Participaram dessa entrevista: André Gonçalves, Maurício Pokemon, Patrícia Santos (Convidada. Doutora em História pela Unisinos e professora do IFMA), Samária Andrade e Wellington Soares. Texto e edição: Samária Andrade. Fotos: Maurício Pokemon.

Era ali por volta das 2 da tarde quando foi assinada a lei que – no papel – libertava os escravizados. O que aconteceu imediatamente depois foi festa e bebedeira por todo o Brasil. “Todos os berimbaus desse país se mobilizaram. São Luís teve uma semana de porre”. O professor Fonseca Neto conta a história como se tivesse presenciado os acontecimentos. E, nesse contar, também faz os diálogos dos personagens, como entre o escravizado e seu patrão: “Eu vou morar aonde?”; “Ah, você não é livre?”. 

Mas não pense que há leviandade nisso. Tudo é fundamentado em anos de pesquisa e paixão por História. Rigoroso, ele recusa o discurso que não está amarrado na concretude dos fatos. Em tempos de fake news, lembra que elas são um projeto de poder – ou se colocam a serviço disso. 

Antônio Fonseca dos Santos Neto, 67 anos, é professor de História da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Nasceu em Passagem Franca, Maranhão, e veio para Teresina aos 16 anos. Completou o ensino básico na capital do Piauí e, como corria 1969, sentiu-se convocado a ingressar no movimento estudantil, ainda na escola. Na Universidade, foi presidente do Diretório Central dos Estudantes – DCE. Em palestras que faz, conta sobre esse período. Considera que fez pouco contra a ditadura. Mas lembra que foi abordado por policiais e se sentiu ameaçado. 

O professor graduou-se em História e Direito pela UFPI, especializou-se em História do Brasil pela PUC de Minas Gerais, fez Mestrado em Gestão Universitária pela UFPI e, mais recentemente (2014), tornou-se doutor em Políticas Públicas pela UFMA, no Maranhão. 

Nunca perdeu certo jeito militante, tornado claro em muitas falas. Analisa que as elites brasileiras continuamente pactuam e rearranjam velhas conciliações para se manter no poder. Lamenta que intelectuais e universidade reiterem alguns desses comportamentos ou se omitam. Quando perguntado pelo movimento que tem derrubado estátuas de personalidades históricas pelo mundo, argumenta: “O povo tem o direito de derrubar, não só essas estátuas como qualquer monumento. Por que os monumentos não podem morrer? 

Utiliza algumas palavras poucos usuais – vontadoso, elidir, brandir -, e repete expressões como se pudesse, assim, materializá-las: “Tomar a história nas próprias mãos”. Ao mesmo tempo recusa outras: “Eu abomino o termo ‘Lei Áurea’ e quem o usa é desinformado”. No seu dicionário, Bolsonaro é “inominável” e impeachment é golpe. “Por que eu vou reiterar uma expressão talhada para cumprir um papel de disputa de poder?!”. 

Fonseca Neto tem andado um tanto preocupado com o país da pandemia, mas não surpreso. Considera que tudo pode ser explicado se estudarmos a história em suas contradições e seu movimento longo. Nesse processo, compreende que essa história “não é uma linha reta rumo à felicidade, mesmo que muitos de nós tenhamos sonhado com isso”. Não significa que tenha perdido as esperanças. Ele acredita nos movimentos sociais e aposta que a saída é a radicalidade da luta nas ruas. 

Ele é casado, pai de três filhos e tem dois netos. Humanista e crítico, gosta de ler e admira a natureza. Por medida de segurança, devido à pandemia de Covid-19, conversou com Revestrés por videoconferência. As fotos foram produzidas com os devidos cuidados: distanciamento e máscaras. O resultado é essa entrevista lúcida, que traz a história de ontem e de hoje para nos ajudar a pensar nos nossos tempos. 

Foto | Maurício Pokemon

 

Patrícia Santos: Nos últimos anos, historiadores, filósofos e sociólogos têm sofrido um processo de desvalorização de seu ofício, especialmente por conta de um cenário de pós-verdade, que negligencia o conhecimento científico e deturpa o fazer histórico. Nesse momento de discussão sobre fake news, como o senhor avalia que historiadores podem combater o falseamento da realidade, em especial na era digital, com disseminação de conteúdos diversos? 

Fonseca Neto: Com método nas pesquisas e com a compreensão de como se dá o processo de produção do conhecimento historiográfico. Um fato é alguma coisa real, mas também uma construção de memória, que pode ganhar asas no discurso. A questão é não se deixar simplesmente flanar no discurso, se distanciando da referência do fato. Alguns defendem uma pós-modernidade em que a história “é” discurso. Ora, a história é discurso, sim, mas com amarras na concretude dos fatos, que embutem algo inalterável. O que se dá – a partir do fato – é que abre um campo imenso de batalha e nos desafia, tensionando nosso ofício. Neste momento, há um ataque político aos fatos e a história é disputada. As fake news são um projeto – ou se colocam a serviço de um projeto de poder. A história, como lembram Walter Benjamin, Olgária Matos e outros, é saturada de “agora”, são os agoras se significando, desafiando o objeto das disputas que o mundo quer fazer. História e memória não são a mesma coisa, em que pese, não há história sem os mananciais da memória. Quem vai dominar o processo: história ou memória? Quem ganhar essa parada dominará também os rumos da história. 

A omissão sobre a escravidão é um crime de lesa pátria! As elites agiram para elidir esse tema do debate e o arrastaram para fora da nossa compreensão.

Samária: No livro A Elite do Atraso, Jessé Souza reclama que a história do Brasil precisa ser recontada a partir do zero, que a esquerda não fez esse trabalho e que a forma de contar das elites resultou no pensamento dominante de que o maior problema nacional seria a corrupção, desprezando o entendimento da escravidão como um grande problema nacional. Você concorda com essa ideia? E que consequências uma falta de reflexão sobre a escravidão traz para os dias de hoje? 

FN: Jessé Souza acerta quando aponta que obras como as de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e, em certo sentido, Celso Furtado – que ele coloca mais ou menos no mesmo plano –, teriam deixado de lado questões como a escravidão e instituído um cânone de compreensão explicativo que passa por uma espécie de Brasil pacífico. Mas penso que ele peca ao insinuar que um lastro de conhecimento construído deva ser, de certa forma, invalidado – isto deve ser evitado, sem prejuízo da observação fundamental sobre a escravidão. A omissão sobre a escravidão no Brasil é um crime de lesa-pátria! As elites agiram para elidir esse tema do debate e o arrastaram para fora da nossa compreensão. No final do século 19, ao contrário de desaparecer, a escravidão é ressignificada. A lei de 1888, em certo sentido, foi até pior, porque foi contrária a um movimento dos próprios trabalhadores escravizados, que já existia. Naquela manhã de 13 de maio de 1888, por volta ali das 2 da tarde, se promulgava uma das leis mais curtas do Brasil: “É declarada extinta a escravidão no Brasil” e “Revogam-se as disposições em contrário”. Essa lei não tem um único artigo assegurando direito de lugar para dormir, de ter família, um pedaço de terra – nada! Então essa lei cassou direitos! (fala com ênfase). E aquele trabalhador acordou sem um prato de comida – que era dever do “seu dono”. Que loucura é essa?! 1888 é uma operação típica das pactuações brasileiras para manter a elite no poder. Desde que chegaram aqui, na sexta década após a chegada de Cabral, os escravizados nunca deixaram de ter quilombos, movidos pelo ideal humano de ser livre. A chamada libertação foi bonita, foi grande, todos os berimbaus desse país se mobilizaram (diz, entusiasmado). São Luís teve uma semana de porre, os terreiros de Teresina se assanharam. Mas e depois do porre: “Eu vou comer aonde? Vou morar aonde?”; “Ah, você não é livre?” (fala como se fosse um escravizado e um senhor zombeteiro). Eu abomino o termo “Lei Áurea” e quem o usa é desinformado e não contribui para o debate – é como usar a palavra impeachment. Por que eu vou reiterar uma expressão talhada para cumprir um papel de disputa de poder?! Jessé é uma leitura tão bonita, A Elite do Atraso é uma obra necessária e corajosa! Mas se eu a leio precipitadamente, posso pensar que as contribuições para pensar o Brasil até hoje foram insuficientes para orientar mudanças, e isso não é verdade. O Brasil tem pensadores sociais desde a colônia, propondo coisas incríveis, falando de liberdade com referencial profundo. A grande questão é que vamos sendo derrotados pelo dia a dia, na luta política comum. 

André: As lutas políticas do Brasil de hoje são muito diferentes das do Brasil colônia? 

FN: Para entender o Brasil é preciso entender sua formação, que é colonial e aceitou a iniquidade. O Brasil colônia inverteu o que aconteceu na França em 1789. Na Revolução Francesa declarou-se, entre outros, o direito de ter propriedade – visando à propriedade de terra, pois era uma revolução liberal e burguesa, contra o estado absolutista do antigo regime europeu. Mas, enquanto na França os liberais lutavam para abolir laços servis, os liberais brasileiros lutavam pelo direito de ser proprietário de escravos. O império colonial das expansões mercantis dos anos 1500 foi sendo repactuado diversas vezes, até hoje, naquilo que alguns chamam de neocolonização. 1822 (declaração de independência do Brasil) é um pacto para não ser independente; 1840 é um pacto que declara, contra a Constituição, que um menino de 14 anos tinha 18 (Dom Pedro II). Uma criança é coroada imperador e todo mundo concorda e diz que ele é “de maior”! (fala puxando as palavras para demonstrar incredulidade). Até hoje, mesmo no Estado liberal moderno, o Brasil não é um Estado independente. Ele continua sendo uma colônia negociada com o centro do mundo. Mesmo assim, todos os momentos de insurreição são importantes para incandescer algum debate, e para que o Brasil queira tomar seu destino em suas mãos. Em todo esse tempo, somente duas mulheres governaram o Brasil: a princesa Isabel, porque ficou como regente, na saída do pai (Dom Pedro II); e Dilma Rousseff. Isabel assinou às pressas aquela lei sem artigos (1888). E a presidenta Dilma, mais de 120 anos depois, escreveu o artigo importante que corrigiu o que nem a constituinte de 1988 tinha feito: assegurou a constitucionalidade jurídica para todos os trabalhadores, incluindo finalmente os domésticos – a senzala que continuava a existir. 

As forças armadas são esse aliado, armado, que hoje se tornaram quase um partido político.

André: O Brasil tem um histórico de golpes, talvez com suspiros democráticos, e sempre com a presença de militares. A impressão é que temos uma democracia tutelada, que atua como uma espécie de garantidora das vontades das elites. Nesse tipo de democracia, com militares instalados em todos os setores do governo e com a concordância das elites, qual a saída para a sociedade civil? 

FN: A saída é a radicalidade da luta. A tutela militar é explicitada, inclusive legalmente, desde a proclamação da República, quando os militares foram protagonistas, com uma articulação civil. A história do Brasil tem episódios em que há vislumbres de que as forças armadas passaram para o lado do povo. Elas são esse aliado armado, de um ou outro, que hoje se tornaram quase um partido político. Um rompimento só seria gerado pela força da rua, em processo de levante de caráter revolucionário. É justamente isso que as elites temem. E todo movimento de rua que se insinua acende uma luz e dispara o gatilho do pacto. O exemplo mais recente ocorre neste momento, já na pandemia. Bastou que durante três domingos algumas iniciativas de povo na rua reivindicassem democracia – com reflexo das manifestações antirracistas americanas – para que uma parte da elite golpista, entre outras coisas, neoliberal, se unisse contra o inominável (Bolsonaro), sobretudo para manter os privilégios e o padrão de dominação da velha conciliação brasileira, atraindo inclusive parte da própria esquerda – ou daquilo que se tem como tal nessa estrutura. Estavam lá Fernando Henrique Cardoso, Luciano Huck, Haddad, Flávio Dino, num acordo por cima, que Lula, numa clareza histórica extraordinária, não quis participar. Então bastou esse movimentozinho, que afugentou a extrema-direita da rua – animada, sobrevoando Brasília de helicóptero para bater palmas na cabeça de nazifasci, pregando fechamento dos poderes. Isso é grave demais! (repete duas vezes, com seriedade). Esse é o movimento da história: vai se conduzindo, pra cá ou pra lá, não é uma linha reta rumo à felicidade, à dignidade, à abundância, mesmo que muitos de nós tenhamos sonhado com isso, em nossas leituras de juventude. 

Wellington: Em 2018, de maneira simbólica, os eleitores se viram entre a escolha de armas ou livros. Com qual desses instrumentos o Brasil enfrentaria com mais eficácia o novo coronavírus e estaria numa situação econômica melhor? 

FN: Eu não sei exatamente responder, mas desconfio que o Brasil segue uma espécie de grande script em que a elite – que estuda e não tem nada de incompetente – consegue fazer cumprir o seu papel de garantir que o país não se torne independente. O analfabetismo, por exemplo, é parte da dominação estrutural. Por que o Brasil não tem um sistema escolar capaz de construir um cidadão, um sujeito vontadoso de mudar esse país, mudando suas estruturas? O conhecimento é negado, é manipulado. Hoje há quase um consenso de que pensar dialeticamente o processo, em suas longas linhas estruturais de formação, está fora de moda. Nas escolas e universidades se exercita a negação com a maior tranquilidade. O estudante, na sala de aula, diz: “Professor, eu não acredito que houve as navegações”, “Eu discordo que houve ditadura”. Como se discorda da realidade? E aquilo cria um bloqueio, uma interdição, uma amnésia de desconhecimento. 2018 acontece por causa dessa falta de conhecimento. E veja que ironia: os governos liderados por Lula e Dilma, com suas alianças, produziu a maior expansão em curto tempo das universidades brasileiras, mas os que entraram nas universidades serviram às nossas esperanças? Não está sendo assim. O golpe (2016) derrotou intentos que nem foram tão ousados, foram os negociados. E quem ajudou a matar isso foi um estado agigantado, crescido e demente – com muito poder, a exemplo do Ministério Público, que passou a operar por regras não mais escritas em códigos e leis. Agora o Estado tem dono (fala três vezes). As estruturas econômicas e políticas são fortes, mas as estruturas de mentalidade são tão férreas e difíceis de quebrar quanto aquelas. Em 2018, tivemos uma esquerda sonhadora. E parte desse sonho foi acreditar em república – uma república capenga, dominada pelas elites. 

Alguém acredita que Luciano Huck não é mais operador do golpe? Que Ciro Gomes é de esquerda?! Ora, isso é desconhecimento da história!

Patrícia: Muito se tem falado sobre uma falta de protagonismo das esquerdas nesse momento de autoritarismo institucional. Diante dessa situação, o senhor acha possível que a esquerda retome um lugar de protagonismo? 

FN: Não há uma receita, o processo é dialético. E não há protagonismo futuro sem que se dialogue em profundidade com o passado, compreendendo que ele é irrepetível. Dividir a esquerda – pra usar essa dicotomia, que não deve ser absoluta, mas tem referenciais para se pensar a conjuntura – é parte da tática da direita para se manter no poder. Alguém pensa que essa posição recente da Rede Globo e outros meios de comunicação, questionando o inominável, significa que eles mudaram de postura? Alguém acredita que Luciano Huck e outras figuras não são mais operadores do golpe? Alguém acredita que Ciro Gomes é um homem de esquerda?! Ora, isso é desconhecimento da história, é não compreender os processos! Eu acho que a esquerda pode recuperar protagonismo, como acho que a intenção da frente ampla é tirar o povo da rua e mandar de volta para casa – “porque nós vamos resolver isso aqui, entre nós, e depois a gente vai brincar de disputar as eleições”. 

Maurício: Sobre o passado ser irrepetível e considerando ondas revisionistas da história e recentes protestos de rua, uma discussão que volta a emergir recusa monumentos e estátuas que fazem homenagem a personagens históricos considerados não representativos por alguns grupos, inclusive defendendo a destruição de alguns destes monumentos. Como o senhor avalia essa questão? 

FN: O povo em movimento, como sujeito de seu destino coletivo, tem o direito, sim, de derrubar, não só essas estátuas como qualquer monumento. Grande parte desses monumentos têm a intenção de instigar fruições gerais em torno dele. Por que os monumentos não podem morrer? Em Teresina, por exemplo, a mudança do nome do colégio Domingos Jorge Velho (para Zumbi dos Palmares e, depois, Esperança Garcia) deu um rebuliço. Foi uma confusão quando se sugeriu tirar os dois versinhos de Da Costa e Silva do hino do Piauí: “Da aventura de dois bandeirantes, em missão de trabalho e de paz”. Olha que hino é algo que desencadeia emoções cívicas que orientam as atitudes do ser humano! Hoje, cem anos depois, esses versinhos são absolutamente absurdos! E se via crianças cantando, se emocionando com a memória do etnocida Domingos Jorge Velho, um monstro da lógica da colonização, um inimigo da sociedade. Então o que uma geração fez a outra não tem o direito de rever? Tem, sim. Algumas pessoas dizem: “Ah, mas é uma obra de arte”. Sim, mas uma obra de arte que cumpre um papel! É obra de arte? Pois tira da rua e bota no museu. Aqui em Teresina se discute o “El Matador”, do escultor Carlão (Carlos Martins; a escultura retrata João do Rego Castelo Branco, um dos colonizadores do Piauí, matando índios, e é inspirada na poesia de H.Dobal, que faz uma denúncia contra o matador). Se o movimento da sociedade quer colocar uma outra simbologia no processo, se é a vontade coletiva, deve ser atendida. Mas a escultura não deve ser destruída, pode ser colocada em outro local. O povo tem todo o direito de brandir outros signos da sua existência e da sua temporalidade. O trauma das elites é não ter um passado mais profundo para mitologizar, aí se agarram a mitos frágeis, como Leopoldina, Pedro I, Bonifácio e outros. O passado existe não para que se tenha saudades dele – isso é a matéria-prima com que se faz um reacionário. O revolucionário respeita o passado, inclusive o estudando. 

O povo em movimento tem o direito de derrubar não só estátuas como qualquer monumento. Por que os monumentos não podem morrer?

Wellington: Na historiografia piauiense, o que representam personagens como o indígena Mandu Ladino e a escravizada Esperança Garcia? 

FN: Na historiografia do mundo! (corrige). Essas são figuras que não temos o direito de esquecer. E tem outras ainda invisíveis. Eu descobri recentemente a história da Militana, uma trabalhadora escravizada, de Picos, que recusou que seu dono se apropriasse de seu corpo – como era comum. “Em mim você não toca”. E ele mandou acorrentar o corpo de Militana, com braços atados e pernas livres, e a soltou na estrada. Ela caminhou de Picos até Oeiras, que era a sede da comarca. Ao chegar na cidade naquele estado, criou uma comoção e foi bater perante o juiz, que mandou chamar um ferreiro e, solenemente, ordenou que se pesasse as correntes, para constar no processo: 25 quilos de ferro! Ou seja: é uma outra Esperança Garcia, que viveu cem anos após esta. Então são muitas pessoas lutando pelo direito de existir sob essas nuvens que alguns chamam céu. Sobre Mandu Ladino até hoje não há uma tese e isso é um desastre. 

Samária: Há o livro Mandu Ladino, de Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco… 

FN: Um romance! Até romanceiam a vida do Mandu Ladino! Porque é a história filtrada, por esse jeito de contar romanceado. E nem é intenção maldosa do autor, porque o livro contribui, entretanto não supre a falta que faz uma pesquisa mais detida sobre este personagem que se tornou símbolo da resistência indígena contra a colonização portuguesa. Sobre Esperança Garcia, como é que a gente precisou de Luiz Mott (historiador paulista), que veio ao Piauí nos anos 1980 fazer uma investigação sobre outras questões e, por acaso, topou com o documento que é a carta escrita por aquela escravizada? (a carta, de 1770, denuncia maus tratos e estava no Arquivo Público do Piauí). Aquele documento vivia ali, no meio de um processo, já era conhecido dos historiadores tudim do Piauí, que investigaram essa papelada, e será que não viram isso? Claro que viram! Mas não deram importância! Era de uma negra escrava e, ainda por cima, rebelde. E eu digo isso com certa autocrítica. A gente tem alguns estudos na universidade, mas a universidade também é lugar em que a omissão é reiterada. Mandu Ladino e Esperança Garcia são duas figuras que devem ser tomadas como referencial de luta, como respeito pelo viver dos que sofrem, seus signos, suas estéticas e até para referenciar o que alguns chamam, até de modo romântico, de “querer mudar o mundo”. 

Na Batalha do Jenipapo, as elites, inclusive os intelectuais, traduziram aquele movimento a seu favor, dizendo que foi um movimento patriótico. Que nada!

André: Sobre referências, temos alguns estados vizinhos, como Ceará e Maranhão, e ainda Pernambuco, que têm signos culturais e identitários muito claros. Em comparação, o Piauí não parece ter esses traços muito marcados. Falta uma identidade para o piauiense? 

FN: Se a gente tentar escrutinar as matrizes das identidades, vamos descobrir uma vitória da elite prevalente. Pernambuco valoriza uma história de lutas: como a Batalha dos Guararapes (1648), a Conspiração dos Suassunas (1801), a Revolução Pernambucana (1817) – um dos poucos movimentos que se chama de revolução no Brasil; a Confederação do Equador (1824), a Insurreição Praieira (1848). Pernambuco é cheio disso e se colocou como referencial de luta no Brasil. O Ceará é a terra de Bárbara de Alencar, uma mulher extraordinária que saiu do Crato e foi até Olinda e Recife se juntar à revolução de Frei Caneca (religioso e político que participou da Revolução Pernambucana e liderou a Confederação do Equador, em defesa da independência do Brasil de Portugal). Ela foi presa e caminhou de Recife a Fortaleza, pagando pela ousadia de ser uma mulher revolucionária. Em que pese as oligarquias dos Alencar, que vem depois, o Ceará tem enorme orgulho dessa figura. O Maranhão é um estado conservador, mas os irmãos Beckman (1684) lideraram lá o primeiro levante burguês – isso quando a burguesia era revolucionária (risos). Teve a Balaiada (1838), uma das mais importantes manifestações de caráter revolucionário vinda do chão. No Piauí tivemos a Batalha do Jenipapo (1823), o vislumbre de um povo querendo tomar a história em suas mãos. Por que o Jenipapo, mesmo sendo importante, não se constituiu como um sentido de identidade piauiense? Porque aqui as elites, inclusive os intelectuais, traduziram o sentido daquele movimento a seu favor, dizendo que foi um movimento patriótico. Que nada! O meu querido Clodoaldo Freitas, titular da cadeira que eu assento na Academia Piauiense de Letras, que foi um homem absolutamente atualizado, um republicano indispensável, um juiz que não se submetia ao poder econômico e político, e pagou por isso… Mas esse intelectual, porque submetido às estruturas daquela temporalidade, afirmou que os caídos no Jenipapo eram heróis lutando pela pátria. Que história de pátria? Eles lutavam por outra liberdade, que não a dos fazendeiros, a dos donos do poder. Campo Maior é cenário de disputa de vários projetos de independência que estavam em curso por todo o Brasil. O movimento de independência que triunfou no Piauí, na então linda capital Oeiras, não foi popular. Foi um movimento de caráter golpista e atrasado com relação às ideias de liberdade que circulavam naquele momento. E a identidade do piauiense não é discutida, é interditada – porque isso também se trata de uma disputa de poder. 

Samária: Essa interdição se relaciona a certa visão depreciativa do piauiense sobre si mesmo, refletida em frases, até certo ponto recorrentes, como “isso só acontece no Piauí”? 

FN: Isso é uma estratégia das elites, dos donos do poder, que têm o estado como sua propriedade e não querem discutir nada. E isso se expressa das macroestruturas políticas às microestruturas mais cotidianas. E os intérpretes da história têm parcela nisso. O que moveu o bandeirante Domingos Jorge Velho para essa região? Roubar, apresar corpos de homens, mulheres e crianças, para vender no aquecidíssimo mercado interno de indígenas – uma espécie de escravo “de segunda” na ordem colonial, já que o escravo “de primeira” vinha da África e servia a um tráfico internacional altamente lucrativo. E por que, antes de Odilon Nunes, isso nunca foi lembrado? Por que só se falava que o Piauí foi formado economicamente pela pecuária? A história interditada constitui e significa uma tragédia! Na Universidade Federal do Piauí não tinha a disciplina “História do Piauí” na grade curricular de formação do historiador! Eu, militante estudantil, junto com outros de minha geração, fomos à casa do professor Odilon Nunes, que tinha feito, em 1930, um livro didático de História do Piauí para lecionar em Amarante. Quando o procuramos – ele já idoso, um autodidata que a universidade recusava, por não ser formado em História –, o convidamos para discutir esse tema na universidade e ele não queria ir. Sabia que era rejeitado pelos canonistas do diploma. Eu tenho o maior respeito por Odilon Nunes, para mim o maior historiador piauiense! Autodidata, mas como deve ser todo historiador: inspirado na melhor experiência. Nós o levamos à universidade para sinalizar politicamente que queríamos estudar História do Piauí. Que coisa! Isso tá só com 40 anos! É muito grave isso! (fala com indignação). Os grupos donos do poder nunca quiseram estudar a nossa história. 

O único país na América do Sul que se conservou uma monarquia europeia típica foi o Brasil – católico e carola.

Wellington: Na história do Piauí tem várias datas e locais para marcar a independência do estado da situação de colônia de Portugal: 19 de outubro de 1822, em Parnaíba (Dia do Piauí); 22 de janeiro de 1823, em Piracuruca; 24 de Janeiro de 1823, em Oeiras; 13 de março de 1823, na Batalha do Jenipapo, em Campo Maior. Essa quantidade de datas, ajuda ou atrapalha a compreensão da nossa história? 

FN: Se nós estudássemos a história como processo, examinando-a em suas contradições, no seu movimento longo, para entender as datas e fatos datados, isso não teria problema nenhum. O problema é a nossa mania, que acaba tendo um viés manipulatório, de tentar compreender a história a partir de fatos datados. Isso é uma falha do nosso processo de produção historiográfica e do ensino. Mas é algo que faz muito bem às estratégias do poder, que quer sonegar conhecimento. Mas o Piauí ter várias datas é bom, significa que o processo, aqui, de uma maneira ou de outra, teve relevância. Então não faria mal ter diversas datas. O datismo, em si, é gostosinho, facilita, a gente gosta de uma história bem datadinha, né? (risos). E é lógico que não há compreensão da história sem os referenciais de data. Mas a data não detém a história em sua complexidade. Assim como as estátuas, datas contém reducionismos terríveis. Entender a história em processo é o que eu acredito e tento fazer. 

Samária: Nessa conversa temos falado muito em elites e “donos do poder”. E quem está contando a história das periferias? 

FN: Ninguém (faz uma pausa e depois continua). Não significa que eles não estão fazendo. E a própria periferia está contando as suas histórias. A ideia de que a periferia não possa contar suas histórias é muito colonialista. Esse eurocentrismo, até hoje, nos liquida. Para tomar a história nas mãos é preciso passar por cima e destroçar o cânone eurocêntrico. Simón Bolívar (líder político venezuelano) liderou todos os vizinhos do Brasil, que na mesma época declararam suas independências da Espanha e aboliram a escravatura. O único país na América do Sul que se conservou uma monarquia europeia típica foi o Brasil – católico e carola – porque sequer adotou uma vertente do catolicismo avançado, mas permaneceu carola. Isso tudo tem significado e repercute em várias áreas. 

Wellington: Você é um imortal da Academia Piauiense de Letras, que não deixa de ser um espaço de uma certa elite. Que papel você acha que a Academia Piauiense de Letras desempenha hoje na nossa sociedade? 

FN: Ela é uma instituição filha de um contexto de certa hegemonia no debate político, na construção literária, inclusive com acadêmicos que disseram que os anônimos do Jenipapo eram patriotas ardentes – um enquadramento que eu não assino embaixo. Mas é uma instituição centenária que sobreviveu e que, ao longo do tempo, foi mudando, ainda que conserve muito de seu passado. Eu me sinto bem recebido, com minhas ideias – algumas sabidamente diferentes, ao arrepio do que se coloca por lá. Mas acredito que a APL é um espaço de debate interessante, com significados por meio do que ela produz e das publicações que faz. É possível que ela exista e vá recriando um significado da sua presença na vida do povo piauiense. 

Patrícia: Vivemos uma profusão de acontecimentos que se sucedem de modo muito rápido num cenário de descrédito do conhecimento histórico. Diante disso, que conselho o senhor daria aos nossos historiadores? 

FN: Eu faço o convite de um professor engajado: vamos estudar mais? Não tem jeito, precisamos estudar mais. E também fazer outras coisas que não só estudar. Vamos, ao mesmo tempo, recusar de maneira muito veemente os enquadramentos, os charlatanismos em nossa área. Vamos compreender nosso papel político. Para que coisa mais tola do que um historiador que diz “eu sou neutro”, “esse livro é neutro”? A indústria do livro didático faz cada material lindo, com edições coloridas, recortes bem feitos de documentos. Mas não esqueçamos que a história é um campo de disputas ferozes sobre o que vai se dizer sobre tudo. E universidade não é sinônimo de que dali vá sair a história que mais servirá à caminhada do povo. A escola privada, de modo geral, serve ao processo de reprodução das estruturas da elite. A escola capaz de realmente mover as estruturas de pensamento para mudar a sociedade, e que ameaça o status quo, é a escola pública. Por isso, a cada quatro ou cinco anos, a cada governo que se reveza no poder, se coloca em pauta uma reforma no ensino público. Por fim, meu conselho aos historiadores é: tenham cuidado com os livros didáticos – eles podem ser uma coisa terrível nas nossas mãos. O chamado livro do professor, com as respostas prontas – nem precisa mais estudar! -, é uma tragédia, uma ruptura insuportável. Cultivemos o nosso próprio fazer. Só assim a nossa inserção será importante e socialmente e culturalmente reconhecida pelas atuais e futuras gerações. 

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Entrevista publicada da Revestrés#46 (agosto de 2020) que, devido a pandemia, circula online e gratuita.

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