PARTICIPARAM DESTA ENTREVISTA: André Gonçalves, Maurício Pokemon, Samária Andrade, Wellington Soares. Convidada: Jacqueline Dourado (jornalista, fotógrafa, professora de Jornalismo e pós-graduação na UFPI). TEXTO E EDIÇÃO:  Samária Andrade. FOTOS: Arquivos Nair Benedicto/N Imagens.

Nair acabava de chegar à USP (Universidade de São Paulo), onde era estudante de Comunicação. Logo percebeu uma tensão no ar. Os amigos estavam deixando o campus e a aconselharam a ir para casa. A universidade estava repleta de policiais militares circulando. Antes daquele dia terminar, Nair estaria presa, pendurada por três horas e 45 minutos num pau de arara. Fez xixi e cocô naquelas condições e viu seus algozes se masturbarem enquanto ouvia ruídos do filho pequeno, na sala ao lado. Era dezembro de 1969. 

O Brasil vivia a ditadura militar, iniciada em 1º de abril de 1964 e tornada mais dura desde o AI-5 (Ato Institucional número 5), de 1968, que radicalizou o regime: cassou mandatos políticos, fechou o Congresso Nacional, confiscou bens privados, expulsou pessoas do país e deu carta branca para a perseguição, prisão e morte dos seus opositores. O presidente era o general Artur da Costa e Silva, que assumiu o comando do país em 1967, sendo o segundo presidente militar, em substituição ao Marechal Castello Branco. 

Naqueles que ficaram conhecidos como os anos de chumbo da ditadura militar, qualquer comportamento poderia ser criminoso. Em documentário recente, Narciso em Férias (2020), Caetano Veloso lê o depoimento que prestou quando esteve preso (entre o final de 1968 e início de 1969) e revela: a acusação que pesava contra ele foi por ter, num show, parodiado de forma “desrespeitosa” o Hino Nacional. Além de insignificante, a denúncia era infundada. Mas valeu a Caetano e a Gilberto Gil 54 dias de prisão sem que lhes dissessem o motivo e, depois, a “recomendação” de que deixassem o país ou poderiam ser presos novamente. 

Levando isso em conta, o crime da estudante Nair era muito mais grave. Ela tinha 29 anos, três filhos pequenos – Ariane, Danielle e Frederic, de 6 anos, 3 anos e um ano e meio – e era então casada com Jacques Breyton, francês, quase 20 anos mais velho, que tinha filhos do primeiro casamento. “Tua casa é uma putaria” – gritavam os que prenderam Nair. 

O casal apoiava os movimentos de oposição à ditadura brasileira. Breyton foi militante da Resistência Francesa na Segunda Guerra Mundial, combateu a invasão nazista em seu país e foi torturado pela Gestapo (polícia da Alemanha nazista) antes de ser libertado por tropas norte-americanas, receber medalhas como herói e vir morar no Brasil, nos anos 1950. Aqui montou uma empresa de luminárias. Depois, uma de iluminação, tornando-se empresário bem-sucedido e, bem mais tarde, colaborando na criação do Partido dos Trabalhadores (PT). 

Nos anos 1960, ao lado de Breyton, Nair apoiava a ALN (Ação Libertadora Nacional), hospedando Carlos Marighella, emprestando a casa para reuniões e oferecendo suporte material ao grupo. “Eu era apoio logístico, nunca peguei em arma”, diz Nair a Revestrés. No livro Marighella, de Mário Magalhães, o casal aparece com funções como a de hospedar os que se dispunham a lutar de fato. Por ter mais idade, o francês terminava despertando desconfiança dos dois lados. Magalhães conta: “Breyton surgiu nos fóruns estudantis de 1968 junto com a mulher, Nair Benedicto, aluna da USP. De cabelos brancos, o coroa de 47 anos despertou a suspeita de que fosse ‘tira’”. 

Presos no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão que comandava a repressão e chefiado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, Breyton e Nair foram separados e não tiveram acesso a advogados. Passaram dois meses incomunicáveis, sem saber do que exatamente eram acusados. Como em O processo, de Kafka, fazia parte da punição os prisioneiros não saberem seu suposto “crime” nem quando seriam interrogados e julgados. 

Do DOPS foram transferidos para o presídio Tiradentes, também em São Paulo, completando, ao todo, nove meses de prisão e torturas, entre o final de 1969 e meados de 1970. “Como pode ter três filhos e não ter barriga?” – os policiais inquiriram Nair. Diziam que seria a prova de que ela fazia treinamentos de guerrilha. Mais tarde, em entrevista, Breyton contou que sofreu mais nas mãos dos agentes do DOPS brasileiro do que quando esteve preso em Montluc, prisão administrada por Klaus Barbie, oficial nazista conhecido como “Carniceiro de Lyon” e um dos responsáveis pelo Holocausto. 

O processo que poderia ter destruído Nair viu nascer uma outra mulher. Com as marcas desse tempo – “Ser presa e torturada é uma coisa que você vai guardar pro resto da vida!” – e comprometida a fazer mais: “Saí da prisão com uma responsabilidade enorme, precisando fazer alguma coisa!”. Ela voltou para a universidade e, em 1972, se formou em Rádio e Televisão pela USP. Sonhava em trabalhar com TV, mas as empresas, fortemente censuradas, não deram emprego à ex-presidiária da ditadura. Ela foi para a fotografia quase por falta de opção e revelou-se uma das maiores fotógrafas brasileiras, com imagens em acervos de vários museus do mundo, como o MoMa, de Nova York, livros publicados e prêmios recebidos, além de colaborar com revistas nacionais e internacionais como Veja, IstoÉ, Marie Claire, Paris Match, Newsweek e Time. 

Nair Benedicto e a neta Helena, no Dia Internacional da Mulher, 2018, São Paulo, SP.

Nair dedicou grande parte de seu trabalho a denúncias sociais, fotografando movimentos operários, trabalhadores sem-terra, indígenas, mulheres e travestis. Fundou a agência F/4 de Fotojornalismo, com Juca Martins (seu segundo marido), Delfim Martins e Ricardo Malta. A agência teve papel fundamental em discussões como direito autoral, crédito obrigatório e a instituição de uma tabela de preços mínimos. Depois fundou a N-Imagens e participou do coletivo NAFoto, realizando eventos de fotografia. 

Por um tempo, evitava falar sobre sua prisão. Hoje, quando grupos radicais pedem a volta da ditadura militar, ela considera que é preciso romper silêncios e espantar de vez esse passado trágico. Nessa entrevista a Revestrés, Nair Benedicto, aos 80 anos e com voz amigável, fala sem pudor de alguns dramas, suspira e faz pausas em certos momentos, sorri em outros. “Eu não sou pessimista”, diz a mulher que, entre o muito que faz, ministra um workshop chamado “Eu não desisto de mim”. 

Nair Benedicto no Carnaval do Rio de Janeiro, 1980.

Auto-retrato
crédito: Nair Benedicto/N Imagens.com.br

Samária: Podemos começar essa entrevista com um tema incontornável: o período da ditadura militar no Brasil, quando você foi presa e torturada. Hoje há um retorno a esse tema de diversas formas, seja em manifestações que pedem a volta da ditadura, seja em produções de cinema que recuperam os dramas do período, como nos filmes Narciso em Férias (Renato Terra e Ricardo Calil), onde Caetano Veloso se debruça sobre seus 54 dias de prisão, ou em Fico te Devendo uma Carta sobre o Brasil (Carol Benjamin), sobre as marcas da ditadura numa história familiar (César Benjamin, pai da diretora, foi preso ilegalmente aos 17 anos e permaneceu por três anos e meio em cela solitária, além de mais dois anos em prisão comum. Iramaya, mãe de César, se tornou militante pela anistia). O fato do tema da ditadura militar brasileira ressurgir de modos tão contrastantes significa que ainda não o discutimos suficientemente? 

É lamentável que essa juventude não tenha um documento onde entender o que é ditadura, pau de arara,  tortura psicológica, arrancar dente, dar choque elétrico .

Nair Benedicto: Eu acho lamentável que essa juventude que está vindo aí, cheia de ideias, não tenha um documento onde entender o que é uma ditadura, o que é pau de arara, o que é tortura psicológica, o que é você arrancar dente, dar choque elétrico. É muito importante a gente saber dessas coisas. Quase não falar sobre isso foi uma falha de todos nós, pessoas progressistas. Na hora em que se começou a homenagear torturador com transmissão ao vivo pela TV, a gente tinha que ter tido uma posição firme (refere-se ao voto do então deputado federal Jair Bolsonaro pelo impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, fazendo homenagem ao coronel Brilhante Ustra, reconhecido torturador da ditadura militar). Um país que homenageia torturador não vai ser nunca uma nação, não vai ser nunca (repete com ênfase e arrasta a palavra “nunca”). Quando a gente deixou que isso acontecesse, estávamos enfiando o pé na lama em que estamos hoje. 

Wellington: Tem algo ainda anterior a esse momento que é o próprio modelo de anistia e abertura política no Brasil, quando torturadores não foram punidos, enquanto na Argentina e Chile militares responsáveis por comandos de tortura foram presos. 

NB: Quando tivemos a oportunidade da Comissão da Verdade logo surgiu o lema “revanchismo, não”, trazendo uma significação dúbia para a coisa (a Comissão Nacional da Verdade foi um órgão temporário criado para investigar crimes da ditadura militar, a exemplo de outros países. No Brasil o regime militar durou de 1964 a 1985. A Comissão da Verdade foi criada quase 30 anos depois, em 2011, e extinta em 2014, ambos no governo Dilma Rousseff, presa e torturada pela ditadura). A gente não dá importância à ambivalência das palavras e vai formatando um país com permissividade para o mal. A Comissão da Verdade foi propositadamente mal-entendida pela elite. “Revanchismo” foi uma palavra que ficou ardendo na minha orelha. Porque parece que você, que é a vítima, está com ódio, querendo vingança, e o objetivo é outro: botar tudo em pratos limpos. Quando a gente não quer que aconteça de novo tem que ir fundo no que aconteceu. Discutir tudo era uma necessidade! Os militares estavam envolvidos? Estavam. Os Estados Unidos estavam envolvidos? Estavam. Teve dinheiro estrangeiro? Teve. A gente precisa mexer nisso sem pruridos, entendeu? No Brasil não houve punição e a Comissão da Verdade foi brecada sem terminar seu serviço. Eu acho que a gente precisa começar tudo de novo… (faz uma pausa, suspirando, e retoma com fôlego). No Brasil as tentativas absolutamente válidas de mudar coisas, as motivações das populações não ficam conhecidas, mas os golpes a gente conhece. A gente é um país de golpes, tudo que aconteceu nesse país foi através de golpe. O tempo inteiro a gente está nas mãos de uma elite que não quer perder nada e que tudo interpreta como perda. 

Wellington: O que levou de fato à sua prisão na época da ditadura militar? E o que você guarda em sua lembrança, dessa época? 

NB: Olha, ser presa e torturada é uma coisa que você vai guardar pro resto da vida! (faz pausa). Não tem jeito, não tem jeito. Ou você se mata ou, se vive, vai levar aquilo ao longo dos anos. O teu encontro com quem te prende já começa errado, porque não importa quem você é – ele vai abominar. Comigo foi isso: eu estava na USP, fazendo Comunicação, era jovem, tinha três filhos. Meu companheiro era francês (Jacques Breyton), mais velho que eu, e o filho dele morava conosco. Então eles falavam: “Tua casa é uma putaria”. Nesse dia eu tinha ido pra USP e o clima estava estranho: ninguém em aula, todo mundo indo pra casa, muitos militares circulando. Eu fui pra casa, esperei as crianças voltarem da escola e eles não voltavam. Minha mãe, uma moça que ajudava a gente e meu filho menor, que ainda não estudava, foram buscar as crianças e ninguém voltava. Daí eu liguei pro Jacques e falei “ aflitíssima”. Eles (militares) haviam pegado o carro com minha mãe, a babá e meu filho pequeno e tinham levado pro DOPS. As meninas, de seis e três anos, tinham ficado largadas na porta do Liceu e a professora terminou acolhendo elas. Quando levaram eu e Jacques; minha mãe, a babá e nosso pequenininho de um ano e meio já estavam lá. Eu era apoio logístico de uma organização que lutava contra a ditadura, nunca peguei em armas. Eu ensinava meus filhos a amarrar sapato, trocar de roupa, bater leite no liquidificador – essas coisas de independência que são necessárias -, e tudo isso me foi jogado na cara: “Que raio de mãe você é? Você não serve pra nada!” Eles falavam isso pra me deixar abatida, pra dizer que conheciam nossa rotina, mas também porque acreditavam nisso. Eu apanhei porque tinha três filhos e não tinha barriga! (fala com ênfase). Eles diziam que não ter barriga era a prova de que eu fazia treinamento de guerrilha! O que eu quero dizer pra vocês é: o encontro de nossa vida com essas pessoas que nos prendiam já dava merda desde o início. É uma mente doentia, que não admite o outro, que se o outro não for cópia dele, tá errado. 

Ser presa e torturada é uma coisa que você vai guardar pro resto da vida! Ou você se mata ou, se vive, vai levar aquilo ao longo dos anos.

Samária: De tudo o que você passou nesse período, o que considera que foi a pior tortura? 

NB: Quando chegamos no DOPS, eles logo me separaram do Jacques e puseram nosso filho pequeno numa sala ao lado da minha, eu ouvindo os barulhinhos dele. Eles me diziam: “A gente pôs sua mãe no pau de arara e ela passou mal, tá no hospital militar. Se você não falar, a gente vai pôr teu filho no pau de arara”. Isso foi um horror! Ficamos o dia inteiro no DOPS, de uma hora da tarde até meia noite. Eu não sabia do Jacques, ele não sabia de mim, não se podia chamar advogado, eles dizendo que a gente tinha que falar. Mas eu pensei “vou ficar calma” (repete três vezes, como um mantra), e comecei a desenvolver um raciocínio que era o oposto do desespero. Pensei: se minha mãe foi no pau de arara e passou mal, não posso contar com ela, tenho que contar comigo mesma pra resolver essa questão. Então fui me fortalecendo e tirei da cabeça a ideia de falar qualquer coisa que eles perguntassem. Pensei: se você começa a falar, não tem limites. Eu peguei três horas e 45 minutos no pau de arara! Você começa a olhar aquelas pessoas… Os caras gozavam enquanto eu estava no pau de arara fazendo xixi, cocô. Eles gozam, se masturbam, entendeu?! E você fica: “Meu Deus, quem é essa pessoa, o que fizeram ela ser isso que eu  vendo?” (nova pausa). 

Samária: O filme Torre das donzelas (2018) mostra como viviam mulheres presas pela ditadura militar brasileira no presídio Tiradentes (demolido em 1972). Entre essas mulheres estavam você e a ex-presidenta Dilma Rousseff. Como foi a convivência entre essas várias mulheres e seus contatos com Dilma? Você imaginou que aquela mulher seria, um dia, presidenta do Brasil? 

NB: Fiquei pouco tempo com Dilma. Quando ela entrou eu já estava lá há muito tempo. O filme mistura mulheres de períodos diferentes e eu acho isso uma pena. O filme é importante, tem mulheres ali que já morreram, mas é uma pena não ter aproveitado depoimentos mais consistentes. Todas as mulheres que passaram por aquele presídio tiveram aprendizagens, todas conseguiram ir rompendo as armadilhas daquela estrutura. No início não deixavam entrar livros, nada, e a gente começou a dar aulas umas pras outras. Eu dava aula de francês, outra dava aula de biologia, outra de inglês. A gente formava grupos pra tudo: fazer comida, limpar o espaço, organizar as aulas. A comida que eles entregavam chegava em baldes horrorosos, com gordura nadando em cima. No começo a gente ficou sem comer, como donzelas (risos). No terceiro dia a gente tava com tanta fome que comeu com gordura e tudo. A gente criou uns processos: a comida chegava, a gente lavava e escoava toda a gordura. Quando Dilma chegou já entravam livros e a gente fazia grupos de leitura e discussão. Dilma é uma pessoa brilhante! Ela estava determinada, decidida, o futuro dela ia ser na política–não sei se ela pensava que chegaria a presidenta da república (risos), mas ela tinha os olhos voltados para a política. Tinha uma capacidade de síntese e de entendimento muito maior que a nossa. Ela lia, interpretava e devolvia o que a gente lia. Era algo fantástico! 

Wellington: O Brasil aprendeu a ser um país melhor com essa experiência sofrida da ditadura militar? 

NB: O Brasil é um país com tantas condições de ser maravilhoso e onde não se aproveitou nenhuma. A gente tem uma mistura de raças, de preto, índio, japonês, italiano, francês. A gente tem muita coisa boa nesse ser humano que se denomina “brasileiro”. Mas tudo o que acontece de bom a gente expulsa do país. Paulo Freire, Glauber Rocha? Ovacionados no mundo inteiro; e aqui? Expulsos. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro? Todos expulsos! Junto com essas pessoas, se expulsa o lado bom delas. Mas não sou uma pessoa pessimista. Acho que nós temos uma coisa de solidariedade, de alegria, que querem abafar. Mas alegria é coisa básica, nós precisamos, é como o ar, ela encontra um caminho. 

Eu peguei três horas e 45 minutos no pau de arara! Os caras gozavam enquanto eu estava fazendo xixi, cocô!

André: No período da ditadura militar a fotografia cumpriu papel de denúncia, de documento de uma época, por meio do trabalho de grandes fotógrafos. Hoje, quando todo mundo tem a possibilidade do registro de imagem nas mãos, vamos continuar tendo o trabalho de grandes fotógrafos documentando momentos contemporâneos ou esses registros vão vir das pessoas comuns? 

NB: O que faz a fotografia não é o aparelho, é a pessoa que está segurando o aparelho (risos). Então a gente vai ter uma quantidade de fotografias enorme, impensável, vai ter fotos documentais, com todo o conhecimento que a pessoa tem; vai ter fotos que foi o acaso que fez; e vai ter fotos que são simples registros de situações. Na quantidade enorme de imagens, vai se perder mais coisas e vai se achar mais coisas. E a fotografia vai continuar: os Evandros (Teixeiras), os (Josef) Koudelkas, as Claudias Andujares vão continuar acontecendo. 

Maurício: Entendendo essa proliferação de possibilidades de captar imagens, qual seria o papel do fotojornalista de jornal hoje, qual a necessidade real de termos esses profissionais nas redações? 

NB: Hoje todo o jornal está em questão e não só o fotojornalista, né? A gente está falando de um momento de comunicação muito cheio de ruídos e de performances. Imagem de celular, pra mim, é outra linguagem. Mas, você gostando ou não, toda essa tecnologia que está aí veio pra ficar. O problema de aceitá-la não tem mais que ser discutido. Então as soluções têm que ser buscadas dentro da própria tecnologia. Pensando no total, como diz Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas), acho que nosso drama é outro: é essa quantidade de fake news e a falta de controle sobre nossos dados, que estão indo pra todo lugar, sem que a gente saiba exatamente o que fazem com eles. 

Jacqueline: O fotojornalismo, historicamente, foi e continua sendo uma profissão muito masculina. Você, no entanto, conseguiu se destacar em uma época muito difícil e chamando atenção para a condição da mulher. Você considera que a mulher traz um olhar ou uma percepção diferentes ao fotografar? 

NB: Acho que, antes do olhar, a vida da mulher é diferente. Eu fiz muita matéria com mulheres, documentei passeatas feministas desde que elas apareceram no Brasil. Vi muitos depoimentos: de adolescentes grávidas, de mães que percebiam que seus maridos estavam molestando as meninas, do irmão que percebe um vizinho Mas ninguém faz nada, é a mulher que tem que resolver isso por conta dela! E um elemento masculino dentro de uma família acha que pode tudo. O homem já nasce com uma permissão que a mulher não tem. Eu não acho que os homens são piores ou melhores, acho que a sociedade é masculina e dá aos homens, desde o nascimento, uma carta de alforria que a mulher não tem. Então isso tudo vai formatando pessoas diferentes. Além das desigualdades sociais, temos a desigualdade de gênero para resolver. 

Dilma é uma pessoa brilhante! Tinha uma capacidade de síntese e de entendimento muito maior que a nossa. Ela lia, interpretava e devolvia o que a gente lia.  

André: Quero falar de uma fotografia em especial, no meio de tantas: é a Tesão no forró. O que você sentiu fotografando aquela cena e como você vê essa fotografia hoje? 

NB: Tem várias teses sobre meu material e uma delas diz que Tesão no forró é importante porque, naquela época, era raro ter em primeiro plano uma mulher, negra e com tesão – porque ela tá absolutamente envolvida, tá bom pra ela e pra ele, né? (risos). Mas o que me motivou na pesquisa que resultou naquela foto é que eu estava surpresa e incomodada ao ouvir declarações preconceituosas sobre nordestinos. Elas vinham de pessoas próximas, que circulavam num ambiente de cultura. Na minha ingenuidade, eu achava que, pelo fato de serem pessoas intelectualizadas, isso não ocorreria. Daí eu falei: vou saber o que incomoda tanto a essa gente. E comecei a conversar com nordestinos que trabalhavam em São Paulo. Descobri que naquela época, sem internet, muitos iam buscar correspondência na Praça da Árvore, trazida por amigos que tinham viajado ao Nordeste (a praça fica no bairro Saúde, localizada junto a uma estação de metrô). Frequentei esse local e perguntei o que faziam para se divertir. Disseram “a gente vai no forró do Mário Zan” (que foi considerado um dos maiores sanfoneiros do país). Passei a ir e fiquei encantada. E ia não só pra fotografar, mas pra dançar, eu adoro dançar! Eu gostava tanto que não tive problema em fazer as fotos, eles ficavam à vontade, mesmo quando eu usava flash. Hoje essa é uma foto que gosto, respeito, foi minha primeira imagem comprada pelo MoMa (Museu de Arte Moderna, em Nova York). John Szarkowski, curador do MoMa, esteve no Brasil e pediu pra ver uma exposição diferente dessas de museu. Levaram ele no Forró do Mário Zan e eu tinha montado uma exposição lá. Ele comprou algumas fotos. O MoMa tem uma política de periodicamente reexibir as imagens e as pessoas até hoje me telefonam: “Acabei de ver uma foto sua!”. Tá lá há 50 anos (risos). Acho que fiz essa foto porque gosto de ver as pessoas felizes, tendo uma sensação gostosa, de prazer. Hoje no Brasil isso é um problema, esses personagens do governo atual lidam tão mal com a alegria, com o sensual. 

Nair Benedicto e a neta Helena, no Dia Internacional da Mulher, 2018, São Paulo, SP.

Wellington: Outra vertente do seu trabalho foi a cobertura de movimentos sociais e operários. Como você descobriu o que mais gosta de fotografar? 

NB: O caminho se faz ao caminhar. Mas tudo o que acontece ao ser humano me mobiliza. As tristezas, as alegrias. Pra mim é difícil fazer fotos sem pessoas. Hoje há toda uma discussão de direito de imagem e as pessoas também têm mais medo, antes eram mais receptivas. Pra mim o ser humano é espelho: tá acontecendo com ele, tá acontecendo comigo. Eu não sou fixada num assunto só, corro entre os assuntos. Também penso assim: não  preocupada em fazer “a” foto. Sempre acho que vai acontecer, com calma, não gosto de atropelar, gosto que as coisas aconteçam. Nessa quarentena também voltei a estudar e pensei: “gente, eu não sei nada!” Começa a dar um pouco de desespero (risos). 

Samária: Você fez fotos de greves dos metalúrgicos no ABC paulista entre o final dos anos de 1970 e início dos anos 1980 (1978-1981). O que lhe marcou desse período? 

NB: Essas greves aconteceram depois de anos e anos de ditadura e um silêncio enorme. Nunca me considerei fotojornalista, porque o fotojornalismo é em cima do acontecimento e eu sempre trabalhei mais o antes e o depois. Na hora que explode, se eu estou, estou; se não estou, não choro. Mas tenho uma documentação grande sobre as greves do ABC e muita coisa me marcou. Eu vi o surgimento de Lula, vi os políticos mais velhos indo até o ABC, querendo fazer a cabeça de Lula. Naquela época ele já demonstrava que sabia onde queria chegar. Vi o surgimento de uma pessoa que teve muita importância mais tarde: o Ricardo Kotscho, que foi meu colega na faculdade e cuidava da comunicação das greves. Quando hoje me falam “o que você espera que vá acontecer”, eu tenho uma crença absoluta de uma virada nesses tempos e acho que ela vai vir pelas mulheres, porque elas entendem rápido e transformam as coisas. Na primeira greve do ABC as mulheres ameaçavam os maridos dizendo “volta a trabalhar, vai faltar leite pras crianças”. Na segunda greve elas já ameaçavam: “se não entrar em greve, não entra em casa”. Quando saí da prisão, estava com uma responsabilidade enorme, precisando fazer alguma coisa. Então fomos fazer um jornal de bairro que ficava na divisa entre São Paulo e São Bernardo do Campo. Quando começaram as greves, todos os jornais – Estadão, Folha – diziam “Os operários estão há tantos dias em greve e não obtiveram aumento nem nada”. Ora, como se o período que você tivesse passando nas greves não deixasse nada. Então a gente cobria de um modo diferente, ouvindo grevistas, fazendo avaliações. Lula sempre estava lá, abraçando, sempre acreditando. A gente (jornalistas) ia pra porta das fábricas às 5 horas da manhã – era quando Lula e outros companheiros dele faziam as assembleias. A gente tomava café com ele, com Marisa, era uma coisa muito afetiva. O Lula ficava pedindo pros trabalhadores não entrarem na fábrica antes da assembleia terminar. Nós ficamos mais de 20 anos sem nos ver e nos reencontramos um pouco depois que ele saiu da prisão (refere-se à prisão decorrente do processo na Lava Jato) e pensei:  de cabelo branco, mais velha, tenho que explicar pra ele quem sou… E quando ele bateu o olho em mim: “Naiiiiir!”. Foi uma coisa deliciosa. 

A gente (jornalistas) ia pra porta das fábricas às 5 horas da manhã – era quando Lula e outros companheiros dele faziam as assembleias. A gente tomava café com ele, com Marisa.

Jacqueline: A fotografia é um texto extremamente político, como mostram suas fotos do ABC e outros registros. As imagens contam muito sobre um tempo histórico. Que fotografias poderiam representar o Brasil de hoje? 

NB: Nessa quarentena houve uma produção enorme de fotos, mas tem algumas que eu não consigo me livrar. Uma é a foto da morte de George Floyd, com o policial branco sufocando até matar o homem negro. Aquilo é de uma violência que você se pergunta: em que mundo estamos? Outra é uma imagem mais suave na aparência, mas tão dura quanto no conteúdo. São fotos de quando a elite paulistana resolveu ir à rua, com seus carros chiquérrimos, implorando para os pobres voltarem a trabalhar. A gente deveria mostrar aquelas fotos nas escolas, explicando que pra economia deslanchar a elite precisa desesperadamente do sacrifício do pobre. Entre as fotos das queimadas no Pantanal, eu destacaria a do Lalo de Almeida, com o corpo carbonizado de um macaco, que parece um homem tentando se erguer. Desse período há também fotos interessantes de Bolsonaro, Maia, sem máscara, mas me recuso a citar qualquer fotografia com a imagem desses caras, acho que eles não merecem. A gente tá nessa quarentena e sem perspectiva, a gente tá numa guerra, entendeu? Estamos num momento difícil, dá um desânimo, estou quase me motivando mais por texto que por fotos. Eu sinto muita falta de interlocução (faz pausa e dá um suspiro). 

Maurício: No seu percurso você agiu muitas vezes motivada pela necessidade de mostrar algo que considerou que precisava ser discutido. Em 1979 você lançou a Agência F/4 (primeira cooperativa de fotógrafos do Brasil, que fotografou grandes movimentos políticos e sociais dos anos 1970, como as greves do ABC). Para vocês, que necessidade havia, naquele período, de uma agência de fotojornalismo no Brasil? 

NB: Fazer nossas pautas, com o nosso olhar. A gente se baseou na Magnum (cooperativa de fotógrafos surgida na França, em 1947) e na Gamma (também surgida na França, em 1979). Essa necessidade sempre surge em momentos periclitantes. A Magnum surgiu logo após a Segunda Guerra Mundial e a Gamma ainda sob as influências do final dos anos 1960. Na F/4 a gente queria ter liberdade de pautar e não se preocupar “ah, não vão querer publicar”. Isso não importava, a gente ia fazer a foto que quisesse! Outra necessidade era ter a posse do original e começar a acostumar os clientes a pagar pela reutilização. Era um processo educativo, porque o Brasil tem sempre uma postura de colonizado. Quando as grandes agências estrangeiras vieram pra cá, foram saudadas com páginas na Veja, Istoé, jornais. Quando a F/4 surgiu, pau nela! Joga pedra na Geni – a gente era a Geni. Diziam que estávamos tirando emprego de fotógrafos ao cobrar pela reutilização de fotos. É tudo muito careta, atrasado. 

Tem gente que vai na favela um dia e já quer fazer uma exposição. Vai numa manifestação feminista uma vez e já quer fazer um “trabalho sobre a mulher”. Não dá, né?

Samária: Nesse momento, como você está lidando com o distanciamento social e o modelo remoto? 

NB: Fiz algumas lives pro Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro e outros espaços, mas depois comecei a refletir: as pessoas querem ocupar espaço de qualquer forma. Ocupar por ocupar é bobagem, é melhor ficar em casa dormindo ou vendo um filme. Antes de ocupar espaço para fora, é preciso que você ocupe o espaço para dentro de si: sobre o que você quer falar? Você tem condições de falar sobre isso? E também só me interessa se eu puder falar daquilo que tá me preocupando, tá movimentando a minha cabeça. Que a pessoa discorde ou concorde mas, de qualquer forma, eu lanço uma preocupação de alguém que tem uma experiência de vida. Esse monte de live, eu não vi um centésimo. Às vezes eu começo e falo: “nossa, eu não aguento ir até o fim com isso!” Nesse momento me interessa discutir esses políticos que estão no poder no Brasil, saber como vamos sair dessa. Eu vejo uma noticiazinha de quatro centímetros no jornal e, se tem o nome do Bolsonaro, já cheira mal. 

Jacqueline: O que você diria para os jovens que desejam trabalhar com a fotografia hoje? 

NB: Seja na fotografia, no fotojornalismo, no texto, na sua relação amorosa, com sua família, sem criatividade você tá lascado. E tem que se esforçar. Na minha experiência, nada me caiu de mão beijada. Aquela pessoa do MoMa que comprou minha foto fez isso porque, antes, eu fui várias vezes ao forró, fiz uma exposição lá dentro. Acho que a gente deve confiar que, com um trabalho bom, uma hora você ganha com ele. O problema é que tem gente que vai na favela um dia e já quer fazer uma exposição. Vai numa manifestação feminista uma vez e já quer fazer um “trabalho sobre a mulher”. Não dá, né? Pode até aparecer os gênios que consigam, mas acho que tudo depende de trabalho, obstinação, de você acreditar no que faz e acreditar que aquilo é importante. 

André: Supondo que a pandemia de Covid-19 acabe amanhã, que foto você teria vontade de fazer? 

NB: A foto eu não sei, mas eu vou querer beijar e abraçar todo mundo, de cara! Quero sair pela rua dançando, dar aquele abraço apertado, sentir que “tamo junto”, entendeu? É isso que eu quero. Agora, “pra amanhã” você está sendo muito otimista, né? (risos). 

Publicado na Revestrés#47 – Dezembro 2020-Janeiro de 2021.

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