“A literatura que ora nos debruçamos é a das relações humanas, distante das clausuras convencionais que limitam o sentir”. A frase consta na apresentação do livro Letras da diversidadeliteratura de livre expressão, lançado no Piauí em 2019, sob organização da escritora Marleide Lins. A obra reúne desde escritos datados de antes de Cristo até nomes de autores reconhecidos no Brasil e no mundo na atualidade. Esse exercício de retorno no tempo busca entender a história da chamada literatura LGBTQI+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queers, intersexuais e outras denominações de identidade de gênero e expressão de sexualidade)*. 

 

Foi no final do século XIX que a norma patriarcal, branca e heteronormativa – ainda mais forte à época – fora desafiada por Adolfo Caminha. Seu livro Bom Crioulo, de 1895, provocou escândalo ao retratar a homossexualidade e se consagrou como a primeira obra literária sobre o tema. As fronteiras rompidas ao retratar o romance de Amaro – negro escravizado, e Aleixo – jovem branco, abriram a literatura brasileira para entender a diversidade como tema. 

Mas os resquícios de uma sociedade fechada para as produções literárias de temática LGBTQI+ perduraram. No Brasil, um dos mais notáveis autores da temática, João Silvério Trevisan, relata que “a receptividade da crítica e da mídia foi farta em recusas, humilhações, calúnias, incompreensões e, sobretudo, silêncio”. Trevisan viveu o período da ditadura civil-militar e escreveu sua obra mais célebre, Devassos no Paraíso (1986), no que se chamava de abertura, mas era ainda um período de turbulências. 

      “A receptividade da crítica e da mídia foi farta em recusas, humilhações, calúnias, incompreensões e, sobretudo, silêncio” – João Silvério Trevisan.

Ele afirma que, embora escrever literatura LGBTQI+ naquela época fosse até mesmo perigoso, olhando pelo viés do entusiasmo e insurgência juvenil foi, também, fascinante. Escritor desde 1976, diz que não gostaria de passar outra vez pelos incidentes sofridos com a produção de sua obra. “Vivi episódios de censura, por parte da ditadura militar e – mais chocante ainda – por setores da esquerda brasileira. Inúmeras editoras se recusaram a publicar meus livros ou mesmo artigos”, conta, destacando que as novas gerações só o conhecem por dois livros recém-publicados, além de entrevistas, palestras e artigos espalhados. 

Entrar nesse rol de escritores, mesmo mais de cem anos depois da primeira obra de temática LGBTQI+ publicada no Brasil, foi para a escritora e jornalista piauiense Ana Kelma Gallas, “chutar o pau da barraca”. Em 2017 ela lançou o romance lésbico Espelhos e Miragens, com a assinatura de Hanna K. A obra tem como propósito relatar a luta contra a LGBTQIfobia. “Eu queria falar, por exemplo, como se sente o indivíduo LGBT no mundo que é heteronormativo. Que sofrimentos dessas protagonistas, em decorrência dos preconceitos sociais, estão relacionados com suas identidades sexuais e de gênero. E discutir também, é claro, muitas questões que têm a ver com os heterossexuais”, afirma Kelma. A obra é narrada em primeira pessoa pela estudante de Direito Ana Paula, que se apaixona por Manu, uma colega de classe, e passa por relações conflituosas sobre sua vida sexual. 

Quando era criança, mesmo sem entender porque, Roberto Muniz Dias conta que gostava de desenhar vestidos. “Meu pai percebeu e passou a me apresentar grandes clássicos da literatura que, de início, não gostei, mas que me ajudaram a desenvolver curiosidade pelo mundo das letras”. Hoje escritor e dramaturgo, ele avalia que aquelas descobertas foram importantes e que o tornaram um escritor engajado da causa LGBTQI+. Com mestrado em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB), Roberto entende que “como professor é preciso ter um olhar atento às diversidades, seja de gênero ou de sexualidade”. Ele destaca, entre seus livros, Trilogia do Desejo, que traz textos reflexivos, com personagens homossexuais e forte carga psicológica, perpassando o universo dos prazeres, relacionamentos, normas sociais, poliafetividade e a busca pela liberdade de ser. 

Em 2016, Roberto realizou o projeto Literatura e Diversidade Sexual, que consistia em incentivar a leitura e outras atividades escolares abordando igualdade, preconceitos, bullying e outros aspectos das opressões em sala de aula. As oficinas foram realizadas em Teresina, Manaus, Goiânia, Belém, São Paulo e Brasília, em parceria com o Ministério da Cultura. Tudo isso resultou no livro Uma questão de jeito, que conta a história de Clara, sua relação com a identidade de gênero e como o professor Luiz encara os conflitos que se desenham ao longo da narrativa. “Naquele momento já se discutia sobre diversidade nas escolas e o desafio de desmistificar a chamada ideologia de gênero. É uma história de empatia”, conta o autor. 

“Ela teve um milhão de cópias vendidas, só que teve 36 obras apreendidas pelo governo militar. Foi presa, assediada moralmente, coagida, mas escreveu” – Kelma Gallas sobre Cassandra Rios.

O retorno a algumas referências é importante para os autores contemporâneos, que apontam heranças no que hoje se concebe como literatura LGBTQI+. Kelma Gallas cita Cassandra Rios como exemplo de escritora que defendeu a literatura lésbica na época da ditadura civil-militar. “Ela teve um milhão de cópias vendidas, só que teve 36 obras apreendidas pelo governo militar. Foi presa, assediada moralmente, coagida, mas escreveu”, pontua. O nome de Cassandra Rios está entre os escritores mais censurados do regime militar brasileiro (1964 -1985). “Ela mostrava mulheres bissexuais ou homossexuais tendo vida como nós entendemos a vida heterossexual, como relacionamento afetivo, com suas desavenças, seus problemas, suas complexidades”. 

O escritor e performer Renato Negrão, de Belo Horizonte, também sabe identificar de onde vêm suas influências. “As questões LGBTQI+ surgem na minha literatura através dos livros, performances, fotografias, letras de canções, como um traço natural da minha personalidade, orientação e observação do que me atravessa”. Autores como Caio Fernando Abreu, de Morangos Mofados, e o cantor e compositor Cazuza, foram alguns dos primeiros a “fazer a sua cabeça”, ainda na adolescência. “Antes deles, muitos outros abriram a trincheira no Brasil, contrapondo outras narrativas que não a hetero-branco dominante”, argumenta. Para Negrão, o recorte racial é um dos pontos mais importantes a se enfrentar na disputa de narrativas na literatura LGBTQI+. 

 

“Não é mais possível silenciar nossos corpos” 

 

A edição da Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2019 foi marcada pela polêmica em relação ao livro de histórias em quadrinhos Vingadores – a cruzada das Crianças, de Allan Heinberg e Jim Cheng, que contém um beijo de duas pessoas do sexo masculino. Eram 20h21, do dia 05 de setembro, quando o prefeito Marcelo Crivella postou um vídeo no Twitter determinando a retirada dos exemplares por “conter conteúdo impróprio para menores”. Kelma Gallas categoriza essa ação como um discurso hipócrita. “Beijo, rala-rala, personagem na cama, tudo isso tem nas novelas a partir de 14h”, critica. 

A ação autorizada pelo prefeito foi recebida pela população e organizadores da Bienal como um ato de afronta à democracia e à diversidade. O dia posterior foi de muitos comentários nas redes sociais e pessoas de grande influência no meio digital reivindicando e agindo contra a censura. “Não é mais possível silenciar nossos corpos, seja de qualquer gênero, raça, credo, desde muito tempo silenciados”, defende Renato Negrão. 

Na sequência, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu a censura na feira de livros. A decisão do ministro Gilmar Mendes ressaltou que “a orientação sexual e a identidade de gênero devem ser consideradas como manifestações do exercício de uma liberdade fundamental, de livre desenvolvimento da personalidade do indivíduo.” 

Em manifesto, assinado por autores da Bienal, se reafirmou a condição de liberdade de expressão, garantida pela Constituição Federal de 1988: “Se engana quem pensa que o alvo era a Bienal Internacional do Livro. O alvo somos todos nós, cidadãos brasileiros, pois não precisamos ter quem determine o que podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro não precisa de tutor. Precisa de educação, para que cada um possa fazer suas escolhas, com consciência e liberdade”, destacou o texto. 

Marleide Lins acredita que tais tentativas de abafamento, na atual conjuntura, tendem a produzir um efeito contrário, reforçando comportamentos ativistas. “A literatura LGBT não voltará para o armário e será produzindo, escrevendo, publicando e difundindo esses livros que faremos a resistência contra essa onda heteronormativa”. 

Com a repercussão, saíram ganhando não só a liberdade de expressão e a diversidade, mas as editoras, que viram livros com a temática LGBTQI+ se esgotarem das prateleiras. Segundo dados informados pela Bienal, a editora Intrínseca, por exemplo, teve crescimento de vendas nos livros dessa temática variando entre 100% até 600%. O faturamento total da editora cresceu 18% em relação à Bienal anterior, em 2017. 

“Temos jovens escritoras e escritores LGBTs fazendo abordagens ricas em expressão literária. Isso tanto na ficção quanto na poesia”, avalia Trevisan, que cita os slams (batalha de versos) de poetas lésbicas, como provas de ousadia da fala conquistada. O autor ainda lembra que a academia também tem se debruçado sobre os estudos de gênero e diversidade, com diversas pesquisas e abordagens diferentes. 

As angústias para lançar o primeiro livro não significam desmotivação para o jovem escritor piauiense Noé Filho, autor do livro de contos Cores sob nossas peles (2019). O clima difícil para a literatura LGBTQI+ no Brasil torna-se, para ele, também um momento oportuno. “Há uma onda deixando o campo do discurso e querendo cada vez mais ficar instrumentalizada. Fico feliz em defender meu livro nesse momento, expor essas histórias e, assim como outros escritores, conquistar mais público e resistir”. 

 

Literatura, mercado e rótulo 

A produção literária com questões LGBTQI+ ganha espaço em feiras, editoras e eventos, um movimento sintomático do maior interesse do público e do crescimento de mercado, seja por meio de editoras grandes ou independentes. 

Roberto Muniz Dias conta que “existe até uma forte discussão sobre se devemos categorizar literatura LGBT ou se isso afastaria um público”. Ele considera que personagens e temáticas LGBTQI+ podem interessar a todos e avalia: “Eu digo que é importante demarcar que essa literatura existe, que há um público e que essa posição é também política, pois se acreditarmos que tudo na literatura é igual, quando acontecem casos como o da Bienal, isso prova exatamente o contrário. Nós vimos naquele episódio as pessoas usando os livros como bandeira de resistência”. E complementa: “Não significa que a literatura LGBT só possa escrever de maneira engajada, mas o engajamento ainda é importante. Para superar esse ponto e evitar que essa literatura fique somente no nicho, é preciso continuar, discutir, incluir ainda mais categorias, como as travestis e transexuais, como personagens, mas também na autoria de livros, também demarcando questões de raça, de condição social, enfrentando esse momento de retrocessos”. 

Para conquistar o público por meio do livro Letras da diversidade – literatura de livre expressão/cenas de livre expressão (parceria com o grupo Matizes, organização que luta pelos direitos da população LGBTQI+ em Teresina, Piauí), Marleide Lins conta que usar o termo “literatura de livre expressão” foi uma tentativa de incluir mais pessoas. “Quando se usava homoliteratura, literatura homoafetiva, alguns segmentos continuavam não se sentindo incluídos, dada a complexidade das identidades”. 

Em seu livro, Noé Filho distribuiu 12 contos de modo a contemplar os segmentos representados pelas letras da sigla LGBT. “A maior descoberta foi com o público bissexual, pois acabei percebendo que existia muito preconceito, fora e dentro do universo LGBT, com essas pessoas”, conta. 

“Há um maior acolhimento e curiosidade, como não poderia deixar de ser”, comenta Negrão, ao tempo em que reforça a persistência do preconceito. “É um preconceito forte porque é patrocinado para manter um status quo”. 

Para Trevisan, a internet é um espaço de ampliação da produção criativa. “O importante é mantermos viva a convicção de que não voltaremos atrás. Se acreditamos na legitimidade do nosso amor, certamente deixaremos rastros com nossa produção”.  

*Nesta reportagem utilizamos a sigla LGBTQI+, seguindo o Manual de Comunicação LGBTI+ lançado em 2018 pela rede GayLatino e Aliança Nacional LGBTI com apoio institucional da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e outras entidades.

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Reportagem publicada na Revestrés#43 – à venda pelo site neste link:

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