O cacique José Guilherme chegou no Piauí aos 8 anos de idade. Entrou no estado pelo povoado Brejinho, em Parnaíba (338 km de Teresina), junto com a família, vindo do Ceará. Indígena Tabajara, natural da Serra da Ibiapaba, saiu em busca de melhores condições de vida. “O povo branco quis caçar nós. Aí deram reconhecimento a minha bisavó e minha mãe foi pega a dente de cachorro”, relembra, fazendo referência à forma brutal com que as mulheres indígenas eram capturadas e violentadas pelos colonizadores. A história contada é recorrente nos relatos que se ouvem dos indígenas no Nordeste do Brasil.

Foi preciso mais de três dias e a ajuda de fumo, cachaça e alimentos, para que os caçadores conseguissem atrair os indígenas e tirá-los dali. “Aí eles levaram nossa família de dentro da folha de pedra e a gente foi amansado. Em Viçosa, colocaram a gente dentro de umas matas mais feias do mundo e nós fomos viver a vida, meu pai botando roça e criando a gente”, detalha.

Cacique José Guilherme | Foto: Moura Alves

Em solo piauiense, os tabajaras foram acolhidos por outros indígenas no litoral. Da mata em Viçosa, passaram a morar numa casa de palha, perto de um pé de cajueiro. Nesse meio tempo, quando deu fé, o cacique acabou se casando com Maria dos Anjos, com quem vive até hoje, uma indígena com quem cresceu junto, campeando animal do fazendeiro pai dela. “A minha mãe não queria, tinha raiva dela mais do que o diabo. Aí quando ela dizia assim: ‘Ô Dona Maria, minha sogra’, minha mãe dava um beliscão que chega largava o tampo”, conta enquanto enrola fumo em uma folha de papel de caderno.

Ao explorar outros cantos do estado, resolveu fazer morada em Piripiri. “Aqui já vivia chovendo.”

Na época, Antônio Guilherme, seu irmão mais velho, ao explorar outros cantos do estado, resolveu fazer morada em Piripiri. “Aqui já vivia chovendo. Ele veio, gostou, começou a trabalhar numa fábrica de arroz e aí ele pegou nós lá e nós fomos e descemos para cá. Eu cheguei de Maria Fumaça, com 23 anos, pouco depois que me casei. De lá pra cá a gente tá aqui”, acrescenta, imitando em alto e bom som o barulho do trem.

O cacique começou a trabalhar com o irmão como carregador e, devido às poucas condições, morou em diferentes lugares da cidade, às vezes de favor, até conseguir estabelecer-se no bairro Flor dos Campos, com a família. “Eu sou arrebentado, têm dias que é dor nos meus peitos que só eu mesmo sei. Mas eu sou danado, me levanto três horas da manhã, abarco no mundo aí e vou atrás de recurso. Daquilo bem acolá que eu vivo, olha”, aponta para os sacos de estrume empilhados no canto e encobertos, protegidos da chuva, “aquilo ali é merda de bode, café preto”. 

Nunca deixando de lado suas origens e com o espírito de liderança nato, o cacique José Guilherme, da comunidade Tabajara, de Piripiri, hoje é conhecido como o primeiro indígena do Piauí.  Ele recebeu Revestrés com a casa cheia de parentes, em um farto almoço no fim de semana, como que avisando: a história que tenho para contar é longa, mas antes de tudo deve-se dançar o Toré, para agradecer, e comer ao meio-dia em ponto, porque saco vazio não se põe de pé. 

A resistência indígena e a luta por reconhecimento 

A historiografia piauiense narra o extermínio e a dizimação indígena no estado como se essa fosse a única versão plausível: a do colonizador. Entretanto, essa interpretação vem sendo rebatida em pesquisas e projetos que estão sendo desenvolvidos. “Os indígenas sempre estiveram no Piauí e eu poderia elencar uma série de fatos que mostram que eles nunca saíram daqui”, afirma enfaticamente o antropólogo e pesquisador de etnologia indígena, Hélder Ferreira de Sousa. 

Desde muitos anos, as comunidades exigem sua legitimidade por parte da sociedade e do poder público, que ainda insistem em silenciá-las. Através de conversas com os mais velhos, os mais engajados tentam resgatar histórias dos seus antepassados e levar o conhecimento sobre a descendência para a maior quantidade de pessoas, contribuindo para que muitos se reconheçam indígenas piauienses. 

Toré na casa do cacique | Foto: Moura Alves

O cacique José Guilherme é a figura mais importante nesse cenário e faz jus a sua posição. Com 67 anos de idade, boa parte da sua vida é dedicada à luta pelos direitos dos seus. Sua articulação em Piripiri serviu para ajudar a identificar 53 famílias que já estão oficialmente registradas. Entretanto, segundo ele, existem mais 80 famílias que seguem sem registro. Os parentes das etnias Tabajara-Itacoatiara, Tabajara-Ypy, Tabajara-Tucuns, estão espalhados por diversos bairros da cidade, na zona urbana e, também, pela zona rural. A maioria sobrevive da agricultura familiar, venda de sacos de esterco, bicos de pedreiro e produção e venda de artesanato. “Têm muitos precisados que não são aposentados, não têm emprego”, lamenta José Guilherme, e acrescenta: “Se eu não procurar bosta de bode no chiqueiro para eu poder ganhar meu real e ter dinheiro no bolso, eu não vivia”. 

Cacique José Guilherme | Foto: Moura Alves

Aposentado, o líder da comunidade tem cinco filhos e vive com a esposa e um dos netos. Na casa dos fundos mora um dos seus filhos com a família. “Dois filhos meus morreram. Eu tenho uma filha e um filho em São Paulo, que têm uma leitura a mais e foram pra sobreviver melhor. Tenho outra que mora aqui, outro que trabalha nesse carro [aponta para um carro azul antigo e desgastado], é motorista e trabalha em qualquer coisa que aparecer, e tem outro que é verdureiro”, conclui. 

O cacique quer falar e precisa ser ouvido. Ele compartilha sua história com orgulho, tendo sempre uma situação inusitada para narrar. Como quando voou pela primeira vez e andou perto de colocar a vida de muita gente em risco. Embarcando de Teresina para Fortaleza, para participar de um evento de reconhecimento dos indígenas da Comunidade Tabajaras. Já pelo meio da viagem, na hora que o medo do alto estava passando, ele foi tomado por uma vontade súbita de abrir a porta do avião. Olhou para a janela, a janela retribuiu o olhar, ele foi se aproximando até a atração pelo céu ser interrompida pelo comissário de bordo. “Quando me dei conta, o vigia de lá começou a me chamar, pedindo pelo amor de Deus para eu parar com aquilo porque ia se acabar todo mundo. E eu perguntei o que era, e ele: ‘Isso não pode abrir nãooorapaaaz!’”, fala arrastando as palavras. “Eu sou buliçoso… Aquilo era a porta de emergência e, daí por diante, eu fiquei veaco.”, completa, às gargalhadas. 

O causo aconteceu no ano de início da Associação Itacoatiara de Remanescentes Indígenas de Piripiri, primeira organização desse modelo criada em terras piauienses. Articulada pelo cacique, juntamente com outras famílias indígenas da região e com a assessoria do antropólogo e indígena, Hélder Ferreira, a entidade foi criada em 2005. Ela é uma forma da comunidade ter mais visibilidade e poder reivindicar concretamente direitos básicos que lhe são garantidos na constituição: reconhecimento da cultura, crenças e costumes, demarcação de terras, e acesso à saúde e à educação. 

Quem conta essa história é o filho mais velho do Pajé Chicão. Após o almoço e a melancia de sobremesa, pouco mais de vinte familiares se sentam próximos uns aos outros, ocupando o puxadinho da casa de tijolos. O cacique faz questão de reunir todo mundo em uma meia roda de cadeiras, pede silêncio, escolhe quem vai ler o papel e anuncia: pode começar a carta do cacique Zé Guilherme e a história da nossa associação. O jovem inicia a narrativa que, de tantas vezes repetida, alguns dos presentes já sabem decorada. 

A Associação é um grande marco. Ela possibilitou a participação da comunidade em projetos e editais de seleção pública, que trouxeram um Ponto de Cultura Indígena

A Associação é um grande marco. Ela possibilitou a participação da comunidade em projetos e editais de seleção pública, que trouxeram um Ponto de Cultura Indígena, durante um curto período, e permitiu a aquisição de um terreno próprio, onde hoje está a Oca dos Tabajaras de Piripiri, local que, inicialmente, foi pensado para ser o ambiente de encontro da comunidade. 

O momento só é interrompido pelas xícaras de café preto, forte e adocicado, distribuídas pelo líder da comunidade. Todos acompanham atentos a história que dá reconhecimento ao povo tabajara e que atravessará gerações. A leitura se encerra sob fortes e afetuosos aplausos. Enquanto alguns se dispersam, o cacique José Guilherme, o pajé Chicão, o professor Hélder e outros familiares continuam reunidos, em conversa despretensiosa que sempre trilha para movimentações e articulações que beneficiem a comunidade. A luta é constante e intensa. 

Eu sou indígena piauiense! 

Um girassol vivo e brilhante indica que é ali. Ele se abanca pomposo em frente à casa de muro salmão desgastado, numa rua de terra. No canto da fachada, palavras tingidas de branco anunciam: Casa do Pajé Tabajara do Piauí. Em poucos passos somos recebidos pelo pajé Chicão, que nos espera paciente na área coberta que dá acesso aos cômodos da residência. Ao chegarmos, nos cumprimenta e indica uns tamboretes de madeira para sentarmos. 

Casa do Pajé Chicão | Foto: Moura Alves

Quem me acompanha é o professor Hélder Ferreira, que exerce um importante papel de intermediário entre a comunidade e quem quer que se interesse em saber a realidade indígena na região. Além de assessorar na reivindicação de direitos e busca por recursos. Enquanto conversamos sobre a presença indígena no Piauí, o curandeiro silenciosamente acende um fumo e dedica-se ao ritual de pintura corporal com tinta de jenipapo. Em um dado momento, o pajé pede para tirar as energias negativas que estamos trazendo da rua e que estavam lhe causando uma sensação de choro e mal-estar. “Eu não fiz nenhum mal para ninguém, então não tinha motivo para eu  me sentido assim”, revela. Após o ritual, alivia-se: “tirei as energias ruins que vocês carregavam, agora vocês estão protegidos e eu me sinto melhor”. 

O espaço que estamos é uma espécie de santuário sagrado, onde pode-se ver várias imagens de santos católicos e deuses indígenas, manacás e colares pendurados no teto, além de outros tipos de artesanatos elaborados por ele. Na mesinha velha, potes com plantas medicinais que podem ser úteis na produção de garrafadas. Panfletos religiosos e outros de eventos diversos seguem espalhados no local. Ao lado, uma pequena oca construída por ele. 

Pajé Chicão | Foto: Moura Alves

Natural do Ceará, quando chegou em Piripiri, pajé Chicão trabalhava na mata e seus avós moravam em quilombo. “Da primeira vez eu não sabia de nada, deu vontade de ir pra casa. Mas o que acontece, como a realidade é aqui, eu comecei a tomar gosto, fazer as garrafadas”, conta, relembrando os seus primeiros contatos com as atividades dos indígenas há dez anos. “Eu mexo com remédio de raiz, a gente faz para várias coisas: ferimento, inflamação…”, acrescenta. Além disso, ele também aprendeu a manejar artesanatos que hoje são transformados em renda. 

Ao se reidentificar indígena e tomar gosto pelos parentes tabajaras, o pajé sabe da importância de ir atrás da sua história e descendência e de como isso fez com que ele se tornasse a pessoa que é. “Todos nós, cabe curiar e saber a história dos bisavôs e dos pais da gente. O povo diz que todo brasileiro é descendente indígena, mas o que acontece? Poucos querem reconhecer. O índio foi pego pelos portugueses, eu sei por que ouvi essa história sendo contada. Eles conseguiram porque tinha mais força, a gente via o branco e ficava com medo. Quando eles vinham, eles pegavam e matavam, colocavam pra judiar. Aí a história dos índios é por aí, dos quilombos do mesmo jeito, e nunca deram valor, mas é a realidade, é a verdade. Aí eu disse que vou ficar bem e eu  gostando”, conta. 

O povo diz que todo brasileiro é descendente indígena, mas o que acontece? Poucos querem reconhecer – Pajé Chicão.

Seu aprendizado e o respeito pela cultura indígena, aos poucos, são passados para os filhos que, no começo, acharam ruim, mas que agora começam a ajudar na produção do artesanato. De todos os rituais, o Toré é um dos mais importantes, “é a cultura do começo do mundo, que é a cultura dos índios”, afirma, fazendo referência à importante dança que serve para agradecer a vinda de alguém, celebrar, pedir coisas boas, ou iniciar alguma atividade. Esses costumes também foram incorporados por Maria Djenane da Silva, Francisca Maria da Conceição e outras mulheres da comunidade. Com o casamento com indígenas e com o convívio, passaram a frequentar os Torés e as reuniões que tratavam sobre as reivindicações da Associação Itacoatiara. Outros se aproximaram, redescobriram suas origens, estreitaram os laços com o cacique José Guilherme e o pajé Chicão, reidentificando-se como indígena Tabajara. 

Ao reconhecer a falta de respeito e discriminação sofrida diariamente, o curandeiro da comunidade não se deixa afetar. “É que nem eu tava dizendo, eu cheguei aqui a primeira vez e eu não sabia como era e eu fiquei curioso porque eu tinha que aprender e eu vinha para cá para aprender a cantar. E eu aprendi a [canção] do rei dos índios, e hoje vem aumentando e eu acho que vai até não sei onde, mas me dou bem. Essa doutrina, para mim, ela veio por um dom. Aí existe a umbanda, o quilombo, tem bastante, e mistura. Todo mundo tem um dom”, enfatiza. Ele pede força pra Deus e os outros indígenas e reconhece que, se é ali que estão firmados, se é ali que todos eles foram colocados por Deus, a cultura indígena jamais vai acabar. “Não tem como sair de dentro das culturas indígenas – que é a raiz, é a tinta, é a medicina do mato, uma doutrina, uma cantiga do Toré – isso tudo tem um significado e eu vou passar para um filho meu. Eles já estão vendo eu fazendo, quando perguntam, eu digo”, afirma e finaliza: “o reconhecimento tá aumentando nas universidades, onde tá os estudos, então eu vou lá, falo sobre a raiz e sobre a cultura”. 

Reviver para contar 

Os Tabajaras também estão organizados em Nazaré, zona rural de Lagoa de São Francisco, cidade próxima a Piripiri. Para chegar lá é preciso subir a serra, por uma rodovia bem arborizada e de belas paisagens, e entrar em uma estrada de barro. No local somos recebidos ao som do Toré, dançado pela maioria jovem ali presente. O momento é instantaneamente registrado nos celulares e compartilhado nos grupos de WhatsApp. 

A comunidade, tem 100 famílias autodeclaradas indígenas. São articuladas e moram próximas umas das outras. Desde gerações passadas, muitos viviam os costumes e a cultura sem se dar conta do fato de que tudo estava voltado a questão indígena. “Quando a gente fazia apresentações na escola uma das características presentes era a questão indígena, na qual eu sempre ia fantasiada de índio. Só que a gente vivia com tudo isso, mas não tínhamos a malícia de atentar para a questão dessa história de se autoidentificar porque para nós era tudo natural. A gente brincava com peteca, com perna de pau, brincava na chuva, andava descalço, e eram os costumes que a gente tinha”, explica Lucinete Maria do Nascimento. 

O resgaste dessa história aconteceu, primeiro, com a discussão sobre a descendência, dentro da Escola Bíblica que os mais novos frequentavam na cidade de Pedro II e, depois, por meio de um diagnóstico participativo em que a comunidade teve que entrevistar pessoas mais velhas. “E daí então a gente começou a se interessar mais com a questão da história”, comenta Lucinete. “Constatamos que tudo começou com duas famílias: Caubóis e Cabeludos. Eles vinham do Ceará, e chegaram ao riacho que tem aqui perto. Lá deixaram uma parte da família e subiram dois homens para cá fazendo o caminho que chamamos de ‘varetas’. Acharam o lugar muito bonito e resolveram povoar. Como já tinham indígenas aqui, começaram os conflitos. Mas alguns foram saindo e a gente ficando”, acrescenta. 

Dinayana, estudante da Licenciatura em Educação no Campo e Ciências da Natureza na Universidade Federal do Piauí (Ufpi) | Foto: Moura Alves

Lucinete e seu irmão, Henrique Manoel, cacique da comunidade, ao tomarem consciência de suas origens viram a importância de levantar a bandeira. Iniciaram a missão de levar esse conhecimento para as outras famílias. Com o interesse dos mais jovens nas histórias e a vontade deles em não as deixar se perder, o trabalho ganhou muito mais impulso. “Dinayana foi estudar em Teresina, e lá conheceu professores interessados na gente; começamos a expandir e a levar mais a sério essa questão”, comenta, citando o papel importante de sua sobrinha que, hoje, estuda Licenciatura em Educação no Campo e Ciências da Natureza na Universidade Federal do Piauí (Ufpi). “Porque a nossa comunidade é toda descendente, mas têm uns que se assumiram, outros que não se assumiram”, completa. 

Dinayana Kelly Uchoa do Nascimento desde muito cedo visitava outras comunidades e via que cada uma tinha suas comidas típicas, tradições e crenças. Também acompanhava, na escola, rodas de conversas sobre descendência indígena. “A história é que faz a importância, além de ser identidade, memória e ressignificação de tudo”, conta, com voz mansa e pausada. “Porque você está aqui, mas você não é só você, é um conjunto do seu pai, da sua mãe, do local onde está, todas as suas relações com a natureza e com as outras pessoas. Então o que eu sou é tudo de antes. Para saber o que sou hoje, é preciso ter esse conhecimento da minha origem, de quem veio antes de mim, de qual o valor disso para a minha comunidade”, ressalta. 

Eu acho que a maior importância da gente se identificar é motivar uns aos outros – Dinayana Kelly

Em seus vinte anos de idade, Dinayana sempre manteve seus sentidos apurados às histórias contadas pelos mais velhos. A jovem escuta seu avô, Manoel Sinésio, com atenção – uma relação afetuosa que ultrapassa os limites de uma admiração de neta. As lembranças compartilhadas tornam possível a continuidade dessa grande família. Mas isso não é o suficiente. “Só falando não se perpetua tanto assim. Daí eu comecei a registrar algumas coisas e, depois disso, muitos outros jovens da comunidade estão comigo nesse trabalho de resgate”, narra, com fala completada por sua tia Lucinete: “um dos nossos objetivos é publicar um livro porque a gente tem medo que futuramente a nossa história se acabe”. 

Para contribuir com a preservação, a comunidade mantém um Museu Indígena, o primeiro do Piauí, que hoje conta com muitos pertences dos antepassados. Para sua criação, oficinas realizadas durante o III Fórum Nacional de Museus Indígenas do Brasil, em 2017, em Lagoa do São Francisco, foram essenciais. Potes de barro de mais de 100 anos, balaios feitos de cipó, artesanatos, livros com histórias indígenas, pesquisas feitas sobre a comunidade e peças utilizadas antes no cotidiano estão catalogados e organizados – trabalho que recebe o apoio de pesquisadores das universidades. 

Com o tempo, surgiram outras demandas, como a criação da Associação dos Povos Indígenas Tabajara e Tapuia da Comunidade de Nazaré (APIM), que serviu para oficializar as reivindicações – inspirada pela Organização Kolping que ajuda a comunidade –, e a construção e a inauguração da OCA. “Depois que a gente se identificou e levantou essa bandeira, a gente tem recebido muitas visitas. Nós achamos que a OCA é um local de referência para identificarmos nossas raízes”, explica Lucinete. E Dinayana acrescenta: “Os encontros, discussões, missas, tudo é aqui. Por causa também da abertura, a nossa família se divide e meio que organiza toda a comunidade, porque a gente faz bem ao outro, mas recebe o bem também”.  

Dinayana tem a força de uma indígena guerreira. Com pouco mais de 20 outros jovens, se envolve nos relatos, luta pelos direitos da comunidade e interessa-se em contar toda a história do seu povo. O seu engajamento já atraiu muito mais familiares. A jovem batalha contra o silenciamento histórico que o seu povo teve que passar para sobreviver. Seu caminho está traçado: ela veio ao mundo com a missão de não deixar a história dos índios tabajaras se perder e não pretende parar tão cedo. “Eu acho que a maior importância da gente se identificar é motivar uns aos outros”, conclui

O direito indígena 

A resistência ao longo dos anos comprova que os indígenas sempre estiveram no Piauí. O que ocorreu no estado foi um processo intenso de violência contra esses povos, em que muitos eram escravizados, mortos ou aldeados – reunião de indígenas encabeçada pelos jesuítas que facilitava o processo de colonização. Livros importantes narram a presença indígena no Piauí durante o período colonial, como “As trilhas da morte” (2002), do Paulo Machado, e “História dos Índios no Piauí” (2011), organização de Claudete Miranda Dias e Patrícia de Sousa. 

São vários os relatos enfatizando apenas o extermínio e deixando de lado a luta indígena e, assim, fazendo com que a população passasse a acreditar que não existem mais indígenas no Piauí. Em artigo, Hélder Ferreira, destaca que “as hipóteses da ‘dizimação’ e do ‘desaparecimento étnico’ foram abraçadas pela historiografia oficial numa postura acrítica, que privilegiou a ideologia dos colonizadores e permaneceu inquestionável até bem recentemente”. O pesquisador afirma que “de uma forma geral, a representação de ‘índios’ no Piauí vincula um misto de ‘antepassado selvagem’ e ‘índios oficialmente desaparecidos’. Tal representação dos antepassados piauienses apregoadas pela narrativa histórica misturou-se ao senso comum”. 

De acordo com o Censo do IBGE (2010), o Piauí possui 2.944 pessoas que se autodeclaram indígenas, em 10 municípios. Esse dado, ao olhar do Projeto “O Piauí tem índio sim”, do Governo do Estado, é muito maior. Segundo um mapeamento feito em 2016, foram identificados 6 mil indígenas em 36 cidades. 

 Todo mundo se preparou para o fim dos povos indígenas e, agora, a sociedade não está preparada para o seu reaparecimento – Carmen Lúcia

“O que a gente percebe nessas comunidades que agora afirmam uma identidade é que, no contexto onde eram muito fortes as questões da violência, o preconceito e a discriminação, essas famílias adotaram uma estratégia de esconder essa identidade. Porque inclusive, num dado momento, falar, afirmar a identidade significava correr um risco, colocar a própria existência em risco”, explica a antropóloga Carmen Lúcia Silva. 

Os indígenas silenciavam suas origens, costumes e tradições, para poder manter-se vivos. No entanto, atualmente eles buscam ocupar um lugar de protagonismo, reivindicando seus direitos. Uma carta elaborada pelas lideranças indígenas Kariri e Tabajara no Piauí em 2016 mostra as principais reivindicações desses povos. No documento, escrito durante a XIV Semana dos Povos Indígenas, eles afirmam que “além do preconceito e discriminação que nos afligem diariamente, somos afetados pela negação do direito territorial e do direito à saúde e à educação”. Dessa forma, pedem empenho de órgãos do governo no sentido de atender algumas das demandas elencadas. Uma perda para os indígenas piauienses foi a extinção da Coordenação Territorial Local (CTL), da FUNAI, realocada para o Ceará em 2017. 

Para a antropóloga Carmen Lúcia, “todo mundo se preparou para o fim dos povos indígenas e, agora, a sociedade não está preparada para o seu reaparecimento”. “Na medida em que eles afirmam essa identidade, há uma dificuldade de aceitação, que pode ser muito claramente expressada na negação dos direitos indígenas. Se pararmos para pensar, quais as políticas públicas que existem para os indígenas? Porque os indígenas têm direitos específicos e esses direitos são efetivados através de políticas públicas. Quais são as políticas públicas que são, de fato, implementadas aqui no Piauí?”, questiona. 

 A estimativa é de que existem 80 comunidades com 6 mil indígenas, distribuídos em 36 municípios

As principais reivindicações dos indígenas são: a demarcação de terras; a criação do Distrito Especial de Saúde Indígena do Piauí (DSEI-PI); e implementação de escolas indígenas. Atualmente, o que acontecem são iniciativas pontuais, como a inclusão de discussões indígenas dentro de escolas próximas das comunidades indígenas mais organizadas – partindo de provocação dos próprios indígenas, como é o caso dos tabajaras da Comunidade Nazaré, zona rural de Lagoa do São Francisco. 

Com a criação do projeto “O Piauí tem índio, sim”, a proposta do Governo do Estado é, partindo do mapeamento indígena, realizar uma série de atendimentos às demandas, através de uma equipe de profissionais e pesquisadores. “Contido em três eixos – diagnóstico situacional, levantamento epistemológico e qualificação profissional no sistema de saúde – o projeto foi uma demanda dos povos indígenas”, explica o coordenador da saúde indígena, Epifânio Ferreira. Segundo ele, a etapa que se segue é a ampliação do projeto: “estamos tentando fazer com que os gestores municipais tenham a sensibilidade no atendimento e acolhimento dos povos indígenas nos seus estabelecimentos hospitalares e dando um reforço maior, que é a qualificação”. 

Nesse meio tempo, foram realizados mutirões de saúde nas comunidades, sem uma continuidade definida. Além de capacitações eventuais de profissionais da educação e saúde, voltada ao atendimento dos indígenas. Iniciativas vagas, se levar em consideração a denúncia feita pelos líderes indígenas na carta citada anteriormente, em que eles tornam público “a situação de abandono em que se encontram nossas comunidades e o descumprimento dos direitos indígenas estabelecidos na Constituição brasileira e legislação institucional”. 

 

Municípios com indígenas 

De acordo com levantamento feito pelo Projeto “O Piauí tem índio sim”, da Coordenação Estadual de Promoção de Equidade em Saúde da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí, a estimativa é de que existem 80 comunidades com 6 mil indígenas, entre grupos mais articulados ou não, distribuídos em 36 municípios. São eles: 

  1. Agricolândia 
  2. Amarante 
  3. Bertolínia 
  4. Buriti dos Lopes 
  5. Barras 
  6. Bom Jesus 
  7. Colônia do Piauí 
  8. Colônia do Gurguéia 
  9. Curimatá 
  10. Capitão de Campos 
  11. Domingos Mourão 
  12. Floriano 
  13. Inhuma 
  14. Gilbués 
  15. Jurema 
  16. Jerumenha 
  17. Lagoa de São Francisco 
  18. Marcolândia 
  19. Milton Brandão 
  20. Miguel Leão 
  21. Nazaré do Piauí 
  22. Oeiras 
  23. Pio IX 
  24. Paulistana 
  25. Parnaíba 
  26. Palmeiras 
  27. Piripiri 
  28. Picos 
  29. Pedro II 
  30. Palmeira do Piauí 
  31. Queimada Nova 
  32. São Raimundo Nonato 
  33. Simplício Mendes 
  34. São João do Piauí 
  35. Santo Inácio do Piauí 
  36. Teresina 

 

A versão original desta reportagem, com o título “Índio quer falar”, foi publicada na Revestrés#35 – março-abril de 2018. Esta versão online sofreu alterações em 25 de setembro de 2020, com a substituição da palavra “índio” por “indígena”, por concordar que esta é a forma mais adequada. A palavra “índio”  é a denominação utilizada pelos colonizadores para se referir aos povos indígenas que já habitavam as Américas, sendo considerada, hoje, uma forma pejorativa de identificação.

(Publicada na Revestrés#35 – março-abril de 2018).