vida não se resume em festivais”. As vaias só diminuíram quando finalmente o cantor pegou o violão e entoou os dois únicos acordes da canção que defendera: “Laiá-ra-ia-lá…”. 

Os presentes nem sabiam mas assistiam, ali, a uma das poucas apresentações, em público, daquela que entraria para a história como o maior hino dos protestos contra a ditadura militar no Brasil. “Pra não dizer que não falei das flores”, ou “Caminhando”, como ficou conhecida, foi a canção corajosamente defendida por Vandré no festival, no cerne de uma radicalização. Poucos meses antes, o estudante Edson Luís havia sido morto durante uma manifestação do Rio de Janeiro, a cidade vivia o impacto da Passeata dos 100 Mil e o cerco da censura se fechava cada vez mais para aqueles que se apresentavam contra o regime. É nesse contexto que o refrão-convite (“Vem, vamos embora / que esperar não é saber / quem sabe faz a hora / não espera acontecer) parecia mesmo um chamado à revolução. 

É claro que a repercussão foi imediata – não precisa ser muito gênio para entender a mensagem clara e direta do autor contra qualquer tipo de autoritarismo. Mas, num contexto em que as Forças Armadas controlavam os poderes da república no Brasil, não parecia muito conveniente apresentar ao vivo, em um festival transmitido pela televisão, uma crítica contundente ao exército brasileiro em forma de música popular – muito embora o compositor negue até hoje essa intenção. “Como ele mesmo falou, em 1968, em entrevista: Caminhando não é uma canção de guerra”, diz Vitor Nuzzi, jornalista e biógrafo do cantor. “O verso sobre os soldados não se refere apenas a militares, mas, segundo ele, ‘é um modo de se exprimir para explicar todo tipo de profissão que restringe as pessoas a um certo modo de vida’ ”. 

Na semana em que aconteceu o festival, Vandré era mais aclamado que a dupla Tom Jobim e Chico Buarque. Enquanto, nos bastidores, corria o boato de que seria preso. 

O biógrafo – que lançou “Geraldo Vandré – Uma canção interrompida” em 2015, mesmo a contragosto do cantor, considera que a canção foi tida erroneamente como um hino contra os militares. “Acho que Vandré captou o que as pessoas queriam dizer naquele momento”, diz por e-mail à Revestrés. “Um chamado à contestação, à não aceitação, que de certa forma manteve a atualidade, apesar de às vezes a música ser usada de forma indevida, inclusive por conservadores”. 

Mais tarde, para a imprensa, Vandré definiria sua canção como uma “crônica da realidade”. Mas muita água já tinha rolado pelos “campos e grandes plantações” para que ele assim analisasse sua própria composição em retrocesso. Vandré deu muitos depoimentos a jornalistas e pesquisadores em 2008 para falar dos 40 anos da canção e, na maioria deles, definia Caminhando como um “desnudamento”: “Um dizer-se tudo quando era proibido dizer-se quase tudo”. 

E dizer quase tudo teve um preço. Na semana em que aconteceu o festival, Vandré era o brasileiro que mais fazia sucesso nas festas com as delegações estrangeiras formadas por artistas e representantes que vieram para a final brasileira – era mais aplaudido e aclamado que a dupla Tom Jobim e Chico Buarque, autores da música “Sabiá”, vencedora do III FIC. Iniciou contratos, negociou gravações de suas músicas na Europa enquanto, nos bastidores, corria o boato de que seria preso, acusado de promover agitações. 

Para entender o impacto atemporal de “Pra não dizer que não falei das flores”, basta dizer que você, leitor, provavelmente vai ter que recorrer ao Google para lembrar os versos da música Sabiá, a campeã por três votos a mais (há controvérsia quanto a isso, siga lendo para entender) enquanto certamente completa mentalmente a frase “Caminhando e cantando e seguindo a canção…”. Algumas músicas têm o poder de resumir um momento histórico. Junto a mitos e lendas sobre seu compositor, a falta de consenso sobre fatos da época dá um quê de mistério à canção de protesto brasileira mais aclamada de que se tem notícia até hoje. As razões para isso é o que tentamos desvendar nas linhas que se seguem. 

 

Catarse desmobilizadora ou convite a subversão?  

As vaias a Chico e Tom, militares, TV Globo e previsões furadas. 

O compacto com a música apresentada naquela noite no FIC vendia como pão quando a polícia do estado da Guanabara (atual Rio de Janeiro) resolveu apreender os discos que ainda restavam nas lojas. Após o decreto do AI-5 – o ato institucional mais rigoroso do período, que censurava imprensa, artistas e manifestações populares – Geraldo Vandré passou a ser procurado pelos setores mais radicais da repressão militar – eles consideravam a música um desafio à ordem pública além, é claro, de interpretá-la como uma ofensa àqueles que prestavam serviço militar. Mas a raiva dos generais, ao que se sabe, era anterior a tudo isso. 

Antes mesmo de ser apresentada no Rio, “Pra não dizer que não falei das flores” tinha sido defendida meses antes na final paulista, quando Vandré se apresentou no TUCA – Teatro da Universidade Católica de São Paulo – dispensando acompanhamento da orquestra. Somente com voz e violão e seu canto agressivo, o compositor e intérprete foi delirantemente aplaudido – e a recepção efusiva se repetiria também na final carioca. 

O general Bastos fez aquela que já pode ser considerada a previsão mais furada da história da música brasileira: “Você passará, Vandré. Sua música logo será esquecida”. 

Há uma versão da história que diz que a organização do festival teria sido aconselhada a “dar um jeitinho” para impedir a vitória da canção, considerada pelos militares “altamente subversiva”. A fofoca surgiu de Telé Cardim, torcedora-símbolo dos festivais, e está explicada em detalhes no livro “A era dos festivais: uma parábola”, escrito por Zuza Homem de Mello. Enquanto esperava por um ingresso no escritório da produção do evento em São Paulo, ela ouviu uma conversa telefônica: “Os militares não querem que a música de Vandré ganhe o festival. Temos que falar com a organização porque, se ele ganhar, vão tomar uma atitude de sérias consequências”. 

O diretor da TV Globo que estava à frente da transmissão do festival, Walter Clarck, nega que houve interferência da censura no resultado do festival: os votos do júri, contabilizados manualmente, teriam dado a vitória a Sabiá, com 109 pontos – Caminhando ficou com 106. Não nega, no entanto, o alívio que sentiu. Esta versão da história foi recentemente confirmada pelo jornalista Tárik de Souza em entrevista ao programa Conversa com Bial. “É importante dizer que as pessoas não vaiaram porque era Chico e Tom Jobim”, disse. “As pessoas vaiaram porque queriam Caminhando campeã”. 

Sendo a hipótese da interferência militar no resultado do festival confirmada ou não, não há como negar que esta história explica o delírio coletivo da plateia aos gritos de “marmelada” e muitas vaias. O clima era de injustiça, protesto e tensão. O secretário de segurança da Guanabara à época, general Luís de França Oliveira, considerou a canção “atentatória à soberania do país, um achincalhe às Forças Armadas, que não deveria nem mesmo ser inscrita”. A declaração advertia, por tabela, os organizadores dos festivais que, a seu ver, “não deveriam aceitar composições dessa natureza, que são exemplos de declarada subversão”. Os assessores do ministério, no entanto, desmentiam que a canção tivesse sido proibida. 

A Marinha, por sua vez, decidiu responder a Vandré duas semanas depois da apresentação, com uma manifestação de protesto. Em 23 de outubro daquele ano, cedendo às pressões, a música de Vandré foi proibida pelo governo de ser executada em rádios e locais públicos em todo o território nacional – o que os censores não davam conta era de impedir que ela fosse cantada nas festinhas e reuniões particulares. 

É curioso pensar que mesmo sob tanta aclamação, Caminhando não chegou a ser uma unanimidade – nem para aqueles que se consideravam de esquerda, nem tampouco na direita. Valnice Nogueira Galvão, ensaísta renomada e Luiz Carlos Maciel, jornalista e um dos fundadores do Pasquim, chegaram a escrever contra Vandré. “Eles diziam que a música era uma catarse desmobilizadora – ou seja, o camarada cantava a música e não queria saber mais da revolução”, disse Tárik na entrevista a Bial. “E, ao mesmo tempo, o coronel Otávio Costa publicou no Jornal do Brasil um artigo elogiando a música e pedindo a prisão de Vandré”. 

Quem também usou o jornal para se manifestar foi o general Aspirante Bastos – logo no dia seguinte à execução da música no FIC ele enviou uma “Carta a Geraldo Vandré”, publicada no Última Hora, na qual questionava o compositor: “O que entende você de pátria, para dizer que nos quartéis se vive sem razão? Que mais você fez nesta vida sem ser em troca de lucro?”, e completava: “Será uma vida sem razão a dos homens que neste momento, como eu, em terras longínquas ensinam a cor da bandeira brasileira?”. 

O tom ia se exaltando numa mistura de ofensa e revolta: “Cante o que quiser, mas não coloque nada de pátria no meio”, dizia o general. “Você não sabe o que é isso. A sua pátria deve ser um copo de cerveja”. Por fim, o general fez aquela que já pode ser considerada a previsão mais furada de toda a história da música brasileira: “Você passará, Vandré. O povo esquece depressa. Sua música causou sensação, mas logo será esquecida”. 

 

O que foi que fizeram com ele? 

O percurso de Vandré no exílio e a tentativa Revestrés de entrevistá-lo. 

Em 1974, Benito di Paula avistou Geraldo Vandré “dizendo um poema para um poste”. Ele estava com 38 anos, mais gordo e grisalho, vagando sozinho pelas ruas de São Paulo. Tinha poucos amigos, recusava-se a fazer shows ou dar entrevistas: “Nada do que eu possa dizer, fazer ou pensar dá no mesmo ser publicado ou não, porque não tem nenhum valor”, dizia quando tinha oportunidade. Afirmava também não ver televisão, nem ouvir rádio ou ler jornal. Parecia um homem exilado de si mesmo e confirmava a impressão que reverberou – e ainda reverbera – por anos sobre o cantor: Vandré nunca mais foi o mesmo.

O aspecto impressionou tanto o compositor que Benito di Paula escreveu a canção Tributo a um rei esquecido, naquele mesmo ano. É uma espécie de homenagem a Vandré: “Eu quis gritar seu nome / não pude”, reclama na canção, em referência ao fato de a simples pronúncia do nome de Geraldo Vandré ser objeto de censura na época. “E eu continuo querendo saber: cadê ele? Já deram anistia pra ele? O que foi que fizeram com ele?”. Para driblar a censura, Benito chama o compositor de rei, em alusão à letra de Disparada, também de Vandré: “Na boiada já fui boi / boiadeiro já fui rei…”. 

Vandré foi simplesmente banido e apagado do Brasil. Por ter sido proibida por quase 20 anos, Caminhando teve uma trajetória em disco relativamente restrita se comparada à importância que adquiriu como um verdadeiro hino da oposição à ditadura militar. Além da versão ao vivo, gravada naquela noite no Maracanãzinho, só há outra versão em estúdio, com dois violões, uma levada guarânia paraguaia. Há ainda uma versão de Luiz Gonzaga, num compacto também recolhido pela censura, e outra da cantora Simone, anos mais tarde. 

Seu desembarque real no país teria sido 33 dias antes do desembarque fictício, totalmente ensaiado e encenado para ser transmitido na TV Globo.

Em 2008, 40 anos depois do lançamento da canção, o cantor Zeca Baleiro também relembrou o mistério em torno do compositor na canção Geraldo Vandré, que compõe o disco O coração do homem bomba – vol 1. Em sua música, Baleiro convida Vandré para tomar um café e sentencia: “Os jornalistas querem saber / o que houve com você”. 

Esta é a pergunta que nunca se calou ao longo dos anos. Desde a apresentação no Maracanãzinho e toda a polêmica gerada em torno da não-premiação de sua música, ninguém soube mais ao certo o destino do compositor. Houve boatos de que ele teria sido preso e estava incomunicável em alguma guarnição do Exército – os mais trágicos diziam que ele tinha sido torturado e até executado pelo Esquadrão da Morte. 

O livro de Zuza Homem de Mello refaz os passos de Vandré na tentativa de se manter em segurança e pouco antes de deixar o país: primeiro abrigou-se na fazenda da viúva do escritor Guimarães Rosa, no Rio de Janeiro. Logo mais, sempre com a ajuda de amigos, embarcaria para Santiago, no Chile – foi lá que o jornal O Globo o localizou, elucidando parte do mistério sobre o seu paradeiro. “Estou bem vivo. Escrevendo e fazendo da saudade o que posso fazer”, disse à reportagem, em junho de 1969. 

No mês seguinte, sem visto, Vandré foi obrigado a deixar o país. Seguiu para a Argélia e depois Europa: Alemanha, Áustria, Itália. Vandré percorreu povoados do interior da Grécia, Bulgária e Iuogoslávia. “Ele certamente passou por um sofrimento profundo ao ser obrigado a deixar seu país, escondido, e ficar mais de quatro anos fora, muito mais do que qualquer outro artista”, diz Vitor Nuzzi. “Como artista apegado à terra, Vandré sofreu com a distância. E duplamente, porque não era um ‘exilado político típico’, não era militante, ficava um pouco à parte dos grupos de exilados”, completa. “Isso acentuou sua solidão”. 

Na reta final do exílio forçado, o cantor chegou a ficar doente. Viciou-se em remédios para dormir, passou por internações. Seus pais chegaram a ir visitá-lo e foi a partir daí que começaram as negociações para trazê-lo de volta ao Brasil. Mas tão misteriosa quanto a sua saída foi também a sua volta ao país. 

O retorno de Geraldo Vandré ao Brasil teria acontecido sob a condição de que ele fizesse uma retratação ou confissão pública através do Jornal Nacional. Seu desembarque real no país teria sido 33 dias antes do desembarque fictício, totalmente ensaiado e encenado para ser transmitido na TV Globo, em 21 de agosto de 1973. A câmera focaliza a escada de um avião da Varig no aeroporto de Brasília, fechando mais ainda no rosto de Geraldo Vandré, barbado e com expressão cansada, aparecendo na tela. A locução informa: “O cantor e compositor Geraldo Vandré acaba de voltar ao Brasil”. Ele desce a escada e caminha pela pista do aeroporto. Em seguida faz aquele que seria seu primeiro pronunciamento desde 1968: queixa-se de que sua música foi apropriada por grupos políticos contra a sua vontade. Diz que espera cantar uma nova realidade do Brasil: “Vocês sabem, a arte às vezes é usada por um grupo determinado com interesses políticos e isso transcende a vontade do próprio autor. Eu, o que tenho a dizer é que, na verdade, nunca estive vinculado ou comprometido, em toda minha vida, com qualquer grupo político”, esclarece, com voz trêmula e cabisbaixo. “Daqui pra frente só vou fazer canções de amor e paz”. 

O depoimento não casava em nada com a figura de Vandré que todos tinham em mente, defendendo de forma agressiva e forte sua canção naquele festival. Para completar, o Jornal do Brasil furou a proibição de falar sobre o retorno do compositor e, na edição de 18 de julho de 1973, publicou a nota: “O cantor e compositor Geraldo Vandré foi preso, ontem, no aeroporto do Galeão, ao desembarcar de um avião. O artista foi levado para uma unidade militar, onde se encontra incomunicável”. É graças a este registro que sabemos, hoje, que a chegada transmitida pela Globo foi encenada. 

O que não sabemos com certeza, entretanto, é o que aconteceu neste espaço de tempo – entre a chegada de Vandré em 17 de julho de 1973 e a apresentada pela Globo mais de um mês depois – para que o compositor mudasse tão radicalmente de expressão e posição. Torturas físicas? Lavagem cerebral? “Essa é uma das lendas que cresceram em torno do personagem”, diz o biógrafo quando perguntado sobre esta questão central na história de Vandré. Teria mesmo o artista cedido às exigências dos militares para ter o direito de retornar ao seu país? “É difícil responder essa questão”, responde Nuzzi. “Vandré sempre foi uma pessoa de convicções, posições firmes. Lembro que em algum momento ele disse que, na entrevista à Globo, não falou nada de que discordasse. Penso que se por um lado ele teve de ceder para voltar ao país, e isso teve um preço, por outro preservou sua obra”. 

A lenda em torno desta história crescia ainda mais à medida em que jornalistas tentavam fazer a pergunta ao próprio Vandré. “A curiosidade sobre isso é uma paranoia, uma doença”, disse certa vez ao Jornal do Brasil. “Não me sinto responsável em elucidar isso”. À Maria do Rosário Caetano, do jornal O Estado de São Paulo, respondeu que nunca foi torturado. “E me nego a continuar falando sobre esse assunto”, encerrou. Um jovem repórter do jornal O Globo teve menos sorte ao pergunta-lhe se ele se considerava uma vítima do regime militar. “Vítima é você! Vítima é você!”, esbravejou nervoso. 

Aos 85 anos, Vandré continua procurado por repórteres curiosos – e, por que não, corajosos – como nós, da Revestrés, para responder algo cuja pergunta passou mais da metade da vida lhe incomodando. Enviamos e-mail e conseguimos um retorno de seu produtor, garantido que faria a pergunta chegar até ele. Seguimos com o seu silêncio e a eterna dúvida – o que torna tudo, convenhamos, ainda mais fascinante. 

Um hino manifesto! 

Arte engajada, música popular e a canção que pede para ser cantada.  

Millôr Fernandes tratou-a como a “Marselhesa” brasileira. Pra não dizer que não falei das flores era cantada nas cerimônias, reuniões e protestos, apreciada pelos intelectuais e eruditas da época. Mas o que é, de fato, que faz essa canção ser lembrada até hoje com sentimentos profundos e também contraditórios? 

Para Feliciano Bezerra, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor de Letras da Universidade Estadual do Piauí, trata-se de uma canção emblemática da chamada “arte engajada” do período – era como definiam um tipo de arte comprometida com proposições emancipatórias, no campo ideológico, cultural e político, acontecendo também em outros campos como o teatro, o cinema e a literatura. 

Mas, por ter mais visibilidade e força de difusão, a canção de Vandré acabou circulando com maior intensidade e ganhando mais presença e adesão – e contou, é claro, com um dos fenômenos mais influentes e mobilizadores da juventude naquele período, os festivais de música, que o jornalista Tárik de Souza definiu como “vitrine e laboratório de canções”. 

Alguns fatores são responsáveis por tornar a canção um marco nas lutas em favor do restabelecimento da democracia e dos anseios por liberdades. “Sua força discursiva, a melodia penetrante e de fácil apreensão, o momento histórico no qual foi lançada, o ambiente cultural expressado naquele momento”, aponta Feliciano. “Tudo isso fizeram-na manifesto de uma geração, de um verdadeiro hino adotado por setores da cultura e de interesses políticos libertários”. 

O pesquisador observa ainda que alguns de seus versos, notadamente o refrão, foram construídos de forma a não se limitarem a pontualidades referenciais de espaço e tempo. “Isso resultou em presunções universalizantes da condição existencial do sujeito lírico, do indivíduo que está no mundo e que precisa compreender que ‘esperar não é saber’ e que ‘quem sabe faz a hora, não espera acontecer’”. Além disso, Pra não dizer que não falei das flores tem um aspecto de “metacanção”, nas palavras do professor: “antes de tudo, antes de qualquer efeito enunciativo, ela nos convida a segui-la em seu caminho. A canção pede passagem e quer ser cantada”. 

Somada às suas estratégias enunciativas, a estrutura musical é muito simples – o que é diferente de simplista. Descendo do modo menor para o maior, um tom abaixo, e subindo novamente em constante repetição, o movimento de ida e vinda pode se assemelhar à caminhada cuja letra convida: se uma passeata pudesse ser traduzida em som, talvez tivesse essa melodia. A toada obedecia à conduta do compositor, segundo o próprio Vandré, em depoimento dias antes da defesa no festival: “Em canção popular a música deve ser uma funcionária despudorada do texto”. 

Para o músico e compositor Alexandre Rabello, com quem conversamos sobre o assunto, o violão meio “guarânia” faz dessa canção um portal que leva o ouvinte direto para a atmosfera dos anos de chumbo: “Ela é como se fosse uma fotografia daquele momento”, comenta. “Eu acho que o mais complexo dessa música é entender a emoção que ela exige para ser tocada”, observa, referindo-se a Vandré como um dos grandes “cantantes” latino-americanos. “Esses dois acordes, simples, com essa letra tão certeira, têm uma carga emocional gigante. Tocar essa música sem emoção é passar por ela e não perceber a riqueza que há por trás desses sentimentos”, diz. 

 

“Das” flores ou “de” flores? 

O racha musical político e por que choras, Bossa Nova? 

Embora Caminhando seja uma música com três nomes – o menos conhecido é “Sexta coluna”, que ficou como um subtítulo esquecido – quase todo mundo se confunde na hora de chamá-la pelo seu nome principal: é “Pra não dizer que não falei DE flores” ou “DAS flores”? 

Vitor Nuzzi, biógrafo de Vandré, nos informa que o título da música é “DE flores” – muito embora, em todos os discos em que foi lançada, a grafia tenha saído “Pra não dizer que não falei DAS flores”

Na recente entrevista para Pedro Bial, o jornalista e pesquisador Tárik de Souza traz argumentos que defendem o uso da contração da preposição de + o artigo a, no plural. “A música que cindiu a bossa nova dizia que falar de flor não era alienar uma canção”, diz o jornalista. “Havia um racha entre os músicos da esquerda e da direita, sendo a direita representada pela ‘a arte pela arte’, que ficou conhecida pelo ‘o amor, o sorriso e a flor’ (referência a disco de João Gilberto, de 1960), que queria cantar músicas mais leves, queria cantar o amor”, explica. “E aí vem o Vandré com essa provocação”. 

Para Feliciano Bezerra, o título da canção flagra um embate cultural/estético próprio da época. “As correntes musicais mais ligadas à jovem guarda e à bossa nova, confeccionadas pela linha do lirismo passional, ficavam de um lado, e as expressões cancionistas mais voltadas para o engajamento político, do outro”, comenta. “Então, Vandré deslocou o campo semântico de ‘flores’, próprio da passionalidade temática do mar/amor/sorriso/barquinho/flor/beijinho… e trouxe-o, ironicamente, para uma arena de especulações históricas e dialéticas do real confronto ideológico, questionando quem ainda acreditaria na possibilidade romantizada de uma flor vencer um canhão”. 

Curiosamente, Vitor Nuzzi nos informa que Vandré diz que o título da música é “DE flores” – muito embora em todos os discos em que foi lançada a grafia tenha saído “Pra não dizer que não falei DAS flores”. Seria uma tentativa de desviar, magistralmente, a intenção provocativa da música? Nunca saberemos. 

Publicado na Revestrés#47 – Dezembro 2020-Janeiro de 2021.

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