Participaram desta entrevista: André Gonçalves e Samária Andrade | Fotos: André Gonçalves e Maurício Pokemon

Pobre, preto bicha!”. As palavras apareceram numa cédula de votação. Eram o protesto de um professor universitário, dirigidas a Solimar Oliveira Lima quando, no final dos anos 80, este concorreu a Chefe de Departamento do curso de Economia na Universidade Federal do Piauí (UFPI). Não estavam assinadas. Mas expressavam a indignação diante da ousadia daquele pobre, preto e bicha. Como alguém carregando esses pesos poderia querer ganhar espaço privilegiado na academia, num curso com fama de tradicional?! 

Apesar da manifestação, Solimar ganhou as eleições. Hoje ele conta o caso como uma das mais agressivas experiências racistas que vivenciou. Não que elas tenham desaparecido. “Na semana passada fui a uma loja de equipamentos de ginástica no shopping e perguntei três vezes o preço de um aparelho. O vendedor nem olhava pra mim”, conta. “Então Cordeiro perguntou uma vez e eles responderam. Eu não comprei mais. Deve ser porque o Cordeiro parece um gringo” – refere-se ao companheiro, com quem namora há quatro anos. 

Solimar Oliveira é professor de Economia da Universidade Federal do Piauí. Tem mestrado e doutorado pela PUC do Rio Grande do Sul na área de História e avalia que, hoje, seus interesses se aproximam mais desta área que da primeiraInquieto, acaba de graduar-se também em Direito, numa universidade particular de Teresina 

Nos recebe para entrevista no sítio onde vive com a mãe, Dona Jesusna estrada entre Teresina e União. Dois dos seis irmãos de Solimar construíram casas no mesmo terreno e vivem todos por ali com a família. Cordeiro veio passar o final de semana. Ele mora no bairro Esplanada e trabalha com movimentos sociais e LGBTOs dois já se conheciam, mas somente se aproximaram  quatro anos, numa conferência LGBT ocorrida em Brasília. “Foi meu presente de 50 anos”, conta Solimar, que havia estabelecido a idade como a chance de encontrar uma pessoa decente para ficar a seu lado. Caso contrário, “ficaria solteiro para o resto da vida”, garante. 

Confiante, o professor tenta manter a tranquilidade: “Sempre fui assumido como negro e gay. Esse é um desconforto que quem tiver pode esquecer. Mas sabe que a tarefa é espinhosa: “Não é fácil se assumir como gay e como negro”, desabafa quase num suspiro.   

Ele pesquisa os negros, mas ultimamente vem recusando convites para participar de discussões sobre o tema. Diz andar indisposto para se meter em confusão: “Se eu for, tenho que dizer o que penso”. Ele também anda avesso ao nome “inclusão social”– embora use o termo, na falta de outroReconhece a importância das cotas nas universidades, mas acha que o próprio negro e o pobre não estão discutindo o assunto. Ao contrário, estão se diluindo, tentando se disfarçar, evitando a tensão. “Outro dia, na sala de aula, eu procurava um aluno que tivesse entrado por cota e ninguém apareceu. Terminou a aula veio uma menina, toda sem jeito, me dizer que era de cota. Mas tem mais é que valorizar isso!”. 

Porém, sabedor do quanto é difícil viver à margem, ele admite que teve que se ajustar à ordem para ter salário digno, carro e casa própria. Aliás, a casa de Solimar é enorme. “Eu briguei muitas vezes com o arquiteto porque sempre queria o espaço maior, a parede mais alta”. Até hoje não terminada, a casa é de uma beleza rústica. Na biblioteca, caixas de livros que ele continua a arrumar sem muita pressa. Em todos os quartos, amplos terraços individuais. Mas o que ele mostra com mais satisfação é o jardim onde está arrumando um espaço para biodança. E se põe a explicar onde ficarão os elementos fogo, terra, ar e água. 

Consciente dos ajustes que teve que promover, Solimar diz que, dentro do espaço que conquistou, continua fazendo o exercício de desajustar as estruturas. “Até porque a elite só respeita quem ela não compra”, ensina. 

De voz macia e expressões contundentes, fala às vezes dando pausas e repetindo o que acabara de dizer. Outras, atropelando as palavrasSolimar tem alguns desafetos e muitos admiradores – especialmente entre os espíritos mais críticos, que encontrano professor alguém que continua a por o dedo na ferida, revelando nossas misérias. Nesta entrevista ele tenta avaliar o jogo entre menos favorecidos e a chamada elite, considera que a sala de aula empobreceu muito – está menos culta e mais conservadora-, fala de racismo e homossexualidade, e lamenta: “os ricos em Teresina são muito rudes”. 

Foto | André Gonçalves

 

Samária – Que espaço têm o negro, a mulher e gay na sociedade brasileira atual? 

Solimar Oliveira  O negro sempre foi uma fatia grande do conjunto da população. Mas o que historicamente fica é a invisibilidade dessa população. Como  invisível, não tem espaço. Eu falo do espaço no sentido de criar territórios de expressão, que passa inclusive por ocupar determinados postos, funções. Internamente, a população negra sempre teve seus territórios de autoafirmação e recriação da culturapor exemplo: as comunidades de terreiros. Mas esses espaços praticamente não dialogam com a sociedade, são marginalizados. Se você pensa na mulher é a mesma coisa. Para ela há um espaço do âmbito privado, sejam mulheres da elite ou empobrecidas. Talvez, das três populações, os gays tenham espaços mais comunicativos com o conjunto da sociedade, mas estes também são espaços privados, guetos, onde há toda uma reprodução da cultura gay 

Samária – A presença desses segmentos no espaço público não vem crescendo significativamente?  

SO– A gente pode pensar que sim: hoje a mulher é maioria na educação, está presente nas diferentes profissões, ocupa cargos de chefia, inclusive Presidência da República. Isso indica um crescimento de espaços públicos, mas não assegura uma universalidade desses espaços para o conjunto das mulheres. A gente tem a ampliação da presença feminina no espaço público mas, ao mesmo tempo, uma presença individualizada: a” presidentaa chefe da empresa, a professora doutora. O conjunto das mulheres continua no seu espaço cativo historicamente que é o privado, da casa, da cozinha. Isso vale também para a população negra e para a homossexualNós percebemos um crescimento da população negra nos espaços públicos, mas por representações individuais. A população homossexual, quando não está nas grandes manifestações públicas, a exemplo de paradas gays, continua à margem. 

André – As políticas públicas de inserção e mobilidade social têm atendido às necessidades desses grupos   

SO  Elas têm promovido uma maior representação dessas populações, mas eu vejo que trazem questões que precisam ser analisadas com vagar. A primeira é o efeito dessas políticas públicas No caso das ações para o ensino superioras pessoas pobres e negras estão tendo mais acesso. Até o Censo de 2000, de cada 100 negros, apenas seis concluía o curso superior. Esse percentual aumentou muito e isso é ótimo! O problema é que a política pública não está trazendo junto uma reflexão sobre identidade. Então você joga milhares de estudantes negros nos cursos superiores e não se promove uma discussão sobre a presença deles ali no ensino superior! Como é que um programa institucionalizado, com força midiática, não promove qualquer discussão dentro da própria universidade? 

Nós somos uma sociedade marcada pela violência. Não se respeita homossexual, mulher, heterossexual, idoso. 

André – O que você avalia que essa falta de reflexão provoca? 

SO– O que acontece é que essa população negra e pobre, que está tendo acesso ao conhecimento, não está se vinculando a sua origem. Pelo contrário, está se distanciando. Essas pessoas estão saindo da universidade criando uma espécie de categoria que se insere no mercado pelo consumo. Eles passam a ter bons empregos, um padrão de vida diferente dos pais e avós e não se constituem enquanto grupo para o enfrentamentoA inclusão social tem provocado a criação de uma zona de conforto, que permite desfrutar daquilo que aparentemente aparece como um esforço individual, mas que não é. Pra cada um que chega lá tem 99 que ficam na estrada! (fala com ênfase). Mas a pessoa sempre pensa que é um esforço individual, um mérito. Então, quando eles chegam na zona de conforto, pensam: “quanto menos atrito, melhor pra mim”, ou “por que eu, que cheguei aqui por esforço pessoal, vou comprar briga dos outros?”. O que  acontecendo é uma inclusão asséptica, sem questionamento, sem atrito. Há uma naturalização do presente e se perde o processo de reflexão.   

André – As políticas públicas afirmativas costumam focar determinadas necessidades específicas dos segmentos. Há alguma pauta que unifique as necessidades das populações historicamente excluídas?  

SO – Me parece que há algo que unifica essas populações: é a necessidade de enfrentar a violência, que compromete a própria existência desses gruposSe tem uma matriz unificadora da sociedade brasileira é a violência. Nós somos uma sociedade marcada pela violência. Não se respeita homossexual, mulher, heterossexual, idoso. Essa violência, que marca a nossa gênese, não desaparece. Em determinadas conjunturas ela aflora. E na medida em que a base material fica mais comprometida, as diferenças tendem a aflorar com mais forçaEu vejo que a tendência, no Brasil, é piorar as situações de confronto social  

Foto | Maurício Pokemon

Samária – Você fala da violência como uma marca da formação do povo brasileiro, mas existe uma ideia geral de que brasileiré um povo pacato, uma democracia racial. Isso é um mito? 

SO – Um mito que nunca se sustentou, embora as elites sempre vendam essa ideiaHistoricamente o que marca as relações entre o senhor e os trabalhadores é a violência, que vai dos castigos à necessidade de subordinação, de disciplina. Nesse contexto vão se construir duas leituras: – uma, de indolente, para os negros; outra, de preguiçoso, para os trabalhadores livres. A violência era usada também dentro de casa- com a mulher, os filhos. As relações entre as elites também foram resolvidas pela violênciaqualquer desconfortomandava-se matar, invadir. Muitas fortunas foram construídas se utilizando da violência no espaço público. A violência também estava presente nas relações de rua e entre a população empobrecida, seja no trabalho ou nos espaços de sociabilidade. Talvez por isso se tenha construído uma representação dos espaços de pobreza como violentosEssa experiência histórica de resolver tudo subjugando o outro, nem que para isso seja necessário uso de diferentes formas de força, parece que fica no nosso DNA. Somos hoje uma sociedade que pulsa a partir da presença de poder, que pode se manifestar a qualquer hora, em forma de violência. Então a gente não pode pensar no brasileiro como uma construção amena, pacata, paternalEu acho que existe uma busca de manter uma aparência de cordialidade (arrasta as últimas palavras e faz silêncio). Mas na realidade são relações que reforçam a desigualdade de forma sutil, na medida em que se busca criar uma harmonia que de fato não existe. Essa tentativa de criar uma leitura de harmonia de classe no Brasil é muito perigosa. 

André – Sobre a aprendizagem que fica no nosso DNA, o que se pode avaliar que fica de herança da relação histórica onde a população negra é herdeira da escravidão uma outra população é herdeira da estrutura de privilégios? E onde essas heranças se encontram? 

SO – As aprendizagens passam de geração para geração. Então quem nasce na elite, mesmo com acesso a conhecimento, dificilmente consegue se dissociar da aprendizagem que herda. O máximo que a gente consegue nesse grupo é um determinado verniz, que vem pelo refinamento, não só pelo dinheiro, mas também pela cultura. Enquanto classe, a elite é moldada pra ter o controle do processo. E só se tem o controle do processo, na sociedade em que a gente vive, através da permanência da desigualdade. Então a elite só vai continuar elite se ela tiver controle da permanência da desigualdade. Enquanto classe, o projeto  formado. Eu  falando do ponto de vista geral, claro. A gente encontra, dentro dessa elite, pessoas mais flexíveiscolaborativas. Mas em regra, enquanto classe, a elite vai se reproduzir para promover a desigualdade. Isso justifica você ver pessoas tão jovens dessa eliteextremamente preconceituosas, prepotentes, reproduzindo discurso e práticas de gerações anteriores. Por outro lado, no conjunto da sociedade, não se pode fazer uma leitura tão homogênea enquanto classe. Nós trazemos a aprendizagem da violência, de submissos, mas também aprendizagem de enfrentamento dessa violência. Os  enfrentamentos resultam na melhoria das condições de trabalho e de vida. E essas melhorias empurram a gente pro lado de lá, entende? Aí começa o risco: se não tiver uma reflexão, você ascende materialmente e passa a reproduzir os valores de uma classe que não é a sua.  

A gente não se percebe como negro, não se percebe como pobre. E, ao nos diluirmos, deixamos de construir uma força de enfrentamento, como em países onde a questão racial é concreta. 

André – A diferença de classes está mais diluída no Brasil hoje? 

SO – Aí tem outro perigo. No Brasil se construiu uma representação das diferenças de classe muito fraternal no passado e muito harmônica e fluida na contemporaneidade. É como se não houvesse essa diferença. A presença dos grupos excluídos, especialmente o negro, é diluída pela mestiçagem. Particularmente, no Piauí, nós temos uma sociedade em que grupos de pessoas que não são ricas estão próximos de uma minoria ricaEstão próximas aonde? Nas escolas, no shopping, nos espaços de sociabilidade. Então a gente tem a impressão que frequenta todas as rodas, porque tá o filho do rico, do muito rico, do pobre, todos frequentando os corredores da universidade, o shopping, de vez em quando o mesmo restaurante caro.  Mesmo que o mais pobre tenha o seu espaço de pobreza demarcado, ele consegue transitar nos outros espaçosPor isso parece que é fluido. Eu acho péssimo isso! (arrasta a frase). Porque essa fluidez impede a construção da identidade para esse conjunto da sociedade. Para elite não, ela tem os seus espaços de construção. A gente é que tá se perdendo: a gente não se percebe como negro, não se percebe como pobre. E como a gente não se percebe, ao nos diluirmos, deixamos de construir uma força de enfrentamento como em países onde a questão racial é concreta. 

Samária – É como se os próprios excluídos estivessem preferindo não falar: “eu sou preto, eu sou pobre”? 

SO – Vai se construindo uma presença disfarçada. Há algo que me preocupa muito na universidade. Mesmo pessoas que entram por cotas parecem ter um sentimento assim: eu cheguei aqui e quanto menos eu tocar no que me traz aqui, mais fácil vai ser pra eu conseguir me igualar aos outros. Outro dia na sala de aula eu procurava um aluno que tivesse entrado por cota e ninguém apareceu. Terminou a aula veio uma menina, toda sem jeito, me dizer que era de cota. Mas tem mais é que valorizar isso! Essa diluição empobrece ainda mais a população negra, porque não há um compromisso de quem ascende com a sua origem. A quem interessa a não reflexão sobre isso? À ordem. E essa ordem é conduzida pelas elites.  

André – O discurso que promove a diluição da percepção das diferenças é um discurso das elites. E por que ele é repetido inclusive por gente que deveria ter noção da necessidade de políticas afirmativas? 

SO – Porque as aprendizagens dos grupos excluídos estão sendo constituídas pelos interesses da elite.  O processo não está sendo feito de uma forma ideológica favorável à população historicamente excluída, mas à eliteNessa ideia de sociedade fluida, harmônica, ninguém toca nos problemas. Tá todo mundo tendo curso superior, conseguindemprego, uma casa, então  tudo muito bem. Aí você é surpreendido com a história do professor doutor negro que é cuspido na cara (refere-se a Alcione Corrêa, professor da Universidade Federal do Piauí, cuspido por um grupo de jovens que passava de carro, enquanto ele andava de bicicleta, na zona leste de Teresina)do jogador que é chamado de macaco… Os sustos aparecem porque a discussão de nossos problemas não está no nosso cotidianoNós fazemos de conta que não há racismo. 

André – Em relação ao holocausto, fala-se do assassinato de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Na escravidão, estima-se que 11 milhões de africanos foram retirados da África e cerca de 80 milhões de negros morreram de causas diversas, em decorrência da escravidão. Por que os dados do holocausto estão presentes no imaginário da sociedade, mas os da escravidão não? 

SO – Os números do genocídio da população negra não são refletidos em nenhum país que utilizou a escravidão para a sua formação social. Esses países usaram isso pra se constituir como nação, então o processo era naturalizado. Não era falta de humanidade matar negro, porque a população negra foi socialmente identificada como não humana. Agora, o que me choca, é pensar como uma sociedade lançou mão da escravidão no mesmo momento em que estava passando por profundas mudanças de reestruturação – que é a sociedade liberal européia – e pregava liberdade e igualdade? Como essa sociedade teve estômago para construir para ela uma afirmação baseada na “igualdade” (dá ênfase à palavra), enquanto construía, para um conjunto de outros segmentos, uma ideia de não humanos?! Em ambos os casos, essa matriz  assentada na materialidade, na expansão e acumulação. Não existe culpa em relação aos negros. A quem cabe a recuperação desse processo? Aos descendentes. Isso a população negra do passado fez muito bem.  Já a população negra da contemporaneidade está em dívida. A população escravizada lutava pela liberdade, mas queria mais. Nós, negros da contemporaneidade, nos perdemos muito.   

A negritude foi construída para estar à margem. O que vai incomodar é a presença negra fora do canto, porque se ela não está no canto,  vindo pro centro

André – Há atos de racismo que deixam os problemas mais visíveis, mas existem atitudes no dia a dia que as pessoas não consideram racismo. Afinal, o que é racismo? 

SO – Há manifestações sutis, como chegar num local e não dar bom dia à pessoa que trabalha na limpeza. Às vezes se misturam discriminação racial e social e algumas pessoas se tornam completamente invisíveis. O racismo traz negação da presença do outro nos espaços onde eu me coloco como aquele que foi criado para ocupar esse espaço. Então a pessoa pensa assim: – o pobre, o negro, podem até estar ali, mas têm que estar no espaço reservado socialmente para eles, que não é o da centralidade. Porque aquele que foi constituído para ocupar o centro só suporta a presença do outro, que ele considera inferior, nos espaços da margem. O racismo se manifesta quando alguém socialmente construído para estar na margem começa a ocupar o centro. Então a elite branca não quer as cotas raciais na educação, porque para ela as cotas tiram a vaga dessa elite. Eles não querem que determinada pessoa ganhe protagonismo, é o caso do jogador de futebol que faz um gol, o cara é negro e ainda faz um gol contra o meu time?!”.  É o professor que vai numa bike bacana lá no local de classe média.  discriminação contra o negro é forte porque, historicamente, a negritude foi construída para estar à margem. O que vai incomodar é a presença negra fora do canto, porque se ela não está no canto, ela  vindo pro centro. Então as pessoas criam manifestações para que o negro perceba que o lugar dele não é no centro. 

André – É possível associar a história dos rolezinhos nos shopping a essa mesma questão: recriminar o rolezinho é se manifestar contra um grupo que era para estar à margem? 

SO  O público alvo dos rolezinhos é, por si só, destinado a ser visto com desconfiança pelos interesses da elite:  um conjunto de pessoas que vêm de áreas de pobreza associadas com alto índices de violênciaque carregam determinadas pechas sociais, estigmatizadas pela questão racial – porque são predominantemente negros. Imagine essas pessoas transitando livremente num local de representação da força de mercado: incomoda muitoAli o que a gente tem é o confronto entre a base de sustentação da matriz que exclui – que é o dinheiro, o mercado, a propriedade privada – com aquilo que é produto dessa exclusão. De um lado está a sociedade de mercado, com todos os seus cânones, tornados concretos através dos shopping centers – um edifício teoricamente aberto a qualquer um. Mas a qualquer um que queira dialogar com ele. E para esse diálogo o vínculo é o dinheiro. E não basta o dinheiro. Você tem que ter uma representação que se personifica no consumidorPor isso negro com dinheiro às vezes chega num local desses e tem dificuldade de comprar. Porque as pessoas desconfiamPor que no natal tem uma grande quantidade de gente no shopping e ninguém tem medoNinguém coloca em questão a segurançdessa estrutura? Pelo contrário, aquela quantidade de gente, ainda que não seja para comprar, ratifica a existência do shopping. E por que incomoda o passeio dos rolezinhos? Porque a estrutura da elite  reconhecendo no jovem do rolezinho o produto da diferença. A presença dos rolezinhos coloca em xeque a estrutura 

Foto | Maurício Pokemon

Samária – Além dos rolezinhos, outras manifestações sociais têm ocorrido e você considera que as situações de confronto tendem a aumentar. Como o Brasil está lidando com as manifestações de conflitos sociais?   

SO  Historicamente só houve uma forma de fazer o enfrentamento dessas manifestações: é criminalizando esses atos. Todas as manifestações que deixam o outro lado visível, que expõem as diferenças, sempre foram criminalizadas. Porque não interessa à elite lidar com essas desigualdades. Ela sabe, inclusive, que produz desigualdade, mas não interessa a ela estar de frente com essa realidade. Quando essa realidade aparece, exige uma resposta e, historicamente, a resposta foi criminalizar os movimentos sociais. Porque só tem uma forma dos que se manifestam ganharem: é tirando da elite. Então as elites criminalizam para fazer o enfrentamento dos desejos populares. Quando a elite criminaliza, além de ganhar o apoio da ordem constituída, ainda consegue o apoio do conjunto da sociedade, porque, ao se tornar uma ação criminalizada, as pessoas ficam inseguras. Então passam a concordar: “realmente isso é baderna, não pode existir”. Há uma unificação de interessee até aqueles que deveriam fazer o enfrentamento, terminam absorvendo a defesa de interesses que nem são deles. 

O surgimento do que chamam de baderna foi uma estratégia para acabar com as manifestações, porque uma forma de fazer o enfrentamento das manifestações era torná-las inseguras, perigosas, criminosas.

Samária – No caso das manifestações de junho de 2013 no Brasil, você considera que a ideia de criminalizar essas manifestações venceu? 

SO – Venceu (Faz pausa). Venceu. Eu acho que essas manifestações mostraram um desconforto do conjunto da sociedade. O Estado se manifestou, mas com ações pontuais, não estruturais, e a maioria delas nunca concretizadas. Do ponto de vista da sociedade as manifestações trouxeram ganhos. Foi importantver as pessoas nas ruasmanifestando, de diferentes formas, as suas insatisfações. Mas houve um esgotamento da fórmula. Como o objetivo era muito universal e difuso, não canalizava para uma concretude. E, dentro desse processo, começa a haver diferentes usosNo Rio e São Paulo, forças constituídas fora da legalidade, vinculadas ao tráfico, via de regra, são as que estão fazendo as ações mais contundentes, que dão a brecha para que o Estado encontre ali a justificativa para criminalizar. Sa população continuasse indo para as ruas, como o Estado democrático de direito ia reprimir?  A minha tese é que o surgimento do que chamam de baderna foi uma estratégia para acabar com as manifestações, porque uma forma de fazer o enfrentamento das manifestações era torná-las inseguras, perigosas, criminosasSeu fosse uma pessoa mais esquizofrênica diria: “foi o próprio Estado que produziu a baderna pra poder barrar as manifestações”. Sendo um pouco mais são, eu digo: “a baderna foi o motivo que o Estado precisava para criminalizar as manifestações”.    

André  Tem-se percebido um aparente reforço do discurso conservador, o que parece contraditório em tempos teoricamente mais modernos e democráticos. Esse é um sentimento real ou só uma impressão?    

SO – Tem uma palavra que eu utilizo para políticas públicas: é contradição. Quanto mais a gente avança com políticas públicas para se assegurar direitos, na mesma proporção, talvez até com força maior, aparecem as correntes de oposição. A cada avanço corresponde um retrocesso. E isso pra mim é muito compreensível: se eu  trabalhando com forças antagônicas, se um lado coloca força, o outro também vai tensionarEntão é da natureza das políticas públicas, em uma sociedade capitalistaesse avanço-retrocesso. Os ganhos sociais serão sempre objeto de questionamento por quem perde com esses ganhos. E aí não é só materialmente, mas perder também espaço, sobretudo no processo de formação das ideias. Eu acho que o discurso e a prática do conservadorismo tende a crescer, eu vejo uma radicalização pela frente. De certa forma, a radicalização vai ser boa, porque vai tirar determinadas pessoas de seu lugar de conforto. Eu vejo na radicalização um certo otimismo porque acho que, se a gente tiver uma tensão maior, vai forçar uma redefinição da correlação de forças.   

André – Entre os argumentos de alguns segmentos contrários às conquistas das políticas afirmativas há ideias  como: existe uma ditadura do politicamente correto ou mesmo uma ditadura gay. Como você vê isso?   

SO – Eu acho que essas ideias aparecem na falta de um argumento mais convincente, mas elas não se estruturam. O discurso de desqualificar os avanços conquistados é uma busca de desqualificar não só o avanço, mas o sujeito do avanço. Mas o discurso dos excluídos, historicamente, nunca vai ser o discurso predominante. O discurso do movimento gayda defesa da igualdade racial, nunca vai se tornar o discurso oficial. Porque o discurso oficial tende a assegurar o interesse de quem tem o poder. Homossexuais e negros nunca terão poder numa sociedade como a nossa. E mesmo onde eles têm poder, o discurso deles não predomina, vide a África do Sul, onde a chegada dos negros ao poder não implicou numa sociedade regida pelo interesse da população negra. O discurso predominante é de quem tem o controle da ordem. E quem tem o controle da ordem é uma elite, que tem o controle da base material. Historicamente, no Brasil, essa elite foi predominantemente branca. 

Uma palavra que caracteriza a elite piauiense é “rude”. É uma elite que lê pouco, não assiste filme, não vai a show e se contenta em comer caranguejo no sábado e domingo, ouvir música alta e mandar o filho pra Disney.  

Samária – Como você caracteriza a elite brasileira e a piauiense hoje?  

SO – A elite sempre teve acesso aos melhores processos de informação, então uma característica da elite é ser inteligente. Mas a inteligência dela, às vezes, é muito conservadora. E há setores da elite que são… (parece procurar palavra) burros! Historicamente, no Brasil, temos uma fração de elite muito burra – de não ter acesso ao conhecimento, e burra também no sentido de que, mesmo tendo acesso ao conhecimento, não tem cultura. Uma característica da elite piauiense é ser rude, mesmo a contemporânea. Se você pegar a elite contemporânea do Piauí vai ver que a geração anterior é quase toda analfabeta, os filhos é que tão ganhando verniz de doutor. Mas ainda assim é uma elite que culturalmente é muito pobre. Eles têm curso superior, mas são pobres do ponto de vista cultural. Isso dificulta mais a relação social, porque eles não percebem que, quanto mais a sociedade avançar, maiores serão os ganhos para eles. Porque os avanços das políticas públicas não questionam o padrão de domínio das elites. Nossas políticas públicas não pregam a ruptura de classe, o fim da elite. Mas a elite burra, conservadora, não vê assim. A elite inteligente é a primeira a fazer a defesa dos avanços. Os ricos em Teresina são muito rudes. É uma elite que lê pouco, não assiste filme, não vai a show e se contenta em comer caranguejo no sábado e domingo, ouvir música alta e mandar o filho pra Disney. É uma elite barulhenta e que gosta de ostentar. Vá num restaurante bom aqui em Teresina e você vê: um pessoal que conversa alto, tem três litros de whisky na mesa, na porta tem um carrão gigante. A gente vai ter ainda muito tempo pra ganhar um verniz mais cultural.      

Samária – Há uma outra ideia repetida que diz que o próprio negro é racista. Esse argumento tem fundamento? 

SO – Isso é um vivência que é verdadeira, sabia? Sabe por que?  Me diga quem quer se aproximar de fracasso? Uma criança negra, em processo de formação, dificilmente vai querer se vincular à negritude, porque a negritude é vista, do ponto de vista social, como uma coisa desqualificada. Então a tendência dos grupos excluídos é procurar se reafirmar por aquilo que é valorizado socialmente. Isso é tão duro! (pausa). Os gays são a categoria mais escrota que existe porque a afirmação dos gays possui três referenciais: juventude, beleza e dinheiro. Esses são os territórios da afirmação dos gays.  Se você não é jovem, não é bonito, não tem dinheiro pra entrar no consumo, você  frito! Desses três o mais importante é o dinheiro: você pode ser feio, velho, mas tendo dinheiro… Há uma ditadura do mercado e os gays com dinheiro se afirmam, inclusive, num mundo à parte. Não é a toa que o mercado rosa cada vez cresce mais.      

Samária – Você é professor universitário e doutor. Ainda sente preconceito no seu cotidiano? 

SO – A sociedade foi moldada pra respeitar quem chega aonde chega, mas ao mesmo tempo essa sociedade – que é preconceituosa e racista – em determinados momentos demarca pro sujeito quem ele é. Eu tive várias experiências de informe dessa demarcação. Uma me marcou profundamente. Foi na eleição pra chefe de Departamento de Economia, onde os grupos eram muito tensionados. Eu tinha acabado de me formar e era envolvido no movimento sindical. Numa articulação da esquerda, me lançaram candidato. No dia da eleição, um professor não votou. Ele anotou na cédula: “Pobre, Preto Bicha”. Eu terminei ganhando, mas tomei um susto. Essa foi uma manifestação não tète a tète, mas explícita. Mais recentemente me candidatei a Reitor (em 2008) e não fui eleito. Hoje, fazendo uma avaliação, acho que nós não ganhamos porque o candidato trazia identidades muito fortes: eu era de origem popular, negro e gay. Nesse caso pesou muito a questão de eu ser gay, porque eu sou assumido. Sempre fui assumido como negro e como gay. Esse é um desconforto que quem tiver pode esquecer.      

Samária – Você considera que precisa fazer um esforço maior por ser negro e gay? 

SO – Eu transito em locais onde o preconceito é mais reprimido. Mas eu tenho consciência do esforço que nós, que carregamos identidades específicas, historicamente excluídas, precisamos fazer para nos mantermos sãos numa sociedade excludente. Não é fácil se assumir como gay e como negro. Então eu fiz um esforço de afirmação, que é um esforço de se ajustar à ordem. Não é um esforço de ir contra a ordem. É, na verdade, um esforço de aceitação social. Eu fiz esse esforço pelo estudo, na busca de me afirmar pelo conhecimento. Então você, individualmente, conquista espaço, mas esse respeito que a sociedade tem por você, não é o respeito que ela tem pelo gayzim que ta lá na ponta da rua. Eu tenho plena consciência de que não respeitam a mim, Solimar, como eu sou. Respeitam o que eu represento.    

A elite respeita mais quem fala mal dela do que aqueles que ficam bajulando, porque os que bajulam, eles compram. E quem é comprado não é respeitado.  

André – O que você considera que o professor Solimar representa?   

SO – Pelo fato de você ser reconhecido, você se torna uma referência e as pessoas passam a esperar de você determinados posicionamentos. Você se torna referência também para aquelas pessoas que projetam, no percurso que você fez, a possibilidade de se tornar alguém. Nessas duas referências eu me preocupo muito mais com a segundaconstituída em grande parte por jovens negros que querem ter esse reconhecimento. Eu acho que com essas pessoas o nosso compromisso tem que ser maior.  Eu me questiono se, às vezes, não  me ajustando demais à ordem. O fato de eu ser o que eu sou hoje, eu sei que foi um ajuste que eu fiz, consciente, de entrar na ordem. O fato de eu ter uma casa boa, um carro – mesmo caindo aos pedaços (risos) – é resultado de uma escolha que eu fiz, de ajustamento à ordem. As minhas conquistas vêm do estudo, de acreditar na educação formal. Mas eu sei que essa conquista é pautada pelo interesse da ordem. O crescimento pessoal lhe ajusta à ordem e lhe estabelece como referência da ordem. Tenho consciência plena disso. Mas não quero nunca perder, como nunca perdi em minha trajetória, mesmo dentro dessa ordemo compromisso de manter a rebeldia suficiente.  

André – E como você mantém a rebeldia dentro da ordem? 

SO – Onde eu, pretensiosamente, acredito que eu tenha a rebeldia? É pensando diferente da ordem, é construindo um processo de refletir sobre a ordem de forma crítica, é escrevendo contra a ordem, é dando uma aula contra a ordem, é desconstruindo a ordem, é buscando perceber possibilidades diferentes de reconstruir a existência para que a gente possa fortalecer outras pessoas. Esse é um desafio. E na nossa profissão de professor é até muito fácil ser rebelde.  

André– Você avalia que, dentro das suas possibilidades, esteja conseguindo desajustar a ordem? 

SO – Esse é um desafio de quem faz o presente: estar atento aos sinais, às tendências, vamos ver como se desenrola isso no futuro. Mas eu acho que a voz da esquerda – ih, isso é antigo, ? (risos). Reformulando: a voz de quem faz uma reflexão crítica é escutada, porque numa aridez de reflexãoas pessoas param para escutar quem a faz. Porque a reflexão critica está cada vez mais ausente  nas revistas, nos jornais, nas tevês, em sala de aula. Eu penso que quanto mais rebelde em relação à ordem, mais respeitados nós somos. Porque não se enganea elite respeita mais quem fala mal dela do que aqueles que ficam bajulando, porque os que bajulam, eles compram. E quem é comprado não é respeitado. 

Publicada em Revestrés#13 – mar-abr- 2014.

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